28 de ago de 2015

[Crônica] O Incentivo de Moacyr Scliar


       – PEDRO LUSO DE CARVALHO

MOACYR SCLIAR deixou uma legião de admiradores. Meu interesse por sua obra literária começou quando li o seu livro O anão no televisor, publicado em 1979, em Porto Alegre, pela RBS/Editora Globo, contendo dezenove contos da melhor qualidade.
Quem se acostumou com a presença de Moacyr Scliar na mídia, ainda sente sua falta. Sente falta de suas crônicas aos domingos, na Zero Hora. Sente falta de suas entrevistas no rádio, na televisão, na revista e no jornal. Sente falta de sua presença na Feira do Livro, sempre atencioso com seus leitores.
O escritor – romancista, contista, cronista, ensaísta – não deixava que outra de suas paixões, a medicina sanitarista, ficasse em segundo plano, e, para tanto, a ela se dedicava com entusiasmo. Scliar trabalhou muito para atingir esses dois objetivos. (Deixo de falar na paixão maior de Scliar, que foi a sua família.)
Moacyr Scliar foi um homem bondoso, modesto e sempre disposto a transmitir os seus conhecimentos onde quer que fosse chamado; não achava difícil sair da capital gaúcha, onde morava, para ir a qualquer outra cidade, no país ou fora dele. Tomei conhecimento dessas suas qualidades ao longo dos anos, pela mídia; pois, em que pese minha atenção para com o seu trabalho literário, apenas duas vezes falei com o escritor.
Quando falei com Scliar pela primeira vez, fiquei admirado por sua humildade. E foi justamente por isso que me animei a falar com ele, num dia em que ele folheava um livro, numa conhecida livraria da Rua da Praia, e lhe perguntei:
– Então, Scliar, quando sai teu próximo livro? 
Fiz a pergunta e fiquei aguardando a resposta. Ele se voltou para mim, certo de que não me conhecia. Não aparentou surpresa. Devia estar acostumado com esse tipo de abordagem. Nossa conversa durou pouco tempo. E quando já ia me despedir, Scliar respondeu à minha pergunta:
– No final do mês, minha editora vai lançar O Centauro no Jardim – disse o Scliar.
O meu segundo encontro com Moacyr Scliar deu-se justamente na tarde de autógrafos desse livro. Comprei O Centauro no Jardim, que foi editado pela L&PM, em 23 de agosto de 1985, e entrei na fila para colher o seu autógrafo.
Como a fila era extensa, levei algum tempo para chegar até onde Scliar se encontrava, curvado sobre cada livro que autografava. De repente vi-me frente a frente com o escritor, que, num gesto de cortesia, levantou-se para me cumprimentar. Falou comigo como se fôssemos velhos amigos:
– Fico contente que tenhas vindo – disse ele.
Agradeci e lhe entreguei o livro para ser autografado. Scliar escreveu sua dedicatória e depois me devolveu o livro, com um gesto que denotava gratidão por minha presença, como fazia com todos. Depois de mais um aperto de mãos, deixei o caminho livre para outros leitores.
Eu já estava fora do recinto quando abri o livro para ler a dedicatória. No primeiro momento fiquei surpreso com o elogio a mim dirigido, mas logo entendi tratar-se de um incentivo, o que não era incomum para o grande coração de Scliar.
  

