16 de jun. de 2009

NIETZSCHE / O Pensamento do Filósofo



                          por Pedro Luso de Carvalho



       O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que teve sua moral baseada na cultura da energia vital e na vontade do poder que eleva o homem até a categoria de super-homem, como se vê em Assim Falava Zaratustra, sua obra mais importante, nasceu em Rökken, perto de Lutzen, em 1844, e faleceu em Weimar, em 1900. Vejamos o que diz sobre Nietzsche a Enciclopédia Judaica Castelhana, publicada no México em 1950:

        “Filósofo e poeta lírico alemão 1844-1900. Seus escritos têm exercido profunda influência, e foi ele quem cunhou expressões tais como super-homem, transmutação de valores, espírito senhoril, etc. Os nazistas a princípio adotaram conceitos nietzschianos, mas tiveram de abandonar as obras de Nietzsche ao se darem conta de que as obras dele estavam muito longe de oferecer fundamentação ideológica ao nazi-fascismo.”

        Vejamos agora um pouco do pensamento de Nietzsche, em ASSIM FALAVA ZARATUSTRA, no capítulo DO AMIGO: “Um só me assedia sempre excessivamente (assim pensa o solitário). Um acaba de fazer dois. EU e MIM estão sempre nas conversações interessantes. Como se poderia suportar isto se não houvesse um amigo? Para o solitário o amigo é sempre o terceiro; terceiro é a válvula que impede a conversação dos outros dois de se abismarem nas profundidades. Ai! Existem demasiadas profundidades para todos os solitários. Por isso aspiram a uma amiga e à sua altura. A nossa fé nos outros revela aquilo que desejaríamos crer em nós mesmos. O nosso desejo de um amigo é o nosso delator. E freqüentemente, como a amizade, apenas se quer saltar por cima da inveja.

        Ainda sobre o tema 'amigo', em Assim Falava Zaratustra, prossegue Nietzsche: “E freqüentemente atacamos e criamos inimigos para ocultar que nós mesmos somos atacáveis. “Sê ao menos meu inimigo!” - Assim fala o verdadeiro respeito, o que não se atreve a solicitar a amizade. Se se quiser ter um amigo, é preciso também guerrear por ele; e para guerrear é mister poder ser inimigo. É preciso honrar no amigo o inimigo. Podes aproximar-te do teu amigo sem passar para o seu bando? No amigo deve ver-se o melhor inimigo.

        Diz mais, Nietzsche, sobre o amigo: “Deves ser a glória do teu amigo, entregares-te a ele tal qual és. Pois é por isso que te manda para o demônio! O que não se recata, escandaliza. “Deveis temer a nudez! Sim; se fosseis deuses, então poderíeis envergonha-vos dos vossos vestidos”. Nunca te adornarás demais para o teu amigo, porque deves ser para ele uma seta e também um anelo para o Super-homem . Já viste dormir o teu amigo para saberes como és? Qual é, então, a cara do teu amigo? É a tua própria cara num espelho tosco e imperfeito. Já viste dormir o teu amigo? Não te assombrou o seu aspecto? Ó! Meu amigo; o homem deve ser superado!”

Na seqüência do capítulo DO AMIGO, diz Nietzsche: “O amigo deve ser mestre na adivinhação e no silêncio: não deves querer ver tudo. O teu sono deve revelar-te o que faz o teu amigo durante a vigília. Seja a tua compaixão uma adivinhação: é mister que, primeiro de tudo, saibas se o teu amigo quer compaixão. Talvez em ti lhe agradem os olhos altivos e a contemplação da eternidade. Oculte-se a compaixão com o amigo sob uma rude certeza. Serás tu para o teu amigo ar e solenidade, pão e medicina? Há quem não possa desatar as suas próprias cadeias, e todavia seja o salvador do amigo. És escravo? Então não podes ser amigo. És tirano? E não não podes ter amigos.

