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| Iberê Camargo |
[ESPAÇO DO CONTO]
A História do Oficial de Justiça
O circunspeto Romualdo era um bom oficial de justiça. Durante mais de dez anos executou com zelo o seu trabalho. A todos, no Forum, mostrava-se simpático, mas procurava impor certa distância para resguardar sua intimidade. As pessoas que o conheciam - juízes, promotores e serventuários da justiça -, dispensavam-lhe merecida atenção.
Essa pessoa de conduta ilibada, como diziam seus colegas, saiu certo dia, após o almoço, para fazer uma citação a três quadras de sua residência. Antes de acionar a campanhia da casa, onde residia a pessoa que procurava, o oficial de justiça retirou de sua pasta a cópia de uma petição, com o mandado judicial, e viu que iria citar uma mulher de nome Mafalda.
Apertou o botão da campanhia e aguardou um pouco. Uma mulher esguia e sedutora apareceu à porta, fazendo com que Romualdo desviasse o olhar, embaraçado. Disse-lhe qual o motivo de sua visita, e entregou-lhe um documento para que o assinasse. Mafalda devolveu-o assinado ao oficial de justiça, que o colocou na pasta, e depois ao retirar-se, fez-lhe um gesto amistoso como forma de agradecimento.
No dia seguinte, no Forum, Romualdo foi avisado por um colega seu que uma mulher queria falar-lhe ao telefone. Para sua surpresa, era a senhora que citara no dia anterior. Perguntou-lhe no que poderia ajudá-la e Mafalda surpreendeu-lhe: “Queria convidá-lo para tomarmos um cafezinho ou um aperitivo, no final da tarde”. Educadamente, o oficial de justiça recusou o convite.
Mafalda insistiria nesse convite até que Romualdo cedesse, o que ocorreu em menos de um mês. O encontro deu-se na casa de Mafalda, no final do expediente. A partir desse dia, os encontros nos finais de tarde tornaram-se rotineiros. Aos sábados e domingos, Romualdo desdobrava-se em atenção à esposa Eulália, e à filha. Depois de alguns meses, um sentimento de culpa sorrateiro começaria a abatê-lo.
Passados dois anos, Romualdo mal suportava o desgaste emocional pela vida dupla que levava; Mafalda, ao contrário, apegava-se mais e mais ao amante, e a paixão fugia-lhe ao controle, sem suspeitar que o sentimento do amante tomava direção oposta: a paixão que quase o fez enlouquecer não era mais a mesma do início, que agora aos poucos esmaecia.
O oficial de justiça antevia sua volta à vida rotineira: a família, os amigos, os colegas do Forum. Esses pensamentos deram-lhe a sensação da mais completa paz, o que fez com que tomasse a decisão de falar desses sentimentos à amante. Estava decidido a falar-lhe na sua próxima visita, que deveria ser a última. E assim acorreu: Romualdo dispensou rodeios, e, sem olhar nos olhos de Mafalda, disse-lhe que estava tudo acabado. E, de súbito, levantou-se e saiu às pressas.
Mafalda sentiu que iria morrer. Permaneceu por longo tempo sentada, o olhar pétreo, fixo na porta por onde Romualdo saiu. Com o corpo rígido, parecia imantada à poltrona, até que, aos poucos, foi se conscientizando do que se passara. Não derramou uma única lágrima. Simplesmente não aceitou essa ruptura e decidiu que não desistiria do amante. “Ele não tem o direito de me deixar”, repetia para si mesma.
A amante passou a seguir todos os passos de Romualdo: procurava-o todos os dias no Forum, e quando não o encontrava, deixava-lhe recados para serem entregues por seus colegas. Nervoso, lia as ameaças que lhe eram feitas. Em todos os lugares, o oficial de justiça deparava-se com Mafalda: quando saia de casa, quando deixava o trabalho, e até no curso das diligências, que fazia todos os dias, no desempenho de sua função. À noite, as ligações telefônicas não cessavam. Ele mesmo atendia ao telefone, ouvia as queixas de Mafalda, e, sem responder-lhe, desligava o aparelho.
Passados alguns dias, já tomado de absoluta exaustão, Romualdo encontrava-se em casa, no seu pequeno escritório, separando os documentos para as citações que deveria fazer naquele dia, quando a esposa foi lhe entregar um pequeno envelope fechado.
- Um menino acabou de entregar-me - explicou a esposa, um tanto assustada com a reação estampada no rosto do marido.
Romualdo esperou Eulália sair para abrir o envelope. Desdobrou a folha de papel e logo reconheceu a letra de Mafalda. Um sentimento de desgraça deixou-o abatido. No bilhete, a amante dizia que iria à sua casa para contar tudo à esposa.
