25 de jul de 2015

[Crônica] ANTÔNIO MARIA – O Mar




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921. Já com residência fixa no Rio de Janeiro, cidade da qual não mais deixaria, ganhou fama, não apenas na Cidade Maravilhosa, mas praticamente em todo o Brasil. Antônio Maria tinha o dom especial para a crônica, com o estilo quase sempre descontraído da oralidade, e pela poesia que a revestia, sem tirar a característica da crônica, qual seja a simplicidade e a despretensão. 
Antônio Maria escreveu suas crônicas para importantes jornais do Rio: O Jornal, onde permaneceu por 15 anos; O Globo, em 1959 (aí ficou por pouco tempo); e Última Hora, colunas nas quais publicava suas crônicas diárias.
Seu dileto amigo, o poeta Vinícius de Moraes, escreveu “Oração para Antônio Maria, Pecador e Mártir”, crônica que foi publicada em O Jornal de Antônio Maria, 1ª ed. Rio de Janeiro, Saga, 1968, da qual extraio este trecho: “Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50”.
No dia 15 de outubro de 1964, na cidade do Rio de Janeiro, o coração desse artista versátil, que já vinha dando mostras de cansaço, não aguentou mais. Antônio Maria morreu muito cedo, aos 43 anos.
 Segue a crônica de Antônio Maria intitulada O mar (In Crônicas de Antônio Maria. São Paulo: Paz e Terra, 1996, 52-53):
                           
O MAR
– Antônio Maria


Banho de mar no recife era “banho salgado”, e só se tomava com ordem médica, das cinco às sete da manhã. Antes do sol.
As roupas de banho das mulheres começavam numa touca, seguindo-se um casaco-sunga escuro (com aplicações róseas ou azuis) até os joelhos e sapatos de borracha.
Não devia confessar, mas sou do tempo do “banho salgado”. Acordávamos com a noite fechada, entrávamos em nossas roupas de banho e partíamos. De carro, para a Boa Viagem. Em jejum. Ai de quem tomasse café e caísse no mar. Contavam-se casos de pessoas que envesgaram ou ficaram com a boca torta. Tinha que ser em jejum como o da comunhão. Nem água.
A família só descia do automóvel  depois que o chofer, pessoa de confiança, fizesse um reconhecimento da área e garantisse  que não havia ninguém (homem) ali por perto.
Na praia, a pessoa mais velha mandava  que todos fizesse o “pelo sinal” e tirava uma ave-maria, a que todos respondiam, encomendando a alma a Deus, no caso de afogamento ou congestão.
– Botaram algodão nos ouvidos?
– Botamos.
Davam-se as mãos, moços e crianças, entravam no mar, até a cintura.
– Um, dois três ... e já!
E mergulhavam agoniados, de mãos dadas, olhos, ouvidos, boca e nariz tapados.
Essas minhas lembranças vêm de 1928. Apenas 33 anos.  Mas o mar era uma novidade. Um desconhecido. Fazia-se cerimônia com ele.  Tinha-se medo dele.  Mar de 1928 era ainda o mar de Castro Alves. Soleníssimo: “Stamos em pleno mar!” Fazia medo. O mar de hoje é o de Caymmi. Abrandou. Tornou-se íntimo. Ninguém respeita.

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar...

Daquele mar do Recife, ficou uma lembrança: o cheiro dos sargaços. A quem os teve, sargaços na infância, por mais que ande, por mais feliz que esteja, faltará alguma coisa.

                                                                                                                  18/11/1961
                                                    *  *  *




18 de jul de 2015

MARGUERITE YOURCENAR – O Romance Histórico


                    

– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Filha de pai aristocrata e culto, Marguerite Yourcenar pode receber uma educação especial, tendo sido orientada para o estudo de línguas clássicas e das civilizações mediterrâneas. Sentia-se atraída pelo latim, grego e pelo que havia ao seu alcance da produção artística e literária do mundo clássico. Esse fascínio mais tarde passaria para as suas obras de ficção, para as quais aplicava uma técnica que lhe era própria. Os romances de Yourcenar foram produzidos justamente tendo por base essa cultura clássica que acumulara quase sempre voltada à História, que era sua seara, da qual resultou Memória de Adriano, em 1951, no qual imaginara esse imperador, no início do segundo século da era cristã, entre outros.
   A obra de Marguerite Yourcenar é extensa, ao todo 25 livros, mais da metade traduzida para o português, a partir de 1980. Os temas de seus livros passam pela história, pela arte, pela religião e pelo erotismo. As duas dimensões praticamente inseparáveis dos temas místicos que aborda, e que procura fazer sobressair-se na sua obra, são o profano e o sagrado. A título de exemplo, mencionamos a A obra em negro, Contos orientais, Fogos, Alexis, O tempo, esse grande escultor, Recordações de família e Arquivos do norte.
Em todos os seus livros pode-se sentir que a escritora maneja a língua com equilíbrio e sobriedade, o que lhe valeu o “estigma de clássica”, como declarou em 1984, diz Ecila de Azeredo, professora de Literatura Francesa da UFRJ; e mais: “Embora hoje seja insólito o ‘escrever bem’, Yourcenar cultuou com afinco a elegância da língua em sua prosa marmórea, articulada com clareza e sem suturas, apesar de concentradamente burilada, como requer o efeito final do texto “clássico” e é isso justamente que causa uma certa sensação de estranheza em mais de um leitor”. Foi a primeira mulher eleita para a Academia Francesa. Conforme disse, aceitou essa vaga apenas ‘por educação’.
O romance Alexis ou O tratado do vão combate foi a primeira obra de ficção de Marguerite Yourcenar, editado em 1929, em Paris, pela editora Au Sans Pareil. Em entrevista que a escritora concedeu a Patrick de Rosbo, disse-lhe em resposta a uma pergunta sobre esse livro: “Tive a sorte de escrever de uma só vez Alexis, em 1928, publicá-lo no ano seguinte sem modificações, representando quase exatamente o que eu queria e podia dizer durante aqueles anos”.
Rosbo pergunta- lhe quais as obras que foram reescritas e quais as que não foram; a escritora respondeu-lhe: “Falei de Alexis escrito de um só jato. Golpe de misericórdia também foi escrito em algumas semanas, durante o outono de 1938. Era a época das famosas entrevistas de Munique: a guerra estava novamente bem próxima, e tenho certeza que as angústias do momento têm alguma coisa a ver com a tensão interior da narrativa, voltada como é para um episódio de guerra situada cerca de vinte anos mais cedo. Eu estava em Sorrento: morava no Hotel Tramontano no quarto em que Ibsen escreveu Espectros. E acrescenta: Ibsen foi um dos grandes escritores com quem mais aprendi”.
 Respondendo ainda essa pergunta de Rosbo, prossegue Yourcenar: “Mas voltemos a pergunta da reescritura. Denário do sonho, diferente nisso de Golpe de misericórdia, foi várias vezes reescrito. Em sua primeira forma, data de 1933, o próprio ano em que se situava a aventura. Essa primeira versão, aliás muito desajeitada, teve em 1934 a honra de exasperar alguns críticos, simplesmente por causa da audácia que consiste em apresentar fatos mais ou menos como são. Um crítico de extrema direita declarou num grande jornal da época que ele não duvidava que aquele livrinho fosse em breve “despejado” junto com “os últimos restos da ideia de liberdade”. Foi mesmo um pouco essa espécie de raiva desse primeiro esboço errado que mais tarde me levou a reescrever o livro”.
Mais adiante Patrick de Rosbo passa a questionar Yourcenar sobre os seus romances que são ambientados na História, que parecia ser o que mais lhe agradava. Responde a pergunta de Rosbo relacionada com a idéia que a escritora tem da continuidade da História: “Denário do sonho situação em 1933, na Itália mussoliana, período que para nós já é histórico, mas era um romance contemporâneo na época em que eu o estava escrevendo. Golpe de misericórdia, que evoca um episódio das guerras bálticas de 1920, foi escrito em 1939: já era, se quiser, um “romance histórico”, e situa-se quase na pré-história para muitos jovens escritores de hoje”.
Rosbo faz esta pergunta à escritora: “Na medida em que se trata de um passado longínquo, o de Memórias de Adriano ou de A obra em negro, por exemplo, será que não nos encontramos então diante de personalidades ou de visões do mundo muito diferente das nossas?” Segue a resposta de Yourcenar:
“Sem dúvida, e é isso que constitui para a maior parte das pessoas a fronteira, na verdade muito flutuante, entre a História e a “vida atual”. Mas é também o que torna apaixonante a História. Nesse sentido, pode-se dizer que a História é uma escola de liberdade. É o que não foi suficientemente visto por escritores como Gide e Valéry, que não gostavam da História. Talvez se deva dizer para desculpá-los que eles pensavam na História de uma maneira, de certo modo, escolar, e se revoltavam contra essa apresentação tradicional dos acontecimentos que eram forçados a aceitar”.
