2 de dez. de 2019

FERNANDO PESSOA – Qualquer Música...



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

FERNANDO PESSOA nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888. Teve um único irmão, Jorge, mais novo que ele, que morreu em 1894, com apenas um ano de idade. Antes de completar seis anos, o menino Fernando ficou órfão de pai. Em 1896, já com oito anos, passou a morar em Durban, na África, com a família, a mãe e o padrasto Miguel Rosa. Aí, o padrasto assume o cargo de cônsul de Portugal.
Dez anos, foi o tempo que residiu nesse continente, período em que adquiriu a base de sua cultura literária (Milton, Shelley, Shakespeare, Tennyson, Pope e outros). As aulas recebidas em Durban foram ministradas na língua inglesa.
Na África, nasceram os seus primeiros poemas, assinando-os com os nomes de Alexander Search e Robert Anon, enquanto realizava os seus estudos; o primário numa escola de freiras irlandesas, e o secundário na Durban High School.
Em 1905, regressou sozinho a Lisboa, onde  redescobre sua cultura e literatura: Cesário Verde, Antônio Nobre, Antero de Quental, Camilo Pessanha, Mas quem o influenciou fortemente foi Camões, embora tenha demonstrado pouco interesse pelo criador de Os Luzíadas, fato que se deve a sua ânsia de superar o mestre – o “pai” , – como diz Harold Bloom, autor de The anxiety of influence.
Segue o poema Qualquer música..., de Fernando Pessoa (in Poesia. 1918 – 1930 / Fernando Pessoa. Edição Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine . – São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 285):    


QUALQUER MÚSICA...
– FERNANDO PESSOA  


Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música  – guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa, que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
... Que eu não sinta o coração!


5-10-1927


)
REFERÊNCIA:
MOISÉS, Carlos Felipe. Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos. São Paulo: Editora Escrituras, 2005. (Coleção Ensaios Transversais.)


*  *  *


18 de mai. de 2019

EZRA POUND - A Arte da Poesia



       
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


EZRA POUND foi educado na Universidade de Pensilvânia e no Hamilton College. O seu primeiro livro foi publicado em 1908, em Veneza, Itália. Escreveu cerca de 90 volumes de poesia, crítica e traduções de importantes poetas. Além de suas próprias obras, Erza Pound – que definiu a boa literatura como “linguagem carregada de sentido até o último grau possível” –  publicou James Joyce, foi uma espécie de protetor de T.S. Eliot, incentivou Yeats a ousar mais na sua poesia, mostrou a importância da concisão a Hemingway.

Em tempo algum foi negada a importância de Pound, como professor e como divulgador das artes. “Seus ensaios literários, suas cartas, seu estudo da poesia provençal intitulado The Spirit of Romance e o fascinante ABC da literatura – diz Michael Dirda – tudo isso ainda causa um verdadeiro impacto: os textos  são ao mesmo tempo acadêmicos, iconoclastas e divertidos, como podemos notar na constatação de que A França assumiu a liderança intelectual europeia quando reduziu a hora das aulas nas universidades para cinquenta minutos ”.

Extraí de A Arte da Poesia, livro de ensaios de Ezra Pound, o texto que tem por título Linguagem; sem dúvida, a intenção de Pound era a de ajudar os mais novos a desenvolver a arte da escrita, já que ele é aquele “artista mais tarimbado buscando ajudar outro artista mais jovem”, como dizia de si mesmo. Ezra Pound – poeta, músico e ensaísta de invejável erudição – foi um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX.

Em A Arte da Poesia, no seu capítulo Linguagem, Pound ensina aos jovens escritores, poetas principalmente, como se deve tratar a difícil arte da prosa e da poesia:  “Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado”.

Diz mais, Pound, no capítulo Linguagem: “Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se do obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã”.

“Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música – diz Pound – ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano. Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la”.

Quanto à influência a que o jovem escritor não precisa esquivar-se, Pound faz esta advertência: “Não permita que a palavra influência signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas cinzentas como pombas, ou então lívidas como pérolas, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.

Obra poética principal de Ezra Pound: Os Cantos, que começou a aparecer em 1917, sendo que a sua última parte – Thrones – foi publicada em 1959. Seus poemas curtos foram reunidos no volume intitulado Personae, que foi publicado em 1926, com edição aumentada em 1950.

Ezra Pound nasceu a 30 de outubro de 1885, na cidade de Hailey, Idaho, EUA, e morreu no dia 01 de novembro de 1972, em Veneza, Itália, onde vivia com sua filha.




