3 de out de 2008

MACHADO DE ASSIS Gênio da Literatura

Machado de Assis

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                            por Pedro Luso de Carvalho

        
       Não são raros os autores de obras da História da Literatura, que, ao estudar Machado de Assis o colocam em capítulo especial, por constituir-se em nome à parte na literatura brasileira, como o fizeram, por exemplo, Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda, professores do Colégio Pedro II e membros da Academia Brasileira de Letras, no Roteiro Literário de Portugal e Brasil, escrito por ambos.
     
      Efetivamente, a importância dos romances, contos, crônicas e poesia (a sua poesia merecerá a seguir atenção especial), colocaram o escritor em patamar acima de escolas e grupos, e o seu nome passou a ser considerado como o melhor dentre os melhores, e quanto a isso não há voz discordante, sem dúvida - as obras-primas do escritor foram os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. Daí ser sua obra objeto de estudo nos cursos Universitários, em especial nas faculdades de Letras, tanto no Brasil como no exterior. Foi sócio fundador da academia Brasileira de Letras, e o seu primeiro presidente.

        Diga-se, nestas primeiras palavras, que o importante é a obra de Machado de Assis, já que, como diz Álvaro Lins: “A sua posição na vida ordinária foi das mais modestas. Biografia pobre e simples do ponto de vista pessoal. A sua história relevante é a história dos seus livros. De origem humilde, filho de um pintor de paredes e de uma ilhoa portuguesa, fez-se por si mesmo, na vida como nas letras, constituindo, entre nós, o resultado mais feliz do autodidatismo. Começou como tipógrafo, entrou depois para o jornalismo e ingressou por fim na burocracia, feito funcionário do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, onde exerceu o cargo de diretor de secretaria”.
     
        Ainda sobre a biografia de Machado, prossegue Álvaro Lins: “Casou com uma senhora portuguesa, D. Carolina de Novais, a quem tornou inesquecível graças a um soneto considerado como um dos mais puros e belos da língua. Deixou, aliás, vários livros de versos, entre os quais existem algumas peças realmente primorosas. Mas foi na prosa de ficção que nos legou a sua obra primeira. Atingiu no conto a perfeição de forma e concepção”.
         
         E conclui Álvaro Lins: “Os seus romances - a começar de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro que marca a maturidade do escritor – são grandes realizações, pelo pensamento e pelo estilo. Revelam profundo e desencantado conhecimento da vida e da natureza humana, perplexidade ante o destino da existência do homem, a significação deste no mundo. Profundidade, desencanto, experiência e perplexidade que se acusam através do ‘humour’. E foi Machado de Assis, no Brasil, quem melhor se exprimiu pelo ‘humour’, no sentido inglês desta palavra. Dele afirmou José Veríssimo que era ‘a mais eminente figura de nossa literatura’. E esta é a verdade histórica”.     
     
        No que diz respeito à sua obra poética, muitos críticos dizem que esta não corresponde a sua obra de ficção literária. Ronald de Carvalho, autor de a Pequena História da Literatura Brasileira, diz: “Vislumbra-se na poesia de Machado de Assis, igualmente, o mesmo cuidado de dicção e a mesma limpidez de estilo. Seus ritmos, porém são mais variados e caprichosos. Machado de Assis era poeta de maiores recursos e mais larga inventiva métrica do que Luiz Guimarães. Sua poesia, no que tem de mais característica, mostra uma intensidade psicológica poucas vezes atingidas aqui. (...) Ninguém melhor que ele, pelo menos com tanta agudez, ferira a nota do desconsolo e da miséria universal”.

        Ronald de Carvalho segue falando sobre a poesia de Machado de Assis, abordando os recursos técnicos por ele empregado, como o de ter rompido com os preconceitos do soneto ortodoxo e das regras impostas por Boileau, que resultaram no soneto-paradígma, não deixando de falar que dera liberdade ao ritmo etc. Diz, ainda: “Pode ser tomado o Soneto de Natal como padrão da sua arte, cuja primacial virtude era um ‘humorismo’ discreto e velado, mas cheio de penetrante melancolia, que, de improviso, assalta o coração distraído”.
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        No prisma da sua crítica sobre a poesia de Machado, prossegue Ronald de Carvalho: “Esse sentimento do ‘trágico quotidiano’, que, só agora, começa a entrar na poesia brasileira, foi Machado de Assis quem primeiro o revelou em nossa literatura. Embora não seja freqüentes nem muitas na sua obra de tal quilate, não é menos verdade que, antes dele, eram completamente desconhecidas. (...) O Soneto de Natal tem todo o sabor da arte moderna, não só na sua expressão literária, mas, por igual, nas intenções que o poeta deixou transparecer”.

        Ronald de Carvalho fala do pioneirismo de Machado na poesia e acusa aos que não lhe fizeram justiça e não a compreenderam; no seu sentir compreensível, já que os poetas contemporâneos seus encontravam-se no extremo oposto do realismo, qual seja, o prosaísmo, com seu lirismo despiciendo, falso e barulhento, com suas imprecações insinceras, postiças e desgraciosas.

        Por essas razões, afirma o crítico: “Ainda, na poesia, na sua poesia tão injustamente julgada, tão mesquinhamente compreendida, Machado de Assis é um pioneiro, um orientador de primeiro plano. Era natural que sua arte desagradasse ao paladar comum: não estouravam nela bombardas e as ronqueiras dos mais aplaudidos fabricantes de poesia no Brasil”.


                    SONETO DE NATAL
                                    (Machado de Assis)

                Um homem, - era aquela noite amiga,
                Noite cristã, berço do Nazareno, -
                Ao relembrar os dias de pequeno,
                E a viva dança, e a lépida cantiga.

       
               Quis transportar ao verso doce e ameno
               As sensações da sua idade antiga,
               Naquela mesma velha noite amiga,
                Noite cristã, berço do Nazareno.
        

               Escolheu o soneto...  A folha branca
               Pede-lhe a inspiração;  mas, frouxa e manca,
               A pena não acode ao gesto seu.

               E, em vão lutando contra o metro adverso,
               Só lhe saiu este pequeno verso:
               “Mudaria o Natal ou mudei eu?”


       
        Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, onde faleceu, no dia 29 de setembro de 1908. Seu sepultamento deu-se no Cemitério São João Batista, com grandes homenagens, oficial e pública.
         
        Obras de Machado de Assis: Desencantos - fantasia dramática (1861); Teatro: O Protocolo e O Caminho da Porta (1863); Crisálidas - poesias (1864); Quase Ministro – comédia (1864); Falenas – poesias (1870); Contos Fluminenses (1870); Ressurreição - romance (1872); Histórias da Meia-Noite (1873); A Mão e a Luva - romance (1874); Americanas – poesias (1875); Helena - romance (1876); Iaiá Garcia - romance (1878); Memórias Póstumas de Brás Cubas - romance (1881); Tú Só Tu, Puro Amor... – comédia (1881); Papéis Avulsos - contos (1882); Histórias sem Datas (1884); Páginas Recolhidas (1889); Quincas Borba - romance (1891); Várias Histórias (1896); Dom Casmurro - romance (1899); Poesias Completas (1901); Esaú e Jacó – romance (1904); Relíquias de Casa Velha (1906); Memorial de Aires – romance (1908); A Semana - 3 vols., (1938)”.




REFERÊNCIAS:
BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio e LINS, Álvaro. 'Roteiro Literário de Portugal e do Brasil'. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, vol. II, 1966.
CARVALHO, Ronald de. 9ª ed. 'Pequena História da Literatura Brasileira'. Rio de Janeiro: F. Briguiet Editores, 1953.



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