26/08/2011

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte I

Alberto Moravia



                por  Pedro Luso de Carvalho



        Alberto Moravia nasceu na cidade de Roma, Itália, a 22 de novembro de 1907, onde morreu, em 26 de setembro de 1990. No registro civil recebeu o nome de Alberto Pincherle. Passou parte de sua juventude tratando de uma tuberculose óssea. Como a doença manteve-o de cama durante cinco anos, entre os nove e os dezessete anos, até 1924, seus estudos regulares não passaram de nove anos.

        O primeiro livro de Moravia foi Gli indifferenti (Os indiferentes); parte dele foi escrito quando ainda estava de cama, doente. Concluiu o livro em 1925, e o viu publicado em 1929, com vinte e um anos de idade. Na Itália, o livro foi muito bem aceito. Sobre essa aceitação, assim se manifestou Moravia a The Paris Review

        “Foi, com efeito, um dos maiores êxitos de toda a moderna literatura italiana. A maior, na verdade; o posso dizê-lo com toda modéstia. Jamais houve coisa igual. Livro algum, certamente, nos últimos cinquenta anos, foi acolhido com tão unânime entusiasmo e excitação”.

       Moravia deu ênfase ao fato de que Gli indifferenti (Os indiferentes) teve uma recepção sem precedentes, e que não houve nenhum outro que a ele se assemelhasse em toda sua carreira – desde essa época -, como não aconteceu a nenhum outro escritor.  

        Além da grande atenção que o romance Gli indifferenti despertou na Europa, também teve excelente receptividade nos Estados Unidos, na sua segunda tradução; o New York Times disse que Moravia era “um dos escritores contemporâneos verdadeiramente importantes, tão imparcial, observador, nada sentimental, e humano como Stendhal.” 

Moravia
        O escritor disse que com esse livro (Os indiferentes) não teve nenhuma intenção de reagir contra coisa alguma; já a crítica entendeu que o romance contém um crítica acerba contra a burguesia romana, como dos valores burgueses em geral; Moravia disse que não é nada disso, e que se trata apenas de um romance; se alguma crítica há, não é intencional.

       Para Moravia, “a função do escritor não é, de qualquer modo, criticar, mas apenas de criar personagens vivos; não mais que isso. Escrevo para divertir-me, para entreter os outros e para exprimir-me”.

       Depois constatamos que Moravia abriu uma exceção ao escrever La Mascherata, peça teatral, que, contrariando o que se constituiu em regra em sua ficção, isto é, de escrever romances, contos ou peça teatral sem qualquer crítica social; La Mascherata, é, na verdade, uma peça crítica. A ideia de escrevê-la surgiu em 1936, quando Moravia esteve no México; o cenário hipano-americano inspirou-lhe uma sátira. 

        De volta à Itália, a ideia permanceu; em 1940 foi para Capri para escrever La Mascherata. Em Roma, dirigiu-se ao Ministério da Cultura para obter licença para publicá-la, mas a obra foi censurada; logo depois, Mussolini autorizou a sua publicação. Decorrido um mês, o livro foi retirado de circulação, e só voltou às livrarias depois da Libertação, em 1945.  

        Declarou Moravia não ser moralista, mas, em outro momento, disse: “Uma obra de arte, por outro lado, tem uma expressão representativa e expressiva. Nessa representação, as ideias do autor, seus juízos, o próprio autor, acham-se comprometidos com a realidade. Eu suponho, colocando as coisas dessa maneira, que sou, afinal de contas, até certo ponto, um moralista. Nós todos o somos, todo homem é um moralista à sua própria maneira, mas, além disso, ele é muitas outras coisas”.

      O interesse de Moravia pelo teatro começou cedo, quando era jovem. Sempre leu peças teatrais, a maioria delas de Shakespeare, Molière, Goldoni, Lope de Vega, Calderón. Para o teatro escreveu, entre outras peças, uma adaptação de seu primeiro romance, Gli indeppenti, e a peça para o teatro, La Mascherata

        Em suas leituras é atraído pela tragédia, que, para ele, é a maior de todas as formas de expressão artística, como o teatro é a mais completa das formas literárias. Lamenta que não mais exista o drama contemporâneo, que o drama moderno não exista mais – para ele existe apenas nas representações, mas não tem sido escrito.

