1 de mai de 2016

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Moinho





– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Carlos Drummond de Andrade Também  foi jornalista; desempenhou importantes cargos nos jornais Diário de Minas, Minas Gerais, entre outros. Escreveu crônicas, nos anos de 1954 a 1968, para o Jornal carioca, Correio da Manhã, com o título geral de “Imagens”. Depois passou para o Jornal do Brasil, onde manteve uma coluna no Caderno B.
Drummond também foi funcionário público; exerceu funções no Governo de Minas Gerais e depois no Rio de Janeiro; foi chefe do gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema, de quem era amigo. Integrou a equipe do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Aposentou-se após 35 anos de serviço.
O poeta fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma poesia, Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.
Nesse livro, Alguma poesia aparece alguns modismos, que foram colhidos no modernismo, mas isso não seria obstáculo para a formação do grande poeta, o de fato aconteceu.
Segue o poema Moinho, de Carlos Drummond de Andrade (in Andrade, Carlos Drummond de. As impurezas do branco; posfácio Betina Bischof. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.61):


MOINHO
– CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.


*  *  *



12 de abr de 2016

[Poesia] PABLO NERUDA – Saudade



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

PABLO NERUDA é o nome do poeta que se tornou mundialmente conhecido. O nome do cidadão chileno é outro: Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto. Vê-se que foi providencial a escolha do pseudônimo.
O poeta nasceu em 1904, em Parral, uma pequena cidade do Chile. Ainda jovem, mudou-se para a capital, Santiago, uma das cidades mais evoluídas da América do Sul. Foi em Santiago que publicou Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Com esse livro, tornou-se conhecido mundialmente.
Com a idade de 23 anos o poeta entrou na carreira diplomática. Foi cônsul na Ásia, Argentina e Espanha (durante a Guerra Civil). Também se aventurou na carreira política, em 1945, eleição conquistada para o Senado. Mas logo teve cassado o seu mandato, por ter-se filiado ao comunismo.
Em 1971 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Faleceu em Santiago, em 1973, acometido de câncer, oito dias após o golpe militar, que daria a conhecer, mundialmente, nome de outro chileno, este um tirano: Augusto Pinochet.  
Segue o poema de Pablo Neruda, Saudade (in Pablo Neruda. Crepusculário. Tradução de José Eduardo Degrazia. Porto Alegre: L&PM, 2004, 99):

SAUDADE
– PABLO NERUDA


SAUDADE... – Que será... eu não sei... tenho buscado
em certos dicionários poeirentos e antigos
e outros livros que ocultam o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem longínquos amores,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
nomeia com os cílios e as mãos em tremores.

E no Eça de Queirós sem olhar a adivinho,
o segredo se evade em sua doçura e sede,
como essa mariposa, corpo em desalinho,
sempre longe – tão longe! – de minhas calmas redes.

Saudade... tens, vizinho, o real significado
dessa palavra branca e que, peixe, se evade?
Não... treme na boca seu temor delicado...
Saudade...




*  *  *



29 de mar de 2016

CECÍLIA MEIRELES – Canção a caminho do céu




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CECÍLIA MEIRELES apareceu no mundo literário do nosso país no ano de 1922, com publicações nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, no período de 1919 a 1927, nos quais escritores católicos defendiam a renovação das letras brasileiras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico. O aparecimento da poetisa deu-se, portanto, por coincidência, na época em que eclodia o movimento modernista (1922), no qual os escritores nele envolvidos representavam uma outra tendência.
A premiação em 1938, pela Academia Brasileira de Letras, de Viagem, significou o reconhecimento de um empenho monacal no estudo de nossa tradição literária e na assimilação dos recursos expressivos da arte verbal. Com esse livro ingressava Cecília Meireles na primeira linha dos poetas brasileiros, ao mesmo tempo que se distinguia como a única figura universalizante do movimento modernista.
Segue o poema Canção a caminho do céu, de Cecília Meireles (In Meireles, Cecília. Flor de poemas. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 93):

 CANÇÃO A CAMINHO DO CÉU

– CECÍLIA MEIRELES
 

Foram montanhas? foram mares?
foram números...? – não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei.

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
– e o encantamento arrependido
do meu amor.