          *  *  *

20 de ago de 2015

PROSPER MÉRIMÉE – Mateus Falcone


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
 O escritor francês Prosper Mérimée mostra a sua maestria na arte do conto, ao escrever uma das mais importantes obras de ficção nesse gênero da literatura: Mateus Falcone. A seguir procurarei fazer um resumo dessa obra clássica de Mérimée, que integra, além de Novelas Completas, uma antologia universal dos melhores contos de todos os tempos, que foi organizado pelo erudito escritor italiano Italo Galvino.
A história de Mérimée começa a ser contada com a descrição do local onde se desenrolará o drama de Mateus Falcone, um mato bastante extenso, que se constitui na pátria dos pastores corsos e de pessoas que estão envolvidas com a justiça. Conta, que para se chegar nesse local, saindo de Porto Vecchio para o interior da ilha, rumo ao nordeste, depara-se com elevação do terreno, e que daí levará três horas de caminhada por caminhos tortuosos, obstruídos de pedras enormes ou escavados em grotões. Aí, o lavrador corso semeia a terra para aguardar uma nova colheita, ateando fogo em uma extensão da mata, que se propaga além do necessário; método que usa para livrar-se do trabalho de adubar a terra. Narra ainda, que compõem o mato árvores de diversas espécies e arbustos, misturados e confundidos ao deus-dará, e que só machado poderia abrir passagem, com matos tão espessos, que nem os carneiros selvagens conseguem penetrá-los.
Nesse local, o mato de Porto Vecchio, quem havia matado um homem vivia com segurança, com um bom fuzil, pólvora, balas e uma capa escura de capuz para ser usada com coberta e colchão. Os pastores fornecem leite, queijo e castanhas, e não terão que temer a justiça ou os parentes do morto, a não ser quando descesse à cidade para a compra de munições. Há meia légua dali morava Mateus Falcone. Nesta altura, Mérimée traça o perfil do personagem: “Era um homem bastante rico para a região; vivia nobremente, isto é, sem nada fazer, do produto de seus rebanhos, que campônios um tanto nômades levavam a pastar na montanha. Quando o vi, logo após o caso que vou contar, diz Mérimée, pareceu-me que tinha quando muito uns cinqüenta anos. Imaginai um homem baixo, mas robusto, de cabelos crespos, negros como ébano, nariz aquilino, lábios delgados, olhos grandes e vivos, e uma pele cor de couro cru”.
Prossegue a narrativa: pelos seus méritos, Mateus Falcone gozava de grande reputação. ‘Diziam-no tão bom amigo quão perigoso inimigo: que era, aliás, serviçal, dado a fazer esmolas, e vivia em paz com todos no distrito de Porto Vecchio. Mas dele se contava que em Corte, onde casara, soubera desembaraçar-se energicamente de um rival considerado tão temível na guerra como no amor: pelo menos se atribuía a Mateus certo tiro de espingarda que abatera o dito rival, quando se achava este a se barbear diante de um espelhinho pendurado à janela. Abafado o caso, Mateus casou-se. Sua mulher Josefa dera-lhe a princípio três filhas, o que o deixava furioso, e finalmente um filho, a quem chamou Fortunato: era a esperança da família, o herdeiro do nome. As filhas haviam casado bem: seu pai podia contar, em caso de necessidade, com os punhais e as escopetas dos genros. O filho tinha apenas dez anos, mas já anunciava excelentes pendores”.
A história de Mérimée prossegue com a chegada de um estranho à casa de Mateus Falcone, quando este sai com a mulher para ver um de seus rebanhos numa clareira do mato, deixando o filho, o pequeno Fortunato, por ser muito longe a clareira e também para que ficasse cuidando da casa. Depois de algumas horas da ausência dos pais, Fortunato ouviu tiros que se sucederam, e, depois, surgiu um homem de barba crescida, as vestes em farrapos, apoiando-se na espingarda, que havia recebido um tiro na coxa pelos atiradores corsos; era um bandido que havia saído à noite para comprar pólvora na cidade e sofrera uma emboscada. Aproximou-se de Fortunato e perguntou se era filho de Mateus Falcone; com a resposta afirmativa, o bandido disse chamar-se Gianetto Sanpiero, e pediu ao menino que lhe ocultasse de seus perseguidores.
O diálogo entre o menino Fortunato e o bandido Gianetto Sanpiero prolongou-se até que este o ameaçou de morte, caso não lhe ajudasse a esconder-se; Fortunato disse a Gianetto que sua espingarda não tinha munição, e, quando foi ameaçado com uma faca o menino disse nada temer por ser mais rápido que ele. O bandido argumentou, que sendo ele filho de Mateus Falcone não poderia deixar que fosse preso na frente de sua casa, argumento que sensibilizou Fortunato. Este perguntou ao bandido quanto ganharia se o escondesse, e Gianetto entregou-lhe uma moeda de cinco francos, que tirou de uma bolsa de couro. O acordo estava fechado. O menino escondeu o bandido num monte de feno em frente da casa, recobrindo-o de maneira a não lhe faltar ar.
