25/08/2009

T. S. ELIOT - POESIA E TEATRO





por Pedro Luso de Carvalho



Mais de uma vez escrevi, aqui neste espaço, sobre a conceituada The Paris Review. Também escrevi sobre Escritores em Ação, obra coordenada por Malcolm Cowley, e originalmente publicada pela The Paris Review. No Brasil, o livro foi publicado pela Paz e Terra, em 2. ed., em 1982, com tradução de Brenno Silveira. Neste livro, encontram-se entrevistas concedidas por grandes nomes da literatura. A entrevista feita com T. S. Eliot é mais uma das que deram prestígio à revista famosa. Os temas abordados nessa entrevista, poesia e dramaturgia, certamente interessarão a escritores dessas áreas, e, de modo especial, aos novos escritores – poetas, principalmente. Apenas os trechos mais importantes serão aqui abordados, já que o texto é demasiadamente extenso para este espaço. Antes, porém, vamos falar um pouco da vida e obra do entrevistado.


T. S. Eliot, é o nome literariamente adotado por Thomas Stearns Eliot. O escritor norte-americano nasceu em St. Louis, Missouri, em 26 de setembro de 1888, onde viveu até a idade de 18 anos. Filho de uma família ilustre de Boston, não teve dificuldade em ingressar, em 1906, na universidade da elite norte-americana, Harvard. Aí concluiu com brilhantismo, em quatro anos, o curso de medicina. Depois, nessa mesma universidade, obteve o seu título de doutor em filosofia. Mais tarde, tornar-se-ia um dos poetas modernos mais discutidos na Europa e nos Estados Unidos, com poemas de excepcional qualidade, como é o caso de A Terra Devastada (1929). Eliot também foi responsável por importantes ensaios, e, como dramaturgo, por peças de teatro, dentre elas, Assassinato na Catedral (1935). A sua morte, em 4 de janeiro de 1965 , na Inglaterra, deixaria uma importante lacuna na literatura.


Mas, voltando um pouco no tempo, vemos que Thomas Eliot passou a residir na Inglaterra, no ano de 1914. E após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, lecionou filosofia na conceituada universidade de Oxford. Com 25 anos, Eliot resolveu que não mais voltaria a morar nos Estados Unidos. Então, escolheu a Inglaterra como sua nova residência; esta, seria a sua residência definitiva. Quando contava com 39 anos de idade, no ano de 1927, Thomas Stearns Eliot tornou-se cidadão britânico. Em 1948 , recebeu o Premio Nobel de Literatura. T. S. Eliot dizia, no que respeitava à sua nacionalidade: "My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional"; isto é: “Minha poesia não seria o que é se eu tivesse nascido na Inglaterra, e não seria o que é se eu tivesse permanecido nos Estados Unidos. É uma combinação de coisas”, concluia.


Passando agora à entrevista, que concedeu à The Paris Review, em Nova Iorque, no ano de 1957, no apartamento de Louis Henry Cohn, da House of Books, Ltd., que era amiga do casal Eliot”, vamos sentir as manifestações do escritor famoso sobre a e a dramaturgia, começando por sua primeira resposta à pergunta feita pelo entrevistador: Quando o Sr. Começou a escrever versos em st. Louis, quando era menino?


“Comecei, creio, aos quatorze anos de idade – responde Eliot -, sob a inspiração de Omar Khayyam, de Fitzgerald, a escrever várias coisas muito soturnas, ateístas e desesperançadas no mesmo estilo, as quais, felizmente suprimi por completo – de modo tão completo que já não mais exitem. Eu jamais as mostrei a ninguém. O primeiro poema aparecido foi publicado, pela primeira vez, no Smith Academy Record e, mais tarde, no Harvard Advocate, escrito como um exercício para o meu professor de inglês, e era uma imitação de Ben Jonson. Ele o achou muito bom para um rapaz de quinze ou dezesseis anos. Depois, escrevi alguns em Harvard, apenas os suficientes para candidatar-me a redator do The Harvard Advocate, o que me dava prazer. Depois, houve uma erupção , durante meus primeiros e últimos anos na universidade. Tornei-me muito mais prolífico, sob a influência de Baudelaire e, a seguir, de Jules Laforgue, que descobri, creio, em meu penúltimo ano de 'college' em Harvard.


