22 de mai de 2016

COELHO NETO – A Vastidão do Caminho Percorrido



      por Pedro Luso de Carvalho


 No dia 21 de fevereiro de 1934, o escritor Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras, escreve uma crônica com o título: “O aniversário de Coelho Neto”, que, nessa data, completava setenta anos, na qual diz que Henrique Coelho Neto é o maior escritor do Brasil, e que “Pelo bico de sua pena saiu um mundo para o mundo”.

 Humberto de Campos faz, em sua crônica, um apanhado da produção de Coelho Neto: mais de cem volumes de crônicas, de romances, de conferências, de contos, de dramas, de comédias, de ensinamentos cívicos, de discursos políticos e literários.; tudo isso realizado em menos de meio século. Diz Campos, que, nessa altura da vida, “o assombroso trabalhador se detém e estende os olhos cansados pela vastidão do caminho percorrido”. Coelho Neto morreu justamente em 1934, ano em que Humberto de Campos comemora, com sua crônica, os setenta anos de vida do escritor. Coelho Neto falece no dia 21 de fevereiro.

Humberto de Campos não deixaria de passar em branco o dia da morte de Coelho Neto, e escreve outra crônica, esta com este título: “Coelho Neto”. Diz Campos, nessa crônica: “Dorme, desde ontem ao meio- dia, no seio da terra, o meu querido Coelho Neto. E eu escrevo isto de olhos enxutos. Há muitas semanas esperava a notícia terrível, do desenlace fatal. E, ao recebê-la, chorei. Os soluços vieram-me à garganta, e explodiram. Sobreveio, porém, a reflexão. A morte, comparada àquele resto de vida, era um bem, uma esmola de Deus. E recolhi-me a pensar nele, a recordar a nossa estima de vinte e dois anos, e que, durante esse período, não foi toldada jamais por uma suspeita, não sofreu, nunca, um esmorecimento”.

Coelho Neto foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em 1926, passou a presidir a A.B.L. Foi eleito por seus contemporâneos “Principe dos prosadores brasileiros”.

 Diz Sergius Gonzaga, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em sua importante obra, Curso de Literatura Brasileira, 2004, que: “COELHO NETO (1864-1934) é o representante das correntes mais acadêmicas e tradicionais da época, tendo recebido o título de príncipe dos prosadores brasileiros em função do estilo pomposo e solene. Deixou uma obra vastíssima, sendo O turbilhão (1906) e Rei negro ( 1914) seus romances mais apreciados. A prolixidade e o gosto pelo exagero verbal terminaram por obscurecer eventuais méritos de sua ficção”.

Vejamos, agora, mais alguns julgamentos, tanto de críticos literários como de importantes escritores, sobre a obra deixada pelo Príncipe dos prosadores brasileiros:

Machado de Assis: “É dos nossos primeiros romancistas, e, geralmente falando, dos nossos primeiros escritores”. (A Semana, ed. Jackson, vol. II, pág. 415.)

João Ribeiro: “Tenho para mim que Machado de Assis e Coelho Neto são os dois novelistas mais perfeito da nossa literatura”. (O Imparcial, 25/2/1913.)

Humberto de Campos: “O Sr. Coelho Neto não é, em verdade, apenas um escritor: é uma literatura”. (Crítica, 1ª série, pg. 85.)

Rui Barbosa: “Um dos mais consagrados representantes da nossa cultura”. (Carta a Coelho Neto, em 18/11918.)

Martins Fontes: “O maior dos romancistas do Brasil em todos os tempos, o autor de cento e dezoito livros vazados no ouro camoniano”. (Terras da fantasia.)

Luís Murat: “Eu admiro esse trabalhador indefesso e, pondo de parte a íntima amizade que nos une, tenho-o como o nosso primeiro romancista”. (Diário de Notícias, 11/8/1899.)

Júlio Dantas: “Foi um dos mais assombrosos gênios verbais de que se orgulhou, em todos os tempos, a língua portuguesa”. (Discurso na Academia Brasileira de Letras, em 9/8/1941.)

João do Rio: “Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra: o homem que joga com maior número de palavras”. (O Momento Literário.)

Péricles de Morais: “O maior escritor brasileiro de todos os tempos” (Carta a Paulo Coelho Neto, em 27/11/1941.)

Nestor Vítor: “Não conheço na literatura brasileira outro que lhe seja superior na faculdade de expressão”. (A Crítica de Ontem.)

João Neves da Fontoura: “Discutido, louvado e agredido, ele se fez o mestre da primeira leva de homens de letra da República, que lhe deferiu, como um paradoxo do regime, o principado dos prosadores nacionais”. (Elogio de Coelho Neto.)

