21 de jul de 2016

REO M. CHRISTONSON – Capitalismo Democrático



PEDRO LUSO DE CARVALHO

O norte-americano Reo Millard Christonson, professor de Ciência Política da Universidade de Oxford, Ohio (Miami University), escreveu, com seus colaboradores Alan S. Engel, Dan N. Jacobs, Mostafa Rejai e Herbert Waltzer, todos dessa instituição, o livro Ideologia & Política Moderna, em 1971 (publicada no Brasil em 1974), obra que não perdeu a sua importância e atualidade. Cada um de seus autores escolheu uma determinada área, de acordo com sua experiência especialização.
Desse livro, escolhemos para este trabalho o Capítulo 7, denominado O Capitalismo Democrático, escrito pelo professor Reo M. Christonson, no qual relata que, com a desintegração do feudalismo a sociedade viu-se na emergência de preparar-se para uma ideologia democrática, para uma sociedade urbanizada e industrializada. Diz o autor: “Contudo, interpretações diferentes das compatibilidades de vários sistemas econômicos com a idéia democrática – e com noções gerais de justiça – levaram a subideologias de grande importância. Duas delas capitalismo democrático e socialismo democrático (...).”
O capitalismo, diz Reo M. Christonson se refere “basicamente a um sistema econômico e não político; o termo estabeleceu-se com uma série de ideias políticas que suplementam e reforçam o sistema”. Esclarece o autor que existem tantas definições de ‘capitalismo’ quantos são os autores que escreveram sobre o assunto. Em razão desse número de definições, Christonson aconselha a ater-se à definição do The New Internacional Dictionary, de Webster: “... é um sistema econômico caracterizado pela propriedade privada, de pessoa física ou jurídica, dos bens de capital, por investimentos determinados por decisão privada e não pelo controle estatal, e por preços, produção e distribuição de bens determinados principalmente pelo mercado livre”.
Após ter mencionado Webster sobre o conceito de capitalismo, Christonson chama a nossa atenção para a palavra inserida, como diz, com muita propriedade pelos lexicógrafos, qual seja, o vocábulo “principalmente”, na última frase, uma vez que todos os sistemas capitalistas têm alguma propriedade pública e algum investimento feito por decisões públicas e não privadas.
No subtítulo do Capítulo 7, O Credo Econômico, Christonson destaca os aspectos centrais do sistema capitalista, na sua forma clássica: “...são o predomínio da propriedade privada; a dinâmica do motivo de lucro; a existência de mercado livre; a presença de competição”. O autor ressalta, mais adiante: “Impelidos e disciplinados pelas leis da oferta e procura, homens reajustam perpetuamente seus esforços econômicos a fim de dar a contribuição que proporcione o máximo de recompensa pessoais e simultaneamente satisfaça as necessidades de outros”.
Para encerrar esse subtítulo, Credo Econômico, o Prof. Christonson traz o ensinamento do célebre economista John Kenneth Galbrait, na época titular da cátedra de Economia da Harvard University: “Existe algo de admiravelmente libertário e democrático nesse processo. Não é difícil compreender por que, entre os devotos, o mercado, não menos que o Cristianismo e o Zen Budismo, desperta tão formidável sentimento espiritual”.
Depois de ter falado sobre o Credo Econômico, Christonson passa a abordar o segundo subtítulo do Capítulo 7, O Credo Político; diz o escritor: “Capitalismo como se observou anteriormente, é um sistema econômico, não político. Contudo, com o desenvolvimento do capitalismo surgiu um corpo sustentador de ideias políticas”. Christonson passa a demonstrar os três conceitos que acompanharam o crescimento do capitalismo:
O primeiro - diz Christonson – de que havia a presunção de que a propriedade privada não devia ser regulada, pois é o meio pelo qual o indivíduo promove o bem-estar econômico tanto seu próprio como de sua sociedade”. Christonson conclui esse primeiro conceito: “Abusos surgirão temporariamente no sistema capitalista, mas como o mercado tem os seus próprios e sutis meios de corrigir os erros, o governo deve conter seus bem-intencionados impulsos (...) Segundo este conceito, o papel do governo reduziu-se às dimensões tradicionais de manter lei e ordem, garantir a santidade do contrato (de particular importância para o capitalismo), proporcionar proteção contra ameaças externas, regular a moeda e arrecadar impostos”.
Quanto ao segundo conceito, Reo M. Christonson expõe: “... a descentralização de poder econômico era considerada como a melhor defesa contra seu abuso”. Completa o autor: “Sob o capitalismo, nenhum indivíduo pode explorar o consumidor ou seus empregados por muito tempo”. Esclarece a seguir, que se não for atendido tal preceito, os empregados podem procurar outro trabalho se, onde trabalham, preços e salários forem injustos. Aduz o autor: “E como o governo não controla os meios de produção, não pode forçar prontamente homens a submeterem-se à injustiça pelo recurso à pressão econômica. Quando nenhuma pessoa ou instituição possui grande poder econômico, ficam muito diminuídas as possibilidades e opressão publica ou privada”.
Por fim, o terceiro conceito, como diz Christonson: “[...] a desigualdade de riqueza era considerada um estado de coisa normal e desejável. É a inspiração por desigualdade e sua realização que permite ao sistema funcionar e lhe dá vitalidade. Riqueza naturalmente gravita em direção àqueles que servem melhor às necessidades da sociedade, e pobreza torna-se o justo destino daqueles que pouco contribuem. As recompensas são assim distribuídas de acordo com uma espécie de sistema natural de justiça”. Christonson conclui dizendo que se acreditava que o sistema de mercado era a maneira mais democrática e organizar uma ordem econômica.

