28/08/2014

SUSAN SONTAG – Uma Entrevista




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

O primeiro livro de ficção de Susan Sontag, O benfeitor, foi publicado no Brasil em 1963 pela L&PM, com a tradução de Ana Maria Capovilla. Essa editora já havia publicado seus livros de ensaio e crítica: Contra a interpretação, Sob o signo de Saturno e A doença como metáfora. Sontag publicou ao todo 15 livros, entre eles os romances The Benefactor, Death Kit e The Volcano Lover; publicou também uma coletânea de contos e três coletâneas de ensaios.
Versátil, Sontag escreveu e dirigiu quatro filmes: Duets for Cannibals, Brother Carl, Promised Land e Unguided Tour (de 1969 a 1983). Também editou e apresentou textos de Antonin Artaud, Roland Barthes e Danilo Kis. Mais ainda: escreveu prefácios para os livros de Robert Walser, Marina Tsvetayeva, Machado de Assis e Juan Rulfo, entre outros, no período de 1982 a 1995.
Susan Sontag foi uma das mais importantes intelectuais dos Estados Unidos. Nasceu em Nova Iorque, em 1933, e criou-se no Arizona e Carolina do Sul, tendo-se formado em 1951 na Universidade de Chicago. Recebeu dois títulos de Mestre na Universidade de Harvard: Inglês, em 1954, e Filosofia, em 1955.
Sua vida acadêmica, como professora de Filosofia e de História da Religião, foi até o início dos anos 60. Viveu em Paris por um ano, depois passou a residir em Nova Iorque, com retornos frequentes à Europa. Dentre os prêmios que ganhou destaque-se: National Book Critics Circle Award, com Photography, em 1977.
Segue trechos da entrevista que Susan Sontag concedeu a Edward Hirsch para The Paris Review, entrevista essa que se estendeu por três dias, no seu apartamento em Manhattan, no mês de julho de 1994 (In Plimpton, George. The Paris Review. Escritoras e a arte da escrita. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001):
Hirsch pergunta se ela se incomoda se a chamam de intelectual.
SONTAG: Bom, a gente não gosta de ser chamada de coisa alguma. E essa palavra tem mais sentido para mim como adjetivo do que como substantivo, embora eu suponha que se refira sempre a alguém extravagante e sem graça – especialmente se for mulher. Isso me torna ainda mais engajada em minhas polêmicas contra os clichês comuns sobre os intelectuais que fala de coração versus cabeça, sentimento versus intelecto e assim por diante.
Que mulheres foram importantes para a senhora?
SONTAG: Muitas. Sei Shonagon, Jane Austen, George Eliot, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Marina Tsvetayeva, Anna Akhmatova, Elizabeth Bishop, Elizabeth Hardwick… a lista não acaba. Do ponto de vista cultural as mulheres são uma minoria, e com minha consciência de pertencer à minoria, eu me regozijo com as contribuições das mulheres. Com minha consciência de escritora, me regozijo com quaisquer escritores que admire, sejam mulheres ou homens.
Hirsch diz-lhe que a sua impressão é de que sua ideia madura (Sontag) de uma vocação é mais europeia do que americana.
SONTAG: Não tenho tanta certeza. Acho que é minha marca particular. Mas é verdade que, vivendo na segunda metade do século XX, posso satisfazer meus gostos europeus sem propriamente me expatriar e ainda passar boa parte de minha vida adulta na Europa. Esse tem sido meu jeito de ser americana. Como Gertrud Stein observou: ‘Para que servem as raízes se você não pode carregá-las com você?’ Pode-se dizer que isso é muito judeu, mas é americano também.
Existe alguma coisa que a ajude a começar a escrever?
SONTAG: A leitura – que raramente está relacionada com o que estou escrevendo, ou desejando escrever. Leio muito sobre história da arte, história da arquitetura, musicologia, livros acadêmicos sobre vários assuntos. E poesia. Começar é, em parte, ganhar tempo, ganhar tempo lendo e/ou escutando música, o que me dá energia e também me angustia. Sinto-me culpada por não estar escrevendo.
Ficou antiquado pensar-se que o propósito da literatura é de nos educar sobre a vida?
SONTAG: Bem, de fato ela nos educa sobre a vida. Não seria a pessoa que sou, não compreenderia o que compreendo se não fossem alguns livros. Estou pensando na grande questão da literatura russa do século XIX: como se deveria viver? Um romance que merece ser lido é um aprendizado do coração. Alarga o sentido das possibilidades humanas, do que é a natureza humana, do que acontece no mundo. É um criador de vida interior.
A literatura provoca êxtase?
SONTAG: Certamente, mas menos confiável do que o da música e da dança: a literatura tem mais a ver com a cabeça. Precisamos ser rigorosos com os livros. Só quero ler o que vou querer reler – essa é a definição de um livro que vale a pena.
A senhora sempre volta atrás e relê seus trabalhos?
SONTAG: Só para rever traduções. Não, de modo algum. Não sou curiosa. Não sou apegada à obra que já está pronta. E também porque não quero reconhecer que tudo é sempre igual. Talvez eu sempre relute em reler qualquer coisa que tenha escrito há mais de dez anos porque isso destruiria minha ilusão de que estou sempre começando. É isso que é mais americano em mim: sempre sinto que é um novo começo.
No final da entrevista da qual foi transcrita apenas parte dela, como disse acima, Edward Hirsch, da The Paris Review, pergunta à escritora: A senhora pensa muito no público que vai ler seus livros?
SONTAG: Não ouso. Não quero. Mas, de qualquer modo, não escrevo porque existe um público, mas escrevo porque existe a literatura.
Susan Sontag foi casada com Philip Rieff (1950), sociólogo e crítico cultural, e professor das Universidades de Berkeley e Harvard, entre outras, e ficou conhecido pelos seus estudos sobre Freud e sobre a ética na cultural ocidental; do casamento, que durou nove anos, nasceu um filho, David Rieff, jornalista e analista de política internacional. A escritora morreu em Nova Iorque, em 28 de dezembro de 2004 - 19 dias antes de completar 71 anos.


