10 de fev de 2016

[Conto] FRANZ KAFKA – Um incidente trivial



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

FRANZ KAFKA nasceu em 3 de julho de 1882, em Praga, então uma cidade provinciana do Império Austro-Húngaro. Morreu em 3 de junho de 1924, acometido por tuberculose pulmonar.
Praga produziu, além de Kafka, outros escritores de grande importância, como o poeta  Rainer Maria Rilke, o dramaturgo Franz Werfel e de Hasek. Isso provavelmente se deveu ao fato de que em Praga havia uma minoria da população de língua alemã, em grande parte da classe média, que se mantinha isolada da população tcheca nativa. Dentro dessa comunidade germanófoba, Kafka era ainda mais marginalizado por ser judeu.
No livro Kafka, escrito por Paul Strathen, e publicado pela Zahar Editora, em 2009, com tradução de Maria Luíza X. de A. Borges, lê-se a p. 17-18: “O antissemitismo grassava por todo o Império Austro-Húngaro, especialmente entre a população que falava alemão, e uma forte sugestão de alienação quase-racial seria uma característica persistente na vida e na obra de Kafka”.
Segue o conto Um incidente trivial, de Franz Kafka ( in KAFKA, Franz. Contos. Tradução de Isabel Castro Silva. Seleção e prólogo de Jorge Luis Borges Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2005 (Coleção Clássicos), p. 43-44:

UM INCIDENTE TRIVIAL
Franz Kafka

Um incidente trivial; vivê-lo, um heroísmo trivial. A. tem um importante negócio a concluir com B. da aldeia vizinha H. Vai até H. para combinar o encontro, faz o caminho de ida e volta em dez minutos para cada lado e em casa ufana-se da sua grande rapidez. No dia seguinte volta a H., desta vez para fechar definitivamente o negócio; uma vez que este previsivelmente demorará várias horas, A. parte de casa manhãzinha cedo; apesar de todas as circunstâncias, pelo menos na opinião de A., serem exatamente as mesmas do dia anterior, desta vez precisa de dez horas para chegar a H. Quando aí chega, à noite e já sem forças, dizem-lhe que B., zangado com a demora de A., partira há mais de meia hora para a aldeia de A.; na verdade, ter-se-ão certamente cruzado um com o outro. Aconselham A. a esperar, B. já deve estar de volta. Mas A., receando pelo negócio, põe-se logo a caminho e apressa-se a voltar para casa. Desta vez, e sem sequer dar conta disso, faz o caminho de regresso num abrir e fechar de olhos. Já em casa dizem-lhe que B. tinha chegado muito cedo, ainda antes de A. partir, sim, tinha até encontrado A. junto ao portão da casa, tinha-lhe lembrado o negócio, mas A. tinha respondido que agora não tinha tempo, que tinha de se apressar. Apesar deste comportamento incompreensível de A., B. tinha ainda assim ficado para esperar por A. Perguntava até várias vezes se A. tinha já voltado, mas estava ainda lá em cima no quarto de A. Contente por ainda poder falar com B. e esclarecer tudo, A. sobe as escadas a correr. Já está quase lá em cima quando tropeça, torce o pé e, quase a desmaiar de dor, incapaz até de gritar, gemendo apenas no escuro, ouve e vê B., sem perceber se estaria muito longe ou mesmo ao lado, que desce as escadas furioso e desaparece para sempre.

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31 de jan de 2016

FERNANDO PESSOA – Qualquer Música...



