18 de jun de 2016

MÁRIO VARGAS LLOSA – Conversas sobre Literatura



                – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1982, a Editora Nova Fronteira lançou a 3ª edição de Os chefes, o primeiro livro de Mário Vargas Llosa, e que, por coincidência, foi o primeiro livro que li desse escritor. O conto Os chefes, que dá título ao livro, é um dos seis contos que compõem a obra, e mais a novela Os filhotes. A primeira edição desse livro deu-se em Lima, Peru, na segunda metade dos anos 50, quando o escritor contava com apenas 22 anos. Em 1958 Vargas Llosa recebeu o importante prêmio Leopoldo Alas, como o melhor livro do ano de seu país.
Depois de Os chefes, o entusiasmo pela literatura de Vargas Llosa levou-me a ler outras obras suas, as quais destaco, independentemente das datas de suas edições, e de minhas leituras: Conversa na Catedral, Pantaleão e as visitadoras, Tia Julia e o escrevinhador, História de Mayta, e, por último, Quem matou Palomino Molero. Atualmente, estou lendo o seu livro de ensaios literários, A verdade das mentiras, da editora ARX, 2ª edição, 2004. Na primeira edição, em 1999, o livro continha vinte e seis ensaios, e passou para trinta e seis ensaios na 2ª edição (2004).
Sobre Vargas Llosa, li também a entrevista que concedeu à Revista Playboy, feita por Ricardo A. Setti, em 1986, e que depois se transformou em livro, com edição pela Editora Brasiliense, com o título Conversas com Vargas Llosa. Antes de iniciar essa entrevista, que foi feita durante três dias - até então a mais longa que concedera, segundo sua afirmação ao entrevistador -, Setti faz um prefácio com o título Pequena história do entrevistado e da entrevista, do qual extraímos apenas algumas passagens: "Ele tem com seu país, o Peru, uma relação especialíssima – mais adúltera que conjugal, cheia de suspeita, paixão e fúria, como ele próprio define”.
Ainda no prefácio, Setti fala um pouco mais sobre o escritor: “nascido em 1936, em Arequipa, no sul do Peru, Vargas Llosa viveu na Bolívia até os oito anos de idade; só conheceu o próprio pai aos dez anos de idade, quando seus pais, separados, se reconciliaram. Filho único de uma família de classe média com ramificações pela elite peruana – seu avô materno era primo-irmão de um presidente da República, ele estudou num colégio militar (experiência marcante a ponto de lhe inspirar o primeiro romance, Batismo de fogo) antes de seguir o caminho tradicional da Faculdade de Direito na antiqüíssima Universidade de San Marcos, onde se formou numa profissão que nunca exerceria”.
Antes de transcrevermos as duas primeiras respostas de Vargas Llosa, na referida entrevista, digo da minha intenção de continuar com Conversas com Vargas Llosa, em postagens futuras, intercalando-as com outros trabalhos. Antes, porém, da sua primeira resposta à pergunta do entrevistador, lembro de outras obras de ficção do escritor, além das que nos referimos acima: O batismo de fogo, A orgia perpétua, A senhorita de Tacna, A guerra do fim do mundo e Contra o vento e maré. (É possível que não tenha mencionado todos.)
Ricardo A. Setti disse, a Vargas Llosa, ser ele um escritor famoso e que naturalmente os seus leitores no Brasil sabem o que ele escreveu e como escreve. Depois, perguntou ao escritor quais são as suas leituras, e esta foi a sua resposta: “Olha, comigo acontece desde já alguns anos uma coisa curiosa. Eu me dei conta de que leio cada vez menos os escritores vivos, e cada vez mais os mortos. Leio muito mais escritores do século XIX do que do século XX. Talvez nos últimos anos, além disso, eu esteja lendo menos literatura do que ensaístas e historiadores. Não sei bem porque. Bem, em alguns casos por razão de trabalho, mas também me ocorre uma coisa: quando se tem 15 ou 18 anos de idade, existe a impressão de que se dispõe de todo o tempo do mundo. Quando temos 50 anos, nós nos damos conta de que não dispomos de todo o tempo, e de que temos que ser muito seletivos. Talvez pó isso eu leia menos meus contemporâneos”.
Por hoje, ficaremos com a segunda resposta de Vargas Llosa à pergunta de Setti, qual seja, de quem ele gosta, dos contemporâneos, vivos ou já mortos, que lê: “Quando jovem, um autor que eu seguia de maneira sistemática era Sartre. Entre os romancistas americanos, li, sobretudo os da geração perdida – Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos -, principalmente Faulkner. Ele é um dos poucos autores de minhas leituras de juventude que ainda se conservam vivos para mim. Nunca me senti decepcionado ao reler Faulkner, como ocorreu por vezes com Hemingway, por exemplo. Sartre é um escritor que eu não releria hoje – diante de tudo o mais que li, acho que sua obra de ficção envelheceu e se empobreceu tremendamente, e sua obra de ensaísta, que me pareceu sempre muito inteligente, considero hoje muito menos importante, com muitas contradições, equívocos, inexatidões e falácias. Isso nunca aconteceu, para mim, com Faulkner. Jamais”.

