24/11/2014

[Poesia] DRUMMOND – A Federico Garcia Lorca





– PEDRO LUSO DE CARVALHO


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma Poesia. Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma Poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.
Em que pese pudesse ser notado na obra alguns modismos que eram advindos do modernismo, um fato não podia ser negado: ali se via um grande poeta, como poderia ser aquilatado nos livros que se seguiriam a este, como: Brejo das Almas, 1934; Sentimento do Mundo, 1940; A Rosa do Povo, 1945; Claro Enigma, 1951. Tais obras dariam a Drummond a posição de o maior poeta moderno brasileiro.
Carlos Drummond de Andrade nasceu na cidade de Itabira, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de agosto de 1987.
Segue o poema “A FEDERICO GARCIA LORCA”, de Carlos Drummond de Andrade (In Antologia poética / Carlos Drummond de Andrade. 11ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978, p. 93-94):


A FEDERICO GARCIA LORCA

– CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transfundindo em cravos
de rubra cor espanhola.
Aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.

Vergonha de há tanto tempo
viveres se morte é vida
sob chão onde esporas tinem
e calcam a mais fina grama
e o pensamento mais fino
de amor, de justiça e paz.

Lágrimas de noturno orvalho,
não de mágoa desiludida,
lágrimas que tão-só destilam
desejo e ânsia e certeza
de que o dia amanhecerá.
(Amanhecerá.)

Esse claro dia espanhol,
composto na treva de hoje
sobre teu túmulo há de abrir-se,
mostrando gloriosamente
– ao canto multiplicado
de guitarra, gitano e galo –
que para sempre viverão
os poetas martirizados.