O oficial de justiça voltou a sentar-se, abalado. Com as costas da mão, afastou os documentos que estava analisando e colocou o bilhete sobre a mesa. Por mais de uma hora ficou ali olhando aquele pedaço de papel branco cheio de rabiscos ameaçadores. Releu o que estava escrito no bilhete, uma, duas, três vezes. Depois, ficou apenas olhando um horizonte imaginário, mal suportando a pressão a que estava submetido.
De repente, tomado de incontrolável fúria, Romualdo apanhou o revólver e saiu em disparada, mal enxergando por onde corria. Corria sem nada ver à sua frente. Tenso, apertava com força a arma, sem parar de correr até chegar à casa da amante, quando, no momento em que a viu, à porta, sentiu uma incontrolável rigidez na mão, seguida pelos contínuos repuxos da arma.
Passado algum tempo - Romualdo não podia estimar sua extensão-, encontrava-se ainda em frente à porta, mal se equilibrando, os olhos ardendo, a camisa encharcada de suor, quando, às suas costas, ouviu os estalidos das algemas que lhe eram colocadas.
(por Pedro Luso de Carvalho)

15 comentários:
Olá dr. Pedro, que belo conto, além do seu vasto conhecimento literário, o que me encanta, descubro mais um talento - o de escritor. Confesso que cheguei a criar os personagens na minha cabeça...bela descrição, encorpado, sem rodeios, mas uma bela escrita, muito bom; e esse final então, confesso que repeti a leitura, mas tornou-se claro para mim a história. Parabéns.
ps. Um grande abraço.
Olá Bom dia Pedro
Peço desculpa pelas ausências prolongadas. Não quero arranjar desculpas pois nós sempre temos tempo para uma visita ainda que muito leve.
Algum cansaço e também o ambiente familiar tem sido um pouco agrestes.
Custou-me muito a saída do meu filho daqui de casa. De um dia para o outro ficámos sós.
- Deixemos a vida acontecer -
Gostei desta história e lembraram-me tantas outras incógnitas sem este desfecho....
Hoje a sua pena prendeu-nos e encantou-nos com uma narrativa de boa prosa.
Uma história perfeita.
Fragilidade humana............
Pedro,
O seu blog é um primor.
Parabéns pelo bom gosto de tudo que há nele e, mais ainda, pelos seus textos.
Abraços!
Uma história bem contada e delineada, mostrando as tuas belissimas qualidades de escritor.
O enredo prendeu-me e o desfecho surpreendeu-me!
Acontece a quem se mete por becos sem saída, restando muito poucas ou nenhumas alternativas!
Espero que o conto não seja apenas uma leve incursão pela área e possa ler aqui, muitos e muitos mais.
Parabens!
beijo
Graça
Pedro....... Achei vc no Blog da Graça... Vc é de PoA? Eu tb !
Vim convidar pra ver meu vídeo Blog SENTIMENTOS
http://sentimentos-jacque.blogspot.com/
Pedro, esse não é o primeiro conto seu que leio. O último que você publicou ainda está bem vivo em minha mente, especialmente o desfecho. Num e noutro todos os elementos que mantem vivo o interesse do leitor. Num e noutro a morte vive. Estou (e sou muito) curiosa; quero ler mais! Muito mais. Cuide de publicar seus escritos também.
Bjs procê e pra Taís. Inté, amigo.
Caro Jair,
No meu entender, todo o ficcionista - romance, novela ou conto - escreve para alcançar alguém que o leia. É para isso que se escreve, não tenho dúvida. Eu sempre fico muito contente quando sei que o que escrevo é bem aceito; esse fato compensa todo o esforço dispendido para esse fim.
Um abraço,
Pedro.
Graça,
Receber tua visita é uma alegria; já os elogios que dás pelo meu conto "A História do Oficial de Justiça", vindo da pessoa sensível, inteligente e culta que vem, só posso recebê-los como um importante incentivo para continuar escrevendo.
Abraços,
Pedro
Bom dia, Pedro!
Tive enorme prazer em ler seu conto. A narrativa transcorre leve, mesmo que impregnada de suspense e culminando em um desfecho que surpreende o leitor. O perfil pacato e a retidão de caráter do oficial de justiça, contrapondo-se à suposta ousadia de Mafalda, presumivelmente levaria a outro desfecho e no entanto, o personagem nos surpreende com a sua atitude, a de praticar além do adultério, o crime. Eis ai uma esplêndida exposição do quão inusitado é o comportamento humano, quando existe uma situação que ameaça-lhe a estabilidade moral.