REFERÊNCIA: SETTI, Ricardo A.Conversas com Vargas Llosa. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.



*   *   *  

3 de jun de 2016

[Conto] NELSON RODRIGUES – Reação



PEDRO LUSO DE CARVALHO

Nelson Rodrigues foi um importante dramaturgo. Basta ler algumas de suas obras para não termos dúvida disso. São elas, Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
O dramaturgo foi um homem extremamente crítico. Seus alvos eram os pequenos-burgueses, como eram chamadas as pessoas de posses. Então tirava a máscara dessas pessoas hipócritas e preconceituosas. Para elas, Nelson Rodrigues foi implacável ,com o seu senso crítico.
Nelson Rodrigues nasceu a 23 de agosto de 1912, em Recife, e morreu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Escolhemos para esta postagem o conto Reação, de Nelson Rodrigues, um dos contos que compõem o livro A vida como ela é... (in A vida como ela é... / Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro, Agir, 2006, p. 212-213), que segue, na íntegra:


REAÇÃO
NELSON RODRIGUES


Foi pontualíssima. Entrou no apartamento do marido e olhava para tudo, com uma divertida curiosidade. Virou-se para o Freitas que, ao lado, taciturno, esperava. Deixou a bolsa em cima de uma mesinha; perguntava: “Quer dizer que é aqui?” Suspira deliciada; e quer beijá-lo. Freitas, porém, a empurra, brutalmente. A moça faz espanto. “Que é isso?” Então acontece o seguinte: o rapaz corre, abre a porta; trinca os dentes:
Rua, ouviu? Rua! Tenho nojo de ti, só nojo! – e repetia, numa alucinação:
Cínica! Cínica!
Ela passou por ele sem olhá-lo, de cabeça baixa. Fugiu, apavorada, pelo corredor. Dois ou três dias depois, o Freitas era visto , de braço, com a antiga namorada do dente de ouro, residente também no Jacaré.


