20/09/2011

[CONTO] TCHEKHOV - Enfermaria nº 6





                 por  Pedro Luso de Carvalho


        Em 1979 a editora Editor:Victor Civita publicou As três irmãs e Outros contos, com a tradução de Maria Jacinta e de Boris Boris Schnaiderman, este, sem dúvida, o melhor tradutor do contista russo. Dentre os contos que foram escolhidos para esse livro encontramos um dos contos mais famosos de Anton Tcheckhov, qual seja, A Enfermaria nº 6.

        A história contada por Tchekhov tem como personagem central o médico-chefe de um hospital que acabou sendo internado na Enfermaria nº 6, onde passaria a conviver com doentes mentais. Nessa enfermaria, que ficava anexa ao hospital, cinco pacientes eram supervisionados por Nikita, que os observa com todo o rigor e crueldade.

        Um desses pacientes ocupava importante posição social, outro, um judeu chamado Moseika ficou demente aos vinte anos, quando sua oficina foi completamente destruída por um incêndio. Moseika é o único interno que tem permissão de sair do pavilhão e mesmo do hospital. Sai pelas ruas para mendigar, e quando retorna Nikita toma-lhe o dinheiro que recebia como esmola.

        Ivan Dmitri Gromov, demente, chega a ser posto a ferros, como ocorria com os degredados. Sofria de mania de perseguição. Examinado pelo Dr. Ranguin, este o encaminha para a Enfermaria nº 6. O quinto paciente a ser internado foi ex-funcionário dos correios, que costumava falar com Gromov das condecorações que dizia ter recebido.

        O hospital era dirigido pelo Dr. Ranguin, que aspirava seguir a carreira teológica, mas foi impedido pelo seu pai, também médico, que insistiu para que o filho seguisse a sua profissão, intento que teve êxito. O Dr. Ranguin homem corpulento, com tom de voz baixo, movimentava-se com certa lentidão, e era, em muitos aspectos, uma pessoa contraditória. Não se vestia como médico, e demonstrava indiferença no que dizia respeito à sua aparência. Também achava que o hospital era uma instituição imoral, que em nada contribuia para a saúde dos pacientes.

       O trabalho do Dr. Ranguin era extenuante. Sentia-se cansado pelo trabalho e pela monotonia do hospital, que a cada dia era mais monótono. Achava que o seu trabalho como médico era inútil. Num dia atendia 30 pacientes, no outro 35, depois 40, num ramerrão terrível que abrangia meses e anos. Chegou a atender 12 mil pessoas num só ano. O Dr. Ranguin sentia que o seu trabalho era uma fraude.

         A vida do Dr. Ranguin, já tomada pelo desânimo, sofre uma mudança expressiva: deixa de comparecer ao trabalho todos os dias, e quando vai hospital defronta-se com os mesmos aborrecimentos que o afligiam ao longo dos anos. Quando volta para casa dedica-se à leitura de obras de filosofia, biologia e história. Em determinado dia faz uma visita à Enfermaria nº 6 para conversar com o interno Gromov, o que viria a repetir-se por vários dias.

        O Dr. Ranguin percebe que o doente mental, Gromov, é pessoa muito inteligente, e logo sente ser ele um bom parceiro para conversar. Essas repetidas visitas e as longas conversas como o interno Gromov começa a causar estranheza em todos os funcionários do hospital, até que o Dr. Khobotov percebeu que seu colega não estava bem de suas faculdades mentais. Depois dessa conversa, o Dr. Ranguin começa a notar que o tratam com estranheza.

        Uma carta foi entregue ao Dr. Ranguin, que tinha como remetente o prefeito, que o convidava para uma reunião, e que parecia ser importante. Lá chegando encontrou, além do prefeito, o chefe da guarnição, superintendente do distrito escolar, um membro do conselho, o Dr. Khobotov, e um outro médico. O Dr. Ranguin sentiu-se desconfortável ante essa recepção.

