27/10/2014

ERNEST HEMINGWAY - Sua Obra & Influências



PEDRO LUSO DE CARVALHO

ERNEST HEMINGWAY iniciou sua carreira como repórter do Kansas City Star, com a idade de 17 anos. Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, Hemingway juntou-se a uma unidade de ambulância voluntária no exército italiano, como motorista. Servindo na linha de frente, foi ferido gravemente, e, para recuperar-se dos ferimentos sofridos, permaneceu por considerável tempo em hospitais. Depois de seu retorno aos Estados Unidos, passou a trabalhar como repórter para jornais canadenses e americanos, um deles, o Toronto Star Weekly, na cobertura da guerra franco-turca, que o levou a retornar à Europa. Mais tarde fixou residência em Paris.
No ano de 1923, Hemingway publicou o seu primeiro livro, The Stories and Ten Poems, numa edição de 300 exemplares; em 1924, saiu a coletânea In Our Time, com 18 contos curtos. Em 1925 publicou a sátira The Torrents of Spring. Em 1926 publicou o romance The Sun Also Rises (O sol também se levanta), em 1927, o seu segundo livro de contos, Nen Without Woman, destacando-se, entre eles, The Killers e The Undefeated, que foram considerados os melhores exemplos do conto moderno.
O reconhecimento, pela crítica literária, chegou a Hemingway com a publicação do romance A Farewell to Arms (Adeus às armas), em 1929. Os seus contos foram reunidos no livro The First Forty-Nine, em 1938. Já o romance mais longo do escritor foi publicado em 1940, cuja história se passa na Guerra Civil Espanhola, For Whom the Bell Tolls (Por quem os sinos dobram). Além dessas obras, publicou: Across the River and Into the Trees (1950), Old man and the Sea (O velho e o mar), em 1952 - que lhe deu o Prêmio Pulitzer, em 1953, e o Prêmio Nobel de 1954 -, Adventures of a Young Man (1962), Islands in the Stream (1970) e The Garden of Eden (O jardim do Éden), em 1986.
A respeito de Old man and the Sea (O velho e o mar), assim se manifesta Mário Vargas Llosa, no seu livro A verdade das mentiras, depois de ter se referido à luta de um velho pescador, que depois de ficar oitenta e quatro dias sem pescar, trava uma luta titânica de dois dias e meio contra um peixe gigantesco, que, preso a seu pequeno bote, depois de um combate não menos heroico, vem a perdê-lo no dia seguinte para os vorazes tubarões do Caribe:
Essa é uma situação clássica nas obras de ficção de Hemingway: a aventura de um homem que enfrenta, num combate sem trégua, um adversário implacável, liça graças a qual, seja derrotado ou vitorioso, atinge um valor mais alto de orgulho e de dignidade, um maior coeficiente humano. Mas em nenhum de seus romances ou contos anteriores esse tema recorrente de sua obra se materializou com a perfeição que atingiu nesse relato, escrito em Cuba, em 1951, num estilo diáfano, com uma estrutura impecável e tanta riqueza de alusões e significados como o de seus melhores romances de fôlego” (...) Sem deixar de ser uma bela e comovedora obra de ficção, esse relato é também uma representação da condição humana, segundo a visão que dela postulava Hemingway”.
Em entrevista concedida a The Paris Review, Hemingway respondeu a muitas perguntas feitas pelo entrevistador, não a todas as perguntas, esquivando-se daquelas que achava que não eram inteligentes ou que eram importunas. Para os leitores de Hemingway, ou para os que simplesmente se interessam pelas opiniões sobre literatura, escolhemos partes dessa entrevista. O entrevistador pergunta a Hemingway se na década de vinte, quando o escritor vivia em Paris, ele contou com algum ‘sentimento de grupo’ em companhia de outros escritores e artistas; esta foi a resposta:
“Não. Não havia sentimento de grupo. Tínhamos respeito uns pelos outros. Eu respeitava uma porção de pintores, alguns deles de minha própria idade, outros mais velhos: Gris, Picasso, Braque, Monet, que ainda viviam, bem como a uns poucos escritores, como, por exemplo, Joyce, Ezra e a boa Stein...”
Sobre a pergunta feita, se é influenciado sobre o que está lendo, quando escreve, respondeu:
“Não, desde que Joyce estava escrevendo Ulisses. A influência dele não foi direta. Mas, naquela época, quando as palavras que conhecíamos nos estavam interditas, e tínhamos que lutar para encontrar uma única palavra, a influência de sua obra foi o que mudou tudo, fazendo com que nos fosse possível romper com certas restrições”.