REFERÊNCIA:
CHRISTENSON, Reo M. Ideologias & Política Moderna. São Paulo: Editora Ibrasa, 1974.


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1 de jul de 2016

[Ensaio] PEDRO LUSO – Sobre Amizade


     – PEDRO LUSO DE CARVALHO
Desde minha infância ouço pessoas dizerem, aqui e ali, que mais vale um amigo que mil parentes. Por outro lado, tenho ouvido, de uma ou de outra pessoa, a afirmação da existência de amizade entre pais e filhos; pouco ouvi, no entanto, falarem sobre a amizade entre irmãos, como coisa comum. Por esse enunciado, fica-se sabendo que o tema do qual trataremos é sobre a amizade, entre: a) pessoas sem vínculo de parentesco; b) pais e filhos; c) irmãos.
Os nossos primeiros amigos são formados na infância, e, de muitos deles, só nos separamos com a distância ou com a morte. Nessa fase da vida formamos amigos para com eles compartilharmos as brincadeiras próprias da idade, as disputas saudáveis nos esportes etc. Também na adolescência sentimos a necessidade de amigos para contarmos nossas aventuras amorosas, para termos dos amigos a confirmação ou não, de estarmos agindo da maneira certa, como, por exemplo, nas tentativas de aproximação de quem pretendemos namorar, ou apenas ‘ficar’, como se diz modernamente. Também o adolescente – homem ou mulher – necessita de amigos para falar de suas aspirações e de seus projetos; de seus amores e de suas decepções amorosas. Passadas essas duas fases – infância e adolescência –, tornam-se pessoas adultas, com família constituída ou não, com profissão para dedicar-se, sobrecarregada de compromissos, os amigos parecem ser ainda imprescindíveis, tanto que ali estão eles, os amigos formados na idade adulta, ou aqueles vindos da infância ou da adolescência.
O escritor Carlos Fuentes diz em seu livro Este é meu credo, no ensaio que faz sobre amizade:
Aquilo que não temos, encontramos no amigo. Acredito nesse benefício e o cultivo desde a infância. Nisso, não sou diferente da maioria dos seres humanos. A amizade é o grande elo inicial entre o lar e o mundo. O lar feliz ou infeliz é a aula de nossa sabedoria original, mas a amizade é a sua prova. O que recebemos da família, confirmamos na amizade. As variações, discrepâncias ou semelhanças entre a família e os amigos determinam as rotas contraditórias de nossa vida. Embora amemos nosso lar, todos passamos pelo momento inquieto ou instável do abandono (embora o amemos, embora nele permaneçamos). O abandono do lar só tem a recompensa da amizade. Mais ainda: sem a amizade externa, a morada interna desmoronaria. A amizade não disputa com a família os inícios da vida: ela os confirma, garante e prolonga. A amizade abre caminho aos sentimentos que só podem crescer fora do lar. Encerrados na casa da família, murchariam como flores sem água. Aberta as portas da casa, descobrimos formas de amor que irmanam o lar e o mundo. Essa formas se chamam amizades.
Carlos Fuentes diz que “a amizade não disputa com a família os inícios da vida: ela os confirma, garante e prolonga”. O escritor acrescenta que a “amizade abre caminho aos sentimentos que só podem crescer fora do lar”. Daí não se poder dizer que possa existir amizade entre pais e filhos, como ocorre com pessoas sem esse vínculo de sangue, que conhecemos fora do lar. Michel de Montaigne, filósofo francês, da predileção de Jean-Paul Sartre, num dos capítulos dos seus Ensaios, fala sobre o tema, com o título: Da amizade. Diz Montaigne:
Nas relações entre pais e filhos é mais o respeito que domina. A amizade nutre-se de comunicação, a qual não pode estabelecer-se nesse domínio em virtude da grande diferença que entre eles existe, de todos os pontos de vista; a esse intercâmbio de ideias e emoções poderia por vezes chocar os deveres recíprocos que a natureza lhes impôs, pois se todos os pensamentos íntimos dos pais se comunicassem aos filhos, ocorreria entre eles familiaridades inconvenientes. Mais ainda: não podem os filhos dar conselhos ou formular censuras a seus pais, o que é, entretanto, uma das primeiras obrigações da amizade.
No tocante à amizade entre irmãos a situação é semelhante à dos pais, com algumas variantes; não pelo respeito que domina nesse caso a relação entre pai e filho, ou por sentimentos nobres; ao contrário, sentimentos vis, muitas vezes, como é o caso da inveja, que, sendo desmedida, logo se têm como coadjuvante o ódio e, como consequência, a traição com as suas formas mais sórdidas; e, como o ódio do qual essas pessoas ficam impregnadas, logo se vê a prática de injustiças contra o irmão; atos que demonstram não só a discórdia, mas também um sentimento de destruição do outro, embora nem sempre consciente; sente-se isso quando se vê irmãos invejosos colocarem barreiras no relacionamento entre o irmão e seus pais, quando querem alijá-lo da família, cuja explicação seria óbvia e fácil para a psicologia.
Trazemos novamente o ensinamento de Michel de Montaigne, agora a respeito da relação entre irmãos:
É, em verdade, um belo nome e digno da maior afeição o nome de irmão; e por isso La Boétie e eu o empregamos quando nos tornamos amigos; mas na realidade, a comunidade de interesses, a partilha de bens, a pobreza de um como consequência da riqueza de outro, destemperam consideravelmente a união formal. Em devendo os irmãos, para vencer neste mundo, seguir o mesmo caminho, andar com passo igual, inevitável se torna que se choquem amiúde. Mais ainda: é a correspondência dos gostos que engendra essas verdadeiras e perfeitas amizades e não há razão para que ela se verifique entre pai e filho, ou entre irmãos, os quais podem ter gostos totalmente diferentes.
Voltemos ao tema, qual seja, a amizade – tema que não inclui pais, filhos e tampouco irmãos – com este trecho de Carlos Fuentes, in Este é meu credo, como segue:
Que sempre falta descobrir mais do que já existe. Que a amizade se colhe porque se cultiva. Que ninguém faz amigos sem fazer inimigos, mas que inimigo algum jamais alcançará a altura de um amigo. Que a amizade é uma forma de discrição: não admite a maledicência que maldiz àquela que a diz, nem a fofoca que transforma tudo em lixo. Amizade é confiança. (É mais vergonhoso desconfiar dos amigos do que enganá-los, escreveu La Rochefoucauld.) Que a amizade, para ser próxima, mostra-nos o caminho do respeito e da distância, embora a amizade permita amar e detestar as mesmas coisas.
Vejamos a lição que Carlos Fuentes aprendeu com seu dileto amigo, um dos gênios do cinema, o mexicano Luis Buñuel:
Digo ‘naturalidade passiva’ e me ocorre que, sendo o diálogo uma das celebrações da amizade, o silêncio também pode sê-lo. É um ensinamento de minha amizade com Luis Buñuel. A princípio, pensei que suas lacunas durante uma conversa geralmente muito animada fossem falha minha, e uma censura da parte dele. Aprendi que saber estar juntos sem dizer nada era uma forma superior de amizade. Era respeito. Era reverência. Era reflexão, oposta ao simples tagarelar. Não somos, instantaneamente, conversadores. Seremos, instantaneamente, filósofos... Não eram estoicos Sêneca e Manolete, ambos de Córdoba?
Embora alguns pais, orgulhosos de seus filhos, afirmem que eles são seus amigos, as lições de Fuentes e de Montaigne dizem o contrário: amigos se fazem fora do lar – os pais não serão amigos dos filhos. As amizades formam-se na escola, nos clubes, nas festas, sem a presença de quaisquer sentimentos de autoridade – autoridade que os pais usam para formar seus filhos para o mundo. O certo é que filhos criados com esmero e responsabilidade, provavelmente farão bons amigos ao longo de suas vidas.