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

FERNANDO PESSOA nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888. Teve um único irmão, Jorge, mais novo que ele, que morreu em 1894, com apenas um ano de idade. Antes de completar seis anos, o menino Fernando ficou órfão de pai. Em 1896, já com oito anos, passou a morar em Durban, na África, com a família, a mãe e o padrasto Miguel Rosa. Aí, o padrasto assume o cargo de cônsul de Portugal.
Dez anos, foi o tempo que residiu nesse continente, período em que adquiriu a base de sua cultura literária (Milton, Shelley, Shakespeare, Tennyson, Pope e outros). As aulas recebidas em Durban foram ministradas na língua inglesa.
Na África, nasceram os seus primeiros poemas, assinando-os com os nomes de Alexander Search e Robert Anon, enquanto realizava os seus estudos; o primário numa escola de freiras irlandesas, e o secundário na Durban High School.
Em 1905, regressou sozinho a Lisboa, onde  redescobre sua cultura e literatura: Cesário Verde, Antônio Nobre, Antero de Quental, Camilo Pessanha, Mas quem o influenciou fortemente foi Camões, embora tenha demonstrado pouco interesse pelo criador de Os Luzíadas, fato que se deve a sua ânsia de superar o mestre – o “pai” , – como diz Harold Bloom, autor de The anxiety of influence.
Segue o poema Qualquer música..., de Fernando Pessoa (in Poesia. 1918 – 1930 / Fernando Pessoa. Edição Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine . – São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 285):    


QUALQUER MÚSICA...
– FERNANDO PESSOA  


Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música  – guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa, que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
... Que eu não sinta o coração!


5-10-1927

REFERÊNCIA:
MOISÉS, Carlos Felipe. Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos. São Paulo: Editora Escrituras, 2005. (Coleção Ensaios Transversais.)

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22 de jan de 2016

[Conto] PEDRO LUSO – À espera de seu algoz

    
 À ESPERA DE SEU ALGOZ
PEDRO LUSO DE CARVALHO

É noite chuvosa. No quarto, às escuras, Mariana olha absorta através da janela. As luzes da rua clareiam parte da cama, em desalinho, e alguns livros sobre o velho baú. Debruça-se no parapeito da janela. Na calçada, escondido entre ramos de árvores, o grande relógio, com seus ponteiros duplicados pelos efeitos das sombras. Mariana assusta-se ao ver que já passam das dez. Ali permanece por algumas horas. Paralisa-a um pressentimento: Orestes irá cumprir a ameaça que fez. Logo o medo tira-lhe das pernas a força. Respira com dificuldade. O coração de Mariana agora bate em descompasso. Está ansiosa para que tudo termine. Conta minutos e segundos. Na rua, o silêncio somente é quebrado pelo ruído de algum carro, que passa sobre o asfalto molhado. Mariana sente-se tonta e cai. No chão, segura os joelhos e os levam próximos ao rosto. É o refúgio que busca. Depois, ouve seca batida na porta. Novamente o silêncio. Não demora a ouvir o ranger da porta. Na fechadura, o barulho da chave. A porta é trancada por dentro. No assoalho, um leve barulho  de passos. O ritmo dos passos está mais próximo, e logo cessa  à sua frente. Mariana está ainda no chão, encolhida sobre assoalho. Está assustada com o silêncio que se alarga. De repente uma lâmina zune no escuro do quarto, e o silêncio é quebrado por um grunhido de ave ferida.


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12 de jan de 2016

[Crônica] CAIO FERNANDO ABREU – A morte dos Girassóis


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

CAIO FERNANDO ABREU nasceu na pequena Santiago, cidade do interior do Rio Grande do Sul, a 12 de setembro de 1948, e morreu em Porto Alegre no dia 25 de fevereiro de 1996, acometido pelo vírus da Aids.
Ainda era muito jovem, quando se mudou para Porto Alegre. Ingressou nas faculdades de Letras e Arte Dramática, mas não chegou a concluir nenhum desses dois cursos. Mudou-se para o centro do país para dedicar-se ao jornalismo. No período que compreende os anos de 1973 a 1994 trabalhou na Europa e também no Brasil para diversos veículos de comunicação Foi nesse período que editou grande parte de seus romances, novelas, contos e crônicas.
Segue a crônica A morte dos Girassóis, de Caio Fernando Abreu, conto esse que integra a coletânea Histórias de Grandeza e de Miséria, Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 51-52:

A MORTE DOS GIRASSÓIS
– CAIO FERNANDO ABREU

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo lenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na quinta-feira”. Eu disse ou pensei dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo astral”.
Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.
Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoie-o numa espada de são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio chuva medonha e deitou-o por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme.  Aí me veio a ideia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio de ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.
Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, o outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada. Para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra. Depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santarrita, lírio ou azaleia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.
Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas  acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.

