29 de mar. de 2010

RADUAN NASSAR / Um Clássico Moderno




por Pedro uso de Carvalho


Raduan Nassar nasceu em 1935, na cidade de Pindorama, SP, onde passou sua infância. Seus pais, imigrantes libaneses, mudaram-se com a família, ainda na adolescência de Raduan, para a capital paulista, onde cursou direito e filosofia na USP. Também exerceu o jornalismo como diretor de um pequeno jornal da capital, Jornal do Bairro. Estreiou na literatura em 1975, com o romance Lavoura arcaica. Três anos depois, 1978, publica a novela Um copo de cólera, obra que foi escrita em 1970. Logo depois dessa edição, Raduan abandona a literatura.


A Companhia Das Letras publicou em 2003, Lavoura arcaica, em sua 3ª edição, 18ª reimpressão. Sobre Lavoura arcaica; por ocasião do seu lançamento, em 1975, assim se manifestou disse Alfredo Bosi: “uma revelação, dessas que marcam a história da nossa prosa narrativa”. Como disse Octávio Lanni: "Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim.”


Quanto à novela Um copo de cólera, que, como vimos, foi publicada em 1978, e depois editada pela Companhia das Letras, em 2002, em sua 5ª edição, 12ª reimpressão. A história, contada pelo autor de forma singular - a segunda obra clássica de Raduan Nassar -, comprova a sua genialidade pela densidade e pela atmosfera de sua linguagem, que dá à novela. A crítica a considera uma das mais importantes narrativas de nossa literatura moderna. Depois de publicar Um copo de cólera, Raduan Nassar desiste de escrever e passa a dedicar-se à atividade rural.


Mais tarde, cerca de vinte anos, aparece o seu livro Menina a caminho; são contos reunidos de Raduan, escritos nos anos 60 e 70, e que somente em 1997 foram publicados. Essa excelente obra, Menina a caminho (que é o título do primeiro conto do livro, e foi a primeira obra de ficção de Raduan), teve a sua 2ª edição (3ª reimpressão) pela Companhia das Letras, em 2002. Os contos, que compõem o livro, 83 págs., são: Menina a caminho, 'Hoje de madrugada, O vento seco, Aí pelas três da tarde e Mãozinhas de seda. Depois da leitura desses contos, a sensação que sentimos é a de que faremos uma releitura do livro, não para fazermos alguma apreciação crítica, mas, simplesmente, para sentirmos de novo o prazer que essas histórias nos proporcionaram.


Quanto ao fato de Raduan Nassar ter deixado de escrever, ainda tão jovem, e depois de ter publicado com sucesso um romance e uma novela, obras que deram novo fôlego à literatura brasileira – dois livros ontológicos - muitas perguntas tem sido feitas por escritores, leitores e críticos literários, ao longo dos anos, sobre os motivos que levaram Raduan a deixar de escrever. O próprio Raduan nunca chegou a esclarecer de forma convincente por que tomara essa decisão. Aliás, ele diz não saber como tudo terminou.


Por tudo o que dissemos, acho oportuno abordarmos a entrevista (rara) concedida pelo escritor à revista CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, número 2, setembro de 1996 (na época dessa entrevista, fazia doze anos que Raduan havia deixado de escrever). É interessante dizer que a matéria desse número 2, da revista, foi integralmente dedicada a Raduan Nassar, na qual está incluida a intrevista com o escritor, que CADERNOS dá o título de Conversa, cuja introdução (parte ) é a seguinte:


“Para Raduan Nassar, o capítulo menos atraente da literatura sempre foi o do burburinho literário – noites de autógrafos, debates, assédio da imprensa. Resultado: ele jamais admitiu autografar suas obras em festas de lançamento, não hesitou em comparecer a um encontro de escritores na França só para dizer à platéia que nada tinha a declarar e descobriu um modo educado de falar aos jornalistas que pode recebê-los, sim, a qualquer hora, desde que a conversa não gire em torno de literatura ou tema afins. Não é de estranhar, portanto, que sejam raras as entrevistas dadas por Raduan.”


Como é nossa intenção transcrever apenas um pequeno trecho da entrevista, de forma aleatória, principalmente no que diz respeito à renúncia de Raduan em escrever, vamos à primeira pergunta de "CADERNOS DA LITERATURA BRASILEIRA: O que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever? Raduan Nassar: Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei”.


