25 de mar de 2015

ANTERO DE QUENTAL – Inovador de Ideias


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTERO DE QUENTAL, que foi registrado no Cartório Civil como Antero  Tarquínio de Quental, nasceu a 18 de abril de 1842,  em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, onde passou sua infância. Era filho de Fernando de Quental e D. Ana Guilhermina da Maia, ele açoriano, ela natural de Setúbal.
Em São Miguel, fez seus primeiros estudos até ser matriculado no Colégio do Pórtico, dirigido por António Feliciano de Castilho, no Continente. Aprendeu desde tenra idade as línguas francesa e inglesa. Na intimidade que viveu com a família Castilho, recebeu as primeiras luzes de latim, em curso por este ministrado.
Estudou em Coimbra, onde se fez notar pelas atitudes revolucionárias e pelo arrojo inovador das ideias. Foi o provocador e líder da célebre “Questão Coimbrã”, a qual, mais que um combate a Castilho, representou um golpe contra o romantismo e a afirmação de um espírito novo: o da chamada Geração de 1865.
Vida agitada e dramática, sua figura humana ainda se distingue mais do que a figura intelectual. Teve ímpetos para a ação, e chegou a fundar sociedades revolucionárias (movimentos políticos filiados à doutrina socialista); esses ímpetos sucediam, porém, crises de solidão e pessimismo. Então, refugiava-se em Ponta Delgada, e por muito tempo ninguém tinha notícia de sua existência.
Estudou filosofia e problemas sociais, chegando a elaborar um sistema pessoal de ideias, do qual só publicou fragmentos. Essa tendência filosófica está refletida na sua poesia, das mais altas e originais da língua portuguesa. É de se lhe notar a predileção pelo soneto, forma que havia sido desdenhada pelos românticos.
Em data de 28 de setembro de 1858, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra. Estava então, com dezessete anos. Eça de Queirós dirá, na sua evocação da mocidade de Antero de Quental:
Coimbra vivia então uma grande atividade, ou antes num grande tumulto mental. Pelos Caminhos de Ferro, que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França) torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários... Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo tornado profeta e justiceiro dos reis; e Balzac com o seu mundo perverso e lânguido; e Goethe, vasto como o Universo; e Poe; e Heine, e creio que já Darwin, e quantos outros!
No período que compreende os anos de 1858 a 1860, época em que Antero termina o segundo ano da faculdade, publicou os seus primeiros versos no jornal O Acadêmico, que não passou de três números, Estreava nas colunas dos Prelúdios Literários em 1859, com o poema Quero-te muito, assinando apenas as iniciais de seu nome A. T. Q.
Na época de sua estreia, 1859, que não foi brilhante, a poesia portuguesa sofria o baque com a perda de nomes representativos do romantismo; cinco anos antes, morria Garret, Herculano faria uma nova edição suas Poesias em 1860 – fazia dez anos que não as reeditava. O ano de 1863 marca o início da prosa de Antero, quando começa a afastar-se do romantismo.
Concluiu o curso de Direito em julho de 1864. Nos últimos anos do curso, eram seus companheiros preferidos os cientistas: matemáticos e naturalistas. Mudara com determinação a forma de encarar a sua atividade literária. A fase sentimental de Antero de Quental – o poeta das Primaveras românticas – estava finda.
Antero de Quental chegara aos quarenta e nove anos, depois de ter trilhado um caminho com êxito no plano intelectual, mas sem ter tido tempo para realizar todos os seus sonhos dos vinte anos de idade, quer no campo do pensamento e da mentalidade, quer no território da política e da organização social.
A neurose que acometera  Antero foi responsável pelo seu abatimento físico e mental, que cerceou seus planos em várias áreas de sua atuação, quer como crítico e moralista, quer como filósofo e poeta.
 O poeta retorna de a S. Miguel para escolher uma família que pudesse cuidar de suas duas filhas adotivas, mediante uma mesada. Sua intenção, depois disso, era voltar com sua irmã para Lisboa, mas é na ilha que vive os seus últimos dias.
Depois de comprar um revolver numa loja de quinquilharias da parte baixa da cidade, o caixeiro a embrulha em três folhas de papel; como diz João Gaspar Simões, pretendia Antero dirigir-se ao Campo de São Francisco, mas antes resolveu passara pela casa onde deixara suas filhas adotivas.
O Campo de São Francisco está deserto. Antero de Quental senta-se num dos bancos, junto ao Convento da Esperança, desfaz o embrulho, retira o revólver e leva o cano à boca e detona a arma; muito ferido, puxa novamente o gatilho, e desta vez o tiro atinge-lhe o cérebro.
Isso ocorreu às oito horas da noite. O poeta teria ainda que suportar grande sofrimento, pois somente às nove horas, assistido por médicos chamados de emergência, numa cama da enfermaria do hospital da Misericórdia, dá o seu último suspiro. (Antero de Quental falece no dia 11 de novembro de 1891, em Ponta Delgada, Açores, aos 49 anos de idade.)
No Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse, sob a direção de Antônio Houaiss, o verbete sobre Antero de Quental está assim redigido:
Poeta e prosador português, ponta Delgada, Açores (1842-1891), espírito angustiado pela dúvida metafísica e religiosa, e, ao mesmo tempo, homem de ação voltado para as ações revolucionárias da época, foi líder de sua geração literária e de movimentos políticos filiados à doutrina socialista. Atacado de grave neurastenia acabou por suicidar-se. O timbre filosófico de sua poesia, trabalhada com lavor, é reflexo de pungentes conflitos interiores, que lhe marcaram a vida. Antero forma com Camões e Bocage, a trindade dos grandes sonetistas portugueses, Obras principais: Odes modernas (1865), Sonetos (1890).
Obras principais de Antero de Quental: Sonetos de Antero, 1861; Odes modernas, 1865; Primaveras românticas, 1871; Os sonetos completos de Antero de Quental, 1886; Raios de extinta luz, 1892; Bom senso e bom gosto, 1865; A dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865; Sonetos (1890), Prosas (3 vols.), 1923, 1926 e 1931.