Zero Hora, 18 de março de 1995


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5 de jan de 2016

[Crônica] MACHADO DE ASSIS – 10 de novembro


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Nenhum escritor brasileiro contribuiu mais para a nossa literatura que Machado de Assis. Ele escreveu romances, contos, crônicas, poemas. Passados tantos anos de sua morte, o seu texto enxuto, direto, ainda é atual. Prova disso é a crônica intitulada 10 de novembro, escrita no ano de 1884, na qual o mestre desenvolve um tema relacionado com a política, mais precisamente de candidato a deputado que pede o voto a um conhecido.
A crônica de Machado desenvolve-se até culminar com um questionário que ao conhecido candidato. Vê-se aí um escritor de espírito elevado e moderno até mesmo para os dias atuais. Vale a pena fazer a leitura dessa crônica (10 de novembro), escrita no ano de 1884, que integra o livro Crônicas de Lélio, de Machado de Assis, que teve a organização, prefácio e notas de R. Magalhães Júnior, e foi editado pela Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1958, p. 163-165). Segue, pois, a crônica:

     
       10 DE NOVEMBRO
            – MACHADO DE ASSIS


Venho pedir o seu voto na próxima eleição para deputado.
– Mas, com o senhor, fazem setenta e nove candidatos, que...
– Perdão: oitenta. Que tem isto? A reforma eleitoral deu a cada eleitor toda a independência, e até fez com que adiantássemos um passo. Em rigor, e pelo antigo sistema, há dois modos de fazer eleição – ou por designação de um chefe ou por acordo dos eleitores em reuniões públicas. Não contesto que o primeiro modo dá a unidade e o segundo a liberdade do voto. Nós, porém, inventamos um terceiro meio mais próprio de família, mais adequado aos sentimentos bons e sossegados: – a candidatura de paróquia, de distrito, de rua, de meia rua, de casa e de meia casa... Quem é que não tem um ou dois companheiros de escritório ou de passeio?
– Bem; pede-me o voto.
– Sim, senhor.
– Responda-me primeiro. Que é que fazia até agora?
– Eu...?
– Sim, trabalhou com a palavra ou com a pena, esclareceu os seus candidatos sobre as questões que lhe interessam, opôs-se aos desmandos, louvou os acertos...
– Perdão, eu...
– Diga.
– Eu não fiz nada disso. Não tenho que louvar nada, não sou louva-deus. Opor-me! é boa ! Opor-me a quê ? Nunca fiz oposição.
 – mas esclareceu...
– Nunca, senhor! Os lacaios é que esclarecem os patrões ou as visitas: não sou lacaio. Esclarecer! Olhe bem para mim.
–Mas, então, o que é que o senhor quer?
– Eu quero ser deputado.
– Para quê?
– Para ir à câmara falar contra o ministério.
– Ah! é contra o Dantas?
– Nem contra nem pró. Quem é o Dantas? eu sou contra o ministério... Digo-lhe mesmo que a minha ideia é ser ministro. Não imagina as cócegas com que fico em vendo um dos outros de ordenanças atrás... Só Deus sabe como fico!
– Mas já calculou, já pesou bem as dificuldades a que...
– O meu compadre Z... diz que não gasta muito.
– Não me refiro a isso; falo do diploma, o uso do diploma. Já pesou...
– Se já pesei? Eu não sou balança.
– Bem, já calculou...
– Calculista? Veja lá como fala. Não sou calculista, não quero tirar vantagens disto; graças a Deus para ir matando a fome ainda tenho, e possuo braços. Calculista!
– Homem, custa-me dizer o que quero. O que eu lhe pergunto é se, ao apresentar-se candidato, refletiu no que o diploma obriga ao eleito.
– Obriga a falar.
– Só falar?
– Falar e votar.
– Nada mais?
– Obriga também a passear, e depois se torna a falar e votar. Para isto é que eu vinha pedir-lhe o voto, e espero que não me falte.
– Estou pronto, se o senhor me tirar de uma dificuldade.
– Diga, diga.
– O X. pediu-me ontem a mesma coisa, depois de ouvir as mesmas perguntas que lhe fiz, às quais respondeu do mesmo modo. São do mesmo partido, suponho!
– Nunca: o X. é um peralta.
– Diabo! ele diz a mesma coisa do senhor.