A seguir respondeu à pergunta sobre as influências de pessoas contemporâneas suas, em sua obra, bem como qual foi a contribuição de Gertrude Stein, de Ezra Pound e de Max Perkins. Essa última parte da pergunta deixou Hemingway agastado, porque o entrevistador visava tocar num assunto que não lhe era agradável, qual seja, os comentários que intelectuais e críticos literários faziam na época, em Paris, de que, na ficção, foi orientado por Gertrude Stein e Ezra Pound, tanto que, irritado, disse ao entrevistador:
“Acaso essa espécie de conversa o entedia? Esta bisbilhotice literária retrospectiva – este lavar de roupa suja depois de transcorridos trinta e cinco anos – causa-me náuseas. Seria diferente se se procurasse dizer toda a verdade. Isso teria algum valor”.
Hemingway, no entanto, responde parte da pergunta:
Miss Stein escreveu com certa prolixidade e considerável inexatidão a respeito de sua influência sobre minha obra. Foi-lhe necessário fazer isso, depois que ela aprendeu a escrever diálogos, num livro intitulado The Sun Also Rises (O sol também se levanta). Eu gostava muita dela e pareceu-me esplêndido que houvesse aprendido a escrever conversação. Quanto a Ezra, era extremamente inteligente quanto aos assuntos que realmente sabia. Aqui é mais simples e melhor agradecer a Gertrude Stein por tudo que aprendi com ela, reafirmar minha lealdade a Ezra Pound como a um grande poeta e a um amigo leal, e dizer que me interessava tanto por Max Perkins, que jamais consegui aceitar o fato de que ele morreu.
Depois, o entrevistador quis saber quais os antecedentes literários, aquele de quem mais aprendeu. Hemingway, então, passou a enumerá-los:
Mark Twain, Flaubert, Stendhal, Bach, Turguieniev, Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Andrew Marvell, John Donne, Maupassant, o bom Kipling, Thoreau, o Capitão Marryat, Shakespeare, Mozart, Quevedo, Dante, Virgílio, Tintoretto, Hieronymus Bosch, Brueguel, Patinir, San Juan de la Cruz, Góngora... Levaria um dia inteiro para lembrar-me de todos. Pareceria, ademais, que eu estaria procurando demonstrar uma erudição que não possuo, ao invés de estar apenas procurando lembrar todos aqueles que exerceram influência sobre minha vida e minha obra (...).
É novamente Vargas Llosa quem fala a respeito do livro escrito por Hemingway, Paris é uma festa, na sua obra citada:
Livro patético – canto do cisne – pois foi o último livro que escreveu -, esconde sob a enganosa pátina das recordações de sua juventude, a confissão de uma derrota. Aquele que começou assim, na Paris dos loucos anos de 1920, tão talentoso e tão feliz, tão criador e tão vital, aquele que em poucos meses foi capaz de escrever uma obra prima – O sol nasce sempre – ao mesmo tempo que espremia todos os sucos suculentos da vida – pescando truta e vendo touros na Espanha, esquiando na Áustria, apostando nos cavalos em Saint-Cloud, bebendo os vinhos e licores de La Closerie – já está morto, é um fantasma que trata de se agarrar à vida mediante aquela prestidigitação antiquíssima inventada pelos homens para, ilusoriamente, prevalecer contra a morte: a literatura.
Eric Nepomuceno, no seu livro Hemingway na Espanha, diz:
A última cidade que viu na vida foi Ketchum, em Idaho, um estado do norte dos Estados Unidos, entre Washington e Oregon à esquerda de Montana e Wyoming à direita, na fronteira com o Canadá (...). Seu último trabalho foram os textos que tentaram recuperar suas épocas de Paris, talvez a última cidade que ele conseguiu conservar intacta na memória, mesmo nos tempos em que a memória andava cada vez mais magra: dois meses antes de disparar a velha ‘Boss’ de dois canos na testa, ele ainda corrigia e armava as sobras da alegria e da felicidade.
Ernest Miller Hemingway, nasceu em Oak Park, Illinois, EUA, em 21 de Julho 1899, e morreu em Ketchum, Idaho, aos 2 de Julho 1961. Foi casado quatro vezes, e teve muitos casos amorosos. Era um dos seis filhos do médico Clarence Edmonds Hemingway (membro fervoroso da Primeira Igreja Congregacional) e de Grace Hall (cantora do coro da igreja). Ernest Hemingway pôs termo à sua vida da mesma forma que o fizera Clarence, seu pai: suicídio.


REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Trad. Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
NEPOMUCENO, Eric. Hemingway na Espanha. A outra pátria. Porto Alegre: L&PM Editores, 1991, p. 15.
VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Trad. Cordelia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: Editora ARX, 2005, p. 246, 248.


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08/10/2014

AUGUSTO DOS ANJOS – Poeta Singular



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

AUGUSTO DOS ANJOS nasceu no Engenho de Pau D’Arco, junto à vila Espírito Santo, Estado da Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu as primeiras letras com seu pai, advogado estudioso e dono de uma excelente biblioteca, na qual se encontravam obras de Darwin, Spencer e outros teóricos evolucionistas.
Cursou o secundário no Liceu Paraibano e Direito em Recife. Essa graduação, no entanto, não lhe serviu como profissão, já que nunca exerceu a advocacia, por não ser essa sua vocação, mas, sim, o magistério. Lecionou literatura no Liceu Pernambucano, e, depois, já no Rio de Janeiro, foi professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II. Daí mudou-se para Leopoldina, no Estado de Minas Gerais, onde foi diretor de um grupo escolar.
Diz-se que Augusto dos Anjos compôs os seus primeiros versos aos sete anos de idade. Mas o certo é que, mais tarde, a crítica chegaria a reconhecer ser ele o mais original dos poetas brasileiros, e de que poucos haverá, como ele, tão originais na língua portuguesa. É bem verdade que, em vida, o poeta não pode sentir esse valor atribuído à sua poesia; esse reconhecimento só viria ocorrer anos mais tarde.
Exemplo de que o reconhecimento da excepcional obra poética de Augusto dos Anjos parecia ter tido pouco significado na época em que fez, às suas expensas e com a ajuda de seu irmão, a publicação de seu livro “Eu”, é contada por Francisco de Assis Barbosa, um dos mais importantes biógrafos do poeta:
Dias depois de sua morte, ocorrida em Leopoldina, Órris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Central e pararam na porta da Casa Lopes Fernandes para cumprimentar Olavo Bilac. O príncipe dos poetas notou a tristeza dos dois amigos, que acabaram de receber a notícia. – E quem é esse Augusto dos Anjos – perguntou. Diante do espanto de seus interlocutores, Bilac insistiu: Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome. Sabem alguma coisa dele? Heitor Lima recitou o soneto Versos a um coveiro. Bilac ouviu pacientemente, sem interrompê-lo. E, depois que o amigo terminou o último verso, sentenciou com um sorriso de superioridade: - Era esse o poeta? Ah!, então, fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa.
A afirmação feita por Ivan Cavalcanti Proença, sobre Augusto dos Anjos, contraria o que disse dele Olavo Bilac: “Hoje, é um dos três mais lidos, e conhecidos poetas de antes do Modernismo, em língua portuguesa no Brasil, ao lado do nosso Castro Alves e da lírica Marília de Dirceu de Tomás Antonio Gonzaga”.
Diz Alfredo Bosi, no seu livro A Literatura Brasileira. O Pré-Modernismo, publicado em em 1966: “Augusto dos Anjos foi homem de um só livro: ‘Eu’, publicado em 1912, e cuja fortuna, extraordinária para uma obra poética, atestam as trinta edições vindas à luz até o momento em que escrevemos (1966)”.
Ivan Cavalcanti Proença enumera outras edições de Eu, de Augustos dos Anjos: a 29ª em 1963, pela Livraria São José, a 30ª (1965) e a 31ª (1971). Esta contou com o estudo de Antonio Houaiss e nota biográfica de Francisco de Assis Barbosa, com “Poemas Esquecidos” (Agrupados por De Castro e Silva em estudos de 1914 e 1954).
Acrescenta Proença, que, pela Editora Paz e Terra, saem duas edições: a de 1978, Toda a Poesia, com estudo de Ferreira Gullar e apresentação de Otto Maria Carpeaux (edição que reproduz a 31ª da São José). Em 1987 a Editora Civilização Brasileira lançou o livro Eu e Outras Poesias, com texto e notas de Antonio Houaiss, o Elogio... de Órris Soares, o estudo biográfico de Francisco de Assis Barbosa. Além dessas edições, saíram as edições da Martins Fontes, em 1994,  da Paz e Terra e Nova Aguilar, ambas em 1995.
O professor Sergius Gonzaga assim se manifesta sobre o poeta, em sua obra Curso de Literatura Brasileira:
Augusto dos Anjos é um caso a parte na poesia brasileira. Autor de grande sucesso popular foi ignorado por certa parcela da crítica, que o julgava mórbido e vulgar. Alguns estudiosos que se debruçaram sobre essa obra única e absolutamente original perderam tempo discutindo se a mesma era parnasiana ou simbolista. O domínio técnico e o gosto pelo soneto comprovariam o primeiro rótulo. A fascinação pela morte, a angústia cósmica e o emprego de ousadas metáforas, indicariam a tendência simbolista.
Esse debate tornou-se obsoleto perante estudos mais apurados, como o de Ferreira Gullar, que acentua a modernidade dos versos de “Eu”. Diz Gullar: “Talvez nenhum outro autor do período merecesse tanto a denominação de pré-modernista como Augusto dos Anjos. Pré-modernista ele o é na mistura de estilos, na linguagem corrosiva, no coloquialismo e na incorporação à literatura de todas às sujeiras da vida”.
Durante muito tempo, discutiu-se se ele era ou não um grande poeta. Hoje, os estudiosos sublinham sua singularidade temática e linguística, mesmo reconhecendo eventuais deslizes. Alguns, contudo, lembram a morbidez e a vulgaridade desenfreada de várias composições. Pode-se gostar ou não de sua obra, mas sonetos como Versos Íntimos estão de tal forma entranhada na memória do leitor brasileiro que não mais podem ser ignorados. Tornaram-se clássicos.
O poema que Augusto dos Anjos dedica ao seu pai falecido revela o seu sentimento de angústia diante da morte, uma perspectiva sempre presente, desde que soube da doença que o acometia, a tuberculose, e que, mais tarde, viria tirar-lhe a vida:

Podre meu pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!

Podre meu pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

Augusto dos Anjos (Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos) era um dos quatro filhos de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos. Em 1910, antes de mudar-se para o Rio de Janeiro, casou-se, aos 23 anos, com Ester Fialho, com quem teve dois filhos: Glória (1912) e Guilherme (1913). Faleceu aos 12 de de novembro de 1914, em Leopoldina – para onde se mudara para tratar da tuberculose – vítima de congestão pulmonar.


REFERÊNCIAS:
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: editora Leitura XXI, 2004.
LINS, Álvaro. BUARQUE de Hollanda, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Antologia da Língua Portuguesa, Ed. Civilização Brasileira, 1966.
BOSI, Alfredo. A Literatura Brasileira. O Pré-Modernismo. São Paulo: Editora Cultrix, 1966.
PROENÇA, Ivan Cavalcanti. Estudos e Notas. Antologia Poética de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Editora Ediouro, 1997.

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21/09/2014

[Carta] HERMANN HESSE / Thomas Mann



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Além da sólida amizade existente entre Thomas Mann e Hermann Hesse, por mais de 50 anos, tinham em comum a mesma nacionalidade: Alemanha. Thomas Mann nasceu em Lübeck, em 6 de junho de 1875, e Hermann Hesse nasceu em Calw, em 2 de julho de 1877.
Os dois amigos deixaram a Alemanha por motivos políticos. Mann passou a viver nos Estados Unidos, por muitos anos, e depois na Suíça, o mesmo país escolhido por Hesse, onde faleceram em 1960 e 1962, respectivamente.
Culturalmente, também tinham muitos pontos em comum: ambos ganharam o Prêmio Nobel de Literatura. Thomas Mann recebeu-o em 1929 e Hermann Hesse em 1946. Em razão da excelência de suas obras, os dois figuram entre o mais importantes escritores europeus.
Thomas Mann será lembrado por suas obras: Os Buddenbrooks (Prêmio Nobel), A Montanha Mágica, A Morte em Veneza, Tônio Köeger, entre outros; Hermann Hesse, por sua vez, será lembrado pelas obras: O Jogo das Contas de Vidro (Prêmio Nobel), Sidarta, O Lobo da Estepe, Narciso e Goldmund, Demian, entre outros.
Theodore Ziolkwki ao fazer a apresentação do livro Briefwechsel, no ano de 1973, em Princeton, disse: “Segundo as avaliações até agora feitas, Thomas Mann escreveu na sua vida pelo menos 25.000 cartas. Hermann Hesse, em contrapartida, mais de 35.000”.
A obra Briefwechsel (título original alemão) foi publicada no Brasil pela Editora Record, com o título Correspondência Entre Amigos, com tradução da conceituada escritora Lya Luft.
A carta de Hermann Hesse para Thomas Mann, que segue, demonstra um pouco o seu estado de espírito no tocante a guerra e a política que envolvia a Alemanha no período compreendido entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial (In HESSE, Hermann e MANN, Thomas. Correspondência Entre Amigos. Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro: Editora Record, 197?, p. 84):
Caro Senhor Mann!
Desta vez minha mulher é culpada por esta carta vir importuná-lo. Escrevo duas vezes ao ano sobre livros novos para uma revista sueca, e comecei meu mais recente comentário com seu último livro. Quando minha mulher leu o manuscrito, lamentou que o senhor não o visse, ou só viesse a conhecer a tradução sueca. Desta maneira, copiei-o e o estou enviando.
Essas resenhas de livros para a Suécia são o recurso com que pretendo salvar minha atividade quando, mais cedo ou mais tarde, a Rundschau nos for tirada. Talvez também seja a pólvora que um dia me levará pelos ares; como aqui e ali elogio livros antialemães, livros proibidos e autores exilados, é possível que me ponham por isso na lista negra. Assim, tenho motivos de não me expor nem me poupar, quer dizer, mantenho um julgamento neutro, por mais fictício que ele possa parecer. Não faço rapapés diante dos teutônicos nem cedo ao impulso de me divertir com um acesso de fúria deles. Espero que as coisas estejam correndo regularmente bem para o senhor.
Afetuosas saudações a ambos, do seu H. Hesse.
  

