22/04/2010

CARTAS ENTRE EINSTEIN E FREUD


por Pedro Luso de Carvalho

As cartas, de pessoas ligadas aos mais variados ramos do conhecimento, constituem-se em documentos importantes para a História da Ciência e das Artes, como para a História da Civilização, uma vez que o missivista relata fatos de uma determinada época sobre a existência de acontecimentos, como ocorre com os documentos oficiais (institucionais), que, igualmente, se prestam, como ensina Jolivet, para o estudo dos fatos do passado que influíram na evolução das sociedades humanas.


Sendo assim, não se faz necessário fazer qualquer comentário sobre a carta que Albert Einstein escreveu a Sigmund Freud, que passou a integrar o livro Vida e Obra de Sigmund Freud, escrito por Ernest Jones, o biógrafo mais importante do criador da Psicanálise:


“Princeton. 21.4.1936,
Verehrter Herr Freud: Sinto-me contente de que esta geração tenha a boa sorte de poder valer-se da oportunidade para expressar-lhe o seu o seu respeito e a sua gratidão, na qualidade de um dos seus maiores educadores. Indubitavelmente, o seu trabalho não criou facilidades para as pessoas leigas, marcadas pelo ceticismo, viessem a formular um julgamento independente a respeito. Até a bem pouco tempo podia eu aprender tão-somente o poder especulativo de suas concepções, juntamente com a sua enorme influência sobre a Weltanschauung da era presente, sem achar-me em condições de formar uma opinião conclusiva acerca do grau de verdade que nelas se continha.


Não há muito tempo, no entanto, tive a oportunidade de ouvir umas poucas coisas, em si mesmas não muito importantes, que, segundo o meu juízo, excluem qualquer outra interpretação que não seja a oferecida pela teoria da repressão. Senti-me satisfeito em ter dado com essas coisas, já que é sempre encantador quando uma grande e bela concepção prova a sua harmonia com as coisas da realidade.
Seu A. Einstein".


No final da carta que escreveu para Sigmund Freud, em post scriptum, Albert Einstein pediu-lhe: “Por favor, não responda a esta carta. Meu prazer em valer-me da ocasião para escrever-lha já me é suficiente”. Tal pedido, no entanto, não foi por atendido por Freud, que, segundo Ernest Jones (Vida e Obra de Sigmund Freud), não tardou a responder-lhe:


“Viena, 3.5.1936,
Verehrter Herr Einstein: São vãs as sua objeções para que eu não responda à suas amável carta. (Freud então responde à carta de Einstein):


"Efetivamente preciso dizer-lhe quão satisfeito fiquei da alteração havida no seu julgamento – ou, pelo menos, início de alteração. Sem dúvida que eu sempre soube que você me “admirava” por uma questão de cortesia e que acreditava muito pouco em quaisquer das minhas doutrinas, embora freqüentemente eu me perguntasse a mim mesmo o que, na verdade, havia nelas para ser admiradas, se não fossem a expressão da verdade, isto é, se não contivessem uma larga medida de verdade.


Incidentalmente - prossegue Freud -, não acredita você que eu teria sido mais bem tratado se as minhas doutrinas contivessem uma porcentagem maior de erros e de extravagâncias? Você é tão mais moço do que eu que posso esperar contá-lo entre meus “seguidores” quando atingir a minha idade. Uma vez que, então, não poderei certificar-me disso, antecipo agora o prazer dessa possibilidade. (Você bem sabe o que se passa na minha cabeça: ein Vorgefühl von solchem Glück geniesse ich etc.)

In herzlicher Ergehenheit und unwandelbarer Verehrung, IhrFreud”.


Sigmund Freud nasceu em 6.5.1856, em Příbor, República Checa, e faleceu em 23.9.1939, em Londres, Inglaterra. Albert Einstein nasceu em 14.3.1879, em Ulm, Alemanha, e faleceu em 18.4.1955, em Princeton, EUA. Recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921. A correspondência entre Sigmund Freud e Albert Einstein (Por quê da guerra?), foi publicada em 1933, na Europa e nos Estados Unidos.



REFERÊNCIAS:
JOLIVET, Régis. Vocabulário de Filosofia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1975, p. 110.
JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p. 743-744.


11/04/2010

QUEM FOI LENIN? - QUARTA PARTE





por Pedro Luso de Carvalho



Em Quem foi Lenin – Terceira Parte, descrevi fatos relacionados com a vida que o casal levava no exílio, em Genebra, que antecederam à sua volta Rússia. Neste texto pretendo abordar fatos ligados ao seu retorno à pátria, em 16 de abril de 1917, quando Lenin e Krupskaia, sua mulher, tomaram um trem que, através da Alemanha levou-os à Suécia e depois à Russia, juntamente com trinta e dois outros revolucionários. Na estação de Petrogrado foram recebidos com flores, refletores, discursos e bandeiras, recepção que desgradou Lenin, por estar a revolução apenas no começo, e já havia deomonstrações de falsas aparências burguesas.


