25 de mar. de 2009

FERNANDO PESSOA: Almoxarifado de Mitos

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                 por  Pedro Luso de Carvalho


        No ano de 2005, a Editora Escrituras editou Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos, livro de Carlos Felipe Moisés, que integra a coleção Ensaios Transversais. O escritor é poeta, e formado em Letras pela Universidade de São Paulo. Na USP, concluiu mestrado e doutorado, em 1968 e 1972, respectivamente. Ensinou teoria literária e literatura de língua portuguesa na Faculdade de Filosofia de São José do Rio Preto, na PUC de São Paulo, na USP e na Universidade Federal da Paraíba. Fora do Brasil, no período que compreende os anos de 1978 a 1982, lecionou na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Atualmente, é professor titular da Universidade São Marcos.

        
Carlos Felipe Moisés se dedica regularmente à crítica literária desde os anos 70, escrevendo para órgão especializados da imprensa brasileira. É autor, entre outros livros, de A poliflauta (1960), Carta de marear (Prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1966), Círculo imperfeito (Prêmio Gregório de Mattos e Guerra, Salvador, 1978), Subsolo (Prêmio APCA, 1989), Lição de casa (1998) e Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos (2005), uma obra que deverá agradar aos admiradores do poeta português; o livro começa com traços biográficos de Pessoa, como nos trechos que seguem:

       “Pouco antes de morrer, no Hospital São Luís, em Lisboa, a 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose provocada por ingestão de bebida alcoólica, Fernando Pessoa anotou num retalho de papel esta última frase: “I know not what tomorrow will bring”. O sentido e a circunstância da frase remetem a uma de suas obsessões: o mistério da existência, o horror da morte e do desconhecido, o pendor especulativo, em suma, que o levou a se interessar por mediunidade, espiritismo, astrologia, maçonaria, teosofia – o esoterismo em geral. Em inglês literário, a frase mostra a força com que se lhe fixou no espírito a educação britânica que recebera em Durban, na África do Sul, onde viveu dos sete aos 17 anos”.

        Nascido em Lisboa, a 13 de junho de 1888, filho único (o irmão mais novo, Jorge, morreu em 1894, com um ano de idade), órfão de pai antes de completar os seis anos, Pessoa parte em 1896 para a África, com a mãe, que se casara de novo, com João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban. Os dez anos aí passados foram decisivos para a sua formação. É na África, e em inglês, que ele adquire a base de sua cultura literária (Milton, Shelley, Shakespeare, Tennyson, Pope e outros), escreve os seus primeiros poemas e concebe os proto-heterônimos Alexander Search e Robert Anon, sucessores adolescentes de Chevalier de Pas, personagem inventada aos quatro anos, com quem ele então se entretinha horas a fio. Em Durban, realizou os estudos primários numa escola de freiras irlandesas; secundários, na Durban High School e, em 1904, foi aprovado nos exames de ingresso no Curso de Artes, na Cape Univerty. Mas no ano seguinte decidiu regressar a Lisboa, sozinho.

        De volta a Portugal, redescobre sua cultura e literatura: Cesário Verde, Antonio Nobre, Antero de Quental, Camilo Pessanha, que vêm somar-se a uns, como ele diz, “subpoetas”, lidos na infância. (É curioso o escasso interesse que Pessoa declara ter tido por Camões – a influência mais forte que sofreu, dentre todas. Harold Bloom, autor de "The anxiety of influence", teria aí matéria farta para demonstrar a sua tese, segundo a qual todo poeta anseia por matar o “pai”, escamoteando as influências que tenha recebido.) Em 1906, matricula-se no Colégio Superior de Letras, em Lisboa, que abandona em seguida, e começa a alimentar arrojados planos, literários e outros, nunca realizados na íntegra. Após o fracasso comercial de sua “Empresa Íbis – Tipografia e Editora”, experiência em que mais tarde reincidirá, emprega-se como correspondente de firmas estrangeiras sediadas em Lisboa, modéstia atividade que lhe garantirá o sustento até o fim de sua vida.

