5 de jan de 2014

[Conto] ERIC NEPOMUCENO – Quarta-feira



PEDRO LUSO DE CARVALHO

ERIC NEPOMUCENO – jornalista, escritor e tradutor – nasceu em 1948. Começou a trabalhar como jornalista em 1966. De 1969 a 1976, integrou a equipe do Jornal da Tarde, de São Paulo, onde foi repórter, redator, enviado especial a vários países da América Latina. Viajou por dezesseis países latino-americanos. Colaborou com diversas publicações da Argentina, México e Venezuela. Entre elas, o jornal La Opinión, de Buenos Aires (1973 a 1975), o jornal Excelsior, do México (1974), o jornal El Nacional, de Caracas (1974 a 1975) e a agência de notícias Latin (1974 a 1975). Foi colaborador permanente da revista Crisis, de Buenos Aires (1973 a 1976).
Em 1976 foi correspondente pela revista semanal Veja e a partir de setembro de 1976 foi enviado a Espanha. Durante esse período, publicou artigos, reportagens e entrevistas na Holanda, Itália, Espanha, Israel, França, Estados Unidos e Irlanda. Colaborou na revista Triunfo, de Madrid, e escreveu artigos para revistas do México, Portugal, Brasil, e para o jornal britânico The Guardian. Trabalhou na Rede Globo como editor e foi cronista do "Caderno B", do Jornal do Brasil.
Nepomuceno traduziu ao português vários autores contemporâneos, gigantes da literatura hispânica, como Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e outros. Inclusive, seus três primeiros livros foram publicados em espanhol.
Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti pela tradução de autores de língua espanhola, além de vários outros prêmios com seus livros de contos e de não-ficção. Escreveu roteiros em coprodução com a TV Espanhola e produtoras da Holanda e Inglaterra. Foi autor do texto final do documentário: “Vinícius”, de Miguel Faria Jr. Atualmente, escreve artigos e reportagens no Brasil, Espanha, México e Uruguai e em jornais como: El País, de Madrid, e Página 12, de Buenos Aires. Lançado em 2007 o livro O Massacre, sobre a tragédia de Eldorado dos Carajás, lhe rendeu o segundo lugar na categoria livro reportagem no Jabuti 2008. [Verbete publicado em 7 de abril de 2010 por: Gilles Jean Abes e Andréa Cesco]
Segue Quarta-feira, conto de Eric Nepomuceno (in Nepomuceno, Eric. A mulher do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996, p. 61-64):


QUARTA-FEIRA
Eric Nepomuceno
  
Naquele agosto, o dia 16 caiu numa quarta-feira. E naquela quarta-feira chegou ao Paraguai uma senhora argentina de idade não divulgada, que durante décadas foi professora de gramática em escolas públicas: dona Zulema de Milkis.
Ela foi imediatamente levada à cidadezinha de Ypacaraí, numa viagem de automóvel que consumiu pouco menos de uma hora. Lá viu o lago de Ypacaraí, que – a exemplo do rio Danúbio – tornou-se conhecido por uma inexistente cor azul. De bom mesmo, em Ypacaraí, só um ou outro pôr-do-sol.
A professora Zulema de Milkis escreveu, quarenta e tantos anos antes daquela quarta-feira, os versos de uma canção que divulgou o tal lago pelo mundo afora: Uma noche tíbia nos conocimos/junto al lago azul de Ypacaraí, e por aí seguiu. Os versos da canção, confidencia-se no Paraguai, refletem um amor proibido entre a então jovem professora e um músico paraguaio, casado e não tão jovem, chamado Demétrio Ortiz. É ele o autor da melodia.
Versos e melodia, enfim, deixam testemunho desse amor, que certamente foi recordado pela professora Zulema de Milkis ao ver o lago. Ortiz morreu muitos anos antes daquela quarta-feira, mas viveu o suficiente para ver a canção tornar-se conhecida em todo o mundo. Viu também que qualquer visitante que chega ao Paraguai é recebido pela canção, espécie de hino nacional inevitável: há centenas de gravações diferentes, e os paraguaios tocam uma delas assim que enxergam um estrangeiro pela frente.
Ao chegar a Ypacaraí, a aposentada professora Zulema de Milkis certamente mergulhou – não no lago, mas nos desvãos da memória.
A cidadezinha continua, até hoje, meio sem graça. Seus moradores já se acostumaram aos comentários dos visitantes: pois é, o lago não é azul, pois é, a paisagem não é assim tão romântica; pois é, as noites não são tão tíbias; pois é, estranho que um amor tenha aflorado logo ali. Pois é.
O que pouca gente sabe, mesmo na cidade, é dizer quem é esta senhora chamada Zulema de Milkis. E muito menos que antes daquela quarta-feira, 16 de agosto de 1995, ela nunca havia estado no Paraguai e que Ypacaraí foi descrita – com lago e tudo – numa dessas exemplares mentiras de amor. Cada um vê o que vê, cada um vê o que quer – ensinou Molière há séculos. A professora seguiu a lição, talvez sem saber do mestre involuntário.
Seus versos são resultado dos amores imperfeitos de uma professora do interior que, até aquela quarta-feira, só soube do lago pelas mentiras de amor. Desse enredo, porém, salta uma constatação luminosa: além de mover o sol e as estrelas, o amor cria águas, retoca cenários, inventa paisagens, compõe versos que mudam lagos na memória coletiva de gerações.
E sempre virá alguém disposto a inventar, sobre o já inventado, tudo de novo. Assim, lá vem chegando, com seu baú de lembranças, uma certa professora argentina, de idade não divulgada e que aliás não interessa a ninguém, chamada Zulema de Milkis.
Ela chega ao lago onde naufragaram seus amores proibidos e impossíveis, chega às águas que inventou, e que por isso mesmo existirão para sempre.

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REFERÊNCIA:


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