Augusto de Lima: “Nenhum outro escritor nacional, poeta ou prosador, romancista, teatrólogo ou ensaísta de qualquer gênero logrou a irradiação literária do seu nome no estrangeiro”. (Discurso no Instituto Nacional de Música, 21/6/1928.)

Phileas Lebesgue: “Possui ele a graça na fantasia, a exatidão na abundância e as suas descrições só pode comparar-se às de Ramayana, pela riqueza luxuriante da cor e da vida que as banha”. (Mercure de France.)

Sílvio Romero: “Mont'Alverne, Sales Tôrres Homem, Justiniano da Rocha, Gonçalves Dias, João Francisco Lisboa, José de Alencar, Quintino Bocaiúva, Machado de Assis, Tobias Barreto, Ferreira de Araújo, Joaquim Nabuco, Carlos de Laet, José do Patrocínio, Raul Pompéia, e Coelho Neto. São os nomes dos dezesseis laureados do estilo em nossa terra. Como se está a ver, estão aí em ordem cronológica e enchem o século, a começar em Frei Francisco de Mont'Alverne, o mais fraco em fulgores de forma, até Coelho Neto, o mais imaginoso de todos”. (Evolução dos Gêneros na Literatura Brasileira.)

Josué Montelo: “Coelho Neto continua, no silêncio do seu túmulo muito mais vivo do que os vivos que se comprazem em passar-lhe atestado de óbito literário”.

Brito Broca: “Quanto a mim, terei alcançado o meu objetivo neste estudo esquemático e despretensioso, em que me esforcei por ser estritamente imparcial, se puder concorrer para que leiam Coelho Neto os que pretenderem doutrinar sobre ele”. (“Coelho Neto Romancista” em O Romance Brasileiro, pág. 243).)

Alceu Amoroso Lima: “Sua língua de opulência enorme, sua imaginação realmente vivíssima, sua capacidade de narrativa extremamente expressiva, fizeram de Coelho Neto um escritor que, combatido a fundo pelos modernistas, há trinta anos passados, hoje ressurge do olvido e recomeça a interessar as novas gerações”. (Quadro Sintético da Literatura Brasileira, pág. 61.)

Jorge Amado: “Como todos os escritores de obra numerosa, foi desigual. Tem coisas excelentes – como A Conquista – e outras de importância secundária”. (Enq. De 'Última Hora, em 225/91956.)
 
 Henrique COELHO NETO nasceu em Caxias, Maranhão, em 21 de fevereiro, de 1864, e morreu no dia 28 de novembro e 1934, no Rio de Janeiro.

 Suas obras mais conhecidas: A capital federal (1893), Miragem (1895), Sertão (1896), Inverno em flor (1897), A conquista (1899), A tormenta (1901), O turbilhão (1906), Rei negro (1914), Mano (1929), Fogo fátuo, (1930). 

Segue um trecho de Fogo fátuo, romance de Coelho Neto:



[ESPAÇO DO ROMANCE]


FOGO FÁTUO [Fragmento]
   (Coelho Neto)
                                    

 Bivar partira para Paris, como correspondente de A Cidade do Rio, e Anselmo, que residia com ele na sala da frente de uma casa assobradada, na Rua do Riachuelo, pensou em regressar à natureza para praticar a regra de Rousseau, refugiando-se em um cantinho quieto, com árvores de sombra, som de água e vista sobre montes, como gozara no chalé do Andaraí. Mas como os plantões o retinham até as tantas à atulhada mesa da redação de O Diário, onde se empilhavam telegramas e notas policiais da última hora, que tudo ele redigia, interpretando, traduzindo, escoimando, força lhe foi optar por um casarão de cômodos na Rua do Lavradio.

 Era um velho prédio maciço, de aspecto senhorial, com um portão de carro imenso, de ombreiras de granito e sólidos batentes de pérolas com almofadas.

No sombrio saguão, lajeado à maneira de claustro e aprofundado em túnel, abrindo sobre um terreno que fora, em tempo velho, jardim pomareiro de árvores raquíticas, uma escada em dois lances, de largos degraus esgaçados, com balaustrada de bojudas colunas, levava ao andar superior, cuja frente, primitivamente tomada por dois amplos salões de tetos ricos, de estuque, com painéis floridos, fora esquartejada em divisões de tabique, que eram sedes de sociedades políticas, literárias e beneficentes, cujos escudos e emblemas empastelavam as sacadas, híspidas de mastros.

 O andar térreo, ao qual se chegava atravessando o negror e a frialdade do túnel era o seco, esmarrido jardim, que ainda conservava vestígios de canteiros, beirados de fundos de botijas, tufados de matos hirsuto e sujo.