REFERÊNCIAS:
SIMÕES, João Gaspar. Antero de Quental. Lisboa: Editora Presença, 1962.
LINS, Álvaro. HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. I. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.
LAROUSSE, Koogan. Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Direção de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Larrousse do Brasil, p. 1476.


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9 de mar de 2015

ALEXANDER PUSHKIN – Poesia e Ficção

                 
                 

                               – PEDRO LUSO DE CARVALHO
  

         ALEXANDER PUSHKIN consagrou-se por ser o maior poeta da língua russa. Além de poeta, foi dramaturgo, romancista e contista. Sua vocação para o verso foi despertado na infância, vocação essa que iria colocar o seu nome no topo da galeria dos grandes poetas, depois que escreveu o romance em versos Evguieni Oneguin – “o início de todos os inícios”, disse Gorki – “mais singular manifestação do espírito russo”, disse Gogol. 
Jayme Mason diz, em seu livro Mestres da Literatura Russa: “A musicalidade de sua poesia, tão à feição da língua russa, fez com que quase todos os grandes compositores de sua terra musicassem suas obras, desde Tchaikovsky, Glinka, Rimiski-Korsakov e outros”.
Alexander Serguievitch Pushkin nasceu em Moscou a 6 de junho de 1799. Seus pais chamavam-se Serguiei  Lvovitch e Nadejda Ossipovna. Pela linha materna, Pushkin tinha descendência africana.
Seus pais, que tinham posses, deram condições ao menino Alesander de ter sido criado por Arina Radionoyna, jovem escrava liberta, que permaneceu com a família; Arina era doce, extrovertida e conhecedora de  contos e de canções populares.
A família Pushkin usava o idioma francês tão bem quanto o idioma russo. O menino prestava atenção nas conversas entre tutores e governantas estrangeiras, e entre adultos, nos salões e nas festas. Além das facilidades para as duas línguas, tirou proveitos para sua formação no convívio familiar e social.
Em 1811, o menino Alesander Pushkin foi admitido no Liceu de Tsarskkoie-Selô, instituição modelar de ensino, onde cada aluno tinha seu próprio aposento. O Imperador Alexandre I era o patrocinador do Liceu, que estava situado entre jardins, canteiros floridos e fontes. Entre os professores, muitos eram da Universidade de São Petersburgo.
Na época em que Pushkin estudava no Liceu de Tsarskkoie-Selô ocorriam fatos históricos importantes, dentre eles a invasão da Rússia por Napoleão, o incêndio de Moscou, a entrada do exército russo na Europa, a tomada de Paris, o exílio de Napoleão. (Mais tarde, também abordaria temas com motivos da História russa.)
Suas criações poéticas começaram no Liceu Tsarskkoie-Selô, com a história fantástica Russlan e Ludmila, odes e epigramas diversos, poemas românticos, como O Prisioneiro do Cáucaso, Os Irmãos Bandidos, seu grandioso Cavaleiro de Bronze e muitas outras. Seria influenciado por Voltaire e Shakespeare.
O romance (em versos) Evguieni Oneguin é sua obra-prima. Na tragédia, Boris Godunov, sua obra-prima, marcou profundamente o gênero. Pushkin é o fundador da moderna literatura russa. Sua poesia bem demonstra o gênio universal que é, e que tem o seu lugar ao lado de Dante Shakespeare e Goethe.
Seus pensamentos, expressos de maneira sintética, simples e clara, sua rima sonora e melódica, usavam de maneira extraordinária as potencialidades da língua nativa. Ninguém jamais o superaria. A sua influência se estendeu para outras artes, pela pintura e pela música, atingindo tal influência aos grandes compositores da Rússia. Quanto ao seu primeiro modelo, seria Byron, o poeta de Childe Harold’s Pilgrimage, de Don Juan, mestre do lirismo europeu.
Engaja-se na luta pelos ideais da liberdade, torna-se o porta-voz dos ideais estéticos da juventude e da pobreza de vanguarda. Sua Ode à liberdade fere o despotismo e a autocracia. Atrai sobre si a perseguição do tzar, que não mais lhe daria paz.
