12/04/2014

MANOEL BANDEIRA – Pneumotórax



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1903, Manoel Bandeira muda-se para São Paulo e matricula-se na Escola Politécnica. O pai, engenheiro, influenciara o filho a tornar-se arquiteto. Emprega-se na Estrada de Ferro Sorocabana. À noite, frequenta o Liceu de Artes e Ofícios, onde estuda desenho de ornato.
No ano seguinte, adoece  do pulmão e abandona os estudos. Volta ao Rio e depois vai para Teresópolis, Maranguape, Uruquê e Quixeramobim, cujos climas frios foram indicados para o tratamento da doença.
Bandeira escreve, sob a influência de Guilhaume Apollinaire, os primeiros versos livres, em 1912. Um ano depois, embarca para a Europa, e, por indicação do escritor brasileiro João Luso, interna-se no sanatório de Clavadel, perto de Davos Platz, para tratar de sua saúde.
No sanatório, conhece Paul Éluard, que também sofria de tuberculose. Na Europa, o poeta retoma o estudo do idioma alemão, que havia iniciado no ginásio.   A volta do poeta ao Brasil dá-se em 1914, quando eclode a Primeira Guerra Mundial.
No Rio de Janeiro, Bandeira dedica-se à leitura de Goethe, Lenau e Heine. Passa a residir na rua N. S.ª de Copacabana (mais tarde avenida) e depois na rua Goulart, no Leme.
Em 1916, falece a mãe do poeta. No ano seguinte, publica A cinza das horas, o seu primeiro livro, cujos duzentos exemplares foram impressos nas oficinas do Jornal do Comércio.
Segue o poema de Manoel Bandeira, intitulado Pneumotórax, (In Libertinagem & Estrela da manhã / Manuel Bandeira –  1. ed. especial –  Rio de Janeiro:  Nova Fronteira, 2005 (40 Anos, 40 Livros), pág. 15:

PNEUMOTÓRAX
– MANOEL BANDEIRA


Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que poderia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
– Respire.

...............................................................

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


*


Você pode ler a primeira parte, com um clique em: MANOEL BANDEIRA / Auto-retrato.


REFERÊNCIA:
BANDEIRA, Manoel. Seleta de prosa e verso; organização, estudos e notas de Manoel de Moraes. 2ª ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975.



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29/03/2014

MANOEL BANDEIRA / Auto-Retrato



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

MANOEL BANDEIRA (Manoel Carneiro de Souza Bandeira Filho) nasce no Recife, a 19 de abril de 1886. Com apenas três anos, muda-se para o Rio em 1890 com seus pais, Manoel Carneiro de Souza Bandeira, engenheiro civil, e Francelina Ribeiro de Souza Bandeira.
No mesmo ano de 1890 a família muda-se do Rio para Santos e São Paulo, depois para Petrópolis, onde permanece por dois anos, e de onde o poeta guarda as melhores lembranças, cujas imagens são evocadas no seu poema Infância.
No ano de 1892, Manoel Bandeira retorna com a família a Pernambuco, e passa a frequentar o colégio dos irmãos Barros Barreto. Em 1902 a família retorna ao Rio, indo residir na Travessa Piauí, depois numa casa na Rua Senador Furtado, em Laranjeiras, onde permanece durante seis anos.
Nesse período, Manoel Bandeira toma gosto pela literatura e pelos clássicos portugueses. Chega a decorar os episódios principais de Os Lusíadas. Nessa época, o jovem de dezesseis anos, encontra-se num bonde com o Machado de Assis, e declama durante a viagem alguns trechos do poema de Camões.
O ambiente que lhe oferece o Colégio Pedro II, com professores ilustres como José Veríssimo, Carlos França, João Ribeiro, dentre outros, deram alce ao poeta, que vê publicado o seu primeiro poema, em alexandrinos, na primeira página do jornal Correio da Manhã.
 O poema Auto-retrato, que segue, foi escrito por Manoel Bandeira muitos anos depois do seu primeiro poema:


AUTO-RETRATO
– MANOEL BANDEIRA


Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

  *
 
    (Mafuá do Malungo)

Você poderá ler a segunda parte, com um clique em MANOEL BANDEIRA - Pneumotórax

 REFERÊNCIA:
BANDEIRA, Manoel. Seleta de prosa e verso; organização, estudos e notas de Manoel de Moraes. 2ª ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975.