        Em 1912, estréia como crítico literário na revista A Águia, órgão do movimento nacionalista “Renascença Portuguesa”, chefiado por Teixeira Pascoaes, com o ensaio “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, onde profetiza o aparecimento, para breve, do “Supra Camões”, isto é, um poeta que irá suplantar o grande épico – e este é um dos raros momentos em que deixa entrever o alto apreço que tinha pelo poeta clássico, bem como o desejo de superá-lo. Daí em diante, a literatura lhe absorverá todo o tempo e interesse, tornando-se alvo de dedicação exclusiva”. Aí estão, pois, alguns trechos dessa excelente obra de Carlos Felipe Moisés, Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos, que vale a pena ser lido na íntegra.




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17 de mar. de 2009

HEITOR VILLA-LOBOS

. . por Pedro Luso de Carvalho .
Diz Bruno Kieffer, em Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira, que "Não poder haver dúvida: foi Raul Villa-Lobos, pai do compositor, quem deu impulso inicial e decisivo para a formação musical do jovem Heitor. O próprio compositor, já famoso, declarou em rápida autobiografia: “Meu pai, além de ser um homem de aprimorada cultura geral e excepcionalmente inteligente, era um músico prático, técnico e perfeito. Com ele, assistia sempre a ensaios, concerto e óperas, a fim de habituar-me ao gênero de conjunto instrumental”. . Quando Fernando Lopes Graça, conhecido compositor e musicólogo português, perguntou, em entrevista, ao autor dos Choros: - Quais os mestres por quem se sente devedor na formação da sua arte e da sua personalidade? – Sou devedor ao meu pai da minha formação da arte e da minha personalidade. Não posso, no entanto, deixar de reconhecer o quanto me interessam J. S. Bach, Florent Schmitt e Stravinski. O conhecimento de obras dos dois últimos compositores, deu-se somente por ocasião da primeira estada de Villa-Lobos na Europa (Paris, 1923/24). .
Sylvio Salema Garção Ribeiro (compositor, cantor e crítico musical de A Noite, Rio), que conheceu Villa-Lobos desde 1910, dá o seguinte depoimento: “Heitor teve boa base, aprendeu com o pai a ler música e a tocar violino (sic). Da biblioteca de seu pai guardou um Tratado de Harmonia do Padre Moura e de Durant, em francês, língua que aprendeu não sei com quem, mas sabia ler e falar”. E ainda: “Sua família era sócia do Clube Sinfônico que realizava concertos...” .
O instrumento do pai era o violoncelo. Como o dele era grande demais para o menino, Raul teve a idéia de adaptar um espigão a uma viola. Heitor podia agora estudar num “violoncelo” de tamanho adequado, só que tudo soava oitava acima... Mais adiante aprenderia também a soprar clarinete sob orientação do pai. Nota-se que Raul Villa-Lobos tinha acentuado interesse na educação musical de Tuhu, como era apelidado o pequeno Heitor. . .
Na casa dos Villa-Lobos cultivava-se não somente a música individual. Segundo Vasco Mariz, um dos biógrafos de Heitor: “Nomes respeitados na época freqüentavam-lhe a casa com assiduidade e organizavam-se em grupos de câmara fazendo música até altas horas da noite. Tal hábito, que durou anos, influiu decisivamente na formação da mentalidade de tuhu. Cultivou o gosto musical naquela atmosfera, conheceu de tudo e de todos, acumulou considerável experiência. (...) Data de seus oito anos o interesse por Bach (...) Responsável por essa nova predileção foi a tia Zizinha, boa pianista e entusiasta do Gravo Bem Temperado. E o pequeno Heitor extasiava-se diante dos prelúdios e fugas que a tia lhe tocava”.
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Villa-Lobos recebera na infância a influência dos autores clássicos e românticos, quer na casa paterna, quer nos recitais e concertos aos quais assistia. Em 1899, Heitor tinha então doze anos, quando seu pai faleceu. Daí em diante, a vida de Villa-Lobos seria radicalmente diferente.
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Heitor Villa-Lobos nasceu no dia 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro, onde morreu, no dia 17 de novembro de 1959.
REFERÊNCIA:
KIEFFER, Bruno. Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira - Movimento/MinC/ Pró-Memória – Instituto Nacional do Livro – Porto alegre: Editora Movimento, 1986, págs. 17/19.
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1 de mar. de 2009