Pergunta de “CADERNOS: Qual era, no início, o seu projeto literário? Raduan: O projeto era escrever, não ia além disso. Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também. Achava que isso bastava.”


Pergunta de “José Paulo Paes (da revista): Em entrevistas, você tem manifestado um relativismo radical em matéria de valores a ponto de dizer que não há criação artística ou literária que se compare a uma criação de galinhas. Esse relativismo estaria ligado à sua condição de ex-estudante de filosofia, ou representaria a destilação de uma experiência de vida? Ou um traço de seu temperamento? Raduan: Acho que tem um pouco de cada coisa, mas desconfio que tenha mais do meu temperamento, ou precisamente da minha falta de temperança. Se eu fosse um sujeito equilibrado, eu não teria tido a liberdade de fazer aquela afirmação. Só desequilibrados é que descobrem que este mundo não tem importância. O bom senso seria uma prisão.”


A revista pergunta, por “Octávio Lanni: Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim. A busca da realização, emancipação ou redenção é muito mais o caminho da danação. Você concorda com essa leitura? Raduan: Estou mais é sendo informado dessa sua leitura. Se o Lavoura passa a idéia de que a vida humana é uma danação sem fim, nesse caso a narrativa não é de se jogar fora. Só que essa danação poderia acontecer no âmbito de uma família patriarcal, em crise ou não. Seja como for, talvez a gente concorde nisso: nenhum grupo, familiar ou social, se organiza sem valores; como de resto, não há valores que não gerem excluídos. Na brecha larga desse desajuste é que o capeta deita e rola.”


Pergunta de “CADERNOS: Por que essa atitude de recusa radical em relação à teorias literárias? Você acredita que um autor possa dispensá-las? Raduan: Suponho que exista em toda obra uma teoria subjacente do autor, podendo ser apreendida pelos que eventualmente se interessem por ela. Mas quando um escritor faz a exposição da sua teoria, para suprir de significados uma poética que não consegue falar por ela mesma, acontece aí um evidente deajuste. A poética pretende ser revolucionária por desestruturar a linguagem convencional, só que seu autor, para explicá-la, acaba se socorrendo da mesma linguagem que usamos para pedir um copo d'água, o que é o fim da picada. Ou então a teoria tem cumulativamente caráter programático com o claro objetivo de arregimentar seguidores. Mas, nesse caso, o miolo da questão é outro. Seria mais sensato então que esse escritor fundasse um partido político. Sem rodeios.”


Pergunta de “CADERNOS: Mas as teorias não poderiam estar propondo inovações? Raduan: Acho que um texto efetivamente inovador, como tantos na história, pode acontecer sem alarde. Lima Barreto, que foi vítima de uma assassinato cultural em vida, como já disseram, reduzido que foi ao silêncio quase absoluto, desencadeou mudanças na linguagem narrativa antes de 22. Aliás, a melhor literatura brasileira não tem sido produzida aqui neste Estado, por que São Paulo faz tanto barulho.”
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Por fim, esta pergunta: “CADERNOS: Atualmente suas peocupações são outras. O tempo se encarregou de dispersar seu grupo de amigos e você acabou trocando a literatura pela atividade rural. Como é sua vida hoje? Raduan: Hoje minha vida é fazer no âmbito da fazenda evidentemente, num espaço em constante transformação, o que não deixa de ser uma outra forma de escrever. Além disso, tem em comum com a literatura o fato de eu não saber por quê. Então, é fazer, fazer, fazer.”


Assim terminamos a transcrição de apenas sete perguntas/respostas do total de setenta, que integram a entrevista. Por fim fazemos duas recomencações a quem possa ler esta matéria: primeira, leiam a obra desse extraordinário escritor, que é Raduan Nassar: Lavoura arcaica (romance), Um copo de cólera (novela), Menina a caminho (contos); segunda recomendação: procurem ler CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, núnero 2, setembro de 1996, de onde extraimos trechos da referida entrevista, que compõem parte deste texto (o problema será encontrar a revista; mas vale a pena tentar).




REFERÊNCIA:
DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Cadernos de Literatura Brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, nº 2, setembro de 1996.

