21 de fev de 2015

FRANCOISE SAGAN – Uma Entrevista



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

FRANÇOISE SAGAN nasceu a 21 de junho de 1935, na pequena localidade de Cajac, Departamento de Lot, na França, e foi registrada no cartório civil com o nome de Françoise Quoirez. O uso desse nome deveu-se à admiração que tinha pela Princesse de Sagan, que foi a escritora favorita de Proust.
Seu pai, engenheiro próspero (de origem espanhola), propiciou Françoise a possibilidade de ter uma educação de boa qualidade. Juntamente com uma irmã e um irmão, foi educada no bairro da classe média de Paris, que se limita com o Parc Monceau. Em 1952, após terminar seu curso numa escola de Paris, entrou para a Sobornne.
Em julho, depois de ter fracassado nos exames, no final do ano escolar, deu início ao seu romance Bon jour tristesse. Terminou o livro em fins de agosto, cuja publicação, pela conceituada Editions Juillard, deu-se em 1954. Com essa obra, ganhou o prêmio Prix des Critiques desse ano.
O sucesso do livro foi imediato; somente na França Bon jour tristesse vendeu mais de setecentos mil exemplares, e foi traduzido em quatorze idiomas. Em 1956, publicou Un certain sourire; no ano seguinte, deu-se a publicação de Dans um mois , dans un; em 1959, saiu Aimez-vous Bhams?, o quarto livro de Sagan.
Os dois primeiros romances de Françoise Sagan, Bon jour tristesse e Un certain sourire alcançaram a vendagem de dois milhões de exemplares, em pouco espaço de tempo, somente nos Estados Unidos. Nos anos que se seguiram a esses lançamentos, outros livros da escritora continuaram sendo lançados no mercado livreiro norte-americano. Esses dois livros e Aimez-vous Bhams? foram adaptados para o cinema; este último, foi protagonizado por Ingrid Bergman e Anthony Perkins.
Na primavera de 1957, a jovem escritora sofreu um acidente, quando dirigia o seu carro, e quase morreu. Os carros esportes eram o hobby de Sagan, e sempre exagerava na velocidade, o que chamava a atenção da imprensa europeia, que a criticava, como também o fazia com os seus escritos.
Escreveu, Françoise Sagan, além de romances e contos, versos líricos para  a cantora Juliette Greco, scripts cinematográficos e um comentário para uma coleção de fotografias da cidade de Nova York.
Principais obras de Francoise Sagan, publicadas no Brasil: (romance) O guardador de meus amores (Le garde du coeur), Record, 1972; Cicatrizes na alma, (Des bleus à lâme) Record, 1974; Um perfil perdido, (Un profil perdu), Record, 1974; A cama desfeita (Le lit défait), Nova Fronteira, 1977; Tempestade sem bonança (Un orage immobile), Record, 1983; (conto) Olhos de seda (Des yeux soie), Record, 1975; (teatro) O vestido lilás de Valentine (La robe mauve de Valentine), Difusão Europeia do Livro, 1965.
Françoise Sagan recebeu Blair Fuller e Robert Silvers, da The Paris Review, num pequeno e moderno apartamento de sua propriedade, na Rue de Grenelle, em Paris, onde morava (naquela época a escritora trabalhava sozinha, no campo, fora da cidade). A entrevista deu-se em princípios da primavera de 1956, um pouco antes da publicação de Un certain sourire.
Da entrevista, que fizeram Blair Fuller e Robert Silvers, da The Paris Review, selecionamos alguns trechos, que consideramos mais importantes, como segue:
ENTREVITADORES: Como foi que começou a escrever Bon jour tristesse, quando tinha apenas 18 anos? Esperava que fosse publicado?:
SAGAN: Pus-me simplesmente a escrever. Tinha vivo desejo de escrever e algum tempo livre. Disse, comigo mesma:”Esta é a espécie de empresa que poucas, pouquíssimas garotas da minha idade se entregam; jamais serei capaz de terminá-la.” Eu não estava pensando em “literatura” e problemas literários, mas a respeito de mim mesma, e se teria a força necessária.
ENTREVITADORES: A senhorita diz que o importante, no começo, é ter um personagem?
SAGAN: Um personagem, ou uns poucos personagens, e talvez uma ideia para as cenas da metade do livro, mas tudo isso se modifica enquanto a gente escreve. Para mim, escrever é uma questão de encontrar certo ritmo. Comparo-o ao ritmo do jazz. A maior parte do tempo, a vida é uma espécie de progressão rítmica de três personagens. Se a gente diz a si próprio que a vida é assim, sente-se que a coisa é menos arbitrária.
ENTREVITADORES: Seus personagens permanecem em sua mente, depois de terminado o livro? Que espécie de juízo faz a respeito deles?
SAGAN: Quando o livro está terminado perco imediatamente interesse pelos personagens. E jamais faço juízos morais. Só o que eu diria é que uma pessoa era engraçada, ou alegre, ou, sobretudo, uma chata. Formar juízos a favor ou contra meus personagens, enfastia-me grandemente, não me interessa de modo algum. A única moralidade para um romancista é moralidade de sua estética. Eu escrevo os livros, eles chegam a um final – e isso é tudo o que me interessa.
ENTREVITADORES: Acaso aprendeu algo com as críticas publicadas a respeito do livro? (Menção que os entrevistadores fazem a Bon jour tristesse.)
SAGAN: Quando os artigos eram agradáveis, eu os lia do começo ao fim. Jamais aprendi coisa alguma com eles, mas ficava perplexa diante de sua imaginação e fecundidade. Viam, no livro, intenções que jamais tive.
ENTREVITADORES: Como se sente agora com Bon jour tristesse ?
SAGAN: Gosto mais de Un certain sourire, porque foi mais difícil. Mas acho Bon jour tristesse divertido, pois recorda certa fase de minha vida. E eu não mudaria uma única palavra. O que está feito, está feito.
ENTREVITADORES: Quais os escritores franceses que admira e acha que são importantes?
SAGAN: Oh, não sei. Stendhal e Proust, por certo. Amo o mistério de suas narrativas e, de certa maneira, sinto, positivamente, necessidade deles. Depois de Proust,  por exemplo, há certas coisas que, simplesmente, não se pode tornar a fazer. Ele marca para a gente os limites do nosso talento. Mostra-nos as possibilidades que residem na maneira de se tratar um personagem.
 ENTREVITADORES: Até que ponto reconhece suas limitações e controla suas ambições?
SAGAN: Bem, essa é uma indagação bastante desagradável, não é? Reconheço limitações no sentido em que li Tolstoi, Dostoievski e Shakespeare. Eis aí a melhor resposta, penso eu. À parte isso, não penso em limitar-me.
ENTREVITADORES: A senhorita ganhou, rapidamente, muito dinheiro. Isso modificou sua vida? Faz, acaso, alguma distinção entre escrever novelas por dinheiro e escrever seriamente, como certos americanos e franceses?
SAGAN: O êxito dos meus livros, certamente, modificou um tanto minha vida, pois disponho de muito dinheiro para gastar, se quiser, mas, quanto ao que se refere à minha situação na vida, não mudou muito. Hoje tenho um automóvel, mas sempre comi filés. Os senhores sabem: ter-se uma porção de dinheiro no bolso é bom, mas não é tudo. A perspectiva de ganhar mais ou menos dinheiro jamais afetaria minha maneira de escrever; eu escrevo os livros e se, depois, o dinheiro aparecer, tant mieux.
Esses foram alguns trechos da entrevista que Françoise Sagan concedeu à The Paris Review, depois que, ainda muito jovem, obteve grande sucesso com seus romances Bon jour tristesse e Un certain sourire.
A escritora francesa, Françoise Sagan, faleceu em Honfleur, a 24 de setembro de 2004, aos 69 anos de idade.
[Para conhecer um pouco da história da famosa revista THE PARIS REVIEW, clicar aqui.]


