26 de fev. de 2008

[Poesia] EDGAR ALLAN POE - Annabel Lee




       - PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em trabalho anterior, tive a oportunidade de escrever, sucintamente, um texto sobre a vida e a obra de Edgar Allan Poe, a partir de sua Antologia de Contos, publicada pela Editora Civilização Brasileira, em 1959. Portanto, o realce foi dado a apenas um dos gêneros da literatura, explorado pelo célebre escritor norte-americano, o conto; mas, Poe também foi poeta e ensaísta brilhante, como se verá a seguir pela análise do escritor francês, Charles Baudelaire (1821-1867), autor de Fleurs du mal, Petits Poèmes em prose e traduções de Edgar Allan Poe.
Agora, a ênfase é para a poesia de Edgar Allan Poe. No texto que referi acima (Antologia de Contos), enfatizei o fato de que Charles Baudelaire aguardava as revistas norte-americanas que chegavam em Paris com a publicação dos contos e poesias de Poe. Sobre ele, assim se manifestou Baudelaire: “Como poeta Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.
Charles Baudelaire prossegue sua análise sobre os poemas de Poe, dizendo: “Há um pequeno poema seu intitulado “Os sinos”, que é uma verdadeira curiosidade literária; traduzível, porém, não o é; O Corvo logrou grande êxito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson, é uma maravilha. O assunto é quase nada, e é uma pura obra de arte. O tom é grave e quase sobrenatural, como os pensamentos da insônia; os versos caem um a um, como lágrimas monótonas; No país dos sonhos tentou descrever a sucessão dos sonhos e das imagens fantásticas que assaltam a alma, quando o olho corpóreo está cerrado. Outros poemas, como Ulalume e Annabel Lee gozam de igual celebridade.
Como no texto Antologia de Contos, que referi acima, transcrevi o poema O Corvo, ao alcance, pois, de quem se interessar por sua leitura, para este espaço escolhi um desses poemas de Edgar Allan Poe, referido e apreciado por Baudelaire, qual seja:


ANNABEL LEE




muitos, muitos anos, existia
num reino à beira-mar
uma virgem, que bem se poderia
Annabel Lee se chamar.
Amava-me, e seu sonho consistia
em ter-me para a amar.
Eu era criança, ela era uma criança
no reino à beira-mar;
mas nosso amor chegava, ó Annabel Lee
o amor a ultrapassar,
o amor que os próprios serafins celestes
vieram a invejar.

Foi por isso que há muitos, muitos anos,
no reino à beira-mar,
de uma nuvem soprou um vento e veio
Annabel Lee gelar.

E seus nobres parentes se apressaram
em de mim a afastar,
para encerrá-la numa sepultura,
no reino à beira-mar.
Os anjos, que não eram tão felizes,
nos vieram a invejar.
Sim! Foi por isso (como todos sabem
no reino à beira-mar)
que um vento veio, à noite, de uma nuvem
Annabel Lee matar.
Mas nosso amor, o amor dos mais idosos,
de mais firme pensar, podia ultrapassar.

E nem anjos que vieram nas alturas,
nem demônios do mar,
jamais minha alma da de Annabel Lee
poderão separar.

Pois, quando surge a lua, há um sonho que flutua,
de Annabel Lee, no luar;
e, quando se ergue a estrela, o seu fulgor revela
de Annabel Lee o olhar;
assim, a noite inteira, eu passo junto a ela,
a minha vida, aquela que amo, a companheira,
na tumba à beira-mar,
junto ao clamor do mar.


                                                                                                                                    (Edgar Allan Poe)



REFERÊNCIAS:
POE, Edgar Allan. Antologia de Contos. Trad. Brenno Silveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.
POE, Edgar Allan. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Petit Larousse, 1966.
POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios. Trad. Oscar Mendes e Milton Amado. São Paulo: Editora Globo, 1999.





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10 de fev. de 2008

PEDRO LUSO / O Presunçoso




         O PRESUNÇOSO
                – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Nosso tema sobre a presunção foi em parte inspirado no pensamento de Jean de la Bruyère. O filósofo nasceu no ano de 1645, em Paris, e morreu em 1696, em Versalhes. Sua obra, Os Caracteres, foi concebida segundo uma tradução do grego Teofrasto. Nela La Bruyère retrata a sociedade francesa, às vezes de forma cruel, numa época em que esta passava por uma transformação plena, com a decadência das tradições morais e culturais. La Bruyère passou a integrar a Academia Francesa em 1693.
Diz Alcântara Silveira, tradutor e responsável pela introdução do livro Os Caracteres: “A sociedade francesa, sob o reinado de Luís XIV, teve em La Bruyère o seu melhor pintor, às vezes amargo, às vezes satírico, às vezes revoltado. Mais eloquente que La Fontaine, Boileau ou Molière”. (in, Jean de La Bruyère. Os Caracteres. São Paulo: Editora Cultrix, 1965).
La Bruyère escreve sobre o presunçoso: “O estúpido é um presunçoso exagerado. O presunçoso cansa, aborrece, enjoa, desagrada; o estúpido desagrada, exaspera, irrita, ofende: começa por onde o outro termina. O presunçoso está entre o estúpido e o tolo: compõe-se de um e de outro”.
Posto isso, vêm-nos à mente a pergunta: o que nos pode oferecer a pessoa presunçosa, se para ela o mundo externo – o mundo das outras pessoas – praticamente não existe? Nada pode ser esperado dessa pessoa presunçosa porque para ela somos apenas os ‘outros’, pessoas de pouca importância. O presunçoso lembra-se de nós apenas quando planeja auferir lucro às nossas custas.
Uma das características do presunçoso é a capacidade que têm para impor suas ideias, pela necessidade interior de mostrar-se importante; descobre ao longo dos anos técnicas para envolver as pessoas – alvos de suas ações. Obstinado, não mede esforços para atingir seus objetivos. Artista na arte de convencer, de impor suas falsas verdades, não se importa com o mal que possa causar às pessoas que o cercam. O seu “Eu” é grande demais para que possa pensar em outras pessoas, que não seja ele próprio.
É sabido que quem se deixar influenciar pelo presunçoso sempre terá o que perder, e não pense, em nenhum momento, que terá alguma coisa a ganhar com ele, que, como diz La Bruyère, é pessoa que jamais elogia, que censura sempre, que não está contente com ninguém, e que, por isso, é pessoa com quem ninguém simpatiza.


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