10 de jun de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte III

Liev Tolstói



                 por Pedro Luso de Carvalho


      No final da segunda parte do texto sobre Tolstói, transcrevi trecho do ensaio de Harold Bloom, in O Cânone Ocidental, no qual o crítico diz que as opiniões do escritor sobre o casamento e a família são dolorosas, e que a sua posição em relação à sexualidade humana é misogenica, mesmo casado e com treze filhos. Bloon faz justiça a Tolstói, no entanto, quando escreve: “Claro, tudo isso se aplica ao Tolstói discursivo, não ao escritor de ficção, mesmo no último romance Ressurreição, ou em novelas posteriores como O Diabo e a sua famosa Sonata a Kreutzer. Tão poderoso e constante é o talento narrativo dele que as suas digressões moralizantes não desfiguram muito a sua ficção, nem a torna chata.”

        Nesta terceira parte, continuarei ainda nessa fase da vida de Tolstói, que se inicia aos cinquenta anos de idade, quando abandona a literatura e passa a se interrogar sobre a sua vida, e, principalmente, sobre o sentido da vida. Quando se torna adepto da filosofia para buscar respostas a essas indagações, nas leituras aleatórias que faz de filósofos como Schopenhauer, Platão, Kant, Pascal. Quando se afasta dos filósofos por não ter encontrado neles uma resposta para os problemas que o afligem. Quando se dirige a religião na busca de consolo e percebe que a Igreja Católica Ortodoxa não ensina a verdadeira doutrina de Cristo, e então passa a fazer a sua própria interpretação do Evangelho. Quando se ve banido da igreja e por ela é excomungado.

        Voltado para esses questionamentos, Tolstói pergunta-se: “Que erro havia na minha vida?” Questiona-se ainda: “Que erro há na vida de todos nós?” Tolstói começa então a ver os contrastes existentes na sociedade russa: pobreza e riqueza, luxo e miséria. Logo pensa em por termo a essa injustiça, sentindo ser ele próprio um dos algozes dos desafortunados, homem de posses que era. O escritor dá-se conta dessas injustiças sociais quando se encontra em Moscou, em 1881. Aí Tolstói, pela primeira vez, entra em contato com a questão social, como diz Stefan Zweig: “No livro O que devemos fazer? descreve sob uma forma perturbadora o seu primeiro encontro com a miséria em massa da grande cidade”. Tolstói apenas percebe a existencia da pobreza nos vilarejos e nos campos. Falta a ele ver, pois, a perturbadora miséria do proletariado, que se concentra nas cidades industriais, que, como diz Zweig, era o produto de uma civilização industrial.

        Agora consciente dessa triste realidade, Tolstói avança lentamente no sentido de contribuir para minorar os sofrimentos de seus semelhantes, e então passa dar esmolas por meio de uma organização de beneficencia; mas, não tarda a ver que isso não ajudará a mudar a condição social do povo russo. Para ele “somente o ouro não será bastante para transformar a trágica existencia dessa gente”. Ele, que tem agora consciencia de que todo o sistema social terá que sofrer uma mudança completa, escreve: “Entre nós, os ricos e os pobres, se levanta a barreira de uma falsa educação e, antes que possamos ajudar os miseráveis é preciso derrubá-la. Cheguei finalmente à conclusão de que a verdadeira causa da miséria dos pobres é a nossa riqueza”. Estando certo de que há alguma coisa falsa na organização social, o seu objetivo agora é trabalhar para que os russos passem a ser instruídos. Só isso, pensa Tolstói, poderá reparar toda a monstruosa injustiça social.

        Na sua obra Tolstói diz Stefan Zweig: “De motu proprio e consciente de uma moral pura – é aqui que começa o tolstoísmo – Tolstói visa unicamente uma revolução moral, isenta de violencia que, o mais cedo possível, operaria aquele nivelamento e pouparia à humanidade uma outra revolta – a sangrenta. Uma revolta vinda da consciencia, uma revolta realizada pela renúncia espontanea dos ricos às riquezas, dos ociosos à inação, pela próxima redistribuição do trabalho segundo o sentido expresso por Deus: onde ninguém se ache sobrecarregado para alijar a outrem, e todos tenham somente as mesmas necessidades. O luxo, daí por diante, não é para ele mais do que a flor venenosa deste charco, fazendo-se mister extirpá-la, pelo amor da igualdade entre os homens. Ciente disso, Tolstói trava contra a propriedade um combate cem vezes mais encarniçado do que o de Karl Marx e Poudhom.

         Essa é a sua luta para ver a metamorfose social, com a distribuição das riquezas, tirando boa parte das propriedades dos ricos para serem repassadas aos pobres, de forma direta ou indireta, visando o equilíbrio social. Tolstói pregava que “A propriedade é hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que possuem e dos que não a possuem. O perigo dum conflito entre os que dispõe do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. Todo o mal começa com a propriedade”. Para Tolstói, o Estado erra ao defender o princípio da propriedade, que, para ele, trata-se de atitude não apenas anti-cristã, mas também de atitude anti-social.

        Nessa época de desequilíbrio social na Rússia, com a miséria ceifando vidas precocemente, de um lado, e da prevalencia da vontade dos ricos, de outro, a inércia do Estado denotava uma forte cumplicidade com os poderosos. Tolstói, que com isso não mais se conforma, e escreve:

        “Os Estados e os governos intrigam e entram em guerra, ora para possuir as margens do Reno ou terras na África, ora a China e os Balcãs; os banqueiros, os comerciantes, os fabricantes e os proprietários rurais não trabalham, não fazem projetos e não se atormentam, a si e aos outros, senão pelo desejo de possuir. Levados pelo mesmo desejo os empregados lutam, enganam, oprimem e sofrem. Nossos tribunais e nossa polícia sustentam a propriedade. Nossas colonias penitenciárias e prisões, todos os erros que chamamos repressão do crime, somente existem para proteger a propriedade”.

         Para Tolstói, o Estado é o único responsável pela injustiça social. Para ele, o Estado cria mecanismos para proteger a propriedade. O Estado impõe com violencias sua vontade, como centro de um sistema, que, para sustentá-lo, tem suas ramificações nos poderes legislativo executivo e judiciário. Tolstói opõe-se ao serviço militar obrigatório por não achar justificativa para que alguém se dobre às ordens do Estado, e que, com uma palavra de ordem, sirva de instrumento para matar alguém que desconhece, e que a isso se opõe.

        O escritor Henry Thomas diz que “Tolstói estava fadado a sobreviver a sua própria grandeza. Durante os últimos dez anos de sua vida ele bateu-se por um ideal social político e ético só possível num mundo de super-homens... ou de velhos. Com os anos, cada vez mais avultava nele o filósofo profundo e a criança simples”.

        É minha intenção continuar escrevendo sobre a vida e a obra e Liev Tolstói, talvez ainda abordando essa fase da vida do escritor em que se encontrava preocupado em trabalhar para mudar o sistema vigente em sua pátria, visando impor uma justiça social na sua Rússia dividida entre ricos e miseráveis. (Para ler a primeira parte do texto, clique em LIEV TOLSTÓI – Parte Final.)




REFERENCIAS:
ZWEIG, Stefan. Tolstói. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961.
THOMAS, Henry e Dana Lee Thomas. Vida de grandes romancistas. Tradução de James Amado. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1957.

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