REFERÊNCIAS:
FUENTES, Carlos. Este é meu credo. Tradução de Ebréia de Castro Alves. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2002.
MONTAIGNE, Michel. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. Porto Alegre: Editora Globo, 1961.



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18 de jun de 2016

MÁRIO VARGAS LLOSA – Conversas sobre Literatura



                – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1982, a Editora Nova Fronteira lançou a 3ª edição de Os chefes, o primeiro livro de Mário Vargas Llosa, e que, por coincidência, foi o primeiro livro que li desse escritor. O conto Os chefes, que dá título ao livro, é um dos seis contos que compõem a obra, e mais a novela Os filhotes. A primeira edição desse livro deu-se em Lima, Peru, na segunda metade dos anos 50, quando o escritor contava com apenas 22 anos. Em 1958 Vargas Llosa recebeu o importante prêmio Leopoldo Alas, como o melhor livro do ano de seu país.
Depois de Os chefes, o entusiasmo pela literatura de Vargas Llosa levou-me a ler outras obras suas, as quais destaco, independentemente das datas de suas edições, e de minhas leituras: Conversa na Catedral, Pantaleão e as visitadoras, Tia Julia e o escrevinhador, História de Mayta, e, por último, Quem matou Palomino Molero. Atualmente, estou lendo o seu livro de ensaios literários, A verdade das mentiras, da editora ARX, 2ª edição, 2004. Na primeira edição, em 1999, o livro continha vinte e seis ensaios, e passou para trinta e seis ensaios na 2ª edição (2004).
Sobre Vargas Llosa, li também a entrevista que concedeu à Revista Playboy, feita por Ricardo A. Setti, em 1986, e que depois se transformou em livro, com edição pela Editora Brasiliense, com o título Conversas com Vargas Llosa. Antes de iniciar essa entrevista, que foi feita durante três dias - até então a mais longa que concedera, segundo sua afirmação ao entrevistador -, Setti faz um prefácio com o título Pequena história do entrevistado e da entrevista, do qual extraímos apenas algumas passagens: "Ele tem com seu país, o Peru, uma relação especialíssima – mais adúltera que conjugal, cheia de suspeita, paixão e fúria, como ele próprio define”.
Ainda no prefácio, Setti fala um pouco mais sobre o escritor: “nascido em 1936, em Arequipa, no sul do Peru, Vargas Llosa viveu na Bolívia até os oito anos de idade; só conheceu o próprio pai aos dez anos de idade, quando seus pais, separados, se reconciliaram. Filho único de uma família de classe média com ramificações pela elite peruana – seu avô materno era primo-irmão de um presidente da República, ele estudou num colégio militar (experiência marcante a ponto de lhe inspirar o primeiro romance, Batismo de fogo) antes de seguir o caminho tradicional da Faculdade de Direito na antiqüíssima Universidade de San Marcos, onde se formou numa profissão que nunca exerceria”.
Antes de transcrevermos as duas primeiras respostas de Vargas Llosa, na referida entrevista, digo da minha intenção de continuar com Conversas com Vargas Llosa, em postagens futuras, intercalando-as com outros trabalhos. Antes, porém, da sua primeira resposta à pergunta do entrevistador, lembro de outras obras de ficção do escritor, além das que nos referimos acima: O batismo de fogo, A orgia perpétua, A senhorita de Tacna, A guerra do fim do mundo e Contra o vento e maré. (É possível que não tenha mencionado todos.)
Ricardo A. Setti disse, a Vargas Llosa, ser ele um escritor famoso e que naturalmente os seus leitores no Brasil sabem o que ele escreveu e como escreve. Depois, perguntou ao escritor quais são as suas leituras, e esta foi a sua resposta: “Olha, comigo acontece desde já alguns anos uma coisa curiosa. Eu me dei conta de que leio cada vez menos os escritores vivos, e cada vez mais os mortos. Leio muito mais escritores do século XIX do que do século XX. Talvez nos últimos anos, além disso, eu esteja lendo menos literatura do que ensaístas e historiadores. Não sei bem porque. Bem, em alguns casos por razão de trabalho, mas também me ocorre uma coisa: quando se tem 15 ou 18 anos de idade, existe a impressão de que se dispõe de todo o tempo do mundo. Quando temos 50 anos, nós nos damos conta de que não dispomos de todo o tempo, e de que temos que ser muito seletivos. Talvez pó isso eu leia menos meus contemporâneos”.
Por hoje, ficaremos com a segunda resposta de Vargas Llosa à pergunta de Setti, qual seja, de quem ele gosta, dos contemporâneos, vivos ou já mortos, que lê: “Quando jovem, um autor que eu seguia de maneira sistemática era Sartre. Entre os romancistas americanos, li, sobretudo os da geração perdida – Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos -, principalmente Faulkner. Ele é um dos poucos autores de minhas leituras de juventude que ainda se conservam vivos para mim. Nunca me senti decepcionado ao reler Faulkner, como ocorreu por vezes com Hemingway, por exemplo. Sartre é um escritor que eu não releria hoje – diante de tudo o mais que li, acho que sua obra de ficção envelheceu e se empobreceu tremendamente, e sua obra de ensaísta, que me pareceu sempre muito inteligente, considero hoje muito menos importante, com muitas contradições, equívocos, inexatidões e falácias. Isso nunca aconteceu, para mim, com Faulkner. Jamais”.

REFERÊNCIA: SETTI, Ricardo A.Conversas com Vargas Llosa. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.