23 de mar. de 2010

A MÚSICA ERUDITA DE BRAHMS




por Pedro Luso de Carvalho


Johannes Brahms, o terceiro filho do casal Johann Jakob Brahms e de Johanna Henrika, nasceu no dia 7 de maio de 1833. O pai do menino Johannes, que tocava contrabaixo na orquestra filamônica da cidade, percebendo o talento musical do filho deu-lhe as primeiras aulas de música; aos oito anos, passou a estudar piano com Otto Franz Cossel – o pai espera que, com o tempo, o menino se torne um virtuose desse instrumento.


Johannes queria dedicar-se à composição, além do piano, mas foi impedido pelo pai e pelo mestre Cossel; o piano exigia muita dedicação do aluno. Johann Jakob queria que o filho viesse ganhar dinheiro como pianista, e, para isso, queria que aprendesse a conviver com os rigores e o empenho que a profissão de músico exigia; e, para tanto, levou-o a tocar em bailes e em concertos populares.


Aos dez anos, Johannes havia avançado muito na educação musical, fato que levou o professor Cossel a aconselhar ao Sr. Brahmes a encaminhá-lo a um professor mais experirente. Johannes passou a estudar harmonia e composição, além do piano, com o conceituado músico erudito Eduard Marxsen. O mestre exigiu dele forte disciplina, ensinou-lhe o valor do estudo metodizado, e o essencial da música: o interior, que se opõe à exterioridade supérflua.


Já adolescente, por volta de 1845, Johannes Brahmes tocou em tavernas, em festas, fez orquestração para bandas e lecionou. Aos quinze anos, deu o seu primeiro recital, em Hamburgo, no qual obteve grande sucesso. Num outro recital, em 1849, Brahms apresentou peças de Beethoven, Bach e Mendelssohn. Marxsen, no entanto, impediu que o jovem Brahms fazesse novos recitais, para que seus estudos fossem concluídos com êxito, como ocorreu em 1852.


No ano de 1853, Brahms chegou a Düsseldorf, onde conheceu o compositor Robert Schumann e sua esposa Clara Schumann, exímia pianista. Clara passou a ser a sua melhor amiga, que o acompanhou na sua trajetória até a celebridade. Robert Schumann contibuiu muito para o êxito que viria alcançar, bem como anteviu a celebridade de Brahms. Depois que Robert Schumann faleceu, em 1857, o jovem Brahms passou a dedicar grande parte de seu tempo à viúva e a seus filhos.
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Na correspondência que manteve com Clara Schumann, Brahms externou-lhe a sua admiração, e possivelmente pensou em casar-se com ela; mas, em lugar dessa união, solidificou-se uma profunda e duradoura amizade entre ambos. (Boatos existiam sobre esse relacionamente entre Brahms e Clara.) Clara Schumann esteve sempre presente na vida de Brahms; sempre que o compositor precisava buscar alívio para os seus sofrimentos, ia para junto de Clara.

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No ano de 1859 Brahms dedicou-se, por pouco tempo, aos corais em Hamburgo e Detmold, alternando-se na direção de um e outro. Dessa data até 1862 concentrou-se na composição e edição de novos trabalhos. No final desse ano, mudou-se para Viena, onde era cultuada a música antiga, que lhe convinha, porque estava bem afastada da “música do futuro”, que era representada pelas óperas de Wagner, que dominavam a Alemanha. O primeiro recital de Brahms, na capital austríaca, deu-se com êxito, em 1863, no qual apresentou os seus lieder. Aí, assumiu a Diretoria da “Academia do Canto” da cidade.

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Todo entusiasmo de Brahms, com o êxito obtido em Viena, sofreu um forte abalo com a notícia que recebeu da Alemanha sobre a morte de sua mãe. A depressão que lhe acometeu levou-o a abandonar os trabalhos iniciados, os contratos de aulas e as excursões programadas. Então, refugiou-se na amizade de Clara Schumann, na cidade de Baden-Baden, onde residia a pianista. Mais tarde, em 1872, Brahms retornou a Baden-Baden para, junto de Clara, consolar-se pela morte de seu pai.