Pushkin, que se tornaria o maior poeta dentre todos os russos, e que serviria de modelo para Dostoievski e e Gogol, passou a sofrer as humilhações de perenes confinamentos, tendo de apresentar-se periodicamente a generais, tutores e não podendo deslocar-se sem licença prévia.
Seria uma tarefa impossível tentar sintetizar a filosofia e a cosmovisão de Pushkin. Seus ideais poéticos eram totalmente ligados a seus objetivos artísticos, e seria inviável enquadrá-los num esquema ideológico ou filosófico.
As figuras masculinas e femininas de Evguieni Oneguin, Oneguin e Tatiana, são fortemente russas. Ele – a personagem – era modelo do aristocrata desocupado, ela era conjunção de altos valores de ternura, amor puro, inocência e fidelidade.
Suas obras chamadas “menores” têm seus lances e contornos épicos transcendentes. Que melhor estereótipo, de independência de espírito, de revolta surda contra o establishment do estado, que esmaga o indivíduo enorme, do que o Cavaleiro de Bronze? Obra grandiosa que ganhou a universalidade.
Pode-se afirmar com segurança que a tragédia Boris Gudonov, de Pushkin, cabe num lugar ao lado das maiores criações dos imortais mestres Dante e Shakespeare.
Principais obras: (poesia) O prisioneiro do Cáucaso, seu primeiro grande poema (1821) Ruslan e Ludmilla, 1820; Ode à liberdade, 1820; As ciganas, 1824; Eugene Oneguin, 1825-1832; O cavaleiro de bronze, 1833; (peça) Mozart e Sallieri, 1830; Boris Godunov, 1831;(conto) Damas de espadas, 19xx; Contos de Belkin, 1830; A filha do capitão, 1836 (romance) O negro de Pedro, O Grande (inacabado), 1827.
Alexander Pushkin morreu no dia 27 de janeiro de 1837, depois de ter sido ferido por um tiro, em duelo que teve com o amante de sua esposa Natália Nicolaievna Gontchanova.
Com a sua morte, aos 37 anos de idade, a Rússia pranteava o seu poeta maior. Todos os grandes poetas, romancistas e contistas russos pósteros, sofreram a influência de Pushkin.


REFERÊNCIA:
MASON, Jayme. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.


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27 de fev de 2015

[Poesia] DRUMMOND – O Quarto Escuro



  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

No ano de 1930, deu-se a estreia na poesia de Carlos Drummond de Andrade; Alguma poesia é o título de seu primeiro livro; daí em diante, o poeta não pararia de escrever poemas. Como acontece com todo o novo escritor, crítica literária e leitores dividiram-se em elogios e em contrariedade, quando saiu Alguma poesia. A História da Literatura iria fazer justiça ao mestre Drummond, como sendo um dos mais importantes poetas de nosso país. Alguns de seus livros mais importantes:  Brejo das Almas, 1934; Sentimento do Mundo, 1940; A Rosa do Povo, 1945; Claro Enigma, 1951.
Carlos Drummond de Andrade nasceu na cidade de Itabira, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de agosto de 1987.
Segue o poema O quarto escuro, de Carlos Drummond de Andrade (In Menino Antigo/ Boitempo - II. Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974, p. 104):


O QUARTO ESCURO                   
– CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Por que este nome, ao sol? Tudo escurece
de súbito na casa. Estou sem olhos.
Aqui decerto guardam-se guardados
sem forma, sem sentido. É quarto feito
pensadamente para me intrigar.
O que nele se põe assume outra matéria
e nunca mais regressa ao que era antes.
Eu mesmo, se transponho
o umbral enigmático,
fico outro ser, de mim desconhecido.
Sou coisa inanimada, bicho preso
em jaula de esquecer, que se afastou
de movimento e fome. Esta pesada
cobertura de sombra nega o tato,
o olfato, o ouvido. Exalo-me. Enoiteço.
O quarto escuro em mim habita, Sou
o quarto escuro. Sem lucarna.
Sem óculo. Os antigos
condenam-me a esta forma de castigo.