As moradias em renque, de porta e janela e, no interior, saleta e quarto, pareciam achaparrar-se ao peso do sobrado de janelas largas, sempre colgadas de roupas, que trapejavam estabanadamente ao vento.




REFERÊNCIAS:
CAMPOS, Humberto de. Sepultando os meus mortos. Obra póstuma. Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc., 1941, p. 21, 29.
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. 1ª ed. Porto Alegre: Leitura XXI, 20004, p. 268.
FARIA, Octavio. Coelho Neto. Rio de Janeiro: Agir, 1958, p. 49-50, 126-129.


                                    *  *  *


11 de mai de 2016

[Poesia] A PAUL VELÉRY – João Cabral de Melo Neto



   
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1956, a José Olympio Editora publicou o livro de João Cabral de Melo Neto intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos). Esse volume encerrou as obras publicadas em Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, 1954, e estes outros livros: Morte e Severina, Paisagens com Figuras, Uma Faca só Lâmina.
Os Poemas Reunidos citados compreendiam: Pedra do Sono, Recife, 1942; Os três Mal-Amados, 1943; O Engenheiro, Rio, 1945; Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, Barcelona, 1947, e O Cão sem Plumas, Barcelona, 1950. Esses livros - editados no volume intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos) - sofreram algumas modificações, que o poeta considerou-os definitivos.
Para a edição neste espaço, escolhemos o poema de João Cabral de Melo Neto cujo título é A Paul Valéry, que integra o livro  Duas Águas, Poemas Reunidos, p. 137-138):


A PAUL VELÉRY

– João Cabral de Melo Neto



É o diabo no corpo
ou o poema
que me leva a cuspir
sobre meu não higiênico?

Doce tranquilidade
do não-fazer; paz,
equilíbrio perfeito
do apetite de menos.

Doce tranquilidade
da estátua na praça,
entre a carne dos homens
que cresce e cria.

Doce tranquilidade
do pensamento da pedra,
sem fuga, evaporação.
Febre, vertigem.

Doce tranquilidade
do homem na praia:
o calor evapora,
a areia absorve.

As águas dissolvem
os líquidos da vida.
E o vento dispersa
os sonhos, e apaga

a inaudível palavra
futura (que, apenas
saída da boca,
é sorvida no silêncio).




*  *  *




1 de mai de 2016

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Moinho





– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Carlos Drummond de Andrade Também  foi jornalista; desempenhou importantes cargos nos jornais Diário de Minas, Minas Gerais, entre outros. Escreveu crônicas, nos anos de 1954 a 1968, para o Jornal carioca, Correio da Manhã, com o título geral de “Imagens”. Depois passou para o Jornal do Brasil, onde manteve uma coluna no Caderno B.
Drummond também foi funcionário público; exerceu funções no Governo de Minas Gerais e depois no Rio de Janeiro; foi chefe do gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema, de quem era amigo. Integrou a equipe do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Aposentou-se após 35 anos de serviço.
O poeta fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma poesia, Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.
Nesse livro, Alguma poesia aparece alguns modismos, que foram colhidos no modernismo, mas isso não seria obstáculo para a formação do grande poeta, o de fato aconteceu.
Segue o poema Moinho, de Carlos Drummond de Andrade (in Andrade, Carlos Drummond de. As impurezas do branco; posfácio Betina Bischof. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.61):


MOINHO
– CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.


*  *  *



12 de abr de 2016

[Poesia] PABLO NERUDA – Saudade



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

PABLO NERUDA é o nome do poeta que se tornou mundialmente conhecido. O nome do cidadão chileno é outro: Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto. Vê-se que foi providencial a escolha do pseudônimo.
O poeta nasceu em 1904, em Parral, uma pequena cidade do Chile. Ainda jovem, mudou-se para a capital, Santiago, uma das cidades mais evoluídas da América do Sul. Foi em Santiago que publicou Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Com esse livro, tornou-se conhecido mundialmente.
Com a idade de 23 anos o poeta entrou na carreira diplomática. Foi cônsul na Ásia, Argentina e Espanha (durante a Guerra Civil). Também se aventurou na carreira política, em 1945, eleição conquistada para o Senado. Mas logo teve cassado o seu mandato, por ter-se filiado ao comunismo.
Em 1971 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Faleceu em Santiago, em 1973, acometido de câncer, oito dias após o golpe militar, que daria a conhecer, mundialmente, nome de outro chileno, este um tirano: Augusto Pinochet.  
Segue o poema de Pablo Neruda, Saudade (in Pablo Neruda. Crepusculário. Tradução de José Eduardo Degrazia. Porto Alegre: L&PM, 2004, 99):

SAUDADE
– PABLO NERUDA


SAUDADE... – Que será... eu não sei... tenho buscado
em certos dicionários poeirentos e antigos
e outros livros que ocultam o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem longínquos amores,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
nomeia com os cílios e as mãos em tremores.