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23 de dez de 2015

[Conto] NELSON RODRIGUES – Calamidade


– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Nelson Rodrigues foi o mais importante dramaturgo brasileiro do século 20. O seu talento deu-lhe a possibilidade de desvendar o mundo pequeno-burguês. Deixou homens e mulheres frente à crua realidade da vida. Deles, soube explorar, como poucos escritores o fizeram, o seu mundo de ilusão e de hipocrisia.  
Suas principais peças são: Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
Escolhemos, para esta postagem, o conto Calamidade, de Nelson Rodrigues, um dos contos que compõem o livro A vida como ela é...  (in: A vida como ela é... / Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 32), que segue:

CALAMIDADE
– NELSON RODRIGUES

Então, a mulher o arrastou para o gabinete. Conta-lhe o ocorrido; concluiu: “Eu admito que um marido possa ter suas fraquezas. Mas com a irmã da mulher, não! Nunca!” Repetia: “Com a irmã da mulher é muito desaforo!” O velho ergueu-se fremente: “Cadê esse patife?” Trincava as sílabas nos dentes: “Cachorro!” No seu desvario, procurava alguma coisa nos bolsos, nas gavetas próximas:
– Dou-lhe um tiro na boca!
E a mulher, chorando, só dizia: “Foi escolher justamente a caçula, uma menina, quase criança, meu Deus do Céu!” Mas já o velho abria a porta e irrompia na sala, dando patadas no assoalho: “Tragam esse canalha!” Houve um silêncio atônito. Flávia cutucou o marido: “Vai, meu filho, vai!” Arremessou-se Maneco. Foi encontrar o outro no fundo da garagem, de cócoras, como um bicho. Bateu-lhe, cordialmente, no ombro: “O homem te chama.” Foi avisando: “O negócio está preto. Ele quer dar tiros, diabo a quatro!” Bezerra estancou, exultante: “Se ele me der um tiro, é até um favor que me faz. Ótimo!” Numa súbita necessidade de confidência, apertou o braço de Maneco: “Eu sei que Sandra é uma vigarista, mas se, neste momento, ela me desse outra bola, eu ia, te juro, com casca e tudo!...”
  
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10 de dez de 2015

[Crônica] PEDRO LUSO – Filhos ‘versus’ pais


                                                                                                             

            [ESPAÇO DA CRÔNICA]

       