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21 de fev de 2015

FRANCOISE SAGAN – Uma Entrevista



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

FRANÇOISE SAGAN nasceu a 21 de junho de 1935, na pequena localidade de Cajac, Departamento de Lot, na França, e foi registrada no cartório civil com o nome de Françoise Quoirez. O uso desse nome deveu-se à admiração que tinha pela Princesse de Sagan, que foi a escritora favorita de Proust.
Seu pai, engenheiro próspero (de origem espanhola), propiciou Françoise a possibilidade de ter uma educação de boa qualidade. Juntamente com uma irmã e um irmão, foi educada no bairro da classe média de Paris, que se limita com o Parc Monceau. Em 1952, após terminar seu curso numa escola de Paris, entrou para a Sobornne.
Em julho, depois de ter fracassado nos exames, no final do ano escolar, deu início ao seu romance Bon jour tristesse. Terminou o livro em fins de agosto, cuja publicação, pela conceituada Editions Juillard, deu-se em 1954. Com essa obra, ganhou o prêmio Prix des Critiques desse ano.
O sucesso do livro foi imediato; somente na França Bon jour tristesse vendeu mais de setecentos mil exemplares, e foi traduzido em quatorze idiomas. Em 1956, publicou Un certain sourire; no ano seguinte, deu-se a publicação de Dans um mois , dans un; em 1959, saiu Aimez-vous Bhams?, o quarto livro de Sagan.
Os dois primeiros romances de Françoise Sagan, Bon jour tristesse e Un certain sourire alcançaram a vendagem de dois milhões de exemplares, em pouco espaço de tempo, somente nos Estados Unidos. Nos anos que se seguiram a esses lançamentos, outros livros da escritora continuaram sendo lançados no mercado livreiro norte-americano. Esses dois livros e Aimez-vous Bhams? foram adaptados para o cinema; este último, foi protagonizado por Ingrid Bergman e Anthony Perkins.
Na primavera de 1957, a jovem escritora sofreu um acidente, quando dirigia o seu carro, e quase morreu. Os carros esportes eram o hobby de Sagan, e sempre exagerava na velocidade, o que chamava a atenção da imprensa europeia, que a criticava, como também o fazia com os seus escritos.
Escreveu, Françoise Sagan, além de romances e contos, versos líricos para  a cantora Juliette Greco, scripts cinematográficos e um comentário para uma coleção de fotografias da cidade de Nova York.
Principais obras de Francoise Sagan, publicadas no Brasil: (romance) O guardador de meus amores (Le garde du coeur), Record, 1972; Cicatrizes na alma, (Des bleus à lâme) Record, 1974; Um perfil perdido, (Un profil perdu), Record, 1974; A cama desfeita (Le lit défait), Nova Fronteira, 1977; Tempestade sem bonança (Un orage immobile), Record, 1983; (conto) Olhos de seda (Des yeux soie), Record, 1975; (teatro) O vestido lilás de Valentine (La robe mauve de Valentine), Difusão Europeia do Livro, 1965.
Françoise Sagan recebeu Blair Fuller e Robert Silvers, da The Paris Review, num pequeno e moderno apartamento de sua propriedade, na Rue de Grenelle, em Paris, onde morava (naquela época a escritora trabalhava sozinha, no campo, fora da cidade). A entrevista deu-se em princípios da primavera de 1956, um pouco antes da publicação de Un certain sourire.
Da entrevista, que fizeram Blair Fuller e Robert Silvers, da The Paris Review, selecionamos alguns trechos, que consideramos mais importantes, como segue:
ENTREVITADORES: Como foi que começou a escrever Bon jour tristesse, quando tinha apenas 18 anos? Esperava que fosse publicado?:
SAGAN: Pus-me simplesmente a escrever. Tinha vivo desejo de escrever e algum tempo livre. Disse, comigo mesma:”Esta é a espécie de empresa que poucas, pouquíssimas garotas da minha idade se entregam; jamais serei capaz de terminá-la.” Eu não estava pensando em “literatura” e problemas literários, mas a respeito de mim mesma, e se teria a força necessária.
ENTREVITADORES: A senhorita diz que o importante, no começo, é ter um personagem?
SAGAN: Um personagem, ou uns poucos personagens, e talvez uma ideia para as cenas da metade do livro, mas tudo isso se modifica enquanto a gente escreve. Para mim, escrever é uma questão de encontrar certo ritmo. Comparo-o ao ritmo do jazz. A maior parte do tempo, a vida é uma espécie de progressão rítmica de três personagens. Se a gente diz a si próprio que a vida é assim, sente-se que a coisa é menos arbitrária.
ENTREVITADORES: Seus personagens permanecem em sua mente, depois de terminado o livro? Que espécie de juízo faz a respeito deles?
SAGAN: Quando o livro está terminado perco imediatamente interesse pelos personagens. E jamais faço juízos morais. Só o que eu diria é que uma pessoa era engraçada, ou alegre, ou, sobretudo, uma chata. Formar juízos a favor ou contra meus personagens, enfastia-me grandemente, não me interessa de modo algum. A única moralidade para um romancista é moralidade de sua estética. Eu escrevo os livros, eles chegam a um final – e isso é tudo o que me interessa.
ENTREVITADORES: Acaso aprendeu algo com as críticas publicadas a respeito do livro? (Menção que os entrevistadores fazem a Bon jour tristesse.)
SAGAN: Quando os artigos eram agradáveis, eu os lia do começo ao fim. Jamais aprendi coisa alguma com eles, mas ficava perplexa diante de sua imaginação e fecundidade. Viam, no livro, intenções que jamais tive.
ENTREVITADORES: Como se sente agora com Bon jour tristesse ?
SAGAN: Gosto mais de Un certain sourire, porque foi mais difícil. Mas acho Bon jour tristesse divertido, pois recorda certa fase de minha vida. E eu não mudaria uma única palavra. O que está feito, está feito.
ENTREVITADORES: Quais os escritores franceses que admira e acha que são importantes?
SAGAN: Oh, não sei. Stendhal e Proust, por certo. Amo o mistério de suas narrativas e, de certa maneira, sinto, positivamente, necessidade deles. Depois de Proust,  por exemplo, há certas coisas que, simplesmente, não se pode tornar a fazer. Ele marca para a gente os limites do nosso talento. Mostra-nos as possibilidades que residem na maneira de se tratar um personagem.
 ENTREVITADORES: Até que ponto reconhece suas limitações e controla suas ambições?
SAGAN: Bem, essa é uma indagação bastante desagradável, não é? Reconheço limitações no sentido em que li Tolstoi, Dostoievski e Shakespeare. Eis aí a melhor resposta, penso eu. À parte isso, não penso em limitar-me.
ENTREVITADORES: A senhorita ganhou, rapidamente, muito dinheiro. Isso modificou sua vida? Faz, acaso, alguma distinção entre escrever novelas por dinheiro e escrever seriamente, como certos americanos e franceses?
SAGAN: O êxito dos meus livros, certamente, modificou um tanto minha vida, pois disponho de muito dinheiro para gastar, se quiser, mas, quanto ao que se refere à minha situação na vida, não mudou muito. Hoje tenho um automóvel, mas sempre comi filés. Os senhores sabem: ter-se uma porção de dinheiro no bolso é bom, mas não é tudo. A perspectiva de ganhar mais ou menos dinheiro jamais afetaria minha maneira de escrever; eu escrevo os livros e se, depois, o dinheiro aparecer, tant mieux.
Esses foram alguns trechos da entrevista que Françoise Sagan concedeu à The Paris Review, depois que, ainda muito jovem, obteve grande sucesso com seus romances Bon jour tristesse e Un certain sourire.
A escritora francesa, Françoise Sagan, faleceu em Honfleur, a 24 de setembro de 2004, aos 69 anos de idade.
[Para conhecer um pouco da história da famosa revista THE PARIS REVIEW, clicar aqui.]