REFERÊNCIA:
DIRDA, Michael. O prazer de ler os clássicos. Tradução de Rodrigo Neves. São Paulo: Editora WMF. Martins Fontes, 2010.
POUND,Ezra. Arte da Poesia. Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.


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28 de mar. de 2019

FRANZ KAFKA & Sua Obra




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Keerling, perto de Viena; foi enterrado em Praga, no Cemitério de Straschinitz. Nessa época Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após sua morte, quando seu talento criativo foi reconhecido por nomes importantes, dentre eles o poeta inglês W.H. Auden, que assim manifestou sua admiração pelo escritor tcheco: “se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Schakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria”.
Outros nomes importantes ligados à literatura também deram seu depoimento sobre Kafka, como ocorreu com o renomado ensaísta George Steiner; para ele, “Nenhuma outra voz testemunhou de maneira mais fiel à natureza de nossa época”. O escritor francês Paul Claudel, que não ficou distante da comparação feita por Auden, afirmou que, “Ao lado de Racine, que para mim é o melhor de todos os escritores, há um: Franz Kafka”.
Parte da obra de Kafka foi traduzida do idioma alemão, no qual se expressava, para o espanhol; o célebre escritor argentino Jorge Luis Borges traduziu O processo, que foi publicado pela Editora Losada, de Buenos Aires, em 1939; uma nova edição dessa obra deu-se somente no ano de 1962. Antes dessa edição, a Editora Losada publicou A metamorfose, em 1943.
Jorge Luis Borges, admirador de Kafka, disse que “Duas ideias, ou melhor, duas obsessões regem a obra de Franz Kafka: a subordinação é a primeira, e o infinito a segunda. A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para registrá-las de maneira definitiva bastavam-lhe algumas frases (...). O argumento e o ambiente são o essencial, não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia de seus contos sobre as novelas longas”.
No decorrer dos anos a obra de Kafka foi traduzida para muitas línguas, tendo uma sólida aceitação; no ano de 1961, Harry Järv levantou em torno de cinco mil títulos compondo a bibliografia de Kafka. A divulgação da obra de Kafka, no entanto, foi cheia de obstáculos nos 20 anos que transcorreram após sua morte; Max Brod, amigo e seu testamenteiro, lutou incansavelmente para divulgar a obra de Kafka, contrariando o pedido do escritor para que destruísse todos os seus livros, que ainda não haviam sido publicados. Não saberia dizer qual o número de títulos bibliográficos existentes até o ano de 2007, mas, não tenho dúvida, é bem maior que o relacionado por Järv.
A obra de Kafka começou a ser conhecida na França em 1928, quando eram publicados em revistas apenas pequenos trechos de seus livros; em 1933 a ed. Gallimard publicou O processo; a partir daí nomes importantes como Aldous Huxley, André Gide, Hermam Hesse, Thomas Mann, Virginia Wolf, Albert Camus, além de outros escritores e ensaístas, passaram a dar atenção à genialidade de Kafka, e a contribuir para a divulgação de sua obra.
A escritora Tânia Franco Carvalhal faz referência a esse reconhecimento, dizendo que “Esta informação de Brod ratifica a popularidade de Kafka entre homens de letras que, sob a égide de Proust, de Joyce e do escritor tcheco, representam etapas significativas na evolução do romance contemporâneo. Muitos críticos vão situar Kafka nas origens de toda a literatura contemporânea e Claude Mauriac preferirá considerá-lo como a fonte de toda a literatura contemporânea”.
Albert Camus, conhecedor da obra de Kafka, socorreu-se dele para explicar o tema do absurdo contido na sua obra Le Mythe de Sisiphe, em 1939. Camus analisando a obra de Kafka disse que o segredo do escritor tcheco encontra-se na contradição que se vê no trecho de O processo, em que a sua personagem Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.
As obras-primas de Kafka, O Processo (1925), e O Castelo (1926) foram publicadas postumamente graças aos esforços empreendidos por Max Brod. No período precedente foram publicados: Descrição de uma luta (1905), Diários (início em 1910), O veredicto (1912), A metamorfose (1912), Contemplação (1912), Narração do espólio (1914-24), Na colônia penal (1914), Amérika ou O desaparecido (1914), Um médico rural (1918), A grande muralha da China (1918), Carta ao pai (1919); Um artista da fome ( 1922-24), O foguista (1923), A construção (1923 ), e alguns contos e novelas escritos nos anos 20: Poseidon, De noite, Do problema da lei, Investigação de um cão (1922), Uma mulherzinha (1923).
Com o passar dos anos, Franz Kafka torna-se mais conhecido do público leitor, graças ao reconhecimento de sua genialidade por escritores, ensaístas e críticos de renome, fato esse que encoraja frequentes reedições de seus livros, como é o caso de Desaparecido ou Amerika, publicado pela Editora 34, em 2004, com a tradução e posfácio de Suzana Kampff Lages.
Enfatiza Suzana Kampff Lages, no seu posfácio, que “O desaparecido ou Amerika, como ficou conhecida esta obra de Franz Kafka, conforme o título dado pelo amigo e editor póstumo, Max Brod, é um romance inacabado, ou melhor, um fragmento de romance. Concebido na primavera de 1912, é composto por fragmentos de uma história que se queria – nas palavras do próprio Kafka – dickenseana, ou seja, inspirada num exemplar do tradicional modelo do romance realista, por um lado, e por outro, uma história projetada para o infinito”.
Aproveito o ensejo para render homenagens a outro importante tradutor de Franz Kafka, do alemão para o português: Modesto Carone, escritor, ensaísta, e professor de literatura, tendo lecionado nas universidades de Viena, São Paulo e Campinas. Dentre as obras de Kafka, que traduziu, uma delas, O processo, o Prêmio Jabuti de Tradução de 1989.
Encerro com um trecho do ensaio de Harold Bloom, intitulado Kafka: Paciência Canônica e “Indestrutibilidade”, in O Cânone Ocidental: “Tudo que parece transcendente em Kafka é na verdade uma gozação, mas fantástica; a gozação que emana de uma grande doçura de espírito. Embora adorasse Flaubert, ele possuía uma sensibilidade muito mais delicada que a do criador de Emma Bovary. E, no entanto suas narrativas, curtas e longas, são quase invariavelmente brutais nos acontecimentos, tonalidades e provações. O terrível vai acontecer. A essência de Kafka pode ser transmitida em muitos trechos, e um deles em sua famosa carta à extraordinária Milena. Apesar de agonizantes como frequentemente são, suas cartas estão entre as mais eloquentes de nosso século”.