Depois, respondendo à pergunta se sabia, quando era estudante, de poetas mais velhos, e qual a diferença entre eles, bem como a Pound e Stevens, e os de sua época, responde: “Creio que constituiu uma vantagem não existirem quaisquer poetas na Inglaterra ou na América por quem a gente se interessasse de maneira particular. Não sei como seria, mas julgo que seria uma distração um tanto incômoda ter-se uma porção de presenças dominantes, como o senhor as chama, em volta da gente. Felizmente, não éramos importados uns pelos outros.”


E sobre pessoas como Hardy e Robinson, tinha consciência delas? “Eu tinha - diz Eliot - uma ligeira consciência da existência de Robinson, pois lera um artigo a respeito dele, no The Atlantic Monthly, que citava alguns de seus poemas, mas não era uma coisa que me inebriasse. Hardy mal era conhecido, na época, para que fosse tido como poeta. A gente lia seus romances, mas suas poesias só se destacaram durante a geração posterior. Havia Yeats, mas era o Yeats dos primeiros tempos. Aquilo era demasiado crepuscular para mim. Não havia, realmente, nada, exceto os da década de 1890, que tinham morrido todos devido à bebida, ao suicídio ou a uma dessas coisas.”

O senhor e Conrad Aiken não se ajudavam mutuamente com poemas, quando eram redatores do Advocate?, pergunta-lhe o entrevistador; Eliot, responde: “Eramos amigos, mas não creio que tenhamos influenciado, de modo algum, um ao outro. Quanto a que se referia a escritores estrangeiros, ele se interessava mais pelos italianos e espanhóis, ao passo que eu me voltava inteiramente para os franceses.”


E, depois, Eliot responde à pergunta feita sobre Conrad Aiken e Pound. “Aiken era um amigo muito generoso. Certo verão, em que eu estava em Londres, em companhia de Harold Monro e outros, ele tentou fazer com que publicassem alguns de meus poemas, mas sem resultado. Mais tarde, em 1914, creio, estávamos ambos em Londres, durante o verão. E ele me disse: Vá ver Pound. Mostre-lhe seus poemas. Ele achava que talvez Pound os apreciasse. Aiken gostava deles, embora fossem muito diferente dos seus.”


Sobre as circunstâncias de seu primeiro encontro com Pound, diz Eliot: “ Creio que fui eu quem o visitou primeiro. Penso que causei boa impressão, em sua pequena sala triangular em Kensington. Disse-me: "Mande-me seus versos". E depois, escreveu-me: "Isto é tão bom como as melhores coisas que tenho lido. Venha cá para falar comigo a respeito". Em seguida, ele os encaminhou a Harriet Monroe, que dedicou algum tempo a lê-los.”


É verdade que por ocasião do seu sexagésimo aniversário, o senhor se refere aos versos de Pound como sendo comoventemente incompetente. “Ah! Isso foi um pouquinho atrevido, não foi? Bem, eu, na verdade, não apreciei – diz - Eliot, referindo-se aos livros de Pound, que lhe foram apresentados. “Aquilo me parecia um tanto fantasioso e romântico – prossegue Eliot - coisa assim do tipo capa-e-espada. Quando fui visitar Pound, não era, particularmente, um admirador de sua obra, e, embora eu a encare, hoje, como bastante realizada, estou convencido de que as suas grandes coisas só se encontram nos seus trabalhos posteriores.”


Perguntado se foi beneficiado, de um modo geral, pela crítica que Ezra Pound fez aos seus poemas, e se Pound cortou alguns outros poemas, Eliot responde: “Sim. Naquela época, sim. Ele era um crítico estupendo, pois não procurava transformar a gente numa imitação dele próprio. Procurava ver o que a gente estava procurando fazer.” E sobre a pergunta a Eliot, se já procurou reescrever versos de alguns de seus amigos, dentre eles Ezra Pound, responde: “Não me lembro de nenhum exemplo disso. Claro que, nos últimos vinte e cinco anos, aproximadamente, fiz inumeráveis sugestões quanto a manuscritos de jovens poetas.”


