29/07/2014

EÇA DE QUEIRÓS & Sua Obra




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
O início da carreira literária de Eça de Queirós, que não foi muito diferente da carreira de muitos escritores, deu-se com obras inferiores às que passaria a produzir no futuro. Sua produção literária constituía-se em peças românticas e artigos para a Gazeta de Portugal, que foram reunidas postumamente no livro Prosas Bárbaras. Mais tarde, o escritor junta-se a seu amigo Ramalho Ortigão, para com ele produzir O Mistério da Estrada de Sintra, gênero romance policial, e, em seguida, As Farpas. Com o Crime do Padre Amaro, que foi escrito depois desse período, Eça de Queirós inicia a fase realmente importante de sua carreira literária, que o tornaria conhecido como o escritor que introduziu o realismo em Portugal, escola literária da qual foi a sua principal figura da língua portuguesa, fato que o levaria a liderar esse movimento tão importante para a literatura em seu país (grupo “Os Vencidos da Vida”).
Embora Portugal tenha produzido importantes romancistas ao longo de sua história, modernamente representada por alguns nomes igualmente importantes, dentre eles José Saramago, o fato é que Eça de Queirós continua sendo o nome mais representativo da literatura portuguesa. A consagração definitiva de Eça deu-se com a publicação de O Primo Basílio, que projetou o seu nome para fora das fronteiras de Portugal. Nesse romance, escrito em 1878, Eça ataca as falsas bases da moralidade de Lisboa. Claramente influenciado pela literatura francesa, Flaubert, em especial, o escritor português cria uma obra perene, com sua primorosa construção no gênero romance.
A literatura de Portugal tem, pois, em Eça de Queirós, o seu mais lídimo representante, como ocorre no Brasil com Machado de Assis. Ambos, Eça e Machado, foram e, acho, serão sempre, em seus países, a referência na difícil e nobre arte do romance, da novela e do conto. Eça de Queirós, como bem situa Álvaro Lins:
Alia às qualidades de imaginação e poder criador um estilo de rara beleza, flexibilidade, graça, elegância. A sua prosa determinou verdadeira revolução na língua portuguesa. Foi também admirável jornalista e ensaísta. Dispunha de um poder de ironia e de houmour que muito contribuiu para o renome de sua obra.
A sensibilidade de Eça para a produção da arte literária teve como contribuição experiências pelas quais passou, a começar pelos seus estudos acadêmicos, com a sua diplomação no curso de Direito pela Universidade de Coimbra, embora tenha militado por pouco tempo na advocacia, por sentir que essa não era a sua vocação. De qualquer forma, os estudos para bacharelar-se nessa conceituada Universidade deram ao escritor maior solidez à sua bagagem cultural. Mas as experiências de vida do escritor não ficariam apenas nesse patamar, pois a sua carreira diplomática viria contribuir para que se alargassem os seus conhecimentos, com o contato com outros povos, na condição de cônsul em Havana, Newcastle, Bristol e Paris. Distante de Portugal pôde compreender melhor a sociedade portuguesa, que passaria a constituir-se em alvo frequente de suas críticas.
Sobre a pessoa do escritor, Fialho de Almeida (1857-1911) traça um interessante perfil:
Eça de Queirós foi sempre uma organização debilitada, um poste d’osso suspendendo fios elétricos de nervos, este predomínio neurótico explicando as sensibilidades d’esteta que lhe fizeram na vida literária o temperamento intenso de humorista, assim como na material, em coisas de mesa, vestuário, amor, arte e conforto, um desses tipos d’aristo, cuja degenerescência recorda, pelas predileções sensuais, cepticismo delicado, inconstância do diletantismo, raridades frustes d’elegância, o que trazem as crônicas sobre certos príncipes perversos da Renascença.
O escritor brasileiro José Veríssimo (1857-1916), disse que viu Eça de Queirós pela primeira vez, acompanhado de seu amigo Ramalho Ortigão, no salão de teatro da Trindade, em Lisboa, onde se realizava um sarau literário: “Notei que a entrada de Eça despertara a atenção geral, e as mulheres, que eram numerosas e da alta roda lisboeta, o examinavam com uma curiosidade especial. Decididamente o autor de O Primo Basílio excitava-lhes aquele sentimento bem feminino”. Completando seu texto sobre Eça, diz Verissimo: “Vi-o depois muitas vezes, em Lisboa mesmo, e, nove anos mais tarde, em Paris; já então mais magro, mais ossudo, como que mais cansado, conservando, porém, a despeito de uma ligeira curvatura, o aprumo da fronte inteligente e a fixidez penetrante do seu olhar, que às vezes algum pensamento íntimo amortecia”. Em O Primo Basílio, Eça cria um dos personagens mais expressivos da literatura portuguesa, o Conselheiro Acácio.
Na obra de Eça de Queirós, após a sua fase inicial, os seus romances de maior expressão são: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, e Os Maias, enquanto que numa terceira fase, quando o escritor já não mais participava do movimento do grupo de escritores realistas de Portugal, e já tendo a aceitação de sua obra pela crítica e pelo público, homem maduro, com uma estilística definida e de inquestionável qualidade, escreveu três romances importantes, consideradas as obras mais fantasistas de todas; pela ordem de publicação: O Mandarim, A Relíquia e A Cidade e as Serras; este último foi publicado em 1901. Além dessas obras, mencione-se ainda, A Ilustre Casa dos Ramires e A Capital, que foram publicadas em 1900 e 1925, respectivamente.
José Maria Eça de Queirós nasceu em Póvoa do Varzim, em 25 de novembro de 1845, e morreu em Neully, localidade próxima de Paris, em agosto de 1900, aos 55 anos de idade.