Ainda sobre o romance histórico, Rosbo fala a escritora sobre “a armadilha do pitoresco, do mesmo modo como o passado, ou a distância, podem nos esconder a verdade muitas vezes decepcionante de seus cenários, de seu quadro. É assim em Zênon, em A obra em negro (livro de ficção histórica)”. Diz-lhe, então, Yourcenar:
“Já fizemos alusão a esse engano ingênuo ao falar dos que acreditam que o passado é um asilo. Também não é um Eldorado”. Para a escritora, raramente acontece que grandes pintores e grandes poetas do passado conseguiram contrariar a História, “um meio atemporal, limpo de tudo o que a vida tem de mesquinho e de imperfeito, propício à emoção pura e ao canto puro. Isso não é verdadeiro quanto a Shakespeare, que nunca perde de vista a ‘atualidade’ da História e a terrível complexidade da vida, presente ou passada. Mas é verdadeiro quanto a Racine em Bérénice; é verdadeiro quanto a Poussin, em Les funérailles de Phocion. E sabemos que essa história assim é falsa”. A escritora faz essa afirmação sobre essas obras de Racine e de Poussin.
Depois Rosbo pergunta à sua entrevistada o que distingue, para ela, o romancista histórico do historiador, então Yourcenar responde dizendo que as posições de um e outro parecem quase idênticas, à primeira vista, mas que há grande diferença entre eles, no que se relacionado ao método, dando realce que “as regras do jogo do historiador são inteiramente outros que os do romancista, mesmo do mais enganjado na história”. Em seguida, procura mostrar-lhe o que os diferencia:
“O historiador tem diante de si todo um arsenal de fatos e de hipóteses que ele tem de nos apresentar com exatidão, com lucidez, e para os quais pode até, às vezes, nos deixar escolher a explicação mais aceitável. Tem de procurar saber tudo sobre o personagem de que fala, resistir a seus preconceitos pessoais, tentar honestamente ‘compreender’”. Explica, que o historiador não é obrigado a entrar dentro do homem em questão, para recriá-lo; e, vai mais longe ao dizer que ele, historiador, está proibido a fazer essa recriação, por não poder afastar-se dos fatos e de hipóteses. “Além do mais – diz a escritora – o historiador tem perfeitamente direito de dar, por exemplo, a imagem da batalha de Waterloo colocando-se nas perspectivas de 1971 – época em que concedeu essa entrevista -, às vezes é seu dever e seu mérito fazê-lo”.
Yourcenar diz que outra é a situação do romancista: “O romancista, ao contrário, como por exemplo fez Stendhal, nos faz mergulhar num 18 de junho de 1815 – aqui ela refere-se a batalha de Waterloo – em que não se sabia ainda quais seriam os resultados da batalha, nem mesmo se aquela série de combates informes iria algum dia se chamar de História a batalha de Waterloo. Por isso faço tanta questão de tentar recolocar os personagens na cronologia que foi a deles – como Adriano na Palestina pelo ano 884 da era romana e não no ano 136 da era cristã, que ele ainda não sabia que havia sido começado, para devolvê-lo a seu tempo próprio em vez de impor-lhe nosso tempo”.
Prossegue a escritora: “No que se refere a Memórias de Adriano, o estilo se aproxima do da História, pelo fato de que Adriano, ao considerar sua vida à distância de seu leito de morte, é de certo modo seu próprio historiador, seu próprio Plutarco. O próprio tom se modela sobre o dos historiadores, dos ensaístas latinos da época. Na verdade, estamos, entretanto, no mundo da reconstrução poética ou da psicologia de romance, no sentido de que é sua própria história que Adriano evoca sua própria obra que ele comenta, e que, por muito lúcido que se considere, ele está preso como todos nós nos jogos de espelho que logo surgem, por tratar de si mesmo”.
Prossegue Yourcenar: A obra em negro, também recheada de História, o tom é ao contrário inteiramente o da crônica romanesca. Em primeiro lugar, porque intervém a conversa, e o entrecruzamento das vozes toma o lugar do solo de Adriano (eu não me atreveria - diz a escritora – a ‘imaginar’ uma conversa do século II: não sabemos suficientemente como aquelas pessoas falavam umas com as outras), depois porque Zênon vai vivendo cada dia sem nunca poder restrospectivamentese prever ou se construir. Um único capítulo, O abismo lhe dá oportunidade para isso, que ele não aproveita. “E de novo, aqui, a psicologia do personagem: Adriano ‘sabe que é’ uma figura histórica, e essa tranquila certeza determina seu olhar sobre toda a sua vida; não há Zênon algum para Zênon”.
Para ficarmos apenas com um pouco do que preleciona Yourcenar sobre o romance histórico e a diferença entre o romancista histórico do historiador, vejamos o que responde a esta pergunta; Patrick de Rosbo quer saber se há “uma exigência para o romancista histórico interiorizar seus personagens”. E mais: se “essa tarefa não é em algum caso a do historiador, o romancista histórico volta às fontes do que foi a vida, ao que a senhora chama de ‘essa fluidez (...)”, ao que a escritora responde: “É verdade. Eles foram - os romancistas históricos - os primeiros historiadores-poetas do mundo moderno que podemos surpreender trabalhando, esforçando-se para fazer o público sentir o que um erudito inglês de hoje chama o choque do passado subitamente revelado”.
Marguerite Yourcenar, pseudônimo usado Marguerite Cleenewerck de Crayencour, nasceu em 8 de junho de 1903, em Bruxelas e cresceu na França. Depois residiu na Itália, Suiça, Grécia e, por fim, nos Estados Unidos, em Mount Desert Island, no Maine, por cerca de 50 anos, onde se isolou com sua amiga Grace Frick , e onde faleceu, em 17 de dezembro de 1987.


