01/02/2012

MOZART - Parte IV

Wolfgang Amadeus Mozart


                 por Pedro Luso de Carvalho


         No texto sobre a vida e a obra de Mozart dissemos, no final da na terceira postagem, que na rápida estada de Wolfgang e de seu pai, Leopold, em Milão, o jovem músico submeteu-se a um teste para o sinfonismo classicista, que na época florescia na Alemanha e na Áustria.

        Dissemos, também, que a junta era composta por importantes músicos milaneses, entre os quais Giovanni Battista Sammartini, que foi um dos construtores da sinfonia e o principal responsável pela transposição das formas instrumentais barrôcas, herdadas da tradição italiana, representada por Corelli, Torelli e Vivaldi. 

        Em 1770, nos três meses que passou em Bolonha, Wolfgang aprendeu com o Padre Giambattista Martini os segredos do contraponto. Foi admitido no círculo de músicos famosos e tornou-se membro da Academia Filarmônica Bolonhesa, rompendo, como esse seu ato, o regulamento da Academia, que para isso exigia a idade mínima de 21 anos. 

        A prova que fez ante a junta, para conquistar esse título, deveu-se à sua criação de uma fuga a quatro vozes em apenas meia hora, além de contrapontear em quatro partes uma sinfonia de três linhas. A junta examinadora ficou atônita com a proeza do jovem músico de apenas catorze anos. Então, uma aura de mito começou a envolver Wolfgang em virtudes de suas façanhas na Itália. 

        Em Roma, depois de ter ouvido uma única vez o “Miserere” de Gregorio Allegri, Wolfgang de volta a estalagem em que estava hospedado transcreveu essa peça, que a guardava na memória. Depois dessa transcrição, foi novamente à Capela Sistina para conferir sua partitura com a execução original; aí, fez as correções necessárias e deixou o recinto com as folhas escondidas no chapéu. 

        Daí em diante o “Miserere”, que até então era monopólio do Papa, foi divulgado e caiu no domínio público. Além de ter destruído o tabu que cercava o “Miserere” de Gregorio Allegri, o Papa não só perdoou a audácia de Wolfgang Mozart, como concedeu-lhe a “Cruz do Esporim de Ouro”, pelo surpeendente feito. Em Salzburgo, o Arcebispo Scharattenbach também homenageou Wolfgang promovendo-o a Mestre de Capela.

Mãe de Mozart
        Já homem feito e assinando suas composições com o nome de Wolfgang Amadeus Mozart, sua obra avolumava-se com concertos, sinfonias, sonatas, óperas, missas e peças sacras mais curtas, minuetos e divertimentos ('divertimenti'). 

       Mozart havia amadurecido em Salzburgo, com decepções e amarguras. O novo Arcebispo Hyeronimus, Conde de Colloredo, humilhava-o a ponto de obrigá-lo a fazer suas refeições com a criadagem, ao lado de cozinheiros e copeiros.

          A Imperatriz Maria Teresa, que dizia que “os músicos que se põem a rodar pelo mundo à maneira de pedintes não contribuem para a boa fama da profissão”, impedia seu filho Ferdinando, Duque da Lombardia, de tomar Mozart a seu serviço.

         Nessa época, a intenção de Wolfgang era continuar com suas viagens pela Europa, acompanhado de seu pai e de sua irmã; mas, ante a ameaça de demissão, caso insistissem em viajar, Leopold, com 58 anos, temendo perder o seu cargo optou por permancer em Salzburgo, o mesmo ocorrendo com sua filha Nannerl. 

         Wolfgang então decidiu viajar com sua mãe. Juntos visitaram Munique, Augsburgo, Paris, Estrasburgo e Mannhein. Além de suas apresentação, tinha a esperança de encontrar um emprego fixo. Os aristocratas, no entanto, não lhe deram o apoio esperado, por considerá-lo um “criado foragido”. Restava ao gênio eventuais apresentações em recitais e algumas aulas que ministrava.  

         Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.

         Para acessar a primeira parte deste trabalho, clicar em MOZART – Parte I  






REFERÊNCIAS:
ANSTETT, J. Ph. Galeria de Homens Ilustres. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905.
KEIEGER, eDINO. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.



                                                                                                 * * * * * *


15/01/2012

MOZART - Parte III

Wolfgang Amadeus Mozart


              por Pedro Luso de Carvalho


        No texto sobre a vida e a obra de Mozart, dissemos, na última postagem (segunda parte), que a família MOZART foi recepcionada em Londres pelo Rei Jorge III, e que o menino Wolfgang tocou para o monarca; e que Wolfgang e Nannerl foram recebidos pela elite londrina com grande entusiasmo nos inúmeros recitais que deram. 

        Dissemos, ainda, que Leopold, que se encontrava doente, deixou Londres com os filhos para repousar em Chelsea, onde Wolfgang conheceu Johann Christian Bach, filho mais novo de Johann Sebastian Bach (Christin Bach estava com 28 anos de idade).

        Embora fosse grande a diferênça de idade entre eles, Wolfgang e Christin Bach tornaram-se amigos. E foi por intermédio de Christin Bach que Wolfgang teve a oportunidade de conhecer a produção contemporânea de ópera, música sinfônica e música de câmara. Também teve o ensejo de assistir às solenes apresentações das obras de Haendel. 

        Nas cinco sonatas e nas duas sinfonias que Wolfgang Amadeus Mozart escreveu nessa época, no início de 1764, transparece claramente a influência que sofreu de Johann Christian Bach e de Haendel.

        No outono de 1764, o esquecimento viria mais uma vez - como já acontecera em Viena -, em virtude de Leopold ter se retirado de Londres para tratar de sua saúde. Embora já restabelecido, tentou inutilmente obter novos recitais para Wolfgang e Nannerl. Para a família Mozart, todo o êxito até então obtido passou a ser coisa do passado.

J. C. Bach
      Leopold compreendeu então que deveria deixar Londres, o que foi facilitado em razão do aconselhamento do embaixador da Holanda, junto à Côrte de Jorge III. Já nos Países-Baixos, mais propriamente em Haia, Wolfgang compôs duas árias, um madrigal para vozes mistas, uma sonata e uma sinfonia.

        Da Holanda a família Mozart empreendeu novamente as excursões, e levaram a efeito apresentações em Gand, Antuérpia, Haarlem, Amsterdam, Utrecht, Malines e Vallencienes. Depois estiveram mais uma vez na França: Paris Dijon e Lyon, Daí foram para a Suíca; suas apresentações se deram em Genebra, Lausanne, Berna, Zurique e Schaffhausen. 

        E, uma vez de volta a Salzburg, Leopold e os filhos, Wolfgang e Narnnerl, estiveram ainda em Biberach, Ulm, Augsburgo e Munique. O retorno à casa deu-se em 1765. A jornada de Wolfgang no exterior fez com que aumentasse muito sua produção musical.  