* * *



30 de mai de 2016

ALBERT SCHWEITZER - Estudos sobre Goethe


– PEDRO LUSO DE CARVALHO

ALBERT SCHWEITZER foi músico e profundo conhecedor da obra de Bach, e um dos seus melhores intérpretes; ganhou notoriedade pela sua dedicação na construção de órgãos. Formou-se em Medicina, Filosofia e Teologia na Universidade de Straburgo; em 1901 foi nomeado docente nessa mesma Universidade.
Recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1953, como reconhecimento de sua atividade como médico na África Equatorial Francesa, onde, em 1913, construiu um hospital na localidade de Lambaréné, Gabão; aí, passou parte de sua vida dedicada ao tratamento de doenças tropicais, no afã de minorar o sofrimento do povo africano. Retornava a Europa apenas para angariar fundos para a manutenção de seu hospital, realizando concertos de órgão e conferências públicas.
Schweitzer foi fortemente influenciado por duas importantes personalidades da cultura universal, quais sejam, Jean Sebastian Bach e Johann Wolfgang von Goethe. Inspirado em Bach, escreveu, no ano de 1904, em francês, JEAN SEBASTIAN BACH, Lê Musicien Poète; Goethe, por sua vez, inspirou-lhe os estudos sobre o poeta através de GOETHE, Quatro Discursos (Goethe, Vier Reden von Albert Schweitzer), publicado em Munique, Alemanha em 1950. No Brasil, a obra foi publicada em 1960 pela Edições Melhoramentos.
Essa editora publicou, além de Goethe, Quatro Discursos, outras obras de Albert Schweitzer: Minha Infância e Mocidade, Histórias Africanas, Entre a Água e a Selva, Albert Schweitzer – Uma vida Exemplar, Minha Vida e Minhas Ideias, Decadência e Regeneração da Cultura e Cultura e Ética.
Aqui abro (e fecho) um parêntesis neste texto para dizer que Albert Schweitzer era irmão de Charles Schweitzer, professor de língua alemã e tio-avô de Jean-Paul Sartre; Charles Schweitzer foi o responsável pela educação do neto famoso. Na obra As Palavras (Les Mots) de Jean-Paul Sartre, publicada no Brasil pela Editora Nova Fronteira, pode-se saber muito mais dessa descendência dos Schweitzer, além de fatos importantes sobre a sua formação.
Continuo com a fala sobre Albert Schweitzer e dos seus quatro discursos sobre GOETHE, pronunciados em épocas diferentes de sua vida e depois reunidos em livro. Neles o autor faz referência ao pensamento e à personalidade do poeta-cientista, seu guia espiritual. O Primeiro Discurso foi pronunciado no ato da entrega da “Medalha-Goethe”, em Frankfurt an Main, em 28 de agosto de 1928; o Segundo Discurso foi proferido nas solenidades do centenário da morte de Goethe, em sua cidade natal, Frankfurt an Main, em 22 de março de 1932; o Terceiro Discurso, foi pronunciado na cidade de Ulm, em julho de 1932, com o título: Goethe – Como Pensador e Como Pessoa; o Quarto Discurso, Goethe, O Homem e a Obra, foi proferido em Aspen (Colorado – E.U.A.), em 8 de julho de 19149.
Desses discursos de Albert Schweitzer sobre o escritor que, com Schiller foi uma das figuras centrais do movimento literário alemão, Johann Wolfgang von Goethe, também cientista e filósofo, autor de Werther e Fausto, destaco trechos do seu Quarto Discurso, O Homem e a Obra:
“Goethe, O Poeta. Em que consiste o singular atrativo de suas produções? Vejamos primeiramente o que diz respeito à linguagem. Goethe é um vidente. Fala através de símbolos, o que desde sua juventude reconhecia como peculiaridade sua. Possui o segredo de saber pintar com idéias. Vemos o que ele vê e quer que vejamos com ele.
Outra peculiaridade sua é não jogar com o patético de uma linguagem poética que possa fascinar com a ressonância dos vocábulos, de adjetivos impressionistas, mas o de expressar-se com toda a singeleza do falar comum, ao que sabe infundir extraordinária força de elocução. Comumente o ritmo de suas frases não coincide com o ritmo do verso. Fica como em atitude de expectativa em face destes. Há, nesse particular, há uma certa semelhança entre ele e Bach.
Sim, em Bach a composição é feita de modo tal que os temas não se ajustam ao ritmo nem ao embalo da cadência, tomando direção própria. Em Goethe o valor intrínseco da frase tem como conseqüência lógica a medida métrica dos versos, parecendo que estes são uma espécie de prosa de alta categoria, o que lhes confere soberba naturalidade e distinção.
Goethe, O Pensador. Qual a sua concepção do mundo? Qual a sua visão da vida? A que filosofia pertence? Goethe conhece as obras da filosofia sua contemporânea, como aliás é muito lido na filosofia em geral. Toma por obrigação estudar Kant, senta-se aos pés de Schiller, intérprete do filósofo, e deixa-se catequizar.
Goethe conhece pessoalmente a Fichte, Schelling e Hegel. Todos os três foram por ele chamados a exercer a cátedra na Universidade de Iena (Goethe foi Ministro-Presidente do Conselho de Estado, do Ducado de Weimar).
Fichte lecionou ali de 1794 a 1799, Schelling de 1798 a 1803 e Hegel de 1802 a 1807. Goethe, como podemos verificar de notas de seus Diários, assiste à explanação de Schelling e procura encontrar satisfação na pseudofilosofia natural do filósofo que menospreza a pesquisa empírica da natureza.
Afinal, ele mesmo se convence de que nem a Teoria do Conhecimento, de Kant, nem os sistemas filosóficos de Fichte, de Schelling ou de Hegel podem realmente oferecer-lhe algo. O pensamento deles pertence a um outro mundo que não o seu, porque procura aproximar-se da natureza, ao passo que o seu tem nela o seu ponto de partida.
‘Pelo meu próprio esforço sempre me vi livre da filosofia - escreveu Goethe certa vez – a maneira de as inteligências sadias verem as coisas coincidia sempre com o meu modo de ver’. Essa opinião poderia ser assim completada: já se gastou tempo bastante com a crítica da razão (Vernunft; preferiria uma crítica do entendimento humano (Verstand)”.
Johann Wolfgang von Goethe nasceu em Frankfurt an Main, no dia 28 de agosto de 1749 e falaceu em Weimar, Alemanha, em 22 de março de 1832.
Albert Schweitzer nasceu em 14 de janeiro de 1875, em Kaysersberg, na na Alsácia, que, na época, pertencia Império alemão, e faleceu em 4 de setembro de 1965, em Lambaréné, Gabão, África.