REFERÊNCIA:
COWLEY, Malcolm.The Paris Reviev/Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.


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8 de fev de 2015

ADONIAS FILHO – Vida & Obra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1965, Adonias Filho passou a integrar a Academia Brasileira de Letras; o discurso de saudação ao novo imortal foi pronunciado por Jorge Amado; o Estado da Bahia sentia-se muito bem representando nessa época por esses seus dois filhos ilustres.
Para os que não estão familiarizados com a obra de Adonias Filho, é oportuna uma rápida apresentação, além da mencionada acima; e, para esse mister, valemo-nos do que escreveu Assis Brasil, no ano de 1969; para esse ensaísta, a literatura brasileira tinha, quatro escritores já plenos e amadurecidos, João Guimarães Rosa, nessa época já falecido, e outros três que estavam em plena atividade, que eram Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho.  
Para Assis Brasil, esses quatro escritores – Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho – substituíram  um tipo de romance burguês, da linhagem francesa, que foi cultivado com o pomposo nome de ficção urbana; eles, que foram apontados como marco inicial, e que romperam com o clima acadêmico de nosso romance, não estavam ligados a nenhuma corrente ou escola do modernismo.
Como não se pode dizer que a obra independe da vida que levou ou que leva o autor, vamos conhecer um pouco da vida e da trajetória literária do escritor. Adonias Aguiar Filho nasceu a 27 de novembro de 1915, na fazenda São João, de propriedade dos pais, no município de Itajuípe, Bahia; teve a infância de menino de roça de cacau; ouviu histórias dos trabalhadores da fazenda, sobre o que aí se passava – essas histórias, alguns personagens e a própria fazenda iriam para os seus romances e contos.
  O menino tinha sete anos quando a família deixou o munícipio de Itajuípe para residir Ilhéus; aí cursou o primário no ateneu Fernando Caldas; era péssimo aluno; nas férias, retornava à fazenda; em 1928, foi matriculado  no internato do Ginásio Ipiranga, em Salvador, onde foi contemporâneo de Jorge Amado; interrompeu os estudos ao quatorze anos, passando grande temporada na fazenda.
O período que passou na fazenda foi de grande importância para o romancista; se gravou, talvez mais do que na infância, por suas observações e pelas histórias que ouviu dos moradores, o viria tornar-se o cerne de seus romances. Nessa fase também se dedicou à leitura; leu Castelo Branco, Macedo e Alencar. Voltou ao colégio depois de um ano de ausência; terminou curso em 1934.
Levaria consigo as lembranças dos professores Tarciso Teles (de português e geografia) e Manoel Peixoto (de inglês e moral e cívica), e também das tertúlias literárias no Grêmio Barão do Rio Branco, onde conheceu a literatura de Raul Pompéia, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, entre outros; leu também os poetas, entre eles Olavo Bilac, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães e  Castro Alves; da literatura francesa, leu as traduções de Alexandre Dumas Filho e Balzac.
Quando cursava o ginásio no Ipiranga, Adonias Filho escreveu para os jornais de Salvador: Diário de Notícias e O Imparcial. Pouco depois de terminar o curso ginasial, influenciado pela literatura do nordeste, escreveu Cachaça, romance que destruiu mais tarde. O escritor acompanhava os passos da moderna literatura brasileira e lia importantes pensadores, tais como: Maquiavel, Comte, Darwin.
 Nessa época, com a ajuda financeira do pai, viajou pelo Estado da Bahia, e fez apontamentos para um livro seu livro Renascimento do homem, ensaio político que publicaria em 1936, pela editora Schimidt; em 1935, fez nova viagem, desta vez pelos Estados de Minas, Rio e São Paulo; no início de 1936, fixou residência no Rio.