Passados alguns minutos, apareceram seis homens na porta Mateus, trajando uniforme, comandados pelo adjunto Teodoro Gamba, de quem os bandidos temiam por já ter apanhado muitos deles. Chamando Fortunato de priminho, por ser aparentado com Mateus Falcone, perguntou se ele havia visto passar um homem por aqui, há pouco. O menino respondeu que viu passar o Cura no seu cavalo Piero. Pela conversa que tiveram, Teodoro Gamba percebeu que o menino havia visto o bandido, e perguntou-lhe se não o havia escondido, afirmando que as manchas de sangue param aqui. A ordem de Gamba foi para entrarem na casa para procurar o bandido. O menino Fortunato o ameaçou, com risinho zombeteiro, dizendo-lhe ser filho de Mateus Falcone, e que seu pai não iria gostar de saber que entraram em sua casa.
Então o ajudante Gamba disse ao menino: “Bem sabes malandrin que posso levar-te para a Corte ou para Bastia. Farei dormires num calabouço, em cima da palha, com ferros nos pés, e mandarei guilhotinar-te se não disseres onde está Gianetto Sampiero”. O menino soltou uma gargalhada e disse ser filho de Mateus Falcone. Gamba com isso pareceu embaraçado, e “conversava com voz baixa com seus homens que já tinham atravessado toda a casa. Não era uma diligência muito longa, pois a casa de um corso consiste apenas em uma única peça quadrada. A mobília compõe-se de uma mesa, banco, arcas e utensílios domésticos ou de caça. Enquanto isso o pequeno Fortunato acariciava a sua gata, e parecia saborear malignamente a confusão do primo e dos atiradores”.
Diante dessa situação, o adjunto e seus homens já olhavam seriamente para as bandas da planície, dispostos a voltar por onde tinham vindo, quando o chefe resolveu envidar um último esforço, tentando o poder das carícias e dos presentes para convencer o filho de Mateus Falcone a mostrar onde estava escondido o bandido, dizendo-lhe, que, se não temesse causar incômodos ao primo Mateus o levaria preso, sem que tal ameaça tivesse causado o mínimo efeito. Então disse ao menino que contaria tudo a seu pai, e que ele quando soubesse de sua atitude haveria de surrar-lhe até sair sangue, ao que o menino disse-lhe: “É o que veremos”.
Como último recurso o adjunto Gamba ofereceu ao menino um relógio de prata que valia mais de dez escudos: “e, ao ver que os olhos do pequeno Fortunato rebrilhavam ao vê-lo, disse-lhe, segurando o relógio suspenso à extremidade da corrente de aço: - Malandro! Bem que desejarias ter um relógio como este, preso à tua gola. E sairias a passear pelas ruas de Porto Vecchio, orgulhoso como um pavão. E as pessoas te perguntariam: “Que horas são?” e tu dirias: “Vejam no meu relógio”. Depois o adjunto perguntou ao menino: “Então, não queres este relógio, priminho? Fortunato fitando o relógio com o rabo do olho, assemelhava-se a um gato a quem oferecem um frango inteirinho”.
Mérimée, nesse importante ponto da história demonstra conhecer bem os sentimentos relativos à fraqueza de caráter do homem, como a ambição, a astúcia e a traição. Voltando ao ponto em que o menino Fortunato está por sucumbir à tentação do adjunto Gamba, que fazia o relógio oscilar no ar, às vezes quase lhe batendo no nariz: “Afinal, pouco a pouco, a sua mão direita ergueu-se para o relógio: as extremidades de seus dedos tocaram-no; e o relógio pesava inteiro em sua mão, sem que, no entanto o adjunto largasse a corrente... o quadrante era azulado... a caixa fora recentemente brunida... e ali, ao sol, parecia toda de fogo... A tentação era demasiado forte”.
O passo seguinte, na história, a traição do menino, após ter apanhado o relógio do adjunto Gamba, que lhe indicou o lugar onde se encontrava o bandido: “Fortunato ergueu também a mão esquerda, e indicou com o polegar, por cima do ombro, o monte de feno a que se recostara. O adjunto compreendeu. Soltou a extremidade da corrente; Fortunato sentiu-se possuidor único do relógio. Endireitou-se com agilidade de uma gamo, e afastou-se dez passos para longe do feno, que os atiradores começaram logo a revirar”. O bandido preso olhou para o menino que lhe traiu, dizendo um palavrão. O menino atirou-lhe a moeda que recebera para escondê-lo, por sentir que não a merecia.
Mérimée conta os fatos ocorridos após a prisão, e as providências tomadas pelo adjunto Gamba para levá-lo para Porto Vecchio. E que, “Mateus e a mulher apareceram de súbito na volta de um caminho que conduzia a um mato. A mulher avançava penosamente, curvada ao peso de enorme saco de castanhas, ao passo que o marido ia à vontade, carregando apenas uma espingarda na mão e outra a tiracolo; pois é indigno um homem carregar outro fardo a não ser suas armas”. Ao vê-los, Mateus pensou que vieram prendê-lo, embora não tivesse qualquer problema com a justiça. Estava com a consciência limpa. De qualquer forma, preparou-se para defender-se, dizendo para a mulher largar o saco e se aprontar, dando-lhe a espingarda que trazia a tiracolo.
O adjunto ao ver esses movimentos de Mateus temeu ser ele parente do bandido, vendo-o “avançar daquele jeito, a passos medidos, com arma apontada e o dedo no gatilho”. À vista disso, o adjunto tomou a iniciativa de se separar de seus homens e de adiantar-se para explicar a Mateus Falcone o que se passava: “Sou eu, Gamba, o teu primo”. E contou-lhe que passara por sua casa e fizera uma bela captura: “Acabamos de apanhar Gianetto Sanpiero”. Ouvindo esse relato Josefa sentiu-se aliviada, e disse que “a semana passada, ele nos havia roubado uma cabra leiteira”; esse relato agradou Gamba, mas não a Mateus, que disse: “Pobre diabo! Ele tinha fome”.