Por volta de 1874, Brahms sentiu-se cansado pela seqüência contínua de composições, pelas excursões, pelos concertos e pelo tumulto em decorrência de sua fama. Então, procurou uma casa nos arredores de Zurique, para escrever uma sinfonia que tinha em mente – precisa de tempo e sossego para concluir seu projeto, pois tinha grande respeito por esse gênero da música erudita. Mas, desenvolveu a sinfonia em outra casa, em Heidelberg; e somente conseguiu concluí-la junto de Clara Schumann, em Baden-Baden, onde oncontrava a verdadeira paz. (No ano de 1876, sua Primeira Sinfonia estreiou com grande sucesso, em Karlsruhe.)


Com sua Segunda Sinfonia, ocorreu fato semelhante à primeira: Brahms iniciou-a em Portscharch, na Áutria, mas a sua conclusão deu-se perto de Clara Schumann, na pequena cidade de Lichtental, próxima de Baden-Baden. A Segunda Sinfonia consagrou definitivamente o gênio de músico de Brahms, na sua estréia, em 1877, pela Filarmônica de Viena. A Terceira Sinfonia foi concluída em Wiesbaden, Alemanha, durante o verão de 1883; com ela, Brahms solidificou o seu prestígio como sinfonista, e foi apludido até pelos adeptos Wagner e de Brukner. A Quarta Sinfonia foi iniciada no ano seguinte, e foi concluída após dois anos de trabalho; essa sinfonia tornou-se peça do repertório das orquestras europeias mais importantes.


Os músicos predilétos de Brahms eram Dvorák e Grieg. Músicas de outros compositores, gostava apenas de algumas peças de Bizet, Massenet e Saint-Säens. Quando era levado a falar sobre a música de Brukner, dizia com a franqueza que o caracterizava: “É um mistificador, que sofre da doença sinfônica e compõe sinfonias baseadas num blefe”. Sobre as novas figuras e inovações das correntes musicais modernas, Brahms dizia que sempre procurou melhorar sobre os alicerces do passado.
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Johannes Brahms continuava compondo, tocando e regendo. Recebe inúmeros títulos honoríficos. Marie Schumann, filha de Clara, escreveu-lhe, em 1896, para comunicar a doença da mãe, que inspirava cuidados; Brahms ficou prostrado com a notícia. Em maio desse ano, o compositor encontrava-se em Ischl, tratando de sua sáude, quando recebeu a comunicação da morte de Clara Schumann; imediatamente, viajou para Bonn, para vê-la pela última vez, antes que fosse sepultada.


A morte de Clara Schumann abalou a saúde de Brahms. Os médicos do compositor não lhe disseram que ele estava com câncer no fígado; assim, coninuou a freqüentar teatros, concertos e festas, até que suas energias ficaram esgotadas. No dia 3 de abril de 1897, Joahnnes Brahms morreu, deixando uma obra imortal, como legado à humanidade, com seus lieder, sua música de câmara, obras para piano, suas quatro sinfonias, aberturas, concertos, o seu Réquiem Alemão, e o seu Concerto Duplo para Violino e Violoncelo.




REFERÊNCIAS:
SOLÉ, Julian Viñuales. Os GranDes Mestres da Música Clássica. Edições Folio, Barcelona, Espanha, 1997, págs. 31-36.
THOMAS, Henry e Dana Lee. Vidas de Grandes Compositores. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.

14 de mar. de 2010

ÉMILE ZOLA – Parte Final





por Pedro Luso de Carvalho
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Depois que Émile foi resprovado no exame vestibular que prestou na Sobernne, em novembro de 1859, faz nova tentativa, agora em Marselha, e, pela segunda vez, é reprovado, tendo como conseqüência a perda da bolsa que havia conseguido para os estudos jurídicos. Aos vinte anos, já de volta a Paris, escreve a Cézanne para confessar a sua insatisfação por estar vivendo às custas da família, que se encontra em péssima situação financeira.


Ao atingir a maioridade, Émile resolve pedir a nacionalidade francesa, já que era considerado estrangeiro, por ser filho de pai italiano, embora filho de mãe francesa, e de ele próprio ter nascido em Paris. Por essa época, morre o seu avô Aubert, que vivia com a filha Emilie, sua mãe . No final 1861, Zola começa a trabalhar na livraria Hachette, por indicação de um membro da Academica de medicina, amigo da família. Émile então é encarregado de entregar o cartão de visita da livraria a varios destinatários - uma espécie de office-boy. Mais tarde, passa para o serviço de publicidade.