REFERÊNCIAS:
AZEREDO, Ecila de. O ser e o tempo: M. Yourcenar. Rio de Janeiro: Jornal Leia. 1988.
ROSBO, Patrick. Entrevistas com Marguerite Yourcenar. Tradução de Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987.




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8 de jul de 2015

[Conto] LIMA BARRETO – Sua Excelência



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
LIMA BARRETO (1881-1922) é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Como romancista, destinge-se pelo talento e honestidade colocados em suas obras, dentre outras, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919). O escritor é, sem dúvida, merecedor do respeito que a crítica literária dispensa à sua obra.
Depois das publicações póstumas de Os Bruzundangas (1922), Bagatelas (1923), inexplicavelmente, Lima Barreto caiu no esquecimento. Em 1930, um pequeno grupo de amigos tenta chamar a atenção para a obra do escritor. A imprensa acompanhou o movimento; Agrippino Grieco escreve o primeiro artigo para reabilitar o escritor, tratando-o como “o maior e o mais brasileiro de nossos romancistas”.
Francisco de Assis Barbosa posiciona-se quanto a influência da cor na obra do escritor: “É claro que a condição de mulato – e mulato incompreendido e até certo ponto perseguido – influenciou a obra de Lima Barreto. Mas isso não é tudo. Há nela muito mais do que uma reação meramente instintiva de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreensão do fenômeno social.”
Francisco de Assis Barbosa incumbiu-se de selecionar os melhores contos de Lima Barreto. A Global Editora imprimiu a 5ª edição, em 2000, desse livro, composto por quatorze contos. É dessa edição, que escolhemos, para esta postagem, o conto que segue, intitulado Sua Excelência (In Barreto, Lima. Os melhores contos de Lima Barreto / Seleção de Francisco de Assis Barbosa. 5ª ed. São Paulo: Global, 2000, p. 163-165):