        De volta à sua casa, longe de compromissos com apresentações, encontrou tempo e sossêgo para compor mais ainda; e teve mais tempo para estudar, sob a orientação de seu pai. Em 1766, Wolfgang Mozart compôs: seis sonatas, três peças sacras, uma cena para orquestra e duas séries de variações para cravo: a primeira sobre a ária “Laatons Juichen” de Graff e a outra baseada na canção de “Guilherme de Nassau”. 

        No ano seguinte, setembro de 1767, Leopold e seu filhos, Wolfgang e Nannerl, retornaram a Viena. Wolfgang estava com onze anos de idade. Justamente nessa época, a capital estava tomada pela varicela. Por precaução, a família retirou-se para a propriedade do Conde Podstsky, na região de Olmutz, mas mesmo assim os irmãos foram acometidos pela doença. 

        Em princípio de 1978 a família Mozart regressou a Viena. O propósito de Leopold de levar a efeito novos recitais, com o esperado êxito e o consequente lucro, como já acontecera em outros importantes centros europeus, foi frustado, uma vez que não obteve o apoio dos imperadores. 

        Essa estada em Viena, sem o êxito esperado, deu, no entanto, grande proveito a Wolfgang pelas relações travadas com o famoso librelista Metastásio, e por ter tido a oportunidade de conhecer o Dr. Mesmer, famoso por seus conhecimentos de ocultismo e pela prática da hipnose. Wolfgang também conquistou a simpatia do Princípe Arcebispo de Salzburgo, que foi por ele contratado para servir na Capela Arquiepiscopal. 
Haendel
       
        Depois, com licença do arcebispo, Wolfgang e o pai partiram para a Itália, o país da ópera. Aí os grandes mestres cultivavam a música vocal. Wolfgang visitou várias cidade, passando quase despercebido. 

        Embora pouco notado, em 5 de janeiro de 1770, obteve grande êxito num recital que deu na Academia Musical de Verona. Nessa época Wolfgang estava com catorze anos de idade. A Academia prestou ao jovem Mozart uma importante homenagem elegendo-o Mestre de Capela Honorário da Instituição.  

        Na rápida estada de Wolfgang e de Leopold em Milão, o jovem músico submeteu-se a um teste para o sinfonismo classicista, que florescia na Alemanha e na Áustria. A junta era compostas por importantes músicos milaneses, entre os quais Giovanni Battista Sammartini, um dos construtores da sinfonia e o principal responsável pela transposição das formas instrumentais barrôcas, herdadas da tradição italiana, representada por Corelli, Torelli e Vivaldi. 

        Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.

        Para acessar a primeira parte deste trabalho, clicar em MOZART – Parte I




REFERÊNCIAS:
ANSTETT, J. Ph. Galeria de Homens Ilustres. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905.
MASSARANI, Renzo. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.



                                                               * * * * * *


08/01/2012

MOZART – Parte II




                por Pedro Luso de Carvalho


        Na postagem de MOZART - Parte I, dissemos que Leopold Mozart aspirava para seus filhos, Wolfgang e Nannerl, uma sólida posição na música européia, e que, para isso, teria que empreender escursões, contratar professores qualificados e buscar espaços para suas apresentações em grandes platéias; assim, uma vez atingido tal objetivo, teria também, como retorno desse trabalho, o alentado lucro pecuniário, além de prestígio social. 

        E, para iniciar tal empreendimento, Leopold fez a sua escolha: Munique, capital da Baviera. Aí seus dois filhos fariam, fora de Salzburgo, as primeiras exibições. A recepção pelo Eleitor Maximiliano, para um recital com grande repercussão foi a certeza de que a escolha de Leopold foi acertada.  

       O pai-empresário sentiu-se encorajado com o êxito. Foi estímulo suficiente para uma viagem mais ambiciosa: Viena, o núcleo de reunião de vários Estados germânicos. Não só a Capital do Império, mas o centro da vida artística internacional. Leopold não poderia esperar outra coisa de seus filhos que não a fama e a fortuna.

        Em setembro de 1762, Leopold partiu com Wolfgang e Narnnerl para a metrópole. Na bagagem levaram um cravo para que o filho e a filha pudessem exercitar-se com o rigor imposto pelo pai. A conquista do mundo musical vienense era a meta para Leopold e seus filhos. 

        Em Linz, ocorreu um contratempo: Wolfgang foi acometido de forte gripe, que o deixou enfraquecido, mas acabou por recuperar-se. Não tardou para que viesse sofrer outras doenças de maior gravidade, que afetaram seu organismo. Cuidados foram tomados na convalescência do menino, que se distraía compondo e escrevendo várias peças importantes, entre elas o Allegro em Si Bemol,  para cravo ou Clavicórdio – I.K. 3 e Minueto em Fá Maior, para cravo ou Clavicórdio – I.K.6.

        Leopoldo comprazia-se com o resultado dos recitais dados por Wolfgang e Nannerl. No mês de outubro de 1762, a refinada sociedade vienense era unânime em pródigos elogios a ambos. Tanto foi o sucesso dos recitais que logo a Côrte Imperial os convidou para que alí se apresentassem. O recital no palácio Schoenbrunn resultou em grande prestígio para Wolfgang Mozart. Mas, novamente, teve a saúde abalada. Uma escarlatina levou-o à cama. E, sem novas apresentações, Wolfgang logo foi esquecido por Viena. 
       
        A escarlatina foi debelada, embora tenha deixado seqüelas, tais como: debilidade física e distúrbios renais crônicos; essa doença viria encurtar a vida do gênio. No mesmo ano de 1762, Mozart, Nannerl e o pai retornaram a Salzburgo. Aí o jovem iria repousar e tratar-se. Nessa pausa, o pai aproveitaria para refazer seus projetos musicais para os filhos.

        Em junho de 1763, Leopold retornou com os filhos a Munique, que os recebeu com agrado. Tiveram mais uma recepção na Côrte, na qual o Príncipe Von Zweibrücken acolheu- os e deu-lhes proteção. Assim foi aberto o caminho para que Wolfgang e Nannerl dessem vários recitais na cidade. Depois apresentaram-se em Augsburgo, cidade natal de Leopold, mas aí, nos três recitais que deram, não tiveram o mesmo êxito. 

        Em agosto de de 1763, a família Mozart chegou em Frankfurt, Alemanha, onde foi bem recebida pelos círculos culturais. Nessa cidade, num dos seus cinco recitais Wolfgang e Nannerl lotaram todos com salões e foram alaudidos efusivamente. Numa dessas apresentações encontrava-se o jovem Goethe, que mais tarde falaria da honra que teve em conhecer Wolfgang. 

        O êxito de Wolfgang e Nannerl iria desestabilizar emocionalmente Leopold. Exibiocionista e tomado pela vaidade, Leopod almejava agradar o público, e esquecia-se de revelar o valor artístico dos filhos. Na época em que os Mozart haviam alcançado grandes êxitos nas suas excursões, o menino Wolfgang, estava oito anos de idade e Nannerl, com treze anos.