“Tenho outra pergunta a fazer acerca do começo da carreira de Pound e do senhor. Li, em algum lugar, que o senhor e Pound, mais ou menos aos vinte anos, tinham decidido a escrever quartetos, porque o 'vers libre' fora demasiado longe.” Eis a resposta de Eliot: “Creio que foi Pound quem disse isto. E a sugestão de escrever quartetos era dele. Ele me colocou em Emaux et Camées (Poemas de Teófilo Gautier).


Sobre a pergunta feita sobre as idéias de T.S. Eliot, e sobre a relação forma-tema, bem como se a forma era escolhida antes de saber bem o que iria escrever, Eliot responde: “De certa maneira. A gente estudava originais. Analisávamos os poemas de Gautier e, depois, pensávamos: “Tenho acaso a dizer nesta forma que seja útil?” E experimentávamos. A forma dava ímpeto ao conteúdo.” E, quanto à pergunta sobre os 'vers libres' , se teria sido essa a forma que escolheu para empregar em seus primeiros poemas, essa foi sua resposta:


“Meus primeiros 'vers libres', claro, foram praticados com o intuito de praticar a mesma forma empregada por Laforgue. Isto significava simplesmente rimar versos de extensão irregular com as rimas recaindo em lugares irregulares. Não era algo tão 'libre' como muitos versos, principalmente o que Ezra Pound chamava 'amygism' (referência a Amy Lowell, que captou e transformou o imaginismo). E acrescenta que “ Não creio que a boa poesia possa ser produzida numa espécie de tentativa política tendente a por abaixo alguma forma existente. Acho que ela apenas suplanta. As pessoas descobrem uma maneira em que podem dizer algo.”Não posso dizê-lo assim; que modo poderei descobrir para fazê-lo?” A gente, realmente, não se 'importa' com os modos existentes.”


Penso que foi depois de Prufrock' e antes de Gerontion – pergunta-lhe o entrevistador -, que o senhor escreveu os poemas em francês que aparecem em seus Poemas Completos. O que levou o senhor a escrevê-los? Escreveu outros, desde então? “Não responde Eliot -, e jamais o farei. Aquilo foi uma coisa muito curiosa que não posso explicar satisfatoriamente. Naquela época, eu tinha a impressão de que minhas idéias haviam secado completo. Fazia já algum tempo que eu não escrevia nada, e me sentia um tanto desesperado. Pus-me a escrever algumas poucas coisas em francês, e constatei, naquela altura, que 'podia' fazê-lo. Creio que foi quando eu estava escrevendo os poemas em francês que comecei a não levar a coisa tão a sério, verificando que, dessa maneira, não me sentia tão preocupado ante o fato de não ser capaz de escrever.”


Depois responde sobre a fase em que escreveu em francês: “Fiz aquelas coisas como uma espécie de 'tour de force', para ver o que podia fazer. A coisa continuou durante alguns meses. O que de melhor escrevi já havia sido publicado. Devo dizer que Ezra Pound os examinou, e que Edmond Dulac, um francês que conheci em Londres, me ajudou um pouco. Deixamos de lado alguns deles, e creio que desapareceram por completo. Depois, subitamente, comecei a escrever de novo em inglês, e perdi todo o desejo de continuar em francês. Penso que isso foi algo que me ajudou a recomeçar.”


E conclui o episódio de sua vida de escritor bilíngue, quando pensou em mudar-se para Paris e escrever seus livros apenas em francês: “Não sei de caso algum em que alguém haja escrito grandes ou mesmo excelentes poemas, igualmente bem em dois idiomas. Acho que a linguagem deve ser aquela em que a gente se exprime na poesia, e que, para isso, é preciso que se renuncie à outra. Sou de opinião, além disto, de que a língua inglesa possui, na verdade, sob certos aspectos, mais recursos que a língua francesa. Penso, noutras palavras, que eu, provavelmente, me sairia muito melhor em inglês do que em francês, mesmo que me tornasse tão competente em francês como os poetas a que o senhor se referiu.”


T. S. Eliot responde à pergunta sobre planos para novos poemas: “Não, não tenho planos para coisa alguma, no momento, mas gostaria, logo que me livrasse de The Elder Statesman passei apenas pelas provas finais, pouco antes de deixarmos Londres, de entregar-me a alguns escritos em prosa, no gênero da crítica. Nunca penso mais do que um passo à frente. Se desejo escrever outra peça teatral ou escrever novos poemas? Não sei, enquanto não descubro que desejo fazê-lo.”