O adjunto Gamba contou-lhe tudo que Gianetto fizera: “matou um dos atiradores e, não contente com isso, inutilizou o braço do Cabo Chardon; mas isso não tem grande importância, não passava de um francês...E depois, ocultou-se tão bem, que nem o próprio diabo poderia descobri-lo. Se não fosse o priminho Fortunato, eu nunca o teria encontrado”. Ao ouvir isso, Mateus exclamou o nome do filho: - Fortunato! E Josefa repetiu a exclamação: - Fortunato! Gamba confirmou e contou como tudo aconteceu, dizendo-lhe que ia contar ao seu tio caporal para que lhe mandasse um presente pelo trabalho, aduzindo: “O nome dele e o teu figurarão no relatório que enviarei ao Procurador Geral”. - Maldição! - disse baixinho Mateus.
A história de Mérimée, já está se encaminhado para o desfecho: “Tinham alcançado o destacamento. Gianetto já estava deitado na liteira e pronto para partir. Quando viu Mateus na companhia de Gamba, esboçou um sorriso estranho; depois, voltando-se para a porta da casa, cuspiu-lhe à entrada, dizendo: ‘Casa de traidor!’. Só um homem decidido a morrer teria ousado pronunciar a palavra traidor aplicando-a a Falcone. Uma boa punhalada, sem necessidade de repetição, teria imediatamente pago o insulto. Mateus, no entanto, não fez outro gesto que o de levar a mão à fronte, como um homem acabrunhado”.
Fortunato ao ver que seu pai estava de volta entrou na casa e voltou com uma jarra de leite, e com olhos baixos oferecendo-a a Gianette, que gritou: - “Longe de mim!” Depois, é narrado os últimos momentos em que o adjunto se retira desse local, com o prisioneiro e seus homens. “Transcorreram cerca de dez minutos, antes que Mateus abrisse a boca. O menino olhava inquietamente ora para a mãe ora para o pai, que, apoiado à arma, o considerava com uma expressão de cólera concentrada. – Começas bem! – disse afinal Mateus com voz calma, mas terrível para quem conhecia o homem. – Meu pai! – exclamou o menino, avançando com os olhos cheios de lágrimas, como para lançar-se-lhe aos joelhos. – Afasta-te!” Disse Falcone ao filho.
Pode-se prever facilmente que Mérimée está na parte mais dramática da história, no seu clímax ou no patético, como se diz em oratória. Nesse momento da história, sente-se qual será o seu desfecho, à vista do caráter de Mateus; do desfecho, participam Mateus Falcone, o filho Fortunato, que, desesperado pede ao pai que não lhe mate, e a mãe Josefa, que tudo pressente, e que se vê impotente para evitar a tragédia. Josefa ao ver a corrente do relógio saindo de dentro da camisa do filho, pergunta-lhe quem lhe dera o relógio, e ele respondeu que foi o primo Gamba. Então, Mateus perguntou a Josefa: “- Mulher, esse menino é meu filho?” Josefa respondeu-lhe: “ - Que dizes Mateus, não sabes com quem estás falando? – Pois olha, esse menino é o primeiro de sua raça que comete uma traição”.
Agora, chamamos a atenção para o brilhante desfecho da história de Mateus Falcone, digna da importância de Prosper Mérimée para o mundo literário, numa narrativa direta e chocante. Essa obra, entre outras de Mérimée, justificam plenamente constar ele, entre outros, no primeiro patamar da literatura universal.
“Redobraram os soluços de Fortunato, e Falcone mantinha sempre os seus olhos de lince fixos no menino. Bateu enfim com o coice da arma no solo, lançou-a ao ombro e tomou o caminho do mato, gritando ao filho que o seguisse. Fortunato obedeceu. Josefa correu para Mateus e pegou-lhe do braço. – É o teu filho - disse ela com voz trêmula, fitando os olhos negros nos do marido, como para ler o que se passava em sua alma. Deixe-me, - retrucou Mateus: - eu sou o pai dele. Josefa beijou o filho e voltou chorando para a cabana. Lançou-se de joelhos ante uma imagem da Virgem e pôs-se a rezar fervorosamente. Entrementes, Falcone, avançando uns duzentos passos no caminho, parou enfim junto a um barranco, por onde desceu. Sondou a terra com o coice da arma: achou-a branda e fácil de cavar. O local pareceu-lhe conveniente para o seu desígnio”.
Mateus Falcone ordenou ao filho: “ - Fortunato, vai para o fundo daquela pedra grande. O menino fez o que lhe ordenavam, depois se ajoelhou. – Reza as tuas orações. – Meu pai, meu pai, não me mate. – Reza! – repetiu Mateus com voz terrível. O menino balbuciando e soluçando, rezou o Padre-Nosso e o Credo. O pai, com voz forte, respondia Amém! no fim de cada prece. – São essas orações que tu sabes? – Eu sei também a Ave-Maria, meu pai, e a ladainha que minha tia me ensinou. – É muito longa, mas não importa. O menino terminou a litania com uma voz apagada. – Terminaste? – Oh! Meu pai, por amor de Deus, perdoe-me! Eu não farei mais! Pedirei tanto ao meu primo caporal, que hão de perdoar ao Gianetto! Continuava a falar, enquanto Mateus armava a espingarda e apontava-a, dizendo-lhe: - Que Deus te perdoe! O menino fez um desesperado esforço para se erguer e abraçar-se aos joelhos do pai; mas não teve tempo. Mateus fez fogo, e Fortunato caiu morto. Sem olhar para o cadáver, Mateus retomou o caminho de casa, em busca de uma enxada para enterrar o filho. Mal dera alguns passos, encontrou Josefa, que acorria alarmada com o tiro. – Que fizeste? – Justiça. – Onde está ele? – Lá embaixo, no barranco. Vou enterrá-lo. Morreu como cristão, mandarei rezar uma missa por ele. Dize a meu genro Teodoro Bianchi que venha morar conosco”.