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12/08/2014

ÁLVARES DE AZEVEDO – Se Eu Morresse Amanhã!



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
ÁLVARES DE AZEVEDO, cujo nome completo era Manoel Antônio Álvares de Azevedo, nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831. Seus pais, Inácio Manoel Álvares de Azevedo e D. Luísa Silveira da Nota Azevedo, mudaram-se para o Rio de Janeiro, em 1833.
Nos anos de 1848-1851, Álvares de Azevedo cursa a Faculdade de Direito de São Paulo. Convive com Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa, José de Alencar. Em 1849, funda a Associação do Ensaio Filosófico. Estuda, lê muito e escreve toda sua obra.
Em fins de 1851 e início de 1852, passa em Itaboraí, onde espera recuperar a saúde. O poeta, no entanto, é assaltado pelo pressentimento da morte. Então, pensa em mudar-se para Recife e terminar a faculdade, pois sente que morrerá em São Paulo.
No dia 10 de março de 1852, sofre uma queda ao voltar de um passeio a cavalo; sente, depois, disso que os sintomas da tuberculose agravam-se. Seus médicos diagnosticam um tumor na fossa ilíaca, e o operam. Depois da operação melhora, mas em 25 de abril, desse mesmo ano, vem a falecer, com apenas vinte e um anos de idade. Foi sepultado no cemitério Pedro II, na Praia Vermelha, depois seu corpo foi transladado para o Cemitério São João Batista.
Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda dizem que “Álvares de Azevedo foi talvez o mais bem-dotado de todos os poetas brasileiros”. (In Roteiro Literário de Portugal e do Brasil, vol. II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 106).
Segue o poema de Álvares de Azevedo intitulado Se eu morresse amanhã! (In Álvares de Azevedo, Poesia, Antologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1960, p. 91):