Émile mostra suas poesias para seu patrão, que as acha boas. Este pondera que o grande público é mais receptivo à prosa, e que, com ela, um grande futuro o espera, desde que esqueça os versos. Émile Zola escreve, então, um conto com o título de 'Le Baiser', que foi publicado por La Revue du mois; esse mesmo conto foi aceito também por La Nouvelle Revue de Paris, que o publicou, mais tarde. Com essas publicações de Le Baiser, nasce o escritor Zola.


Na livraria Hachette, Zola torna-se chefe do serviço de publicidade, e passa a viver profundamente a vida literária de Paris. É procurado por muitos escritores conhecidos na livraria, para ouvir dele aconselhamentos, bem como para saber o número de vendagem de seus livros e ouvir conselhos técnicos. Zola aprende com eles os segredos da profissão de escritor. Zola sabe que o escritor só escreverá bons livros com muita dedicação, como sabe da importância de ser bem remunerado por suas obras.

A todos, no entanto, Zola trata com certa distância; os seus únicos amigos são apenas os três de Aix: Cézanne, Baille e Marguery. (Cèzanne tem planos para entrar nas Belas Artes, e faz o exame para admissão, mas é reprovado no concurso. Em 1863 Cézanne propõe expor suas obras no Salão, mas é recusado, como também foram recusados, com ele, Pissarro, Claude Monet e Édouard Manet – nos tempos de Napoleão III, a burguesia não permitia que mudassem seus hábitos intocáveis.) Em Paris, Zola é introduzido nos ateliês por Cézzane. Conhece os pintores de vangarda citados e mais: Degas, Renoir e Fantin-Latour.


Émile Zola reune várias narrativas curtas para compor o seu primeiro livro, que seria publicado novembro de 1864. O seu livro de contos é bem recebido pelo público e pelos jornalistas. Essa edição abre-lhe as portas para escrever artigos e novelas para Petit Jounal , entre outros. Depois publica o romance autobiográfico La Confission de Claude; os críticos estão dividido entre os que gostam da obra e os que a acham injuriosa. O livro não foi um sucesso, mas Zola acredita que um grande público ainda vai aclamá-lo ou odiá-lo.


Com a morte de seu protetor, Louis Hachette, os novos diretores não são receptivos aos escritores de vanguarda, e Zola, escritor audacioso, necessita de liberdade para as suas obras. A publicação que fez de versos seus num jornal de esquerda (Le Travail - Clemenceau é o como diretor) chamou a atenção da polícia, que passou a vigiá-lo no escritório da livraria e na sua residência.


Émile Zola agora é um escritor profissional. Muda-se para um apartamento na rua de l'École-de-Médicine, onde passa a viver com a sua amante Alexandrine Meley, companheira dedicada, que se preocupa com seu trabalho e com sua saúde. Aí , reúne a cada quinta-feira, os companheiros Cézanne, Baille, Solari, Pajor e Pissarro. Tomam vinho, discutem arte e literatura. Zola sente-se seguro como escritor e está seguro de que ganhará dinheiro nessa profissão. Sem dúvida, o futuro o aguardava como um grande escritor, e também um combativo jornalista.


Émile Zola Escreveu, além das obras já mencionadas: A Confissão de Claude, O Desejo de uma Morta, Teresa Raquim, Os Rougon-Macquart, A Fortuna dos Rougon, Naná, Germinal (para muitos, sua obra-prima), A Besta Humana, A Taberna e Doutor Pascal, Os Quatros Evangelhos , Eu Acuso .


Com esta terceira postagem, encerro a trilogia sobre Émile Zola. Pretendo aguardar alguns meses para, novamente, escrever sobre Zola; dessa vez, fazendo uma abordagem sobre o seu famoso libelo Eu Acuso, escrito em 1898, em defesa de Alfred Dreyfus, oficial francês que, sem provas, foi acusado de espionagem, devido ao fato de ser judeu; depois foi julgado e condenado injustamente pelo crime que, ardilosamente, lhe foi imputado.


Émile Édouard Charles Antoine Zola nasceu no dia 2 de abril de 1840, em Paris, França. Em Aix-en-Provence, como vimos na primeira postagem, passou a maior parte de sua infância; e aí também, recebeu a maior parte de sua educação formal. Aix e Paris foram as cidades mais importantes para o escritor. Zola morreu em Paris, em 28 de setembro de 1902.
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(Para ler a postagens anteriores, clique em ÉMILE ZOLAPARTE I, ou PARTE - II. )


REFERÊNCIAS:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.

