24 de set. de 2009

DOSTOIÉVSKI / Vida & Obra - Parte II




por Pedro Luso de Carvalho



No final da primeira parte de Fiódor Dostoiévski, vida e obra, dissemos: o escritor retorna a São Petersburgo no mês de dezembro de 1859, juntamente com a esposa Maria Dmitrievna e com o filho, que adotara na Sibéria; dez anos antes, quando o escritor é detido juntamente com outros membros do chamado Círculo de Petrashevski, havia muita gente na enorme Praça Senovski, para se despedir dele e de seus companheiros, quando deixam a cidade com destino à prisão da Sibéria; agora, Dostoiévski é aguardado apenas por seu irmão mais velho Mikhail e por seu amigo Alexander Milukov.


Sobre esse encontro, Milukov viria dizer, mais tarde, que “Fiódor Mikhailovitch, segundo minha observação, não havia mudado fisicamente, até parecia mais saudável que antes, e não havia perdido nada de sua habitual energia. Recordo que, naquela primeira ocasião, apenas trocamos algumas idéias e impressões, recordamos os velhos tempos, bem como nossos amigos comuns”. Foi neste ponto que encerramos o texto FIÓDOR DOSTOIÉVSKI, VIDA OBRA – PRIMEIRA PARTE. Portanto, no presente texto - nesta segunda parte -, abordaremos uma outra etapa da vida desse mestre da literatura. Vejamos, pois.


Nesse seu retorno a São Petersburo, Dostoiévski edita, com a parceria de seu irmão Mikhail, o jornal literário O Tempo (Vremia) , que mais tarde seria sucedido pelo A Época (Epokha). Nessa quadra, Dostoiévski tem sucessivas convulsões em conseqüência da epilepsia que o acomete. Embora de saúde precária, consegue completar o seu primeiro romance importante, Humilhados e Ofendidos, cujos capítulos são publicados em sua revista (Vremia); o livro é recebido com entusiasmo pelo grande público, o mesmo não ocorrendo com a crítica; Humilhados e Ofendidos não tem a mesma sorte que seu livro Recordações da Casa dos Mortos, que faz grande sucesso junto a leitores e crítica.


O seu livro Recordações da Casa dos Mortos, constitui-se em importante relato do que Dostoiévski passou no presídio de Omsk, na Sibéria. Essa narrativa de suas amargas lembranças no cativeiro resulta no livro que foi publicado em 1860, depois de ter enfrentado inúmeros obstáculos criados pela censura até a sua publicação, que deu fama ao escritor. Dostoiévski cria um personagem, Alexander Petrovich Gorianchikov, para ser o narrador, visando desviar a atenção da censura. Gorianchikov, da nobreza russa, fora condenado a dez anos de trabalhos forçados pelo homicídio de sua esposa. Esse é o personagem, que, no entanto, não esconde tratar-se do próprio Dostoiévski .

.
Na realidade, Recordações da Casa dos Mortos é o resultado da vivência do autor, na condição de presidiário em Omosk, no convívio com criminosos condenados pelos mais diversos crimes, além dos presos políticos. Dostoiévski é o primeiro escritor a escrever sobre os campos de trabalhos forçados da Rússia czarista. Choca a muitos pelo realismo de seus relatos: homens presos pelos pés por correntes, imundícies, promiscuidades, castigos corporais - os presos eram surrados com chicote ou vara, que só cessavam com a ordem do médico da prisão, para daí serem levados aos hospital, até retornarem para o cumprimento do castigo a que foram condenados.


O que se passava no inferno de Omosk não poderia escapar à sensibilidade do escritor: o homicida que mata premido pelas circunstâncias ou o que mata como meio de vida; do ladrão ao astuto chefe de quadrilha, tudo o que via e ouvia seria a matéria-prima para o seu livro 'Recordações da Casa dos Mortos, como para futuras obras, que viria dar conhecimento ao povo russo das atrocidades pelas quais passavam os apenados.

