03/03/2011

PEDRO LUSO / A História do Oficial de Justiça

Iberê Camargo




   
[ESPAÇO DO CONTO]


                              

A História do Oficial de Justiça




        O circunspeto Romualdo era um bom oficial de justiça. Durante mais de dez anos executou com zelo o seu trabalho. A todos, no Forum, mostrava-se simpático, mas procurava impor certa distância para resguardar sua intimidade. As pessoas que o conheciam - juízes, promotores e serventuários da justiça -, dispensavam-lhe merecida atenção. 

        Essa pessoa de conduta ilibada, como diziam seus colegas, saiu certo dia, após o almoço, para fazer uma citação a três quadras de sua residência. Antes de acionar a campanhia da casa, onde residia a pessoa que procurava, o oficial de justiça retirou de sua pasta a cópia de uma petição, com o mandado judicial, e viu que iria citar uma mulher de nome Mafalda. 

        Apertou o botão da campanhia e aguardou um pouco. Uma mulher esguia e sedutora apareceu à porta, fazendo com que Romualdo desviasse o olhar, embaraçado. Disse-lhe qual o motivo de sua visita, e entregou-lhe um documento para que o assinasse. Mafalda devolveu-o assinado ao oficial de justiça, que o colocou na pasta, e depois ao retirar-se,  fez-lhe um gesto amistoso como forma de agradecimento.

        No dia seguinte, no Forum, Romualdo foi avisado por um colega seu que uma mulher queria falar-lhe ao telefone. Para sua surpresa, era a senhora que citara no dia anterior. Perguntou-lhe no que poderia ajudá-la e Mafalda surpreendeu-lhe: “Queria convidá-lo para tomarmos um cafezinho ou um aperitivo, no final da tarde”. Educadamente, o oficial de justiça recusou o convite. 

        Mafalda insistiria nesse convite até que Romualdo cedesse, o que ocorreu em menos de um mês. O encontro deu-se na casa de Mafalda, no final do expediente. A partir desse dia, os encontros nos finais de tarde tornaram-se rotineiros. Aos sábados e domingos, Romualdo desdobrava-se em atenção à esposa Eulália, e à filha. Depois de alguns meses, um sentimento de culpa sorrateiro começaria a abatê-lo. 

       Passados dois anos, Romualdo mal suportava o desgaste emocional pela vida dupla que levava; Mafalda, ao contrário, apegava-se mais e mais ao amante, e a paixão fugia-lhe ao controle, sem suspeitar que o sentimento do amante tomava direção oposta: a paixão que quase o fez enlouquecer não era mais a mesma do início, que agora aos poucos esmaecia. 

        O oficial de justiça antevia sua volta à vida rotineira: a família, os amigos, os colegas do Forum. Esses pensamentos deram-lhe a sensação da mais completa paz, o que fez com que tomasse a decisão de falar desses sentimentos à amante. Estava decidido a falar-lhe na sua próxima visita, que deveria ser a última. E assim acorreu: Romualdo dispensou rodeios, e, sem olhar nos olhos de Mafalda, disse-lhe que estava tudo acabado. E, de súbito, levantou-se e saiu às pressas. 

        Mafalda sentiu que iria morrer. Permaneceu por longo tempo sentada, o olhar pétreo, fixo na porta por onde Romualdo saiu. Com o corpo rígido, parecia imantada à poltrona, até que, aos poucos, foi se conscientizando do que se passara. Não derramou uma única lágrima. Simplesmente não aceitou essa ruptura e decidiu que não desistiria do amante. “Ele não tem o direito de me deixar”, repetia para si mesma.  

        A amante passou a seguir todos os passos de Romualdo: procurava-o todos os dias no Forum, e quando não o encontrava, deixava-lhe recados para serem entregues por seus colegas. Nervoso, lia as ameaças que lhe eram feitas. Em todos os lugares, o oficial de justiça deparava-se com Mafalda: quando saia de casa, quando deixava o trabalho, e até no curso das diligências, que fazia todos os dias, no desempenho de sua função. À noite, as ligações telefônicas não cessavam. Ele mesmo atendia ao telefone, ouvia as queixas de Mafalda, e, sem responder-lhe, desligava o aparelho.

        Passados alguns dias, já tomado de absoluta exaustão, Romualdo encontrava-se em casa, no seu pequeno escritório, separando os documentos para as citações que deveria fazer naquele dia, quando a esposa foi lhe entregar um pequeno envelope fechado. 

        - Um menino acabou de entregar-me - explicou a esposa, um tanto assustada com a reação estampada no rosto do marido.

        Romualdo esperou Eulália sair para abrir o envelope. Desdobrou a folha de papel e logo reconheceu a letra de Mafalda. Um sentimento de desgraça deixou-o abatido. No bilhete, a amante dizia que iria à sua casa para contar tudo à esposa. 