REFERÊNCIAS:
SCHWEITZER, Albert. Goethe. Quatro Discursos. Trad. de Pedro de Almeida Moura. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1960.
SCHWEITZER, Albert. Decadência e Regeneração da Cultura. 5ª ed. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1964.Sartre, Jean-Paul. As Palavras. 6ª ed. Rio de Janeiro:, Ed. Nova Fronteira, 1984.

*  *  *

22 de mai de 2016

COELHO NETO – A Vastidão do Caminho Percorrido



      por Pedro Luso de Carvalho


 No dia 21 de fevereiro de 1934, o escritor Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras, escreve uma crônica com o título: “O aniversário de Coelho Neto”, que, nessa data, completava setenta anos, na qual diz que Henrique Coelho Neto é o maior escritor do Brasil, e que “Pelo bico de sua pena saiu um mundo para o mundo”.

 Humberto de Campos faz, em sua crônica, um apanhado da produção de Coelho Neto: mais de cem volumes de crônicas, de romances, de conferências, de contos, de dramas, de comédias, de ensinamentos cívicos, de discursos políticos e literários.; tudo isso realizado em menos de meio século. Diz Campos, que, nessa altura da vida, “o assombroso trabalhador se detém e estende os olhos cansados pela vastidão do caminho percorrido”. Coelho Neto morreu justamente em 1934, ano em que Humberto de Campos comemora, com sua crônica, os setenta anos de vida do escritor. Coelho Neto falece no dia 21 de fevereiro.

Humberto de Campos não deixaria de passar em branco o dia da morte de Coelho Neto, e escreve outra crônica, esta com este título: “Coelho Neto”. Diz Campos, nessa crônica: “Dorme, desde ontem ao meio- dia, no seio da terra, o meu querido Coelho Neto. E eu escrevo isto de olhos enxutos. Há muitas semanas esperava a notícia terrível, do desenlace fatal. E, ao recebê-la, chorei. Os soluços vieram-me à garganta, e explodiram. Sobreveio, porém, a reflexão. A morte, comparada àquele resto de vida, era um bem, uma esmola de Deus. E recolhi-me a pensar nele, a recordar a nossa estima de vinte e dois anos, e que, durante esse período, não foi toldada jamais por uma suspeita, não sofreu, nunca, um esmorecimento”.

Coelho Neto foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em 1926, passou a presidir a A.B.L. Foi eleito por seus contemporâneos “Principe dos prosadores brasileiros”.