        Após um recital para o Príncipe Carlos de Lorena e sua Côrte, Leopold e seus filhos deixaram Bruxelas e viajaram para a França, levando uma carta de recomenção para Melchior Grimm, secretário do Duque de Orléans. Desta forma foram introduzidos no mundo aristocrático parisiense, quando o nome de Mozart já era conhecido pelos reis de França. 

        Em 1764, Wolfgang e Nannerl, que já haviam visitado o palácio de Versalhes, a convite do rei de França, apresentaram-se durante uma grande recepção à mais alta aristocracia francesa, oferecida pela Côrte, pela passagem do ano. No final do ano de 1764, Wofgang Amadeus Mozart havia composto quatro sonatas para violino e cravo, ou clavicórdio. Em Paris, durante a estada da família, as primeiras obras de Wofgang começaram a ser publicadas. 

        Depois de terem deixado Paris, dirigiram-se a Londres, onde foram recebidos pelo Rei Jorge III, que ofereceu ao menino partituras de George Wagenseil, Johann Christin Bach, Christian Abel e Haendel, todas muito difíceis para ele, que não os conhecia. Wonfgang executou para o rei todas as peças com perfeição na sua primeira leitura. Depois improvisou no órgão que se encontrava no salão, uma bela variação sobre a ária de Haendel, que acabava de conhecer e de tocar para o monarca. Assim, após inúmeros recitais, a Côrte inglesa rendeu-se ao talento do menino Wolfgang. 

        Leopold, que se encontrava doente, deixou Londres com os filhos, para repousar em Chelsea, onde Wolfgang conheceu Johann Christin Bach, filho mais novo de Johann Sebastian Bach.

        Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.

        Para acessar a primeira parte deste trabalho, clicar em MOZART – Parte III





REFERÊNCIAS:
ANSTETT, J. Ph. Galeria de Homens Ilustres. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905.
CAMARGO GUARNIERI. Grandes Compositores da Música Universal.Nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.


                                              *  *  *  *  *  *

02/01/2012

MOZART – Parte I

Leopold, Mozart e Nannerl em Paris
 Gravura de Carmontelle, 1764

                por  Pedro Luso de Carvalho


      WOLFGANG AMADEUS MOZART, nome que mais tarde o músico passaria a usar. Foi registrado com o nome de Joannes Chrysostomus Wofgangus Theophilus Mozart. Nasceu em Salzburgo, Áustria, a 27 de janeiro de 1756. Filho de Leopold Mozart, músico da Côrte, e de Ane Marie Pertl Mozart. Aos cinco anos de idade, Wolfgang Amadeus iniciava sua carreira de compositor.

        Na sua infância e juventude, Leopold Mozart (o pai) morava com a família na pequena cidade de Augsburgo, Áustria. Como seus pais, modestos artesãos, não podiam pagar seus estudos artísticos, estudou por conta própria. Mais tarde foi levado para Salzburgo por seu padrinho, que era cônego, para estudar teologia. Era sua intenção torna-se sacerdote. Por dois anos, estudou na Universidade de Teologia e Lógica. Ao final desse tempo, resolveu levar adiante o seu plano para tornar-se músico, mesmo com o prejuízo sofrido com o corte da mesada, pelo seu padrinho, que ficou desgostoso com essa decisão. 

        Ao deixar a universidade, o jovem Leopold Mozart conseguiu emprego como secretário do Conde Thurn; com isso, passou a dedicar-se ao estudo da música com seriedade, compondo músicas sacras e uma ópera, que foi apresentada na universidade. Com a repercussão obtida com a sua ópera, Leopold foi contratado para tocar na orquestra do Príncipe Arcebispo. 

        Leopold também passou a dar aulas de violino para os meninos da capela. Depois, conheceu a filha do administrador do castelo de Saint Gilgen, Anne Marie Pertl, com quem se casou. Daí em diante, passou a ter uma vida estável e com conforto. Do casamento, nasceu Marianne, carinhosamente chamada de “Nannerl”. O casal e a filha formavam uma família feliz. 

        Foi nesse ambiente alegre e harmônico que nasceu Wolfgang Amadeus Mozart. O menino, esperto e brincalhão, era apenas Wolfgang, ou carinhosamente chamado pelos seus familiares de “Wolferl”. Aos quatro anos de idade, o menino Wolfgang descobriu o cravo. O menino acompanhava os exercícios no cravo, nas aulas ministradas a sua irmã, Nannerl; Nannerl era cinco anos mais velha que Wolfgang. Para ele, a música parecia um agradável brinquedo. 
Wolfgang Amadeus Mozart
 Retrato de  J. B. Greuze, C.1763

        O interesse de Wolfgang pela música não passou despercebido por seu pai. Leopold, então, passou a ensinar música ao filho, que aprendia com extrema facilidade e com prazer. Escolhia, para as suas lições, músicas para o cravo. Mas, o inquieto menino não se limitava a elas, e aventurava-se a excutar músicas de sua própia criação. No início, Wolfgang contentava-se com a improvisação, mas, depois, sempre que lhe ocorriam idéias melódicas, fazia anotações. 

    Não tardou para que Leopold, seu pai e professor, se convencesse de que o filho possuía uma rara musicalidade. O pai já estava certo de que seu filho era dotado de um talento incomum para a música. Também sabia que não podia negligenciar nos estudos musicais do filho. Então, decidiu fazer com que o talento de Wolfgang fosse desenvolvido mais intensamente, e com os métodos que se faziam necessários ao estudo da música mais refinada.

        A música, em Salzburgo, era tratada com muita seriedade, mas isso não era o suficiente para que Wolfgang pudesse alcançar o desenvolvimento pretendido pelo pai; este, viu que o melhor caminho para atingir o objetivo que almejava eram as viagens, os professores melhor qualificados e as platéias mais refinadas. Para isso, Leopold entendeu que deveria apressar-se em deixar Salzburgo, com Wolfgang e Nannerl, já que almejava um aprimoramento musical para ambos os filhos. 

        Leopold não apenas aspirava uma sólida posição na música européia para Wolfgang, mas, também, tinha consciência de que esse desenvolvimento ajudaria a ganhar mais dinheiro e prestígio social, além de outras vantagens. E para colocar seu plano em execução, Leopold abandonou vários de seus afazeres, para fazer com que Wolfgang passasse a estudar sob um rigoroso e sistemático regime. 

        Também estava nos planos de Leopold, buscar aperfeiçoamento musical para sua filha, Nannerl Mozart, cinco anos mais velha que Wolfgang. Nannerl já era, nessa época, uma instrumentista exímia. O cravo era o instrumento que dominava. Sendo assim, escursões, professores qualificados e grandes platéias abririam caminho para os irmãos Mozart. E satisfazia a ambição de Leopold.