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3 de jun de 2016

[Conto] NELSON RODRIGUES – Reação



PEDRO LUSO DE CARVALHO

Nelson Rodrigues foi um importante dramaturgo. Basta ler algumas de suas obras para não termos dúvida disso. São elas, Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
O dramaturgo foi um homem extremamente crítico. Seus alvos eram os pequenos-burgueses, como eram chamadas as pessoas de posses. Então tirava a máscara dessas pessoas hipócritas e preconceituosas. Para elas, Nelson Rodrigues foi implacável ,com o seu senso crítico.
Nelson Rodrigues nasceu a 23 de agosto de 1912, em Recife, e morreu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Escolhemos para esta postagem o conto Reação, de Nelson Rodrigues, um dos contos que compõem o livro A vida como ela é... (in A vida como ela é... / Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro, Agir, 2006, p. 212-213), que segue, na íntegra:


REAÇÃO
NELSON RODRIGUES


Foi pontualíssima. Entrou no apartamento do marido e olhava para tudo, com uma divertida curiosidade. Virou-se para o Freitas que, ao lado, taciturno, esperava. Deixou a bolsa em cima de uma mesinha; perguntava: “Quer dizer que é aqui?” Suspira deliciada; e quer beijá-lo. Freitas, porém, a empurra, brutalmente. A moça faz espanto. “Que é isso?” Então acontece o seguinte: o rapaz corre, abre a porta; trinca os dentes:
Rua, ouviu? Rua! Tenho nojo de ti, só nojo! – e repetia, numa alucinação:
Cínica! Cínica!
Ela passou por ele sem olhá-lo, de cabeça baixa. Fugiu, apavorada, pelo corredor. Dois ou três dias depois, o Freitas era visto , de braço, com a antiga namorada do dente de ouro, residente também no Jacaré.


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30 de mai de 2016

ALBERT SCHWEITZER - Estudos sobre Goethe


– PEDRO LUSO DE CARVALHO

ALBERT SCHWEITZER foi músico e profundo conhecedor da obra de Bach, e um dos seus melhores intérpretes; ganhou notoriedade pela sua dedicação na construção de órgãos. Formou-se em Medicina, Filosofia e Teologia na Universidade de Straburgo; em 1901 foi nomeado docente nessa mesma Universidade.
Recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1953, como reconhecimento de sua atividade como médico na África Equatorial Francesa, onde, em 1913, construiu um hospital na localidade de Lambaréné, Gabão; aí, passou parte de sua vida dedicada ao tratamento de doenças tropicais, no afã de minorar o sofrimento do povo africano. Retornava a Europa apenas para angariar fundos para a manutenção de seu hospital, realizando concertos de órgão e conferências públicas.
Schweitzer foi fortemente influenciado por duas importantes personalidades da cultura universal, quais sejam, Jean Sebastian Bach e Johann Wolfgang von Goethe. Inspirado em Bach, escreveu, no ano de 1904, em francês, JEAN SEBASTIAN BACH, Lê Musicien Poète; Goethe, por sua vez, inspirou-lhe os estudos sobre o poeta através de GOETHE, Quatro Discursos (Goethe, Vier Reden von Albert Schweitzer), publicado em Munique, Alemanha em 1950. No Brasil, a obra foi publicada em 1960 pela Edições Melhoramentos.
Essa editora publicou, além de Goethe, Quatro Discursos, outras obras de Albert Schweitzer: Minha Infância e Mocidade, Histórias Africanas, Entre a Água e a Selva, Albert Schweitzer – Uma vida Exemplar, Minha Vida e Minhas Ideias, Decadência e Regeneração da Cultura e Cultura e Ética.
Aqui abro (e fecho) um parêntesis neste texto para dizer que Albert Schweitzer era irmão de Charles Schweitzer, professor de língua alemã e tio-avô de Jean-Paul Sartre; Charles Schweitzer foi o responsável pela educação do neto famoso. Na obra As Palavras (Les Mots) de Jean-Paul Sartre, publicada no Brasil pela Editora Nova Fronteira, pode-se saber muito mais dessa descendência dos Schweitzer, além de fatos importantes sobre a sua formação.