 Diz Sergius Gonzaga, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em sua importante obra, Curso de Literatura Brasileira, 2004, que: “COELHO NETO (1864-1934) é o representante das correntes mais acadêmicas e tradicionais da época, tendo recebido o título de príncipe dos prosadores brasileiros em função do estilo pomposo e solene. Deixou uma obra vastíssima, sendo O turbilhão (1906) e Rei negro ( 1914) seus romances mais apreciados. A prolixidade e o gosto pelo exagero verbal terminaram por obscurecer eventuais méritos de sua ficção”.

Vejamos, agora, mais alguns julgamentos, tanto de críticos literários como de importantes escritores, sobre a obra deixada pelo Príncipe dos prosadores brasileiros:

Machado de Assis: “É dos nossos primeiros romancistas, e, geralmente falando, dos nossos primeiros escritores”. (A Semana, ed. Jackson, vol. II, pág. 415.)

João Ribeiro: “Tenho para mim que Machado de Assis e Coelho Neto são os dois novelistas mais perfeito da nossa literatura”. (O Imparcial, 25/2/1913.)

Humberto de Campos: “O Sr. Coelho Neto não é, em verdade, apenas um escritor: é uma literatura”. (Crítica, 1ª série, pg. 85.)

Rui Barbosa: “Um dos mais consagrados representantes da nossa cultura”. (Carta a Coelho Neto, em 18/11918.)

Martins Fontes: “O maior dos romancistas do Brasil em todos os tempos, o autor de cento e dezoito livros vazados no ouro camoniano”. (Terras da fantasia.)

Luís Murat: “Eu admiro esse trabalhador indefesso e, pondo de parte a íntima amizade que nos une, tenho-o como o nosso primeiro romancista”. (Diário de Notícias, 11/8/1899.)

Júlio Dantas: “Foi um dos mais assombrosos gênios verbais de que se orgulhou, em todos os tempos, a língua portuguesa”. (Discurso na Academia Brasileira de Letras, em 9/8/1941.)

João do Rio: “Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra: o homem que joga com maior número de palavras”. (O Momento Literário.)

Péricles de Morais: “O maior escritor brasileiro de todos os tempos” (Carta a Paulo Coelho Neto, em 27/11/1941.)

Nestor Vítor: “Não conheço na literatura brasileira outro que lhe seja superior na faculdade de expressão”. (A Crítica de Ontem.)

João Neves da Fontoura: “Discutido, louvado e agredido, ele se fez o mestre da primeira leva de homens de letra da República, que lhe deferiu, como um paradoxo do regime, o principado dos prosadores nacionais”. (Elogio de Coelho Neto.)

Augusto de Lima: “Nenhum outro escritor nacional, poeta ou prosador, romancista, teatrólogo ou ensaísta de qualquer gênero logrou a irradiação literária do seu nome no estrangeiro”. (Discurso no Instituto Nacional de Música, 21/6/1928.)

Phileas Lebesgue: “Possui ele a graça na fantasia, a exatidão na abundância e as suas descrições só pode comparar-se às de Ramayana, pela riqueza luxuriante da cor e da vida que as banha”. (Mercure de France.)

Sílvio Romero: “Mont'Alverne, Sales Tôrres Homem, Justiniano da Rocha, Gonçalves Dias, João Francisco Lisboa, José de Alencar, Quintino Bocaiúva, Machado de Assis, Tobias Barreto, Ferreira de Araújo, Joaquim Nabuco, Carlos de Laet, José do Patrocínio, Raul Pompéia, e Coelho Neto. São os nomes dos dezesseis laureados do estilo em nossa terra. Como se está a ver, estão aí em ordem cronológica e enchem o século, a começar em Frei Francisco de Mont'Alverne, o mais fraco em fulgores de forma, até Coelho Neto, o mais imaginoso de todos”. (Evolução dos Gêneros na Literatura Brasileira.)

Josué Montelo: “Coelho Neto continua, no silêncio do seu túmulo muito mais vivo do que os vivos que se comprazem em passar-lhe atestado de óbito literário”.

Brito Broca: “Quanto a mim, terei alcançado o meu objetivo neste estudo esquemático e despretensioso, em que me esforcei por ser estritamente imparcial, se puder concorrer para que leiam Coelho Neto os que pretenderem doutrinar sobre ele”. (“Coelho Neto Romancista” em O Romance Brasileiro, pág. 243).)