REFERÊNCIAS:
BLOOM, Harold. O cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 431.
CARVALHAL, Tânea Franco. A Realidade em Kafka. Porto Alegre: ed. Movimento, 1973.
KAFKA, Franz. O Diário Íntimo de Kafka. Nova Época Editorial, [198-?].
IZQUIERDO, Luis. Conhecer Kafka e a sua obra. Tradução de Manuel Mota. São Paulo: ed.Ulisseia, [198-?].
KAFKA, Franz. Descrição de uma luta. Rio de Janeiro: ed. Nova Fronteira, 1985.
KAFKA, Franz. O desaparecido ou Amérika. Trad. e posfácio de Suzana Kampff Lages. São Paulo: Editora 34, 2004.
KAFKA, Franz. Narrativa do espólio. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia Das Letras,2002.



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5 de fev. de 2019

TAIS LUSO - Mário Quintana


O dia 5 de maio assinalou dezesseis anos da morte do poeta gaúcho Mário Quintana, que, inobstante isso, parece estar ainda entre nós; pelo menos é isso o que sinto, principalmente quando ando pela Rua da Praia e passo pela praça da Alfândega, próxima à rua Caldas Junior, onde fica o prédio do jornal Correio do Povo, onde o poeta trabalhava.
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Presto minha homenagem ao Mario Quintana, poeta que é um dos orgulhos do povo gaúcho, postando a crônica de TAÍS LUSO, que tomei emprestada de seu blog PORTO DAS CRÔNICAS:


O MEU POETA MARIO QUINTANA - Taís Luso de Carvalho

Revelo que aprendi a gostar de poesia através de Mário Quintana. E como é delicioso ler seus poemas quando estamos tristes e amargas... Por sermos acarinhadas e envoltas por doces palavras, a tristeza vai se dispersando e a alma vai ficando leve...

Quando leio Quintana, sinto um poeta que entendeu a vida de uma maneira única, que falava da solidão, da bondade e da felicidade com a mesma tranquilidade que falava na sua doce prometida – a morte.

Falava com a sabedoria de quem não apenas passou pela vida; mas deixou que a vida passasse, que rolasse e que esperneasse... E seguia ele com suas musas, com seus sonhos e quem sabe com seus devaneios...

E que delícia são seus poemas que falam de tudo, de uma maneira translúcida, com uma deliciosa ironia e um sarcasmo ferino! Mas assim era ele; dava a impressão de que brincava com a vida.

Já andei esbarrando com muitos escritores nos shoppings, em livrarias, na Feira do Livro e nos eventos culturais de Porto Alegre, e olhava ali... olhava lá... Via todos, falei com alguns, mas nunca vi o meu poeta. Nunca pude dizer: olha ali o Quintana!!