SE EU MORRESSE AMANHÃ!
– ÁLVARES DE AZEVEDO


Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

           
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03/08/2014

[Conto] CARLOS CARVALHO – Missa do Galo



  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CARLOS CARVALHO (1939 - 1985), poeta, contista e dramaturgo gaúcho, natural de Porto Alegre, legou-nos entre outras obras, Calendário do medo, livro de contos da melhor qualidade, com o qual o autor foi premiado no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná - FUNDEPAR.
Segue o conto de Carlos Carvalho intitulado Missa do galo (In Carlos Carvalho/ Calendário do medo. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1975, p. 45-46):

     
MISSA DO GALO
– CARLOS CARVALHO
                                                                                                     

Com a navalha no bolso, esperou a mulher na porta da igreja. Quando ela apareceu, foi se chegando, pegou no braço dela e disse:
– Quero falar contigo, Maria.
Ela não respondeu, Puxou o braço e foi caminhando. Ele insistiu:
– Volta, Maria.
Ela parou no primeiro degrau. Olhou-o, antes de responder, e ele sentiu vergonha da roupa amassada, da gravata puída, da barba de dias.
– Não adianta, Justino, já disse.
– Não gostas de mim?
– Gosto.
– Então volta, Maria.
– Não adianta, Justino, não adianta.
Continuou a caminhar. Ele seguiu:
– Pensa nas crianças.
– Já pensei.
– Pensa em mim.
– É só o que faço.
Então volta, Maria. Juro que vai ser diferente. Prometo que não boto bebida na boca, largo tudo, juro.
– Das outras vezes foi a mesma coisa.
– Agora é diferente. Tenho até promessa de emprego, coisa firme, segura. Dá um bom dinheiro. A gente aluga uma casinha...
– Não adianta.
Ele tremia, as lágrimas enchendo os olhos:
– Hoje é Natal, Maria, não tens pena de mim?
– Tenho, muita.
Procurou o lenço no bolso e encontrou o cabo frio da navalha.
– Então volta, Maria. Ou acabo fazendo uma besteira.
Ela apressou o passo. Tentou alcançá-la, a mão suada apertando o cabo da navalha.
– Não me obriga a fazer uma desgraça.
Sem diminuir o passo, ela olhou a navalha agora aberta na mão dele.
– Adeus, Justino.
E sumiu na esquina.
Ele se apoiou num muro e chorou muito. Depois, entrou num bar e se embebedou. Antes que o galo cantasse pela terceira vez, negociou a navalha para pagar a bebida.