*  *  *



17/11/2014

T. S. ELIOT - Poesia e Teatro




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Escrevi neste espaço sobre a criação da conceituada The Paris Review, bem como sobre as suas famosas entrevistas, que foram publicadas originalmente em Paris, com a coordenação de Malcolm Cowley. No Brasil,  o livro levou o título de Escritores em Ação, e foi publicado pela Paz e Terra, em 2. ed., em 1982, com tradução de Brenno Silveira. Neste livro, encontram-se entrevistas concedidas por grandes nomes da literatura. A entrevista feita com T. S. Eliot é mais uma das que deram prestígio à revista famosa. Os temas abordados nessa entrevista, poesia e dramaturgia, certamente interessarão a escritores dessas áreas, e, de modo especial, aos novos escritores – poetas, principalmente. Apenas os trechos mais importantes serão transcritos nesta edição.  Antes, porém, vamos falar um pouco da vida e obra do entrevistado.
T. S. Eliot, é o nome literariamente adotado por Thomas Stearns Eliot. O escritor norte-americano nasceu em St. Louis, Missouri, em 26 de setembro de 1888, onde viveu até a idade de 18 anos. Filho de uma família ilustre de Boston, não teve dificuldade em ingressar, em 1906, na universidade da elite norte-americana, Harvard. Aí concluiu com brilhantismo, em quatro anos, o curso de medicina. Depois, nessa mesma universidade, obteve o seu título de doutor em filosofia. Mais tarde, tornar-se-ia um dos poetas modernos mais discutidos na Europa e nos Estados Unidos, com poemas de excepcional qualidade, como é o caso de A Terra Devastada (1929). Eliot também foi responsável por importantes ensaios e peças para o teatro, dentre elas, Assassinato na Catedral (1935). A sua morte, em 4 de janeiro de 1965, na Inglaterra, deixaria uma importante lacuna dramaturgia e na literatura.
Mas, voltando um pouco no tempo, vemos que T. S. Eliot passou a residir na Inglaterra, no ano de 1914. Após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, lecionou filosofia na conceituada universidade de Oxford. Com 25 anos, Eliot resolveu que não mais voltaria a morar nos Estados Unidos. Então, escolheu a Inglaterra como sua nova residência; esta, seria a sua residência definitiva. Quando contava com 39 anos de idade, no ano de 1927, Thomas Stearns Eliot tornou-se cidadão britânico. No ano de 1948, Eliot recebe o Prêmio Nobel de Literatura. T. S. Eliot dizia, no que respeitava à sua nacionalidade: "My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional"; isto é: “Minha poesia não seria o que é se eu tivesse nascido na Inglaterra, e não seria o que é se eu tivesse permanecido nos Estados Unidos. É uma combinação de coisas”.
Passando agora à entrevista, que concedeu à The Paris Review, em Nova Iorque, no ano de 1957, no apartamento de Louis Henry Cohn, da House of Books, Ltd., que era amiga do casal Eliot, vamos sentir as manifestações do escritor famoso sobre a poesia e a dramaturgia, começando por sua primeira resposta à pergunta feita pelo entrevistador: Quando o Sr. Começou a escrever versos em st. Louis, quando era menino?
Comecei, creio, aos quatorze anos de idade – responde Eliot -, sob a inspiração de Omar Khayyam, de Fitzgerald, a escrever várias coisas muito soturnas, ateístas e desesperançadas no mesmo estilo, as quais, felizmente suprimi por completo – de modo tão completo que já não mais existem. Eu jamais as mostrei a ninguém. O primeiro poema aparecido foi publicado, pela primeira vez, no Smith Academy Record e, mais tarde, no Harvard Advocate, escrito como um exercício para o meu professor de inglês, e era uma imitação de Ben Jonson. Ele o achou muito bom para um rapaz de quinze ou dezesseis anos. Depois, escrevi alguns em Harvard, apenas os suficientes para candidatar-me a redator do The Harvard Advocate, o que me dava prazer. Depois, houve uma erupção , durante meus primeiros e últimos anos na universidade. Tornei-me muito mais prolífico, sob a influência de Baudelaire e, a seguir, de Jules Laforgue, que descobri, creio, em meu penúltimo ano de 'college' em Harvard.
Depois, respondendo à pergunta se sabia, quando era estudante, de poetas mais velhos, e qual a diferença entre eles, bem como a Pound e Stevens, e os de sua época, responde:
Creio que constituiu uma vantagem não existirem quaisquer poetas na Inglaterra ou na América por quem a gente se interessasse de maneira particular. Não sei como seria, mas julgo que seria uma distração um tanto incômoda ter-se uma porção de presenças dominantes, como o senhor as chama, em volta da gente. Felizmente, não éramos importados uns pelos outros.
E sobre pessoas como Hardy e Robinson, tinha consciência delas?