Dostoiévski soube aprender o que a poderosa escola, que é o presídio, tinha para ensinar-lhe; soube interpretar os sentimentos daqueles que com ele compartilham do mesmo infortúnio, das horas de sofrimentos com terríveis espancamentos, torturas desumanas, que acabam desaguando nas suas Recordações da Casa dos Mortos. Nessa obra, escreve Dostoiévski :

.
“Aquele que, ao menos uma vez exerceu poder ilimitado sobre o corpo, o sangue, a alma do seu semelhante, sobre o corpo do seu irmão, segundo a lei de Cristo, aquele que desfrutou a faculdade de vilipendiar enormemente outro outro ser feito à imagem de Deus, esse torna-se incapaz de dominar as suas sensações. A tirania é um hábito dotado de extensão, pode desenvolver-se, tornar-se com o tempo uma doença. Afirmo que o melhor dos homens é suscetível de se insensibilizar até ser uma fera. (...) O homem e o cidadão eclipsam-se sempre no tirano. (...) Acrescentemos que o poder ilimitado da fruição seduz perniciosamente, e isso atua por contágio sobre a sociedade inteira. A sociedade que contempla tais atividades com indiferença está já contaminada até ao íntimo. Em suma, o direito de punir corporalmente, que um homem exerce sobre outro, é uma das pragas da sociedade: um processo seguro de sufocar em si mesma qualquer germe de civismo, de provocar a sua decomposição.”


É no final da obra que Dostoiévski acusa o sistema prisional czarista: “Quanta juventude foi desperdiçada dentro desses muros! Quantas energias pereceram, sem serem usadas, pois, a bem da verdade, estes homens eram fora do comum! Todavia, esta poderosa força foi desperdiçada irrevogavelmente! Pergunta-se: "a quem cabe a culpa?" Obviamente, a reposta não precisa ser dada, pois todos a conhecem.”


Jayme Mason escreveu: “A crítica não poupou elogios às Recordações da Casa dos Mortos. Alexander Herzen comparou a pena de Dostoiévski ao pincel de Michelangelo, e Lenin considerou o livro como inigualável na literatura russa e mundial. Não faltou quem comparasse os quadros de Dostoiévski , nesta obra, aos versos do Inferno de Dante. O nome de Dostoiévski atravessava as fronteiras da Rússia e sua obra ganhava a atenção dos países da Europa.”


Georg Lukács diz nos seus Ensaios Sobre Literatura, a respeito da transitoriedade do homem: “Um personagem secundário de Dostoiévski ilustra muito bem a atmosfera desses romances, afirmando sobre os homens em geral, transcrevendo trecho do livro de Dostoiévski: “Todos, como se nos encontrássemos numa estação ferroviária”.


“Essas poucas palavras - diz Lukács - exprime algo extraordinariamente importante. Em primeiro lugar, para essas pessoas toda situação tem caráter transitório. Estamos parados numa estação esperando a saída do trem. Naturalmente a estação não é a nossa casa, assim como o trem é apenas a passagem de um ponto para outro. Essa imagem exprime apenas a passagem de uma forma genérica o sentido da própria vida dos personagens de Dostoiévski. Memórias da Casa dos Mortos, escrita no cárcere ele observa que até mesmo os condenados a 20 anos consideram a permanência na prisão como um estado transitório.”


Em breve voltaremos com mais um texto sobre a vida e a obra do escritor. Leia também, FIÓDOR DOSTOIÉVSKI, VIDA OBRA – PRIMEIRA PARTE.




REFERÊNCIAS:
GROSSMAN, Leonid. Dostoiévski Artista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
MASON, Jayme. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Obejtiva, 1995.
MORAIS, Regis de. Fédor M. Dostoievski. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 19982.
LUKÁCS, Georg. Ensaios Sobre Literatura. Tradução de Leandro Konder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
FRANK, Joseph. Dostoievski. La secuela de la liberación 1860-1865. México: Fondo de Cultura Económica”, 1993.

