8 de jul de 2015

[Conto] LIMA BARRETO – Sua Excelência



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
LIMA BARRETO (1881-1922) é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Como romancista, destinge-se pelo talento e honestidade colocados em suas obras, dentre outras, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919). O escritor é, sem dúvida, merecedor do respeito que a crítica literária dispensa à sua obra.
Depois das publicações póstumas de Os Bruzundangas (1922), Bagatelas (1923), inexplicavelmente, Lima Barreto caiu no esquecimento. Em 1930, um pequeno grupo de amigos tenta chamar a atenção para a obra do escritor. A imprensa acompanhou o movimento; Agrippino Grieco escreve o primeiro artigo para reabilitar o escritor, tratando-o como “o maior e o mais brasileiro de nossos romancistas”.
Francisco de Assis Barbosa posiciona-se quanto a influência da cor na obra do escritor: “É claro que a condição de mulato – e mulato incompreendido e até certo ponto perseguido – influenciou a obra de Lima Barreto. Mas isso não é tudo. Há nela muito mais do que uma reação meramente instintiva de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreensão do fenômeno social.”
Francisco de Assis Barbosa incumbiu-se de selecionar os melhores contos de Lima Barreto. A Global Editora imprimiu a 5ª edição, em 2000, desse livro, composto por quatorze contos. É dessa edição, que escolhemos, para esta postagem, o conto que segue, intitulado Sua Excelência (In Barreto, Lima. Os melhores contos de Lima Barreto / Seleção de Francisco de Assis Barbosa. 5ª ed. São Paulo: Global, 2000, p. 163-165):

SUA EXCELÊNCIA
(Lima Barreto)

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade.
Todo ele era um poço de certeza. Estava certo do seu valor intrínseco; estava certo de suas qualidades extraordinárias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a deferência universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convicção de ser ele o resumo do país, a encarnação dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejo dos ricos. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só ele, ele só e unicamente, seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham...
E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer, Lembrou-se do seu discurso de ainda agora:
“Na vida das sociedades, como na dos indivíduos”...
Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. E sucesso daquele trecho? Recordou-se dele por inteiro:
“Aristóteles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como Sólon, Justiniano, Portalis e Ihering, todos os filósofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes”...
O olhar, muito brilhante, cheio de admiração – o olhar do leader da oposição – foi o mais seguro penhor do efeito da frase...
E quando terminou! Oh!
“Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!”
A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.
O auditório delirou. As palavras estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.
O carro continuav a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois sumiram-se.
O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem.
Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora, o mesmo minuto da sua saída da festa.
Cocheiro, onde vamos?
Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam.
Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente.
Gritou ao cocheiro:
– Onde vamos? Miserável, onde me levas?
Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes magníficas. Graças a Deus, ainda não se havia derretido. O leão da Birmânia, o Dragão da China, o Lingão da Índia estavam ali, entre todas as outras, intactas.
– Cocheiro, onde me levas?
Não era o mesmo cocheiro, não era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era o seu fiel Manuel!
– Canalha, para, para, senão caro me pagarás!
O carro voava e o ministro  continuava a vociferar:
– Miserável! Traidor! Para! Para!
Em uma dessas vezes voltou-se o cocheiro; mas a escuridão que se ia, aos poucos, fazendo quase perfeita, só lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, metálico e cortante. Pareceu-lhe que estava a rir-se.
O calor continuava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as calças...
Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados.
Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfante, não havia minutos.
Nas proximidades um coupé estacionava.
Quis verificar ben as coisas circundantes; mas não houve tempo.
Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus, envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes ...
Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali  não tivesse feito outra coisa, indagou:
– Vossa Excelência quer o carro?


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