          Para acessar a segunda parte deste trabalho, clicar em MOZART – Parte II




REFERÊNCIAS:
CAMARGO GUARNIERI. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.
AUGÉ, Claude. Petit Larousse. Dictionnarire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris, 1966.


                                                                 *  *  *  *  *  * 

21/12/2011

COELHO NETO – A Vastidão do Caminho Percorrido

Coelho Neto



              por Pedro Luso de Carvalho


        No dia 21 de fevereiro de 1934, o escritor Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras, escreve uma crônica com o título: “O aniversário de Coelho Neto”, que, nessa data, completava setenta anos, na qual diz que Henrique Coelho Neto é o maior escritor do Brasil, e que “Pelo bico de sua pena saiu um mundo para o mundo”. 

        Humberto de Campos faz, em sua crônica, um apanhado da produção de Coelho Neto: mais de cem volumes de crônicas, de romances, de conferências, de contos, de dramas, de comédias, de ensinamentos cívicos, de discursos políticos e literários.; tudo isso realizado em menos de meio século. Diz Campos, que, nessa altura da vida, “o assombroso trabalhador se detém e estende os olhos cansados pela vastidão do caminho percorrido”. Coelho Neto morreu justamente em 1934, ano em que Humberto de Campos comemora, com sua crônica, os setenta anos de vida do escritor. Coelho Neto falece no dia 21 de fevereiro. 

        Humberto de Campos não deixaria de passar em branco o dia da morte de Coelho Neto, e escreve outra crônica, esta com este título: “Coelho Neto”. Diz Campos, nessa crônica: “Dorme, desde ontem ao meio- dia, no seio da terra, o meu querido Coelho Neto. E eu escrevo isto de olhos enxutos. Há muitas semanas esperava a notícia terrível, do desenlace fatal. E, ao recebê-la, chorei. Os soluços vieram-me à garganta, e explodiram. Sobreveio, porém, a reflexão. A morte, comparada àquele resto de vida, era um bem, uma esmola de Deus. E recolhí-me a pensar nele, a recordar a nossa estima de vinte e dois anos, e que, durante esse período, não foi toldada jamais por uma suspeita, não sofreu, nunca, um esmorecimento”.

        Coelho Neto foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em 1926, passou a presidir a A.B.L. Foi eleito por seus contemporâneos “Principe dos prosadores brasileiros”. 

        Diz Sergius Gonzaga, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em sua importante obra, Curso de Literatura Brasileira, 2004, que: “COELHO NETO (1864-1934) é o representante das correntes mais acadêmicas e tradicionais da época, tendo recebido o título de príncipe dos prosadores brasileiros em função do estilo pomposo e solene. Deixou uma obra vastíssima, sendo O turbilhão (1906) e Rei negro ( 1914) seus romances mais apreciados. A prolixidade e o gosto pelo exagero verbal terminaram por obscurecer eventuais méritos de sua ficção”.

        Vejamos, agora, mais alguns julgamentos, tanto de críticos literários como de importantes escritores, sobre a obra deixada pelo “Príncipe dos prosadores brasileiros:

Machado de Assis: “É dos nossos primeiros romancistas, e, geralmente falando, dos nossos primeiros escritores”. (A Semana, ed. Jackson, vol. II, pág. 415.)

João Ribeiro: Tenho para mim que Machado de Assis e Coelho Neto são os dois novelistas mais perfeitos da nossa literatura”. (O Imparcial, 25/2/1913.)

Humberto de Campos: “O Sr. Coelho Neto não é, em verdade, apenas um escritor: é uma literatura”. (Crítica, 1ª série, pg. 85.)

Rui Barbosa: “Um dos mais consagrados representantes da nossa cultura”. (Carta a Coelho Neto, em 18/11918.)

Martins Fontes: “O maior dos romancista do Brasil em todos os tempos, o autor de cento e dezoito livros vazados no ouro camoniano”. (Terras da fantasia.)

Luís Murat: “Eu admiro esse trabalhador indefesso e, pondo de parte a íntima amizade que nos une, tenho-o como o nosso primeiro romancista”. (Diario de Notícias, 11/8/1899.)

Júlio Dantas: “Foi um dos mais assombrosos gênios verbais de que se orgulhou, em todos os tempos, a língua portuguesa”. (Discurso na Academia Brasileira de Letras, em 9/8/1941.)

João do Rio: Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na inglaterra: o homem que joga com maior número de palavras”. (O Momento Literário.)

Péricles de Morais: O maior escritor brasileiro de todos os tempos” (Carta a Paulo Coelho Neto, em 27/11/1941.)

Nestor Vítor: “Não conheço na literatura brasileira outro que lhe seja superior na faculdade de expressão”. (A Crítica de Ontem.)

João Neves da Fontoura: Discutido, louvado e agredido, ele se fez o mestre da primeira leva de homens de letra da República, que lhe deferiu, como um paradoxo do regime, o principado dos prosadores nacionais”. (Elogio de Coelho Neto.)

Augusto de Lima: Nenhum outro escritor nacional, poeta ou prosador, romancista, teatrólogo ou ensaísta de qualquer gênero logrou a irradiação literária do seu nome no estrangeiro”. (Discurso no Instituto Nacional de Música, 21/6/1928.)

Phileas Lebesgue: “Possui ele a graça na fantasia, a exatidão na abundância e as suas descrições só pode comparar-se às de Ramayana, pela riqueza luxuriante da cor e da vida que as banha”. (Mercure de France.)

Sílvio Romero: “Mont'Alverne, Sales Tôrres Homem, Justiniano da Rocha, Gonçalves Dias, João Francisco Lisboa, José de Alencar, Quintino Bocaiúva, Machado de Assis, Tobias Barreto, Ferreira de Araújo, Joaquim Nabuco, Carlos de Laet, José do Patrocínio, Raul Pompéia, e Coelho Neto. São os nomes dos dezesseis laureados do estilo em nossa terra. Como se está a ver, estão aí em ordem cronológica e enchem o século, a começar em Frei Francisco de Mont'Alverne, o mais fraco em fulgores de forma, até Coelho Neto, o mais imaginoso de todos”. (Evolução dos Gêneros na Literatura Brasileira.)

Josué Montelo: Coelho Neto continua, no silêncio do seu túmulo muito mais vivo do que os vivos que se comprazem em passar-lhe atestado de óbito literário”.

Brito Broca: Quanto a mim, terei alcançado o meu objetivo neste estudo esquemático e despretencioso, em que me esforcei por ser estritamente imparcial, se puder concorrer para que leiam Coelho Neto os que pretenderem doutrinar sobre ele”. (“Coelho Neto Romancista” em O Romance Brasileiro, pág. 243).)

Alceu Amoroso Lima: “Sua língua de opulência enorme, sua imaginação realmente vivíssima, sua capacidade de narrativa extremamente expressiva, fizeram de Coelho Neto um escritor que, combatido a fundo pelos modernistas, há trinta anos passados, hoje ressurge do olvido e recomeça a interesar as novas gerações”. (Quado Sintético da Literatura Brasileira, pág. 61.)