REFERÊNCIA:
MÉRIMÉE, Prosper. Novelas Completas. Trad. Mário Quintana. 2ª. ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1960.

  
       *  *  *  


2 de ago de 2015

[Conto] NELSON RODRIGUES – O torturado


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
NELSON RODRIGUES é considerado pela crítica literária o mais importante dramaturgo brasileiro do século 20. O conflito entre o desejo e a repressão foi a base com a qual desenvolveu sua dramaturgia, que teve o seu início aos 17 anos, quando seu irmão Roberto foi assassinado.
Nascido e criado num ambiente da pequena burguesia adquiriu desde pequeno um forte senso crítico. E foi justamente pela sua crítica cáustica da sociedade contemporânea que teve suas peças censuradas pela Ditadura Militar, quais sejam:  Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
Nelson Rodrigues não foi apenas dramaturgo, foi jornalista, cronista e contista. Em todas essas áreas destacou-se pelo seu talento incomum.
Nelson Falcão Rodrigues nasceu a 23 de agosto de 1912, no Recife, e morreu a 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Segue o conto de Nelson Rodrigues, O torturado (in A vida como ela é... / Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro, Agir, 2006, p. 152):

  O TORTURADO
  – NELSON RODRIGUES

Deixou-a na porta de casa e partiu, fora de si. Caminhando, dentro da noite, falava sozinho: “Essa é a maior! A maior!” Às dez horas da noite, vai bater na porta do Penaforte. Por acaso, o amigo, gripado, recolhera-se mais cedo. Asdrúbal esbraveja:
– O tiro saiu-me pela culatra! Estou mais cedo amarrado. – Asdrúbal esbraveja.
Metido num pijama de não sei quantas cores, às voltas com uma coriza inexaurível, Penaforte permitiu-se um humor sinistro:
– Estás frito! E só tem um jeito: Emigra, rapaz, para a China, a Cochichina, o diabo que te carregue!
O outro, porém, estava num desespero sincero e profundíssimo:
Vou te dizer o seguinte: a convivência com certas mulheres produz o câncer! Não é blague, não. É batata! E se eu continuar com essa pequena, vou acabar com câncer ou, no mínimo, com úlcera! Escreve!



*  *  *

25 de jul de 2015

[Crônica] ANTÔNIO MARIA – O Mar




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921. Já com residência fixa no Rio de Janeiro, cidade da qual não mais deixaria, ganhou fama, não apenas na Cidade Maravilhosa, mas praticamente em todo o Brasil. Antônio Maria tinha o dom especial para a crônica, com o estilo quase sempre descontraído da oralidade, e pela poesia que a revestia, sem tirar a característica da crônica, qual seja a simplicidade e a despretensão. 
Antônio Maria escreveu suas crônicas para importantes jornais do Rio: O Jornal, onde permaneceu por 15 anos; O Globo, em 1959 (aí ficou por pouco tempo); e Última Hora, colunas nas quais publicava suas crônicas diárias.
Seu dileto amigo, o poeta Vinícius de Moraes, escreveu “Oração para Antônio Maria, Pecador e Mártir”, crônica que foi publicada em O Jornal de Antônio Maria, 1ª ed. Rio de Janeiro, Saga, 1968, da qual extraio este trecho: “Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50”.
No dia 15 de outubro de 1964, na cidade do Rio de Janeiro, o coração desse artista versátil, que já vinha dando mostras de cansaço, não aguentou mais. Antônio Maria morreu muito cedo, aos 43 anos.
 Segue a crônica de Antônio Maria intitulada O mar (In Crônicas de Antônio Maria. São Paulo: Paz e Terra, 1996, 52-53):
                           
O MAR
– Antônio Maria


Banho de mar no recife era “banho salgado”, e só se tomava com ordem médica, das cinco às sete da manhã. Antes do sol.
As roupas de banho das mulheres começavam numa touca, seguindo-se um casaco-sunga escuro (com aplicações róseas ou azuis) até os joelhos e sapatos de borracha.
Não devia confessar, mas sou do tempo do “banho salgado”. Acordávamos com a noite fechada, entrávamos em nossas roupas de banho e partíamos. De carro, para a Boa Viagem. Em jejum. Ai de quem tomasse café e caísse no mar. Contavam-se casos de pessoas que envesgaram ou ficaram com a boca torta. Tinha que ser em jejum como o da comunhão. Nem água.
A família só descia do automóvel  depois que o chofer, pessoa de confiança, fizesse um reconhecimento da área e garantisse  que não havia ninguém (homem) ali por perto.
Na praia, a pessoa mais velha mandava  que todos fizesse o “pelo sinal” e tirava uma ave-maria, a que todos respondiam, encomendando a alma a Deus, no caso de afogamento ou congestão.
– Botaram algodão nos ouvidos?
– Botamos.
Davam-se as mãos, moços e crianças, entravam no mar, até a cintura.
– Um, dois três ... e já!
E mergulhavam agoniados, de mãos dadas, olhos, ouvidos, boca e nariz tapados.
Essas minhas lembranças vêm de 1928. Apenas 33 anos.  Mas o mar era uma novidade. Um desconhecido. Fazia-se cerimônia com ele.  Tinha-se medo dele.  Mar de 1928 era ainda o mar de Castro Alves. Soleníssimo: “Stamos em pleno mar!” Fazia medo. O mar de hoje é o de Caymmi. Abrandou. Tornou-se íntimo. Ninguém respeita.

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar...