E no Eça de Queirós sem olhar a adivinho,
o segredo se evade em sua doçura e sede,
como essa mariposa, corpo em desalinho,
sempre longe – tão longe! – de minhas calmas redes.

Saudade... tens, vizinho, o real significado
dessa palavra branca e que, peixe, se evade?
Não... treme na boca seu temor delicado...
Saudade...




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29 de mar de 2016

CECÍLIA MEIRELES – Canção a caminho do céu




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CECÍLIA MEIRELES apareceu no mundo literário do nosso país no ano de 1922, com publicações nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, no período de 1919 a 1927, nos quais escritores católicos defendiam a renovação das letras brasileiras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico. O aparecimento da poetisa deu-se, portanto, por coincidência, na época em que eclodia o movimento modernista (1922), no qual os escritores nele envolvidos representavam uma outra tendência.
A premiação em 1938, pela Academia Brasileira de Letras, de Viagem, significou o reconhecimento de um empenho monacal no estudo de nossa tradição literária e na assimilação dos recursos expressivos da arte verbal. Com esse livro ingressava Cecília Meireles na primeira linha dos poetas brasileiros, ao mesmo tempo que se distinguia como a única figura universalizante do movimento modernista.
Segue o poema Canção a caminho do céu, de Cecília Meireles (In Meireles, Cecília. Flor de poemas. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 93):

 CANÇÃO A CAMINHO DO CÉU

– CECÍLIA MEIRELES
 

Foram montanhas? foram mares?
foram números...? – não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei.

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
– e o encantamento arrependido
do meu amor.




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15 de mar de 2016

FEDERICO GARCIA LORCA – Dois Poemas



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

No que se refere a morte do grande poeta espanhol Federico Garcia Lorca, transcrevemos o que o jornal El Liberal, de Madri, publicou no dia 2 de novembro de 1936 (in Ian Gibson, O assassinato de Garcia Lorca, Trad. de Ernani Ssó, Porto Alegre, L&PM Editores, 1988, p. 271):
Mas será possível? Federico Garcia Lorca, o imenso poeta, assassinado pelos facciosos?
Uma última esperança de que tamanho crime não tenha se realizado leva-nos a perguntar: mas será possível a monstruosa aberração que supõe o assassinato do mais alto poeta espanhol dos nossos dias?
Todos os jornais publicaram a notícia que, segundo um jornal de Albacete, procedia de Guadix.
Conhecemos bem a louca e fria perversão dos traidores. Mas um nobilíssimo impulso da nossa alma nos leva a duvidar da veracidade da horrível informação.
Federico Garcia Lorca fuzilado pelos degenerados facciosos! Será possível tanta maldade? E embora temamos que sim, que essa gente é capaz de tudo, queremos acolher uma última esperança, repetimos, queremos acreditar que tudo, até a escala da maldade dos fascistas, tem um limite.
A Espanha inteira, toda a Espanha democrática e republicana, vive momentos de angústia e os viverá enquanto não seja retificada ou ratificada a inimaginável maldade dos verdugos.
Federico Garcia Lorca foi fuzilado em agosto de 1936, em Granada, no início da Guerra Civil Espanhola, e seu corpo nunca foi encontrado. Estava com 38 anos de idade, quando foi assassinado, e já era considerado um dos maiores poetas e teatrólogos da Espanha.
Os poemas que aqui serão transcritos, o primeiro, com tradução, A Lua e a Morte, e, o segundo, Gacela del amor desesperado, no idioma do poeta, integram a Antologia Poética de Federico Garcia Lorca, obra bilíngue, com tradução de William Agel de Mello, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p.39-41; 218, 220:


A LUA E A MORTE

– FEDERICO GARCIA LORCA



A lua tem dentes de marfim,
Quão velha e triste assoma!
Estão os álveos secos,
os campos sem verdores
e as árvores murchadas
sem ninhos e sem folhas.
Dona Morte, enrugada,
passeia pelos salgueirais
com seu absurdo cortejo
de ilusões remotas.
Vai vendendo cores
de cera e de tormenta
como uma fada de conto
má e enredadora.

A lua comprou
pinturas da Morte.
Nesta noite turva
está a lua louca!

Eu, enquanto isso, ponho
em peito sombrio
uma feira sem músicas
com tendas de sombra.