Alceu Amoroso Lima: “Sua língua de opulência enorme, sua imaginação realmente vivíssima, sua capacidade de narrativa extremamente expressiva, fizeram de Coelho Neto um escritor que, combatido a fundo pelos modernistas, há trinta anos passados, hoje ressurge do olvido e recomeça a interessar as novas gerações”. (Quadro Sintético da Literatura Brasileira, pág. 61.)

Jorge Amado: “Como todos os escritores de obra numerosa, foi desigual. Tem coisas excelentes – como A Conquista – e outras de importância secundária”. (Enq. De 'Última Hora, em 225/91956.)
 
 Henrique COELHO NETO nasceu em Caxias, Maranhão, em 21 de fevereiro, de 1864, e morreu no dia 28 de novembro e 1934, no Rio de Janeiro.

 Suas obras mais conhecidas: A capital federal (1893), Miragem (1895), Sertão (1896), Inverno em flor (1897), A conquista (1899), A tormenta (1901), O turbilhão (1906), Rei negro (1914), Mano (1929), Fogo fátuo, (1930). 

Segue um trecho de Fogo fátuo, romance de Coelho Neto:



[ESPAÇO DO ROMANCE]


FOGO FÁTUO [Fragmento]
   (Coelho Neto)
                                    

 Bivar partira para Paris, como correspondente de A Cidade do Rio, e Anselmo, que residia com ele na sala da frente de uma casa assobradada, na Rua do Riachuelo, pensou em regressar à natureza para praticar a regra de Rousseau, refugiando-se em um cantinho quieto, com árvores de sombra, som de água e vista sobre montes, como gozara no chalé do Andaraí. Mas como os plantões o retinham até as tantas à atulhada mesa da redação de O Diário, onde se empilhavam telegramas e notas policiais da última hora, que tudo ele redigia, interpretando, traduzindo, escoimando, força lhe foi optar por um casarão de cômodos na Rua do Lavradio.

 Era um velho prédio maciço, de aspecto senhorial, com um portão de carro imenso, de ombreiras de granito e sólidos batentes de pérolas com almofadas.

No sombrio saguão, lajeado à maneira de claustro e aprofundado em túnel, abrindo sobre um terreno que fora, em tempo velho, jardim pomareiro de árvores raquíticas, uma escada em dois lances, de largos degraus esgaçados, com balaustrada de bojudas colunas, levava ao andar superior, cuja frente, primitivamente tomada por dois amplos salões de tetos ricos, de estuque, com painéis floridos, fora esquartejada em divisões de tabique, que eram sedes de sociedades políticas, literárias e beneficentes, cujos escudos e emblemas empastelavam as sacadas, híspidas de mastros.

 O andar térreo, ao qual se chegava atravessando o negror e a frialdade do túnel era o seco, esmarrido jardim, que ainda conservava vestígios de canteiros, beirados de fundos de botijas, tufados de matos hirsuto e sujo.

As moradias em renque, de porta e janela e, no interior, saleta e quarto, pareciam achaparrar-se ao peso do sobrado de janelas largas, sempre colgadas de roupas, que trapejavam estabanadamente ao vento.




REFERÊNCIAS:
CAMPOS, Humberto de. Sepultando os meus mortos. Obra póstuma. Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc., 1941, p. 21, 29.
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. 1ª ed. Porto Alegre: Leitura XXI, 20004, p. 268.
FARIA, Octavio. Coelho Neto. Rio de Janeiro: Agir, 1958, p. 49-50, 126-129.


                                    *  *  *


11 de mai de 2016

[Poesia] A PAUL VELÉRY – João Cabral de Melo Neto



   
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1956, a José Olympio Editora publicou o livro de João Cabral de Melo Neto intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos). Esse volume encerrou as obras publicadas em Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, 1954, e estes outros livros: Morte e Severina, Paisagens com Figuras, Uma Faca só Lâmina.
Os Poemas Reunidos citados compreendiam: Pedra do Sono, Recife, 1942; Os três Mal-Amados, 1943; O Engenheiro, Rio, 1945; Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, Barcelona, 1947, e O Cão sem Plumas, Barcelona, 1950. Esses livros - editados no volume intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos) - sofreram algumas modificações, que o poeta considerou-os definitivos.
Para a edição neste espaço, escolhemos o poema de João Cabral de Melo Neto cujo título é A Paul Valéry, que integra o livro  Duas Águas, Poemas Reunidos, p. 137-138):


A PAUL VELÉRY

– João Cabral de Melo Neto



É o diabo no corpo
ou o poema
que me leva a cuspir
sobre meu não higiênico?