REFERÊNCIA:
BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. LINS, Álvaro. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Antologia da Língua Portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edit. Civilização Brasileira, vols. I e II, 1966.
KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Direção de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Edit. Larousse do Brasil, 1979.


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20/07/2014

EDGAR ALLAN POE - Antologia de Contos e Poemas



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

A Editora Civilização Brasileira editou, no ano de 1959, a Antologia de Contos de Edgar Allan Poe, traduzido por Brenno Silveira. Fiz a minha primeira leitura do livro na Biblioteca Pública de Porto Alegre, quando cursava Direito na Universidade Católica de Porto Alegre, RS, há décadas atrás; mais tarde, encontrei um exemplar numa livraria de livros usados; de lá pra cá fiz algumas releituras dessa obra clássica da literatura, do gênero conto.
Poe chama nossa atenção pela sua personalidade e pelo estilo de vida, que se manteve até a sua morte, ocorrida no dia 7 de outubro de 1849, em Baltimore, Maryland, EUA. Ao tomar conhecimento de alguns desses fatos relacionados com sua vida, passei a dar mais valor ainda às obras desse mestre do conto, da poesia e do ensaio.
Edgar Allan Poe nasceu em 1809, na cidade de Boston; seu pai, um ator que teve uma vida obscura, morreu logo após o seu nascimento; sua mãe, uma atriz inglesa, morreu no ano de 1811, em extrema pobreza, quando Poe tinha apenas dois anos de idade. Órfão, o menino foi adotado por Elizabeth e David Allan Poe, casal que vivia na cidade de Richmond; seu pai adotivo, comerciante abastado, deu-lhe o nome de família – Allan Poe.
A nova família mudou-se para a Inglaterra em 1815; Poe passou a estudar na escola particular Stoke-Newington, no subúrbio de Londres; de volta aos Estados Unidos, em 1820, passou a estudar em Richmond; foi admitido na aristocrática Universidade de Virgínia, fundada por Thomas Jefferson, poucos anos antes do seu ingresso. Poe nunca se enquadrou com o modo de vida da universidade, que estava habituada à férrea disciplina; ele, ao contrário, pessoa inquieta, tinha conduta irregular, se vista segundo a cultura desse grupo social. A bebida, o jogo, as maneiras pouco convencionais logo repercutiu no seio das famílias aristocráticas, que passaram a exigir dos professores a sua expulsão, o que acabou se concretizando.
Em atrito com sua família, por todos os motivos que o levaram à sua expulsão da universidade, Poe deixou Richmond e retornou a Boston, onde nascera. Aí publicou Tamerlane e Outros Poemas, em 1827 - o seu primeiro livro de poemas. Com esse livro não se poderia imaginar que, mais tarde, Poe se tornaria um dos maiores escritores de todos os tempos. Provavelmente, por não ter como se manter, alistou-se no exército, do qual foi expulso depois de dois anos. Mais tarde, com ajuda de John Allan, ingressou na Academia Militar de West Point, onde permaneceu até ser expulso, um ano mais tarde.
Publicou um segundo volume de versos, pouco antes de ingressar em West Point, com uma revisão de Tamerlane e Al Aaraaf, que, em 1831, foi reeditado – os versos Israfele e Para Helena denunciavam o poeta que viria ser. Em 1833, ganhou um prêmio literário instituído pelo Saturday Visitor, com o conto Um manuscrito encontrado numa garrafa; nessa época, que contava com vinte e quatro anos de idade, Poe vivia em extrema pobreza. No ano de 1847, teve algumas de suas histórias traduzidas para o francês; Charles Baudelaire ao lê-las, assim se exprimiu: “experimentara estranha emoção”. Baudelaire aguardava as revistas norte-americanas, que chegavam com a publicação dos contos e poesias de Poe.