SUA EXCELÊNCIA
(Lima Barreto)

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade.
Todo ele era um poço de certeza. Estava certo do seu valor intrínseco; estava certo de suas qualidades extraordinárias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a deferência universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convicção de ser ele o resumo do país, a encarnação dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejo dos ricos. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só ele, ele só e unicamente, seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham...
E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer, Lembrou-se do seu discurso de ainda agora:
“Na vida das sociedades, como na dos indivíduos”...
Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. E sucesso daquele trecho? Recordou-se dele por inteiro:
“Aristóteles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como Sólon, Justiniano, Portalis e Ihering, todos os filósofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes”...
O olhar, muito brilhante, cheio de admiração – o olhar do leader da oposição – foi o mais seguro penhor do efeito da frase...
E quando terminou! Oh!
“Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!”
A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.
O auditório delirou. As palavras estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.
O carro continuav a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois sumiram-se.
O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem.
Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora, o mesmo minuto da sua saída da festa.
Cocheiro, onde vamos?
Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam.
Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente.
Gritou ao cocheiro:
– Onde vamos? Miserável, onde me levas?
Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes magníficas. Graças a Deus, ainda não se havia derretido. O leão da Birmânia, o Dragão da China, o Lingão da Índia estavam ali, entre todas as outras, intactas.
– Cocheiro, onde me levas?
Não era o mesmo cocheiro, não era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era o seu fiel Manuel!
– Canalha, para, para, senão caro me pagarás!
O carro voava e o ministro  continuava a vociferar:
– Miserável! Traidor! Para! Para!
Em uma dessas vezes voltou-se o cocheiro; mas a escuridão que se ia, aos poucos, fazendo quase perfeita, só lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, metálico e cortante. Pareceu-lhe que estava a rir-se.
O calor continuava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as calças...
Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados.
Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfante, não havia minutos.
Nas proximidades um coupé estacionava.
Quis verificar ben as coisas circundantes; mas não houve tempo.
Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus, envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes ...
Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali  não tivesse feito outra coisa, indagou:
– Vossa Excelência quer o carro?