       Ainda sobre o drama, disse Moravia que nenhum escritor moderno criou o drama – a tragédia – no sentido mais profundo da palavra; nem mesmo O'Neill, Shaw, Pirandelo... “A base do drama é a linguagem, a linguagem poética”. Dá realce de que mesmo Ibsen, o maior dos dramaturgos modernos – que se valeu da linguagem cotidiana – não conseguiu criar o verdadeiro drama.




REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
PATRICK, Julian. Grandes escritores. Tradução de Livia Almeida e Pedro Jorgensen Junior. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.



16/08/2011

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte II

Moravia e Pier Paolo Pasolini


                       por Pedro Luso de Carvalho


        Na primeira parte deste trabalho discorri sobre Gli indifferenti (Os indiferentes), o primeiro romance de Alberto Moravia, escrito quando o escritor ainda estava de cama, doente, e que foi concluido em 1925, cuja publicação deu-se somente em 1929, quando contava vinte e um anos de idade. Disse também que Gli indifferenti  foi um dos maiores êxitos de toda a moderna literatura italiana; e que o o New York Times disse que Moravia era “um dos escritores contemporâneos verdadeiramente importantes, tão imparcial, observador, nada sentimental, e humano como Stendhal.”

        Também fiz referência à peça La Mascherata, escrita por Moravia em Capri, no ano de 1940, obra que foi censurada pelo Ministério da Cultura de Mussolini; e que em seguida o líder facista – Duce, como era conhecido - autorizou a sua publicação, e que, decorrido apenas um mês, o livro foi retirado de circulação, e só voltou às livrarias depois da Libertação, em 1945. Agora, saindo dessas duas obras - o primeiro romance e a primeira peça para o teatro -, o enfoque será o cinema.  

        Para o cinema, o pouco que escreveu não lhe agradou. Maravia pergunta-se: “até que ponto permitirá o cinema a expressão plena?” Diz que “a câmara é um instrumento menos completo que a pena, mesmo que nas mãos de Eisenstein. Jamais poderá exprimir tudo aquilo, digamos, que Proust era capaz de fazê-lo”. Mas admite ser o cinema espetacular, transbordando de vida.

        Para Moravia, o trabalho para o cinema não é inteiramente penoso, mas é exaustivo. Para ele, quem escreve para o cinema não passa de um homem-ideia, ou um cenarista; não passa de um subalterno. Não sente satisfação em escrever para o cinema – o nome do escritor não aparece sequer nos cartazes, depois de executar uma tarefa amarga.

        Depois, Moravia fala do cinema como arte impura: “todo o processo não passa de cortar e deixar secar. A inspiração da gente torna-se rançosa, quando se trabalha no cinema – e, o que é pior ainda, a mente da gente se acostuma para sempre a procurar truques e, ao fazê-lo, acaba por arruinar-se, por destruir-se.” Para Moravia, escrever para o cinema sequer vale o que é pago ao escritor, a menos que necessite do dinheiro.

         Esse tratamento que o cinema dispensa ao escritor, cujo trabalho é recebido com certo descaso, como se queixa Moravia, não se trata de um caso isolado, ao contrário, ao longo do tempo foi uma constante, como se vê por alguns exemplos dignos de registro. Um desses registros é feito pela escritora norte-americana Dorothy Parker, que também escreveu para o cinema, em entevista que concedeu à The Paris Review, em Nova York:  

        “O dinheiro de Hollywood não é dinheiro – diz Parker. É neve congelada, derrete em sua mão, e você fica na mesma. Não posso falar de Hollywood. Foi um horror para mim, e é um horror olhar para trás. Não consigo compreender como pude aguentar. Quando saí de lá, não conseguia nem me referir ao lugar pelo nome. “Lá”, eu falava”. 

       Dorothy Parker diz mais sobre sua relação com o cinema, quando a entrevistadora pergunta se Hollywood destrói o talento do artista: “Não, não. Acho que ninguém no mundo baixa o nível do que escreve. Mesmo que produzam lixo – diz Parker -, os escritores de Hollywood não baixam o nível. Aquilo é o máximo que podem dar. Se você vai escrever, não finja que baixou o nível. Vai ser o melhor que você pode fazer, e é isso que mata.”