No Rio, Adonias Filho entrou Adonias em contato com o grupo católico que se reunia no café Gaúcho, Tasso da Silveira, Andrade Muricy, Barreto Filho, Adelino Magalhães – todos, aliás, bem mais velhos do que o escritor. Logo depois, travava relações com o romancista Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Otávio de Faria e Rachel de Queiroz, que se tornou grande amiga.
Foi nesse convívio que veio a descobrir autores como Thomas Hardy, Mauriac, Bernanos, wassermann, Malégue. Passou a colaborar com mais regularidade nos jornais e revistas literárias do Rio e de São Paulo, como o Correio da Manhã, os Cadernos da Hora Presente, a Revista do Brasil e a revista Pan; nessa revista, o escritor foi colega de redação de Clarice Lispector. Em 1937, passou a trabalhar no jornal  A Manhã, recém pelo poeta Cassiano Ricardo.
Em 1938, escreveu Corpo Vivo, romance que foi lido por Otávio Faria, Lúcio Cardoso e Almeida Sales; o livro, no entanto, não o satisfez (guardou-o para reescrevê-lo); nessa mesma época, planejou uma trilogia de romances, que teria como cenário a zona de cacau; em 1939, começou a escrever o primeiro desses livros, Os servos da morte, que foi concluído em 1943, e que, somente em 1946, foi publicado pela editora José Olímpio.
Adonias Filho continuava colaborando em jornais e fazendo traduções, durante esse período (anos 40). Algumas de suas traduções: O pântano do diabo, de Georg Sand, A Famíia Bronte, de Robert de Traz, e Gaspar Hauser, Golovin e O processo Maurizius, de Jabob Wassermann, este em colaboração com Otávio de Faria.
Em 1944, fundou a editora Ocidente, publicando um único livro, As metamorfoses, de Murilo Mendes, com ilustração de Portinari; nesse mesmo ano, casou-se Adonias Filho com D. Rosita Galiano, carioca, de quem um casal de filhos: Raquel e Adonias.
 . Depois passou a dirigir a editora A Noite, onde permaneceu até 1949. Durante esse período colaborou no suplemento A Manhã (coluna Letras e Artes) com um rodapé semanal assinado com o pseudônimo de Djalma Viana (rodapé idealizado por Carlos Lacerda, então diretor do suplemento).
Em 1950, Adonias Filho candidatou-se, pela Bahia, ao cargo de deputado federal, não conseguindo eleger-se; então resolveu permanecer na Bahia para concluir o romance Memórias de Lázaro (sua publicação, pela Cruzeiro, deu-se em 1952); de volta ao Rio, assumiu, a coluna de crítica literária do Jornal de Letras (publicou em livro alguns desses artigos, e mais outros do Correio da Manhã, em 1958, com o título de Modernos ficcionistas brasileiros).
Em 1954, publicou Adonias Filho, pelo Serviço de Documentação do Ministério de Educação, Diário de um escritor, fragmento de um diário que vinha escrevendo desde os 25 anos; nesse ano, passou a dirigir o Serviço Nacional de Teatro, de onde saiu dois meses depois para dirigir o Instituto Nacional do Livro; aí permaneceu por oito meses, depois retornou ao SNT, onde ficou até 1956.
 A partir de 1956, Adonias Filho passou a dedicar-se inteiramente à literatura e ao jornalismo; em 1957 ingressou na redação do Diário de Notícias, onde passou a assinar a seção literária A Estante.
Dentre a obra de ficção que produziu, destacam-se, três romances, que estão associados por uma temática telúrica, a civilização do cacau no interior da Bahia, quais sejam: Os servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952); Corpo vivo (1962). Com esses livros, Adonias Filho construiu uma importante obra da literatura brasileira moderna.
Além desses livros, Adonias Filho publicou, entre outros, um livro de novelas, e o romance O forte (1965); este tem cenário diferente de seus romances anteriores: a história passa-se na cidade de Salvador, em eras mais distantes. Em 1968, Adonias Filho voltaria à civilização do cacau, com Léguas da promissão, livro composto de vários contos. Depois, publicou Luanda, Beira, Bahia (1977); compõe o cenário do romance: a Bahia do Brasil, a Beira de Moçambique, e a Lunda de Angola; outro romance, O homem de branco (1987), a história de alguém que trilhou um sofrido calvário.
No dia 2 de agosto de 1990, morre Adonias Filho, em Ilhéus, Bahia, deixando como legado uma obra literária de extraordinário valor.