7 de mar. de 2010

ÉMILE ZOLA - PARTE II

por Pedro Luso de Carvalho
Como vimos na postagem anterior a esta, Émile Zola não negligencia os seus estudos no colégio Bourbon, em Aix; por seu esforço, ganha o concurso de melhor aluno do colégio, em 10 de agosto de 1853, entre outros prêmios. Os seus novos amigos, dentre eles Paul Cézanne, fazem-no sentir à vontade no colégio, que, como vimos, é freqüentado por filhos de pessoas de posses. Aí passa a dedizar-se à leitura de grandes escritores, e a dar os seus primeiros passos na arte da literatura, quando escreve a comédia Enfoncé le pion, e uma novela Les Grissettes de Provence. Nessa época em que Émile obtém grande progresso nos estudos, sua família, que havia se mudado do beco Sylvacanne, para um pequeno alojamento na periferia, muda-se mais uma vez; agora, para uma casa muito pobre, de apenas dois cômodos, na rua Mazarine. Émilie Zola – mãe de Émile - vai à Paris, e aí, junto aos advogados tenta reverter a situação criada por Jules Migeon, que fora sócio de seu marido, no que respeita à dissolução da Sociedade do Canal. Em outubro de 1857, morre repentinamente a vovó Aubert, mulher forte e corajosa, mãe de Émilie e avó de Émile. Enquanto Émilie Zola faz novas incursões à Paris, agora buscando ajuda do senhor Thiers, pessoa que sempre se mostrou atencioso para com François Zola, seu finado marido, Émile faz companhia ao avô, que se encontra abatido com a morte da esposa; mas, o jovem não exita em encontrar-se muitas vezes com seus amigos, principalmente com o que lhe é mais íntimo, Paul Cézanne. Émile gosta desse convívio com o seu amigo Cézanne, arrebatado e intratável, que sonha com a pintura. O pai de Cézanne, no entanto, faz séria objeção a essa amizade; o banqueiro não se conforma com o desnível social existente entre o seu filho e Émile. Tal objeção, no entanto, ajuda a estreitar mais ainda esse laço de amizade entre os dois jovens. Aqui, abro um parêntesis para dizer algumas palavras sobre Paul Cézanne: pintor francês (Aix-en-Provence, 1839 – id.,1906) como seus amigos impressionistas, praticou a pintura ao ar livre, mas esforçou-se por fazer a pintura segundo sua própria expressão. Achava que a “reflexão modifica a visão”. É considerado um dos precursores da arte moderna. Paul Cézanne somente foi reconhecido em Paris, depois de muito tempo. Em vida do artista, poucas obras suas foram vendidas. Ao dizer, que, só às vésperas de sua morte podia vislumbrar a terra prometida, Cézanne perguntava-se: “Por que tão tarde e com tanta dificuldade?” Em 2001, o quadro Montanha de Santa Vitória, de Paul Cézanne, foi vendido no leilão da Casa Phillips, nos Estados Unidos, por cerca de 38 milhões de dólares. Fecho o parêntesis. Em fevereiro de 1858, Émile recebe uma carta de sua mãe, que se encontra em Paris, que o deixa apreensivo, e que o faz antever a dor da separação dos seus passeios nas fontes de Aix e dos seus insubstituíveis amigos; diz na carta a senhora Émilie Zola: “A vida em Aix é insustentável, venda os quatro móveis que nos restam. Com o dinheiro, você terá como comprar seu bilhete de terceira classe e o do seu avô. Não demore. Espero por você.” Atendendo o pedido de sua mãe, Émile e seu avô chegam a Paris, cidade que pouco conheceu na sua infância. Suas ruas cinzas e frias, são muito diferentes das ruas ensolaradas de Aix; Émile teme não poder adaptar-se em Paris, onde passa morar com sua mãe Emilie e o avô, na rua Monsieur-le-Prince, 63. Sua mãe diz que fez sua matrícula , como meio