E sobre a pergunta se tem algum poema por terminar e que tente terminá-lo, diz: “Não, não tenho muita coisa. Via de regra, para mim, algo não terminado é alguma coisa que bem poderia ser inutilizada. É melhor, se há alguma coisa nela que eu talvez pudesse usar alhures , deixá-la no fundo da memória, no fundo de uma gaveta. Se eu a deixo numa gaveta, ela permanece sendo a mesma coisa, mas, se está em minha mente, poderá transformar-se em algo diferente. Como já disse antes, Burnt Norton começou com fragmentos que tinham de ser extirpados de Murder in the Cathedral. Aprendi, em Murder in t 'Murder in the Cathedral, que não adianta escrever versos bonitos que a gente julga ser boa poesia, se não houver ação neles. Foi aí que Martin Browne se tornou útil. Ele teria dito: “Há aqui belos versos, mas nada tem que ver com o que está se passando no palco.”


Sobre a pergunta, se com freqüência escreve poemas em parte, responde: “Sim, como The Hollow Men, eles se originaram de poemas isolados. Tanto quanto me lembro, uma ou duas das primeiras partes em rascunho Ash Wednesday' foram publicados no 'Commerce', ou em outro lugar, Depois, a pouco e pouco, vim a encará-los como constituindo uma sequência. Essa foi a única maneira pela qual minha mente parece ter trabalhado, durante todos esses anos, poeticamente – fazendo as coisas separadamente e, depois, tendo eu visto a possibilidade de fundi-los, modificando-os, e fazendo deles uma espécie do todo.”


Indagado sobre seus hábitos de escrever, Eliot responde a pergunta, se escreve à máquina. “Em parte. Um bom trecho de minha nova peça. The Elder Statesman, foi escrito a lápis, de maneira bastante tosca . Depois, eu próprio a datilografei, e em seguida minha esposa também. Ao datilografar, faço modificações, bastante grandes. Mas, quer escreva a mão ou datilografe, uma composição de qualquer tamanho – como, por exemplo, uma peça teatral – significa para mim horas regulares de trabalho, digamos, das dez à uma. Constatei que três horas por dia é tudo o que posso fazer quanto a uma composição eficiente. O polimento posso fazer mais tarde. Sinto, não raro, que eu desejaria prosseguir, mas quando examino, no dia seguinte, o que produzi após três horas de trabalho, nunca acho a coisa satisfatória. É muito melhor parar e pensar em algo inteiramente diferente.
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Eliot responde à pergunta se já escreveu de acordo com um plano os seus poemas não dramáticos, como os Four Quartets: “ Só versos ocasionais. Os 'Quartets' não foram planejados. O primeiro, claro, foi escrito em 1935, mas os três escritos durante a guerra foram compostos devido a impulsos de momento. Em 1939, se não tivesse havido uma guerra, eu teria, provavelmente, tentado escrever outra peça teatral. E penso que foi uma coisa muito boa não ter tido tal oportunidade. Do meu ponto-de-vista pessoal, uma das boas coisas que a guerra fez foi impedir-me de escrever, demasiado cedo, outra peça. Percebi algumas das coisas que não estavam bem em Family Reunion, mas penso que foi muito melhor o fato de qualquer peça haver sido bloqueada, durante cinco anos, antes que pudesse fazer sucesso. A forma dos Quartets adaptava-se muito bem às condições sob as quais eu estava escrevendo, ou podia escrever. Eu só podia escrevê-los em partes, e não precisava observar inteiramente a mesma continuidade;pouco importava que um ou dois dias passassem sem que eu escrevesse, como ocorria com frequência, enquanto eu me entregava a trabalhos de guerra.”