Jorge Amado: “Como todos os escritores de obra numerosa, foi desigual. Tem coisas excelentes – como 'A Conquista' – e outras de importância secundária”. (Enq. De 'Última Hora, em 225/91956.)

Coelho Neto
        Henrique COELHO NETO nasceu em Caxias, Maranhão, em 21 de fevereiro, de 1864, e morreu no dia 28 de novembro e 1934, no Rio de Janeiro.

        Suas obras mais conhecidas: A capital federal (1893), Miragem (1895), Sertão (1896), Inverno em flor (1897), A conquista (1899), A tormenta (1901), O turbilhão (1906), Rei negro (1914), Mano (1929), Fogo fátuo, (1930).  

        Segue um trecho do romance de Coelho Neto, Fogo fátuo


                                [ESPAÇO DO ROMANCE]


                               FOGO FÁTUO  [Fragmento]
                                     


        Bivar partira para Paris, como correspondente de A Cidade do Rio, e Anselmo, que residia com ele na sala da frente de uma casa assombradada, na Rua do Riachuelo, pensou em regressar à natureza para praticar a regra de Rousseau, refugiando-se em um cantinho quieto, com árvores de sombra, som de água e vista sobre montes, como gozara no chalé do Andaraí. Mas como os plantões o retinham até as tantas à atulhada mesa da redação de O Diário, onde se empilhavam telegramas e notas policiais da última hora, que tudo ele redigia, interpretando, traduzindo, escoimando, força lhe foi optar por um casarão de cômodos na Rua do Lavradio.

        Era um velho prédio maciço, de aspecto senhorial, com um portão de carro imenso, de ombreiras de granito e sólidos batentes de pérolas com almofadas. 

        No sombrio saguão, lajeado à maneira de claustro e aprofundado em túnel, abrindo sobre um terreno que fora, em tempo velho, jardim pomareiro de árvores raquíticas, uma escada em dois lances, de largos degraus esgaçados, com baulaustrada de bojudas colunas, levava ao andar superior, cuja frente, primitivamente tomada por dois amplos salões de tetos ricos, de estuque, com painéis floridos, fora esquartejada em divisões de tabique, que eram sedes de sociedades políticas, literárias e beneficientes, cujos escudos e emblemas empastelavam as sacadas, hípidas de mastros.

        O andar térreo, ao qual se chegava atravessando o negror e a frialdade do túnel, era o seco, esmarrido jardim, que ainda conservava vestígios de canteiros, beirados de fundos de botijas, tufados de matos hirsuto e sujo.

As moradias em renque, de porta e janela e, no interior, saleta e quarto, pareciam achaparrar-se ao peso do sobrado de janelas largas, sempre colgadas de roupas, que trapejavam estabanadamente ao vento.




                                                                                                                 (Coelho Neto)




REFERÊNCIAS:
CAMPOS, Humberto de. Sepultando os meus mortos. Obra póstuma. Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc., 1941, p. 21, 29.
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. 1ª ed. Porto Alegre: Leitura XXI, 20004, p. 268. 
FARIA, Octavio. Coelho Neto. Rio de Janeiro: Agir, 1958, p. 49-50, 126-129.


                                                                * * * * * *


08/12/2011

GUIMARÃES ROSA – Parte IV (Final)

João Guimarães Rosa


               por Pedro Luso de Carvalho


        JOÃO GUIMARÃES ROSA escreveu um único romance: Grande Sertão: Veredas, sua obra mais importante. Como vimos nas partes anteriores deste trabalho, Guimarães Rosa foi autor, também, de outras obras importantes, como, por exemplo, Sagarana. Para a quarta e última parte deste trabalho, sobre a trajetória do escritor, a escolha recaíu justamente sobre a sua obra-prima, Grande sertão veredas

        Na tradição mineira - diz Guilhermino Cesar -, “é que se forma João Guimarães Rosa (1908-1967). Bernardo Guimarães, Afonso Arinos, do século 19, Avelino Fóscolo, Godofredo Rangel e João Lúcio, antes do modernismo, no século 20, Eduardo Frieiro, João Alphonsus, Lúcio Cardoso, Ciro dos anjos, depois do modernismo, são os seus antecessores mais credenciados, na área da ficção”.

        No segundo capítulo de Trilhas no Grande Sertão, de Cavalcanti Proença, diz: “Se há necessidade de classificação literária para Grande Sertão:Veredas, não há dúvidas que se trata de uma epopéia”. Sobre essa tese, Proença diz não pretender defendê-la; sente-se confortado apenas com essas anotações: o personagem (Riobaldo), episódios que convergem para a ação principal, o ponto nodal (julgamento de Zé Bebelo).
       
        Sobre a tese de Proença, de tratar-se Grande Sertão:Veredas de uma epopéia, com base nessas anotações, contrapõe-se Donaldo Schüler: “Pergunta-se se estes três aspectos distinguem a epopéia. A resposta é ncessariamente negativa. Protagosnista, episódios convergentes, ponto nodal, estrutuam também o romance bem construído. Se com estes aspectos se pretende definir a epopéia, desaparecem os limites entre esta e o romance e ficamos sem saber porque Grande Sertão: Veredas deve ser classificado como epopéia”.  

        Mas, o certo é que Donaldo Schüler admite, que Grande Sertão:Veredas contém personagens cujos traços físicos e morais “filiam indubitavelmente o romance à tradição épica. Riobaldo, à maneira de Homero, se refere aos seus heróis como representantes de uma raça deasaparecida, nascida em outros tempos, eram mais fortes do que os homens de agora”. 

        Apesar de certos epítetos lembrarem a epopéia da Europa medieval, friza Schüler, que “parece-nos incorreto apontar como fontes do romance a Idade Média de além-mar antes de esgotar a nossa própria Idade Média”. E, então, Schüler faz referência a esse período da História, que “no Brasil está vivo nos nossos arcaímos lingüísticos e no folclore do nosso país”.

        No que respeita a ser ou não uma epopéia a obra-prima de Guimarães Rosa, Donaldo Schüler, encerra o seu ensaio com este resumo: “Grande Sertão:Veredas tem aspectos épicos em maior número do que os aqui analisados. Estes aspectos épicos enraízam numa importante tradição literária brasileira popular e erudita. Contudo, “Grande Sertão:Veredas  não é epopéia. Riobaldo, narrador e personagem central, anda em busca do sentido do mundo e de si mesmo. Esta indagação, que está no núcleo central da obra, faz de “Grande Sertão:Veredas um romance”.