bolsista, no venerável liceu Saint-Louis, na seção de ciências. Émile está com dezoito anos. A sua adaptação aí seria muito difícil, já que teria que conviver com jovens burgueses zombeteiros, elegantes, que lêem jornais e acompanham as novidades da política, das atrizes, e tudo o que acontece na sociedade parisiense. Sente-se incomodado por ser mais velho que a maioria dos seus colegas, parecendo-lhe ser intelectualmente inferior. Émile não perde o contato com Aix, para onde retornaria em suas férias, junto com sua mãe, para o convívio com os amigos. Escreve e recebe cartas de Cézzane, Baille e Marguery. A estes, Émile fala de seus projetos literários, de suas leituras, da solidão e das mulheres. Essa correspondência absorve-o a ponto de negligenciar os estudos. Émile não é mais o aluno aplicado de Aix. Interessa-se apenas pela literatura francesa, principalmente Hugo e Musset. Interessa-se também por Rabelais e por Montaigne. Prefere os escritores românticos – esses escritores são livres das amarras político-sociais -, aos tediosos clássicos. Termina o ano escolar apenas com o prêmio de segunda colocação, em francês. Dois fatos deixa-o prostrado ao retornar à Paris, depois de suas férias em Aix: a febre tifóide, que o acomete, e o despejo do apartamento em que mora com a mãe e o avô, na rua Saint-Jacques, 241, por falta de pagamento do aluguel. Émile sente que terá de obter uma posição que lhe dê uma boa remuneração. Passar no vestibular para o curso de Direito, será o primeiro passo, para depois tornar-se advogado. É o que diz em carta ao amigo Baille, em 23 de janeiro de 1859: “... É apenas um meio de chegar, é o trabalho... Eu digo, por algum tempo, adeus aos meus belos sonhos dourados, certo de vê-los, em profusão, acolhendo-me quando minha voz vier a chamá-los, de novo, numa época melhor”, conclui. Émile tinha razão, quando disse que os sonhos dourados não o abandonariam. A literatura atrai-o, enquando a ciência o confunde. Fala sobre esse sentimento ao amigo Marguerry, na carta que lhe escreve: “Não sou mais o Zola que trabalhava, que amava a ciência, que seguia como podia rumo ao abismo do ensino universitário. Você é um amigo, posso lhe contar muitas coisas: ora, saiba que me tornei um preguiçoso incorrigível, a álgebra me dá dor de cabeça, e a geometria me passa um horror tal que me arrepio só de ver um inocente triângulo... Tudo isto é uma trajetória para lhe dizer que, não fazendo nada, não serei aceito para o exame de bacharelado”. Quanto às provas de exame vestibular, que faria na Sorbonne, Émile previra que não seria aprovado, em razão das dificuldades que tinha nas matérias de física, química e matemática. Mas, para sua surpresa, encontra o seu nome na lista dos aprovados, na fase escrita. Na prova oral, no entanto, Émile erra ao responder a data da morte de Carlos Magno. Depois, perde-se na resposta sobre obra de La Fontaine; e, na prova da língua alemã, demonstra pouco conhecimento. Então, os membros da mesa examinadora decidem, para a perplexidade de Émile, reprová-lo em literatura. Em postagem anterior, editamos a primeira parte da vida e da obra de Émile Zola. Depois desta segunda parte, voltaremos a contar a história desse importante escritor francês. (Para ler a primeira postagem, clique em: ÉMILE ZOLA – PARTE I.) REFERÊNCIAS:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.
DERENGOSKI, Paulo Ramos. Olhar brasileiro sobre grandes pintores. Lages: Editora Inês, 2004.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.