Mas não sei se ao vê-lo não ficaria muda e parada! Sim, porque quem conheceu o poeta – ao menos pela televisão – lembra de sua ironia refinada e surpreendente. Dava seu recado sem tradução, e a gente que se virasse, que aprendesse a captar o espírito da coisa.

Aprendi com ele a ver as belezas de Porto Alegre, suas ruas antigas, suas ladeiras, a beleza do vento numa tarde de outono. Aprendi a amar a nossa gente. Aprendi como é linda a simplicidade. Aprendi que é na simplicidade que conseguimos tocar todas as almas. E ele conseguiu. E como conseguiu!

Quando leio o seu poema O Mapa, lembro que também passei pelas mesmas esquinas esquisitas, talvez as mesmas moças eu vi... E caminhei pelas mesmas ruas que ele caminhou. Também já pensei, se no dia em que eu for poeira ou folha lavada, também farei parte do nada?

Seus poemas consolam. Aprendi que um dia, quando a morte chegar de mansinho e disser: Anda, vem dormir... Talvez eu já esteja preparada.

Levarei a mágoa de nunca ter visto meu poeta de perto, levarei um ciúme de não ter sido uma de suas musas... Quem não gostaria de inspirar o poeta em suas noites de solidão e talvez de agonia, fazendo parte de seus eternos rabiscos?

Mas depois de ter lido muitos de seus poemas até já perdi minha aflição: que eu passarei e todos passarão, é certo: só não se repetirá o que aconteceu no dia em que Deus o levou: fez dele um PASSARINHO!


POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!

Seus blogs:


7 de jan. de 2019

STEINBECK – Pensamentos a esmo sobre cães a esmo



            - PEDRO LUSO DE CARVALHO

        
Antes de ter lido John Steinbeck, vi alguns de seus romances adaptados por Hollywood. Daí para os livros foi um pulo. Isso faz muito tempo, quando ainda não me encontrava absorvido pelos livros jurídicos, na universidade.

        As obras de Steinbeck, adaptadas para o cinema foram: As vinhas da ira, dirigido pelo célebre John Ford e interpretado por Henry Fonda, John Carradine e Jane Dawell; esta recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ratos do deserto, adptado em 1939, teve como intérpretes Lon Chaney Junior e Burgess Meredith e foi indicada para o Osmar em quatro categorias. Vidas amargas, (ou A leste do Éden) foi imortalizada por uma das poucas atuações de James Dean no cinema e teve como diretor Elia Kazan. O Henry's full house, que se constitui em cinco roteiros independentes, teve cada história apresentada pelo próprio Steinbeck, que sempre esteve distante das câmeras. 

        A obra de Steinbeck, que retrata os meios populares da California, ainda serve nos dias que correm como modelo da cultura norte-americana e se mantém como um documento social e marco da literatura. Isto se deve ao realismo presente em seus livros, bem como às suas experiências em técnicas de narrativas ricas em simbolismo e uma elaboração mítica com a força da voz naturalista. O pronunciamento de Anders Osterling, em 1962, quando fez a entrega do prêmio Nobel da Literatura a Steinbeck, diz bem sobre a importância desse escritor:

        “Entre os mestres da literatura moderna, Steinbeck, mais que nenhum outro, continua ele mesmo independente por sua posição e por sua obra. Há nele uma tendência e um humor macabro que, até certo ponto, compensa seus temas muitas vezes cruéis. Sua simpatia se dirige sempre para o oprimido, o inadaptado, o infeliz; gosta de opor à alegria simples da vida à sede brutal e cínica do dinheiro”. 

        No Brasil, a Record publicou alguns romances de Steinbeck, quais sejam: A pérola, O menino e o alazão, O curto reinado de Pepino IV, O Vale sem fim, Viajando com Charley, O filho desejado e, mais recentemente, As vinhas da ira, em 1999, já na sua 9ª edição. Com As vinhas da ira Steibenck recebeu o Prêmio Pulitzer. Esse romance já havia sido publicado no Brasil pela Abril Cultura, em 1972, integrando a coleção Os imortais da literatura universal.