       Schüler afirma, no entanto, ser estéril o debate sobre ser ou não, Grande Sertão:Veredas, uma epopéia. Isso não lhe interessa. Para ele o que importa é compreender a obra. Mas, para quem quiser aprofundar-se nessa tese contrária à epopéia, de Donaldo Schüler, encontrará um texto excelente e aprofundado no seu ensaio intitulado O Épico em “'Grande Sertão:Veredas, que integra o livro João Guimarães Rosa  (Edições da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Guimarães Rosa
        No que respeita ao ineditismo vocabular e fraseologia eminentemente lúdica, de Guimarães Rosa, a que fizemos referência na primeira parte deste trabalho, pode-se ter uma idéia com estes pequenos trechos, quando o escritor narra a passagem pelo sertão do jagunço Riobaldo, personagem central de Grande Sertão:Veredas, para significar a travessia de todos os perigos do mundo: “(...) a vida é muito discordada. Tem partes. Tem neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver”. E, também, porque “viver é muito perigoso”.  

        E é justamente essa travessia do sertão, por Riobaldo, com todos os seus perigos, que lhe mostra a sua travessia interior; pelo menos é o que se depreende de sua fala: “Quando foi que eu tive a minha culpa? Aqui é Minas; lá já é a Bahia? Estive nessas vilas, velhas, altas cidades... Compadre meu Quelemén diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente”.  

        É Riobaldo quem diz, com clareza, no início do romance: “Lhe falo do sertão. Do que não sei. Ninguém ainda não sabe.” Começa aí, no início, a busca, por Riobaldo, para descobrir-se e descobrir o mundo. É nessa travessia que Riobaldo irá conhecer Diadorim; mais tarde, dirá: “Diadorim é a minha neblina”.


        NOTA: Para ter acesso ao início deste trabalho, clicar em Guimarães Rosa – Parte I



REFERÊNCIAS
CESAR, Guilhermino. SCHÜLER, Doanaldo. CHAVES, Flávio Loureiro. João Guimarães Rosa. Edições da Faculdade de Filosofia. Universidade Fedral do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, s/d, p. 19, 49-51, 79, 80-82, 86.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: Veredas. 3ª ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1963, p. 475, 96, 12.  


                                                                                           
                                                                                           *  *  *  *  *  *



25/11/2011

GUIMARÃES ROSA – Parte III

Guimarães Rosa e a esposa Aracy M .de Carvalho


              por Pedro Luso de Carvalho


        Relembremos um pouco da trajetória de Guimarães Rosa. No ano de 1938, ele parte para Hamburgo. Seis anos foi o tempo que o escritor permaneceu na Alemanha, na condição de cônsul adjunto. Foi nessa sua estada na Alemanha que Rosa conheceu Aracy Moebyus de Caravalho, funcionária graduada do consulado, com quem casou, e com quem viria ter duas filhas.

        Durante a Segunda Guerra Mundial Guimarães Rosa e Aracy, protegeram e facilitaram a fuga de judeus do nazismo; essa ajuda, prestada justamente no foco da perseguição aos judeus, levou-o à prisão em Baden-Baden, onde permaneceu por quatro meses. Mais tarde Rosa viria dizer que, além dos milhares de mortos, o que lhe ficou marcado na memória foram os crimes contra a cultura da humanidade. 
Aracy, esposa de G. Rosa

        De volta ao Brasil, Guimarães Rosa é nomeado chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura, em 1945. Nesse ano, vai a Paris para participar da Conferência de Paz. Depois, em 1948, vai a Bogotá para, como secretário-geral da delegação brasileira, integrar à IX Conferência Interamericana. De 1948 a 1950 volta a Paris como primeiro secretário e conselheiro da Embaixada, respectivamente.  

        No seu retorno ao Brasil, em 1951, é nomeado chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura. Recebe mais duas importantes nomeações: em 1953, de Chefe da Divisão de Orçamento; em 1958, de embaixador. 

        O espaço de tempo que Guimarães Rosa passa longe do Brasil não o faz esquecer-se de suas raízes. Retorna a Minas Gerais em 1945 para fazer um incursão do interior do Estado com a finalidade de rever a paisagem de sua terra onde passou a infância. Em 1952, excursiona em Mato Grosso, que lhe inspira a escrever uma reportagem poética com o vaqueiro Mariano, cuja publicação foi destinada a poucas pessoas. 

        Guimarães Rosa publica, em 1956, as novelas de Corpo de baile, na qual dá continuidade à sua experiência em Sagarana. Dos contos, que compõem Sagarana, passa para a novela Corpo de baile, gênero que lhe dá maior espaço para sua narrativa, na qual exibe melhor a força e a riqueza de sua linguagem. 

        Sobre essa importante obra, Corpo de baile, assim se manifesta Patricia Vessoni Bittencourt: "Corpo de baile é considerado como moderna linha de ficção do regionalismo e posteriormente foi dividido em três livros: Manuelsão e Miguilim, com Campo geral e Uma história de amor; Noites do sertão, com o Recado do morro, Cara-de-bronze e A estória de Lélio e Lina, e No Urubuquaqua, no Pinhém, com Dão-lalalão e Buriti, sem alterar a ordem das novelas". 

Guimarães Rosa
        Ainda se referindo a Corpo de baile, diz Patricia Vessoni Bittencourt: “A obra possui passagens obscuras, assim como todos os livros do escritor, que busca rodear e devassar o mistério cósmico, a chamada realidade, que é o ser humano, o mundo e a vida”. 

        Como dissemos na primeira parte deste trabalho, a infância do escritor é transportada para sua ficção, como bem observa Renard Perez: “'Sagarana e Corpo de baile estão cheios dessas recordações. O Burrinho Pedrês, por exemplo, é personagem de infância. Campo geral, a esplêndida novela de abertura de Corpo de baile, também nos traz muito do ambiente de meninice do escritor (...)”. 

        Quando se fala das suas novelas, Corpo de baile, em Grande sertão:Veredas, único romance do escritor e sua obra-prima, em seus contos, que compõem Sagarana, entre seus outros livros de contos, vale repetir o que se encontra no verbete Guimarães Rosa, do Kogan Larousse, com a Direção de Antonio Houaiss: “Notável pelo ineditismo vocabular e fraseologia eminentemente lúdica. A um só tempo neológica e arcaizante, regional e cultista, mas sempre impregnada de forte carga estética (...)”.


        NOTA: para acessar a última parte deste trabalho, clicar em Guimarães Rosa - Parte IV (Final)




REFERÊNCIAS:
VESSONI BITTENCOURT, Patricia. Paulo Cesar Lopes. João Guimarães Rosa. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 18.
HOUAISS, Antonio. Koogan Larouse. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro: Larousse do Brasil, 1979, p. 1234.
PEREZ, Renard. Esccritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960, p. 179-184.