     *  *  * 


15 de mar de 2016

FEDERICO GARCIA LORCA – Dois Poemas



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

No que se refere a morte do grande poeta espanhol Federico Garcia Lorca, transcrevemos o que o jornal El Liberal, de Madri, publicou no dia 2 de novembro de 1936 (in Ian Gibson, O assassinato de Garcia Lorca, Trad. de Ernani Ssó, Porto Alegre, L&PM Editores, 1988, p. 271):
Mas será possível? Federico Garcia Lorca, o imenso poeta, assassinado pelos facciosos?
Uma última esperança de que tamanho crime não tenha se realizado leva-nos a perguntar: mas será possível a monstruosa aberração que supõe o assassinato do mais alto poeta espanhol dos nossos dias?
Todos os jornais publicaram a notícia que, segundo um jornal de Albacete, procedia de Guadix.
Conhecemos bem a louca e fria perversão dos traidores. Mas um nobilíssimo impulso da nossa alma nos leva a duvidar da veracidade da horrível informação.
Federico Garcia Lorca fuzilado pelos degenerados facciosos! Será possível tanta maldade? E embora temamos que sim, que essa gente é capaz de tudo, queremos acolher uma última esperança, repetimos, queremos acreditar que tudo, até a escala da maldade dos fascistas, tem um limite.
A Espanha inteira, toda a Espanha democrática e republicana, vive momentos de angústia e os viverá enquanto não seja retificada ou ratificada a inimaginável maldade dos verdugos.
Federico Garcia Lorca foi fuzilado em agosto de 1936, em Granada, no início da Guerra Civil Espanhola, e seu corpo nunca foi encontrado. Estava com 38 anos de idade, quando foi assassinado, e já era considerado um dos maiores poetas e teatrólogos da Espanha.
Os poemas que aqui serão transcritos, o primeiro, com tradução, A Lua e a Morte, e, o segundo, Gacela del amor desesperado, no idioma do poeta, integram a Antologia Poética de Federico Garcia Lorca, obra bilíngue, com tradução de William Agel de Mello, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p.39-41; 218, 220:


A LUA E A MORTE

– FEDERICO GARCIA LORCA



A lua tem dentes de marfim,
Quão velha e triste assoma!
Estão os álveos secos,
os campos sem verdores
e as árvores murchadas
sem ninhos e sem folhas.
Dona Morte, enrugada,
passeia pelos salgueirais
com seu absurdo cortejo
de ilusões remotas.
Vai vendendo cores
de cera e de tormenta
como uma fada de conto
má e enredadora.

A lua comprou
pinturas da Morte.
Nesta noite turva
está a lua louca!

Eu, enquanto isso, ponho
em peito sombrio
uma feira sem músicas
com tendas de sombra.

-/-/-


GACELA DEL AMOR DESESPERADO

– FEDERICO GARCIA LORCA



La noche no quiere venir
Para que tú vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré,
Aunque um sol de alcranes me coma la sien.

Pero tú vendras
Com la lengua quemada por la lluvia de sal.

El día quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
entregando a los sapos mi mordido clavel.

Pero tú vendras
por las turbias cloacas de la oscuridad.

Ni la noche ni el día quierem venir
para que por ti muera
y tú mueras por mi.



*  *  *




                                          

13 de mar de 2016

[Crônica] ANTÔNIO MARIA – A noite é uma lembrança



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921 e morreu no dia 15 de outubro de 1964, aos 43 anos. Esse que foi um dos nossos melhores cronistas mantinha colunas diárias no O Jornal, onde permaneceu por 15 anos; no O Globo, em 1959 e na Última Hora, todos do Rio de Janeiro.
Antônio Maria foi muito mais que excelente cronista, foi homem de televisão (TV Tupi e TV Rio), foi radialista (rádio Mayrink), foi compositor (escreveu a letra de Manhã de Carnaval e muitas outras). A música Manhã de Carnaval serviu de temas musicais para o filme franco-ítalo-brasileiro, Orfeu Negro, ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Maria, como era como era conhecido, fez muitos amigos: Di Cavalcanti, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Carlos Heitor Cony, Aracy de Almeida, Luiz Bonfá, dentre tantos outros.
Passemos agora à crônica de Antônio Maria, intitulada A noite é uma lembrança, escrita 18/5/1957, no Rio de Janeiro (in Morais, Antônio de Araújo de.  Crônicas de Antônio Maria. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1996, p. 31-33):