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25/03/2014

[Conto] CARLOS CARVALHO - Segunda-Feira




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980 destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista. Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com suas peças, mas também como ator e diretor.
O livro de contos, Calendário do medo deu ao seu autor, Carlos Carvalho, o II Prêmio no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná. - FUNDEPAR.
Na Casa de Cultura Mario Quintana, uma das salas de espetáculos leva o nome de Carlos Carvalho, uma homenagem da Secretaria de Cultura de Porto Alegre ao dramaturgo.
O conto que segue, Segunda-feira, integra o livro de Carlos Carvalho, Calendário do medo, 3ª ed. Porto Alegre, Editora Movimento, 1975, p. 43-44:

                                                   
                                                     SEGUNDA FEIRA
  – CARLOS CARVALHO


De manhã cedo a mãe vai chamá-lo. Resmunga. De cuecas, arrasta os chinelos pela casa, lava o rosto na água fria, demora-se no banheiro.
Enquanto a mãe prega o botão na camisa, alisa o cabelo empastado de brilhantina. Olha o relógio: sete e cinco. Tem ainda quarenta e cinco minutos. Boceja.
Em criança, queria ser dentista. Com a morte súbita do pai, precisou trabalhar e não sobrou tempo para o estudo. Recém-saído do serviço militar empregou-se como vendedor numa firma de peças de automóveis. Aos trinta e cinco anos, ainda lá continua, à espera de uma promoção.
como o ordenado é pequeno e ganha gratificações pelas vendas, trabalha da manhã à noite. Foi, inclusive, citado pelo Diretor na festa do fim de ano e recebeu um diploma de Honra ao Mérito, que a mãe emoldurou e colocou na parede.
Nos sábados, à noite, vai ao cinema. Na volta, não se demora na rua, pois a mãe sofre do coração e não pode ficar só. Nos domingos, acorda ao meio-dia, toma uma cerveja no almoço e passa a tarde lendo revistas em quadrinhos, o cinzeiro enchendo de pontas de cigarro.
– Você ,precisa casar, meu filho.
– Tem tempo, mãe.
Coleciona fotografias de mulheres nuas, que esconde no armário, embaixo das roupas. Na rua caminha com passos lentos e pesados. A mãe diz que se parece com o pai. Sorri sem abrir muito a boca, para esconder a falha do dente.
Ultimamente tem sentido uma dorzinha enjoada na boca do estômago. Não conta à mãe, para não assustá-la. Temendo que seja úlcera, bebe um copo de leite em cada bar que entra.
Antes de sair, lava a louça do café, que a velha não pode fazer esforço.
– Depressa, meu filho, você vai se atrasar.
Pede dinheiro à mãe, que guarda o seu ordenado, e veste a camisa, enquanto ela recomenda:
– Cuidado no atravessar a rua.
Alisa ainda uma vez o cabelo, beija a mãe e sai. Da porta, ela abana, orgulhosa do filho. E os passos dele, iniciando a semana, parecem os de um bicho se arrastando penosamente.




