23 de dez de 2015

[Conto] NELSON RODRIGUES – Calamidade


– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Nelson Rodrigues foi o mais importante dramaturgo brasileiro do século 20. O seu talento deu-lhe a possibilidade de desvendar o mundo pequeno-burguês. Deixou homens e mulheres frente à crua realidade da vida. Deles, soube explorar, como poucos escritores o fizeram, o seu mundo de ilusão e de hipocrisia.  
Suas principais peças são: Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
Escolhemos, para esta postagem, o conto Calamidade, de Nelson Rodrigues, um dos contos que compõem o livro A vida como ela é...  (in: A vida como ela é... / Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 32), que segue:

CALAMIDADE
– NELSON RODRIGUES

Então, a mulher o arrastou para o gabinete. Conta-lhe o ocorrido; concluiu: “Eu admito que um marido possa ter suas fraquezas. Mas com a irmã da mulher, não! Nunca!” Repetia: “Com a irmã da mulher é muito desaforo!” O velho ergueu-se fremente: “Cadê esse patife?” Trincava as sílabas nos dentes: “Cachorro!” No seu desvario, procurava alguma coisa nos bolsos, nas gavetas próximas:
– Dou-lhe um tiro na boca!
E a mulher, chorando, só dizia: “Foi escolher justamente a caçula, uma menina, quase criança, meu Deus do Céu!” Mas já o velho abria a porta e irrompia na sala, dando patadas no assoalho: “Tragam esse canalha!” Houve um silêncio atônito. Flávia cutucou o marido: “Vai, meu filho, vai!” Arremessou-se Maneco. Foi encontrar o outro no fundo da garagem, de cócoras, como um bicho. Bateu-lhe, cordialmente, no ombro: “O homem te chama.” Foi avisando: “O negócio está preto. Ele quer dar tiros, diabo a quatro!” Bezerra estancou, exultante: “Se ele me der um tiro, é até um favor que me faz. Ótimo!” Numa súbita necessidade de confidência, apertou o braço de Maneco: “Eu sei que Sandra é uma vigarista, mas se, neste momento, ela me desse outra bola, eu ia, te juro, com casca e tudo!...”
  
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