2 de ago de 2015

[Conto] NELSON RODRIGUES – O torturado


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
NELSON RODRIGUES é considerado pela crítica literária o mais importante dramaturgo brasileiro do século 20. O conflito entre o desejo e a repressão foi a base com a qual desenvolveu sua dramaturgia, que teve o seu início aos 17 anos, quando seu irmão Roberto foi assassinado.
Nascido e criado num ambiente da pequena burguesia adquiriu desde pequeno um forte senso crítico. E foi justamente pela sua crítica cáustica da sociedade contemporânea que teve suas peças censuradas pela Ditadura Militar, quais sejam:  Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
Nelson Rodrigues não foi apenas dramaturgo, foi jornalista, cronista e contista. Em todas essas áreas destacou-se pelo seu talento incomum.
Nelson Falcão Rodrigues nasceu a 23 de agosto de 1912, no Recife, e morreu a 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Segue o conto de Nelson Rodrigues, O torturado (in A vida como ela é... / Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro, Agir, 2006, p. 152):

  O TORTURADO
  – NELSON RODRIGUES

Deixou-a na porta de casa e partiu, fora de si. Caminhando, dentro da noite, falava sozinho: “Essa é a maior! A maior!” Às dez horas da noite, vai bater na porta do Penaforte. Por acaso, o amigo, gripado, recolhera-se mais cedo. Asdrúbal esbraveja:
– O tiro saiu-me pela culatra! Estou mais cedo amarrado. – Asdrúbal esbraveja.
Metido num pijama de não sei quantas cores, às voltas com uma coriza inexaurível, Penaforte permitiu-se um humor sinistro:
– Estás frito! E só tem um jeito: Emigra, rapaz, para a China, a Cochichina, o diabo que te carregue!
O outro, porém, estava num desespero sincero e profundíssimo:
Vou te dizer o seguinte: a convivência com certas mulheres produz o câncer! Não é blague, não. É batata! E se eu continuar com essa pequena, vou acabar com câncer ou, no mínimo, com úlcera! Escreve!



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