10 de set de 2012

VINICIUS DE MORAES – Sua Trajetória - Parte III (Final)

Vinicius de Moraes

                        por  Pedro Luso de Carvalho


VINICIUS DE MORAES foi aprovado no concurso para o Itamarati, como mencionamos na postagem anterior; em 1943 ingressou na carreira diplomática. No ano seguinte, dirigiu por algum tempo O Jornal, a convite de Carlos Lacerda. Em 1946, foi para servir como vice-cônsul em Los Angeles, Estados Unidos, onde permaneceria por cinco anos, sem retornar ao Brasil.

Durante os cinco anos que Vinicius passou em Los Angeles, no exercício do cargo diplomático, aproveitou esse tempo para, por dois anos, frequentar Hollywood e tomar contato com os bastidores do cinema. Aí teve uma ligação estreita com Greg Tolland e com Orson Welles, o que lhe possibilita assistir de perto as filmagens.

Vinicius conheceu  também Alex Viany, que lá se encontrava; com ele fez a revista Filme, que embora tivesse tido repercussão fora dos Estados Unidos, teve duração de apenas dois números. De qualquer forma, sente-se mais a vontade no meio cinematográfico; torna-se íntimo de grandes atores e estrelas, e também de figuras de renome do jazz, dentre eles, Turchy Murphy e Louis Amstrong.

Nos Estados Unidos, viajou muito com a esposa e seus dois filhos, Suzana e Pedro, que estudavam nesse país. Nesse período, a poesia esteve um pouco relegada. Em 1948, seu novo livro, Poemas Sonetos e Baladas, é publicado no Brasil. Nesse mesmo ano foi editado em Barcelona, por João Cabral de Melo Neto, Pátria Minha, que Vinicius escreveu em Hollywood.

Em viagem que fez ao México, visitou Pablo Neruda, que se encontrava muito doente, depois de sua fuga pelo Pacífico; nessa oportunidade, a amizade entre ambos é consolidada. Conheceu também Rivera, Siqueros e Paul Elward, que estava no México, num Congresso da Paz. Aí Vinicius fundou, com Cavalcanti e Oregon Santacilla, o Bureau Interamericano de Arte, cuja finalidade era a divulgação de material literário e artístico dos países hispano-americanos.

Somente em princípios de 1951 é que o poeta retorna ao Brasil. Casa-se com Zila Maria Esquerdo e Bóscoli, de quem tem, nesse segundo casamento, dois filhos: Georgeana e Luiciana. É nomeado para trabalhar ao lado de Alberto Cavalcanti na Comissão do Instituto Nacional do Cinema. Época em que também assinala a sua volta ao jornalismo, escrevendo críticas de cinema na Ultima Hora e em Flan; em 1953, trabalha em A Vanguarda. Em 1952 viaja para Paris, para organizar um Festival de Cinema. No ano seguinte é designado para servir na Embaixada de Paris, onde ficará servindo até 1956.

No mês de fevereiro de 1956 retorna ao Brasil e filma com o produtor francês Sascha Gordine, o Carnaval carioca, documentário em cinemascope. No mês de maio desse ano, Vinicius consegue financiamento para levar para o Teatro Municipal a peça teatral de sua autoria, Orfeu da Conceição. A peça é montada então com grande estilo: os cenários são de Niemeyer e a música de Antônio Carlos Jobim. O público se dividiu entre os que aplaudiram e os que não a aprovaram; além disso, Vinicius teve um prejuízo de um milhão e duzentos mil cruzeiros (não saberia dizer em quanto montou em real, nossa moeda atual); de qualquer forma, Vinicius não se arrependeu do empreendimento.

O mesmo não aconteceu com o filme Orfeu Negro ou Orfeu do Carnaval, a partir da peça de Vinicius, Orfeu da Conceição, que tempo depois foi realizado pelo diretor francês, Marcel Camus, e que obteve sucesso mundial; em 1959 o filme ganhou o 1º Prêmio do Festival de Cannes - festival de cinema mundialmente conhecido como o mais importante no que diz respeito à qualidade artística dos filmes que concorrem ao prêmio. Em 1960, o filme ganha o Oscar concedido ao filme estrangeiro. O filme teve nova versão em 1999, sob a direção de Cacá Diegues, com o título Orfeu.

A Antologia Poética – seleção de toda sua obra – é publicada por A Noite, em 1953; em 1955 é lançado pelas edições Festa os seus poemas em disco LP (long-play); em 1956 é publicado pela editora Livros de Portugal o seu Livro de Sonetos, que foi muito aplaudido pelo público; e em fins de 1960 são editadas as suas Poesias Completas.

A respeito da grande repercussão da obra poética de Vinicius de Moraes, que se renovava ano a ano, assim se manifestou um dos nossos maiores cronistas, Rubem Braga: “Vindo de um misticismo de fundo religioso para uma poesia nitidamente sensual que depois se muda em versos marcados por um fundo sentimental social, a obra de Vinicius tem como constante um lirismo de grande força e pureza”.

Vinicius de Moraes consagra-se de forma definitiva quando leva sua poesia para a música popular brasileira e de modo especial para a Bossa-Nova. Nessa nova fase da carreira o poetinha, como era chamado carinhosamente no meio musical, escreveu poemas para músicas antológicas com músicos que se tornaram conhecidos no Brasil e no exterior, principalmente nos Estados Unidos.

Seguem algumas das grandes realizações de Vinicius de Moraes no campo da música, com alguns de seus parceiros. Comecemos com algumas das músicas compostas por Tom Jobim com poemas de Vinicius de Moraes, quais sejam:

Eu sei que vou te amar,
Sem você,
Estrada branca,
A felicidade,
O amor em paz,
Garota de Ipanema,
Insensatez,
Por toda minha vida,
Água de beber,
Ela é carioca,
Chega de saudade,
Só danço samba,
Chora coração,
Modinha,
O que tinha de ser,
Brigas, nunca mais,
Por toda a minha vida,
Soneto de separação,
O amor em paz,
O morro não tem vez,
etc.


Baden Powell & Vinicius de Moraes:

Berimbau,
Deve ser amor,
Deixa,
Tempo feliz,
Canto de Ossanha,
Apelo,
etc.


Carlos Lyra & Vinicius de Moraes:

Você e eu,
Minha namorada,
Sabe você,
Maria Moita,
etc.


Além dessas três parcerias, outras existiram com Vinicius de Morais: Chico Buarque, Pixinguinha, Marilia Medalha, Toquinho, Edu Lobo, entre outros.

Encerramos este trabalho com “Modinha", composição de Antônio Carlos Jobim e de Vinicius de Moraes, que integra o CD do selo Philips, intitulado TOM & ELIS:


              MODINHA
                         (Vinicius de Moraes)


Não, não pode mais meu coração
Viver assim dilacerado
Escravizado a uma ilusão
Que é só desilusão

Ah! Não seja a vida sempre assim
Como um luar desesperado
A derramar melancolia em mim
Poesia em mim

Vai, triste canção
Sai do meu peito e semeia emoção
Que chora dentro do meu coração
Coração.

  
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Para acessar a primeira parte deste trabalho, clicar em: VINICIUS MORAES - Sua Trajetória - Parte I




REFERÊNCIA:
PEREZ, Renard. Escritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.

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