Continuo com a fala sobre Albert Schweitzer e dos seus quatro discursos sobre GOETHE, pronunciados em épocas diferentes de sua vida e depois reunidos em livro. Neles o autor faz referência ao pensamento e à personalidade do poeta-cientista, seu guia espiritual. O Primeiro Discurso foi pronunciado no ato da entrega da “Medalha-Goethe”, em Frankfurt an Main, em 28 de agosto de 1928; o Segundo Discurso foi proferido nas solenidades do centenário da morte de Goethe, em sua cidade natal, Frankfurt an Main, em 22 de março de 1932; o Terceiro Discurso, foi pronunciado na cidade de Ulm, em julho de 1932, com o título: Goethe – Como Pensador e Como Pessoa; o Quarto Discurso, Goethe, O Homem e a Obra, foi proferido em Aspen (Colorado – E.U.A.), em 8 de julho de 19149.
Desses discursos de Albert Schweitzer sobre o escritor que, com Schiller foi uma das figuras centrais do movimento literário alemão, Johann Wolfgang von Goethe, também cientista e filósofo, autor de Werther e Fausto, destaco trechos do seu Quarto Discurso, O Homem e a Obra:
“Goethe, O Poeta. Em que consiste o singular atrativo de suas produções? Vejamos primeiramente o que diz respeito à linguagem. Goethe é um vidente. Fala através de símbolos, o que desde sua juventude reconhecia como peculiaridade sua. Possui o segredo de saber pintar com idéias. Vemos o que ele vê e quer que vejamos com ele.
Outra peculiaridade sua é não jogar com o patético de uma linguagem poética que possa fascinar com a ressonância dos vocábulos, de adjetivos impressionistas, mas o de expressar-se com toda a singeleza do falar comum, ao que sabe infundir extraordinária força de elocução. Comumente o ritmo de suas frases não coincide com o ritmo do verso. Fica como em atitude de expectativa em face destes. Há, nesse particular, há uma certa semelhança entre ele e Bach.
Sim, em Bach a composição é feita de modo tal que os temas não se ajustam ao ritmo nem ao embalo da cadência, tomando direção própria. Em Goethe o valor intrínseco da frase tem como conseqüência lógica a medida métrica dos versos, parecendo que estes são uma espécie de prosa de alta categoria, o que lhes confere soberba naturalidade e distinção.
Goethe, O Pensador. Qual a sua concepção do mundo? Qual a sua visão da vida? A que filosofia pertence? Goethe conhece as obras da filosofia sua contemporânea, como aliás é muito lido na filosofia em geral. Toma por obrigação estudar Kant, senta-se aos pés de Schiller, intérprete do filósofo, e deixa-se catequizar.
Goethe conhece pessoalmente a Fichte, Schelling e Hegel. Todos os três foram por ele chamados a exercer a cátedra na Universidade de Iena (Goethe foi Ministro-Presidente do Conselho de Estado, do Ducado de Weimar).
Fichte lecionou ali de 1794 a 1799, Schelling de 1798 a 1803 e Hegel de 1802 a 1807. Goethe, como podemos verificar de notas de seus Diários, assiste à explanação de Schelling e procura encontrar satisfação na pseudofilosofia natural do filósofo que menospreza a pesquisa empírica da natureza.
Afinal, ele mesmo se convence de que nem a Teoria do Conhecimento, de Kant, nem os sistemas filosóficos de Fichte, de Schelling ou de Hegel podem realmente oferecer-lhe algo. O pensamento deles pertence a um outro mundo que não o seu, porque procura aproximar-se da natureza, ao passo que o seu tem nela o seu ponto de partida.
‘Pelo meu próprio esforço sempre me vi livre da filosofia - escreveu Goethe certa vez – a maneira de as inteligências sadias verem as coisas coincidia sempre com o meu modo de ver’. Essa opinião poderia ser assim completada: já se gastou tempo bastante com a crítica da razão (Vernunft; preferiria uma crítica do entendimento humano (Verstand)”.
Johann Wolfgang von Goethe nasceu em Frankfurt an Main, no dia 28 de agosto de 1749 e falaceu em Weimar, Alemanha, em 22 de março de 1832.
Albert Schweitzer nasceu em 14 de janeiro de 1875, em Kaysersberg, na na Alsácia, que, na época, pertencia Império alemão, e faleceu em 4 de setembro de 1965, em Lambaréné, Gabão, África.