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29/07/2014

EÇA DE QUEIRÓS & Sua Obra




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
O início da carreira literária de Eça de Queirós, que não foi muito diferente da carreira de muitos escritores, deu-se com obras inferiores às que passaria a produzir no futuro. Sua produção literária constituía-se em peças românticas e artigos para a Gazeta de Portugal, que foram reunidas postumamente no livro Prosas Bárbaras. Mais tarde, o escritor junta-se a seu amigo Ramalho Ortigão, para com ele produzir O Mistério da Estrada de Sintra, gênero romance policial, e, em seguida, As Farpas. Com o Crime do Padre Amaro, que foi escrito depois desse período, Eça de Queirós inicia a fase realmente importante de sua carreira literária, que o tornaria conhecido como o escritor que introduziu o realismo em Portugal, escola literária da qual foi a sua principal figura da língua portuguesa, fato que o levaria a liderar esse movimento tão importante para a literatura em seu país (grupo “Os Vencidos da Vida”).
Embora Portugal tenha produzido importantes romancistas ao longo de sua história, modernamente representada por alguns nomes igualmente importantes, dentre eles José Saramago, o fato é que Eça de Queirós continua sendo o nome mais representativo da literatura portuguesa. A consagração definitiva de Eça deu-se com a publicação de O Primo Basílio, que projetou o seu nome para fora das fronteiras de Portugal. Nesse romance, escrito em 1878, Eça ataca as falsas bases da moralidade de Lisboa. Claramente influenciado pela literatura francesa, Flaubert, em especial, o escritor português cria uma obra perene, com sua primorosa construção no gênero romance.
A literatura de Portugal tem, pois, em Eça de Queirós, o seu mais lídimo representante, como ocorre no Brasil com Machado de Assis. Ambos, Eça e Machado, foram e, acho, serão sempre, em seus países, a referência na difícil e nobre arte do romance, da novela e do conto. Eça de Queirós, como bem situa Álvaro Lins:
Alia às qualidades de imaginação e poder criador um estilo de rara beleza, flexibilidade, graça, elegância. A sua prosa determinou verdadeira revolução na língua portuguesa. Foi também admirável jornalista e ensaísta. Dispunha de um poder de ironia e de houmour que muito contribuiu para o renome de sua obra.
A sensibilidade de Eça para a produção da arte literária teve como contribuição experiências pelas quais passou, a começar pelos seus estudos acadêmicos, com a sua diplomação no curso de Direito pela Universidade de Coimbra, embora tenha militado por pouco tempo na advocacia, por sentir que essa não era a sua vocação. De qualquer forma, os estudos para bacharelar-se nessa conceituada Universidade deram ao escritor maior solidez à sua bagagem cultural. Mas as experiências de vida do escritor não ficariam apenas nesse patamar, pois a sua carreira diplomática viria contribuir para que se alargassem os seus conhecimentos, com o contato com outros povos, na condição de cônsul em Havana, Newcastle, Bristol e Paris. Distante de Portugal pôde compreender melhor a sociedade portuguesa, que passaria a constituir-se em alvo frequente de suas críticas.
Sobre a pessoa do escritor, Fialho de Almeida (1857-1911) traça um interessante perfil:
Eça de Queirós foi sempre uma organização debilitada, um poste d’osso suspendendo fios elétricos de nervos, este predomínio neurótico explicando as sensibilidades d’esteta que lhe fizeram na vida literária o temperamento intenso de humorista, assim como na material, em coisas de mesa, vestuário, amor, arte e conforto, um desses tipos d’aristo, cuja degenerescência recorda, pelas predileções sensuais, cepticismo delicado, inconstância do diletantismo, raridades frustes d’elegância, o que trazem as crônicas sobre certos príncipes perversos da Renascença.
O escritor brasileiro José Veríssimo (1857-1916), disse que viu Eça de Queirós pela primeira vez, acompanhado de seu amigo Ramalho Ortigão, no salão de teatro da Trindade, em Lisboa, onde se realizava um sarau literário: “Notei que a entrada de Eça despertara a atenção geral, e as mulheres, que eram numerosas e da alta roda lisboeta, o examinavam com uma curiosidade especial. Decididamente o autor de O Primo Basílio excitava-lhes aquele sentimento bem feminino”. Completando seu texto sobre Eça, diz Verissimo: “Vi-o depois muitas vezes, em Lisboa mesmo, e, nove anos mais tarde, em Paris; já então mais magro, mais ossudo, como que mais cansado, conservando, porém, a despeito de uma ligeira curvatura, o aprumo da fronte inteligente e a fixidez penetrante do seu olhar, que às vezes algum pensamento íntimo amortecia”. Em O Primo Basílio, Eça cria um dos personagens mais expressivos da literatura portuguesa, o Conselheiro Acácio.
Na obra de Eça de Queirós, após a sua fase inicial, os seus romances de maior expressão são: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, e Os Maias, enquanto que numa terceira fase, quando o escritor já não mais participava do movimento do grupo de escritores realistas de Portugal, e já tendo a aceitação de sua obra pela crítica e pelo público, homem maduro, com uma estilística definida e de inquestionável qualidade, escreveu três romances importantes, consideradas as obras mais fantasistas de todas; pela ordem de publicação: O Mandarim, A Relíquia e A Cidade e as Serras; este último foi publicado em 1901. Além dessas obras, mencione-se ainda, A Ilustre Casa dos Ramires e A Capital, que foram publicadas em 1900 e 1925, respectivamente.
José Maria Eça de Queirós nasceu em Póvoa do Varzim, em 25 de novembro de 1845, e morreu em Neully, localidade próxima de Paris, em agosto de 1900, aos 55 anos de idade.