        Na sua fala sobre a precária situação do escritor que escreve para o cinema, Dorothy Parker, além de falar de seu caso pessoal, cita o que se passou nesse tipo de relacionamento com o célebre Scott Fitzgerald, e diz que o mal de Hollywood são as pessoas – e acrescenta: “Como o diretor que põe o dedo na cara de Fitzgerald e reclama: 'Eu paguei. Então, você precisa nos pagar'”. Parker diz que foi terrível com Scott; “se você o visse, ficaria doente”. Diz que quando o autor de The Great Gatsby (O grande Gatsby) morreu “ninguém foi ao seu enterro, nenhuma alma, sequer mandaram uma flor. (...) Foi nojento o que fizeram com Scott”. 

       Depois desses exemplos de desconsideração para com o escritor, pela Sétima Arte, o tema sobre Alberto Moravia, é retomado, deixando o cinema e retornando à Literatura. Outro livro famoso de Moravia, o romance La Romana, que se destinava ao gênero conto, que não passaria de quatro páginas, quando Moravia começou a escrevê-lo, em 1º de novembro de 1945. Passado alguns meses sentiu que se tratava de um romance, e quando o personagem da história fugiu de seu controle, sentiu que a inspiração não era autêntica. 

        E essa mudança ocorreu porque Moravia não se valeu de notas para escrever La Romana. Aliás, o escritor nunca se valeu de anotações para escrever suas obras, o fazia de antemão. “Confio na inspiração, que, às vezes, vem e, às vezes, não. Mas não fico sentado à espera dela. Trabalho todos os dias”. 

         A história de La Romana deveu-se a uma mulher chamada Adriana, que o escritor conheceu, e que lhe inspirou; nada mais além da inspiração, pois, como disse o escritor, a viu apenas uma vez; então, imaginou tudo, inventou tudo. Moravia escreveu esse livro duas vezes, depois, numa terceira vez, trabalhou o livro de forma minuciosa, com muito cuidado, até o momento em que ficou satisfeito com a obra. A personagem Adriana tornou-se uma das melhores, dentre as personagens que criou. 

        Segue um trecho do romance de Moravia, La Romana:

        [...] Já outras vezes tinha reparado que a cama ficava encostada numa porta de comunicação com o quarto ao lado. Assim que apaguei a luz, vi que os dois batentes da porta estavam separados e deixavam filtrar uma fresta vertical de luz. Levantei-me nos cotovelos sobre o travesseiro, meti a cabeça entre os arabescos de ferro batido da cabeceira da cama e colei o olho na fresta. Não era curiosidade, pois já sabia o que poderia ver e ouvir, mas sim o medo dos meus pensamentos e da solidão que me levavam a procurar, embora espionando, companhia do quarto ao lado. Mas por um bom pedaço, não vi ninguém. Diante da fresta havia uma mesa redonda; a luz do lustre caia do alto sobre a mesa. Atrás da qual, numa sombra fechada entrevia o reflexo de um espelho de armário. Porém, ouvia vozes: eram as conversas de sempre, que já conhecia de cor, as perguntas costumeiras sobre a cidade natal, a idade, o nome. A voz da mulher era tranquila e reticente, a do homem, apressada e ansiosa. Falavam num canto do quarto, talvez já estivessem na cama [...]”

         Para acessar a primeira parte deste trabalho, basta clicar em ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte I.




REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982 p. 84-90.
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001, p. 87-88.
MORAVIA. Alfredo. A Romana. Tradução de Maria Colasanti. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 361.





10/08/2011

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte III

Alberto Moravia

                 por  Pedro Luso de Carvalho


        Quanto a influência que talvez tenha sofrido em Gli indifferenti (Os Indiferentes), no que diz respeito à técnica da narrativa, Moravia aponta para Dostoiévski, com o que com ele aprendeu na complexidade do romance dramático; Crime e castigo, é um dos exemplos; com Joyce, com o que aprendeu com ele no que respeita ao uso do tempo ligado à ação.

        Moravia chama a atenção para que não se confundam imaginação com fantasia, por serem duas ações distintas da mente; e lembra Benedetto Croce e da grande distinção que faz entre elas em seu livro. Para ele todos os artistas devem ter imaginação, e alguns tem fantasia, como ocorre com Ariosto, e na ficção científica. Já Madame Bovary, de Flaubert, é um excelente exemplo da presença da imaginação e ausência da fantasia.