        John Steinbeck nasceu em 1902, em Salinas, na California. Aluno da Universidade de Stanford, deixou os estudos para se dedicar a empregos variados. Trabalhou em plantações, na rodovia de Big Sur e na indústria de sardinha, cenário de várias de suas obras. Depois de tentar a vida como escritor free lance em Nova York, retornou à terra natal. A popularidade chegou aos 33 anos, com Tortilha Flat – que abriu caminho para o sucesso de As vinhas da ira e Vidas amargas (A leste do Éden) . Foi correspondente na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã. Recebeu o prêmio Nobel de Literatura de 1962 e morreu em 1968. (Dados biográficos de Jackson J. Benson, autor da biografia John Steinbeck, Writer ganhadora do prêmio Pen West USA de não-ficção.)

english bull terrier
        Além dos romances acima mencionados como as principais obras de Steinbeck, outros integram a lista de suas principais obras: Pastagens do céu, 1932; Boêmios errantes, 1935; Luta incerta, 1936; Ratos e homens, 1937; The sea of Cortez, 1941; A longa noite sem lua, 1942; A rua das ilusões perdidas, 1945; Os náufragos do autocarro, 1947; A leste do Éden, 1952 e O inverso de nossa desesperança, 1961.

        Segue a crônica Pensamentos a esmo sobre cães a esmo, de John Steinbeck, (In A América e os americanos. Tradução de Maria Beatriz de Medina. organizado por Susan Shillinglaw e Jackson J. Benson. São Paulo: Record, 2004, p. 173-175):


                    PENSAMENTOS A ESMO SOBRE CÃES A ESMO


        Um homem muito sábio, escrevendo recentemente sobre o surgimento e o desenvolvimento de nossa espécie, sugere que a domesticação do cachorro teve a mesma importância que o uso do fogo para o primeiro homem. Pela associação com o cachorro, o homem dobrou sua percepção e, além disso, o cão - dormindo aos pés do homem primordial - permitiu descansar um pouco sem ser pertubado por animais sorrateiros. Os usos do cachorro mudam. Um dos primeiros tratados sobre cães em inglês foi escrito por uma abadessa ou prioresa num grande convento religioso. Ela lista o cão de guarda, o de caçar coelhos, o cão da Espanha chamado spaniel e usado para encontrar aves feridas, o cão "venatório" etc. e, finalmente, diz: "Existem aqueles pequenos cães brancos levados por damas para afastar delas as pulgas". Quanta sabedoria havia aqui. O câozinho de colo não era um enfeite, mas uma necessidade.

        O cachorro em nossos dias, mudou de função. É claro que ainda temos cães usados para a caça e os galgos para as corridas, e os pointers, setters e spaniels para suas complicadas profissões, mas em nossa população total de cachorros estes são minoria. Muitos cães são usados como enfeite, mas de longe a maior parte serve de consolo para a solidão. O confidente de um homem ou uma mulher. Uma platéia para os tímidos.Um filho para quem não tem filhos. Nas ruas de Nova York, entre as sete e nove da manhã, a gente vê a lenta procissão de cachorro e dono seguindo da rua para a árvore, para o hidrante, para a cesta de lixo. São de apartamento. São levados à rua duas vezes por dia e, embora seja um clichê, é espantoso como dono e cachorro se parecem. Chegam a andar igual, a ter o mesmo tipo de cabeça.

        Nos Estados Unidos, estilos e cães mudam. Há a alguns anos o ariedale era o mais popular. Agora é o cocker, mas o poodle está chegando lá. Há uns mil anos consigo lembrar que havia boxers por toda a parte.

        Nos Estados Unidos, tendemos a levar ao extremo raças de cães que não trabalham. Criamos colies com cabeça tão comprida e estreita que não conseguem mais encontrar o caminho de casa. O daschshund ideal é tão comprido e baixo que sua espinha cede. Nossos dobermanns são paranóicos. Desenvolvemos um boston bull com cabeça tão grande que os filhotes só podem nascer por cesariana.

        Não é sensato lamentar o cão de apartamento. Sua espectativa de vida é quase o dobro do cachorro do campo. Seu tédio, provavelmente, é muitas vezes maior. Certo dia entrei num taxi e dei o endereço de uma loja de animais. O motorista perguntou:

        - O senhor quer um cachorro? Porque eu posso lhe arrumar um cachorro. Arranjo cachorros.

        - Não é um cachorro, mas como é isso de arranjar cachorros?

        - É assim - disse o taxista. - Sábado à noite, num apartamento, tem um sujeito e a mulher secando uma garrafa de gim. Aí pela meia-noite começam a brigar. Ela diz: "Esse seu cachorro danado. Quem é que limpa a sujeira dele e leva ele pra passear e dá comida, e você só chega em casa e faz um carinho na cabeça dele". E o sujeito diz: "Não fale assim do meu cachorro". "Odeio ele, diz ela. "Tá bom colega", diz ele, "se é assim que você quer... Venha Spot", e ele e o cachorro vão pra rua. O sujeito senta num banco, pega o bicho no colo e chora, e depois os dois vão prum bar e o sujeito conta pra todo mundo que mulher nenhuma pode tratar seu amigo assim. Bem, dali a pouco eles fecham o bar e já é tarde e o efeito do álcool começa a passar e o sujeito quer ir pra casa. Aí ele entra no taxi e dá o cachorro pro motorista. Acontece comigo toda noite de sábado.