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11/09/2014

ANTON TCHEKHOV - A Dama do Cachorrinho



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
       
ANTON TCHEKHOV escreveu o conto A dama do cachorrinho, uma de suas obras-primas, no final de 1899, quando se encontrava em Ialta, época em que sua saúde estava seriamente abalada. Maximo Gorki, amigo de Tchekhov, escreveu-lhe, após ter lido esse conto:
Li sua Dama. Sabe você o que está fazendo? Está matando o realismo. E acabará de matá-lo. Em breve há de liquidá-lo por muito tempo. Essa forma já viveu o que tinha de viver – é um fato! Ninguém pode ir mais longe que você por esta senda, ninguém pode escrever com tamanha simplicidade sobre coisas tão simples, como você sabe. Depois do mais insignificante de seus contos, tudo o mais parece grosseiro e escrito não com a pena, mas com um pedaço de pau. E, principalmente, tudo parece não simples, isto é, inverídico. É verdade (...) E quanto ao realismo, você vai exterminá-lo mesmo. Estou contente ao extremo. Chega! Diabo que o carregue!
Gorki prossegue com sua carta para o amigo Tchekhov: “Com efeito, chegou o tempo de se necessitar de algo heroico: todos desejam algo excitante, colorido, que não seja parecido com a vida, mas sim mais elevado que ela, melhor, mais belo. É absolutamente indispensável que a literatura atual comece a enfeitar um pouco a vida e, logo que ela o comece, a vida se embelezará, isto é, os homens viverão de modo mais veloz e vibrante. E, agora, veja que olhos ordinários eles têm: enfastiados, turvos, congelados”.
Sobre essa almejada transformação da literatura, realizada por Tchekhov, continua Gorki:
Você realiza uma obra colossal, com seus pequenos contos, despertando nas pessoas uma repulsa por esta vida sonolenta, meio morta – diabo que a carregue! A sua dama causou-me tamanha impressão que, apenas a conheci, quis trair minha mulher, sofrer, brigar etc. Mas não traí a mulher, pois não havia com quem, apenas briguei com ela decididamente e fiz o mesmo com o marido da irmã dela, meu amigo do peito. Vai ver que você não esperava tamanho resultado? Mas não estou brincando: aconteceu isso mesmo. E não é comigo apenas que acontecem coisas assim, não ria. Seus contos são frascos elegantemente facetados, contendo todos os perfumes da vida, creia-me! Um olfato sensível sempre encontrará neles o perfume fino, penetrante e sadio do “real” verdadeiramente necessário e precioso que sempre existe em cada um de seus frascos. Bem, vou parar, senão vai pensar que estou lhe fazendo cumprimentos.
Ainda, sobre a repercussão do conto de Tchekhov, A dama do cachorrinho, agora com a manifestação de Tolstoi, como foi anotado no seu diário, em 16 de janeiro de 1900: “Li A dama do cachorrinho, de Tchekhov. Sempre Nietsche. Pessoas que não elaboraram em si uma clara visão do mundo, que separe o bem e o mal. Antes se intimidavam, ficavam à procura, mas agora, acreditando encontrar-se além do bem e do mal, permanecem aquém, isto é, quase uns animais”.
T.L. Chechépkina-Kupérnik afirma, em suas reminiscências: “Seus pequenos contos valem as obras em muitos volumes de outros. Tome-se, por exemplo, A dama do cachorrinho: Turgueniev teria aí tema para um romance inteiro. Tchekhov acomodou-o em algumas dezenas de páginas, mas nessas páginas se vê e se sente não só o drama pessoal de duas ou três pessoas, mas todo o quotidiano da ‘intelienguêntzia’ de então, que se sufocava sob os pesos dos preconceitos, das noções falsas sobre decência etc, que muitas vezes destruíam a vida e o íntimo das pessoas”.
Em A dama do cachorrinho, Tchekhov criou o personagem Gurov, homem casado, que, na estação de veraneio de Ialta, conheceu a dama do cachorrinho, Ana Sierguieivna, mulher também casada, que, uma semana após o primeiro encontro, levou-o ao seu quarto. O que se passa na mente de Ana e Gurov, nesse primeiro encontro, é contado com sutileza e maestria por Tchekhov. Passado algum tempo, Ana regressa para sua casa, numa província perto de Moscou, e Gurov regressa a Moscou e reassume o seu trabalho no banco. Gurov não conseguindo esquecer Ana, procurou-a mais tarde em sua casa; com medo de ser descoberta pelo marido, prometeu encontra-se com ele em Moscou. A partir daí passaram a encontrar-se a cada dois ou três meses; os amantes convencem-se de que foram feitos um para o outro; mas não há uma solução definitiva para o caso; Tchekhov deixa o desfecho por conta do leitor.
Essa falta de conclusão no conto A dama do cachorrinho espantou os críticos de Tchekhov, como V. Burênin, que escreveu no Nórvíe Vrênia, em 25 de janeiro de 1900: “O final nas obras deste literato de talento surge no ponto em que, segundo parece, deveríamos esperar o verdadeiro trabalho do criador”. Além do caráter fragmentário do conto, outros críticos fizeram restrições ao conto sob o aspecto moral. Hoje, evidentemente, tais críticas não seriam feitas por críticos sérios, quer quanto à forma, quer quanto ao seu conteúdo.
A dama e o cachorrinho e outros contos, obra publicada no Brasil pela editora 34, em 1999, com tradução do conceituado Boris Schnaiderman, que também foi o responsável por um excelente Posfácio, do qual extraí os trechos que se relacionam com Tchekhov e Gorki, além de Tolstói, T.L. Chechépkina-Kupérnik e V. Burênin. As publicações anteriores foram feitas em 1959 pela Civilização Brasileira, e pela Max Limonad, em 1985 e 1986.