FILHOS VERSUS PAIS

  – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Vemos que mulheres e homens convivem com pessoas com as quais têm um comportamento que pode ser tido como normal, nos bancos escolares de todos os níveis, no trabalho, e nos locais em que frequentam nos seus momentos de lazer; sabem manter um diálogo com seus interlocutores, com o cuidado de manterem-se afáveis, compreensivos e respeitosos, por entenderem que essa regra de conduta será a garantia de que estarão sempre rodeados de amigos, num ou noutro momento; criam em suas mentes fronteiras imaginárias que delimitam os seus espaços, e assim convivem em perfeita harmonia.
Na condição de colegas ou de amigos, esforçam-se para que o respeito mútuo esteja sempre presente entre eles, uma vez que têm plena consciência dessa necessidade; sabem que o tratamento cortês que a eles dispensam será a garantia de que também serão tratados com a mesma cortesia, e, com isso, estarão sempre mais propensos à prática de atos de solidariedade para com essas pessoas que os cercam, pois sabem que com esse modo de proceder fortalecem os elos dessa corrente que os unem; também sabem que para isso é indispensável à observância dos limites de seus territórios, e respeitam as suas fronteiras, que os separam e os ligam ao mesmo tempo.
Muitas dessas pessoas, que também convivem com os seus pais, na mesma casa ou em casas diferentes, e, nesse convívio, agora visto sob o prisma de filhos, mostram-se pessoas com comportamentos diametralmente opostos aos que convivem com colegas e amigos; e, se fossem vistos nessa condição, certamente estes não seriam por eles reconhecidos, por se mostrarem egoístas, descorteses, indiferentes.
Quem os visse agora, na condição de filhos, sem dúvida ficariam desolados com o tratamento que estariam dispensando aos seus pais, pela ausência do diálogo, do respeito, da compreensão; só não ficariam mais desolados com o que veriam porque saberiam que eles, filhos que também são, têm igualmente um comportamento junto aos seus colegas e amigos, e outro para com seus pais; e que, na realidade, vivem em dois mundos: com aqueles são pródigos em cortesia e compreensão, enquanto que para estes sobra a indiferença, a queixa, a acusação.
Essa é a realidade: a consciência de que existem normas para serem observadas no convívio entre colegas e amigos e que são desconhecidas pelos filhos no relacionamento com seus pais; neste caso, deixam de praticar a cortesia, a solidariedade; em casa de seus pais, sequer os cumprimentam quando chegam, ou se despedem quando saem; guardam com avidez o que têm de bom para distribuir com sobras às pessoas que fazem parte de seu círculo de amizade; com seus amigos expandem os seus sentimentos de alegria, de camaradagem, de compreensão.
No fundo, os filhos têm uma espécie de comiseração para com os seus pais, enganados que estão ao pensarem que somente eles, os filhos, têm as necessárias condições para a fruição da vida; mas, como esse sensível e complexo relacionamento sempre foi assim, e que, no meu entender, assim permanecerá, resta-nos aceitar essa realidade, como já a aceitaram nossos antepassados.