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17/03/2014

[Poesia] LÊDO IVO – A coruja




PEDRO LUSO DE CARVALHO

LÊDO IVO, escritor e poeta, estreou na poesia com As imaginações, livro que foi publicado em 1944, no Rio de Janeiro, pela Pongetti. Dessa data, até 2008, quando publicou Réquiem, pela editora Contra Capa, teve uma produção poética bastante extensa. Às suas inúmeras obras poéticas somam-se as Antologias poéticas, nas quais participou.
O escritor iniciou-se no romance em 1947, com As alianças, com o qual obteve o Prêmio da Fundação Graça Aranha, que teve a sua publicação no Rio de Janeiro, pela Agir. Em 2007, foi publicado o romance A morte do Brasil, em sua 3ª edição, em Belo Horizonte, pela Editora Leitura. Entre 1947 até 2007 produziu outros romances importantes.
A narrativa curta também foi explorada por Lêdo Ivo; o seu primeiro livro de contos, Use a passagem subterrânea, de 1962, foi publicado em São Paulo pela Difusão Europeia do Livro, em 1962. Depois, foram publicados: O flautim, Um domingo perdido, entre outros.
A crônica igualmente atraiu Lêdo Ivo: A cidade e os dias, foi publicada pela O Cruzeiro, em 1957 – outras se seguiram. O escritor também se fez presente no ensaio; escreveu, entre outros: Lição de Mário de Andrade, em 1951, O preto no branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira. Na literatura Infanto-juvenil, fez sua esteia com O menino da noite, em 1995 – outros vieram nessa esteira.
Lêdo Ivo nasceu em Maceió, a 18 de fevereiro de 1924, e morreu em Sevilha, no dia 23 de dezembro de 2012. Foi membro da Academia Brasileira de Letras.
Segue o poema A Coruja, de Lêdo Ivo (in Ivo, Lêdo. Calabar: um poema dramático. Rio de Janeiro: Record, 1985, p. 90-91):

A CORUJA
( Lêdo Ivo )

Minha noite é o dia
que enxota os sóis intrusos.
Qualquer vento enferruja
os portões e os navios
e muda em garatuja
as inscrições latinas
acima das cornijas.
Minha noite é a luz
sem subterfúgios
que atravessa o fundo
das agulhas mais finas
ou a fagulha dormida
em seu leito de hulha.
Só junto aos semáforos
desta capitania
sou a sentinela
das coisas encobertas
velhas botijas de ouro
gárgulas de cimalha
tocaia ou valhacouto.
E na alvura da noite
branca de mandioca
e esplêndida de coitos
estou onde está o homem:
na malha que o cinge
no abraço que o enlaça
na traça que o rói
no passo do sonâmbulo
na prega da mortalha.

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REFERÊNCIA:

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08/03/2014

JORGE LUIS BORGES – O credo de um poeta





– PEDRO LUSO DE CARVALHO

JORGE LUIS BORGES nasceu a 24 de agosto de 1899, em Buenos Aires, Argentina. Foi fabulista, poeta, contista, ensaísta e mitólogo. Educado num lar bilíngue, aprendeu a escrever em inglês antes de sua língua pátria. Na casa em que morava com a família, o menino Jorge passava boa parte de seu tempo na ampla biblioteca de seu pai.
Já adulto Borges sofreu a influência de poetas espanhóis da vanguarda radical. Seu nome passou a ter visibilidade nos anos 1920, como poeta e ensaísta. As obras em prosa passaram a ser admiradas nos anos de 1930.
Do fim dos anos 1950 até a sua morte – 14 de junho de 1986, em Genebra, Suíça - Borges fez muitas palestras e voltou a escrever poemas, já que sua deficiência visual dificultava sua escrita em prosa.
Segue um trecho de O credo de um poeta, de Jorge Luis Borges (In Borges, Jorge Luis. Esse ofício do verso. 2ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 103):


O CREDO DE UM POETA (fragmento)

– JORGE LUIS BORGES


Meu propósito era falar sobre o credo do poeta, mas, olhando para mim, descobri que tenho apenas um tipo claudicante de credo. Esse credo talvez possa ser útil para mim, mas dificilmente é para os outros.
Aliás, acho que todas as teorias poéticas são meras ferramentas para escrever um poema. Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas. Embora no final eu diga sobre os meus gostos e desgostos  no tocante à escrita da poesia, acho que vou começar com algumas memórias pessoais, não só de escritor, mas também de leitor.
Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li  é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.