    
A NOITE É UMA LEMBRANÇA
    – ANTÔNIO MARIA

BOA VIAGEM, FEVEREIRO. É de principiante isto de o cronista escrever que está numa janela de hotel, vendo a noite e fumando um cigarro. Mesmo havendo mar e sendo Boa Viagem um encontro muito desejado, não gosto da sem-cerimônia com que me faço personagem de mais uma crônica, como se eu, a noite e o cigarro ainda fôssemos novidade.
Entretanto, alguns acontecimentos espirituais do homem podem ser contados e explicados, desde que esse homem seja capaz de transmitir a alguém a beleza de sua solidão. Que ninguém se queixe de falta de ocorrências para escrever melhor. E sim de incapacidade para gritar o seu grande mundo interior.
Eu vim à janela porque conheci uma moça e estou preocupado em como a venho pensando, há um enorme tempo. O cabelo, os olhos, a boca, as mãos e o silêncio. Também a palavra vagarosa, que perguntava de vez em quando sobre uma verdade já velha ou sobre uma mentira mais em moda. Se confiasse em cada um de nós, explicaria à sua maneira o Homem, o Amor, o rio Capibaribe e o compositor João Sebastião Bach. Mas para isso, além de ser preciso confiar, teria que pedir a palavra e se imponentizar de tal maneira que nos assustaria à sua volta, após assustar-se consigo mesma. O que dizia eram curtas perguntas. O que fazia era pouco e casual. Mesmo assim eu a advinhava sábia e corajosa.
Mais das vezes se escreve assim de uma mulher quando por ela se sente uma dessas súbitas emoções, muito parecidas com o chamado amor à primeira vista. Mas, em meu caso, essas impressões já não me confundem. Uma mulher me empolga assim que a sinto gente; e nela me perco, de descoberta em descoberta, sem me consentir a mínima desconfiança de estar amando-a, em qualquer das maneiras antigas ou atuais de amar alguém. Uma mulher-gente nos atrai aos seus mistérios e, no tempo em que procuramos desvendá-los, só acrescentamos dúvidas à nossa ignorância inicial.
Apesar disso, é dever do homem-gente deixar que o seu pensamento se demore nas lembranças de sua conhecida recente. Amor é outra coisa. Amor a gente espera, como o pescador espera o seu peixe, ou o devoto espera o seu milagre: em silêncio, sem se impacientar com a demora. E o amor a gente não conta pelo jornal a não ser quando quando o sentimento trai a frase, juntando palavras que deviam estar sempre separadas.
Cá estou, porém, nesta janela que não me deixa mentir, em frente à noite de que sou uma espécie de filho de criação, a repassar lembranças de uma moça que, de mim, se muito recordar, recordará meu nome. Eu também a esquecerei, mas daqui a duas ou três mulheres importantes. Agora, faz-me bem, inclusive, sofrê-la um pouco. É tarde. Deveria ir para a cama. Todavia, não seri direito. Numa moça, a gente pensa na janela.

   *  *  *


1 de mar de 2016

[Poesia] W. B. YEATS – Os Eruditos



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

William Butler Yeates nasceu num subúrbio de Dublim, Sandymount, em 13 de junho de 1865. Presume-se que seus antepassados chegaram à Irlanda junto com o exército de Cromwell. Eram quase todos eles comerciantes em Dublin. Seu avô e bisavô foram sacerdotes  da Igreja da Irlanda.
O pai de Yeats, John Butler Yeats (1839-1922) teve uma formação jurídica. Deixou a advocacia para dedicar-se à pintura, que lhe granjeou grande consideração. A mãe do poeta, Susan Pollexfen, descendia de uma família próspera; seu pai explorava os ramos de moinho e de navio.
Nos seus primeiros, Yeats viveu em Sandymount. O seu pai, que trocou a advocacia pela pintura, mudou-se com a família – a esposa e os filhos William e Susan Mary – para Londres, em 1867, onde passou a frequentar a Art School. Em Londres nasceram mais três irmãos do poeta: Elizabeth Corbet (Lolly), Robert, que faleceu na infância, e John Butler (Jack), que mais tarde se tornaria pintor famoso.
Mais tarde, quando viermos a transcrever outros poemas do poeta W. B. Yeats, seguiremos contando um pouco mais de sua vida e de sua obra poética.
O poema, que escolhemos para esta edição, de W. B. Yeats, intitula-se: Os Eruditos (in Poemas de W. B. Yeats. Tradução [e introdução] de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Art Editora, 1987, p. 87):

OS ERUDITOS
 W. B. YEATS

Cabeças calvas esquecidas dos pecados.
Calvas cabeças velhas, doutas, de respeito,
Editoram, com versos anotados,
Poemas que os jovens, contorcendo-se no leito,
Rimaram, a sofrer do amor a crueza,
Para incensar o ouvido ignaro da beleza.

Todos tossem em tinta; andam devagarinho;
Todos puem o tapete com o sapato;
Todos pensam igual aos outros sobre um fato;
Se alguém conhece alguém, conhece-o o seu vizinho.
Que diriam, Senhor, eles se enfim
Catulo, íntimo seu, vivesse assim?