REFERÊNCIA:
BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. LINS, Álvaro. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Antologia da Língua Portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edit. Civilização Brasileira, vols. I e II, 1966.
KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Direção de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Edit. Larousse do Brasil, 1979.


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20/07/2014

EDGAR ALLAN POE - Antologia de Contos e Poemas



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

A Editora Civilização Brasileira editou, no ano de 1959, a Antologia de Contos de Edgar Allan Poe, traduzido por Brenno Silveira. Fiz a minha primeira leitura do livro na Biblioteca Pública de Porto Alegre, quando cursava Direito na Universidade Católica de Porto Alegre, RS, há décadas atrás; mais tarde, encontrei um exemplar numa livraria de livros usados; de lá pra cá fiz algumas releituras dessa obra clássica da literatura, do gênero conto.
Poe chama nossa atenção pela sua personalidade e pelo estilo de vida, que se manteve até a sua morte, ocorrida no dia 7 de outubro de 1849, em Baltimore, Maryland, EUA. Ao tomar conhecimento de alguns desses fatos relacionados com sua vida, passei a dar mais valor ainda às obras desse mestre do conto, da poesia e do ensaio.
Edgar Allan Poe nasceu em 1809, na cidade de Boston; seu pai, um ator que teve uma vida obscura, morreu logo após o seu nascimento; sua mãe, uma atriz inglesa, morreu no ano de 1811, em extrema pobreza, quando Poe tinha apenas dois anos de idade. Órfão, o menino foi adotado por Elizabeth e David Allan Poe, casal que vivia na cidade de Richmond; seu pai adotivo, comerciante abastado, deu-lhe o nome de família – Allan Poe.
A nova família mudou-se para a Inglaterra em 1815; Poe passou a estudar na escola particular Stoke-Newington, no subúrbio de Londres; de volta aos Estados Unidos, em 1820, passou a estudar em Richmond; foi admitido na aristocrática Universidade de Virgínia, fundada por Thomas Jefferson, poucos anos antes do seu ingresso. Poe nunca se enquadrou com o modo de vida da universidade, que estava habituada à férrea disciplina; ele, ao contrário, pessoa inquieta, tinha conduta irregular, se vista segundo a cultura desse grupo social. A bebida, o jogo, as maneiras pouco convencionais logo repercutiu no seio das famílias aristocráticas, que passaram a exigir dos professores a sua expulsão, o que acabou se concretizando.
Em atrito com sua família, por todos os motivos que o levaram à sua expulsão da universidade, Poe deixou Richmond e retornou a Boston, onde nascera. Aí publicou Tamerlane e Outros Poemas, em 1827 - o seu primeiro livro de poemas. Com esse livro não se poderia imaginar que, mais tarde, Poe se tornaria um dos maiores escritores de todos os tempos. Provavelmente, por não ter como se manter, alistou-se no exército, do qual foi expulso depois de dois anos. Mais tarde, com ajuda de John Allan, ingressou na Academia Militar de West Point, onde permaneceu até ser expulso, um ano mais tarde.