           
                                                                                        *  *  *  *  *  *

16/11/2011

GUIMARÃES ROSA – Parte II

João Guimarães Rosa

                      por  Pedro Luso de Carvalho


          Como vimos na primeira parte deste trabalho, formado, Guimarães Rosa iniciou-se no exercício da medicina. Foi dedicado e respeitado pelos pacientes da pequena Itaguara, cidade pobre de Minas, seu Estado. Nesse período, um fato marcou-lhe profundamente: morreu a pessoa que estava sob seus cuidados, e, à vista disso, não sabia que resolução tomar. Ao lado do morto, o padre já esperava para encomendar-lhe a alma, enquanto o jovem médico ainda lhe aplicava injeções e mais injeções como se isso pudesse ressucitá-lo. Passou uma noite terrível. Em casa, mais tarde, muito aflito e sem jantar fechou-se no seu quarto, tomado por preocupações de represálias. Para seu alívio, soube depois que todos os parentes e amigos do morto reconheceram sua luta para salvá-lo.

        Deixou Itaguara dois anos mais tarde. De volta a Belo Horizonte ingressou na Força Pública como médico voluntário na Revolução Constitucional de 1932. Posteriormente passou a exercer esse cargo após sua aprovação por concurso público. Tempos depois transferiu-se para Barbacena, na condição de oficial-médico do 9º Batalhão de Infantaria.

        Com a vida mais calma e com a segurança que passa a ter com a efetivação no cargo, em 1934, sobra-lhe tempo para dedicar-se também à leitura e ao estudo das línguas, embora não se descuide da medicina. “Estudava línguas para não me afogar completamente na vida do interior” - confessa o escritor. Seus estudos do idioma russo foram aperfeiçoados em Barbacena com um soldado russo da polícia militar de Minas. Depois estudou com cadetes e antigos oficiais do exército tzarista, que faziam parte do Coro dos Cossacos do Juban e do Don, que estiveram nessa cidade.

        Nessa época, um amigo seu, que tinha consciência dos seus conhecimentos sobre línguas estrangeiras, sugeriu-lhe: “Se você gosta tanto de estudar línguas, por quê não faz concurso para o Itamaraty?” Depois de pensar sobre esse conselho, decidiu-se a prestar concurso. E, para essa empreitada, comprou livros e entregou-se aos estudos. Assim, em 1934 submeteu-se, no Rio de Janeiro, ao concurso do Itamaraty. Foi aprovado em segundo lugar.

        Em que pese os muitos compromissos que tinha nessa nessa época, em nenhum momento deixou de estar atento à literatura. Escreveu contos e versos; estes foram reunidos no livro Magna, com o qual em 1936 concorreu ao prêmio da Academia brasileira de Letras. Obteve boa classificação, mas, por fim, resolveu que não o publicaria. Magna permaneceu inédito por 60 anos, por exclusiva vontade do escritor-poeta. Sua publicação deu-se apenas em 1997, ou seja, 30 anos após sua morte.

        No ano de 1937 Guimarães Rosa econtrava-se no Rio de Janeiro, distante de sua terra e tomado de saudade; e foi nessa época que escreveu os contos de Sagarana – o título ainda não definitivo era Sezão -, nos quais mostra seu estilo vigoroso; também neles aparece sua capacidade descritiva quando mostra a beleza selvagem da paisagem mineira. Nesses contos de Sagarana aparecem com a mesma força a vida das fazendas, a vida dos vaqueiros e dos criadores de gado. A gente simples que aparece nos contos, vividas ou imaginadas, estão ligadas à sua infância e mocidade. 

        Além do estilo da escrita, da descrição da paisagem e da vida na região, a literatura ganha com a riqueza da linguagem desses contos que compõem o livro Sagarana; linguagem essa que se constitui numa marca do escritor; com ela o escritor fala da gente simples do sertão e faz um registro inédito na nossa literatura, que atingirá o seu ápice com Grande Sertão:Veredas. [Não exagerou o poeta Ferreira Gullar quando disse, num programa de televisão apresentado neste semestre de 2011, que qualquer pessoa que pretenda escrever nos mesmos moldes de Guimarães Rosa está fadado ao fracasso.]
Graciliano Ramos

      Nesse mesmo ano de 1937 Guimarães Rosa inscreveu-se com Sagarana ao Prêmio Humberto de Campos, instituído na época pela editora José Olimpio; sua intenção era a de ganhar o concurso, mas não apenas isso, queria, também, saber o que pensavam de sua obra, como a avaliavam; para ele a opinião da comissão julgadora era muito importante, já que não conhecia escritores, e assim não tinha o ensejo da troca de ideias. Ainda mais sabendo que dentre os jurados encontravam-se Marques Rebelo e Graciliano Ramos. Em 1938, nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo, o escritor segue para a Europa. Aí, recebe a notícia de que Maria Perigosa, de Luís Jardim, fora o livro premiado nesse concurso.

        Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, é Guimarães Rosa internado, com Cícero Dias, Cyro de Freitas Vale e outros, em Baden-Baden. Aproxima-se de Cícero Dias, com quem faz amizade, e acaba por lhe mostrar os originais de Sagarana. O pintor gosta do livro, e anima Guimarães Rosa a publicá-lo.

        Libertado mais tarde com os outros, em troca de diplomatas alemães, o escritor retorna à América do Sul; depois de rápida passagem pelo Rio, segue para Bogotá, como secretário de Embaixada, de onde volta em 1944. Um ano depois, retoma os originais de Sagarana, e em cinco meses de trabalho árduo e contínuo refaz inteiramente o livro, suprimindo duas histórias. Em 1946, o volume é publicado pela editora Universal, com grande sucesso: recebe o prêmio da Sociedade Felipe d'Oliveira, e é aclamado como uma das mais importantes obras de ficção aparecidas no Brasil nos últimos anos.


        NOTA: Para acessar a continuação deste trabalho, clicar em Guimarães Rosa - Parte III





REFERÊNCIAS:
PEREZ, Renard. Esccritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.
VESSONI BITTENCOURT, Patricia. Paulo Cesar Lopes. João Guimarães Rosa. São Paulo: Expressão Popular, 2008.


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05/11/2011

GUIMARÃES ROSA – Parte I

João Guimarães Rosa

              
                  por Pedro Luso de Carvalho

       
       JOÃO GIMARÃES ROSA era filho de Florduardo Pinto Rosa, comerciante, e de D. Francisca (Chiquinha) Guimarães Rosa. Nasceu em Candisburgo, Minas Gerais, a 27 de junho de 1908, e morreu no Rio de Janeiro, em 19 de novembro de 1967. No ano de seu nascimento, 1908, morreu Machado de Assis, o nome mais importante da literatura brasileira. O menino João viveu em Candisburgo até a idade de 10 anos, de onde se mudou para Belo Horizonte, para morar com seu avô Luís Guimarães, no Bairro Santo Antonio. Na capital, concluiu o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena, e o secundário no Colégio Santo Antonio, em São João del Rei. 

        Sobre sua infância, confessou Guimarães Rosa certa vez, numa entrevista: "Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar histórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas".