REFERÊNCIAS:
BRASIL, Francisco de Assis Almeida. Adonias Filho. Ensaio. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1969.
PEREZ, Renard. Escritores Brasileiros Contemporâneos. Escritores Brasileiros Contemporâneos. I série, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.


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28 de jan de 2015

[Conto] ROBERTO GOMES – O Terno Branco


PEDRO LUSO DE CARVALHO

ROBERTO GOMES, acaba de lançar mais um livro de contos, A Guitarra de Jemi Hendrix, pela Criar Edições. Para os leitores que conhecem Roberto Gomes não haverá surpresa quanto a excelência de sua escrita ficcional. Mas, para os seus novos leitores, não será demasia dizer que ele é um dos escritores brasileiros contemporâneos mais importantes – daí minha indicação para que não deixem de ler o livro A Guitarra de Jemi Hendrix, que é composto por quinze excelentes contos.  
Mesmo voltado para a literatura – conto, novela, romance, bem como pela ficção infantil, com a qual foi distinguido com o Prêmio Jabuti – Roberto Gomes não se afastou da Filosofia, depois que se graduou, na Universidade Federal do Paraná, há algumas décadas. Na Universidade, não se  limitou a exercer a docência, também levou seus conhecimentos filosóficos para o livro, como é exemplo Crítica da Razão Tupiniquim, que há algumas décadas vem sendo adotado por muitas escolas do nosso país, e com edições renovadas.
Como nosso propósito nesta postagem é dar conhecimento aos leitores do lançamento do novo livro de contos de Roberto Gomes, vamos transcrever abaixo o conto O terno branco, do livro A Guitarra de Jemi Hendrix:

O terno branco

Roberto Gomes



Ele já não tinha nome.
Era conhecido pelos apelidos, que eram muitos, dependendo de onde estivesse, dos amigos a sua volta, se era madrugada e estava numa boate, se anoitecia e estava num boteco. Só não tinha um apelido para as manhãs, quando passava dormindo, roncando demasiado alto para seu corpo pequeno, produzindo um estardalhaço sonoro que parecia capaz de quebrar vidraças.
Acordava pontualmente às duas da tarde, a boca queimando, os olhos vermelhos, que dizia infestados por espinhos, não tem mesmo um espinho neste olho?, perguntava, abrindo as pálpebras com dois dedos em alicate. Saía da cama gemendo, ia ao banheiro, enfiava a cabeça debaixo da torneira e, num mesmo gesto, esticava a mão para apanhar a garrafa de conhaque que deixava no armário ao lado. Bebia no gargalo e estalava os beiços.
Sempre vestido de preto.
Uma calça e duas camisas pretas e puídas, que fediam a mil noites e muitas mulheres da vida. Só permitia que fossem lavadas às segundas-feiras, quando não acordava às duas horas da tarde e seguia roncando pelo resto do dia. Saía da cama quando já era noite. Pedia um café embora soubesse que ninguém o atenderia e, cruzando o corredor rumo à cozinha, declarava:
- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada.
Tomava café frio, olhava com desinteresse para a televisão, diante da qual a mulher e a filha estavam plantadas como duas samambaias. Ia ao banheiro com algum estrondo, empestando os ares da casa, batia portas, deixava cair os sapatos quando tentava calçá-los, atrapalhava-se com a camisa do pijama, que enroscava nos braços. Depois desta encenação que repetia com uma precisão de relógio, dizia puta que o pariu que ninguém fala comigo nesta casa! e, parado no meio da sala, decretava, com ênfase:
- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada!
E voltava para a cama, onde se punha a fazer cálculos na tentativa de descobrir há quantos anos ninguém o ouvia, há quantos séculos não tinha notícias da filha, que estava lá plantada no sofá, como era mesmo o nome da desinfeliz?, há quanto tempo não conversava com o filho, que cuspia para o lado quando cruzava com ele? E a mulher, quem era ela?
Depois, dormia aos solavancos até mergulhar num sonho onde havia uma mulher que lhe dizia: vem. Ele ia, sentava-se à mesa, contava casos, anedotas, pregava apelidos em quem estivesse por perto e fazia com que todos rissem muito e batessem nas suas costas dizendo que era mesmo um sujeito admirável, uma figura. Acordava na terça-feira, às duas horas da tarde, pontualmente. E recomeçava.
No mais, terminava certas noites emborcado numa calçada, acordava com dois policiais cutucando suas costelas com o coturno. Noutras, abria os olhos numa casa desconhecida, no meio da madrugada, diante de uma cortina de plástico que era um escandaloso campo coberto com flores vermelhas e amarelas. Ou era erguido por dois braços fortes e jogado na rua, onde quebrava um dente contra o meio-fio. Ia até a farmácia, passava mercúrio cromo na boca, nos braços, na testa, pregava alguns esparadrapos pelo corpo e entrava no primeiro boteco.
Foi assim até o dia em que chegou em casa num domingo à tarde, provocando alvoroço na vizinhança, o que ele fazia em casa àquela hora?, o que estava acontecendo? Atravessou a curiosidade daquela gente cretina sem se deixar abalar e entrou em casa com um pacote muito jeitoso debaixo do braço. Cumprimentou a todos, não recebeu resposta alguma, a filha na frente da televisão, a mulher fabricando os biscoitos com os quais sustentava a casa, o filho cuspindo para os lados como se fosse um preto velho de macumba.
Entrou no quarto e, como sempre, deixou a porta aberta. Todos viram quando abriu o pacote com cuidado e dele retirou um terno branco, claríssimo, e uma camisa também branca. Viram quando estendeu o terno sobre a cama e dependurou a camisa num prego ao lado do armário. Despiu-se, jogando no chão o terno preto e a camisa preta, e estava nu, pois não usava cuecas, uma de suas implicâncias. Viram sua exibição inocente de carnes flácidas, a bunda murcha, o sexo desatento entre as pernas.
Então ele vestiu a camisa branca, as calças brancas, o paletó branco. Olhou-se no espelho balançando a cabeça e, quando se virou para a porta, a mulher, a filha e o filho fizeram de conta que não estavam olhando e mergulharam de novo na tela da televisão. Ele veio até a sala, perguntou se ninguém ia lhe oferecer um café. Não teve resposta. Foi à cozinha e tomou um copo de água, derrubou uma caneca e, quando retornava ao quarto, disse:
- Amanhã é segunda-feira e segunda-feira não serve mesmo pra nada.
Quando entrou no quarto, os três observaram o modo cerimonioso como ajeitou o terno branco no corpo, acomodou os punhos da camisa, aprumou o colarinho, alisou os lençóis, afofou o travesseiro e se deitou na cama. Ficou muito reto, parecendo maior do que era, as mãos sobre o peito, os sapatos apontando para o teto, o nariz muito fino interrogando contra a janela ao fundo.
Logo estava roncando aos arrancos. O filho fechou a porta do quarto, a filha aumentou o volume da televisão. Estranharam quando ele não acordou ao anoitecer da segunda-feira, pedindo café e reclamando que segunda-feira não serve mesmo pra nada. Só às duas horas da tarde de terça-feira abriram a porta do quarto.
- Acho que não roncava desde as dez horas de ontem, a filha explicou ao médico que foi chamado às pressas.