Doce tranquilidade
do não-fazer; paz,
equilíbrio perfeito
do apetite de menos.

Doce tranquilidade
da estátua na praça,
entre a carne dos homens
que cresce e cria.

Doce tranquilidade
do pensamento da pedra,
sem fuga, evaporação.
Febre, vertigem.

Doce tranquilidade
do homem na praia:
o calor evapora,
a areia absorve.

As águas dissolvem
os líquidos da vida.
E o vento dispersa
os sonhos, e apaga

a inaudível palavra
futura (que, apenas
saída da boca,
é sorvida no silêncio).




*  *  *




1 de mai de 2016

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Moinho





– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Carlos Drummond de Andrade Também  foi jornalista; desempenhou importantes cargos nos jornais Diário de Minas, Minas Gerais, entre outros. Escreveu crônicas, nos anos de 1954 a 1968, para o Jornal carioca, Correio da Manhã, com o título geral de “Imagens”. Depois passou para o Jornal do Brasil, onde manteve uma coluna no Caderno B.
Drummond também foi funcionário público; exerceu funções no Governo de Minas Gerais e depois no Rio de Janeiro; foi chefe do gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema, de quem era amigo. Integrou a equipe do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Aposentou-se após 35 anos de serviço.
O poeta fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma poesia, Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.
Nesse livro, Alguma poesia aparece alguns modismos, que foram colhidos no modernismo, mas isso não seria obstáculo para a formação do grande poeta, o de fato aconteceu.
Segue o poema Moinho, de Carlos Drummond de Andrade (in Andrade, Carlos Drummond de. As impurezas do branco; posfácio Betina Bischof. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.61):


MOINHO
– CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.


*  *  *



12 de abr de 2016

[Poesia] PABLO NERUDA – Saudade



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

PABLO NERUDA é o nome do poeta que se tornou mundialmente conhecido. O nome do cidadão chileno é outro: Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto. Vê-se que foi providencial a escolha do pseudônimo.
O poeta nasceu em 1904, em Parral, uma pequena cidade do Chile. Ainda jovem, mudou-se para a capital, Santiago, uma das cidades mais evoluídas da América do Sul. Foi em Santiago que publicou Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Com esse livro, tornou-se conhecido mundialmente.
Com a idade de 23 anos o poeta entrou na carreira diplomática. Foi cônsul na Ásia, Argentina e Espanha (durante a Guerra Civil). Também se aventurou na carreira política, em 1945, eleição conquistada para o Senado. Mas logo teve cassado o seu mandato, por ter-se filiado ao comunismo.
Em 1971 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Faleceu em Santiago, em 1973, acometido de câncer, oito dias após o golpe militar, que daria a conhecer, mundialmente, nome de outro chileno, este um tirano: Augusto Pinochet.  
Segue o poema de Pablo Neruda, Saudade (in Pablo Neruda. Crepusculário. Tradução de José Eduardo Degrazia. Porto Alegre: L&PM, 2004, 99):

SAUDADE
– PABLO NERUDA


SAUDADE... – Que será... eu não sei... tenho buscado
em certos dicionários poeirentos e antigos
e outros livros que ocultam o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem longínquos amores,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
nomeia com os cílios e as mãos em tremores.

E no Eça de Queirós sem olhar a adivinho,
o segredo se evade em sua doçura e sede,
como essa mariposa, corpo em desalinho,
sempre longe – tão longe! – de minhas calmas redes.

Saudade... tens, vizinho, o real significado
dessa palavra branca e que, peixe, se evade?
Não... treme na boca seu temor delicado...
Saudade...




*  *  *