        Já tive alguns cachorros espantosos. Um que recordo com prazer foi um english setter enorme. Via coisas incompreensíveis. Latia durante horas para uma árvore, mas só para aquela árvore. Na estação das uvas só comia uvas, que colhia da parreira, uma uva de cada vez. Na estação das peras vivia de peras derrubadas pelo vento, mas não tocava em maçãs. Com o passar dos anos foi ficando cada vez mais transcedental. Acho que finalmente acabou desacreditando das pessoas. Pensava que eram um sonho seu. Reunia todos os cães da vizinhança e fazia-lhes conferências ou sermões silenciosos e certo dia concentrou sua atenção em mim por uns bons cinco minutos e depois foi embora. Ouvi falar dele em diferentes partes do estado. As pessoas tentavam fazê-lo ficar, mas num ou dois dias ele partia. Minha opinião era que tinha visões e tornou-se missionário. Seu nome era T-Dog. Muito tempo depois, a mais de cem quilometros de distância, vi um letreiro pintado numa cerca que dizia “T-God”. Estou convencido de que ele trocou as letras de seu nome e desde então saiu pelo mundo para levar sua mensagem a todos os cães.

        Tive todos os tipos de cachorro, mas há um que sempre quis e nunca tive. Nem sei se ainda existe. Costumava haver no mundo um english bull terrier branco. Era atarracado, mas rápido. Seu fucinho era pontudo e os seus olhos eram triangulares, de forma que sua expressão era de um riso cínico. Era amigável e nada brigão, mas se forçado a lutar era ótimo nisso. Fazia uma ideia favorável e decente de si mesmo e nunca era covarde. Era um cão pensativo, voltado para si mesmo, mas ainda assim tinha uma curiosidade enorme. Era pesado de ossos e ombros. Seu pescoço fazia um belo arco. Às vezes cortavam sua orelha, mas nunca seu rabo elevado. Era um bom cachorro para um passeio. Um cachorro excelente para dormir ao lado da cama de um homem. Era delicado em seus sentimentos. Sempre quis um deles. Me pergunto se ainda existe no mundo. 




(John Steinbeck)


REFERÊNCIAS:
STEINBECK, John. A América e os americanos. Tradução de aria Beatriz de Medina. organizado por Susan Shillinglaw e Jackson J. Benson. São Paulo: Record, 2004, p. 173-175
STEINBECK, John. O filho desejado. Título original: Burning Bright, 1950. Apresentação. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, s/d.



                                                 

                                                  *   *   *



15 de dez. de 2018

[Conto] CARLOS CARVALHO – Missa do Galo



  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CARLOS CARVALHO (1939 - 1985), poeta, contista e dramaturgo gaúcho, natural de Porto Alegre, legou-nos entre outras obras, Calendário do medo, livro de contos da melhor qualidade, com o qual o autor foi premiado no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná - FUNDEPAR.
Segue o conto de Carlos Carvalho intitulado Missa do galo (In Carlos Carvalho/ Calendário do medo. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1975, p. 45-46):

     
MISSA DO GALO
– CARLOS CARVALHO
                                                                                                     

Com a navalha no bolso, esperou a mulher na porta da igreja. Quando ela apareceu, foi se chegando, pegou no braço dela e disse:
– Quero falar contigo, Maria.
Ela não respondeu, Puxou o braço e foi caminhando. Ele insistiu:
– Volta, Maria.
Ela parou no primeiro degrau. Olhou-o, antes de responder, e ele sentiu vergonha da roupa amassada, da gravata puída, da barba de dias.
– Não adianta, Justino, já disse.
– Não gostas de mim?
– Gosto.
– Então volta, Maria.
– Não adianta, Justino, não adianta.
Continuou a caminhar. Ele seguiu:
– Pensa nas crianças.
– Já pensei.
– Pensa em mim.
– É só o que faço.
Então volta, Maria. Juro que vai ser diferente. Prometo que não boto bebida na boca, largo tudo, juro.
– Das outras vezes foi a mesma coisa.
– Agora é diferente. Tenho até promessa de emprego, coisa firme, segura. Dá um bom dinheiro. A gente aluga uma casinha...
– Não adianta.
Ele tremia, as lágrimas enchendo os olhos:
– Hoje é Natal, Maria, não tens pena de mim?
– Tenho, muita.
Procurou o lenço no bolso e encontrou o cabo frio da navalha.
– Então volta, Maria. Ou acabo fazendo uma besteira.
Ela apressou o passo. Tentou alcançá-la, a mão suada apertando o cabo da navalha.
– Não me obriga a fazer uma desgraça.
Sem diminuir o passo, ela olhou a navalha agora aberta na mão dele.
– Adeus, Justino.
E sumiu na esquina.
Ele se apoiou num muro e chorou muito. Depois, entrou num bar e se embebedou. Antes que o galo cantasse pela terceira vez, negociou a navalha para pagar a bebida.