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29 de nov de 2015

TOBIAS BARRETO – Revolucionário de Ideias

                                                Tobias Barreto
                   
– PEDRO LUSO DE CARVALHO
                  
Tobias Barreto de Meneses nasceu na cidade de Campos, Estado de Sergipe, em 7.6.1839. Mudou-se para Recife e aí cursou a Faculdade de Direito, onde logo ficou conhecido pelo seu espírito de liderança, que viria revolucionar não apenas a Faculdade de Direito, mas também a intelectualidade pernambucana, pelas suas ideias de vanguarda.
Na Faculdade de Direito, granjeou admiradores pelo combate que travou com o seu corpo docente conservador, e preso aos conceitos da velha ciência jurídica. A fama de Tobias Barreto veio com a apresentação, nos meios intelectuais, das novas correntes do pensamento europeu, tendo como representantes Haeckel, Darwin, etc, que tivera a oportunidade de conhecê-los.
Dotado de inteligência superior, Tobias Barreto preparou-se intelectualmente não apenas para ciência jurídica, mas também para filosofia e literatura; estudou com renomados mestres estrangeiros, de modo especial, os alemães. Para Tobias, os fenômenos sociais suscitavam grande interesse, aos quais se entregava com grande entusiasmo. Também estava voltado para a música, que se constituía em objeto de estudo dedicado.
No Brasil, nos fins do século 19, ninguém mais que Tobias Barreto concorreu para a renovação da nossa cultura; chefiava a “Escola do Recife”, cujos expoentes foram: Sílvio Romero, Clóvis Bevilaqua, Artur Orlando, José Higino, Capistrano de Abreu, Martins Junior, Araripe Junior e Graça Aranha.
Polêmico e revolucionário de ideias, teve que enfrentar uma plêiade de opositores; estes, combatiam-no com ardor, sentimento comum entre os intelectuais que se recusam aceitar avanços socioculturais; no campo das idéias, seus opositores mostravam-se arredios, tensos com a possibilidade de quaisquer mudanças; reacionários, combatiam as mudanças que ocorriam pelo espírito e pelas idéias do Realismo que influenciava as faculdades de Direito do Recife e de São Paulo.
Diz Antônio Carlos Amora, na sua História da Literatura Brasileira, que, no Recife, Tobias Barreto, estudante de Direito já veterano, com quase trinta anos, ataca violentamente a filosofia espiritualista e católica. A atitude do líder acadêmico galvanizou as aspirações revolucionárias dos estudantes que o cercavam. Amora firma: “Em 1868, o clima de insatisfação ante os rumos da realidade nacional, criado pelos intelectuais, atinge o grau de saturação tensional”. Esse momento propiciou a ação da “Escola do Recife”, tendo Tobias como seu líder.
Tobias reagiu aos ataques de seus muitos inimigos sempre com bravura, e, em contrapartida, suas polêmicas atingiram o paroxismo da violência. Legou-nos uma vasta e importante obra sobre seus temas prediletos: Direito, filosofia, literatura e música. No gênero poesia, seu poema Dias e Noites representa ao lado de Castro Alves, a corrente condoreira dos fins do romantismo. Com Tobias Barreto e a sua “Escola do Recife” nasceu o verdadeiro espírito crítico no Brasil.
Grande parte da obra de Tobias Barreto foi produzida na pequena cidade de Escada, de onde jamais saiu. Escreveu: Ensaios e Estudos de Filosofia e Crítica, Dias e Noites, Estudos Alemães, Discursos, Questões Vigentes, Menores e Loucos, Polêmicas, entre outras obras. Em 1926 o Estado de Sergipe patrocinou a edição de suas Obras Completas, em 10 volumes.
Sobre o autor e as suas obras, ensina Alceu Amoroso Lima, que Tobias Barreto é o exemplo de uma personalidade que subsistiu sem uma obra, dizendo com isso, que embora tivesse escrito todos esses livros, não tinha leitores para eles, fato que não impediu o reconhecimento da sua importância para a cultura brasileira.
Sobre esse fenômeno, diz Alceu Amoroso Lima, em sua obra, Introdução à Literatura Brasileira: “O público – esse público escolhido que devemos considerar como um elemento essencial de todo ciclo literário completo – não lê Tobias Barreto. E, no entanto, quem não conhece a personalidade de Tobias, quem não o sente palpitar vivamente num dos momentos mais decisivos de nossa história intelectual e, portanto, quem não o sente indelevelmente presente em nossas letras? E, no entanto ninguém conhece mais a sua obra, quase totalmente desinteressante para o paladar dos homens de hoje. (...) as obras de Tobias Barreto – mesmo reeditadas graças ao cuidado de um governo solícito pela glória literária de um co-estaduano – não são nem encontráveis nem procuradas”.
Como as autoridades brasileiras sempre deram pouca ou nenhuma importância às mulheres e homens que se dedicam à cultura, qualquer que seja sua área, com Tobias Barreto, que dedicou toda a sua vida ao estudo das ciências acima referidas e na divulgação de seus conhecimentos, não foi diferente: em 26.6.1889, morreu em estado de extrema pobreza. Foi o patrono da Cadeira nº 38 da Academia Brasileira de Letras.


REFERÊNCIA:LINS, Álvaro; HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Antologia da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, vol. II, 1966.AMORA, Antônio Soares. História da Literatura Brasileira. São Paulo: Edição Saraiva, 1965.LIMA, Alceu Amoroso. Introdução à Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1964 .