E, foi justamente Charles Baudelaire o primeiro tradutor de contos e de ensaios de Poe, levando-os a ser conhecidos pela elite de literatos de Paris, que passaram a admirar a sua obra. Mallarmé, um dos expoentes do Simbolismo, continuou a fazer a divulgação das histórias e das poesias de Poe, que se viu consagrado nos dois anos que antecederam sua morte. Essa consagração deveu-se não apenas ao conto, mas também à excelência de sua poesia, cujos temas ficavam circunscritos à solidão, a inutilidade do esforço, ao remorso por sua vida miserável. Seus versos falam apenas de mundos interiores, sem qualquer menção ao mundo exterior. O poema O Corvo – seu poema imortal – só ficou acabado depois de ter sido modificado ao longo de dez anos. Poe não transigia quanto à qualidade literária de sua obra – que era a moldura de sua extraordinária imaginação.
Nos seus contos e novelas, as mulheres apareciam como seus principais personagens; estas, não escapavam à ideia da morte, como sendo o seu destino. Como disse Brenno Silveira, no seu prefácio da Antologia de Contos: “As terrificantes histórias que contou criaram mundos de horror, putrefatos, por onde passava sempre um sopro de morte e um odor de coisas que se decompõem – que apodrecem. Mundo em que homens e mulheres sem esperança sofrem a inelutável fatalidade, o inexorável estigma dos terríveis destinos”.
Os contos mais conhecidos de Poe são: A Máscara da Morte Vermelha, O Poço e o Pêndulo, O Gato Preto, O Palácio Assombrado, O Crime da Rua Morgue, A Queda da Casa de Usher, enquanto os seus poemas mais conhecidos são: O Corvo, Tarmelão, Israfel, Para Helena, Ulalume, Os Sinos, Al Aaraaf e Annabel Lee.
Os temas dos contos de Poe, e de suas novelas curtas estão sempre ligados a coisas sobrenaturais – fantasmas, espectros, duendes, pássaros agourentos. O certo é que esse mestre do conto e da poesia deixou em suas histórias e em seus poemas a marca de sua genialidade.
Para encerrar, ficaremos com o poema que imortalizou Vírgínia Clemm, prima-irmã de Poe, com quem se casou, quando ela tinha apenas treze anos de idade, e que, juntos, passaram por grandes privações, fome inclusive. Virgínia, que faleceu de tuberculose em consequência da pobreza em que vivia o casal, inspirou Poe a escrever O Corvo, o seu comovente e imortal poema, como se vê na sua parte parte final, que é adiante transcrita:


                                             O CORVO
 – EDGAR ALLAN POE  


"Profeta"!, exclamo. "Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Leonora,
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Leonora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

"Seja isso a nossa despedida!", ergo-me e grito, alma incendiada,
"Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
não há de erguer-se, ai! nunca mais!


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REFERÊNCIAS:
POE, Edgar Allan. Antologia de Contos. Tradução de Brenno Silveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.
POE, Edgar Allan. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Petit Larousse, 1966.
POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios. Trad. Oscar Mendes e Milton Amado. São Paulo: Editora Globo, 1999.