Eu tinha - diz Eliot - uma ligeira consciência da existência de Robinson, pois lera um artigo a respeito dele, no The Atlantic Monthly, que citava alguns de seus poemas, mas não era uma coisa que me inebriasse. Hardy mal era conhecido, na época, para que fosse tido como poeta. A gente lia seus romances, mas suas poesias só se destacaram durante a geração posterior. Havia Yeats, mas era o Yeats dos primeiros tempos. Aquilo era demasiado crepuscular para mim. Não havia, realmente, nada, exceto os da década de 1890, que tinham morrido todos devido à bebida, ao suicídio ou a uma dessas coisas.
O senhor e Conrad Aiken não se ajudavam mutuamente com poemas, quando eram redatores do Advocate?, pergunta-lhe o entrevistador; Eliot, responde: “Éramos amigos, mas não creio que tenhamos influenciado, de modo algum, um ao outro. Quanto a que se referia a escritores estrangeiros, ele se interessava mais pelos italianos e espanhóis, ao passo que eu me voltava inteiramente para os franceses.”
E, depois, Eliot responde à pergunta feita sobre Conrad Aiken e Pound. “Aiken era um amigo muito generoso. Certo verão, em que eu estava em Londres, em companhia de Harold Monro e outros, ele tentou fazer com que publicassem alguns de meus poemas, mas sem resultado. Mais tarde, em 1914, creio, estávamos ambos em Londres, durante o verão. E ele me disse: Vá ver Pound. Mostre-lhe seus poemas. Ele achava que talvez Pound os apreciasse. Aiken gostava deles, embora fossem muito diferente dos seus.
Sobre as circunstâncias de seu primeiro encontro com Pound, diz Eliot:
Creio que fui eu quem o visitou primeiro. Penso que causei boa impressão, em sua pequena sala triangular em Kensington. Disse-me: "Mande-me seus versos". E depois, escreveu-me: "Isto é tão bom como as melhores coisas que tenho lido. Venha cá para falar comigo a respeito". Em seguida, ele os encaminhou a Harriet Monroe, que dedicou algum tempo a lê-los.
É verdade que por ocasião do seu sexagésimo aniversário, o senhor se refere aos versos de Pound como sendo comoventemente incompetente.
Ah! Isso foi um pouquinho atrevido, não foi? Bem, eu, na verdade, não apreciei o que lhe foram apresentados. Aquilo me parecia um tanto fantasioso e romântico coisa assim do tipo capa-e-espada. Quando fui visitar Pound, não era, particularmente, um admirador de sua obra, e, embora eu a encare, hoje, como bastante realizada, estou convencido de que as suas grandes coisas só se encontram nos seus trabalhos posteriores.
Perguntado se foi beneficiado, de um modo geral, pela crítica que Ezra Pound fez aos seus poemas, e se Pound cortou alguns outros poemas, Eliot responde:
Sim. Naquela época, sim. Ele era um crítico estupendo, pois não procurava transformar a gente numa imitação dele próprio. Procurava ver o que a gente estava procurando fazer.” E sobre a pergunta a Eliot, se já procurou reescrever versos de alguns de seus amigos, dentre eles Ezra Pound, responde: “Não me lembro de nenhum exemplo disso. Claro que, nos últimos vinte e cinco anos, aproximadamente, fiz inumeráveis sugestões quanto a manuscritos de jovens poetas.
Tenho outra pergunta a fazer acerca do começo da carreira de Pound e do senhor. Li, em algum lugar, que o senhor e Pound, mais ou menos aos vinte anos, tinham decidido a escrever quartetos, porque o 'vers libre' fora demasiado longe. Eis a resposta de Eliot: “Creio que foi Pound quem disse isto. E a sugestão de escrever quartetos era dele. Ele me colocou em Emaux et Camées (Poemas de Teófilo Gautier).
Sobre a pergunta feita sobre as ideias de T.S. Eliot, e sobre a relação forma-tema, bem como se a forma era escolhida antes de saber bem o que iria escrever, Eliot responde: “De certa maneira. A gente estudava originais. Analisávamos os poemas de Gautier e, depois, pensávamos: “Tenho acaso a dizer nesta forma que seja útil?” E experimentávamos. A forma dava ímpeto ao conteúdo.”
E, quanto à pergunta sobre os 'vers libres' , se teria sido essa a forma que escolheu para empregar em seus primeiros poemas, essa foi sua resposta:
Meus primeiros 'vers libres', claro, foram praticados com o intuito de praticar a mesma forma empregada por Laforgue. Isto significava simplesmente rimar versos de extensão irregular com as rimas recaindo em lugares irregulares. Não era algo tão 'libre' como muitos versos, principalmente o que Ezra Pound chamava 'amygism' (referência a Amy Lowell, que captou e transformou o imaginismo). Não creio que a boa poesia possa ser produzida numa espécie de tentativa política tendente a por abaixo alguma forma existente. Acho que ela apenas suplanta. As pessoas descobrem uma maneira em que podem dizer algo. ”Não posso dizê-lo assim; que modo poderei descobrir para fazê-lo?” A gente, realmente, não se 'importa' com os modos existentes.