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7 de nov de 2015

BARBOSA LESSA – Gadinho de osso


PEDRO LUSO DE CARVALHO

BARBOSA LESSA – Luiz Carlos Barbosa Lessa – nasce a 13 de dezembro de 1929, em Piratini, RS. Na sua adolescência, muda-se para Porto Alegre, para cursar o 2º Grau. Mais tarde conhece Paixão Cortes, e o ajuda na ronda à Chama Crioula, e depois passa a colher assinaturas de jovens para fundar um centro tradicionalista. Dessa iniciativa, nasce o primeiro CTG (Centro de Tradições Gaúchas).
Muitos anos depois, Barbosa Lessa é convidado pelo governador Amaral de Souza para integrar a Secretaria da Cultura. Então passa a estudar a criação de centro de saber acadêmico. E em março de 1983, pode inaugurar a Casa da Cultura, que mais tarde teria por patrono poeta gaúcho Mario Quintana.
Barbosa Lessa dedica-se à pesquisa da História do Sul. Depois, passa esses conhecimentos para a ficção (romance e conto), para a crônica, para a poesia e para o ensaio. Escreve, entre outras obras: Rodeio dos ventos, Histórias para sorrir e Os guaxos, com o qual recebe o Prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 1959.
O escritor volta deixar a capital, desta vez para residir, com a esposa Nilza, na reserva Água Grande, no município de Camaquã, não muito distante de Porto Alegre, onde falece, a 11 de março de 2002, aos 73 anos de idade.
Segue Gadinho de osso, conto de Barbosa Lessa (in, Lessa, Barbosa. Histórias para sorrir. Porto Alegre: Alcance, 1999, p. 41-42):


GADINHO DE OSSO
BARBOSA LESSA


Aquilo, sim, que era estância! Não havia, em toda a volta, outra tão linda. Campo de pura Flexilha. Aramado caprichado, com mourões de pauzinhos e os fios feitos de barbante. E tinha até banheiro para se banhar o gado, embora fosse tão só um buraco que a gente enchia de água para ali atirar o boi e tirar-lhe o carrapato. Eu brincava horas a fio. Só o que tinha que evitar, com muito jeito, é que a porca ali chegasse, com a fileira de leitão; se visse vinha escangalhando tudo, botava o aramado abaixo, só eu sei a trabalheira em refazer tudo, depois.
Quando pra os grandes era dia de carneada, pra mim e o meu primo era dia de tropeada. Daquele ossinho comprido, que parece ter as patas e duas pontas de aspas, a gente tirava as vacas. Chicossuelo era touro. Das patas, vinha a cavalhada. E, do espinhaço, as ovelhas.
A lida do trivial era repontar boiada duma invernada pra outra. Em dia de banhação a caneca do barril não tinha folga: nem bem se botava a água, já a terra seca chupava, dê-lhe água novamente. Mas o brabo mesmo era o solaço de verão, nos dias de marcação, com a gente atirando laço, correndo de lá pra cá, aplastado de suor. Mas aí chegava a Leila – a priminha sempre amiga – servindo mate pra mim...
Recordo que um dia peleei feio com um domador novo nas casas, o Cesário, porque me roubou o melhor touro e com ele foi jogar jogo-de-osso no galpão. Parei patrulha! Berrei até que o Cesário teve que me devolver. Mas, naquele dia, morreu a barrosa velha no piquete das tambeiras, foi ele quem foi courear, na hora lembrou de mim, voltou com oito cavalos de presente pra minha estância, fiz as pazes, se abracemo.
Naquela estância – única estância que tive, mas que acompanha minha vida – passei as horas mais lindas do meu tempo de piá.
E hoje, quando me vejo embretado em cidade grande e tão longe da querência, há ocasiões em que acordo ouvindo os gritos campeiros de outrora. É festa de marcação!
Abre a porteira, Cesário, que venho trazendo os boizitos da Invernada da Saudade!
Me ceva um mate, priminha, que a sede está me tonteando!
E aviva o fogo! E esquenta a marca! Já está vermelha? Então...
... Tchhhhhh!
A marca do Rio Grande marcou a fogo minha tropa da saudade.

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