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27/02/2014

SACCO & VANZETTI – Um Erro Irreparável



  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

No dia 23 de agosto de 1927, nos Estados Unidos, Sacco e Vanzetti foram executados na cadeira elétrica, por um crime que não cometeram. Nos autos do processo, nenhuma prova da autoria do crime. Sete anos, foi o tempo que a justiça levou para condená-los, a contar do recebimento da denúncia do promotor de justiça pelo juiz.
Nesse lapso de tempo, protestos da comunidade intelectual norte-americana se sucediam, inconformada com a sentença condenatória dos dois humildes italianos. Milhares pedidos de clemência foram encaminhados por eles, aos quais se somaram tantos outros pedidos do mundo inteiro. Mas, tudo foi inútil. A sentença condenatória teria de ser cumprida para servir de exemplo ao povo, para que se distanciasse do anarquismo e do comunismo.
Depois que foi publicada a sentença condenatória de Sacco e Vanzetti, que culminou com a morte de ambos na cadeira elétrica, o sonho americano de uma sociedade justa e igualitária encontrava-se por terra. Aí, começaria o desencanto de parte do povo sensível à justa aplicação da justiça e do tratamento igualitário de seus cidadãos.
Um reconhecido nome da literatura estadunidense, Katherine Anne Porter, autora de A Nau dos Insensatos, livro que se tornou best-seller, entre outras obras, e que também foi publicado no Brasil, , fez parte de comitês de protestos, e escreveu The Never Ending Wrong, que aqui recebeu o título de Sacco e Vanzetti: Um Erro Irreparável, traduzido por Sebastião Uchoa Leite (Rio de Janeiro: Salamandra, 1978).
Katherine Anne Porter inicia assim o seu livro:
Durante alguns anos, no início da década de 1920, quando eu vivia parte do meu tempo no México, cada vez que voltava a New York eu retomava o fio da estranha história dos imigrantes italianos Nicola Sacco, um sapateiro, e Bartolomeo Vanzetti, um peixeiro, acusados de um assalto brutal a um caminhão de pagamentos, incluindo homicídio, em South Braintree, Massachuseetts, no começo da tarde do dia 15 de abril de 1920.
O sofrimento desses dois italianos, que também eram vistos como anarquistas, começou no ano de 1921, quando, após a condenação de ambos nesse mesmo ano, foram levados para a cela da morte, de onde entravam e saiam, quando havia suspensão da pena, até o dia fatal, como conta Katherine Anne Porter, no seu livro:
Foram levados para a morte na cadeira elétrica na prisão de Charleston à meia-noite do dia 23 de agosto de 1927. Uma meia-noite desolada e sombria, uma noite para a perpétua recordação e luto. Eu era uma das muitas centenas de pessoas que permaneceram em ansiosa vigília, observando a luz na torre da prisão, que nos tinham dito que se apagaria no momento da morte. Foi um momento de estranho e profundo abalo.
E aí termina a triste história de Bartolomeo Vanzetti, que nasceu em Piemonte, Itália, em 1888, e de Nicola Sacco, que nasceu na província de Foggia, no sul da Itália, em 1891. Vanzetti morreu com 39 anos de idade, e Sacco com 36 anos.
E, para quem se interessar pela história completa deles, poderá ler esta obra de Katherine Anne Porter, Sacco e Vanzetti: Um Erro Irreparável, ou assistir ao excelente filme: Saco e Vanzetti, filmado na Itália, em 1971, e dirigido por Giuliano Montaldo, com interpretação de Gian Maria Volunté e Ricardo Cucciolla nos papéis-título; estes ganharam o prêmio de melhor interpretação no Festival de Cannes. A canção título é interpretada por Joan Baez. O filme esteve proibido no Brasil, por vários anos, pela censura da Ditadura Militar.


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17/02/2014

[Crônica] RUBEM BRAGA – Ao crepúsculo, a mulher...


     – PEDRO LUSO DE CARVALHO

A paixão de Rubem Braga, que veio da adolescência (escrevia para um jornal de sua cidade), fez com que não exercesse atividades ligadas ao Direito, em que se formou. Sua atividade como jornalista é prova suficiente de que fez a escolha correta. Escreveu para vários jornais onde residiu (São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro).
Fora de nosso país, Rubem Braga fez importantes reportagens na Argentina, em 1946, nos Estados Unidos, em 1956. Nos anos de 1944-1945 foi correspondente na Europa, onde fez a cobertura sobre a Segunda Guerra Mundial para o Diário Carioca. Viveu no México, Portugal, Itália, Inglaterra, França, Grécia, Angola, Moçambique e África do Sul, de onde enviava suas reportagens para jornais brasileiros.
Rubem Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, a 12 de janeiro de 1913, e faleceu no dia 12 de janeiro de 1990.
Segue a crônica de Rubem Braga, intitulada  Ao crepúsculo, a mulher... (In Rubem Braga. Livro vira-vira 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011, p. 474-475):