17 de set. de 2009

DINHEIRO APLICADO EM AÇÕES

por Pedro Luso de Carvalho


Enquanto aguardava a partilha de uma pequena herança, em ação de inventário que tramitava numa das Varas de Família e Sucessões do Foro Central de Porto Alegre, meu cliente, um dos herdeiros, não saia do banco que elegeu para fazer suas futuras aplicações monetárias, buscando entender os meandros da Bolsa de Valores, para, no mínimo, duplicar o dinheiro que logo passaria aplicar. De posse de seu formal de partilha, não titubeou: destinou tudo o que recebeu em ações, de médio e longo prazo. Resultado: transcorrido um pouco mais de três anos, o dinheiro sumiu, na sua integralidade. Hoje, esse incauto aplicador em ações vive as amarguras que são próprias de quem não tem mais perspectivas. É mais um número nesse caos. Essa história que contam, que uma aplicação financeira em ações de empresas sólidas - principalmente para longo prazo -, traz resultados de ganho garantido, não é engodo recente, pelo contrário, vem de muitos anos. É o que encontramos na obra O Fim dos Ricos, do Professor Honorário do Colégio de França e Representante da França nos Nações Unidas, Alfred Sauvy, com tradução de Roberto Cortes de Lacerda e Helena da Rosa Cortes de Lacerda, publicado pela Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977. O demógrafo, antropólogo e historiador da economia francesa, Alfred Sauvy (1898-1990), foi quem cunhou a expressão "Terceiro Mundo", que a usou para classificar, no âmbito da economia política, os países pobres; países esses que, ainda hoje, são chamados pelos políticos e por alguns economistas, de “países em desenvolvimento”, num eufemismo mal-intencionado. Vejamos, pois, o que Sauvy escreveu, em 1975, quando a Editora Calmann-Lévy, de Paris, França, editou Le fin des riches: “O difícil, como se sabe, não é tanto ganhar dinheiro, mas conservá-lo. Tradicionalmente, aquele que economiza, isto é, adia um consumo, tem intenção de efetuá-lo mais tarde, com, até mesmo, um pequeno suplemento. Se a soma anual é suficiente, o proprietário pode viver sem fazer nada”. “Entretanto, o capitalista - prossegue Sauvy -, na acepção de alguém que vive de rendas, desapareceu. Desde os anos 20, quando a esperança insensata do “retorno a como era antes” se dissipou, aqueles que poupam se voltaram para os valores “reais”, que são as ações. Mas visto que, com o passar do tempo, o cálculo se apresentava cada vez mais decepcionante, foi preciso procurar outra coisa. Se bem que uma sociedade por ações possua, sem dúvida, “valores reais”, fábrica etc, uma ação nunca é mais do que um papel. Antes da nacionalização das estradas de ferro, as companhias tinham um ativo enorme, mas o valor das estações, vias, oficinas, material rolante etc, não tinha qualquer sentido mercantil, até mesmo... a estação de Perpignan, tão grata a Salvador Dali”. Conclui, Sauvy: “O incansável poupador que, por função, segrega incansavelmente o seu suco, procurou verdadeiros “valores reais”, para conservar o fruto do seu suor ou da sua massa cinzenta. Muitas soluções se apresentaram a essa formiga”. O autor termina esse capítulo, falando sobre o ouro, Picasso, pedra e terra. Possivelmente, voltaremos a esse assunto mais tarde.
.