        Em Assim Falava Zaratustra, Nietzsche arremata o o capítulo DO AMIGO com estas palavras: “Há demasiado tempo que se ocultavam na mulher um escrava e um tirano. Por isso a mulher ainda não é capaz de amizade; apenas conhece o amor. No amor da mulher há injustiça e cegueira para tudo quanto não ama. E mesmo o amor, reflexo da mulher, oculta sempre, a par da luz, a surpresa, o raio da noite. A mulher ainda não é capaz de amizade: as mulheres continuam sendo gatas e pássaros. Ou, melhor, vacas. A mulher ainda não é capaz de amizade. Mas dizei-me vós homens: qual de vos outros é, porventura, capaz de amizade? Ai, homens! Que pobreza e avareza a de vossa alma! Quando vós outros dais a vossos amigos eu quero dar também aos meus inimigos sem me tornar mais pobre por isso. Haja camaradagem. Assim falava Zaratustra.

        Para que possamos conhecer um pouco mais o pensamento do filósofo, vejamos um trecho do livro de Friedrich Nietzsche, ALÉM DO BEM E DO MAL , que se encontra no capítulo O Espírito Livre, com o subtítulo de Prova de Independência:

        “Se nascemos para a independência e o mando, é necessário prová-lo a nós mesmos e é preciso fazê-lo em momento oportuno. Não devemos querer evitar essa prova, embora possa representar o jogo mais perigoso que tenhamos de jogar e que se trate finalmente de provas das quais somos as únicas testemunhas e das quais ninguém é mais juiz. Não se apegar a nenhuma pessoa, fosse ela a mais cara – toda pessoa é uma prisão e também um esconderijo. Não ficar ligado a uma pátria, ainda que seja a mais sofrida e a mais fraca – é menos difícil desligar o próprio coração de uma pátria vitoriosa. Não se deixar prender por um sentimento de compaixão, ainda que seja em favor de homens superiores, cujo martírio isolamento o acaso nos teria levado a penetrar”.

        Ainda nesse trecho, diz o filósofo: “Não se apegar a uma ciência, ainda que nos aparecesse sob o aspecto mais sedutor, com descobertas preciosas que parecessem reservadas para nós. Não se prender a seu próprio desapego, a esse afastamento voluptuoso do pássaro que foge para os ares, levado por seu vôo, para ver sempre mais coisas acima dele – é o perigo daquilo que plana. Não permanecer ligado a nossas próprias virtudes e ser vítima, em nosso conjunto, de uma de nossas qualidades particulares, por exemplo, de nossa ‘hospitalidade’; esse é o perigo nas almas nobres e ricas que se dissipam prodigamente e quase com indiferença e impelem até o vício a virtude da liberalidade. É necessário saber se conservar. É a melhor prova de independência.”





REFERÊNCIAS:
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratrusta. Tradução de José Mendes de Souza. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Tradução de Antonio Carlos Braga. 2ª ed. São Paulo: Editora Escala, 2007.



                                                                                   

                                                                                  *  *  *  


7 comentários:

  1. Pedro Luso, é um prazer voltar a lê-lo, com suas palavras esclarecedoras, sempre trazendo algo de novo, reacendendo reflexões. Assim, lembrei-me de quando li Assim Falava Zaratrustra pela primeira vez, quase adolescente, e senti-me crescer, como se um mundo de grande força interior se abrisse para mim, como se eu pudesse superar-me, alçar voo além das mesquinharias cotidianas. Eu estava nascendo para a poesia, e Nietzsche deu asas, ou levou-me a descobrir que tinha asas.

    Um agrande abraço.

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  2. Pedro Luso, que maravilha ler ou saber um pouco de Nietzsche por você!

    Incrível o que ele fala do amigo, da relação do eu comigo mesmo! Quantas vezes falamos conosco, não é? QUantas vezes nos recriminamos, sabemos que estamos errados, não gostamos de nós mesmos muitas vezes. E os amigos que encontramos por aí... Esses muitas vezes são cruéis. Muito louco tudo isso, grande pensador, homem incrível.

    Ele disse também uma frase que me intrigou demais, mas depois entendi perfeitamente. "as favas a humildade" Se pensarmos bem, ele estava certíssimo no sentido que deu a isso. Ninguém deve por "melhor" que seja que nós, nos humilhar. Pisar em cima, menosprezar. Ele tinha razão... Sempre teve.

    Grande beijo, boa semana para você.

    CON

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  3. Caro Pedro,

    Li "Assim Falava Zaratustra" uma única vez, há alguns anos. Uma amigo me emprestou uma edição portuguesa. Parece que na época não havia traduções aqui no Brasil...
    Então li o Zaratustra e sai pior do que entrei. Ai de mim, ó ser ignorante!, pensei na ocasião. Ó, se Zaratustra me achasse por estes caminhos, o que não haveria de dizer de minha ignomínia?