REFERÊNCIAS:
SCHWEITZER, Albert. Goethe. Quatro Discursos. Trad. de Pedro de Almeida Moura. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1960.
SCHWEITZER, Albert. Decadência e Regeneração da Cultura. 5ª ed. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1964.Sartre, Jean-Paul. As Palavras. 6ª ed. Rio de Janeiro:, Ed. Nova Fronteira, 1984.

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22 de mai de 2016

COELHO NETO – A Vastidão do Caminho Percorrido



      por Pedro Luso de Carvalho


 No dia 21 de fevereiro de 1934, o escritor Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras, escreve uma crônica com o título: “O aniversário de Coelho Neto”, que, nessa data, completava setenta anos, na qual diz que Henrique Coelho Neto é o maior escritor do Brasil, e que “Pelo bico de sua pena saiu um mundo para o mundo”.

 Humberto de Campos faz, em sua crônica, um apanhado da produção de Coelho Neto: mais de cem volumes de crônicas, de romances, de conferências, de contos, de dramas, de comédias, de ensinamentos cívicos, de discursos políticos e literários.; tudo isso realizado em menos de meio século. Diz Campos, que, nessa altura da vida, “o assombroso trabalhador se detém e estende os olhos cansados pela vastidão do caminho percorrido”. Coelho Neto morreu justamente em 1934, ano em que Humberto de Campos comemora, com sua crônica, os setenta anos de vida do escritor. Coelho Neto falece no dia 21 de fevereiro.

Humberto de Campos não deixaria de passar em branco o dia da morte de Coelho Neto, e escreve outra crônica, esta com este título: “Coelho Neto”. Diz Campos, nessa crônica: “Dorme, desde ontem ao meio- dia, no seio da terra, o meu querido Coelho Neto. E eu escrevo isto de olhos enxutos. Há muitas semanas esperava a notícia terrível, do desenlace fatal. E, ao recebê-la, chorei. Os soluços vieram-me à garganta, e explodiram. Sobreveio, porém, a reflexão. A morte, comparada àquele resto de vida, era um bem, uma esmola de Deus. E recolhi-me a pensar nele, a recordar a nossa estima de vinte e dois anos, e que, durante esse período, não foi toldada jamais por uma suspeita, não sofreu, nunca, um esmorecimento”.

