2 de out de 2012

[Conto] FRANZ KAFKA – O Escudo da Cidade



por  Pedro Luso de Carvalho


FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Keerling, perto de Viena; foi enterrado em Praga, no Cemitério de Straschinitz. Nessa época Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após sua morte, quando seu talento criativo foi reconhecido por nomes importantes, dentre eles o poeta inglês W.H. Auden, que assim manifestou sua admiração pelo escritor tcheco: “se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Schakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria”.

 Parte da obra de Kafka foi traduzida do idioma alemão, no qual se expressava, para o espanhol; o célebre escritor argentino Jorge Luis Borges traduziu O processo, que foi publicado pela Editora Losada, de Buenos Aires, em 1939; uma nova edição dessa obra deu-se somente no ano de 1962. Antes dessa edição, a Editora Losada publicou A metamorfose, em 1943.

 Jorge Luis Borges, admirador de Kafka, disse que “Duas ideias, ou melhor, duas obsessões regem a obra de Franz Kafka: a subordinação é a primeira, e o infinito a segunda. A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para registrá-las de maneira definitiva bastavam-lhe algumas frases (...) O argumento e o ambiente são o essencial, não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia de seus contos sobre as novelas longas”.

   Segue o conto de Franz Kafka intitulado O Escudo da cidade (In Franz Kafka. Contos. Seleção e prólogo de Jorge Luis Borges. Tradução de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2005, p. 39-40):

                                                                  
                                             
O ESCUDO DA CIDADE
        (Franz Kafka)


 No início da construção da torre de Babel tudo estava razoavelmente em ordem, sim, talvez a ordem fosse até grande demais, pensava-se muito em tabuletas com direções, intérpretes, alojamento para os trabalhadores e caminhos de ligação, como se estivessem ainda por vir séculos e séculos para trabalhar à vontade. De acordo com a opinião então reinante, nem sequer se podia trabalhar suficientemente devagar; não era preciso exagerar muito esta opinião para que logo surgisse também o medo de lançar as fundações. A argumentação era a seguinte: o essencial em toda essa empresa é a ideia de construir uma torre que chegue ao céu. Comparado com essa ideia, tudo o mais é irrelevante. É uma ideia que, uma vez apreendida na sua grandeza, já não pode desaparecer; enquanto viverem os homens, viverá também o forte desejo de construir a torre até ao fim. Nesta perspectiva, assim, não há que ter preocupações pelo futuro, pelo contrário, o conhecimento é cada vez maior, a arte da construção fez progresso e continuará a progredir, um trabalho que agora leva um ano, daqui a um século será talvez concluído em seis meses, além disso, com maior qualidade e solidez. Assim sendo, por que chegar já hoje ao limite das forças. Apenas teria sentido caso pudesse esperar concluir a torre no tempo de uma geração. Mas isso é impossível. Mais fácil seria pensar que a geração seguinte, com um conhecimento mais aperfeiçoado, achasse mal o trabalho da anterior e deitasse abaixo a construção para começar tudo de novo. Pensamentos como estes paralisavam as forças e, mais do que a construção da torre, a preocupação passou a ser a construção de uma cidade para os trabalhadores. Cada contingente nacional queria ter o bairro mais bonito, daqui resultavam escaramuças que logo passavam a lutas sangrentas. Estas lutas não tinham fim; os líderes tinham assim um novo argumento para que a torre, faltando a concentração necessária, fosse construída muito lentamente ou de preferência só depois de acordadas as tréguas. Mas o tempo não era apenas passado em lutas, pelo meio também se alinhava a cidade, o que apenas fazia nascer novas invejas e novas lutas. Assim passou o tempo da primeira geração, mas nenhuma das seguintes foi diferente, só a perícia era cada vez maior e com ela a vontade de lutar.

Foi assim que logo na segunda ou terceira geração se reconheceu o absurdo de construir uma torre que chegasse até ao céu, mas nessa altura já todos se sentiam demasiados unidos entre si para abandonarem a cidade. Todas as lendas e canções que nasceram na cidade estão cheias de nostalgias pelo profetizado em que a cidade será esmagada por um punho gigante com cinco golpes secos um a seguir ao outro. É por esta razão que a cidade tem também o punho no seu escudo.


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REFERÊNCIAS:
CARVALHAL, Tânea Franco. A Realidade em Kafka. Porto Alegre: ed. Movimento, 1973.
IZQUIERDO, Luis. Conhecer Kafka e a sua obra. Tradução de Manuel Mota. São Paulo: ed.Ulisseia, [198-?].



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