        O oficial de justiça voltou a sentar-se, abalado. Com as costas da mão, afastou os documentos que estava analisando e colocou o bilhete sobre a mesa. Por mais de uma hora ficou ali olhando aquele pedaço de papel branco cheio de rabiscos ameaçadores. Releu o que estava escrito no bilhete, uma, duas, três vezes. Depois, ficou apenas olhando um horizonte imaginário, mal suportando a pressão a que estava submetido. 

        De repente, tomado de incontrolável fúria, Romualdo apanhou o revólver e saiu em disparada, mal enxergando por onde corria. Corria sem nada ver à sua frente. Tenso, apertava com força a arma, sem parar de correr até chegar à casa da amante, quando, no momento em que a viu,  à porta,  sentiu uma incontrolável rigidez na mão, seguida pelos contínuos repuxos da arma.

        Passado algum tempo - Romualdo não podia estimar sua extensão-, encontrava-se ainda em frente à porta, mal se equilibrando, os olhos ardendo, a camisa encharcada de suor, quando, às suas costas, ouviu os estalidos das algemas que lhe eram colocadas.



                                                             (por  Pedro Luso de Carvalho)





15 comentários:

jair machado rodrigues disse...

Olá dr. Pedro, que belo conto, além do seu vasto conhecimento literário, o que me encanta, descubro mais um talento - o de escritor. Confesso que cheguei a criar os personagens na minha cabeça...bela descrição, encorpado, sem rodeios, mas uma bela escrita, muito bom; e esse final então, confesso que repeti a leitura, mas tornou-se claro para mim a história. Parabéns.
ps. Um grande abraço.

Luís Coelho disse...

Olá Bom dia Pedro
Peço desculpa pelas ausências prolongadas. Não quero arranjar desculpas pois nós sempre temos tempo para uma visita ainda que muito leve.
Algum cansaço e também o ambiente familiar tem sido um pouco agrestes.

Custou-me muito a saída do meu filho daqui de casa. De um dia para o outro ficámos sós.
- Deixemos a vida acontecer -

Gostei desta história e lembraram-me tantas outras incógnitas sem este desfecho....
Hoje a sua pena prendeu-nos e encantou-nos com uma narrativa de boa prosa.
Uma história perfeita.
Fragilidade humana............

Fatita Vieira disse...

Pedro,

O seu blog é um primor.

Parabéns pelo bom gosto de tudo que há nele e, mais ainda, pelos seus textos.

Abraços!

Graça Pereira disse...

Uma história bem contada e delineada, mostrando as tuas belissimas qualidades de escritor.
O enredo prendeu-me e o desfecho surpreendeu-me!
Acontece a quem se mete por becos sem saída, restando muito poucas ou nenhumas alternativas!
Espero que o conto não seja apenas uma leve incursão pela área e possa ler aqui, muitos e muitos mais.
Parabens!

beijo
Graça

Jacque disse...

Pedro....... Achei vc no Blog da Graça... Vc é de PoA? Eu tb !
Vim convidar pra ver meu vídeo Blog SENTIMENTOS
http://sentimentos-jacque.blogspot.com/

ju rigoni disse...

Pedro, esse não é o primeiro conto seu que leio. O último que você publicou ainda está bem vivo em minha mente, especialmente o desfecho. Num e noutro todos os elementos que mantem vivo o interesse do leitor. Num e noutro a morte vive. Estou (e sou muito) curiosa; quero ler mais! Muito mais. Cuide de publicar seus escritos também.

Bjs procê e pra Taís. Inté, amigo.

Pedro Luso de Carvalho disse...

Caro Jair,

No meu entender, todo o ficcionista - romance, novela ou conto - escreve para alcançar alguém que o leia. É para isso que se escreve, não tenho dúvida. Eu sempre fico muito contente quando sei que o que escrevo é bem aceito; esse fato compensa todo o esforço dispendido para esse fim.

Um abraço,
Pedro.

Pedro Luso disse...

Graça,

Receber tua visita é uma alegria; já os elogios que dás pelo meu conto "A História do Oficial de Justiça", vindo da pessoa sensível, inteligente e culta que vem, só posso recebê-los como um importante incentivo para continuar escrevendo.

Abraços,
Pedro

Celêdian Assis disse...

Bom dia, Pedro!

Tive enorme prazer em ler seu conto. A narrativa transcorre leve, mesmo que impregnada de suspense e culminando em um desfecho que surpreende o leitor. O perfil pacato e a retidão de caráter do oficial de justiça, contrapondo-se à suposta ousadia de Mafalda, presumivelmente levaria a outro desfecho e no entanto, o personagem nos surpreende com a sua atitude, a de praticar além do adultério, o crime. Eis ai uma esplêndida exposição do quão inusitado é o comportamento humano, quando existe uma situação que ameaça-lhe a estabilidade moral.
Fantástico!
Um abraço,
Celêdian

Pedro Luso disse...