Penso que foi depois de Prufrock' e antes de Gerontion – pergunta-lhe o entrevistador -, que o senhor escreveu os poemas em francês que aparecem em seus Poemas Completos. O que levou o senhor a escrevê-los? Escreveu outros, desde então?
Não, e jamais o farei. Aquilo foi uma coisa muito curiosa que não posso explicar satisfatoriamente. Naquela época, eu tinha a impressão de que minhas ideias haviam secado completo. Fazia já algum tempo que eu não escrevia nada, e me sentia um tanto desesperado. Pus-me a escrever algumas poucas coisas em francês, e constatei, naquela altura, que 'podia' fazê-lo. Creio que foi quando eu estava escrevendo os poemas em francês que comecei a não levar a coisa tão a sério, verificando que, dessa maneira, não me sentia tão preocupado ante o fato de não ser capaz de escrever.
Depois responde sobre a fase em que escreveu em francês:
Fiz aquelas coisas como uma espécie de 'tour de force', para ver o que podia fazer. A coisa continuou durante alguns meses. O que de melhor escrevi já havia sido publicado. Devo dizer que Ezra Pound os examinou, e que Edmond Dulac, um francês que conheci em Londres, me ajudou um pouco. Deixamos de lado alguns deles, e creio que desapareceram por completo. Depois, subitamente, comecei a escrever de novo em inglês, e perdi todo o desejo de continuar em francês. Penso que isso foi algo que me ajudou a recomeçar.
E conclui o episódio de sua vida de escritor bilíngue, quando pensou em mudar-se para Paris e escrever seus livros apenas em francês:
Não sei de caso algum em que alguém haja escrito grandes ou mesmo excelentes poemas, igualmente bem em dois idiomas. Acho que a linguagem deve ser aquela em que a gente se exprime na poesia, e que, para isso, é preciso que se renuncie à outra. Sou de opinião, além disto, de que a língua inglesa possui, na verdade, sob certos aspectos, mais recursos que a língua francesa. Penso, noutras palavras, que eu, provavelmente, me sairia muito melhor em inglês do que em francês, mesmo que me tornasse tão competente em francês como os poetas a que o senhor se referiu.
T. S. Eliot responde à pergunta sobre planos para novos poemas:
Não, não tenho planos para coisa alguma, no momento, mas gostaria, logo que me livrasse de The Elder Statesman passei apenas pelas provas finais, pouco antes de deixarmos Londres, de entregar-me a alguns escritos em prosa, no gênero da crítica. Nunca penso mais do que um passo à frente. Se desejo escrever outra peça teatral ou escrever novos poemas? Não sei, enquanto não descubro que desejo fazê-lo.
E sobre a pergunta se tem algum poema por terminar e que tente terminá-lo, diz:
Não, não tenho muita coisa. Via de regra, para mim, algo não terminado é alguma coisa que bem poderia ser inutilizada. É melhor, se há alguma coisa nela que eu talvez pudesse usar alhures , deixá-la no fundo da memória, no fundo de uma gaveta. Se eu a deixo numa gaveta, ela permanece sendo a mesma coisa, mas, se está em minha mente, poderá transformar-se em algo diferente. Como já disse antes, Burnt Norton começou com fragmentos que tinham de ser extirpados de Murder in the Cathedral. Aprendi, em Murder in t 'Murder in the Cathedral, que não adianta escrever versos bonitos que a gente julga ser boa poesia, se não houver ação neles. Foi aí que Martin Browne se tornou útil. Ele teria dito: Há aqui belos versos, mas nada tem que ver com o que está se passando no palco.
Sobre a pergunta, se com frequência escreve poemas em parte, responde:
Sim, como The Hollow Men, eles se originaram de poemas isolados. Tanto quanto me lembro, uma ou duas das primeiras partes em rascunho Ash Wednesday foram publicados no 'Commerce', ou em outro lugar, Depois, a pouco e pouco, vim a encará-los como constituindo uma sequência. Essa foi a única maneira pela qual minha mente parece ter trabalhado, durante todos esses anos, poeticamente – fazendo as coisas separadamente e, depois, tendo eu visto a possibilidade de fundi-los, modificando-os, e fazendo deles uma espécie do todo.
Indagado sobre seus hábitos de escrever, Eliot responde a pergunta, se escreve à máquina.
Em parte. Um bom trecho de minha nova peça. The Elder Statesman, foi escrito a lápis, de maneira bastante tosca . Depois, eu próprio a datilografei, e em seguida minha esposa também. Ao datilografar, faço modificações, bastante grandes. Mas, quer escreva a mão ou datilografe, uma composição de qualquer tamanho – como, por exemplo, uma peça teatral – significa para mim horas regulares de trabalho, digamos, das dez à uma. Constatei que três horas por dia é tudo o que posso fazer quanto a uma composição eficiente. O polimento posso fazer mais tarde. Sinto, não raro, que eu desejaria prosseguir, mas quando examino, no dia seguinte, o que produzi após três horas de trabalho, nunca acho a coisa satisfatória. É muito melhor parar e pensar em algo inteiramente diferente.
