14 de jun. de 2018

DENIRA ROZÁRIO - Palavra de Poeta / Portugal




PEDRO LUSO DE CARVALHO

A jornalista brasileira Denira Rozário escreveu o livro Palavra de Poeta – Portugal, no qual reuniu entrevistas que realizou, em Portugal, com 24 dos maiores poetas portugueses contemporâneos (17 homens e 7 mulheres), e que resultou na notável antologia de sua criação publicada pela Civilização Brasileira, em 1994. Enio Silveira, responsável pela editora, lamentou o fato de Otto Lara Rezende, um dos maiores cronistas da literatura brasileira, ter nos deixado sem ver o livro publicado. Otto Lara já havia lido e apreciado o livro anterior de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Brasil.
Mais adiante, Denira Rozário viria escrever Palavra de Poeta - Cabo Verde e Angola, livro no qual entrevista 12 poetas cabo-verdianos, entre eles, Aguinaldo Fonseca, João Melo e José Eduardo Agualusa, o último livro da trilogia, que visou a documentar o significado de ser poeta e de escrever poesia no Brasil, em Portugal e, depois, em Cabo Verde e Angola (Editora Bertrand Brasil).
Escreveu Antonio Houaiss, crítico, ensaísta, filólogo e integrante da Academia Brasileira de Letras, na nota introdutória da obra Palavra de Poeta – Portugal, em 26 de maio de 1993:
Este inquérito, valioso, é continuação necessária, do antecedente, feito junto a poetas brasileiros altamente representativos da nossa criatividade atual. Como contrapartida daquele, este abrange nomes muito atuais e atuantes do cenário poético português contemporâneo. Como era de esperar, dada a competência da inquiridora – versátil, informada, apaixonada da matéria, avessa `uniformização, descobridora das singularidades pessoais -, há aqui um quadro sincrônico soberbo: a mesma língua manejada segundo as variações temáticas que os tempos e este Tempo oferecem [...] preciosas amostragens poetadoras, poéticas e poetizantes [...]”.
Esse livro de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Portugal, teve um tratamento esmerado, a partir da capa, para a qual Felipe Taborda utilizou serigrafia da autora, pelas as anotações sobre a obra escritas pelo editor Ênio Silveira, culto e exigente, passando pela ‘Palavra de Antonio Houaiss’ e culminando com as entrevistas feitas com os maiores poetas de hoje e breve antologia de seus poemas.
Foram entrevistados por Denira Rozário os seguintes poetas: António Gedeão, Sofia de Melo Breyner Andersen, Eugênio de Andrade, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres Melo e Castro, Albano Martins, E. M. de Melo e Castro , António Asório, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Casimiro Brito, Al Berto, Nuno Judice, Rosa Alice Branco, José Jorge Letria, Luiz Miguel Nava, Fernando Pinto Amaral, Adília Lopes e Paulo Teixeira.
Escolhi alguns trechos da entrevista que Denira Rozário fez com Fernando Pinto Amaral (1960), escolha essa que fiz aleatoriamente: “Crítico notável, que se revela notável poeta [...], fez o curso inverso, primeiro o crítico depois o poeta, escolheu o caminho mais difícil, menos comum e de maior risco. Risco ocorreu também ao abandonar, no 4º ano, o curso de medicina, carreira considerada estável para estudar literatura. A vocação era poética, a poesia venceu [...] A vontade de escrever mais regularmente surgiu a partir de 17 anos, durante uma paixão – confessa uma tendência para amores impossíveis [...] Sobre ser poeta, cita Milan Kundera, “só o autêntico poeta sabe o que é o imenso desejo de deixar essa casa de espelhos onde reina um silêncio ensurdecedor”.
.Em outro trecho Rozário pergunta Fernando Pinto Amaral se seria difícil falar sobre a atual poesia portuguesa, e o poeta respondeu-lhe: “Por isso remeto para o meu ensaio o Mosaico Fluido – Modernidade e Pós-Modernidade na Poesia Portuguesa mais Recente, saiu pela Editora Assírio & Alvim”.
A seguir Rozário pede ao poeta, crítico e professor que diga quais são os bons poetas portugueses e brasileiros: “Quanto aos bons poetas portugueses que leio e que aprecio, são tantos que não vale a pena enumerá-los – teria medo de esquecer alguns. Em relação aos brasileiros, gosto de ler, por exemplo, Mário de Andrade, Jorge Lima, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes. A poesia mais recente, é pena, conheço-a muito mal, pois chegam poucos livros”.
À pergunta da entrevistadora sobre sua condição de leitor, se é organizado, respondeu-lhe que “Como leitor, sou um tanto anárquico, não leio muitos livros nem gosto de devorá-los. Estou lendo poemas do sueco Tomas Transtromer, ensaios de Walter Benjamin e um livro de contos de Paul Bowles.”
E sobre exigir, a poesia, uma boa formação literária, disse que:
A questão é complexa, visto que, a meu ver, a inspiração poética em si mesma não exige qualquer formação. Sendo inata em algumas pessoas, ela brota espontaneamente e às vezes desde cedo, por exemplo, o caso de Rimbaud. Todavia, para que os resultados sejam bons, torna-se relativamente necessário uma consciência crítica que só aparece quando há certa bagagem cultural. Por isso, concordo que é exigível alguma formação literária, mais ou menos sólida ou fluida.”
Dentre os três poemas de Fernando J. B. Pinto do Amaral [nasceu em Lisboa, no dia 12 de maio de 1960], que integram a entrevista de Rozário, transcrevo uma delas:

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.
muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor:

sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino,
e era talvez essa
a voz da própria lua.



Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.

Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.



* * *



10 comentários:

  1. Que belo espaço, Pedro, aqui encontro uma geografia completa da literatura que procurava.
    obrigado

    fernando oliveira

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  2. Pedro

    Por blogues, tenho tomado conhecimento de quanto no Brasil se interessam pela poesia e conhecem os poetas portugueses. Talvez pela facilidade de se falar a mesma língua. Também tenho tido a felicidade de tomar conhecimento de bastantes brasileiros, que considero muito bons, mas não conhecia.
    Gostei de tomar conhecimento, do livro de Delmira do Rosário.
    Gosto da poesia de todos, mas só conheci, pessoalmente, Natália Correia. Falei bastante da poesia de Pedro Támen, com o pai que o adorava.
    Apreciei a leitura.
    Daniel

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  3. Anônimo15:46

    LISBOA = PORTUGAL

    Olá Pedro

    Verdadeiro Luso, pelo que demonstras de Amor pelas Letras portuguesas. Admiro-te e sei bem do interesse que existe no Brasil por tais expressões culturais.

    Além do mais, cursei Direito, mas tenho feito quase sempre Informação/Comunicação Social. Ler é uma das minhas especialidades. Mas, a primeira é... escrever.

    Aterrei aqui de para quedas – e gostei. Bom blogue, sim senhores, o teu. Muito interessante, bem arrumado, excelentemente escrito. Muitos parabens!

    Sou jornalista, (agora reformado, mas sempre o fui, sou e serei). Das maluqueiras feitas, digo-te que, por exemplo, fui Chefe da Redacção do mais importante jornal portuga, o Diário de Notícias.

    E desde o ano passado, dizem… que sou escritor. Publiquei o «Morte na Picada», livro de contos sobre a guerra colonial em Angola (1966/68) em que, infelizmente participei. Maluqueiras dum «ancião» de 67 primaveras…

    Um pedido. Inscreve-te como seguidor(a) do meu blogue – e serás muito feliz. Não pagas nada. Nem taxa de inscrição nem quaisquer quotas. Muito menos IRS ou IMI. Tens a tua (belíssima) foto e o teu blogue ali anunciado. Fazes novo(a)s Amigo(a)s. E passas a receber mensagens de muita gente e de muitos Países. E eu entrarei no Guiness das Listas de Seguidores. É tudo benefício. E… sem truques. Bué da fixe!!!!! (bué da = muito, sg os meus cinco netos) Verás que não te arrependes… Eu antecipei-me e já te paguei na mesmíssima moeda, juro pela minha virgindade (1941/09/20).


    O meu imeile ou imilio (primorosas criações cá do rapaz):
    hantferreira@gmail.com. Manda-me o teu, se quiseres… É uma O-R-D-E-M-!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! hahahahahaha

    Espero por ti na minha lista, pelos teus cumentários, com o, e que o teu gang assim também proceda. Amen.


    Abs

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  4. Vim retribuir a visita e me encontrei neste espaço, entre os tantos outros que você cultiva.
    Um forte abraço e até sempre.

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  5. Pak Karamu visiting your blogs

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  6. Parabéns por divulgar não apenas os autores e livros que já não precisam de divulgação, mas sim outros autores nem tão conhecidos.

    Desta antologia gosto muito de Sofia de Melo Breyner Andersen.

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  7. PEDRO

    Ignorava completamente a existência dessa Antologia de Poesia Portuguesa.
    Entre os nomes que estão presentes conheci pessoalmente o Egipto Gonçalves, Pedro Tamen (quando era Administrador da Gulbenkian).
    A Maria Alberta é minha prima. Infelizmente o seu estado de saúde não é o melhor.

    Um abraço.

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  8. Pedro Luso de Carvalho, apreciei muito ler este texto sobre "PALAVRA DE POETA - PORTUGAL ". Você foi extremamente feliz com esta postagem, pois mostra um quadro cultural da jornalista brasileira Denira Rozário, de extrema importância, onde ela em seu livro teve o contato com os poetas mais atualizados da literatura, meus cumprimentos, e deixo meu convite ao meu mais novo espaço,
    Efigênia Coutinho
    http://efigeniacoutinhopoesias.blogspot.com/

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  9. Amigos poetas blogueiros, parabéns por utilizarem a internet como forma de dividir com o mundo o seu pensar, o seu compreender, desempenhando a missão do poeta que é se afirmar como ser humano, sobretudo perante si mesmo, captar os arquétipos coletivos de sua época e princípios universais, permitindo após compreender-se ou não compreender-se, que pela sua obra os da sua época tenham referência alternativa para fazer a leitura do mundo e as gerações posteriores entenderem a própria história da humanidade. Tudo temperado pelo sonho, pela sensibilidade e pela utopia. PASSOU A ÉPOCA DE ESCREVERMOS E GUARDAR NA GAVETA NOSSAS CRIAÇÕES DEPOIS DOS MAIS PRÓXIMOS FINGIREM TER LIDO PARA NOS AGRADAR. Através do meu blog quero aprensentar-lhes a video-poesia, que usa várias linguagens de uma só feita, a serviço do texto. Se gostar divulgue e compartilhe com os seus contatos. Acessar em:

    www.valdecyalves.blogspot.com

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  10. Anônimo05:57

    Denira Rozário também entrevistou Fernanda de Castro. Mas não não incluiu as respostas na colectânea.

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Obrigado a todos os amigos leitores.
Pedro