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11/07/2014

[Conto] CYRO MARTINS - Guri




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CYRO MARTINS (Cyro dos Santos Martins) nasceu a 5 de agosto de 1908, em Quaraí, RS; faleceu a 15 de dezembro de 1995, em Porto Alegre. O escritor  enriqueceu sua prosa com a experiência que colheu na sua cidade natal, Quaraí, nas suas próprias vivências, desde muito cedo, antes de mudar-se para Porto Alegre.
Esse conhecimento do homem do campo foi a base para a sua ficção, além de poder contar com a sua vivência na área médica, em especial na psiquiatria e na psicanálise. A soma desses dois fatores, o conhecimento da vida campeira e a experiência profissional com a psicanálise, facilitou-lhe a construção de personagens fortes e, por assim dizer, reais. Na sua ficção – romance e conto – construiu suas personagens com texto enxuto.
O livro de contos Campo Fora foi a estreia de Cyro Martins, em 1934. Sobre essa obra, escreveu Guilhermino Cesar, escritor e crítico literário: "Campo Fora trouxe ao gênero uma perspectiva social que todos os seus críticos têm valorizado; e sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as 'modas' de hoje estiverem esquecidas. Mas, a meu ver, há nele um traço que o singulariza entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de narrar”.
Segue o conto Guri, de Cyro Martins (In Campo fora/Cyro Martins. 5ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1991, p. 30-31):

        GURI
– CYRO MARTINS


Pstiu, caalo!
O pingo, bagual novo, se parara arpista com o rebuliço, instigando o ginete para uma escaramuça. Espantado, fogoso, cabeça erguida, trocando orelha, olhando longe, era um urso de grande o pangaré de Nilo.
– Cuidado, rapaz, que esse animal é velhaco.
– Não deixei as pernas em casa.
O guri, de ouvir, já sabia responder.
E não cansava de pular proezas, agachado no cavalo de sarandi, com uma tira de pano, que era a cola, quebrada em cacho de três galhos bem em cima, onde canta o galo e os cuscos não alcançam.
– Volta, volta, boi!
Batendo as aspas pontudas no atropelo da disparada xucra, a novilhada estralava os cascos duros num estrondo, como chuva de pedra, no chapadão raso como uma tábua.
Gritaria. Agachadas. Guascaços puxados. Sofrenaços. Esbarradas compridas assinalando no chão a marca da sua violência. Tiros de laço, largados com maestria uns, e outros guampeando as macegas normais. Rodadas feias. Silvos de boleadeiras pelo ar. E cavalos correndo soltos com arreios.
Um lote grande se cortou rumando o aramado. Na ponta, embora bem montado, o Ricardo, solito, não podia sujeitá-lo.
E se aproximavam ligeiro da cerca, que estava bem de pé, estirada, e era toda de madeirama nova.
A chapada, de resvaladia, era um sabão.
E a manhã, claríssima, tonteava de tanta luz.
Do oitão do rancho, montado no seu cavalinho de pau, o Nilo entusiasmado, contente, batendo os pezitos no chão, que o pingo fogoso não parava quieto, não tirava os olhos do grande cenário.
Nunca vira aquilo. E estava gostando de ver. Tinha lástima de não ser homem ainda para andar lá também, e correr e se arriscar.
Num vá, a cerca deitou. Assobiaram fios de arame arrebentados, e voaram lascas de pau, cravando longe no chão como estacas.
Tropeiro, cavalo e boiada uniram-se num bolo só.
E daí um pedação, apareceram com o Ricardo de arrasto num couro, sangrando.
Quebrara-se no golpe. Mas não gemia, procurando disfarçar a dor. O guri recolheu, na esperteza campeira dos olhitos alarifes, toda a viva emoção daquele instante supremo na vida do gaúcho.
Todos estavam calados. Ele também. Não indagava nada. Olhava normais.
O índio pediu um cigarro. Tragou uma pitada, e morreu.
Esse dia o guri não brincou.
Dias depois encontraram o Nilo, deitado embaixo do mesmo umbu, bem espichado, com um cigarro apertado entre os dentes, fingindo-se de morto.
Faz de conta que numa tropeada braba levara uma virada mui feia.
Perto, branqueando ao sol, a sua tropa. Ossada limpa!
A cerca de um fio único de barbante, suspenso antes na ponta de dois pauzinhos finos, toda caída no chão.
Ao lado do aramado, morto, o bagual pangaré.