Eliot responde à pergunta se já escreveu de acordo com um plano os seus poemas não dramáticos, como os Four Quartets:
Só versos ocasionais. Os 'Quartets' não foram planejados. O primeiro, claro, foi escrito em 1935, mas os três escritos durante a guerra foram compostos devido a impulsos de momento. Em 1939, se não tivesse havido uma guerra, eu teria, provavelmente, tentado escrever outra peça teatral. E penso que foi uma coisa muito boa não ter tido tal oportunidade. Do meu ponto-de-vista pessoal, uma das boas coisas que a guerra fez foi impedir-me de escrever, demasiado cedo, outra peça. Percebi algumas das coisas que não estavam bem em Family Reunion, mas penso que foi muito melhor o fato de qualquer peça haver sido bloqueada, durante cinco anos, antes que pudesse fazer sucesso. A forma dos Quartets adaptava-se muito bem às condições sob as quais eu estava escrevendo, ou podia escrever. Eu só podia escrevê-los em partes, e não precisava observar inteiramente a mesma continuidade; pouco importava que um ou dois dias passassem sem que eu escrevesse, como ocorria com frequência, enquanto eu me entregava a trabalhos de guerra.
E sobre as suas peças teatrais, T.S. Eliot diz:
Eu disse alguma coisa, creio, em Poetry and Drama, acerca de meus objetivos ideais, os quais jamais esperei poder realizar plenamente. Comecei, realmente, com Family Reunion, porque Murder in the Cathedral é um trabalho referente a determinado período e algo fora do comum. A peça foi escrita numa linguagem um tanto especial, como a gente faz quando está tratando de outra época. Não resolveu nenhum dos problemas em que eu estava interessado. Mais tarde, pensei que, em The Family Reunion, eu estava dando tanta atenção à versificação que negligenciei a estrutura da peça. Ainda hoje, acho que The Family Reunion é a melhor de minhas peças teatrais quanto ao que concerne à poesia, embora não seja muito bem construída.
E, no que difere a redação teatral da redação de poemas, Eliot responde:
Acho que há maneiras inteiramente diferentes de se abordarem tais gêneros. Há toda a diferença existente no mundo entre o escrever-se uma peça para uma platéia e escrever-se um poema, em que se está a escrever primordialmente para si mesmo – embora, palavras evidentemente, a gente não se sentisse satisfeita se o poema depois, não significasse algo também para outras pessoas. Com um poema, pode-se dizer: “Pus meus sentimentos em palavras para mim mesmo. Tenho agora o equivalente, em palavras, para tudo o que senti.
Eliot conclui a sua fala sobre a forma de redação de peça teatral e de poema:
Num poema, ademais, a gente está escrevendo para a nossa própria voz, o que é muito importante. A gente está pensando em termos da nossa própria voz, ao passo que, numa peça, desde o começo, a gente tem de perceber que está preparando algo que irá parar nas mãos de outras pessoas, desconhecidas no momento em que se está escrevendo. Não direi, certamente, que não haja momentos, numa peça, em que ambas as maneiras de se abordar um tema não possam convergir, quando penso, idealmente, que 'deveriam' fazê-lo. Isso ocorre, com muita freqüência, em Shakespeare, quando ele está escrevendo um poema e pensando, tendo em mente, simultaneamente, o teatro, os atores e a plateia. E ambas as coisas constituem apenas uma. É maravilhoso, quando se pode atingir tal ponto. Quanto a mim, isso só ocorre em momentos esporádicos.
O entrevistador pergunta a Eliot se ele tem algum conselho para dar a um poeta jovem acerca das disciplinas ou das atitudes que ele poderia cultivar, a fim de melhorar a sua arte. Esta é a resposta de Eliot:
É tremendamente perigoso dar conselho geral. Acho que o melhor conselho que se pode dar a um jovem poeta é criticar em detalhe um seu determinado poema. Argumentar com ele, se necessário; dar-lhe nossa opinião, se houver quaisquer generalizações a serem feitas, e deixar que ele próprio o faça. Tenho verificado que pessoas diversas tem maneiras diferentes de trabalhar, e que as coisas lhe chegam de modo diferente. Nunca se tem a certeza de estar-se proferindo uma enunciação que seja geralmente válida para todos os poetas, ou quando se trata de algo que só se aplica à gente. Penso que nada é pior que a gente procurar formar alguém à nossa própria imagem.