       O Dr. Khobotov pergunta-lhe qual a data do dia da semana, quantos dias tem o ano; pergunta-lhe, ainda, se é verdade que o interno Gromov é um notável profeta. O Dr. Ranguin responde-lhe que se trata de um rapaz muito inteligente. Nessa altura dos acontecimentos o Dr. Ranguin já tinha percebido que o seu estado mental estava sendo submetido à prova.

        Nesse mesmo dia, à noite, o chefe dos correios, vai até a casa do seu amigo, o Dr. Ranguin, para dar-lhe o conselho de que deveria sair de férias, que, segundo o Dr. Khobotov a viagem seria benéfica para sua saúde. Seu amigo não poupou esforços para convencê-lo a acompanhá-lo a Moscou, São Petersburgo e Varsóvia. Na sua volta encontra o Dr. Khobotov ocupando o seu lugar, fato que o levou a procurar outro lugar para alojar-se.

       A Enfermaria nº 6, que é um dos contos mais longos de Tchekhov, termina de forma trágica: desempregado, o Dr. Ranguin não tem meios para pagar o aluguel, e seu destino acaba sendo a Enfermaria nº 6, na qual é internado na condição de doente mental. O Dr. Ranguin passou então a usar o roupão azul dos dementes da Enfermaria nº 6. A sorte, no entanto, não o abandonou: um ataque de apoplexia levou-o à morte, um dia após sua internação no pavilhão dos dementes. 


          [Ver: Anton Tchekhov / Mestre do Conto]



09/09/2011

AFONSO ARINOS / Artur Moreira Lima

Afonso Arinos de Melo Franco


                por Pedro Luso de Carvalho


        Afonso Arinos de Melo Franco foi escritor, professor, parlamentar, historiador, cientista político, jurista, crítico, ensaísta e poeta. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, a 27 de de novembro de 1905. Filho de Afrânio de Melo Franco e de Sylvia Alvim de Melo Franco. Foi sobrinho de Afonso Arinos (primeiro deste nome), mestre do regionalismo brasileiro. Seus filhos, Afonso Arinos (o terceiro deste nome), diplomata, e Francisco Manoel, engenheiro civil e economista.

        A carreira de Afonso Arinos de Melo Franco iniciou-se quando foi nomeado promotor de justiça da comarca de Belo Horizonte; ocupou esse cargo nos anos de 1927 e 1928. Foi professor catedrático de Direito Constitucional nas universidades do Rio de Janeiro, atual Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e a do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi deputado federal em três legislaturas (de 1947 a 1958), pelo Estado de Minas Gerais. Foi senador pelo antigo Distrito Federal, hoje Estado do Rio de Janeiro, em 1958. Por duas vezes exerceu o posto de Ministro das Relações Exteriores. 

        Afonso Arinos de Melo Franco foi eleito em 1958 como membro da Academia Brasileira de Letras, preenchendo a vaga da cadeira número 25, de que é patrono Junqueira Freire, em sucessão a José Lins do Rego. Disputou essa vaga com Guimarães Rosa, que somente seria escolhido para a A.B.L. na segunda vez que se canditou; desta vez, para preencher a vaga aberta com o falecimento de João Neves da Fontoura. Afonso Arinos foi convidado por Guimarães Rosa para recebê-lo na sua posse, em 1964.

        Afonso Arinos de Melo Franco foi casado com Anah Pereira de Melo Franco, neta do Conselheiro Rodrigues Alves. Além dos filhos, mencionados acima, o casal teve dez netos. Depois de uma vida operosa como homem público e como escritor, faleceu no dia 27 de agosto de 1990, na cidade do Rio de Janeiro. 