Fantástico!
Um abraço,
Celêdian
Celêdian,
É com satisfação que leio o seu comentário sobre este conto, por motivo que julgo ser importante, qual seja, o de você ter feito a leitura de “A Morte do Oficial de Justiça” com a sensibilidade e o conhecimento, que efetivamente tem, de certos princípios da análise literária.
Quando o escritor fica sabendo, por quem o lê, que contou sua história dentro de certos princípios que norteiam a arte literária, e que ao observar seus requisitos essenciais não toldou o que tinha em mente, ao contrário, conseguiu ser entendido como desejava, sente-se realizado na sua empreitada.
E quanto ter conseguido esse objetivo, com meu conto, Calênciam, soube-o com a sua análise, o que, sem dúvida, é muito bom.
Abraços,
Pedro.
Dos poemas que li de Ju Rigoni, não saberia dizer qual o melhor deles. Poderia dizer, isto sim, qual deles tocou-me mais, neste ou naquele dia.
Às vezes lemos um poema – não importa qual seja o poeta – que, em determinado dia, passa-nos despercebido, como se fora uma notícia de jornal; mas, se esse mesmo poema for lido por nós em outra ocasião, quando estivermos menos preocupados com coisas materiais que nos cercam, com nosso egoismo e nossas vaidades, poderá ter força suficiente para elevar-nos, dando-nos alguma alegria, algum conforto espiritual, o perdão que buscávamos pelas mágoas que causamos a alguém. Como qualquer outra coisa, também a poesia dependerá de nosso humor.
Não foi por outro motivo que Ezra Pound disse que “poesia é a linguagem consagrada ao máximo de significação, levada à maior concentração possível de sentido”. [In “Rilke, Pound e Neruda. Três Mestres da Poesia Contemporânea”, de J. M. Ibáñes Langlois, São Paulo, Ed. Nerman, 1978, p. 93].
Não raro recebo e-mails de alunos que perguntam o que deverão fazer para sua iniciação na escrita ficcional e a escrever crônicas; a essas perguntas, respondo, invariavelmente, que a poesia é um dos caminhos mais importantes para esse fim; enfatizo que, por meio da leitura habitual de poemas, eles poderão aprender a escrever de forma sintética, com ritmo e melodia. Isso, para ficarmos apenas na forma do poema.
A essas pessoas, que fazem esse tipo de questionamento, não teria dúvida em aconselhá-los, como de fato não tenho, a fazerem a leitura dos belos e singulares poemas da JU.
Parabéns a você Ju, pelo seu brilhante trabalho em prol da Poesia.
Abraços,
Pedro.
Da Síndrome
(Para o amigo Pedro Luso)
Sim, é maiúscula a POESIA, -
e não me refiro à minha.
A minha é minúscula,
é só uma criança,
e tão danadinha!...
Crescer?...
Olha para o alto
e vê as estrelas – guias! -,
delicia-se, aprende com elas,
mas não sai do seu lugar;
gosta de estar onde está.
Faz bem à essa petiz
ser o certo e o errado,
ser seu réu e jurado, -
ser seu próprio juiz.
Ao mágico som de sininhos,
brincadeira muito séria,
ser herói, ser heroína, -
vencer capitães,
saltar crocodilos,
sem deixar de ser menina;
singrar céus e mares,
atravessar mundos,
pirlimpimpar...
Voar, voar, voar,
ter um chão particular
entre as estrelas e o mar...
Voar, voar, voar...
Livre.
ju rigoni (mar/2011)
Bjs, amigo. Inté!
Ju,
Acho que o seu poema – "Da Síndrome" -, que a mim foi dedicado, não deve ficar restrito a este post do meu blogue, mas, ao contrário, deve ser editado no seu blogue para que mais pessoas possam lê-lo e apreciar essa bela construção poética com os seus matizes filosóficos.
Ju, não preciso dizer, pois, que apreciei muito este seu poema, e também, que me senti um pouco especial por tê-lo oferecido a mim, o que certamente me desvanece.
Abraços,
Pedro.
Quero agradecer ainda as visitas e aos comentários dos amigos:
FATITA VIEIRA.
JACQUE
LUIS COELHO.
O poeta português Luís Coelho é nosso amigo, já a algum tempo, e sempre que pode vem aqui no PANORAMA para prestigiá-lo.
Obrigado a todos, e um grande abraço.
Pedro.
Vim dar-lhe os parabéns por tão bela história que li no blog de sua esposa e reli com prazer aqui!
Bem tramada, realista ao extremo, ardilosa e direta!
Abraços renovados!
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