*  *  *


22 de fev de 2016

[Conto] ERIC NEPOMUCENO – Às sete em ponto



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

ERIC NEPOMUCENO é um conhecido jornalista, escritor e tradutor. Trabalhou no Jornal da Tarde, de São Paulo, colaborou com diversas publicações da Argentina, México e Venezuela. Entre elas, o jornal La Opinión, de Buenos Aires (1973 a 1975), o jornal Excelsior, do México (1974), o jornal El Nacional, de Caracas (1974 a 1975) e a agência de notícias Latin (1974 a 1975). Foi colaborador permanente da revista Crisis, de Buenos Aires (1973 a 1976).
Nepomuceno traduziu ao português vários autores contemporâneos, gigantes da literatura hispânica, como Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e outros. Inclusive, seus três primeiros livros foram publicados em espanhol.
Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti pela tradução de autores de língua espanhola, além de vários outros prêmios com seus livros de contos e de não-ficção.
Segue Às sete em ponto, conto de Eric Nepomuceno (in Nepomuceno, Eric. A mulher do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996, p. 30-32):


      ÀS SETE EM PONTO
           – ERIC NEPOMUCENO

 As mãos espalmadas, os dedos finos, jogaram os cabelos negros e lisos para trás:
– Preciso telefonar para casa, falar com minha mãe.
Foi a primeira coisa que ele disse. Depois, perguntou:
– Como foi o seu dia? Acho que o frio está chegando. Peça um licor e um chá para mim, está bem? E alguma coisa de comer. Estou com fome, não pude almoçar. Preciso telefonar. Você pede para mim?
Eu não gostava daquele café. Gostava da praça, a primeira que conheci na cidade, e que se chamava praça San Juan de la Cruz. Havia dois cafés na praça. Um, ao lado do hotel, onde eu morava; outro, no extremo oposto da praça. Estávamos no café longe do hotel:  mesas de fórmica, cadeiras forradas de plástico vermelho. Estávamos em uma mesa ao ar livre, era um fim de tarde de outubro, fazia frio. Eram sete da noite quando ela chegou. Tínhamos dito: às seis e meia, no café da esquina; ela chegou às sete. Veio bonita. Eu gostava de olhar seu rosto e olhar seu sorriso e olhar suas mãos.
Pensava nisso quando vi que ela  me olhava sorrindo; talvez eu estivesse sorrindo também. Ela perguntou, calma:
– E como foi seu dia?
– Bem, sem nada de novo, nenhuma emoção. Escrevi cartas e cartões-postais de manhã, almocei, fumei um charuto, caminhei de tarde, fui ver um amigo. Nada de emoções.
– E você está bem?
– Claro, por que não? E você?
– Estou ótima. Agora, vou telefonar: está ficando tarde.
Eram sete da noite, ela acabara de chegar e estava bonita. No outro dia, bem cedinho, fui-me embora. Levei um ano para voltar, e ela estava com os cabelos curtos.
Quando voltei era dezembro e dois dias antes tinha nevado na cidade, fazia frio e as ruas estavam sujas.
O café estava fechado. Nos encontramos na rua e ficamos olhando o café, tentamos sorrir e eu perguntei:
– E agora, para onde vamos?
Ela disse que para lugar nenhum. Queria ver se eu continuava vivo, só isso. E já tinha visto.
Fiquei parado, fazia frio e ventava, olhando para ela, que atravessou devagar a rua e entrou em um carrinho pequeno, cor de cinza.



        *  *  *

14 de fev de 2016

[Poesia] PABLO NERUDA – O Mar e os Jasmins


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

PABLO NERUDA (1904-1973) não era o seu nome de registro civil ou de batismo. Hoje ninguém saberia tratar-se de um dos mais importante poetas do século 20, declinando o seu verdadeiro nome: Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Bassoalto.
Neruda escreveu muito, ao longo de sua vida: 51 publicações. Sua poesia saiu do Chile e da América do Sul para espalhar-se pelo mundo, influenciando uma plêiade de jovens poetas em todos os quadrantes, que o admiravam pela grandiosidade formal de sua poesia, que se tornou conhecida pela abordagem do amor, pelo olhar poético do cotidiano e pela atenção direcionada ao plano social.
Segue o poema de Pablo Neruda, O Mar e os Jasmins, uma homenagem que faz a Coimbra (in Neruda, Pablo. As uvas e o vento. Tradução de Carlos Nejar. Porto Alegre: L&PM, 1979, p. 236-237):

O MAR E OS JASMINS
– PABLO NERUDA

DE TUA MÃO pequena em outra hora
saíram criaturas
debulhadas
no espanto da geografia.
Assim voltou Camões
para deixar um ramo de jasmins
que continuou florescendo.
A inteligência ardeu como uma vinha
de transparentes uvas
em sua raça.
Guerra Junqueiro entre as ondas
deixou tombar seu trovão
de liberdade bravia
que transportou o oceano em seu canto,
e outros multiplicaram
teu esplendor de roseiras e cachos
como de teu território estreito
brotassem grandes mãos
derramando sementes
para toda a terra.

No entanto
o tempo enterrou.

O pó clerical
acumulado em Coimbra
caiu em teu rosto
de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de tua cintura.


 *  *  *