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E sobre as suas peças teatrais, T.S. Eliot diz: “Eu disse alguma coisa, creio, em Poetry and Drama, acerca de meus objetivos ideais, os quais jamais esperei poder realizar plenamente. Comecei, realmente, com Family Reunion, porque Murder in the Cathedral é um trabalho referente a determinado período e algo fora do comum. A peça foi escrita numa linguagem um tanto especial, como a gente faz quando está tratando de outra época. Não resolveu nenhum dos problemas em que eu estava interessado. Mais tarde, pensei que, em The Family Reunion, eu estava dando tanta atenção à versificação que negligenciei a estrutura da peça. Ainda hoje, acho que The Family Reunion é a melhor de minhas peças teatrais quanto ao que concerne à poesia, embora não seja muito bem construída.”


E, no que difere a redação teatral da redação de poemas, Eliot responde: “Acho que há maneiras inteiramente diferentes de se abordarem tais gêneros. Há toda a diferença existente no mundo entre o escrever-se uma peça para uma platéia e escrever-se um poema, em que se está a escrever primordialmente para si mesmo – embora, palavras evidentemente, a gente não se sentisse satisfeita se o poema depois, não significasse algo também para outras pessoas. Com um poema, pode-se dizer: “Pus meus sentimentos em palavras para mim mesmo. Tenho agora o equivalente, em palavras, para tudo o que senti.”


Eliot conclui a sua fala sobre a forma de redação de peça teatral e de poema: “Num poema, ademais, a gente está escrevendo para a nossa própria voz, o que é muito importante. A gente está pensando em termos da nossa própria voz, ao passo que, numa peça, desde o começo, a gente tem de perceber que está preparando algo que irá parar nas mãos de outras pessoas, desconhecidas no momento em que se está escrevendo. Não direi, certamente, que não haja momentos, numa peça, em que ambas as maneiras de se abordar um tema não possam convergir, quando penso, idealmente, que 'deveriam' fazê-lo. Isso ocorre, com muita freqüência, em Shakespeare, quando ele está escrevendo um poema e pensando, tendo em mente, simultâneamente, o teatro, os atores e a platéia. E ambas as coisas constituem apenas uma. É maravilhoso, quando se pode atingir tal ponto. Quanto a mim, isso só ocorre em momentos esporádicos.”


O entrevistador pergunta a Eliot se ele tem algum conselho para dar a um poeta jovem acerca das disciplinas ou das atitudes que ele poderia cultivar, a fim de melhorar a sua arte. Esta é a resposta de Eliot: “ É tremendamente perigoso dar conselho geral. Acho que o melhor conselho que se pode dar a um jovem poeta é criticar em detalhe um seu determinado poema. Argumentar com ele, se necessário; dar-lhe nossa opinião, se houver quaisquer generalizações a serem feitas, e deixar que ele próprio o faça. Tenho verificado que pessoas diversas tem maneiras diferentes de trabalhar, e que as coisas lhe chegam de modo diferente. Nunca se tem a certeza de estar-se proferindo uma enunciação que seja geralmente válida para todos os poetas, ou quando se trata de algo que só se aplica à gente. Penso que nada é pior que a gente procurar formar alguém à nossa própria imagem.”




REFERÊNCIAS:
CATTAUI, Georges. T. S. Eliot. Paris: Éditions Universitaires, 1957.
COWLEY, Malcom. Escritores em Ação. Trad. Brenno Silveria. 2. ed. Paz e Terra, 1982.

20/08/2009

JAMES ROBINSON - O PENSAMENTO CRÍTICO






por Pedro Luso de Carvalho



Escolhemos para esta publicação trechos do livro The Mind in the Making, de James Harvey Robinson, traduzido para o português por Monteiro Lobato com o título de A Formação da Mentalidade. Trata-se da terceira edição da obra, esta publicada pela Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1957.


O professor de História norte-americano, da Universidade de Pennsylvania e da Universidade de Columbia, James Harvey Robinson, nasceu em Bloomington, Illinois, em 29 de junho de 1863 - faleceu em 16 de fevereiro de 1936. Foi um dos fundadores e o primeiro diretor da Nova Escola para Pesquisa Social, em 1929. Em suas obras e palestras sempre deu ênfase na “Nova História”, na qual incluía não apenas acontecimentos políticos, mas também o social, o científico, o intelectual e o progresso da humanidade. Por isso, exerceu grande influência no ensino da História em seu país.