REFERÊNCIAS:
CATTAUI, Georges. T. S. Eliot. Paris: Éditions Universitaires, 1957.
COWLEY, Malcom. Escritores em Ação. Tradução de Brenno Silveira. 2. ed. Paz e Terra, 1982.


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08/11/2014

[Conto] JORGE LUIS BORGES – O Punhal

          


– PEDRO LUSO DE CARVALHO

JORGE LUIS BORGES (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges) nasceu em Buenos Aires, Argentina, a 24 de agosto de 1899 e faleceu em Genebra, Suíça, em 14 de junho de 1986, aos 87 anos incompletos.
Borges escreveu uma extensa obra, abrangendo contos, não ficção e antologias. “Seus pequenos ensaios – diz André Maurois –, bastam para afirmá-lo grande, pelo brilho duma inteligência impressionante, a riqueza de invenção e o estilo cerrado, quase matemático”.
Diz mais, Maurois: “Aparenta-se com Kafka, Poe, às vezes com Wells, sempre Valéry pela brusca projeção de seus paradoxos dentro do que chamaram sua metafísica privada”.       
María Esther Vázquez, biógrafa de Borges, diz: “A partir de 1933 Borges encontrou, quase sem perceber, seu verdadeiro destino na literatura: o conto, gênero que lhe daria fama mundial”.  
No final dos anos 1950 até a sua morte – 1986 –, Borges fez muitas palestras e voltou a escrever poemas, já que sua deficiência visual dificultava sua escrita em prosa, fábula, ensaio e mitologia.
Segue o conto O Punhal, de Luis Carlos Borges (in Nova Antologia Pessoal/Jorge Luis Borges; tradução Davi Arrigucci Jr., Heloisa Jahn, Josely Vianna Baptista. – 1ª ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 2013, p. 75-76):

O PUNHAL
  – JORGE LUIS BORGES
A Margarita Bunge

Numa gaveta há um punhal.
Foi forjado em Toledo, em fins do século passado. Luis Melián Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; Evaristo Carriego uma vez segurou-o na mão.
Todos os que o veem precisam brincar um pouco com ele; percebe-se que há muito o procuravam; a mão se apressa em apertar a empunhadura que a espera; a lâmina obediente e poderosa participa com precisão dos movimentos.
Outra coisa quer o punhal.
Ele é mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e lhe deram forma para um uso muito preciso; é, de algum modo eterno, o punhal que esta noite matou um homem Tacuarembó e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.
Numa gaveta da escrivaninha, entre blocos e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o controla porque o metal se anima, o metal que pressente em cada contato o homicida para quem o criaram os homens.
Às vezes me dá pena. Tanta dureza, tanta fé, tão serena ou inocente  soberba, e os anos passam, inúteis.

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REFERÊNCIAS:
MAUROIS, André. De Aragon a Montherlant, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1967, p. 99.
VÁZQUEZ, María Esther. Jorge Luis Borges – Esplendor e derrota – Uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 1966, p. 135.