REFERÊNCIA:
COWLEY, Malcolm.The Paris Reviev/Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.


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8 de fev de 2015

ADONIAS FILHO – Vida & Obra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1965, Adonias Filho passou a integrar a Academia Brasileira de Letras; o discurso de saudação ao novo imortal foi pronunciado por Jorge Amado; o Estado da Bahia sentia-se muito bem representando nessa época por esses seus dois filhos ilustres.
Para os que não estão familiarizados com a obra de Adonias Filho, é oportuna uma rápida apresentação, além da mencionada acima; e, para esse mister, valemo-nos do que escreveu Assis Brasil, no ano de 1969; para esse ensaísta, a literatura brasileira tinha, quatro escritores já plenos e amadurecidos, João Guimarães Rosa, nessa época já falecido, e outros três que estavam em plena atividade, que eram Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho.  
Para Assis Brasil, esses quatro escritores – Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho – substituíram  um tipo de romance burguês, da linhagem francesa, que foi cultivado com o pomposo nome de ficção urbana; eles, que foram apontados como marco inicial, e que romperam com o clima acadêmico de nosso romance, não estavam ligados a nenhuma corrente ou escola do modernismo.
Como não se pode dizer que a obra independe da vida que levou ou que leva o autor, vamos conhecer um pouco da vida e da trajetória literária do escritor. Adonias Aguiar Filho nasceu a 27 de novembro de 1915, na fazenda São João, de propriedade dos pais, no município de Itajuípe, Bahia; teve a infância de menino de roça de cacau; ouviu histórias dos trabalhadores da fazenda, sobre o que aí se passava – essas histórias, alguns personagens e a própria fazenda iriam para os seus romances e contos.
  O menino tinha sete anos quando a família deixou o munícipio de Itajuípe para residir Ilhéus; aí cursou o primário no ateneu Fernando Caldas; era péssimo aluno; nas férias, retornava à fazenda; em 1928, foi matriculado  no internato do Ginásio Ipiranga, em Salvador, onde foi contemporâneo de Jorge Amado; interrompeu os estudos ao quatorze anos, passando grande temporada na fazenda.
O período que passou na fazenda foi de grande importância para o romancista; se gravou, talvez mais do que na infância, por suas observações e pelas histórias que ouviu dos moradores, o viria tornar-se o cerne de seus romances. Nessa fase também se dedicou à leitura; leu Castelo Branco, Macedo e Alencar. Voltou ao colégio depois de um ano de ausência; terminou curso em 1934.
Levaria consigo as lembranças dos professores Tarciso Teles (de português e geografia) e Manoel Peixoto (de inglês e moral e cívica), e também das tertúlias literárias no Grêmio Barão do Rio Branco, onde conheceu a literatura de Raul Pompéia, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, entre outros; leu também os poetas, entre eles Olavo Bilac, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães e  Castro Alves; da literatura francesa, leu as traduções de Alexandre Dumas Filho e Balzac.
Quando cursava o ginásio no Ipiranga, Adonias Filho escreveu para os jornais de Salvador: Diário de Notícias e O Imparcial. Pouco depois de terminar o curso ginasial, influenciado pela literatura do nordeste, escreveu Cachaça, romance que destruiu mais tarde. O escritor acompanhava os passos da moderna literatura brasileira e lia importantes pensadores, tais como: Maquiavel, Comte, Darwin.
 Nessa época, com a ajuda financeira do pai, viajou pelo Estado da Bahia, e fez apontamentos para um livro seu livro Renascimento do homem, ensaio político que publicaria em 1936, pela editora Schimidt; em 1935, fez nova viagem, desta vez pelos Estados de Minas, Rio e São Paulo; no início de 1936, fixou residência no Rio.