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30/06/2014

[Crônica] LUIS FERNANDO VERISSIMO – A comadre




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, um dos escritores brasileiros mais importantes, nasceu em Porto Alegre, em 1936. No ano de 1969 o jornal Zero Hora, começa a publicar as suas crônicas. Nesse mesmo ano começou a trabalhar para a MPM Propaganda, como redator de publicidade. Mais tarde suas crônicas são publicadas nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Zero Hora.
Publicou algumas dezenas de livros: O popular (J.Olympio, 1973), Ed Mort e outras histórias (L&PM, 1979), O analista de Bagé (L&PM, 1980), A velhinha de Taubaté (L&PM, 1983), Aventuras da Família Brasil (quadrinhos, L&PM, 1985), O marido do doutor Pompeu  (L&PM, 1987), O suicida e o computador (L&PM, 1992), Comédias da vida privada (L&PM, 1994),  Américas (Artes e Ofícios, 1994), entre outros.
L. F. Veríssimo foi homenageado com o Prêmio Scopus pela Sociedade Brasileira de Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém, em novembro de 2011, em evento no Buffet França, em São Paulo. A honraria foi entregue ao escritor por Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras.
Segue o conto A comadre, de Luis Fernando Veríssimo (In O marido do doutor Pompeu/Luis Fernando Verissimo. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1987, p. 119-120):

A COMADRE
– LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


O veraneio terminou mal. A ideia dos dois casais amigos, amigos de muitos anos, de alugarem uma casa juntos deu errado. Tudo por culpa do comentário que o Itaborá fez ao ver Mirna, a comadre Mirna, de biquíni fio dental pela primeira vez. Nem tinha sido um comentário. Mas um som indefinido.
– Omnahnmon!
Aquilo pegara mal. A própria Mirna sorria sem jeito. O compadre Adélio fechara a cara, mas decidira deixar passar. Afinal era o primeiro dia dos quatro na praia, criar um caso naquela hora estragaria tudo. Eram amigos demais para que um simples deslize – o som fora involuntário, isto era claro – acabasse com tudo. E, ainda por cima, a casa já estava paga por um mês.
Naquela noite, no quarto, a Isamar pediu satisfação ao marido.
– Pô, Itaborá. Qual é?
– Não pude controlar, puxa.
– Na cara do Adélio!
– Eu sei. Foi chato. Mas saiu. Que eu posso fazer?
– Nós conhecemos a Mirna e o Adélio há o quê? Quase dez anos.
– Mas eu nunca tinha visto a bunda da Mirna.
– Ora, Itá!
– Não entende? A gente pode conviver com uma pessoa dez, vinte anos, e ainda se surpreender com ela. A bunda de Mirna me surpreendeu, é isso. Me pegou desprevenido.
– Vai dizer que você nunca nem imaginou como era?
– Nunca. Juro. Nem me passou pela cabeça. E de repente estava ali, toda. Toda ali.
– Pois vê se te controla.
Pelo resto do veraneio o Itaborá fez questão de nem olhar para o fio dental da comadre. Quando os quatro iam para a praia, se apressava para caminhar na frente. Se por acaso as nádegas da comadre passassem pelo seu campo de visão, olhava para o alto, tapava o rosto com o jornal, assobiava.
Um dia, o Itaborá e o Adélio sentados no quintal, a Mirna recém-servira a caipirinha, de biquíni, e se dirigia de volta para casa, e o Itaborá suspirou.
– O que foi – perguntou o Adélio, agressivo.
– Essa política econômica – disse o Itaborá. – Sei não. Não levo fé.
– Ah – disse o Adélio.
Até o fim do veraneio ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos o olhavam, desconfiados.