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27/10/2014

ERNEST HEMINGWAY - Sua Obra & Influências



PEDRO LUSO DE CARVALHO

ERNEST HEMINGWAY iniciou sua carreira como repórter do Kansas City Star, com a idade de 17 anos. Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, Hemingway juntou-se a uma unidade de ambulância voluntária no exército italiano, como motorista. Servindo na linha de frente, foi ferido gravemente, e, para recuperar-se dos ferimentos sofridos, permaneceu por considerável tempo em hospitais. Depois de seu retorno aos Estados Unidos, passou a trabalhar como repórter para jornais canadenses e americanos, um deles, o Toronto Star Weekly, na cobertura da guerra franco-turca, que o levou a retornar à Europa. Mais tarde fixou residência em Paris.
No ano de 1923, Hemingway publicou o seu primeiro livro, The Stories and Ten Poems, numa edição de 300 exemplares; em 1924, saiu a coletânea In Our Time, com 18 contos curtos. Em 1925 publicou a sátira The Torrents of Spring. Em 1926 publicou o romance The Sun Also Rises (O sol também se levanta), em 1927, o seu segundo livro de contos, Nen Without Woman, destacando-se, entre eles, The Killers e The Undefeated, que foram considerados os melhores exemplos do conto moderno.
O reconhecimento, pela crítica literária, chegou a Hemingway com a publicação do romance A Farewell to Arms (Adeus às armas), em 1929. Os seus contos foram reunidos no livro The First Forty-Nine, em 1938. Já o romance mais longo do escritor foi publicado em 1940, cuja história se passa na Guerra Civil Espanhola, For Whom the Bell Tolls (Por quem os sinos dobram). Além dessas obras, publicou: Across the River and Into the Trees (1950), Old man and the Sea (O velho e o mar), em 1952 - que lhe deu o Prêmio Pulitzer, em 1953, e o Prêmio Nobel de 1954 -, Adventures of a Young Man (1962), Islands in the Stream (1970) e The Garden of Eden (O jardim do Éden), em 1986.
A respeito de Old man and the Sea (O velho e o mar), assim se manifesta Mário Vargas Llosa, no seu livro A verdade das mentiras, depois de ter se referido à luta de um velho pescador, que depois de ficar oitenta e quatro dias sem pescar, trava uma luta titânica de dois dias e meio contra um peixe gigantesco, que, preso a seu pequeno bote, depois de um combate não menos heroico, vem a perdê-lo no dia seguinte para os vorazes tubarões do Caribe:
Essa é uma situação clássica nas obras de ficção de Hemingway: a aventura de um homem que enfrenta, num combate sem trégua, um adversário implacável, liça graças a qual, seja derrotado ou vitorioso, atinge um valor mais alto de orgulho e de dignidade, um maior coeficiente humano. Mas em nenhum de seus romances ou contos anteriores esse tema recorrente de sua obra se materializou com a perfeição que atingiu nesse relato, escrito em Cuba, em 1951, num estilo diáfano, com uma estrutura impecável e tanta riqueza de alusões e significados como o de seus melhores romances de fôlego” (...) Sem deixar de ser uma bela e comovedora obra de ficção, esse relato é também uma representação da condição humana, segundo a visão que dela postulava Hemingway”.
Em entrevista concedida a The Paris Review, Hemingway respondeu a muitas perguntas feitas pelo entrevistador, não a todas as perguntas, esquivando-se daquelas que achava que não eram inteligentes ou que eram importunas. Para os leitores de Hemingway, ou para os que simplesmente se interessam pelas opiniões sobre literatura, escolhemos partes dessa entrevista. O entrevistador pergunta a Hemingway se na década de vinte, quando o escritor vivia em Paris, ele contou com algum ‘sentimento de grupo’ em companhia de outros escritores e artistas; esta foi a resposta:
“Não. Não havia sentimento de grupo. Tínhamos respeito uns pelos outros. Eu respeitava uma porção de pintores, alguns deles de minha própria idade, outros mais velhos: Gris, Picasso, Braque, Monet, que ainda viviam, bem como a uns poucos escritores, como, por exemplo, Joyce, Ezra e a boa Stein...”
Sobre a pergunta feita, se é influenciado sobre o que está lendo, quando escreve, respondeu:
“Não, desde que Joyce estava escrevendo Ulisses. A influência dele não foi direta. Mas, naquela época, quando as palavras que conhecíamos nos estavam interditas, e tínhamos que lutar para encontrar uma única palavra, a influência de sua obra foi o que mudou tudo, fazendo com que nos fosse possível romper com certas restrições”.
A seguir respondeu à pergunta sobre as influências de pessoas contemporâneas suas, em sua obra, bem como qual foi a contribuição de Gertrude Stein, de Ezra Pound e de Max Perkins. Essa última parte da pergunta deixou Hemingway agastado, porque o entrevistador visava tocar num assunto que não lhe era agradável, qual seja, os comentários que intelectuais e críticos literários faziam na época, em Paris, de que, na ficção, foi orientado por Gertrude Stein e Ezra Pound, tanto que, irritado, disse ao entrevistador:
“Acaso essa espécie de conversa o entedia? Esta bisbilhotice literária retrospectiva – este lavar de roupa suja depois de transcorridos trinta e cinco anos – causa-me náuseas. Seria diferente se se procurasse dizer toda a verdade. Isso teria algum valor”.
Hemingway, no entanto, responde parte da pergunta:
Miss Stein escreveu com certa prolixidade e considerável inexatidão a respeito de sua influência sobre minha obra. Foi-lhe necessário fazer isso, depois que ela aprendeu a escrever diálogos, num livro intitulado The Sun Also Rises (O sol também se levanta). Eu gostava muita dela e pareceu-me esplêndido que houvesse aprendido a escrever conversação. Quanto a Ezra, era extremamente inteligente quanto aos assuntos que realmente sabia. Aqui é mais simples e melhor agradecer a Gertrude Stein por tudo que aprendi com ela, reafirmar minha lealdade a Ezra Pound como a um grande poeta e a um amigo leal, e dizer que me interessava tanto por Max Perkins, que jamais consegui aceitar o fato de que ele morreu.
Depois, o entrevistador quis saber quais os antecedentes literários, aquele de quem mais aprendeu. Hemingway, então, passou a enumerá-los:
Mark Twain, Flaubert, Stendhal, Bach, Turguieniev, Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Andrew Marvell, John Donne, Maupassant, o bom Kipling, Thoreau, o Capitão Marryat, Shakespeare, Mozart, Quevedo, Dante, Virgílio, Tintoretto, Hieronymus Bosch, Brueguel, Patinir, San Juan de la Cruz, Góngora... Levaria um dia inteiro para lembrar-me de todos. Pareceria, ademais, que eu estaria procurando demonstrar uma erudição que não possuo, ao invés de estar apenas procurando lembrar todos aqueles que exerceram influência sobre minha vida e minha obra (...).
É novamente Vargas Llosa quem fala a respeito do livro escrito por Hemingway, Paris é uma festa, na sua obra citada:
Livro patético – canto do cisne – pois foi o último livro que escreveu -, esconde sob a enganosa pátina das recordações de sua juventude, a confissão de uma derrota. Aquele que começou assim, na Paris dos loucos anos de 1920, tão talentoso e tão feliz, tão criador e tão vital, aquele que em poucos meses foi capaz de escrever uma obra prima – O sol nasce sempre – ao mesmo tempo que espremia todos os sucos suculentos da vida – pescando truta e vendo touros na Espanha, esquiando na Áustria, apostando nos cavalos em Saint-Cloud, bebendo os vinhos e licores de La Closerie – já está morto, é um fantasma que trata de se agarrar à vida mediante aquela prestidigitação antiquíssima inventada pelos homens para, ilusoriamente, prevalecer contra a morte: a literatura.
Eric Nepomuceno, no seu livro Hemingway na Espanha, diz:
A última cidade que viu na vida foi Ketchum, em Idaho, um estado do norte dos Estados Unidos, entre Washington e Oregon à esquerda de Montana e Wyoming à direita, na fronteira com o Canadá (...). Seu último trabalho foram os textos que tentaram recuperar suas épocas de Paris, talvez a última cidade que ele conseguiu conservar intacta na memória, mesmo nos tempos em que a memória andava cada vez mais magra: dois meses antes de disparar a velha ‘Boss’ de dois canos na testa, ele ainda corrigia e armava as sobras da alegria e da felicidade.
Ernest Miller Hemingway, nasceu em Oak Park, Illinois, EUA, em 21 de Julho 1899, e morreu em Ketchum, Idaho, aos 2 de Julho 1961. Foi casado quatro vezes, e teve muitos casos amorosos. Era um dos seis filhos do médico Clarence Edmonds Hemingway (membro fervoroso da Primeira Igreja Congregacional) e de Grace Hall (cantora do coro da igreja). Ernest Hemingway pôs termo à sua vida da mesma forma que o fizera Clarence, seu pai: suicídio.


REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Trad. Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
NEPOMUCENO, Eric. Hemingway na Espanha. A outra pátria. Porto Alegre: L&PM Editores, 1991, p. 15.
VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Trad. Cordelia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: Editora ARX, 2005, p. 246, 248.


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08/10/2014

AUGUSTO DOS ANJOS – Poeta Singular



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

AUGUSTO DOS ANJOS nasceu no Engenho de Pau D’Arco, junto à vila Espírito Santo, Estado da Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu as primeiras letras com seu pai, advogado estudioso e dono de uma excelente biblioteca, na qual se encontravam obras de Darwin, Spencer e outros teóricos evolucionistas.
Cursou o secundário no Liceu Paraibano e Direito em Recife. Essa graduação, no entanto, não lhe serviu como profissão, já que nunca exerceu a advocacia, por não ser essa sua vocação, mas, sim, o magistério. Lecionou literatura no Liceu Pernambucano, e, depois, já no Rio de Janeiro, foi professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II. Daí mudou-se para Leopoldina, no Estado de Minas Gerais, onde foi diretor de um grupo escolar.
Diz-se que Augusto dos Anjos compôs os seus primeiros versos aos sete anos de idade. Mas o certo é que, mais tarde, a crítica chegaria a reconhecer ser ele o mais original dos poetas brasileiros, e de que poucos haverá, como ele, tão originais na língua portuguesa. É bem verdade que, em vida, o poeta não pode sentir esse valor atribuído à sua poesia; esse reconhecimento só viria ocorrer anos mais tarde.
Exemplo de que o reconhecimento da excepcional obra poética de Augusto dos Anjos parecia ter tido pouco significado na época em que fez, às suas expensas e com a ajuda de seu irmão, a publicação de seu livro “Eu”, é contada por Francisco de Assis Barbosa, um dos mais importantes biógrafos do poeta:
Dias depois de sua morte, ocorrida em Leopoldina, Órris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Central e pararam na porta da Casa Lopes Fernandes para cumprimentar Olavo Bilac. O príncipe dos poetas notou a tristeza dos dois amigos, que acabaram de receber a notícia. – E quem é esse Augusto dos Anjos – perguntou. Diante do espanto de seus interlocutores, Bilac insistiu: Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome. Sabem alguma coisa dele? Heitor Lima recitou o soneto Versos a um coveiro. Bilac ouviu pacientemente, sem interrompê-lo. E, depois que o amigo terminou o último verso, sentenciou com um sorriso de superioridade: - Era esse o poeta? Ah!, então, fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa.
A afirmação feita por Ivan Cavalcanti Proença, sobre Augusto dos Anjos, contraria o que disse dele Olavo Bilac: “Hoje, é um dos três mais lidos, e conhecidos poetas de antes do Modernismo, em língua portuguesa no Brasil, ao lado do nosso Castro Alves e da lírica Marília de Dirceu de Tomás Antonio Gonzaga”.
Diz Alfredo Bosi, no seu livro A Literatura Brasileira. O Pré-Modernismo, publicado em em 1966: “Augusto dos Anjos foi homem de um só livro: ‘Eu’, publicado em 1912, e cuja fortuna, extraordinária para uma obra poética, atestam as trinta edições vindas à luz até o momento em que escrevemos (1966)”.
Ivan Cavalcanti Proença enumera outras edições de Eu, de Augustos dos Anjos: a 29ª em 1963, pela Livraria São José, a 30ª (1965) e a 31ª (1971). Esta contou com o estudo de Antonio Houaiss e nota biográfica de Francisco de Assis Barbosa, com “Poemas Esquecidos” (Agrupados por De Castro e Silva em estudos de 1914 e 1954).
Acrescenta Proença, que, pela Editora Paz e Terra, saem duas edições: a de 1978, Toda a Poesia, com estudo de Ferreira Gullar e apresentação de Otto Maria Carpeaux (edição que reproduz a 31ª da São José). Em 1987 a Editora Civilização Brasileira lançou o livro Eu e Outras Poesias, com texto e notas de Antonio Houaiss, o Elogio... de Órris Soares, o estudo biográfico de Francisco de Assis Barbosa. Além dessas edições, saíram as edições da Martins Fontes, em 1994,  da Paz e Terra e Nova Aguilar, ambas em 1995.
O professor Sergius Gonzaga assim se manifesta sobre o poeta, em sua obra Curso de Literatura Brasileira:
Augusto dos Anjos é um caso a parte na poesia brasileira. Autor de grande sucesso popular foi ignorado por certa parcela da crítica, que o julgava mórbido e vulgar. Alguns estudiosos que se debruçaram sobre essa obra única e absolutamente original perderam tempo discutindo se a mesma era parnasiana ou simbolista. O domínio técnico e o gosto pelo soneto comprovariam o primeiro rótulo. A fascinação pela morte, a angústia cósmica e o emprego de ousadas metáforas, indicariam a tendência simbolista.
Esse debate tornou-se obsoleto perante estudos mais apurados, como o de Ferreira Gullar, que acentua a modernidade dos versos de “Eu”. Diz Gullar: “Talvez nenhum outro autor do período merecesse tanto a denominação de pré-modernista como Augusto dos Anjos. Pré-modernista ele o é na mistura de estilos, na linguagem corrosiva, no coloquialismo e na incorporação à literatura de todas às sujeiras da vida”.
Durante muito tempo, discutiu-se se ele era ou não um grande poeta. Hoje, os estudiosos sublinham sua singularidade temática e linguística, mesmo reconhecendo eventuais deslizes. Alguns, contudo, lembram a morbidez e a vulgaridade desenfreada de várias composições. Pode-se gostar ou não de sua obra, mas sonetos como Versos Íntimos estão de tal forma entranhada na memória do leitor brasileiro que não mais podem ser ignorados. Tornaram-se clássicos.
O poema que Augusto dos Anjos dedica ao seu pai falecido revela o seu sentimento de angústia diante da morte, uma perspectiva sempre presente, desde que soube da doença que o acometia, a tuberculose, e que, mais tarde, viria tirar-lhe a vida:

Podre meu pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!

Podre meu pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

Augusto dos Anjos (Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos) era um dos quatro filhos de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos. Em 1910, antes de mudar-se para o Rio de Janeiro, casou-se, aos 23 anos, com Ester Fialho, com quem teve dois filhos: Glória (1912) e Guilherme (1913). Faleceu aos 12 de de novembro de 1914, em Leopoldina – para onde se mudara para tratar da tuberculose – vítima de congestão pulmonar.


REFERÊNCIAS:
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: editora Leitura XXI, 2004.
LINS, Álvaro. BUARQUE de Hollanda, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Antologia da Língua Portuguesa, Ed. Civilização Brasileira, 1966.
BOSI, Alfredo. A Literatura Brasileira. O Pré-Modernismo. São Paulo: Editora Cultrix, 1966.
PROENÇA, Ivan Cavalcanti. Estudos e Notas. Antologia Poética de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Editora Ediouro, 1997.

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