3 de mar. de 2010

ÉMILE ZOLA - PARTE I

por pedro Luso de Carvalho Émile Zona tinha 7 anos quando seu pai, o engenheiro italiano François Zola, faleceu em Marselha, França, março de 
1847. O menimo Émile assiste ao funeral de seu pai junto de sua mãe Émilie, que, segurando-lhe a mão, soluçava ao despedir-se do marido, na solenidade que lhe prestavam os cidadãos de Aix. Acompanham o cortejo fúnebre, que atravessa a cidade, segurando os cordões do pano mortuário o vice-prefeito, o prefeito, o engenheiro do distrito e um advogado do Conselho do rei e do Supremo Tribunal. A viúva Emilie Zola recebe condolências das pessoas que vão até sua casa visitá-la e ao menino Émile. Além do sofrimento pela perda do marido, à sua profunda tristeza somam-se as preocupações para manter-se a si e ao filho, devido a péssima situação financeira que se encontra. Os credores do marido não a deixam em paz. Essa situação, pela qual passa a viúva, é agravada pela posição tomada Jules Migeon, que quer ver dissolvida a Sociedade do Canal, para resgatar o que havia perdido na sociedade com François Zola, sociedade essa que foi criada com este para a construção de um canal de irrigação para abastecer de água a cidade de Aix. Não resta alternativa à vúva: em toda a parte ela distribui ações do canal como garantia da dívida. A familia deixa então o beco Sylvacanne, sem dinheiro algum, trocando o imóvel em que morava, cujo aluguel era muito alto, por um alojamento pequeno e mais barato, num bairro da periferia, onde moram pedreiros italinos e ciganos desonestos. Depois, decide-se por increver o menino Émile como aluno no pensionato-escola Notre-Dame. Situado às margens do sinuoso rio Torse, encontra-se o pensionato-escola Notre-Dame. Aí o menino Émile encontra muita coisa que irá seduzí-lo. Émile, que mal sabe ler, hesita escrever as letras sobre um papel, e o diretor obriga-o a decifrar, depois da aula, as fábulas de La Fontaine. Dentre algumas dezenas de alunos espertos, o menino escolhe dois deles para serem seus amigos; com eles brinca de bola de gude, de pião, de atiradeira. Émile sente que está decidido pela educação. Contava com doze anos quando sua mãe o tranfere do educandário Notre-Dame para o austero colégio Bourbon, em Aix, onde poderia receber visitas de sua mãe e de sua avó todos os dias, já que permanecia em regime de internato. Aí não se sentia à vontade, como ocorria com os meninos pobres e barulhentos do educandário Notre-Dame. Contra ele pesava o preconceito dos demais alunos do colégio Bourbon, por ser bolsista, que significa ser indigente. Sente-se desconfortável no meio de crianças que fazem parte de uma sociedade rica; para eles, filhos de burgueses provençais, Émile é o Franciú, o estranho, o intruso. Por isso o menino passa a ser perseguido por eles, com seus sarcasmos. Dentre esses meninos ricos, por sorte de Émile, um deles passa a dar-lhe proteção; trata-se um menino moreno, grandalhão, de nariz quebrado, e um ano mais velho que ele, que se chama Paul Cézanne. Émile não se demora em tranquilizar-se e a enfrentá-los. E logo embrenha-se nos estudos, tomado de um sentimento de raiva, e ganha o concurso de melhor aluno do colégio, em 10 de agosto de 1853, além de outros prêmios: concurso de recitação clássica e de gramática francesa. Emilé sente que após essa consagração não mais perderá sua reputação. Então passa a gostar de sua nova escola. Além de Paul Cézanne, filho de um banqueiro, que sonha tornar-se pintor, faz outros dois bons amigos: Baptistin Baille e Louis Marguery. Nos momentos de folga, os quatro amigos saem a passear. Apreciam as festas religiosas, que lhes possibilita ver as jovens que passam na procissão. Émile não consegue tirá-las da mente. Já com quinze anos, procura livrar-se dessa obsessão pelas mulheres. Então busca na leitura uma saída para esses sentimentos que o perturbam. E nisso é seguido pelos seus três amigos, que se dispõem a trocar livros e discutir sobre os assuntos das leituras. E assim exercitam-se na crítica. Émile dedica-se com mais profundidade na atividade literária. Lê Hugo, Musset, Lamartine, entre outros. Vai muitas vezes, com seus amigos, ao teatro de Aix. Também se interessam pela música; o regente do colégio cria uma fanfarra na qual participam; Marguery aprende pistom, Cézanne corneta e Émile clarineta. As inexitosas buscas amorosas do jovem Émile, fazem-no a abandonar as aspirações românticas e interessar-se pela sátira. Então, escreve Enfoncé le pion, uma comédia em versos em três atos. Depois redige Les Grissettes de Provence, uma novela, na qual conta as libertinagens da juventude em Aix, experiências vividas e inventadas. Essa obra encontra-se perdida. Esses, pois, os primeiros passos singelos daquele que se tornaria um dos mais importantes escritores franceses de todos os tempos, como veremos na próximas postagens.
REFERÊNCIA:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.