Menino João
        A infância do escritor é transportada para sua ficção, como bem observa Renard Perez: “'Sagarana e Corpo de Baile estão cheios dessas recordações. "O Burrinho Pedrês", por exemplo, é personagem de infância. "Campo Geral", a esplêndida novela de abertura de Corpo de Baile, também nos traz muito do ambiente de meninice do escritor. O episódio final, da miopia revelada, e o esplendor de um mundo surgido de repente através dos óculos, se entrosa, perfeitamente, com as confissões do escritor na entrevista em questão”.

        Guimarães Rosa passou dessa etapa de sua vida escolar para a Universidade, ingressando na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Formado, trabalhou na Santa Casa de Belo Horizonte, onde conheceu e se tornou amigo de Juscelino Kubitschek, também médico e futuro presidente do Brasil, que, nessa condição, fundaria a cidade de Brasília para tornar-se o Distrito Federal.  

        No ano de 1929 iniciou a sua carreira de escritor. Escreveu alguns contos para serem publicados pela revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro. Cada um de seus contos rendia-lhe 100 mil-réis. Como ocorre com a maioria dos escritores, seus primeiros trabalhos não chegaram a chamar a atenção dos críticos. Mais tarde, na década de 30, participou de alguns concursos.  

        Guimarães Rosa casou-se em 1930, aos 22 anos, com a jovem Lígia Cabral Penna (Lili), que na época contava com apenas 16 anos. Doze anos foi o tempo que durou o casamento, desfeito em 1942, antes de sua formatura, na qual representou os formandos como orador. O casal teve duas filhas: Vilma e Agnes. 
Guimarães Rosa 

        O jovem médico começou a trabalhar em Itaguara, cidade pequena e carente do interior de Minas Gerais. Com as frequentes andanças pelo sertão, a desigualdade social com a qual se deparou levou-o a inclinar-se pela literatura. Pessoas que conheceu nesse tempo, como o curandeiro Manoel Rodrigues de Carvalho, inspiraram-lhe a criar os seus célebres personagens; dentre eles, compadre Meu Quelemém, de Grande sertão: veredas. Descontente com o seu trabalho, trocou a medicina pela carreira diplomática.

        O escritor que então surgia iria notabilizar-se pela forma de sua escrita, ou, como diz Antonio Houaiss, seria “Notável pelo ineditismo vocabular e fraseologia eminentemente lúdica. A um só tempo neológica e arcaizante, regional e cultista, mas sempre impregnada de forte carga estética. Sua novelística tem sido objeto de numerosos estudos críticos no Brasil e no exterior.”

        Na próxima postagem seguiremos com este trabalho sobre a vida e a obra de João Guimarães Rosa.


NOTA: Para ter acesso a parte seguinte deste trabalho, clicar em Guimarães Rosa - Parte II



REFERÊNCIAS:
VESSONI BITTENCOURT, Patricia. Paulo Cesar Lopes. João Guimarães Rosa. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p.
HOUAISS, Antonio. Koogan Larouse. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro: Larousse do Brasil, 1979, p. 1234.
PEREZ, Renard. Esccritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960, p. 179-184.


                         
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25/10/2011

RUI BARBOSA / No Palco da História



                por  Pedro Luso de Carvalho

       
       Rui Barbosa nasceu em Salvador, Bahia, a 5 de novembro de 1849 e morreu em Petrópolis em 1923. O período em que Rui viveu foi talvez o mais significativo e deciso da História contemporânea, como bem observa Gladstone Chaves de Melo, na Introdução que escreveu para o livro Rui Barbosa, Textos escolhidos (Agir, Rio de Janeiro, 1968). No plano histórico, vê-se que na segunda metade do século 19 surgiram, caldearam-se ou contrapuseram-se os fatores de desintegração da sociedade liberal-burguesa. Chaves de Melo dá realce ao fato de que 1848 foi o ano do Manifesto de Marx, tão sem inportância no nascedouro, mas que viria a desencadear um movimento revolucionário expansionista, pan-elavista e ameaçador do mundo inteiro.

        Por outro lado, o princípio das Nacionalidades, consagrado no Congresso de Viena, engendera o novo sistema de forças do equilíbrio europeu, dando como consequência a unificação alemã e a unificação italiana, obra de Bismark e de Cavour, respectivamente. A guerra franco-prussiana firmou a hegemonia da Prússia e determinou a fundação do império alemão. Quando Rui concluiu seus estudos superiores já encontrou esse quadro na Europa e suas ressonâncias no Brasil, bem como o início, aqui, de agitações políticas e sociais, a que ele estará profundamente ligado: abolição, República, ditadura, afirmação do poder civil, enfatiza Chaves de Melo.
       
        Na Europa e no mundo sucedem-se acontecimentos que representam a tomada-de-posição para a grande partida de 1914-1918. Além da obra política e unitária de Cavour e de Bismark, ocorreu a expansão colonial inglesa e francesa, a guerra hispano-americana, com a independência de Cuba e a vitória dos Estados Unidos (1898), a guerra dos boers (1900), a vitória de Porto Arthur (1904-1905), a Trípice Aliança, entre a Alemanha, Áustria e Itália, o entendimento franco-russo. Por mais alheada que estivesse a sociedade por mais engolfada que andasse na belle époque, os políticos mais responsáveis sentiam a gravidade da situação e apontavam para as nuvens de borrasca no horizonte.
       
        Ainda um pouco mais desse período em que Rui viveu. A Conferência de Paz em Haia, na qual Rui tomou parte e teve papel destacado e original - como preleciona Chaves de Melo -, foi um esforço inútil, para afastar a catástrofe. Sobreveio a guerra, primeiro ato trágico da liquidação da civilização burguesa. Ainda no caso do conflito aparece a primeira consequência social da tomada-de-consciência das classes oprimidas, a Revolução Russa, logo disvirtuada e transformada em ditadura de grupo. Cinco anos depois, às vésperas da morte de Rui, assumia o poder na Itália Mussolini, marco primeiro da reação totalitária nacionalista e prólogo da guerra de 39.

        Nesse período em que viveu Rui, vê-se que, no plano estético, surgiu a renovação simbolista por volta de 70 e, depois, os primeiros sinais da renovação modernista. Tanto de uma como de outra coisa ficou isento Rui, conservando-se fiel ao classicismo, ao parnasianismo e ao purismo, que lhe orientaram o gosto e a obra literária – diz Gladstone Chaves de Melo; e acrecenta: 

        Viveu, pois, Rui no período crítico do fim de uma civilização, mas não se deviou de seus ideais, reagiu às inovações e lutou bravamente pela preservação das liberdades conseguidas e contra os avanços do absolutismo, que não chegou a ver triunfante, aqui e alhures, sob formas e ideologias novas. Guardou o que de bom teve a Revolução Francesa e a Declaração de 1776, contentando-se em ser um soldado da democracia e um lidador da pureza republicana. Não foi um homem de platéia; esteve no palco da História.



         In Rui Barbosa. Textos Escolhidos. 2ª ed. Agir Editora, Rio de Janeiro, 1968.