Passemos, pois, a A Origem do Pensamento Crítico, do livro The Mind in the Making, ("A Formação da Mentalidade"), de James Harvey Robinson, com trechos do início desse capítulo:


"Ao que sabemos, foram os egípcios o primeiro povo que inventou um método de escrever, há cinco ou seis mil anos atrás, e concebeu novas artes desconhecidas de seus bárbaros predecessores. Desenvolveram a pintura e a arquitetura, e ainda várias e engenhosas indústrias; trabalharam o vidro e criaram o esmalte; começaram a usar o cobre, desse modo introduzindo o metal na vida humana. Mas a despeito do extraordinário adiantamento prático dos egípcios, permaneceram eles muito primários em suas crenças.

O mesmo pode ser dito dos povos da Mesopotâmia e dos do ocidente asiático. E o mesmo foi observado entre nós, pois que entre nós as artes práticas se desenvolveram muito antes de começada a revisão das idéias relativas ao homem e aos deuses. As opiniões peculiares dos egípcios não penetraram diretamente em nossa herança intelectual; mas algumas das idéias religiosas fundamentais desenvolvidas no ocidente asiático, influenciaram-nos por intermédio da adaptação judaica.
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Para os gregos, entretanto, a nossa dívida é pesadíssima. A literatura grega, nos fragmentos escapos à destruição, estava destinada, conjuntamente com as Escrituras Hebraicas, a exercer uma incalculável influência na formação da mentalidade moderna. Essas duas heranças literárias originaram-se aproximadamente ao mesmo tempo, na perspectiva da história da espécie. Antes da civilização grega, os livros não haviam representado papel de vulto no desenvolvimento, disseminação e transmissão da cultura de uma geração para outra. Mas a partir da Grécia tornar-se-iam a principal força no estimular ou retardar a expansão do espírito humano.

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Foram necessários mil anos para que os pastores gregos das pradarias do Danúbio assimilassem a cultura das civilizadas regiões em que eles apareceram como bárbaros destruidores. Aceitaram as artes industriais do Mediterrâneo, adotaram o alfabeto fenício e competiram com os mercadores mais alertas da época. Pelo sétimo século antes de Cristo já possuíamos cidades, colônias e comércio, com muita movimentação de um ponto para outro. Os primeiros traços da nova intelectualidade nós os recolhemos nas cidades jônias, sobretudo Mileto, e nas colônias gregas da Itália. Só mais tarde se tornou Atenas o grande centro daquela maravilhosa maré da inteligência humana”.

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16/08/2009

ARNOLD J. TOYNBEE – O SENTIDO DA VIDA





por Pedro Luso de carvalho



Arnold Joseph Toynbee (1889-1975), que se tornou conhecido por sua obra prima A Study of History, escreveu um livro excelente, nascido pelos diálogos que manteve com o professor Wakaizume, da Universidade Sangyo, Kyoto, do Japão, A Sociedade do Futuro (Surviving the Future), Essa obra do mestre da historiografia moderna, composta por sete ensaios, com cada um deles explorando a pergunta inicial que lhe foi feita por Wakaizume sobre a configuração futura do mundo, foi publicada no Brasil em 1976, já na sua 3ª ed., pela Zahar Editores, com tradução de Celina Whately.


Escolhemos, dentre os sete ensaios que compõe A Sociedade do Futuro, para esta publicação, trechos do primeiro ensaio, intitulado ‘O Sentido da Vida’, págs. 13-20, que se inicia com a pergunta que o professor Wakaizume faz a Arnold Toynbee:


WAKAIZUME: "A ciência aplicada à tecnologia tem produzido diversas, complexas e revolucionárias transformações em nossa vida. A rapidez com que se processam faz com que se torne cada vez mais difícil analisá-las. A sociedade que durante milhares de anos foi agrícola, pastoril e rural está-se tornando industrial e urbana. A conseqüente confusão, pressão e tensão que sofremos hoje em dia leva-nos a reconsiderar a questão fundamental do significado e do objetivo da vida. Para que vivem os homens?"


TOYNBBE: "A confusão, a pressão, as complicações e as rápidas transformações da vida moderna refletem-se sobre toda a humanidade e principalmente sobre os jovens. A juventude deseja encontrar o seu caminho, entender o sentido de viver, compreender as circunstâncias com que se defronta. Para que vivem os homens? Essa pergunta que aflige mais aos jovens persegue, entretanto, a todos, em qualquer idade.