    *  *  *


8 de nov. de 2018

ADONIAS FILHO – Vida & Obra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1965, Adonias Filho passou a integrar a Academia Brasileira de Letras; o discurso de saudação ao novo imortal foi pronunciado por Jorge Amado; o Estado da Bahia sentia-se muito bem representando nessa época por esses seus dois filhos ilustres.
Para os que não estão familiarizados com a obra de Adonias Filho, é oportuna uma rápida apresentação, além da mencionada acima; e, para esse mister, valemo-nos do que escreveu Assis Brasil, no ano de 1969; para esse ensaísta, a literatura brasileira tinha, quatro escritores já plenos e amadurecidos, João Guimarães Rosa, nessa época já falecido, e outros três que estavam em plena atividade, que eram Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho.  
Para Assis Brasil, esses quatro escritores – Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho – substituíram  um tipo de romance burguês, da linhagem francesa, que foi cultivado com o pomposo nome de ficção urbana; eles, que foram apontados como marco inicial, e que romperam com o clima acadêmico de nosso romance, não estavam ligados a nenhuma corrente ou escola do modernismo.
Como não se pode dizer que a obra independe da vida que levou ou que leva o autor, vamos conhecer um pouco da vida e da trajetória literária do escritor. Adonias Aguiar Filho nasceu a 27 de novembro de 1915, na fazenda São João, de propriedade dos pais, no município de Itajuípe, Bahia; teve a infância de menino de roça de cacau; ouviu histórias dos trabalhadores da fazenda, sobre o que aí se passava – essas histórias, alguns personagens e a própria fazenda iriam para os seus romances e contos.
  O menino tinha sete anos quando a família deixou o munícipio de Itajuípe para residir Ilhéus; aí cursou o primário no ateneu Fernando Caldas; era péssimo aluno; nas férias, retornava à fazenda; em 1928, foi matriculado  no internato do Ginásio Ipiranga, em Salvador, onde foi contemporâneo de Jorge Amado; interrompeu os estudos ao quatorze anos, passando grande temporada na fazenda.
O período que passou na fazenda foi de grande importância para o romancista; se gravou, talvez mais do que na infância, por suas observações e pelas histórias que ouviu dos moradores, o viria tornar-se o cerne de seus romances. Nessa fase também se dedicou à leitura; leu Castelo Branco, Macedo e Alencar. Voltou ao colégio depois de um ano de ausência; terminou curso em 1934.
Levaria consigo as lembranças dos professores Tarciso Teles (de português e geografia) e Manoel Peixoto (de inglês e moral e cívica), e também das tertúlias literárias no Grêmio Barão do Rio Branco, onde conheceu a literatura de Raul Pompéia, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, entre outros; leu também os poetas, entre eles Olavo Bilac, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães e  Castro Alves; da literatura francesa, leu as traduções de Alexandre Dumas Filho e Balzac.
Quando cursava o ginásio no Ipiranga, Adonias Filho escreveu para os jornais de Salvador: Diário de Notícias e O Imparcial. Pouco depois de terminar o curso ginasial, influenciado pela literatura do nordeste, escreveu Cachaça, romance que destruiu mais tarde. O escritor acompanhava os passos da moderna literatura brasileira e lia importantes pensadores, tais como: Maquiavel, Comte, Darwin.
 Nessa época, com a ajuda financeira do pai, viajou pelo Estado da Bahia, e fez apontamentos para um livro seu livro Renascimento do homem, ensaio político que publicaria em 1936, pela editora Schimidt; em 1935, fez nova viagem, desta vez pelos Estados de Minas, Rio e São Paulo; no início de 1936, fixou residência no Rio.
No Rio, Adonias Filho entrou Adonias em contato com o grupo católico que se reunia no café Gaúcho, Tasso da Silveira, Andrade Muricy, Barreto Filho, Adelino Magalhães – todos, aliás, bem mais velhos do que o escritor. Logo depois, travava relações com o romancista Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Otávio de Faria e Rachel de Queiroz, que se tornou grande amiga.