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3 de jan de 2015

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – Vida & Obra




  PEDRO LUSO DE CARVALHO

Carlos Drummond de Andrade disse a Homero Senna, em entrevista a ele concedida, para a Revista do O Jornal, em 19.11.1944 (In Revista das Letras, Rio de Janeiro, Gráfica Olímpica, 1968):
– Minha vida não tem interesse algum e o que nela pode haver de importante já contei em duas autobiografias que escrevi para a Revista Acadêmica e para Leitura. (...) nasci em Itabira, no ano de 1902, de pais burgueses que me criaram no temor de Deus. Meu pai era fazendeiro e embora fosse pessoa que nem sequer o curso primário possuía completo, tomava conta muito bem dos seus negócios e escrevia suas cartas com correção. Em Itabira passei minha meninice e ali fiz meus primeiros estudos. Depois estive em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, e em Friburgo, com os Jesuítas. Primeiro aluno da classe, é verdade que mais velho que a maioria dos colegas, comportava-se como um anjo, tinha saudades da família e todos os outros bons sentimentos, mas expulsaram-me por “insubordinação mental”. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida. Casado, fui lecionar geografia no interior. Depois voltei para Belo Horizonte, onde passei a fazer jornalismo, tendo sido mais tarde levado para a burocracia por Mário Casassanta. Meu lugar efetivo é, mesmo, de redator do Minas Gerais, que é o jornal oficial do Estado. Desejando diplomar-me em alguma coisa (não fosse a interrupção dos meus estudos em Friburgo, eu seria bacharel em direito, como todo brasileiro) resolvi estudar farmácia. Não por qualquer inclinação especial, mas porque era o curso mais rápido, três anos apenas. E de fato sou farmacêutico, diplomado pela Escola de Belo Horizonte. Mas por que insistir nessas coisas?
Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902; foi o nono filho do casal Carlos de Paula Andrade e Julieta Drummond de Andrade–, que teve quatorze filhos – dos quais apenas seis sobreviveram; a mãe era dotada de a aguda sensibilidade; o pai, ao contrário, era homem prático e afeito ao trabalho do campo; embora fosse apaixonado pelo campo, também tinha a preocupação em dar conforto material à família; certa feita adquiriu no Rio uma banheira de esmalte, uma demasia para a cidadezinha; foi um dos vereadores que decidiram pela instalação de luz elétrica em Itabira.
O padrão de vida da família Andrade propiciaria avanços nos estudos do futuro poeta, que não esse sentia atraído pela vida do campo, o que desgostava seu pai, que tinha planos para que seus filhos mantivessem a propriedade com a família; e, na medida em que deixava de apreciar a vida no campo, distanciava-se do pai, o que levaria a criar uma barreira entre eles, que somente se atenuaria com o tempo e a distância.
No Grupo Escolar José Batista, onde começou a estudar, pode dar vasão as suas tendências literárias, chamando a atenção de seus professores com suas descrições; seu irmão, que estudava Direito no Rio, remetia-lhe livros; assim foi conhecendo autores, mesmo que de forma irregular, entre eles os poetas portugueses Fialho de Almeida e Antônio Patrício, os nossos simbolistas e os franceses, entre eles Flaubert; lia também romances de capa e espada que lhes emprestava o santeiro Alfredo Duval; mais tarde, entrou em contato com a obra de Machado de Assis, que passou a ser para ele, no Brasil, a sua maior admiração literária; achava que não teríamos significação literária se Machado não existisse; leu Euclides da Cunha apenas por obrigação, não o comovendo “sua pompa nem sua bravura estilística”.
Ingressou no Grêmio Literário e Dramático Arthur de Azevedo aos treze anos – como a idade mínima para ingressar era de quinze anos, os estatutos foram mudados para permitir seu ingresso; teve a oportunidade de pronunciar uma conferência sobre a Descoberta da Américas, na qual contou com a presença de seu pai; embora se sentisse decepcionado pelo fato de não vê-lo seguindo os seus passos, sentiu-se envaidecido com os triunfos literários do filho; em 1916, foi matriculado no Colégio Arnaldo, de Belo Horizonte; estava então com quatorze anos de idade; foi nesse colégio que conheceu Gustavo Capanema e Afonso Arinos; continuaria amigo de ambos ao longo da vida; aí não ficou mais que seis meses, já que, por motivo de saúde, retornaria para casa, onde permaneceria inativo por algum tempo; depois, com o consentimento do pai, passou a trabalhar como caixeiro numa loja de Itabira, onde permaneceu por oito meses.
Dois anos depois (1918), o pai fez a matrícula do filho no Colégio Anchieta, dos padres jesuítas, em Friburgo; os fatos ocorridos aí foram narrados pelo poeta na entrevista que concedeu a Homero Senna, cujo trecho encontra-se transcrito acima; mais tarde, passou a viver em Belo Horizonte; os novos amigos que fez Emílio Moura, Milton Campos, Abgar Renault, Gustavo Capanema, João Alphonsus, Aníbal Machado, ajudaram-lhe a adquirir confiança; talvez sua memória tenha guardado mais essas amizades que seus primeiros sucessos literários.
Anos depois, recordará com ternura o tempo em que a literatura aos poucos passou a tomar parte de seu tempo e dos primeiros trabalhos publicados, como ocorreu com José do telhado, conto que foi premiado na Novela Mineira, pelo qual recebeu cinquenta mil-réis; o terreno estava preparado para colaborar em jornais e revistas, com artigos de crítica, contos, poemas em prosa; os amigos, no entanto, não acolheram bem o único soneto que tentou fazer; em entrevista que concedeu mais tarde, disse: “Por preguiça ou por qualquer outro motivo obscuro derivei para o modernismo”.
Quando seus poemas já formavam um pequeno volume, procurou publicá-lo por intermédio de Ronald de Carvalho na livraria Leite Ribeiro, no Rio; tratava-se de uma coletânea de poemas em prosa com o título de Teia de aranha, que, para sorte do poeta, como afirmou mais tarde, o original foi extraviado pela livraria; o segundo livro, com o título de 25 Poemas da triste alegria, obra inédita, que teve o mesmo destino que o primeiro, passou a integrar o arquivo de Rodrigo M. F. de Andrade.