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17/06/2014

[Conto] NELSON RODRIGUES – A sogra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

NELSON RODRIGUES - Nelson Falcão Rodrigues – nasceu a 23 de agosto de 1912, em Recife, e morreu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Nelson Rodrigues é considerado o mais importante dramaturgo brasileiro do século 20. O conflito entre o desejo e a repressão foi a base com a qual desenvolveu sua dramaturgia, que teve o seu início aos 17 anos, quando seu irmão Roberto foi assassinado.
Nas suas obras não dá tréguas ao mundo pequeno-burguês, dando realce à hipocrisia que forjou o caráter de mulheres e de homens. O próprio Nelson Rodrigues provinha de um ambiente da pequena burguesia, que lhe proporcionou, desde pequeno, um forte senso crítico.
Nelson Rodrigues não foi aceito com facilidade pelo público e pela crítica, que debochava de sua dramaturgia, e que muito contribuiu para que visse censuradas muitas de suas peças.
Em 1943, a estreia da peça Vestido de noiva no Teatro Municipal do Rio, mesmo sob intensa vaia tornou-se o marco do modernismo no teatro. Retratava as taras, a falsidade e a decadência sempre em tintas expressionistas, estética que confirmou nos folhetins.
Nelson Rodrigues foi, além de dramaturgo, autor de romance, conto e crônica; no Brasil, as suas crônicas estão entre as mais importantes do século 20.  
Segue o conto A sogra, de Nelson Rodrigues (In A vida como ela é.../Nelson Rodrigues – Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 20):

A SOGRA
– NELSON RODRIGUES         

Quem não gostou foi a futura sogra. Chamou o filho. Instigou-o: “Essa menina está fazendo você de gato e sapato. Isso não é papel! Onde é que nós estamos?” Ele, que adorava a noiva, que a colocava acima de tudo e de todos, cortou o debate: “Vamos mudar de assunto, sim, mamãe?” A velha, porém, era tremenda. Largou o filho com as seguintes palavras: “Está certo, não se fala mais nisso. Mas quero te dizer uma coisa: aqui há dente de coelho.” E o fato é que, sem dizer nada a ninguém, ela andava desconfiadíssima. De quem ou de que, nem ela própria saberia dizê-lo. Nesta mesma tarde, porém, recorreu a vários conhecidos, atrás de uma informação, até que descobriu um detetive particular. Chamou o homem; perguntou:
– O senhor é discreto?
– Um túmulo!
– Ótimo. Eu preciso mesmo de um túmulo. Trata-se do seguinte...
Incumbiu o sujeito de acompanhar os passos de Margô; advertiu: “Pode ser palpite meu, mas não custa apurar.” O fulano concordou, grave: “Evidente! Evidente!” Deixou-o com a super-recomendação: “Ninguém pode saber disso!” Quarenta e oito horas depois, o detetive reaparecia, de olho esgazeado. Contou, longamente, o que apurara. De vez em quando, interrompia o relatório para exprimir seu estupor: “De arder! De arder!” Assombrada, a velha balbuciou: “Eu só acredito vendo com os meus próprios olhos!” E o detetive: “Amanhã, eu mostro o homem à senhora!”
        
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EFERÊNCIA:
JULIAN, Patrick. Quinhentos e um grandes escritores. Colaboração de José Castello. Rio de Janeiro: Sextante, 209, p. 626.

