2 de abr. de 2013

FERNANDO NAMORA – Domingo à Tarde

  
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


FERNANDO NAMORA (Fernando Gonçalves Namora) nasceu a 15 de abril de 1919, em Condeixa (Coimbra), Portugal, e faleceu em Lisboa no dia 31 de Janeiro de 1989. Iniciou o curso secundário em Coimbra, continuou em Lisboa e o concluiu na cidade Coimbra, onde se formou em Medicina, em 1942. Mais tarde, Mário Sacramento escreveria: “Fernando Namora foi, desde sempre, ‘médico-escritor’ e, com o dobrar dos anos, tornou-se ‘escritor-médico’.”

Em 1937 o grande escritor português fez sua estreia nas letras com o livro de poemas Relevos e com o romance Sete partidas do mundo. Em 1940 e 1941 publicou mais dois livros de poesia, Mar de Sargaço e Terra. Em 1959 sua obra poética foi reunida no livro As frias madrugadas. Em 1969 lançou Marketing, outro livro de poesia.

O seu primeiro grande romance foi Fogo na noite escura (1943). Depois foram editadas, entre outras obras de Fernando Namora: Casa de Malta, novela, 1945; A noite e a madrugada, romance, 1950; O trigo e o joio, romance, 1954; O homem disfarçado, romance, 1957.

Fernando Namora recebeu os seguintes prêmios: Prêmio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pelo romance Minas de São Francisco (1946); Prêmio Vértice, pelas narrativas  Retalhos da vida de um médico (1ª série, em 1949); Prêmio José Lins do Rego, pelo romance Domingo à tarde (1961).

O escritor tem seus livros traduzidos para o castelhano, catalão, francês, inglês, alemão, italiano, romeno, checo, russo, esperanto, sueco, holandês, búlgaro etc. Fogo na noite escura é o oitavo livro de Fernando Namora editado no Brasil.

No seu romance Domingo à tarde (Prêmio José Lins do Rego) Fernando Namora conta em uma história densa; o tratamento que dá às personagens deixa transparecer uma sensibilidade incomum; as abordagens que faz sobre a miséria humana, miséria essa que o cerca no seu dia-a-dia no hospital, no qual exerce sua profissão de médico.

Em Domingo à tarde o escritor demonstra saber lidar com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam o hospital, ambiente impregnado de dor, de angústia, de esperança e de desesperança. Namora demonstra ter um profundo conhecimento da alma humana, e faz com que o leitor se torne cúmplice das suas personagens.

 Nesse romance (Domingo à tarde) o escritor desperta no leitor um forte sentimento de compaixão e solidariedade pelos seus infortúnios, sentimentos esses que se mesclam com um traço de culpa, como se quem o lê também seja responsável por todo o caos social que passa a permear a sua narrativa.
          
        Melhor que falar é mostrar um trecho do romance Domingo à tarde, para então podermos concordar com o que diz Fernando Mendonça, sobre o talento desse grande escritor português: "Ler um texto de Fernando Namora é volvermos os olhos para imutável perfeição clássica da nossa língua. A sua elasticidade, o seu equilíbrio e simultaneamente as suas largas pinceladas impressionistas fazem desse texto uma lição permanente da língua portuguesa."

 Segue um trecho do romance Domingo à tarde, de Fernando Namora (In Domingo à tarde/Fernando Namora. Porto Alegre: Globo, 1963, p. 107):


DOMINGO À TARDE (fragmento)
         (Fernando Namora)


PEDIA-ME aqueles nadas que reanimam uma vida. Enfim: a torpe ilusão de que poderia haver um erro ou uma possibilidade. Mas nem só Clarisse necessitava dessa ilusão, embora fosse eu, que também dela necessitava, a última pessoa que a doença pudesse burlar. Não era apenas a magreza, o embaciado amarelento da face, os olhos que começavam a parecer desmedidos, isolados numa paisagem desabitada: as próprias feições se tinham alterado. A gente percebia-lhe, com uma ácida e progressiva nitidez, a corrupção. No entanto, à medida que essa decadência se acentuava, menos eu a queria admitir. Pela primeira vez, por assim dizer, nessa revolta das vísceras, eu fazia a violenta descoberta da morte – através de uma pessoa viva. Durantes as minhas longas vigílias de cigarros trespassava-me o eco de longínquas vozes.


*
REFERÊNCIA:
NAMORA, Fernando. Fogo na noite escura. Prefácio de Nelly Novaes Coelho. Notas bibliográficas de João Alves das Neves. São Paulo: Editor Verbo, 1973.

   *  *  *

10 comentários:

  1. Anônimo19:44

    Deixei este livro numa prateleira da hospedaria Independencia em Mendoza (Argentina). Só espero que alguém lhe pegue e possa saborear a belíssima tristeza que impregna esta obra.

    :)

    http://aospapeis.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também foi uma forma de divulgar o nome de Fernando Namora (alguém deverá ter ter lido e gostado).