        No quarto livro de memórias de Afonso Arinos de Melo Franco (Alto-mar maralto, José Olympio, Rio de Janeiro, 1976, p. 91-92), encontramos uma referência feita pelo escritor à visita que fez com sua mulher, Anah, ao excepcional músico brasileiro Artur Moreira Lima, quando este residia com a mulher em Paris. Segue o texto de Afonso Arinos, que integra esse seu quarto livro de memórias:

       Afonso Arinos de Melo Franco - Fomos hoje à casa de Arthur Moreira Lima, o mestre brasileiro de piano que mal passa de trinta e três anos.Ele é o marido de Eliana, que conheci criança, filha de meu caro Adauto Cardoso. Foi uma noite rica de emoções. Primeiro por ver aquele inteligente casalzinho tão brasileiro, ele do Estácio, no Rio, ela de Curvelo ou adjacências, em Minas, escondido nos arredores de Viena, junto das filhinhas e de dois pianos. Arthur Moreira Lima tocou para Anah e para mim. Vimo-lo frágil, curvado sobre o teclado que dominava com uma força inesperada naquele corpo exíguo, de carioca fumante e notívago. E como dominava! Chopin e Mozart são especialidades que o prendem desde os anos que passou em Moscou e que, hoje, já o levam aos auditórios da Europa e da América. Trinta e três anos e uma experiência, uma segurança, uma nitidez de técnica sem exaltação de movimentos que logo dizem de sua mestria e madureza. Não lhe via as mãos, pois ele estava de costas, e mal os braços, porque só no necessário afastava-os do corpo esbelto e curvo. Com seus cabelos compridos, lisos e de pontas desiguais, como os que aparecem em certos retratos do tempo da Revolução Francesa, as costas encurvadas, parecia-me uma grande ave pousada na banqueta, o “gavião de penacho” de Afonso Arinos. Enquanto isso a magia do Noturno de Chopin subia das notas, ora em sequências delicadas, soltas como o fumo que se evola, ora em revoada tumultuosa, quando o gênio do romantismoo supersensível espírito passional e contraditório de Chopin mostrava bem aquilo que Madame de Staël, no livro de reconhecimento inaugural do romantismo, chamou com precisão “Sturm und Drang”, por causa da poesia de Schiller. Quando eu era moço, havia, no modernismo brasileiro, desprezo por Chopin e era, mesmo, de bom tom manifestar esse sentimento. Oswald de Andrade tem um poema sobre Paris em que ironiza:

         "As filhas dos concierges tocam Chopin
          Em pianos alugados".

      É que Chopin, em certos momentos, parece que brinca com a música e fá-la acessível ao sentimentalismo, coisa diversa do sentimento. Mas tudo isso é engano, quando se presencia uma interpretação como a de Cartot, que opuvi no Municipal do Rio anos atrás, ou esta, agora, de Moreira Lima. A força desfreada da paixão turbilhona em Chopin num desespero sem retórica, igual aos maiores momentos do Romantismo, aos versos de Baudelaire, Lamartine, Musset, Vigny, Victor Hugo. Digo sem retórica porque ela é diferente da eloquência e é, às vezes, o contrário da cultura. O romantismo das telas de Delacroix, dos romances de Balzac, das Memórias de Chateaubriand, das esculturas de Rude. Essa torrente de gênio francês tão superior ao naturalismo e ao simbolismo.

        Quanto a Mozart, a outra especialidade de Moreira Lima, é aquele anjo de sempre. Mozart me dá ideia de angelismo profissional, desatento ao seu luxurioso e frívolo século. Mas, ccom surpresa para mim, que tão pouco conheço de música e história da música, Artur Moreira Lima explica-me que, na vida pessoal, não foi nada angélico. Vivia nos centros viciosos de Viena, compôs canções obcenas, se não estou enganado levou vida tão desregrada que terá contribuído para sua morte prematura. Mas, para mim, é sempre como aqueles anjos de Guido Reni ou de Rafael, que transmitem, por instrumentos mágicos, entre estrelas e raios, as vozes inefáveis do céu.