30 de jun de 2015

[Crônica] Como conheci Mario Quintana


– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Eu era ainda estudante da faculdade de Direito, quando tive a grata oportunidade de conhecer, pessoalmente, Mario Quintana. Isso ocorreu sem qualquer planejamento. Tudo foi quase por acaso.
Naquele dia, em que caminhava pela Rua da Praia, o que menos poderia me ocorrer seria encontrar-me com Mario Quintana. Para colocar as coisas no seu devido lugar, vamos deixar uma coisa bem clara: eu nunca havia feito planos para ser apresentado ao poeta. Isso estava fora de cogitação.
Não tivesse encontrado a jovem e talentosa jornalista, que trabalhava para o jornal Correio do Povo, de quem me tornara amigo, há mais de ano (naquela época), o convite dela para conhecer o nosso estimado poeta, apanhou-me de surpresa.
– Apresentar-me o Mario Quintana? – perguntei.
Diante dessa pergunta e da inflexão dada por mim, a jornalista não escondeu o riso.
– Vamos até o jornal, ele não vai te morder.
– Então, seja o que Deus quiser.
E lá fomos nós, pela Rua da Praia. Na esquina com a Caldas Júnior – rua que se tornou famosa por sediar o jornal Correio do Povo e a rádio Guaíba – fizemos uma inflexão para a direita. Estávamos já diante do prédio do jornal.
– Tenho que ir mesmo?
– Vamos subir, agora mesmo – disse a jornalista.
A redação do jornal ficava no primeiro andar. Lá, Quintana escrevia sua coluna, como fazia durante toda semana. Em frente ao elevador, ela apertou o já gasto botão de madrepérola. O antigo elevador não demorou a chegar.
A porta de gaita, do velho elevador, abriu-se diante de nós, fazendo um barulho estridente. O educado ascensorista fez um gesto com a mão, sinalizando para entrarmos. Deixou-nos no andar da redação.
– É por aqui – disse a jornalista, já no corredor.
Da porta, vi uma sala muito grande, com várias mesinhas enfileiradas. Só não consegui enxergar o Mario Quintana. Andamos um pouco mais. Passamos pelos jornalistas, que escreviam seus textos, nas suas velhas máquinas. As repetidas batidas nas suas teclas arredondadas causavam um som estridente e nervoso.
Mais uns passos, e logo nos deparamos com o poeta. Estava sentado frente à sua mesa, soltando baforadas. O cigarro aceso fazia desenhos no ar, na medida em que o poeta gesticulava. Do cigarro, já quase no fim, desprendia-se uma linha fina de fumaça em espiral. Ao lado da máquina, na qual escrevia, um gordo cinzeiro exibia suas guimbas.
 – Hoje vai ser o meu grande dia – pensei.
A jornalista aproximou-se de Quintana, com intimidade, quase nas pontas dos pés. Com ela em sua frente, não se demorou a levantar. Fiquei ao lado deles, no pouco tempo em que conversaram. Com discrição, olhei para o poeta, que me pareceu tratar-se de um homem simples. Era mais baixo do que imaginava. No seu rosto, nenhum traço que pudesse indicar qualquer sentimento.
– Mario – disse a jornalista –. trouxe um amigo para te apresentar...
Solícito, estendi a mão para o poeta. Sua mão mal tocou a minha, nesse cumprimento.
– Muito prazer, seu Quintana.
– Prazer!  – respondeu.
Sua voz era quase inaudível. Seu olhar estava fixo na janela, de onde se via a rua. Demorou muito pouco para que a mão do poeta tateasse as costas de sua cadeira, onde logo iria sentar-se. O papel ali, na máquina, era o que lhe interessava.
– Vamos?! – sussurrou a jornalista, puxando-me pela manga do paletó.
Depois de muitos anos decorridos, a contar daquele rápido encontro com Mario Quintana, fiz esta descoberta: no mundo mágico dos poetas, que é feito de sonho e solidão, não há lugar para estranhos e importunos.
 "Não vou me enganar mais" – admiti resoluto –, naquele dia em que fomos apresentados, Quintana não disse “prazer”, quando lhe estendi a mão.


      *  *  *