        O escritor diz que seus antecessores literários foram Manzoni, Dostoiévski e Joyce. Apreciava os franceses, principalmente os autores do século dezenove: Voltaire, Diderot. Depois desses, Stendhal, Balzac, Maupassant. Dentre os poetas, gostava de Rimbaud e Baudelaire, e de alguns poetas modernos que se assemelhavam a Baudelaire. Quanto aos escritores da lingua inglesa, gostava de Shakespeare, Dickens, Poe, Butler, Thomas Hardy, Joseph Conrad, Stevenson, Woolf.

James Joyce
        Quanto a Joseph Conrad, Moravia diz que é um grande escritor; e quanto a Dickens, que está entre os escritores que admira, diz que tal admiração está ligada apenas ao romance The Pickwik Papers, que, para ele, é o único bom trabalho de Dickens; já sobre Stevenson, afirma gostar apenas de alguma coisa do que escreveu.
        
        Para Moravia, que tinha a ambição de escrever um livro cômico - o gênero mais difícil de todos, no seu entender -, dizia que poucos são os livros desse gênero; e menciona quais são eles: Dom Quixote, Rabelais, The Pickwik Papers, O Asno de Ouro, os Sonetos de Belli, Almas Mortas, de Gogol, Boccaccio e o Satyricon”. Esses eram, para Moravia, os seus livros ideais.

        Tendo uma formação literária clássica, em sua maior parte, como dizia Moravia de si mesmo, pouco se interesava pelos escritores realistas e naturalistas, embora fosse de seu conhecimento que estes influenciaram de forma indireta a literatura italiana do pós-guerra, principalmente através de Vittorini; sem negar, contudo, que essa influência não deixa de ser americana, aduzindo tratar-se de influência americana vittorinizada. Aduz, ainda, que Vittorini e essa espécie de prosa poética a gente pode encontrar em certos trechos de Hemingway e Faulkner. 

        Falando sobre os grandes espaços vazios na tradição do romance italiano, Moravia afirma que “a Itália já teve o romance, há muito tempo. (...) mas, desde a Contra-Reforma, a sociedade italiana não gosta de ver-se no espelho. O grosso da literatura narrativa é, afinal de contas, desta ou daquela forma, crítica. (...) os italianos preferem a beleza à verdade”.

Marcel Proust
        Sobre o futuro do romance, Moravia disse para The Paris Review, que “o romance, tal como o conhecíamos no século dezenove, foi morto inteiramente por Proust e Joyce”. E acrecenta que eles formam os últimos escritores do século dezenove. “Parece, agora - diz Moravia -, como se estivéssemos caminhando para o roman à idée ou o romance documentário – quer se trate de romance de ideias, ou, então, do romance da vida, tal como esta se processa, sem pressupostos criados, nem psicologia”.

        Ainda discorrendo sobre o romance moderno, frisa Moravia que um bom romance pode ser de qualquer espécie, “mas as duas formas que hoje prevalecem são o romance-ensaio e o romance documentário, ou experiência pessoal, quelque chose qui arrive. A vida assumiu duas maneiras em nossa época: a multidão e os intelectuais. A época da multidão é toda ela acidente; a época do intelectual, toda ela filosofia”. E acrescenta: “Hoje não existe burguesia, mas somente a multidão e os intelectuais”.

        Encerro esta terceira parte sobre a obra de Alberto Moravia – na próxima postagem, Moravia será ainda o enfoque - com um trecho do último romance que publicou em vida, Il Viajo a Roma, 1988; mais tarde o romance foi publicado no Brasil, pela Bertrand Brasil, em 1991, com o título Viagem a Roma, com tradução de Mario Fondelli; o trecho que segue, do romance Viagem a Roma, está no primeiro parágrafo, do primeiro capítulo, p. 5:

        “Durante o vôo abri ao acaso o volume de poesias de Guillaume Apollinaire; os meus olhos pousaram sobre um verso: 'Aqui estás em Roma, sentado embaixo de uma nespereira do Japão', e deixei-me levar pela imaginação: por que uma nespereira do Japão? O que tinha a ver com Roma aquela árvore asiática? E, uma vez que Apollinaire era o modelo e um verdadeiro guia para mim, o que iria representar na minha vida, ao voltar para Roma, a nespereira do Japão?”




REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Trad. de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
PATRICK, Julian. Grandes Escritores. Trad. de Livia Almeida e Pedro Jorgensen Junior. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.
MORAVIA. Alberto. Viagem a Roma. com trad. de Mario Fondell. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, em 1991, p.5.