No Rio, Adonias Filho entrou Adonias em contato com o grupo católico que se reunia no café Gaúcho, Tasso da Silveira, Andrade Muricy, Barreto Filho, Adelino Magalhães – todos, aliás, bem mais velhos do que o escritor. Logo depois, travava relações com o romancista Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Otávio de Faria e Rachel de Queiroz, que se tornou grande amiga.
Foi nesse convívio que veio a descobrir autores como Thomas Hardy, Mauriac, Bernanos, wassermann, Malégue. Passou a colaborar com mais regularidade nos jornais e revistas literárias do Rio e de São Paulo, como o Correio da Manhã, os Cadernos da Hora Presente, a Revista do Brasil e a revista Pan; nessa revista, o escritor foi colega de redação de Clarice Lispector. Em 1937, passou a trabalhar no jornal  A Manhã, recém pelo poeta Cassiano Ricardo.
Em 1938, escreveu Corpo Vivo, romance que foi lido por Otávio Faria, Lúcio Cardoso e Almeida Sales; o livro, no entanto, não o satisfez (guardou-o para reescrevê-lo); nessa mesma época, planejou uma trilogia de romances, que teria como cenário a zona de cacau; em 1939, começou a escrever o primeiro desses livros, Os servos da morte, que foi concluído em 1943, e que, somente em 1946, foi publicado pela editora José Olímpio.
Adonias Filho continuava colaborando em jornais e fazendo traduções, durante esse período (anos 40). Algumas de suas traduções: O pântano do diabo, de Georg Sand, A Famíia Bronte, de Robert de Traz, e Gaspar Hauser, Golovin e O processo Maurizius, de Jabob Wassermann, este em colaboração com Otávio de Faria.
Em 1944, fundou a editora Ocidente, publicando um único livro, As metamorfoses, de Murilo Mendes, com ilustração de Portinari; nesse mesmo ano, casou-se Adonias Filho com D. Rosita Galiano, carioca, de quem um casal de filhos: Raquel e Adonias.
 . Depois passou a dirigir a editora A Noite, onde permaneceu até 1949. Durante esse período colaborou no suplemento A Manhã (coluna Letras e Artes) com um rodapé semanal assinado com o pseudônimo de Djalma Viana (rodapé idealizado por Carlos Lacerda, então diretor do suplemento).
Em 1950, Adonias Filho candidatou-se, pela Bahia, ao cargo de deputado federal, não conseguindo eleger-se; então resolveu permanecer na Bahia para concluir o romance Memórias de Lázaro (sua publicação, pela Cruzeiro, deu-se em 1952); de volta ao Rio, assumiu, a coluna de crítica literária do Jornal de Letras (publicou em livro alguns desses artigos, e mais outros do Correio da Manhã, em 1958, com o título de Modernos ficcionistas brasileiros).
Em 1954, publicou Adonias Filho, pelo Serviço de Documentação do Ministério de Educação, Diário de um escritor, fragmento de um diário que vinha escrevendo desde os 25 anos; nesse ano, passou a dirigir o Serviço Nacional de Teatro, de onde saiu dois meses depois para dirigir o Instituto Nacional do Livro; aí permaneceu por oito meses, depois retornou ao SNT, onde ficou até 1956.
 A partir de 1956, Adonias Filho passou a dedicar-se inteiramente à literatura e ao jornalismo; em 1957 ingressou na redação do Diário de Notícias, onde passou a assinar a seção literária A Estante.
Dentre a obra de ficção que produziu, destacam-se, três romances, que estão associados por uma temática telúrica, a civilização do cacau no interior da Bahia, quais sejam: Os servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952); Corpo vivo (1962). Com esses livros, Adonias Filho construiu uma importante obra da literatura brasileira moderna.
Além desses livros, Adonias Filho publicou, entre outros, um livro de novelas, e o romance O forte (1965); este tem cenário diferente de seus romances anteriores: a história passa-se na cidade de Salvador, em eras mais distantes. Em 1968, Adonias Filho voltaria à civilização do cacau, com Léguas da promissão, livro composto de vários contos. Depois, publicou Luanda, Beira, Bahia (1977); compõe o cenário do romance: a Bahia do Brasil, a Beira de Moçambique, e a Lunda de Angola; outro romance, O homem de branco (1987), a história de alguém que trilhou um sofrido calvário.
No dia 2 de agosto de 1990, morre Adonias Filho, em Ilhéus, Bahia, deixando como legado uma obra literária de extraordinário valor.