REFERÊNCIAS:
TCHEKHOV, Anton Pavlovitch. A dama do cachorrinho e Outros Contos. Trad. de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 1999.
MASON, Jayme. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1995.
LAFFITTE, Sophie. Tchekhov. Tradução de Hélio Pólvora. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1993.


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28/08/2014

SUSAN SONTAG – Uma Entrevista




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

O primeiro livro de ficção de Susan Sontag, O benfeitor, foi publicado no Brasil em 1963 pela L&PM, com a tradução de Ana Maria Capovilla. Essa editora já havia publicado seus livros de ensaio e crítica: Contra a interpretação, Sob o signo de Saturno e A doença como metáfora. Sontag publicou ao todo 15 livros, entre eles os romances The Benefactor, Death Kit e The Volcano Lover; publicou também uma coletânea de contos e três coletâneas de ensaios.
Versátil, Sontag escreveu e dirigiu quatro filmes: Duets for Cannibals, Brother Carl, Promised Land e Unguided Tour (de 1969 a 1983). Também editou e apresentou textos de Antonin Artaud, Roland Barthes e Danilo Kis. Mais ainda: escreveu prefácios para os livros de Robert Walser, Marina Tsvetayeva, Machado de Assis e Juan Rulfo, entre outros, no período de 1982 a 1995.
Susan Sontag foi uma das mais importantes intelectuais dos Estados Unidos. Nasceu em Nova Iorque, em 1933, e criou-se no Arizona e Carolina do Sul, tendo-se formado em 1951 na Universidade de Chicago. Recebeu dois títulos de Mestre na Universidade de Harvard: Inglês, em 1954, e Filosofia, em 1955.
Sua vida acadêmica, como professora de Filosofia e de História da Religião, foi até o início dos anos 60. Viveu em Paris por um ano, depois passou a residir em Nova Iorque, com retornos frequentes à Europa. Dentre os prêmios que ganhou destaque-se: National Book Critics Circle Award, com Photography, em 1977.
Segue trechos da entrevista que Susan Sontag concedeu a Edward Hirsch para The Paris Review, entrevista essa que se estendeu por três dias, no seu apartamento em Manhattan, no mês de julho de 1994 (In Plimpton, George. The Paris Review. Escritoras e a arte da escrita. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001):
Hirsch pergunta se ela se incomoda se a chamam de intelectual.
SONTAG: Bom, a gente não gosta de ser chamada de coisa alguma. E essa palavra tem mais sentido para mim como adjetivo do que como substantivo, embora eu suponha que se refira sempre a alguém extravagante e sem graça – especialmente se for mulher. Isso me torna ainda mais engajada em minhas polêmicas contra os clichês comuns sobre os intelectuais que fala de coração versus cabeça, sentimento versus intelecto e assim por diante.
Que mulheres foram importantes para a senhora?
SONTAG: Muitas. Sei Shonagon, Jane Austen, George Eliot, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Marina Tsvetayeva, Anna Akhmatova, Elizabeth Bishop, Elizabeth Hardwick… a lista não acaba. Do ponto de vista cultural as mulheres são uma minoria, e com minha consciência de pertencer à minoria, eu me regozijo com as contribuições das mulheres. Com minha consciência de escritora, me regozijo com quaisquer escritores que admire, sejam mulheres ou homens.
