2 de mai de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte IV [Final]




             por Pedro Luso de Carvalho
 

      Liev Tolstói passou a condenar a injustiça social em seus país, principalmente depois que deixou de escrever os seus romances, para, na altura dos seus cinquenta anos, voltar-se para a religião e tentar, em vão, fazer uma mudança da Igreja Ortodoxa Russa, no sentido de que esta passasse a transmitir os ensinamentos cristãos, rigorosamente como está no Evangelho, e não distanciado dele, como vinha ocorrendo, na época. E o que mais tarde viria chamar-se tolstoísmo viria fracassar, nos lugares em que pessoas que seguiam as ideias de Tolstói, fundaram colonias, convencidas que estavam na negação da propriedade.

        Escreve Stefan Zweig, sobre o que se passou nessa época, em que todos os ensaios de Tolstói resultaram de decepções, mesmo entre sua família, na sua própria casa; "Durante anos, se esforçou por adaptar sua vida pessoal às suas teorias: renunciou à caça, de que tanto gostava, para não sacrificar animais; evitou o mais possível usar a estrada de ferro; entregou à sua família ou empregou em obras de caridade a renda de sua produções; repeliu toda a alimentação de carnes, porque esta pressupunha a matança de seres vivos. Ele mesmo lavrou a terra, vestiu roupas grosseiras e, com suas próprias mãos, trocou as solas dos seus sapatos".

        As ideias de Tolstói foram vencidas pela resistencia da realidade; e esta, como diz Zweig, foi a tragédia mais profunda de sua vida, envolvendo seus os membros de sua família. "Sua mulher separou-se dele, seus filhos não compreenderam por que razão, logo eles, devidos aos teoremas de seu pai, deviam ser educados como moços do campo e filhos de camponeses; seus secretários e tradutores brigaram, como cocheiros bebados, pela 'propriedade' dos escritos de Tolstói; na sua vizinhança, ninguém compreendeu a vida deste esplendido pagão como uma existencia verdadeiramente cristã e finalmente ele mesmo soube – prova-o seu diário – que, com a sua espiritualidade e seu orgulho, era menos capaz do que ninguém de dar o exemplo desse ideal por ele proclamado tão imperiosamente".

        Os seus momentos de amargura, nessa triste fase de sua vida, lemos no seu diário a pergunta: "Dize-me Leão Tolstoi, vives segundo os princípios de tua doutrina?" e, logo a seguir a resposta amargurada: "Não. Morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo". Diz Zweig, que Tolstói apenas pressente a aproximação da morte, este velhinho de oitenta e tres anos foge de casa, à noite, para morrer, solitário e decepcionado pelas suas mais sagradas aspirações, numa pequena estação de estrada de ferro. Assim morria o homem que, mais do que qualquer outro, contribuiu para, como diz Zweig, "radicalizar a Rússia quanto o radicalismo intelectual de Tolstói; nenhum encorajou tanto seus compatriotas a não recuar diante de nenhuma ousadia.

        A despeito de sua oposição interior - prossegue Zweig -, merece Tolstói um monumento na Praça Vermelha. Assim como Rousseau é o precurssor da Revolução Francesa, Tolstói (sem dúvida, tanto quanto esta individualidade intemperante, contra sua vontade) foi o precursor, o verdadeiro predecessor da revolução russa, da revolução mundial. Todo homem de Estado, todo sociólogo, descobrirá, na sua crítica aprofundada da nossa época, visões profética, todo artista se sentirá entusiasmado pelo exemplo deste poeta poderoso que torturou sua alma por querer por todos e combater, pela força de sua palavra, a injustiça da terra.

        É sempre uma grande alegria poder sentir que um artista - diz mais Zweig - é ao mesmo tempo um exemplo moral, um homem que, em vez de reinar pela própria glória, se fez servidor da humanidade e que, no esforço para descobrir a verdadeira ética, repele todas as autoridades terrenas e se submete a uma: à própria incorruptível consciencia".

        Encerro este trabalho sobre Liev Tolstói, com a transcrição da anotação de um trecho de seu diário, feita em 1900:

        " Nós, as classes ricas, arruinamos os operários, nós os obrigamos a um trabalho rude e incessante, enquanto desfrutamos luxo e lazer. Nós não permitimos que eles, esmagados pelo trabalho, tenham a possibilidade de criar o florescer espiritual, o fruto espiritual da existencia: nem poesia, nem ciencia, nem religião. Nós procuramos dar-lhes tudo isto e damos-lhes uma falsa poesia - 'para que partiste para o Cáucaso destruidor?', etc., uma falsa ciencia – jurisprudencia, darwinismo, filosofia, história dos czares, uma falsa religião- a igreja oficial. Que pecado terrível. Se nós não os sugássemos até o fundo, eles fariam aparecer a poesia, a ciencia, a doutrina sobre a vida". 


        Liev Nikolaievich Tolstói nasceu em 09 de setembro de 1828, em Yasnaya Polyana, Rússia, e morreu em 20 de novembro de 1910, em Astapovo, Rússia. 

        Embora muito ainda se tenha para escrever sobre o escritor russo e sobre sua obra, encerro aqui este trabalho sobre Tolstói. Para acessar a primeira parte deste trabalho, basta clicar em: LIEV TOLSTÓIParte I.



REFERENCIAS:
ZWIG. Stefan. Tolstoi. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961.
SCHNAIDERMAN, Boris. Leão Tolstói. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

     
                                                                   
                                                                  *  *  *  *  *  *