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30 de jun de 2015

[Crônica] Como conheci Mario Quintana


                 
 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
 
Eu era ainda estudante da faculdade de Direito, quando tive a grata oportunidade de conhecer, pessoalmente, Mario Quintana. Isso ocorreu sem qualquer planejamento. Tudo foi quase por acaso.
Naquele dia, em que caminhava pela Rua da Praia, o que menos poderia me ocorrer seria encontrar-me com Mario Quintana. Para colocar as coisas no seu devido lugar, vamos deixar uma coisa bem clara: eu nunca havia sequer imaginado que um dia poderia ser apresentado ao poeta. Isso estava fora de cogitação.
Não tivesse encontrado a jovem e talentosa jornalista, que trabalhava para o jornal Correio do Povo, de quem me tornara amigo, há mais de ano, o convite dela, para conhecer o nosso estimado poeta, apanhou-me de surpresa.
– Apresentar-me o Mario Quintana? – perguntei incrédulo.
Diante dessa pergunta e da inflexão dada por mim, a jornalista não escondeu o riso.
– Vamos até o jornal, ele não vai te morder.
– Então, seja o que Deus quiser.
E lá fomos nós, pela Rua da Praia. Na esquina com a Caldas Júnior – rua que se tornou famosa por sediar o jornal Correio do Povo e a rádio Guaíba – fizemos uma inflexão para a direita. Estávamos já diante do prédio do jornal.
– Tenho que ir mesmo?
– Vamos subir, agora mesmo – disse a jornalista.
A redação do jornal ficava no primeiro andar. Lá, Quintana escrevia sua coluna, como fazia durante toda semana. Em frente ao elevador, ela apertou o já gasto botão de madrepérola. O antigo elevador não demorou a chegar.
A porta de gaita, do velho elevador, abriu-se diante de nós, fazendo um barulho estridente. O educado ascensorista fez um gesto com o braço estendido, sinalizando para entrarmos. Deixou-nos no andar da redação.
– É por aqui – disse a jornalista, já no corredor.
Da porta, vi uma sala muito grande, com várias mesinhas enfileiradas. Só não consegui enxergar o Mario Quintana. Andamos um pouco mais. Passamos pelos jornalistas, que escreviam seus textos, nas suas velhas máquinas. As repetidas batidas nas suas teclas arredondadas causavam um som estridente e nervoso.
Mais uns passos, e logo nos deparamos com o poeta. Estava sentado frente à sua mesa, soltando baforadas. O cigarro aceso fazia desenhos no ar, na medida em que o poeta gesticulava. Do cigarro, já quase no fim, desprendia-se uma linha fina de fumaça em espiral. Ao lado da máquina, na qual escrevia, um gordo cinzeiro exibia suas guimbas.
 – Hoje vai ser o meu grande dia – pensei.
A jornalista aproximou-se de Quintana, com intimidade, quase nas pontas dos pés. Com ela em sua frente, não se demorou a levantar. Fiquei ao lado deles, no pouco tempo em que conversaram. Com discrição, olhei para o poeta, que me pareceu tratar-se de um homem simples. Era mais baixo do que imaginava. No seu rosto, nenhum traço que pudesse indicar qualquer sentimento.
– Quintana – disse a jornalista –. trouxe um amigo para te apresentar...
Solícito, estendi a mão para o poeta. Sua mão mal tocou a minha, nesse cumprimento.
– Muito prazer, seu Quintana.
– Prazer!  – respondeu.
Sua voz era quase inaudível. Seu olhar estava fixo na janela, de onde se via a rua. Demorou muito pouco para que a mão do poeta tateasse as costas de sua cadeira, onde logo iria sentar-se. O papel ali, na máquina, era o que lhe interessava.
– Vamos?! – sussurrou a jornalista, puxando-me pela manga do paletó.
Depois de muitos anos decorridos, a contar daquele rápido encontro com Quintana, fiz esta descoberta: no mundo mágico dos poetas, que é feito de sonho e solidão, não há lugar para estranhos e importunos.
 "Não vou me enganar mais" – admiti resoluto –, naquele dia em que fomos apresentados, Quintana não disse “prazer”, quando lhe estendi a mão.


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18 de jun de 2015

ALUÍSIO DE AZEVEDO – Vida & Obra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO                

ALUÍSIO DE AZEVEDO (Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo) nasceu em São Luís do Maranhão, a 14 de abril de 1857, filho de uma mulher que havia abandonado o marido, um comerciante português, para viver com o vice-cônsul de Portugal. Dessa união (concubinato), teve cinco filhos.
Na casa de sua família havia uma atmosfera intelectual, que despertou em Aluísio o pendor para o desenho e a pintura.
Na mesma casa comercial onde trabalhou, em São Luís, estudou as primeiras letras. Deixou sua cidade natal para morar no Rio de Janeiro, onde seu irmão mais velho, Artur de Azevedo, comediógrafo e jornalista, fazia grande sucesso. Nessa época, estava com 17 anos de idade, passou a estudar pintura, na Escola de Belas Artes.
No Rio, onde passou a residir, Aluísio de Azevedo começou a trabalhar na imprensa como caricaturista. Trabalhou em O Fígaro, O Mequetrefe e em A Semana Ilustrada.
Aluísio retorna a São Luís, onde escreve, em 1881, O Mulato, o primeiro romance do escritor, que obteve grande êxito. Em O mulato, o escritor denuncia a corrupção do clero e o preconceito racial, o que foi motivo para grande irritação da burguesia maranhense.  
De volta ao Rio, publica diversas obras e colabora em jornais e revistas. Depois de algum tempo, presta concurso público para cônsul; aprovado, serve em Vigo, Nápoles, Tóquio, e depois em Buenos Aires, onde falece.
Aluísio de Azevedo é a figura principal do naturalismo no Brasil. Notável observador de costumes e ambientes da sociedade do Segundo Reinado tinha no folhetim de imprensa o meio de publicação de sua obra, o que prejudicava edições mais eficientes de sua abundante produção.
Deixou, porém, três ou quatro obras que lhe asseguraram importante lugar no romance brasileiro. Na obra de Aluísio de Azevedo há uma significação histórica em paralelo com a significação literária. Por todos os méritos, foi eleito para assumir uma cadeira na  Academia Brasileira de Letras.
Depois que Aluísio de Azevedo assumiu o cargo de cônsul, surpreendentemente, abandonou a literatura; os motivos, que o levaram a tomar essa decisão, nunca ficaram esclarecidos.
Aluísio de Azevedo servia em Buenos Aires, onde servia como cônsul, e vivia conjugalmente com uma senhora argentina e os dois filhos desta. O escritor morreu, na capital portenha, em 21 de janeiro de 1913, aos 57 anos de idade, incompletos.
Suas principais obras: Uma lágrima de mulher (1879), O mulato (1881), Casa de pensão (1884), O homem (1887), O coruja (1889), O cortiço (1890), O esqueleto (1890), Demônios (1893), Livro de uma sogra (1895).