Daquele mar do Recife, ficou uma lembrança: o cheiro dos sargaços. A quem os teve, sargaços na infância, por mais que ande, por mais feliz que esteja, faltará alguma coisa.

                                                                                                                  18/11/1961
                                                    *  *  *




18 de jul de 2015

MARGUERITE YOURCENAR – O Romance Histórico


                    

– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Filha de pai aristocrata e culto, Marguerite Yourcenar pode receber uma educação especial, tendo sido orientada para o estudo de línguas clássicas e das civilizações mediterrâneas. Sentia-se atraída pelo latim, grego e pelo que havia ao seu alcance da produção artística e literária do mundo clássico. Esse fascínio mais tarde passaria para as suas obras de ficção, para as quais aplicava uma técnica que lhe era própria. Os romances de Yourcenar foram produzidos justamente tendo por base essa cultura clássica que acumulara quase sempre voltada à História, que era sua seara, da qual resultou Memória de Adriano, em 1951, no qual imaginara esse imperador, no início do segundo século da era cristã, entre outros.
   A obra de Marguerite Yourcenar é extensa, ao todo 25 livros, mais da metade traduzida para o português, a partir de 1980. Os temas de seus livros passam pela história, pela arte, pela religião e pelo erotismo. As duas dimensões praticamente inseparáveis dos temas místicos que aborda, e que procura fazer sobressair-se na sua obra, são o profano e o sagrado. A título de exemplo, mencionamos a A obra em negro, Contos orientais, Fogos, Alexis, O tempo, esse grande escultor, Recordações de família e Arquivos do norte.
Em todos os seus livros pode-se sentir que a escritora maneja a língua com equilíbrio e sobriedade, o que lhe valeu o “estigma de clássica”, como declarou em 1984, diz Ecila de Azeredo, professora de Literatura Francesa da UFRJ; e mais: “Embora hoje seja insólito o ‘escrever bem’, Yourcenar cultuou com afinco a elegância da língua em sua prosa marmórea, articulada com clareza e sem suturas, apesar de concentradamente burilada, como requer o efeito final do texto “clássico” e é isso justamente que causa uma certa sensação de estranheza em mais de um leitor”. Foi a primeira mulher eleita para a Academia Francesa. Conforme disse, aceitou essa vaga apenas ‘por educação’.
O romance Alexis ou O tratado do vão combate foi a primeira obra de ficção de Marguerite Yourcenar, editado em 1929, em Paris, pela editora Au Sans Pareil. Em entrevista que a escritora concedeu a Patrick de Rosbo, disse-lhe em resposta a uma pergunta sobre esse livro: “Tive a sorte de escrever de uma só vez Alexis, em 1928, publicá-lo no ano seguinte sem modificações, representando quase exatamente o que eu queria e podia dizer durante aqueles anos”.
Rosbo pergunta- lhe quais as obras que foram reescritas e quais as que não foram; a escritora respondeu-lhe: “Falei de Alexis escrito de um só jato. Golpe de misericórdia também foi escrito em algumas semanas, durante o outono de 1938. Era a época das famosas entrevistas de Munique: a guerra estava novamente bem próxima, e tenho certeza que as angústias do momento têm alguma coisa a ver com a tensão interior da narrativa, voltada como é para um episódio de guerra situada cerca de vinte anos mais cedo. Eu estava em Sorrento: morava no Hotel Tramontano no quarto em que Ibsen escreveu Espectros. E acrescenta: Ibsen foi um dos grandes escritores com quem mais aprendi”.
 Respondendo ainda essa pergunta de Rosbo, prossegue Yourcenar: “Mas voltemos a pergunta da reescritura. Denário do sonho, diferente nisso de Golpe de misericórdia, foi várias vezes reescrito. Em sua primeira forma, data de 1933, o próprio ano em que se situava a aventura. Essa primeira versão, aliás muito desajeitada, teve em 1934 a honra de exasperar alguns críticos, simplesmente por causa da audácia que consiste em apresentar fatos mais ou menos como são. Um crítico de extrema direita declarou num grande jornal da época que ele não duvidava que aquele livrinho fosse em breve “despejado” junto com “os últimos restos da ideia de liberdade”. Foi mesmo um pouco essa espécie de raiva desse primeiro esboço errado que mais tarde me levou a reescrever o livro”.
Mais adiante Patrick de Rosbo passa a questionar Yourcenar sobre os seus romances que são ambientados na História, que parecia ser o que mais lhe agradava. Responde a pergunta de Rosbo relacionada com a idéia que a escritora tem da continuidade da História: “Denário do sonho situação em 1933, na Itália mussoliana, período que para nós já é histórico, mas era um romance contemporâneo na época em que eu o estava escrevendo. Golpe de misericórdia, que evoca um episódio das guerras bálticas de 1920, foi escrito em 1939: já era, se quiser, um “romance histórico”, e situa-se quase na pré-história para muitos jovens escritores de hoje”.
Rosbo faz esta pergunta à escritora: “Na medida em que se trata de um passado longínquo, o de Memórias de Adriano ou de A obra em negro, por exemplo, será que não nos encontramos então diante de personalidades ou de visões do mundo muito diferente das nossas?” Segue a resposta de Yourcenar:
“Sem dúvida, e é isso que constitui para a maior parte das pessoas a fronteira, na verdade muito flutuante, entre a História e a “vida atual”. Mas é também o que torna apaixonante a História. Nesse sentido, pode-se dizer que a História é uma escola de liberdade. É o que não foi suficientemente visto por escritores como Gide e Valéry, que não gostavam da História. Talvez se deva dizer para desculpá-los que eles pensavam na História de uma maneira, de certo modo, escolar, e se revoltavam contra essa apresentação tradicional dos acontecimentos que eram forçados a aceitar”.