-/-/-


GACELA DEL AMOR DESESPERADO

– FEDERICO GARCIA LORCA



La noche no quiere venir
Para que tú vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré,
Aunque um sol de alcranes me coma la sien.

Pero tú vendras
Com la lengua quemada por la lluvia de sal.

El día quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
entregando a los sapos mi mordido clavel.

Pero tú vendras
por las turbias cloacas de la oscuridad.

Ni la noche ni el día quierem venir
para que por ti muera
y tú mueras por mi.



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13 de mar de 2016

[Crônica] ANTÔNIO MARIA – A noite é uma lembrança



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921 e morreu no dia 15 de outubro de 1964, aos 43 anos. Esse que foi um dos nossos melhores cronistas mantinha colunas diárias no O Jornal, onde permaneceu por 15 anos; no O Globo, em 1959 e na Última Hora, todos do Rio de Janeiro.
Antônio Maria foi muito mais que excelente cronista, foi homem de televisão (TV Tupi e TV Rio), foi radialista (rádio Mayrink), foi compositor (escreveu a letra de Manhã de Carnaval e muitas outras). A música Manhã de Carnaval serviu de temas musicais para o filme franco-ítalo-brasileiro, Orfeu Negro, ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Maria, como era como era conhecido, fez muitos amigos: Di Cavalcanti, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Carlos Heitor Cony, Aracy de Almeida, Luiz Bonfá, dentre tantos outros.
Passemos agora à crônica de Antônio Maria, intitulada A noite é uma lembrança, escrita 18/5/1957, no Rio de Janeiro (in Morais, Antônio de Araújo de.  Crônicas de Antônio Maria. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1996, p. 31-33):

    
A NOITE É UMA LEMBRANÇA
    – ANTÔNIO MARIA

BOA VIAGEM, FEVEREIRO. É de principiante isto de o cronista escrever que está numa janela de hotel, vendo a noite e fumando um cigarro. Mesmo havendo mar e sendo Boa Viagem um encontro muito desejado, não gosto da sem-cerimônia com que me faço personagem de mais uma crônica, como se eu, a noite e o cigarro ainda fôssemos novidade.
Entretanto, alguns acontecimentos espirituais do homem podem ser contados e explicados, desde que esse homem seja capaz de transmitir a alguém a beleza de sua solidão. Que ninguém se queixe de falta de ocorrências para escrever melhor. E sim de incapacidade para gritar o seu grande mundo interior.
Eu vim à janela porque conheci uma moça e estou preocupado em como a venho pensando, há um enorme tempo. O cabelo, os olhos, a boca, as mãos e o silêncio. Também a palavra vagarosa, que perguntava de vez em quando sobre uma verdade já velha ou sobre uma mentira mais em moda. Se confiasse em cada um de nós, explicaria à sua maneira o Homem, o Amor, o rio Capibaribe e o compositor João Sebastião Bach. Mas para isso, além de ser preciso confiar, teria que pedir a palavra e se imponentizar de tal maneira que nos assustaria à sua volta, após assustar-se consigo mesma. O que dizia eram curtas perguntas. O que fazia era pouco e casual. Mesmo assim eu a advinhava sábia e corajosa.
Mais das vezes se escreve assim de uma mulher quando por ela se sente uma dessas súbitas emoções, muito parecidas com o chamado amor à primeira vista. Mas, em meu caso, essas impressões já não me confundem. Uma mulher me empolga assim que a sinto gente; e nela me perco, de descoberta em descoberta, sem me consentir a mínima desconfiança de estar amando-a, em qualquer das maneiras antigas ou atuais de amar alguém. Uma mulher-gente nos atrai aos seus mistérios e, no tempo em que procuramos desvendá-los, só acrescentamos dúvidas à nossa ignorância inicial.
Apesar disso, é dever do homem-gente deixar que o seu pensamento se demore nas lembranças de sua conhecida recente. Amor é outra coisa. Amor a gente espera, como o pescador espera o seu peixe, ou o devoto espera o seu milagre: em silêncio, sem se impacientar com a demora. E o amor a gente não conta pelo jornal a não ser quando quando o sentimento trai a frase, juntando palavras que deviam estar sempre separadas.
Cá estou, porém, nesta janela que não me deixa mentir, em frente à noite de que sou uma espécie de filho de criação, a repassar lembranças de uma moça que, de mim, se muito recordar, recordará meu nome. Eu também a esquecerei, mas daqui a duas ou três mulheres importantes. Agora, faz-me bem, inclusive, sofrê-la um pouco. É tarde. Deveria ir para a cama. Todavia, não seri direito. Numa moça, a gente pensa na janela.

   *  *  *