REFERÊNCIAS:
BRASIL, Francisco de Assis Almeida. Adonias Filho. Ensaio. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1969.
PEREZ, Renard. Escritores Brasileiros Contemporâneos. Escritores Brasileiros Contemporâneos. I série, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.


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28 de jan de 2015

[Conto] ROBERTO GOMES – O Terno Branco


PEDRO LUSO DE CARVALHO

ROBERTO GOMES, acaba de lançar mais um livro de contos, A Guitarra de Jemi Hendrix, pela Criar Edições. Para os leitores que conhecem Roberto Gomes não haverá surpresa quanto a excelência de sua escrita ficcional. Mas, para os seus novos leitores, não será demasia dizer que ele é um dos escritores brasileiros contemporâneos mais importantes – daí minha indicação para que não deixem de ler o livro A Guitarra de Jemi Hendrix, que é composto por quinze excelentes contos.  
Mesmo voltado para a literatura – conto, novela, romance, bem como pela ficção infantil, com a qual foi distinguido com o Prêmio Jabuti – Roberto Gomes não se afastou da Filosofia, depois que se graduou, na Universidade Federal do Paraná, há algumas décadas. Na Universidade, não se  limitou a exercer a docência, também levou seus conhecimentos filosóficos para o livro, como é exemplo Crítica da Razão Tupiniquim, que há algumas décadas vem sendo adotado por muitas escolas do nosso país, e com edições renovadas.
Como nosso propósito nesta postagem é dar conhecimento aos leitores do lançamento do novo livro de contos de Roberto Gomes, vamos transcrever abaixo o conto O terno branco, do livro A Guitarra de Jemi Hendrix:

O terno branco

Roberto Gomes



Ele já não tinha nome.
Era conhecido pelos apelidos, que eram muitos, dependendo de onde estivesse, dos amigos a sua volta, se era madrugada e estava numa boate, se anoitecia e estava num boteco. Só não tinha um apelido para as manhãs, quando passava dormindo, roncando demasiado alto para seu corpo pequeno, produzindo um estardalhaço sonoro que parecia capaz de quebrar vidraças.
Acordava pontualmente às duas da tarde, a boca queimando, os olhos vermelhos, que dizia infestados por espinhos, não tem mesmo um espinho neste olho?, perguntava, abrindo as pálpebras com dois dedos em alicate. Saía da cama gemendo, ia ao banheiro, enfiava a cabeça debaixo da torneira e, num mesmo gesto, esticava a mão para apanhar a garrafa de conhaque que deixava no armário ao lado. Bebia no gargalo e estalava os beiços.
Sempre vestido de preto.
Uma calça e duas camisas pretas e puídas, que fediam a mil noites e muitas mulheres da vida. Só permitia que fossem lavadas às segundas-feiras, quando não acordava às duas horas da tarde e seguia roncando pelo resto do dia. Saía da cama quando já era noite. Pedia um café embora soubesse que ninguém o atenderia e, cruzando o corredor rumo à cozinha, declarava:
- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada.
Tomava café frio, olhava com desinteresse para a televisão, diante da qual a mulher e a filha estavam plantadas como duas samambaias. Ia ao banheiro com algum estrondo, empestando os ares da casa, batia portas, deixava cair os sapatos quando tentava calçá-los, atrapalhava-se com a camisa do pijama, que enroscava nos braços. Depois desta encenação que repetia com uma precisão de relógio, dizia puta que o pariu que ninguém fala comigo nesta casa! e, parado no meio da sala, decretava, com ênfase:
- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada!
E voltava para a cama, onde se punha a fazer cálculos na tentativa de descobrir há quantos anos ninguém o ouvia, há quantos séculos não tinha notícias da filha, que estava lá plantada no sofá, como era mesmo o nome da desinfeliz?, há quanto tempo não conversava com o filho, que cuspia para o lado quando cruzava com ele? E a mulher, quem era ela?
Depois, dormia aos solavancos até mergulhar num sonho onde havia uma mulher que lhe dizia: vem. Ele ia, sentava-se à mesa, contava casos, anedotas, pregava apelidos em quem estivesse por perto e fazia com que todos rissem muito e batessem nas suas costas dizendo que era mesmo um sujeito admirável, uma figura. Acordava na terça-feira, às duas horas da tarde, pontualmente. E recomeçava.
No mais, terminava certas noites emborcado numa calçada, acordava com dois policiais cutucando suas costelas com o coturno. Noutras, abria os olhos numa casa desconhecida, no meio da madrugada, diante de uma cortina de plástico que era um escandaloso campo coberto com flores vermelhas e amarelas. Ou era erguido por dois braços fortes e jogado na rua, onde quebrava um dente contra o meio-fio. Ia até a farmácia, passava mercúrio cromo na boca, nos braços, na testa, pregava alguns esparadrapos pelo corpo e entrava no primeiro boteco.
Foi assim até o dia em que chegou em casa num domingo à tarde, provocando alvoroço na vizinhança, o que ele fazia em casa àquela hora?, o que estava acontecendo? Atravessou a curiosidade daquela gente cretina sem se deixar abalar e entrou em casa com um pacote muito jeitoso debaixo do braço. Cumprimentou a todos, não recebeu resposta alguma, a filha na frente da televisão, a mulher fabricando os biscoitos com os quais sustentava a casa, o filho cuspindo para os lados como se fosse um preto velho de macumba.
Entrou no quarto e, como sempre, deixou a porta aberta. Todos viram quando abriu o pacote com cuidado e dele retirou um terno branco, claríssimo, e uma camisa também branca. Viram quando estendeu o terno sobre a cama e dependurou a camisa num prego ao lado do armário. Despiu-se, jogando no chão o terno preto e a camisa preta, e estava nu, pois não usava cuecas, uma de suas implicâncias. Viram sua exibição inocente de carnes flácidas, a bunda murcha, o sexo desatento entre as pernas.
Então ele vestiu a camisa branca, as calças brancas, o paletó branco. Olhou-se no espelho balançando a cabeça e, quando se virou para a porta, a mulher, a filha e o filho fizeram de conta que não estavam olhando e mergulharam de novo na tela da televisão. Ele veio até a sala, perguntou se ninguém ia lhe oferecer um café. Não teve resposta. Foi à cozinha e tomou um copo de água, derrubou uma caneca e, quando retornava ao quarto, disse:
- Amanhã é segunda-feira e segunda-feira não serve mesmo pra nada.
Quando entrou no quarto, os três observaram o modo cerimonioso como ajeitou o terno branco no corpo, acomodou os punhos da camisa, aprumou o colarinho, alisou os lençóis, afofou o travesseiro e se deitou na cama. Ficou muito reto, parecendo maior do que era, as mãos sobre o peito, os sapatos apontando para o teto, o nariz muito fino interrogando contra a janela ao fundo.
Logo estava roncando aos arrancos. O filho fechou a porta do quarto, a filha aumentou o volume da televisão. Estranharam quando ele não acordou ao anoitecer da segunda-feira, pedindo café e reclamando que segunda-feira não serve mesmo pra nada. Só às duas horas da tarde de terça-feira abriram a porta do quarto.
- Acho que não roncava desde as dez horas de ontem, a filha explicou ao médico que foi chamado às pressas.


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