Hirsch diz-lhe que a sua impressão é de que sua ideia madura (Sontag) de uma vocação é mais europeia do que americana.
SONTAG: Não tenho tanta certeza. Acho que é minha marca particular. Mas é verdade que, vivendo na segunda metade do século XX, posso satisfazer meus gostos europeus sem propriamente me expatriar e ainda passar boa parte de minha vida adulta na Europa. Esse tem sido meu jeito de ser americana. Como Gertrud Stein observou: ‘Para que servem as raízes se você não pode carregá-las com você?’ Pode-se dizer que isso é muito judeu, mas é americano também.
Existe alguma coisa que a ajude a começar a escrever?
SONTAG: A leitura – que raramente está relacionada com o que estou escrevendo, ou desejando escrever. Leio muito sobre história da arte, história da arquitetura, musicologia, livros acadêmicos sobre vários assuntos. E poesia. Começar é, em parte, ganhar tempo, ganhar tempo lendo e/ou escutando música, o que me dá energia e também me angustia. Sinto-me culpada por não estar escrevendo.
Ficou antiquado pensar-se que o propósito da literatura é de nos educar sobre a vida?
SONTAG: Bem, de fato ela nos educa sobre a vida. Não seria a pessoa que sou, não compreenderia o que compreendo se não fossem alguns livros. Estou pensando na grande questão da literatura russa do século XIX: como se deveria viver? Um romance que merece ser lido é um aprendizado do coração. Alarga o sentido das possibilidades humanas, do que é a natureza humana, do que acontece no mundo. É um criador de vida interior.
A literatura provoca êxtase?
SONTAG: Certamente, mas menos confiável do que o da música e da dança: a literatura tem mais a ver com a cabeça. Precisamos ser rigorosos com os livros. Só quero ler o que vou querer reler – essa é a definição de um livro que vale a pena.
A senhora sempre volta atrás e relê seus trabalhos?
SONTAG: Só para rever traduções. Não, de modo algum. Não sou curiosa. Não sou apegada à obra que já está pronta. E também porque não quero reconhecer que tudo é sempre igual. Talvez eu sempre relute em reler qualquer coisa que tenha escrito há mais de dez anos porque isso destruiria minha ilusão de que estou sempre começando. É isso que é mais americano em mim: sempre sinto que é um novo começo.
No final da entrevista da qual foi transcrita apenas parte dela, como disse acima, Edward Hirsch, da The Paris Review, pergunta à escritora: A senhora pensa muito no público que vai ler seus livros?
SONTAG: Não ouso. Não quero. Mas, de qualquer modo, não escrevo porque existe um público, mas escrevo porque existe a literatura.
Susan Sontag foi casada com Philip Rieff (1950), sociólogo e crítico cultural, e professor das Universidades de Berkeley e Harvard, entre outras, e ficou conhecido pelos seus estudos sobre Freud e sobre a ética na cultural ocidental; do casamento, que durou nove anos, nasceu um filho, David Rieff, jornalista e analista de política internacional. A escritora morreu em Nova Iorque, em 28 de dezembro de 2004 - 19 dias antes de completar 71 anos.