Quando o poeta foi ao Rio, pela primeira vez, em 1923, encontrou-se com Álvaro Moreyra, que não o conhecia, na redação de Para Todos, onde também se encontravam os pintores Oswaldo Teixeira e Di Cavalcanti; de volta a Belo Horizonte, somente voltaria a visitar o Rio no ano de 1933.
Casou-se quando era ainda estudante, em 1925, com Dolores Morais Drummond de Andrade, de quem teve um filho em 1927, que morreu logo depois de hidrocefalia; no ano seguinte, nasceu Maria Julieta – Drummond passaria a canalizar o melhor de sua afeição para a filha, que anos depois se casaria e iria morar na Argentina; teria dois filhos e morreria de câncer um mês antes da morte do poeta.
Para satisfazer o pai, que o queria ver formado, graduou-se em Farmácia, profissão que nunca chegaria a exercer; em 1926, já casado, voltou a Itabira, onde passou a lecionar por pequeno espaço de tempo; logo deixou Itabira com destino a Belo Horizonte, atendendo o convite para trabalhar no Diário de Minas; no Diário de Minas foi redator-chefe; o jornal tinha a orientação governista, que com sua orientação acabaria se transformando, com João Alphonsus, Emílio Moura, Martins Almeida e, posteriormente, Cyro do Anjos, em reduto do modernismo mineiro.
Sua vida tomaria novo curso em 1929, exercendo cargo na Secretaria de Educação; em 1930 foi para Secretaria do Interior, inicialmente com Cristiano Machado (três meses) posteriormente, Gustavo Capanema (três anos); à noite, trabalhava no Diário de Minas, e depois no Minas Gerais (órgão oficial do Governo); trabalhou também em jornais dos Diários Associados.
Drummond acompanhou Gustavo Capanema quando este foi para o Rio, trabalhando com ele até 1945, quando se demitiu da Secretaria do Interior por questões políticas; nesse mesmo ano foi diretor da Tribuna Popular com Álvaro Moreyra e outros, aí permanecendo apenas por três meses; pouco tempo depois, graças a intervenção de Rodrigo M. F. de Andrade e de Gustavo Capanema, foi trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde chefiará a Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamentos, do Ministério da Educação; ficará no cargo até 1962, e será aposentado após completar 35 anos de serviço público.  
A sua estreia em livro foi com Alguma Poesia, em 1930; livros posteriores: Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do povo (1945), Claro enigma (1951), Fazendeiro do ar e Poesia até agora – edição de 1959, que abrange A Vida passada a limpo, livro inédito, que depois reaparece sob o título de Poemas– Antologia poética e Lição de coisas (1962), Boi-tempo (1968), Reunião (1969) – toda sua obra poética reunida, sem incluir Boi-tempo –, com apresentação de Antônio Houaiss; Impurezas do tempo (1973), entre outros.
Seus livros em prosa: Confissões de Minas (1944), Contos de aprendiz (1951), Passeios na ilha (1952), Versiprosa (1967) Amendoeira (1957), A bolsa & a vida (1962), Cadeira de balanço (1966), Caminhos de João Brandão (1970), O poder ultrajovem (1972); Menino antigo (1973), De notícias & não notícia faz-se a crônica (1974), Boca de luar (1984), entre outros.
No rio de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade tornou-se tradutor e cronista; escreveu suas crônicas para o Correio da Manhã e depois para o Jornal do Brasil, onde permaneceu por quinze anos.
O poeta era caseiro, viajava pouco (exceção feita quando viajou para Buenos Aires, Argentina, para visitar a filha), não fazia vida social (dizia que por não ser conversador, sua presença aborreceria os outros, o que preferia evitar).
No que dizia respeito aos seus livros, não tinha preferências por nenhum deles (não considerava que tinha uma obra – pelo menos a obra que desejava). Dizia que seus livros são um ajuntamento de poemas, estudos poéticos que passa para o papel; não o resultado de uma vida literária. É possível que seus livros o satisfizessem por sentir que às vezes consolavam os outros, possivelmente pelo desencanto ou pela autenticidade, o que o confortava.
Carlos Drummond de Andrade, que ao lado de João Cabral de Melo Neto e Manoel Bandeira formava, segundo a crítica, o grande trio da poesia brasileira contemporânea, faleceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 17 de agosto de 1987, aos 85 anos incompletos, de problemas cardíacos – doze dias depois que sua querida filha Maria Julieta morreu de câncer, em Buenos Aires.
 Sobre a morte do poeta, destacamos o que disse Ziraldo, em documentário para vídeo:
– No velório ninguém entrou na sala, não sei por que; os meninos... Todo mundo fora, e só a família lá dentro. Os netos ficaram na porta e não deixaram ninguém entrar. Aí eu tive com Dolores, sentado com ela, a noite inteira. Aí, ela caladinha, muito tímida (ela era muito bonitinha, quando moça; pelas fotos dava pra ver que era bonitinha); aí se virou e disse: “Ziraldo, o Drummond tinha razão em ter morrido, né?” Aí perguntei por que, e ela disse: “Morreu a única razão que ele tinha pra viver.” [Ante essa resposta de Dolores, exclamou Ziraldo: “Tadinha...”].
Escolhemos, para encerrar este trabalho, um trecho de “Fragmento sobre Carlos Drummond de Andrade”, escrito pelo renomado crítico literário Otto Maria Carpeaux (In, O Jornal, Rio de Janeiro, 10 out. 1941):
Quero dizê-lo, com toda franqueza, que o encontro com a poesia de Carlos Drummond de Andrade me foi um conforto nas trevas, e que eu, que conhecia todas as poesias do mundo e experimentava todas as desgraças do mundo, compreendo agora melhor o sentido de uma longa viagem. Muito pereceu e muito mais perecerá. Mas “o presente é tão grande, não nos afastemos”; acompanhados de certas palavras, certos versos que não se vão esquecer, como bons companheiros. Não olhemos para trás. Vamos de mãos dadas. O esforço poético de Carlos Drummond de Andrade continua.