    Bem, a verdade, Pedro, é que hoje, muitos anos depois, ainda tenho dificuldade de compreender a profundidade do Filósofo Alemão. Que dífícil, que difícil! E ler este teu texto despertou minha vontade de ler Nietzche de novo! Vou comprar um Zaratustra pra mim, afinal, tem que se ter um em casa, não é?

    Há, em Assim Falava Zaratustra, uma específica passagem que nunca me esquecerei. É impactante, surpreendente, contundente, controversa e perigosa, para quem não a entender bem; e olha que para entender bem Nietzche, precisa-se de uma vida! Vamos a ela:

    Se me recordo bem, é o sábio Zaratustra dando ensinamentos a um jovem que lhe pede conselhos, pois vai encontrar uma moça, pela qual mantém interesses românticos.
    O jovem lhe pergunta como agir, o que fazer e Zaratustra diz mais ou menos isso:

    "Vai às mulheres? Pois leve o chicote."

    Fico por aqui.

    Forte abraço e parabéns pelo blogue, bem acima da média.

    Cesar Cruz
    S.Paulo - SP

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  4. Caro amigo,
    Vim só para dizer olá uma vez que vi que se fez seguidor do meu blog. Preciso vir aqui com tempo para apreciar aquilo que publica. Voltarei em breve.
    Um abraço,
    Maria Emília

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  5. O texto é interessantíssimo!

    Pena é, que quem pouco ou nada sabe da filosofia do Nietzsche, mencione sempre a seguinte frase:

    "Vai às mulheres? Pois leve o chicote."

    como um dos comentadores teve a gracinha de o fazer.

    Que vulgaridade!!!

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  6. Em primeiro lugar, fiquei extremamente feliz por se haver habilitado como seguidor dos meus blogs http://dialogoscomadoutrina.blogspot.com/ e http://dialogoscombeethovenewagner.blogspot.com/.
    Em segundo, é sempre interessante verificar, em relação a Nietzsche, como o poeta e o filósofo se imbricam, e como constantemente dialoga com as fontes que procura rejeitar: a nudez adâmica como a própria expressão do desinteresse na amizade, reportando-se à inocência original perdida (francamente judaico-cristã), diferenciando-se da mera aliança, a impossibilidade de se mesclarem as relações de poder com as de amizade, a própria noção do desapego (francamente budista). Mesmo quando nos colocamos contra algo ou alguém, este algo ou alguém torna-se referencial de nossa conduta - o Conselheiro Acácio diria isto, mas muitas vezes passa despercebido -.

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  7. Hahahahaha, esse é o famoso Friedrich Nietzche?
    O homem que revolucionou o pensamento filosófico moderno com verdades perturbadoras sobre o mundo e a realidade?
    Tenho 22 anos e confesso que só ouvia falar de fama mas, nunca o li.
    Deparei-me com os trechos transcritos das obras do mesmo e os li.
    Não achei nada impressionante nas idéias dele que já não me tenha ocorrido antes pelo menos nesses trechos que eu li.
    Sei que parecerei pretenso ao afirmar a mera confirmação dos meus pensamentos nas palavras do mesmo mas, como Cristão e leitor da Bíblia, me disseram que encontraria nele o maior opositor da minha fé. Me parece inofensivo.
    Vou comprar todos os livros desse sujeito e mergulhar nessa "mente singular" pra ver o que lhes leva a tamanha bajulação!
    Confesso que quatro trechos ali me chamaram a atenção e penetraram os meus olhos de cara:"É preciso honrar no amigo o inimigo."
    "No amigo deve ver-se o melhor inimigo."
    "A nossa fé nos outros revela aquilo que desejaríamos crer em nós mesmos."
    "Há quem não possa desatar as suas próprias cadeias, e todavia seja o salvador do amigo." (Esse último soôu como um provérbio bíblico)
    Mas, eu mesmo já formulei frases filosóficas melhores e essas confirmam pensamentos meus.
    Francamente, não vejo sabedoria nesse homem superior à da Bíblia.
    E olha que quem vos escreve é um mero rapaz com ensino médio, sem faculdade e filósofo por natureza e pela vida guiado apenas por Deus.

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Obrigado a todos os amigos leitores.
Pedro