Coelho Neto foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em 1926, passou a presidir a A.B.L. Foi eleito por seus contemporâneos “Principe dos prosadores brasileiros”.

 Diz Sergius Gonzaga, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em sua importante obra, Curso de Literatura Brasileira, 2004, que: “COELHO NETO (1864-1934) é o representante das correntes mais acadêmicas e tradicionais da época, tendo recebido o título de príncipe dos prosadores brasileiros em função do estilo pomposo e solene. Deixou uma obra vastíssima, sendo O turbilhão (1906) e Rei negro ( 1914) seus romances mais apreciados. A prolixidade e o gosto pelo exagero verbal terminaram por obscurecer eventuais méritos de sua ficção”.

Vejamos, agora, mais alguns julgamentos, tanto de críticos literários como de importantes escritores, sobre a obra deixada pelo Príncipe dos prosadores brasileiros:

Machado de Assis: “É dos nossos primeiros romancistas, e, geralmente falando, dos nossos primeiros escritores”. (A Semana, ed. Jackson, vol. II, pág. 415.)

João Ribeiro: “Tenho para mim que Machado de Assis e Coelho Neto são os dois novelistas mais perfeito da nossa literatura”. (O Imparcial, 25/2/1913.)

Humberto de Campos: “O Sr. Coelho Neto não é, em verdade, apenas um escritor: é uma literatura”. (Crítica, 1ª série, pg. 85.)

Rui Barbosa: “Um dos mais consagrados representantes da nossa cultura”. (Carta a Coelho Neto, em 18/11918.)

Martins Fontes: “O maior dos romancistas do Brasil em todos os tempos, o autor de cento e dezoito livros vazados no ouro camoniano”. (Terras da fantasia.)

Luís Murat: “Eu admiro esse trabalhador indefesso e, pondo de parte a íntima amizade que nos une, tenho-o como o nosso primeiro romancista”. (Diário de Notícias, 11/8/1899.)

Júlio Dantas: “Foi um dos mais assombrosos gênios verbais de que se orgulhou, em todos os tempos, a língua portuguesa”. (Discurso na Academia Brasileira de Letras, em 9/8/1941.)

João do Rio: “Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra: o homem que joga com maior número de palavras”. (O Momento Literário.)

Péricles de Morais: “O maior escritor brasileiro de todos os tempos” (Carta a Paulo Coelho Neto, em 27/11/1941.)

Nestor Vítor: “Não conheço na literatura brasileira outro que lhe seja superior na faculdade de expressão”. (A Crítica de Ontem.)

João Neves da Fontoura: “Discutido, louvado e agredido, ele se fez o mestre da primeira leva de homens de letra da República, que lhe deferiu, como um paradoxo do regime, o principado dos prosadores nacionais”. (Elogio de Coelho Neto.)

Augusto de Lima: “Nenhum outro escritor nacional, poeta ou prosador, romancista, teatrólogo ou ensaísta de qualquer gênero logrou a irradiação literária do seu nome no estrangeiro”. (Discurso no Instituto Nacional de Música, 21/6/1928.)

Phileas Lebesgue: “Possui ele a graça na fantasia, a exatidão na abundância e as suas descrições só pode comparar-se às de Ramayana, pela riqueza luxuriante da cor e da vida que as banha”. (Mercure de France.)

Sílvio Romero: “Mont'Alverne, Sales Tôrres Homem, Justiniano da Rocha, Gonçalves Dias, João Francisco Lisboa, José de Alencar, Quintino Bocaiúva, Machado de Assis, Tobias Barreto, Ferreira de Araújo, Joaquim Nabuco, Carlos de Laet, José do Patrocínio, Raul Pompéia, e Coelho Neto. São os nomes dos dezesseis laureados do estilo em nossa terra. Como se está a ver, estão aí em ordem cronológica e enchem o século, a começar em Frei Francisco de Mont'Alverne, o mais fraco em fulgores de forma, até Coelho Neto, o mais imaginoso de todos”. (Evolução dos Gêneros na Literatura Brasileira.)

Josué Montelo: “Coelho Neto continua, no silêncio do seu túmulo muito mais vivo do que os vivos que se comprazem em passar-lhe atestado de óbito literário”.

Brito Broca: “Quanto a mim, terei alcançado o meu objetivo neste estudo esquemático e despretensioso, em que me esforcei por ser estritamente imparcial, se puder concorrer para que leiam Coelho Neto os que pretenderem doutrinar sobre ele”. (“Coelho Neto Romancista” em O Romance Brasileiro, pág. 243).)

Alceu Amoroso Lima: “Sua língua de opulência enorme, sua imaginação realmente vivíssima, sua capacidade de narrativa extremamente expressiva, fizeram de Coelho Neto um escritor que, combatido a fundo pelos modernistas, há trinta anos passados, hoje ressurge do olvido e recomeça a interessar as novas gerações”. (Quadro Sintético da Literatura Brasileira, pág. 61.)