As autoridades que alí estavam para recepcão, foram ignoradas; Lenin, dirigiu-se diretamente aos soldados e operários, para incitá-los a acabar com a revolução operária. A multidão que o aplaudia escolta Lenin, no carro blindado em que se encontra, até o quartel-general dos bolchevistas, intalado no palácio que fora de Ksesinskaia, uma bailarina que fora amante de Nicolau II. Aí Lenin iniciou uma batalha que, em seis meses, o levou a chefe de Estado.


Referindo-se à chegada do líder do seu exílio, escreve Christopher Hill (Lenin), que: “No dia de sua chegada a Petrogrado, o Ministro das Relações Exteriores recebeu da Embaixada Britânica um memorando no qual Lenin era citado como homem extremamente perigoso e excelente organizador, que muito provavelmente haveria de encontrar numerosos adeptos na capital russa”.


A História registra que Lenin foi o teório organizador e líder da revolta. No entanto, sua figura não era familiar ao Soviete (menchevistas), por ter andado escondido durante os meses imediatamente anteriores à revolução; não apenas por isso, mas também porque preferia deixar o Soviete entregue a seus camaradas, que se distinguiam pela oratória.


Mas, na manhã de 8 de novembro de 1917, Lenin dirigiu-se ao Soviete de Petrogrado, para o trabalho que tinha que ser feito. Foi recebido com aplauso de camaradas entusiasmados, que, a um sinal seu, cessaram com o aplauso; Lenin foi direto ao assunto: “A revolução dos operários e camponeses, cuja necessidade urgente sempre foi proclamada pelos bolcheviques está nas ruas... Esta terceira revolução, em suas últimas consequências, tem de levar à vitória do socialismo”.


Após às teses de abril, a nova linha estatégica de Lenin, que seria adotada pelo partido, com os conselhos de deputados do povo, com todos os poderes numa República dos Sovietes, os bolchevistas conquistaram a maioria dos Sovietes e deram continuação ao novo programa: suprimir a polícia, o exército e o corpo de funcionários; confiscar todos os bens dos proprietários rurais; nacionalizar todas as terras; fundir todos os bancos num único banco nacional, controlado pelos trabalhadores. Aí estava, dizia Lenin, o primeiro passo para uma nova ordem.


Cumpre não esquecer que em 1917 ainda estava em curso a Primeira Guerra Mundial, na qual a Rússia integrava-a, por ter assinado o tratado da Triple Entente como um dos aliados contra a Alemanha. Por isso, as teses de abril tinha com um dos seus pontos a proposta de paz com a Alemanha, que causou reações contundentes por partes de todos que eram favoráveis ao prosseguimento da guerra ao lado dos aliados, sentimento que os leva a desencadear forte campanha difamatória contra Lenin.

As relações do líder com governo alemão, foram o alvo preferido pela imprensa liberal (Lenin voltou à Rússia depois de ter atravessado todo o território alemão, até a Suécia, com o seu país em guerra contra a Alemanha, sem ser molestado pelos alemães). Sobre o fato de Lenin ter atravessado a Alemanha, em 1917, com este país em guerra (Primeira Guerra Mundial) contra os aliados, o jornal italiano A Tribuna, assim se manifestou, em 29.04.1917:


“Lenin disse que foi obrigado a passar pela Alemanha porque a França não lhe permitiu transitar pelo país. Entretanto uma autoridade diplomática francesa noticiou que o Sr. Lenin jamais sonhou em pedir um sal-conduto para o território francês”.


No mês de abril de 1917 Lenin econtra-se isolado, mas isso não significaria que fosse perdurar tal isolamento; o tempo e os fatos fariam mudar essa situação: a burguesia e o proletariado não mais poderiam permanecer unidos pelo ódio contra a autocracia, de um lado, e, de outro lado, o soldado russo encontrava-se em mortal cansaço, e recusava-se a continuar combatendo no primeiro conflito mundial. Então o partido bolchevista logo tiraria vantagens importantes por ser o único partido qua havia se colacado ao lado do proletariado e contra a burguesia; mais ainda: era o único partido que queria a paz com a Alemanha.


Em futura postagem, continuaremos a contar um pouco mais da história de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin. Para ler o primeiro texto, clique em QUEM FOI LENIN ? - PRIMEIRA PARTE.




REFERÊNCIAS:
WALTER, Gerard. Lenin. Paris: Edições Albin Michel, 1971.
PALTRINIERE, Marisa. Lenin. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1975.
FOTIEVA, L. Lenin. Trad. de Zuleika Alambert. São Paulo: Editora Fulgor, 1963.
HILL, Christofher. Lenin e a Revolução Russa. Trad. De Geir Campos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1963.