    AO CREPÚSCULO, A MULHER...
        – RUBEM BRAGA

Ao crepúsculo a mulher bela estava quieta, e me detive a examinar sua cabeça com atenção e o extremado carinho de quem fixa uma flor. Sobre a haste do colo fino estava apenas trêmula; talvez a leve brisa do mar; talvez o estremecimento do seu próprio crepúsculo. Era tão linda assim, entardecendo, que me perguntei se já estávamos preparados, nós, os rudes homens destes tempos, para testemunhar a sua fugaz presença sobre a terra. Foram preciso milênios de luta contra a animalidade, milênios de milênios de sonho para se obter esse desenho delicado e firme. Depois os ombros são subitamente fortes, para suster os braços longos; mas os seios são pequenos, e o corpo esgalgo foge para a cintura breve; logo as ancas readquirem o direito de ser graves, e as coxas são longas, as pernas desse escorço de corça, os tornozelos de raça, os pés repetindo em outro ritmo a exata melodia das mãos.
Ela e o mar entardeciam, mas,  a um leve movimento que fez, seus olhos tomaram o brilho doce da adolescência, sua voz era um pouco rouca. Não teve filhos. Talvez pense na filha que não teve... A forma do vaso sagrado não se repetirá nestas gerações turbulentas e talvez desapareça para sempre no crepúsculo que avança. Que fizemos desse sonho de deusa? De tudo o que lhe fizemos só lhe ficou o olhar triste, como diria o pobre Antônio, poeta português. O desejo de alguns a seguiu e a possuiu; outros ainda se erguerão como torvas chamas rubras, e virão crestá-la, eis ali um homem que avança na eterna marcha banal.
Contemplo-a... Não, Deus não tem facilidade para desenhar. Ele faz e refaz sem cessar Suas figuras, porque o erro e a desídia dos homens entorpecem Sua mão: de geração em geração, que longa paciência Ele não teve para juntar a essa linha do queixo essa orelha breve, para firmar bem a polpa da panturrilha. Sim, foi a própria mão divina em um momento difícil e feliz. Depois Ele disse: anda... E ela começou a andar entre os humanos. Agora está aqui entardecendo; a brisa em seus cabelos pensa melancolias. As unhas são rubras; os cabelos também ela os pintou; é uma mulher de nosso tempo; mas neste momento, perto do mar, é menos uma pessoa que um sonho de onda, fantasia de luz entre nuvens, avideusa trêmula, evanescente e eterna.
Mas para que despetalar palavras tolas sobre sua cabeça? Na verdade não há o que dizer; apenas olhar, olhar como quem reza, e depois, antes que a noite desça de uma vez, partir.