REFERÊNCIAS:
LINS, Álvaro; HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Antologia da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, vol. II, 1966.
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: Editora Leitura XXI, 2004.

    
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10 de jun de 2015

FRANZ KAFKA & Sua Obra




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Keerling, perto de Viena; foi enterrado em Praga, no Cemitério de Straschinitz. Nessa época Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após sua morte, quando seu talento criativo foi reconhecido por nomes importantes, dentre eles o poeta inglês W.H. Auden, que assim manifestou sua admiração pelo escritor tcheco: “se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Schakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria”.
Outros nomes importantes ligados à literatura também deram seu depoimento sobre Kafka, como ocorreu com o renomado ensaísta George Steiner; para ele, “Nenhuma outra voz testemunhou de maneira mais fiel à natureza de nossa época”. O escritor francês Paul Claudel, que não ficou distante da comparação feita por Auden, afirmou que, “Ao lado de Racine, que para mim é o melhor de todos os escritores, há um: Franz Kafka”.
Parte da obra de Kafka foi traduzida do idioma alemão, no qual se expressava, para o espanhol; o célebre escritor argentino Jorge Luis Borges traduziu O processo, que foi publicado pela Editora Losada, de Buenos Aires, em 1939; uma nova edição dessa obra deu-se somente no ano de 1962. Antes dessa edição, a Editora Losada publicou A metamorfose, em 1943.
Jorge Luis Borges, admirador de Kafka, disse que “Duas ideias, ou melhor, duas obsessões regem a obra de Franz Kafka: a subordinação é a primeira, e o infinito a segunda. A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para registrá-las de maneira definitiva bastavam-lhe algumas frases (...). O argumento e o ambiente são o essencial, não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia de seus contos sobre as novelas longas”.
No decorrer dos anos a obra de Kafka foi traduzida para muitas línguas, tendo uma sólida aceitação; no ano de 1961, Harry Järv levantou em torno de cinco mil títulos compondo a bibliografia de Kafka. A divulgação da obra de Kafka, no entanto, foi cheia de obstáculos nos 20 anos que transcorreram após sua morte; Max Brod, amigo e seu testamenteiro, lutou incansavelmente para divulgar a obra de Kafka, contrariando o pedido do escritor para que destruísse todos os seus livros, que ainda não haviam sido publicados. Não saberia dizer qual o número de títulos bibliográficos existentes até o ano de 2007, mas, não tenho dúvida, é bem maior que o relacionado por Järv.
A obra de Kafka começou a ser conhecida na França em 1928, quando eram publicados em revistas apenas pequenos trechos de seus livros; em 1933 a ed. Gallimard publicou O processo; a partir daí nomes importantes como Aldous Huxley, André Gide, Hermam Hesse, Thomas Mann, Virginia Wolf, Albert Camus, além de outros escritores e ensaístas, passaram a dar atenção à genialidade de Kafka, e a contribuir para a divulgação de sua obra.
A escritora Tânia Franco Carvalhal faz referência a esse reconhecimento, dizendo que “Esta informação de Brod ratifica a popularidade de Kafka entre homens de letras que, sob a égide de Proust, de Joyce e do escritor tcheco, representam etapas significativas na evolução do romance contemporâneo. Muitos críticos vão situar Kafka nas origens de toda a literatura contemporânea e Claude Mauriac preferirá considerá-lo como a fonte de toda a literatura contemporânea”.