8 de set. de 2009

ERICH FROMM - A ADAPTABILIDADE DO HOMEM

por Pedro Luso de Carvalho Escolhemos para esta publicação um texto de Erich Fromm, um dos mais destacados psicanalistas e ensaístas contemporâneos. Fromm estudou Sociologia 
e Psicanálise nas Universidades de Heidelberg, Frankfurt e Munique. Por ser descendente de judeus, e antevendo, com a ascensão do nazismo, o que mais tarde viria acontecer na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), emigrou para os Estados Unidos em 1932, tornando-se cidadão norte-americano. Seus livros ainda são traduzidos em muitos países. Deu interpretação própria às finalidades da terapêutica, aprofundando-se no estudo sobre a necessidade de ajustar o indivíduo ao meio social e cultural. Erich Fromm nasceu em Frankfurt am Main, em 23 de março de 1900, e faleceu em Muralto, Suíça, em 18 de março de 1980. Segue, pois, um trecho do livro Análise do Homem (Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1960), trecho este que tem por título Natureza e Caráter do Homem, no qual Erich Fromm inicia-o com ênfase na situação humana, dizendo: “Um indivíduo representa a raça humana: ele é um exemplo específico da espécie humana. Ele é “ele” e é “todos”; ele é um indivíduo com suas peculiaridades e, nesse sentido, sem igual, mas ao mesmo tempo é representativo de todas as características da raça humana. Sua personalidade individual é determinada pelas peculiaridades da existência humana, comum a todos os homens. Por isso, o exame da situação humana deve preceder o da personalidade”. E, no título A Debilidade Biológica do Homem, diz Fromm: “O primeiro elemento que diferencia o homem da existência animal é negativo: a ausência relativa, no homem, de uma regulação instintiva do processo de adaptação ao mundo que o rodeia. O modo de adaptação do animal a seu mundo é sempre o mesmo; se o seu equipamento instintivo não mais estiver apto a fazer face a um meio em transformação, a espécie perecerá. O animal pode adaptar-se a condições mutáveis modificando-se a si próprio – aloplasticamente.
.
Desta maneira, ele vive harmoniosamente - escreve Fromm -, não na acepção de ausência de luta, mas na de que seu equipamento herdado torna-o uma parte fixa e imutável de seu mundo: ou ele se adapta ou morre. “Quanto menos completo e rígido for o equipamento instintivo dos animais, tanto mais desenvolvido será seu cérebro e, por conseguinte, sua capacidade de aprendizagem”. A seguir, Fromm diz que o homem está em parte em desvantagem em relação aos animais e traça uma comparação com o homem, desprovido que é desse instinto para adaptar-se, com a mesma intensidade que os animais: “O aparecimento do homem pode ser definido como tendo ocorrido no ponto do processo da evolução em que a adaptação instintiva atingiu seu mínimo. Ele aparece, porém, com novas qualidades que o diferenciam do animal: sua consciência de si mesmo como entidade independente, sua capacidade de lembrar o passado, de visualizar o futuro, e de indicar objetos e atos por meio de símbolos; sua razão para conceber e compreender o mundo; e sua imaginação, graças à qual ele alcança bem além do limite de seus sentidos. O homem é o mais inerme dos animais, mas esta mesma debilidade biológica é a base de sua força, a causa primordial do desenvolvimento de suas qualidades especificamente humanas”.
E no que diz respeito à condição gregária do homem, contrária, pois, a uma vida alienada, longe de seus semelhantes, diz Erich Fromm: “O homem é sozinho e, ao mesmo tempo, relacionado com outros. Ele é sozinho por ser uma entidade original, não idêntica a outrem, e cônscio do próprio ‘eu’ como uma entidade independente. Ele tem de ficar sozinho quando precisa julgar ou tomar decisões exclusivamente baseado no poder de seu raciocínio. E, no entanto, ele não suporta ficar sozinho, desligado de seus semelhantes. Sua felicidade depende da solidariedade que sente com os outros homens, com as gerações passadas e futuras”.
.

1 de set. de 2009

T. S. ELIOT - Os Homens Ocos




PEDRO LUSO DE CARVALHO


T. S. Eliot, é o nome literariamente adotado por Thomas Stearns Eliot. O escritor norte-americano nasceu em St. Louis, Missouri. Estudou na Universidade de Harvard, onde concluiu o curso de medicina, em 1910. E depois, também em Harvard, doutorou-se em Filosofia. Mais tarde, tornar-se-ia um dos poetas modernos mais discutidos na Europa e nos Estados Unidos. Eliot também foi responsável por importantes ensaios, e, como dramaturgo, por peças de teatro, dentre elas, Assassinato na Catedral (1935).
Em 1914, Thomas Eliot passou a residir na Inglaterra. Após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, lecionou filosofia na conceituada universidade de Oxford. Com 25 anos, Eliot resolveu que não mais voltaria a morar nos Estados Unidos. Quando contava com 39 anos de idade, no ano de 1927, tornou-se cidadão britânico. Em 1948 , recebeu o Premio Nobel de Literatura. A sua morte, em 4 de janeiro de 1965, na Inglaterra, deixaria uma importante lacuna na literatura.
No trabalho que publicamos em 25.08.2009, que se encontra postado abaixo deste, intitulado T. S. ELIOT - POESIA E TEATRO, não foi publicado, na oportunidade, nenhum de seus poemas, mas o faremos hoje com “Os homens ocos”, poema de 1925, traduzido por Ivan Junqueira.


OS HOMENS OCOS
T. S. ELIOT


                                                 "    A penny for the Old Guy"
                                                    (Um pêni para o Velho Guy)




Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
               II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular
               III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.
                IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
               V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.





* * *