REFERÊNCIAS:
PEREZ, Renard. Escritores Brasileiros Contemporâneos. Escritores Brasileiros Contemporâneos. I série, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.
SENNA, Homero. PEREZ, Renard. Carlos Drummond de Andrade. Coletânea organizada por Sônia Brayner. Direção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 1977.
JCV. Jornalismo, Cinema Vídeo. Mondale Filmes, s/d.
CARPEAUX, Otto Maria. Fragmento sobre Carlos Drummond de Andrade. Coletânea organizada por Sônia Brayner. Direção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 1977.


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19 de dez de 2014

[Conto] FRANZ KAFKA – Prometeu



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
      
FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, aos 41 anos de idade, no Sanatório de Keerling, perto de Viena; foi enterrado em Praga, no Cemitério de Straschinitz. Nessa época, Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após a sua morte.
Segue depoimentos de alguns escritores importntes, sobre o escritor e a obra de Franz Kafka:
W.H. AUDEN (poeta inglês) Se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Shakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria.
GEORGE STEINER (ensaísta) Nenhuma outra voz testemunhou de maneira mais fiel à natureza de nossa época.
PAUL CLAUDEL (escritor francês) Ao lado de Racine, que para mim é o melhor de todos os escritores, há um: Franz Kafka.
JORGE LUIS BORGES (escritor argentino) Duas ideias, ou melhor, duas obsessões regem a obra de Franz Kafka: a subordinação é a primeira, e o infinito a segunda. A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis.
Outros nomes da literatura, igualmente de grande expressão, manifestaram-se sobre a genialidade de Franz: Aldous Huxley, André Gide, Hermann Hesse, Thomas Mann, Virginia Wolf, Albert Camus, entre outros. 
Segue o conto de Franz Kafka intitulado Prometeu (In Franz Kafka. Contos. Seleção e prólogo de Jorge Luis Borges. Tradução de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2005, p. 41):

   PROMETEU
     – FRANZ KAFKA

A lenda tenta explicar o que não se pode explicar; porque vem de um fundamento de verdade, tem de terminar no que não se pode explicar.
De Prometeu conhecemos quatro lendas. Diz a primeira que ele foi agrilhoado no Cáucaso por ter traído os deuses aos homens e que os deuses enviaram águias que lhe devoravam o fígado que se renovava sem fim.
Diz a segunda que, com a dor das bicadas que o atormentavam, Prometeu se apertou cada vez mais contra o rochedo até se tornarem um.
Diz a terceira que passados milhares e milhares  de anos a sua traição foi esquecida, os deuses esqueceram, as águias, ele próprio.
Diz a quarta que todos se cansaram do que já não tinha fundamento. Os deuses cansaram-se, as águias. A ferida fechou-se cansada.
Restou o rochedo inexplicável.

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