2 de nov. de 2009

DE POEMAS & DE POETAS





por Pedro Luso de Carvalhoa segunda metade do século XX, fala-se que o futuro da literatura é, no mínimo, incerto, para os menos pessimistas; e, para outros, que se dizem 'realistas', não há salvação para a literatura, é apenas uma questão de tempo, afirmam. Esse vaticínio é feito também em relação à poesia, que, nesse mister, mostra-se mais debilitada em relação à obra ficcional em prosa; pesam, sobre a poesia, alguns elementos negativos a mais, se comparados ao romance, ao conto e à crônica, que não são assim tão funestos, como, por exemplo, o mercado editorial para os livros de poemas, que está cada vez mais fechado por falta de interesse na aquisição dessas obras; e os motivos que levam a isso estão relacionados com o desinteresse das autoridades públicas da área do ensino em incluir a poesia no currículo escolar, por um lado, e pelo elevado preço dos livros, por outro lado – para ficarmos apenas nesses dois elementos.


Existem outros componentes que contribuem para debilitar a saúde dessa velha senhora, a poesia: uma delas é atração que exerce nas pessoas, desde muito cedo - para alguns jovens estudantes, ou mesmo para outros que estão fora das classes escolares -; aventuram-se a escrever poemas, sem antes buscar auxílio nos livros ou na escola; tornam-se adultos e seguem escrevendo, sem o amparo técnico necessário, já que, sabemos, a inspiração constitui-se apenas num dos elementos para a criação da obra poética; mais alguns componentes, que causam prejuízo à produção poética de boa qualidade, tais como a pressa em escrever grande quantidade de poemas em curto espaço de tempo, bem como a idade da para estar-se 'preparado' para escrever bons poemas - Ferreira Gullar escreve um livro de poema a cada dez anos; Edgar Allan Poe levou dez anos para considerar concluído o seu magistral poema O Corvo.


Sobre a idade para a pessoa escrever versos, diz o poeta Rainer Maria Rilke, através d
e personagem do seu romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge, publicado pela editora Novo Século, São Paulo, 2008, com tradução de Lya Luft, págs. 18-19 :


“Acho que eu devia começar a fazer algo, a trabalhar, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos, e praticamente não aconteceu nada. Vamos recordar: escrevi um ensaio sobre Carpaccio, que é ruim, um drama chamado O casamento que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos. Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez se conseguissem dez versos bons. Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) – são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer”.


Prossegue Rilke, pela fala de seu personagem, dizendo sobre as experiências que se deve ter para escrever versos: “É preciso recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados, e despedidas que há muito sentíamos chegar – dias da infância, ainda não explicados, os pais que tínhamos de magoar quando nos davam alguma alegria e não a entendíamos (era uma alegria para outra pessoa), doenças de crianças que começam de modo tão singular, com tantas e tão profundas transformações, dias em quartos silenciosos e isolados, e manhãs no mar, o mar sobretudo, mares, noites de viagem rumorejando no alto e voando com todas as estrelas – e poder pensar em tudo isso ainda não é suficiente. É preciso ter lembranças de muitas noites de amor, nenhuma semelhante à outra, grito de mulheres dando à luz, leves e alvas parturientes adormecidas que se tornavam a fechar”.


O personagem de Rilke termina essa parte de sua fala sobre a necessária experiência para que se possa escrever versos: “ E também é preciso ter estado com moribundos, sentar-se junto aos mortos no quartinho com a janela aberta, e aqueles ruídos intermitentes. E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara brote do meio delas a primeira palavra de um poema”.


6 comentários:

  1. Navegando sem ruma com a intenção de divulgar o meu blog, cheguei até você e gostei do que vi, tanto que pretendo voltar mais vezes. No momento estou impedida de fazer leituras muito extensas, pois a claridade da tela do computador está prejudicando um pouco a minha visão, devo tomar cuidado. Em breve resolverei esse problema. Bem, já que estou aqui aproveito para convidar a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... em http://www.silnunesprof.blogspot.com
    Eu como professora e pesquisadora acredito num mundo melhor através do exercício da leitura e enauqnto eu existir, vou lutar para que os meus ideiais não se percam.
    Se gostar da minha proposta, siga-me.
    Por hoje fico por aqui, Espero nos tornarmos bons amigos.
    Que a PAZ e o BEM te acompanhem sempre.
    Saudações Florestais !

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  2. Pedro.
    Bem interessante e verdadeiro seu texto
    É verdade,a inclusão de poemas em livros escolares seria bem vinda, eu já tenho um poema classificado pela editora Pitagoras para ilustrar um livro de Ciencias da
    8* série. Fiquei feliz!
    Concordo também quanto a idade para se escrever poesia. 5 anos atrás tive um poema plagiado por uma garota de 13anos e que ganhou o 1* lugar com direito a premios em dinheiro e medalha. Felizmente a filha de uma amiga, reconheceu meu poema e avisou.Então eu exigi uma retratação. Mas aquela garota até podia ter inspiração, mas não tinha conhecimento e nem estrutura suficiente para escrever um poema como aquele e não consegui compreender como a equipe de julgadores não percebeu isso.
    bjs

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  3. Olá,
    Gostaria de convidá-lo para comentar em nosso....minervapop.blogspot.com, sobre o novo do Saramago - Caim!
    Valeu!

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  4. Olá Pedro, anteriormente tinha postado aqui, eu acho, e creio q ñ me lembro precisamente das palavras, que tinha sido convidada por um amigo a escrever um conto, mas depois de ler esse post, tive mais um incentivo a não o fazer. Creio q tenha sido isso!
    Penso que para se escrever um texto literário é preciso técnica, talento e "dom", além de tudo o que é citado no post, o q não me julgo ainda portadora. (apesar de insanamente colocar alguns no blog)Prefiro uma escrita mais voltada para o mundo das teorias. Ainda ñ me sinto preparada para escrever um conto por exemplo, bem, ñ para publicar, pois tenho pequenos escritos que guardo p mim. Perdão por retirar meu comentário anterior. Na verdade, tentei usar sua postagem para fugir do desafio proposto por meu parceiro de escrita, até enviei para ele. mas ñ houve acordo, ele ignorou todas as minhas palavras de tentativa de fuga e estamos escrevendo. Por isso, retirei o post. seria uma inverdade dizer q ñ escreveria mais, já q estou escrevendo.
    Em tempo, o parabenizo pelo blog, é um lugar de preciosidades. Estou sempre passando aqui. Conhecimento e cultura é necessário!

    Abraços...

    Paula Laranjeira

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  5. E depois de Rilke neste largo olhar sobre a poesia fico com a solenidade feliz da reflexão.

    Obrigada,Pedro.


    Com admiração,


    Cris

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  6. Rilke tem sua concepção sobre o fazer poético, e acredito que acerte em muitos pontos. Gostei muito disto que disse:

    ...É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si...

    Mas, Pedro, acredito também que a poesia está dentro da alma, e não tem idade para vir. O tempo, claro, contribui, e muito para a sedimentação do fazer poético, mas temos maravilhas poéticas feitas em tenra idade, vide Rimbaud.
    Grande abraço.

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Obrigado a todos os amigos leitores.
Pedro