Albert Camus, conhecedor da obra de Kafka, socorreu-se dele para explicar o tema do absurdo contido na sua obra Le Mythe de Sisiphe, em 1939. Camus analisando a obra de Kafka disse que o segredo do escritor tcheco encontra-se na contradição que se vê no trecho de O processo, em que a sua personagem Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.
As obras-primas de Kafka, O Processo (1925), e O Castelo (1926) foram publicadas postumamente graças aos esforços empreendidos por Max Brod. No período precedente foram publicados: Descrição de uma luta (1905), Diários (início em 1910), O veredicto (1912), A metamorfose (1912), Contemplação (1912), Narração do espólio (1914-24), Na colônia penal (1914), Amérika ou O desaparecido (1914), Um médico rural (1918), A grande muralha da China (1918), Carta ao pai (1919); Um artista da fome ( 1922-24), O foguista (1923), A construção (1923 ), e alguns contos e novelas escritos nos anos 20: Poseidon, De noite, Do problema da lei, Investigação de um cão (1922), Uma mulherzinha (1923).
Com o passar dos anos, Franz Kafka torna-se mais conhecido do público leitor, graças ao reconhecimento de sua genialidade por escritores, ensaístas e críticos de renome, fato esse que encoraja frequentes reedições de seus livros, como é o caso de Desaparecido ou Amerika, publicado pela Editora 34, em 2004, com a tradução e posfácio de Suzana Kampff Lages.
Enfatiza Suzana Kampff Lages, no seu posfácio, que “O desaparecido ou Amerika, como ficou conhecida esta obra de Franz Kafka, conforme o título dado pelo amigo e editor póstumo, Max Brod, é um romance inacabado, ou melhor, um fragmento de romance. Concebido na primavera de 1912, é composto por fragmentos de uma história que se queria – nas palavras do próprio Kafka – dickenseana, ou seja, inspirada num exemplar do tradicional modelo do romance realista, por um lado, e por outro, uma história projetada para o infinito”.
Aproveito o ensejo para render homenagens a outro importante tradutor de Franz Kafka, do alemão para o português: Modesto Carone, escritor, ensaísta, e professor de literatura, tendo lecionado nas universidades de Viena, São Paulo e Campinas. Dentre as obras de Kafka, que traduziu, uma delas, O processo, o Prêmio Jabuti de Tradução de 1989.
Encerro com um trecho do ensaio de Harold Bloom, intitulado Kafka: Paciência Canônica e “Indestrutibilidade”, in O Cânone Ocidental: “Tudo que parece transcendente em Kafka é na verdade uma gozação, mas fantástica; a gozação que emana de uma grande doçura de espírito. Embora adorasse Flaubert, ele possuía uma sensibilidade muito mais delicada que a do criador de Emma Bovary. E, no entanto suas narrativas, curtas e longas, são quase invariavelmente brutais nos acontecimentos, tonalidades e provações. O terrível vai acontecer. A essência de Kafka pode ser transmitida em muitos trechos, e um deles em sua famosa carta à extraordinária Milena. Apesar de agonizantes como frequentemente são, suas cartas estão entre as mais eloquentes de nosso século”.


REFERÊNCIAS:
CARVALHAL, Tânea Franco. A Realidade em Kafka. Porto Alegre: ed. Movimento, 1973.
KAFKA, Franz. O Diário Íntimo de Kafka. Nova Época Editorial, [198-?].
IZQUIERDO, Luis. Conhecer Kafka e a sua obra. Tradução de Manuel Mota. São Paulo: ed.Ulisseia, [198-?].
KAFKA, Franz. Descrição de uma luta. Rio de Janeiro: ed. Nova Fronteira, 1985.
KAFKA, Franz. O desaparecido ou Amérika. Trad. e posfácio de Suzana Kampff Lages. São Paulo: Editora 34, 2004.
KAFKA, Franz. Narrativa do espólio. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia Das Letras,2002.
BLOOM, Harold. O cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 431.

  

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