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12/08/2014

ÁLVARES DE AZEVEDO – Se Eu Morresse Amanhã!



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
ÁLVARES DE AZEVEDO, cujo nome completo era Manoel Antônio Álvares de Azevedo, nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831. Seus pais, Inácio Manoel Álvares de Azevedo e D. Luísa Silveira da Nota Azevedo, mudaram-se para o Rio de Janeiro, em 1833.
Nos anos de 1848-1851, Álvares de Azevedo cursa a Faculdade de Direito de São Paulo. Convive com Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa, José de Alencar. Em 1849, funda a Associação do Ensaio Filosófico. Estuda, lê muito e escreve toda sua obra.
Em fins de 1851 e início de 1852, passa em Itaboraí, onde espera recuperar a saúde. O poeta, no entanto, é assaltado pelo pressentimento da morte. Então, pensa em mudar-se para Recife e terminar a faculdade, pois sente que morrerá em São Paulo.
No dia 10 de março de 1852, sofre uma queda ao voltar de um passeio a cavalo; sente, depois, disso que os sintomas da tuberculose agravam-se. Seus médicos diagnosticam um tumor na fossa ilíaca, e o operam. Depois da operação melhora, mas em 25 de abril, desse mesmo ano, vem a falecer, com apenas vinte e um anos de idade. Foi sepultado no cemitério Pedro II, na Praia Vermelha, depois seu corpo foi transladado para o Cemitério São João Batista.
Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda dizem que “Álvares de Azevedo foi talvez o mais bem-dotado de todos os poetas brasileiros”. (In Roteiro Literário de Portugal e do Brasil, vol. II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 106).
Segue o poema de Álvares de Azevedo intitulado Se eu morresse amanhã! (In Álvares de Azevedo, Poesia, Antologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1960, p. 91):


SE EU MORRESSE AMANHÃ!
– ÁLVARES DE AZEVEDO


Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

           
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