Abril, 1956

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11/02/2014

AFRÂNIO COUTINHO - Evolução da Crítica


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
Evolução da Crítica Shakespeariana foi o título da palestra realizada por Afrânio Coutinho no curso realizado pela Academia Brasileira de Letras, em 1964, por ocasião da comemoração do quarto centenário de Shakespeare. O mestre inicia-a dizendo que a crítica literária não se constitui um gênero literário que possa ser análogo com o romance, o lirismo, o drama, a crônica, que nascem da imaginação, enquanto a crítica literária constitui-se em produto da razão, que exige reflexão, o que a aproxima da filosofia.
Na crítica, o espírito atua sobre a matéria literária, em todos os gêneros imaginativos. Sua tarefa é, pois, de natureza racional, de forma específica, em relação aos gêneros da literatura: romance, novela, conto, crônica e poesia; do que é criado pela imaginação, em literatura, passa no que diz respeito à crítica, a ser analisado, interpretado, compreendido e julgado. Então, tem-se que a matéria específica da crítica literária, no campo da racionalidade, é meditar e definir o fenômeno literário, tais como aparecem na obra de arte da linguagem, em qualquer um de seus gêneros acima mencionados.
A crítica, criada por Aristóteles, às vezes olhada com desprezo por muitos escritores da literatura, há muitos séculos vem servindo de conselheira do leitor, sem o qual não se justificaria a existência dessa forma de manifestação artística, vem caminhando sem esmorecer, desde sua criação até os dias atuais, em defesa da arte das palavras. E, na medida em que a literatura apresenta suas mutações ao longo dos anos, também a crítica faz a sua adequação às novas épocas, com seus períodos estilísticos, escolas e escritores.
Da longa palestra sobre crítica literária, proferida por Afrânio Coutinho, na Academia Brasileira de Letras, a respeito da análise do estilo e da técnica usada pela crítica, em razão da especificidade da obra e da envergadura de seu autor, referindo-se de modo especial à obra shakespeariana, transcrevo apenas alguns trechos que considerei mais importante, como segue:
No espaço de perto de quatrocentos anos que a sua obra ocupa as atenções do mundo, ela é um constante desafio à argúcia explicadora e valorativa da crítica literária. Nenhuma outra obra, pelo seu volume e qualidade, pois é o maior e mais perfeito acervo literário ainda produzido pelo espírito criador da humanidade, tem oferecido oportunidades mais amplas à penetração e compreensão do fenômeno literário.
E, de feito, a resposta que a crítica há dado a esse desafio tem sido memorável. Pode-se afirmar, também, que se é grande a obra shakespeariana, não é menos valiosa a contribuição que a crítica literária universal tem dado, a partir da observação, do estudo, da análise, da interpretação daquele extraordinário acervo de arte da palavra. Debruçada sobre ele há quase quatro séculos, a mente indagadora da crítica tem retirado, por outra parte, conclusões percucientes sobre o que seja a literatura, sobre como opera no espírito do público, sobre a sua natureza e função.
Não há seguramente, maior matéria prima literária para sobre ela fazer atuar o espírito crítico: drama ou lirismo, tragédia ou comédia, personagens ou enredos, estilo ou linguagem, metáforas ou símbolos, sublime ou natural, fantasia ou realidade, humanidade comum ou tipos heróicos, amor e morte, infância e velhice, guerra e paz, o instante e o eterno, a cidade e o campo, o passado e o presente, a obra shakespeariana é o espelho da humanidade, um resumo da história do homem, é o próprio homem em seus variados aspectos de grandeza e miséria, diante da vida e da morte, do perigo e da alegria, do infortúnio e do triunfo, do amor e da maldade, dos poderosos e dos humildes.
Daí em diante, Afrânio Coutinho ocupa-se em fazer um levantamento da manifestação da crítica sobre a obra de Shakespeare, de sua repercussão e aceitação pelos leitores, mencionando que, em 1942, o bibliográfico William Jaggard afirmava que com exceção das Escrituras, nenhum outro assunto ou escritor havia despertado mais comentário crítico do que Shakespeare, aduzindo, que o acervo crítico, em razão do volume de suas publicações, não foi arbitrário e nem somente quantitativo, incluindo todas as escolas críticas, todos os métodos, todas as teorias, no andar da literatura ocidental.
Afrânio dos Santos Coutinho nasceu a 15 de março de 1911, em Salvador, Bahia. Foi ensaísta, crítico literário e educador. Formado em Medicina em 1931, tomou outro caminho: foi professor de Filosofia, História e de Literatura. Escreveu 29 livros, que foram publicados entre os anos de 1935 a 1994, dentre eles, Correntes cruzadas, Introdução à literatura no Brasil, A literatura no Brasil (16 tomos), Machado de Assis na Literatura Brasileira, Crítica e Poética, A tradição afortunadahistória literária. Em 17 de abril de 1962, passou a ocupar a Cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 5 de agosto de 2000, na cidade do Rio de Janeiro.


REFERÊNCIA
COUTINHO, Afrânio. Crítica e Poética. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1968.
KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro: 1979,  p.1.112.


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