Ainda sobre o romance histórico, Rosbo fala a escritora sobre “a armadilha do pitoresco, do mesmo modo como o passado, ou a distância, podem nos esconder a verdade muitas vezes decepcionante de seus cenários, de seu quadro. É assim em Zênon, em A obra em negro (livro de ficção histórica)”. Diz-lhe, então, Yourcenar:
“Já fizemos alusão a esse engano ingênuo ao falar dos que acreditam que o passado é um asilo. Também não é um Eldorado”. Para a escritora, raramente acontece que grandes pintores e grandes poetas do passado conseguiram contrariar a História, “um meio atemporal, limpo de tudo o que a vida tem de mesquinho e de imperfeito, propício à emoção pura e ao canto puro. Isso não é verdadeiro quanto a Shakespeare, que nunca perde de vista a ‘atualidade’ da História e a terrível complexidade da vida, presente ou passada. Mas é verdadeiro quanto a Racine em Bérénice; é verdadeiro quanto a Poussin, em Les funérailles de Phocion. E sabemos que essa história assim é falsa”. A escritora faz essa afirmação sobre essas obras de Racine e de Poussin.
Depois Rosbo pergunta à sua entrevistada o que distingue, para ela, o romancista histórico do historiador, então Yourcenar responde dizendo que as posições de um e outro parecem quase idênticas, à primeira vista, mas que há grande diferença entre eles, no que se relacionado ao método, dando realce que “as regras do jogo do historiador são inteiramente outros que os do romancista, mesmo do mais enganjado na história”. Em seguida, procura mostrar-lhe o que os diferencia:
“O historiador tem diante de si todo um arsenal de fatos e de hipóteses que ele tem de nos apresentar com exatidão, com lucidez, e para os quais pode até, às vezes, nos deixar escolher a explicação mais aceitável. Tem de procurar saber tudo sobre o personagem de que fala, resistir a seus preconceitos pessoais, tentar honestamente ‘compreender’”. Explica, que o historiador não é obrigado a entrar dentro do homem em questão, para recriá-lo; e, vai mais longe ao dizer que ele, historiador, está proibido a fazer essa recriação, por não poder afastar-se dos fatos e de hipóteses. “Além do mais – diz a escritora – o historiador tem perfeitamente direito de dar, por exemplo, a imagem da batalha de Waterloo colocando-se nas perspectivas de 1971 – época em que concedeu essa entrevista -, às vezes é seu dever e seu mérito fazê-lo”.
Yourcenar diz que outra é a situação do romancista: “O romancista, ao contrário, como por exemplo fez Stendhal, nos faz mergulhar num 18 de junho de 1815 – aqui ela refere-se a batalha de Waterloo – em que não se sabia ainda quais seriam os resultados da batalha, nem mesmo se aquela série de combates informes iria algum dia se chamar de História a batalha de Waterloo. Por isso faço tanta questão de tentar recolocar os personagens na cronologia que foi a deles – como Adriano na Palestina pelo ano 884 da era romana e não no ano 136 da era cristã, que ele ainda não sabia que havia sido começado, para devolvê-lo a seu tempo próprio em vez de impor-lhe nosso tempo”.
Prossegue a escritora: “No que se refere a Memórias de Adriano, o estilo se aproxima do da História, pelo fato de que Adriano, ao considerar sua vida à distância de seu leito de morte, é de certo modo seu próprio historiador, seu próprio Plutarco. O próprio tom se modela sobre o dos historiadores, dos ensaístas latinos da época. Na verdade, estamos, entretanto, no mundo da reconstrução poética ou da psicologia de romance, no sentido de que é sua própria história que Adriano evoca sua própria obra que ele comenta, e que, por muito lúcido que se considere, ele está preso como todos nós nos jogos de espelho que logo surgem, por tratar de si mesmo”.
Prossegue Yourcenar: A obra em negro, também recheada de História, o tom é ao contrário inteiramente o da crônica romanesca. Em primeiro lugar, porque intervém a conversa, e o entrecruzamento das vozes toma o lugar do solo de Adriano (eu não me atreveria - diz a escritora – a ‘imaginar’ uma conversa do século II: não sabemos suficientemente como aquelas pessoas falavam umas com as outras), depois porque Zênon vai vivendo cada dia sem nunca poder restrospectivamentese prever ou se construir. Um único capítulo, O abismo lhe dá oportunidade para isso, que ele não aproveita. “E de novo, aqui, a psicologia do personagem: Adriano ‘sabe que é’ uma figura histórica, e essa tranquila certeza determina seu olhar sobre toda a sua vida; não há Zênon algum para Zênon”.
Para ficarmos apenas com um pouco do que preleciona Yourcenar sobre o romance histórico e a diferença entre o romancista histórico do historiador, vejamos o que responde a esta pergunta; Patrick de Rosbo quer saber se há “uma exigência para o romancista histórico interiorizar seus personagens”. E mais: se “essa tarefa não é em algum caso a do historiador, o romancista histórico volta às fontes do que foi a vida, ao que a senhora chama de ‘essa fluidez (...)”, ao que a escritora responde: “É verdade. Eles foram - os romancistas históricos - os primeiros historiadores-poetas do mundo moderno que podemos surpreender trabalhando, esforçando-se para fazer o público sentir o que um erudito inglês de hoje chama o choque do passado subitamente revelado”.
Marguerite Yourcenar, pseudônimo usado Marguerite Cleenewerck de Crayencour, nasceu em 8 de junho de 1903, em Bruxelas e cresceu na França. Depois residiu na Itália, Suiça, Grécia e, por fim, nos Estados Unidos, em Mount Desert Island, no Maine, por cerca de 50 anos, onde se isolou com sua amiga Grace Frick , e onde faleceu, em 17 de dezembro de 1987.