Eu diria – continua Toynbee –que o homem deveria viver para amar, compreender e criar. Deveria empregar toda sua habilidade e força sacrificando-se, se necessário fosse, para a consecução desses três objetivos. Qualquer coisa valiosa pode exigir sacrifícios e se você considerá-la valiosa estará preparado para o sacrifício.


Pessoalmente eu acredito – diz Toynbee – que o amor seja um valor absoluto, aquele que dá significado à vida humana e à de algumas espécies de mamíferos e pássaros que, como nós, a meu ver, vivem para o amor. Também acredito (embora saiba que isso não possa ser demonstrado) que o amor que nós conhecemos através de experiências concretas de seres humanos no nosso planeta está presente da mesma forma que um espírito maior, transcendental. O amor pode, e efetivamente às vezes o faz, gerar um amor retributivo. Sabemos, por experiência própria, que quando isso ocorre o amor se expande e se espalha. Entretanto, o amor também pode defrontar-se com a hostilidade e então exigirá um auto sacrifício, mesmo que não vejamos nenhuma possibilidade da hostilidade se transformar em amor”.

10/08/2009

SIGMUND FREUD / Ernest Jones





                       por Pedro Luso de Carvalho



         Dentre os muitos escritores que se ocuparam em escrever a trajetória da vida do médico Sigmund Freud, o criador da psicanálise, o mais importante deles foi Ernest Jones, que escreveu um livro excelente com mais de setecentas páginas, intitulado The Life Work of Sigmund Freud; Lionel Trilling e Steven Marcus foram os responsáveis pela organização e pelo resumo da obra; Trilling também escreveu a sua introdução, para ser editada pela Basic Books Publishing Co., Inc., em 1961. No Brasil, o livro foi editado em 1975, 2ª ed., com o título de Vida e Obra de Sigmund Freud, pela Zahar Editores, com tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos.

       Trilling inicia a introdução do livro, dizendo: “Sigmund Freud pronunciou-se resolutamente, em várias oportunidades, contra o fato de vir a ser objeto de um estudo biográfico, dando como uma de suas razões a afirmativa de que a única coisa importante acerca da sua pessoa eram as suas idéias – a sua vida pessoal, dizia ele, com toda a certeza não poderia ter o menor interesse para o mundo”.

        Para Lionel Trilling, a pessoa de Freud não foi secundada por sua opinião; seu nome e suas idéias foram objeto de reconhecimento universal. Motivos para essa aceitação: “a grandeza e natureza de sua obra”; inegavelmente, O Ocidente rendeu-se à Psicanálise, à teoria relativa a certas doenças mentais; ficou também fascinado pela pessoa de seu criador. “A obra é vasta e concatenada – escreve Trilling – corajosa e magnânima na sua intenção; e não podemos dizer menos da sua vida”.

        O psicanalista nascido em Gowerton, país de Gales, do Reino Unido, Ernest Jones, foi um dos dois ou três membros mais destacados do famoso ‘Comitê', grupo formado por Freud e seus mais admirados e fiéis colegas, escreve Trilling; e, mais: “Freud encontrou em Ernest Jones o seu biógrafo predestinado e plenamente adequado. No correr dos anos, não temos dúvida a respeito, outras biografias de Freud serão escritas, mas na medida em que houver virtudes específicas em quaisquer delas dependerão da obra monumental e autorizada do Dr. Jones”.
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        Diz mais, Trilling, sobre o famoso biógrafo: “Vinculado como estava à Psicanálise nos seus aspectos, digamos, mais ortodoxos, a ele foi sempre possível, pela razão mesma dessa vinculação vigorosa, assumir e manter-se ao nível de Freud acerca de certos itens da teoria”. Vejamos agora o que escreve Ernest Jones no início de sua introdução à Vida e Obra de Sigmund Freud, bem como outro trecho, mais adiante, dessa introdução:

        “Esta não tem a intenção de ser uma biografia popular de Freud - escreve Jones - muitas delas já foram escritas, registrando sérias distorções e inverdades. Seus objetivos consistem simplesmente e anotar os fatos principais da vida de Freud, enquanto ainda são acessíveis, e – numa intenção mais ambiciosa – tentar vincular sua personalidade e as experiências da sua vida ao processo de desenvolvimento de suas idéias”. Segue o segundo trecho da introdução escrita por Ernest Jones:

        “O que Freud deu ao mundo não foi uma teoria da mente perfeitamente acabada e burilada, uma filosofia que talvez pudesse ser debatida sem qualquer referência ao seu autor, mas uma visão que gradualmente se ampliava, uma visão que ocasionalmente se empanava, mas que, em seguida, se tornava luminosa. A Psicanálise, como se passa verdadeiramente com qualquer outro ramo da ciência, só pode ser proveitosamente ser estudada como uma evolução histórica, nunca como se fosse um corpo de conhecimento aperfeiçoado – e o seu desenvolvimento achava-se peculiar e intimamente ligado à personalidade de seu fundador”. 


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04/08/2009

LOUIS PASTEUR E A CIÊNCIA MODERNA




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por Pedro Luso de Carvalho

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No ano de 1967 a Editora Edart publicou o livro Pasteur e a Ciência Moderna, escrito pelo francês René Dubos, no qual faz um relato minucioso das descobertas do criador da microbiologia, Louis Pasteur. René Jules Dubos (1901-1982) recebeu o grau de Doutor em Filosofia na Universidade Rutgers, em 1927. Foi microbiologista e patologista eminente, pioneiro na descoberta dos antibióticos; membro e professor do Instituto Rockefeller, de Nova York. Em 1944, lecionou na Universidade de Harvard no período de dois anos, sem ter deixado o Instituto.
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Nos quatorze capítulos dessa interessante obra sobre Louis Pasteur, físico, químico e biólogo, e um dos nomes mais importantes da ciência de todos os tempos, René Dubos traça uma biografia do cientista antes de abordar as suas pesquisas de estereoquímica, aos seguintes estudos: 1) sobre as fermentações [demonstrou que eram causadas por microorganismos e que não existia a “geração espontânea” de micróbios]; sobre o bicho-da-seda; 2) sobre os vinhos; 3) sobre a conservação da cerveja (pausterização). E, também, outras descobertas, como: o micróbio que causa o carbúnculo (e a vacina); vibrião séptico [descoberta]; o estafilococo; a vacina contra a raiva etc.

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Louis Pasteur nasceu na pequena cidade francesa de Dôle, no dia 27 de dezembro de 1822. Sua família vivia com os sacrifícios próprios de quem não tem posses. Seu pai, um ex-sargento dos exércitos de Napoleão, que trabalhava com um pequeno curtume em sua casa, acalentava o sonho de ver seu filho formar-se para se tornar professor, profissão que na época representava grande distinção, e, para isso, não poupou esforços para mantê-lo estudando. Uma vez concluída a Escola Normal Superior, ingressou no magistério, mas aí ficaria por pouco tempo, já que voltaria sua vida para a ciência, com dedicação exclusiva.
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Pasteur dedicou-se, desde muito cedo, ao desenho e à pintura, e em certa altura de sua vida pretendeu tornar-se profissional, como caricaturista, inclusive. Mas, aos dezenove anos, deu a definitiva guinada em sua vida ao decidir-se pela ciência, em detrimento da carreira artística. Albert Edelfeldt, pintor de prestígio, que pintou o retrato de Pasteur em seu laboratório, em 1887, que se tornaria famoso, disse, por carta que “se Pasteur tivesse escolhido a arte ao invés da ciência, a França contaria hoje com mais um hábil pintor...” Perdeu a pintura para a ciência, em benefício da Humanidade.

Por suas pesquisas e descobertas, Pasteur mereceu o lugar que ocupou na Academia Francesa de Letras, em 1882, já no ocaso de sua existência; o mesmo pode ser dito por ter integrado a Academia de Ciências (dela recebeu um prêmio por seus estudos sobre fermentação, em 1861). Bem antes de ter recebido essas honrarias Pasteur já havia recebido a Légion d'Honneur Francesa pela descoberta sobre o desvio no plano de polarização da luz, com apenas 26 anos de idade. Por tudo o que fez em prol da Humanidade, Pasteur constituiu-se no seu maior benfeitor.