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08/06/2014

PAULO RÓNAI - A Tradução Vivida




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Vez por outra pretendo fazer abordagem sobre o tema tradução. Começo por Paulo Rónai, cidadão húngaro que, em 1941, escolheu o Brasil para viver (naturalizou-se em 1945). João Guimarães Rosa ao fazer o prefácio de Antologia do Conto Húngaro, escreveu: "Seu autor – o brasileiro Paulo Ronai – é húngaro, de nascimento e de primeira nação".
Escreveram sobre o Paulo Rónai brasileiro, na capa de Como Aprendi o Português e Outras Aventuras, outros três escritores brasileiros: Magalhães Júnior, Joel Pontes e Wilson Martins; este, disse sobre Rónai: "O senhor Paulo Rónai, intelectual húngaro, escolheu, simultaneamente, a liberdade e o Brasil. Eu, de minha parte, se me fosse dado escolher um compatriota, teria escolhi o Sr. Paulo Rónai". Também o poeta Carlos Drummond de Andrade manifestou-se sobre esse intelectual, responsável pela tradução de importantes obras, sobre as quais discorreremos em outra oportunidade:
O filólogo Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira (autor do Dicionário Aurélio) escreveu a apresentação da obra de Paulo Rónai, A Tradução Vivida (além das citações supra), depois de ter-se referido a tradução dos 17 volumes de A Comédia Humana, de Balzac e de ter mencionado que cabe a ele a denominação de homem dos sete instrumentos, professor e tradutor em mais de dez línguas: "Nas salas de aula ou de conferência, pelos jornais e revistas, no trato íntimo, exerce Paulo Rónai um magistério sereno, sem ênfase. Tem a arte de ser profundo parecendo apenas deslizar sobre os assuntos. É sutil sem afetação; eu o diria distraidamente arguto. Um clarificador, por excelência; um iluminador".
O português, como o aprendi,
Paulo Rónai conta, fagueiro,
Outra façanha dele eu vi:
Aprendeu a ser brasileiro.
Em A Tradução Vivida, obra dedicada aos escritores Dinah Silveira de Queiroz e a Dário Castro Alves, no título As Armadilhas da Tradução, escreve Paulo Rónai:
O trabalho do tradutor passa por um caminho ladeado de armadilhas. Até os melhores profissionais guardam a lembrança de um tremendo contrassenso que cometeram. São diversas as causas de tais erros. Apesar de sua diversidade, a maioria provém, em última análise, da nossa fé na existência autônoma das palavras e na convicção inconsciente de que a cada palavra de uma língua necessariamente corresponde outra noutra língua qualquer. Confirma essa ilusão o recurso constante aos dicionários, onde, por motivo de comodidade prática, os vocábulos se acham em ordem alfabética, soltos de contexto e seguidos de definição.
Como dissemos, a palavra existe apenas dentro da frase, e o seu sentido depende dos demais elementos que entram na composição desta. Ainda que dois vocábulos de duas línguas sejam definidos de maneira igual, os enunciados de que eles podem fazer parte não são os mesmos, nem as conotações que invocam serão iguais. Isso é verdade mesmo no caso de palavras da mesma origem e de forma suficientemente próxima para revelar o parentesco à primeira vista. Assim o nosso vocábulo "cópia" existe em francês, italiano e inglês sob forma quase igual, no sentido de "imitação", "reprodução". Mas copie em francês designa, além disto, trabalho escrito de aluno, assim como manuscrito entregue à tipografia de um jornal, acepções que faltam a copia em italiano e a copy em inglês; em compensação estas duas palavras possuem o sentido de exemplar, que falta em francês e português.
Ainda nesse título, As Armadilhas da Tradução, Paulo Rónai segue enumerando outras tantas armadilhas e dando a sua orientação de como evitá-las. No final desse capítulo faz uma precisa abordagem das metáforas na tradução:
Conhecer os sentidos das metáforas que se tornaram locuções figuradas nem sempre é suficiente, pois podem surgir armadilhas, como num verso de Victor Hugo, Lê poème du Jardin des Plantes, onde aparece a expressão idiomática avaler des couleuvres, que, em português, equivale mais ou menos a "comer da banda podre". Só que nos dois versos: I - l blesse le bom sens, il choque la raison/II l notre raille: il nous fait avaler la couleuvre, o poeta só usa um dos elementos do clichê (avaler) em sentido figurado, enquanto o outro (couleuvre) aparece em sentido concreto. Assim, no trecho, a locução terá de ser traduzida por "aceitar a cobra". Em todo o caso, o problema das metáforas lembra-nos mais uma vez que não estamos traduzindo palavras, mas sentenças. Noutros termos: o bom tradutor, depois de se inteirar do conteúdo de um enunciado, tenta esquecer as palavras em que ele está expresso, para depois procurar, em sua língua, as palavras exatas em que semelhante ideia seria naturalmente vazada.
Encerro transcrevendo o que disse Paulo Rónai em outra obra sua, Escola de Tradutores: Assim, nosso ofício de tradutores é um comércio íntimo e constante com a vida, como diz Valery Larbaud; não é, de forma alguma, um jogo de paciência com palavras mortas e fichadas para sempre.


REFERÊNCIAS:
RÓNAI, Paulo. A Tradução Vivida. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 34-35, 57-58.
RÓNAI, Paulo. Escola de Tradutores. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p. 19.

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