Celêdian,

É com satisfação que leio o seu comentário sobre este conto, por motivo que julgo ser importante, qual seja, o de você ter feito a leitura de “A Morte do Oficial de Justiça” com a sensibilidade e o conhecimento, que efetivamente tem, de certos princípios da análise literária.

Quando o escritor fica sabendo, por quem o lê, que contou sua história dentro de certos princípios que norteiam a arte literária, e que ao observar seus requisitos essenciais não toldou o que tinha em mente, ao contrário, conseguiu ser entendido como desejava, sente-se realizado na sua empreitada.

E quanto ter conseguido esse objetivo, com meu conto, Calênciam, soube-o com a sua análise, o que, sem dúvida, é muito bom.

Abraços,
Pedro.

Pedro Luso disse...

Dos poemas que li de Ju Rigoni, não saberia dizer qual o melhor deles. Poderia dizer, isto sim, qual deles tocou-me mais, neste ou naquele dia.

Às vezes lemos um poema – não importa qual seja o poeta – que, em determinado dia, passa-nos despercebido, como se fora uma notícia de jornal; mas, se esse mesmo poema for lido por nós em outra ocasião, quando estivermos menos preocupados com coisas materiais que nos cercam, com nosso egoismo e nossas vaidades, poderá ter força suficiente para elevar-nos, dando-nos alguma alegria, algum conforto espiritual, o perdão que buscávamos pelas mágoas que causamos a alguém. Como qualquer outra coisa, também a poesia dependerá de nosso humor.

Não foi por outro motivo que Ezra Pound disse que “poesia é a linguagem consagrada ao máximo de significação, levada à maior concentração possível de sentido”. [In “Rilke, Pound e Neruda. Três Mestres da Poesia Contemporânea”, de J. M. Ibáñes Langlois, São Paulo, Ed. Nerman, 1978, p. 93].

Não raro recebo e-mails de alunos que perguntam o que deverão fazer para sua iniciação na escrita ficcional e a escrever crônicas; a essas perguntas, respondo, invariavelmente, que a poesia é um dos caminhos mais importantes para esse fim; enfatizo que, por meio da leitura habitual de poemas, eles poderão aprender a escrever de forma sintética, com ritmo e melodia. Isso, para ficarmos apenas na forma do poema.

A essas pessoas, que fazem esse tipo de questionamento, não teria dúvida em aconselhá-los, como de fato não tenho, a fazerem a leitura dos belos e singulares poemas da JU.

Parabéns a você Ju, pelo seu brilhante trabalho em prol da Poesia.

Abraços,
Pedro.

ju rigoni disse...

Da Síndrome
(Para o amigo Pedro Luso)

Sim, é maiúscula a POESIA, -
e não me refiro à minha.
A minha é minúscula,
é só uma criança,
e tão danadinha!...

Crescer?...

Olha para o alto
e vê as estrelas – guias! -,
delicia-se, aprende com elas,
mas não sai do seu lugar;
gosta de estar onde está.

Faz bem à essa petiz
ser o certo e o errado,
ser seu réu e jurado, -
ser seu próprio juiz.

Ao mágico som de sininhos,
brincadeira muito séria,
ser herói, ser heroína, -
vencer capitães,
saltar crocodilos,
sem deixar de ser menina;
singrar céus e mares,
atravessar mundos,
pirlimpimpar...

Voar, voar, voar,

ter um chão particular
entre as estrelas e o mar...
Voar, voar, voar...

Livre.

ju rigoni (mar/2011)

Bjs, amigo. Inté!

Pedro Luso disse...

Ju,

Acho que o seu poema – "Da Síndrome" -, que a mim foi dedicado, não deve ficar restrito a este post do meu blogue, mas, ao contrário, deve ser editado no seu blogue para que mais pessoas possam lê-lo e apreciar essa bela construção poética com os seus matizes filosóficos.

Ju, não preciso dizer, pois, que apreciei muito este seu poema, e também, que me senti um pouco especial por tê-lo oferecido a mim, o que certamente me desvanece.

Abraços,
Pedro.

Pedro Luso disse...

Quero agradecer ainda as visitas e aos comentários dos amigos:

FATITA VIEIRA.
JACQUE
LUIS COELHO.

O poeta português Luís Coelho é nosso amigo, já a algum tempo, e sempre que pode vem aqui no PANORAMA para prestigiá-lo.

Obrigado a todos, e um grande abraço.

Pedro.

JGCosta disse...

Vim dar-lhe os parabéns por tão bela história que li no blog de sua esposa e reli com prazer aqui!

Bem tramada, realista ao extremo, ardilosa e direta!

Abraços renovados!