REFERÊNCIAS:
AZEREDO, Ecila de. O ser e o tempo: M. Yourcenar. Rio de Janeiro: Jornal Leia. 1988.
ROSBO, Patrick. Entrevistas com Marguerite Yourcenar. Tradução de Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987.




 *  *  *


8 de jul de 2015

[Conto] LIMA BARRETO – Sua Excelência



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
LIMA BARRETO (1881-1922) é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Como romancista, destinge-se pelo talento e honestidade colocados em suas obras, dentre outras, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919). O escritor é, sem dúvida, merecedor do respeito que a crítica literária dispensa à sua obra.
Depois das publicações póstumas de Os Bruzundangas (1922), Bagatelas (1923), inexplicavelmente, Lima Barreto caiu no esquecimento. Em 1930, um pequeno grupo de amigos tenta chamar a atenção para a obra do escritor. A imprensa acompanhou o movimento; Agrippino Grieco escreve o primeiro artigo para reabilitar o escritor, tratando-o como “o maior e o mais brasileiro de nossos romancistas”.
Francisco de Assis Barbosa posiciona-se quanto a influência da cor na obra do escritor: “É claro que a condição de mulato – e mulato incompreendido e até certo ponto perseguido – influenciou a obra de Lima Barreto. Mas isso não é tudo. Há nela muito mais do que uma reação meramente instintiva de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreensão do fenômeno social.”
Francisco de Assis Barbosa incumbiu-se de selecionar os melhores contos de Lima Barreto. A Global Editora imprimiu a 5ª edição, em 2000, desse livro, composto por quatorze contos. É dessa edição, que escolhemos, para esta postagem, o conto que segue, intitulado Sua Excelência (In Barreto, Lima. Os melhores contos de Lima Barreto / Seleção de Francisco de Assis Barbosa. 5ª ed. São Paulo: Global, 2000, p. 163-165):

SUA EXCELÊNCIA
(Lima Barreto)

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade.
Todo ele era um poço de certeza. Estava certo do seu valor intrínseco; estava certo de suas qualidades extraordinárias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a deferência universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convicção de ser ele o resumo do país, a encarnação dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejo dos ricos. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só ele, ele só e unicamente, seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham...
E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer, Lembrou-se do seu discurso de ainda agora:
“Na vida das sociedades, como na dos indivíduos”...
Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. E sucesso daquele trecho? Recordou-se dele por inteiro:
“Aristóteles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como Sólon, Justiniano, Portalis e Ihering, todos os filósofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes”...
O olhar, muito brilhante, cheio de admiração – o olhar do leader da oposição – foi o mais seguro penhor do efeito da frase...
E quando terminou! Oh!
“Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!”
A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.
O auditório delirou. As palavras estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.
O carro continuav a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois sumiram-se.
O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem.
Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora, o mesmo minuto da sua saída da festa.
Cocheiro, onde vamos?
Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam.
Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente.
Gritou ao cocheiro:
– Onde vamos? Miserável, onde me levas?
Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes magníficas. Graças a Deus, ainda não se havia derretido. O leão da Birmânia, o Dragão da China, o Lingão da Índia estavam ali, entre todas as outras, intactas.
– Cocheiro, onde me levas?
Não era o mesmo cocheiro, não era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era o seu fiel Manuel!
– Canalha, para, para, senão caro me pagarás!
O carro voava e o ministro  continuava a vociferar:
– Miserável! Traidor! Para! Para!
Em uma dessas vezes voltou-se o cocheiro; mas a escuridão que se ia, aos poucos, fazendo quase perfeita, só lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, metálico e cortante. Pareceu-lhe que estava a rir-se.
O calor continuava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as calças...
Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados.
Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfante, não havia minutos.
Nas proximidades um coupé estacionava.
Quis verificar ben as coisas circundantes; mas não houve tempo.
Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus, envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes ...
Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali  não tivesse feito outra coisa, indagou:
– Vossa Excelência quer o carro?


*  *  *