      Excluir
  2. Li este livro quando era adolescente. Quando acabei, enfiei-me debaixo da cama e chorei, chorei. Livros assim, sentidos e dolorosos, depois deste, só os do Michael Cunningham (Sangue do meu Sangue é o mais pungente) e o "Autópsia de um Mar de Ruínas", do escritor português João de Melo, sobre a guerra colonial em Angola.
    Antes do "Domingo à Tarde", a tristeza poética de "Os capitães da Areia e "O meu Pé de Laranja Lima"- mas aí eu era ainda criança...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Maravilha, Mosqueteira, ainda adolescente e já voltada para bons livros.

      Abraços.

      Excluir
  3. Já li este livro há imensos anos. Um grande escritor português.
    Bj.
    Irene Alves

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É verdade, Irene, Fernando Namora é um dos mais importantes escritores portugueses. O livro "Domingo à tarde" é um dos seus livros que merece releitura.

      Abraços,
      Pedro.

      Excluir
  4. Olá td bem?
    Estpu retribuindo a visita..
    Estou seguindo já!

    Gostei do seu blog tem td que eu gosto!! Literatura e etc..!

    Abraço
    livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Leticia.

      Você já deve ter visto que também estou te seguindo.
      Também gostei do seu blog sobre literatura.

      Abraços.

      Excluir
  5. Anônimo20:14

    Fernando Namora, médico e escritor português, autor de uma extensa obra, escreve o romance “Domingo à tarde” em 1961.

    Retrata parte da vida de Jorge, que dirige o departamento de Hematologia do Instituto de Oncologia de Lisboa. Certo dia é colocado ao serviço de Clarisse, paciente que atravessa uma leucemia em estado avançado, pela qual se apaixona. Jorge mobiliza todos os seus esforços tentando salvá-la.

    Esta obra é entendida como uma forte representação das assimetrias sociais na interação médico-paciente por demais demarcadas no contexto sociocultural e no momento histórico da publicação da obra. Instiga uma forte reflexão acerca do dever ético-deontológico do médico em cuidar o paciente de forma integradora e alargada, clinicamente e psicologicamente.

    Pela voz do protagonista Jorge, é evidenciada a comunicação deste consigo mesmo, com seus colegas, e com os pacientes, em situações que ocorrem em vários espaços e em diferentes tempos. É apresentada uma vívida reconstrução literária da relação médico-doente com toda a sua complexidade inerente. Este romance ganha uma dimensão avassaladora ao tornar acessíveis importantes aspetos dessa relação, à qual é impossível ter acesso direto exceto quando na condição de paciente ou médico dada a natureza sigilosa deste contrato.
    Na linguagem literária deste romance Jorge experimenta a transformação de postura do profissional que se humaniza ao valorizar o outro - seja o outro o próprio médico-narrador, que se reconhece e se identifica no e pelo olhar do outro; sejam os outros os médicos, a paciente, a colega ou os restantes doentes. Jorge é desafiado, pela sua ligação emocional a Clarisse, a desmantelar todo seu conhecimento acerca da relação com o paciente terminal e do sofrimento e sentimentos inerentes à morte. Além disso, Jorge sofre pela sua incapacidade de salvar doentes incuráveis, incapacidade essa que se tornou para si por demais evidente e rude ao viver a situação de Clarisse.
    Clarisse morre, apesar de todos os esforços de Jorge, deixando o médico desencantado com os seus trabalhos e procedimentos de rotina, que na maioria das vezes lhe parecem ser inúteis. Porém, é deveras importante perceber a melhoria que o médico pode incutir na doença mesmo quando o cuidado já não passa pela terapêutica. Nesta obra é possível refletir sobre isto mesmo. É muito clara a forma como a ligação emocional de Jorge à sua paciente lhe permitiu ver que os seus cuidados e a sua presença, mesmo que não curativos, podem trazer mais dignidade a Clarisse no momento da morte, tornando os últimos suspiros da paciente que pedia “aqueles nadas que reanimam uma vida” mais confortados e saciados. Talvez o facto de passar pela doença ou pelo sofrimento de um familiar ou de um amigo torne o médico mais capaz de reflectir sobre os seus cuidados, num processo de sensibilização.
    O leitor acaba por se tornar cúmplice das personagens de Namora graças ao conhecimento da alma humana que o escritor imprime no seu texto. O escritor desperta no leitor um forte sentimento de compaixão e solidariedade, sentimentos esses que fazem crescer com um traço de culpa, responsabilizando o próprio leitor pelo o caos social que se vive no seio do contexto histórico da obra, sensibilizando-o.
    Fernando Namora demonstra saber lidar com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam o hospital, reconhecendo-se na obra o ambiente impregnado de dor, angústia, esperança e de desesperança. O médico é desafiado a combater este ambiente, humanizando o paciente de forma holística.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agradeço a contribuição dada a esta matéria.

      Excluir


Obrigado a todos os amigos leitores.
Pedro