Jorge Amado: “Como todos os escritores de obra numerosa, foi desigual. Tem coisas excelentes – como A Conquista – e outras de importância secundária”. (Enq. De 'Última Hora, em 225/91956.)
 
 Henrique COELHO NETO nasceu em Caxias, Maranhão, em 21 de fevereiro, de 1864, e morreu no dia 28 de novembro e 1934, no Rio de Janeiro.

 Suas obras mais conhecidas: A capital federal (1893), Miragem (1895), Sertão (1896), Inverno em flor (1897), A conquista (1899), A tormenta (1901), O turbilhão (1906), Rei negro (1914), Mano (1929), Fogo fátuo, (1930). 

Segue um trecho de Fogo fátuo, romance de Coelho Neto:



[ESPAÇO DO ROMANCE]


FOGO FÁTUO [Fragmento]
   (Coelho Neto)
                                    

 Bivar partira para Paris, como correspondente de A Cidade do Rio, e Anselmo, que residia com ele na sala da frente de uma casa assobradada, na Rua do Riachuelo, pensou em regressar à natureza para praticar a regra de Rousseau, refugiando-se em um cantinho quieto, com árvores de sombra, som de água e vista sobre montes, como gozara no chalé do Andaraí. Mas como os plantões o retinham até as tantas à atulhada mesa da redação de O Diário, onde se empilhavam telegramas e notas policiais da última hora, que tudo ele redigia, interpretando, traduzindo, escoimando, força lhe foi optar por um casarão de cômodos na Rua do Lavradio.

 Era um velho prédio maciço, de aspecto senhorial, com um portão de carro imenso, de ombreiras de granito e sólidos batentes de pérolas com almofadas.

No sombrio saguão, lajeado à maneira de claustro e aprofundado em túnel, abrindo sobre um terreno que fora, em tempo velho, jardim pomareiro de árvores raquíticas, uma escada em dois lances, de largos degraus esgaçados, com balaustrada de bojudas colunas, levava ao andar superior, cuja frente, primitivamente tomada por dois amplos salões de tetos ricos, de estuque, com painéis floridos, fora esquartejada em divisões de tabique, que eram sedes de sociedades políticas, literárias e beneficentes, cujos escudos e emblemas empastelavam as sacadas, híspidas de mastros.

 O andar térreo, ao qual se chegava atravessando o negror e a frialdade do túnel era o seco, esmarrido jardim, que ainda conservava vestígios de canteiros, beirados de fundos de botijas, tufados de matos hirsuto e sujo.

As moradias em renque, de porta e janela e, no interior, saleta e quarto, pareciam achaparrar-se ao peso do sobrado de janelas largas, sempre colgadas de roupas, que trapejavam estabanadamente ao vento.




REFERÊNCIAS:
CAMPOS, Humberto de. Sepultando os meus mortos. Obra póstuma. Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc., 1941, p. 21, 29.
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. 1ª ed. Porto Alegre: Leitura XXI, 20004, p. 268.
FARIA, Octavio. Coelho Neto. Rio de Janeiro: Agir, 1958, p. 49-50, 126-129.


                                    *  *  *


11 de mai de 2016

[Poesia] A PAUL VELÉRY – João Cabral de Melo Neto



   
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1956, a José Olympio Editora publicou o livro de João Cabral de Melo Neto intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos). Esse volume encerrou as obras publicadas em Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, 1954, e estes outros livros: Morte e Severina, Paisagens com Figuras, Uma Faca só Lâmina.
Os Poemas Reunidos citados compreendiam: Pedra do Sono, Recife, 1942; Os três Mal-Amados, 1943; O Engenheiro, Rio, 1945; Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, Barcelona, 1947, e O Cão sem Plumas, Barcelona, 1950. Esses livros - editados no volume intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos) - sofreram algumas modificações, que o poeta considerou-os definitivos.
Para a edição neste espaço, escolhemos o poema de João Cabral de Melo Neto cujo título é A Paul Valéry, que integra o livro  Duas Águas, Poemas Reunidos, p. 137-138):


A PAUL VELÉRY

– João Cabral de Melo Neto



É o diabo no corpo
ou o poema
que me leva a cuspir
sobre meu não higiênico?

Doce tranquilidade
do não-fazer; paz,
equilíbrio perfeito
do apetite de menos.

Doce tranquilidade
da estátua na praça,
entre a carne dos homens
que cresce e cria.

Doce tranquilidade
do pensamento da pedra,
sem fuga, evaporação.
Febre, vertigem.

Doce tranquilidade
do homem na praia:
o calor evapora,
a areia absorve.

As águas dissolvem
os líquidos da vida.
E o vento dispersa
os sonhos, e apaga

a inaudível palavra
futura (que, apenas
saída da boca,
é sorvida no silêncio).




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