29 de out de 2013

[Poesia] JOÃO CABRAL – Cemitérios Pernambucanos




  – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Algumas (duas) das Ideias Fixas de João Cabral de Melo Neto (In ATHAYDE, Félix de. Ideias fixas de João Cabral de Melo Neto. 4ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: FBN; Mogi das Cruzes, SP: Universidade de Mogi das Cruzes, 1998, p. 17, 26:

“ARTE – Pode-se dizer que hoje não há uma arte. Não há a poesia. Mas há artes, há poesias. Cada arte se fragmentou em tantas artes quantos foram os artistas capazes de fundar um tipo de expressão original.”
(Os poetas estão vivos, Revista Petrobrás, Rio de Janeiro, nº 266, mar./abr. 1974.)

 “CRÍTICA - O fato de ter mais de 10 livros sobre mim não é uma coisa que me deixa muito honrado, não. Tem poetas melhores do que eu sobre quem não há livros. São poesias muito melhores, de estruturas mais simples. Mas acontece que eu sinto que a minha poesia presta para um professor brilhar sobre ela. De forma que isso prova duas coisas: que eu sou difícil e sou um escritor para professores.”
(Entrevista a Mônica Torentino, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, São Paulo, 17 jan. 1989.)
    
Segue o poema de João Cabral de Melo Neto intitulado Cemitérios Pernambucanos (In DE MELO NETO, João Cabral. Duas águas - Poemas reunidos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, p. 47):



CEMITÉRIOS PERNAMBUCANOS

(João Cabral de Melo Neto)




Nesta terra ninguém jaz,
pois também não jaz um rio
noutro rio, nem o mar
é cemitérios de rios.

Nenhum dos mortos daqui
vem vestido de caixão.
Portanto eles não se enterram,
são derramados no chão.

Vêm em redes de varandas
abertas ao sol e à chuva.
Trazem suas próprias moscas.
O chão lhe vai como luva.

Morto ao ar livre, agora
à terra livre é que estão.
São tão terra que nem sente
a terra sua intrusão.




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