CLARICE LISPECTOR / Uma Entrevista



                 por  Pedro Luso de Carvalho



        Entre uma pilha petições e outra de processos findos, que pretendia encaminhá-los à lixeira, encontrei dois recortes da revista Manchete, amassados, amarelecidos e sem data, que reproduzia uma entrevista concedida pelo filho de Clarice Lispector, o economista Paulo Gurgel Valente, a Jorge de Aquino Filho. 

        Acho que um de meus filhos, no afã de ajudar-me no emaranhado de papéis, misturou uma coisa com outra. Nas fotos de Paulo Marcos, o filho de Clarice posa para a foto principal da entrevista. Na parede da sala, um quadro da escritora pintado por De Chirico. Na primeira página da entrevista, acima dessa foto, aparece a manchete: “Minha mãe Clarice Lispector”.

        Como a entrevista é longa, farei menção apenas a alguns trechos do que Paulo falou sobre sua mãe Clarice, deixando de reproduzir a pergunta do entrevistador, e passando diretamente à resposta. Pois bem, o texto da entrevista tem uma espécie de ementa (própria de acórdão de tribunais): “Mamãe era extremamente vaidosa. Jamais escreveu trancada num quarto com cachimbo na boca, como diziam”.

        No camarote da Gávea – diz o entrevistador, nesse intróito – a presença de Clarice Lispector está viva nos pequenos baús de prata e no potinho que enfeitam a grande arca de madeira. E prossegue descrevendo a sala em que se encontram: “Na parede, ela revive em seus retratos feitos por Scliar e De Chirico, mostrando fases da escritora nascida na Ucrânia, União Soviética (na época), a 10 de dezembro de 1925, mas desde um ano de idade tornada brasileira pelos pais que escolheram o Brasil como pátria”.

        No início dessa conversa, Paulo dizia-se emocionado ao falar de sua mãe, e contente por saber da importância de sua obra. Disse do agradável convívio que Clarice tinha com ele, Paulo, e com seu irmão Pedro: “Mamãe se preocupava muito com seus filhos. Nossos deveres escolares, nossas amizades, nossa alimentação tinham sempre sua supervisão. Ao mesmo tempo criou-nos com muita liberdade. A característica principal foi inspirar sempre muita criatividade. Jamais nos cerceou”.
       
        Quando o entrevistador perguntou-lhe se sua mãe reclamava quando era interrompida pelos filhos, respondeu-lhe que não, e que ela gostava de escrever rodeada de seus dois filhos. Lembrava-se dela com a máquina de escrever no colo. Foi assim – disse - que escreveu todos os seu romances. E mais: sua mãe, não gostava de escritório, e mesmo enquanto escrevia, não deixava de ser uma dona-de-casa. “Ora falava de empregada, ora fazia a relação de compras. Muitas vezes fomos juntos à feira. Escrever, para ela, era como fazer compras ou concluir qualquer tarefa doméstica – algo muito natural”.
       
        Mais adiante, na entrevista, ante a pergunta do que marcou mais no contato entre mãe e filho, Paulo respondeu que “foi quando ainda garoto, vendo-a a escrever sempre sentada no seu sofá preferido, um dia lhe perguntei: ‘Já que a senhora tanto escreve, por que não faz uma história só para mim?' Mamãe parou o romance que estava escrevendo e iniciou a história. Depois, guardou-a na gaveta. Passados quinze anos a história foi editada como seu primeiro livro infantil chamado O Mistério do Coelhinho Pensante. Paulo diz que esse livro foi o início da incursão de sua mãe na literatura infantil.

                                                                   
                                                               
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