Publicou um segundo volume de versos, pouco antes de ingressar em West Point, com uma revisão de Tamerlane e Al Aaraaf, que, em 1831, foi reeditado – os versos Israfele e Para Helena denunciavam o poeta que viria ser. Em 1833, ganhou um prêmio literário instituído pelo Saturday Visitor, com o conto Um manuscrito encontrado numa garrafa; nessa época, que contava com vinte e quatro anos de idade, Poe vivia em extrema pobreza. No ano de 1847, teve algumas de suas histórias traduzidas para o francês; Charles Baudelaire ao lê-las, assim se exprimiu: “experimentara estranha emoção”. Baudelaire aguardava as revistas norte-americanas, que chegavam com a publicação dos contos e poesias de Poe.
E, foi justamente Charles Baudelaire o primeiro tradutor de contos e de ensaios de Poe, levando-os a ser conhecidos pela elite de literatos de Paris, que passaram a admirar a sua obra. Mallarmé, um dos expoentes do Simbolismo, continuou a fazer a divulgação das histórias e das poesias de Poe, que se viu consagrado nos dois anos que antecederam sua morte. Essa consagração deveu-se não apenas ao conto, mas também à excelência de sua poesia, cujos temas ficavam circunscritos à solidão, a inutilidade do esforço, ao remorso por sua vida miserável. Seus versos falam apenas de mundos interiores, sem qualquer menção ao mundo exterior. O poema O Corvo – seu poema imortal – só ficou acabado depois de ter sido modificado ao longo de dez anos. Poe não transigia quanto à qualidade literária de sua obra – que era a moldura de sua extraordinária imaginação.
Nos seus contos e novelas, as mulheres apareciam como seus principais personagens; estas, não escapavam à ideia da morte, como sendo o seu destino. Como disse Brenno Silveira, no seu prefácio da Antologia de Contos: “As terrificantes histórias que contou criaram mundos de horror, putrefatos, por onde passava sempre um sopro de morte e um odor de coisas que se decompõem – que apodrecem. Mundo em que homens e mulheres sem esperança sofrem a inelutável fatalidade, o inexorável estigma dos terríveis destinos”.
Os contos mais conhecidos de Poe são: A Máscara da Morte Vermelha, O Poço e o Pêndulo, O Gato Preto, O Palácio Assombrado, O Crime da Rua Morgue, A Queda da Casa de Usher, enquanto os seus poemas mais conhecidos são: O Corvo, Tarmelão, Israfel, Para Helena, Ulalume, Os Sinos, Al Aaraaf e Annabel Lee.
Os temas dos contos de Poe, e de suas novelas curtas estão sempre ligados a coisas sobrenaturais – fantasmas, espectros, duendes, pássaros agourentos. O certo é que esse mestre do conto e da poesia deixou em suas histórias e em seus poemas a marca de sua genialidade.
Para encerrar, ficaremos com o poema que imortalizou Vírgínia Clemm, prima-irmã de Poe, com quem se casou, quando ela tinha apenas treze anos de idade, e que, juntos, passaram por grandes privações, fome inclusive. Virgínia, que faleceu de tuberculose em consequência da pobreza em que vivia o casal, inspirou Poe a escrever O Corvo, o seu comovente e imortal poema, como se vê na sua parte parte final, que é adiante transcrita:


                                             O CORVO
 – EDGAR ALLAN POE  


"Profeta"!, exclamo. "Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Leonora,
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Leonora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

"Seja isso a nossa despedida!", ergo-me e grito, alma incendiada,
"Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
não há de erguer-se, ai! nunca mais!


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REFERÊNCIAS:
POE, Edgar Allan. Antologia de Contos. Tradução de Brenno Silveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.
POE, Edgar Allan. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Petit Larousse, 1966.
POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios. Trad. Oscar Mendes e Milton Amado. São Paulo: Editora Globo, 1999.


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11/07/2014

[Conto] CYRO MARTINS - Guri




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CYRO MARTINS (Cyro dos Santos Martins) nasceu a 5 de agosto de 1908, em Quaraí, RS; faleceu a 15 de dezembro de 1995, em Porto Alegre. O escritor  enriqueceu sua prosa com a experiência que colheu na sua cidade natal, Quaraí, nas suas próprias vivências, desde muito cedo, antes de mudar-se para Porto Alegre.
Esse conhecimento do homem do campo foi a base para a sua ficção, além de poder contar com a sua vivência na área médica, em especial na psiquiatria e na psicanálise. A soma desses dois fatores, o conhecimento da vida campeira e a experiência profissional com a psicanálise, facilitou-lhe a construção de personagens fortes e, por assim dizer, reais. Na sua ficção – romance e conto – construiu suas personagens com texto enxuto.
O livro de contos Campo Fora foi a estreia de Cyro Martins, em 1934. Sobre essa obra, escreveu Guilhermino Cesar, escritor e crítico literário: "Campo Fora trouxe ao gênero uma perspectiva social que todos os seus críticos têm valorizado; e sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as 'modas' de hoje estiverem esquecidas. Mas, a meu ver, há nele um traço que o singulariza entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de narrar”.
Segue o conto Guri, de Cyro Martins (In Campo fora/Cyro Martins. 5ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1991, p. 30-31):

        GURI
– CYRO MARTINS


Pstiu, caalo!
O pingo, bagual novo, se parara arpista com o rebuliço, instigando o ginete para uma escaramuça. Espantado, fogoso, cabeça erguida, trocando orelha, olhando longe, era um urso de grande o pangaré de Nilo.
– Cuidado, rapaz, que esse animal é velhaco.
– Não deixei as pernas em casa.
O guri, de ouvir, já sabia responder.
E não cansava de pular proezas, agachado no cavalo de sarandi, com uma tira de pano, que era a cola, quebrada em cacho de três galhos bem em cima, onde canta o galo e os cuscos não alcançam.
– Volta, volta, boi!
Batendo as aspas pontudas no atropelo da disparada xucra, a novilhada estralava os cascos duros num estrondo, como chuva de pedra, no chapadão raso como uma tábua.
Gritaria. Agachadas. Guascaços puxados. Sofrenaços. Esbarradas compridas assinalando no chão a marca da sua violência. Tiros de laço, largados com maestria uns, e outros guampeando as macegas normais. Rodadas feias. Silvos de boleadeiras pelo ar. E cavalos correndo soltos com arreios.
Um lote grande se cortou rumando o aramado. Na ponta, embora bem montado, o Ricardo, solito, não podia sujeitá-lo.
E se aproximavam ligeiro da cerca, que estava bem de pé, estirada, e era toda de madeirama nova.
A chapada, de resvaladia, era um sabão.
E a manhã, claríssima, tonteava de tanta luz.
Do oitão do rancho, montado no seu cavalinho de pau, o Nilo entusiasmado, contente, batendo os pezitos no chão, que o pingo fogoso não parava quieto, não tirava os olhos do grande cenário.
Nunca vira aquilo. E estava gostando de ver. Tinha lástima de não ser homem ainda para andar lá também, e correr e se arriscar.
Num vá, a cerca deitou. Assobiaram fios de arame arrebentados, e voaram lascas de pau, cravando longe no chão como estacas.
Tropeiro, cavalo e boiada uniram-se num bolo só.
E daí um pedação, apareceram com o Ricardo de arrasto num couro, sangrando.
Quebrara-se no golpe. Mas não gemia, procurando disfarçar a dor. O guri recolheu, na esperteza campeira dos olhitos alarifes, toda a viva emoção daquele instante supremo na vida do gaúcho.
Todos estavam calados. Ele também. Não indagava nada. Olhava normais.
O índio pediu um cigarro. Tragou uma pitada, e morreu.
Esse dia o guri não brincou.
Dias depois encontraram o Nilo, deitado embaixo do mesmo umbu, bem espichado, com um cigarro apertado entre os dentes, fingindo-se de morto.
Faz de conta que numa tropeada braba levara uma virada mui feia.
Perto, branqueando ao sol, a sua tropa. Ossada limpa!
A cerca de um fio único de barbante, suspenso antes na ponta de dois pauzinhos finos, toda caída no chão.
Ao lado do aramado, morto, o bagual pangaré.


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