Foi nesse convívio que veio a descobrir autores como Thomas Hardy, Mauriac, Bernanos, wassermann, Malégue. Passou a colaborar com mais regularidade nos jornais e revistas literárias do Rio e de São Paulo, como o Correio da Manhã, os Cadernos da Hora Presente, a Revista do Brasil e a revista Pan; nessa revista, o escritor foi colega de redação de Clarice Lispector. Em 1937, passou a trabalhar no jornal  A Manhã, recém pelo poeta Cassiano Ricardo.
Em 1938, escreveu Corpo Vivo, romance que foi lido por Otávio Faria, Lúcio Cardoso e Almeida Sales; o livro, no entanto, não o satisfez (guardou-o para reescrevê-lo); nessa mesma época, planejou uma trilogia de romances, que teria como cenário a zona de cacau; em 1939, começou a escrever o primeiro desses livros, Os servos da morte, que foi concluído em 1943, e que, somente em 1946, foi publicado pela editora José Olímpio.
Adonias Filho continuava colaborando em jornais e fazendo traduções, durante esse período (anos 40). Algumas de suas traduções: O pântano do diabo, de Georg Sand, A Famíia Bronte, de Robert de Traz, e Gaspar Hauser, Golovin e O processo Maurizius, de Jabob Wassermann, este em colaboração com Otávio de Faria.
Em 1944, fundou a editora Ocidente, publicando um único livro, As metamorfoses, de Murilo Mendes, com ilustração de Portinari; nesse mesmo ano, casou-se Adonias Filho com D. Rosita Galiano, carioca, de quem um casal de filhos: Raquel e Adonias.
 . Depois passou a dirigir a editora A Noite, onde permaneceu até 1949. Durante esse período colaborou no suplemento A Manhã (coluna Letras e Artes) com um rodapé semanal assinado com o pseudônimo de Djalma Viana (rodapé idealizado por Carlos Lacerda, então diretor do suplemento).
Em 1950, Adonias Filho candidatou-se, pela Bahia, ao cargo de deputado federal, não conseguindo eleger-se; então resolveu permanecer na Bahia para concluir o romance Memórias de Lázaro (sua publicação, pela Cruzeiro, deu-se em 1952); de volta ao Rio, assumiu, a coluna de crítica literária do Jornal de Letras (publicou em livro alguns desses artigos, e mais outros do Correio da Manhã, em 1958, com o título de Modernos ficcionistas brasileiros).
Em 1954, publicou Adonias Filho, pelo Serviço de Documentação do Ministério de Educação, Diário de um escritor, fragmento de um diário que vinha escrevendo desde os 25 anos; nesse ano, passou a dirigir o Serviço Nacional de Teatro, de onde saiu dois meses depois para dirigir o Instituto Nacional do Livro; aí permaneceu por oito meses, depois retornou ao SNT, onde ficou até 1956.
 A partir de 1956, Adonias Filho passou a dedicar-se inteiramente à literatura e ao jornalismo; em 1957 ingressou na redação do Diário de Notícias, onde passou a assinar a seção literária A Estante.
Dentre a obra de ficção que produziu, destacam-se, três romances, que estão associados por uma temática telúrica, a civilização do cacau no interior da Bahia, quais sejam: Os servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952); Corpo vivo (1962). Com esses livros, Adonias Filho construiu uma importante obra da literatura brasileira moderna.
Além desses livros, Adonias Filho publicou, entre outros, um livro de novelas, e o romance O forte (1965); este tem cenário diferente de seus romances anteriores: a história passa-se na cidade de Salvador, em eras mais distantes. Em 1968, Adonias Filho voltaria à civilização do cacau, com Léguas da promissão, livro composto de vários contos. Depois, publicou Luanda, Beira, Bahia (1977); compõe o cenário do romance: a Bahia do Brasil, a Beira de Moçambique, e a Lunda de Angola; outro romance, O homem de branco (1987), a história de alguém que trilhou um sofrido calvário.
No dia 2 de agosto de 1990, morre Adonias Filho, em Ilhéus, Bahia, deixando como legado uma obra literária de extraordinário valor.





REFERÊNAS:
BRASIL, Francisco de Assis Almeida. Adonias Filho. Ensaio. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1969.

PEREZ, Renard. Escritores Brasileiros Contemporâneos. Escritores Brasileiros Contemporâneos. I série, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.


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