31/01/2011

MANOEL CAETANO BANDEIRA DE MELLO / Outono Estação de Amor

Manoel Caetano



                    por  Pedro Luso de Carvalho


        O maranhense de Caxias, Manoel Caetano Bandeira de Mello, nasceu a 30 de julho de 1918 e faleceu em 2008, aos 90 anos de idade. Passou sua infância e adolescência em São Luís. Com a idade de 19 anos, o acadêmico de Direito muda-se para o Rio, no ano de 1938. Aí passa a colaborar nas colunas do semanário de letras Dom Casmurro. 

       Quando Manoel Caetano concluiu o curso de Direito já era profissional da imprensa. Durante a Segunda Guerra Mundial – 1939 a 1945 - trabalhou nas Agências Havas e Reuters. Após esse período, ingressou, mediante concurso público, no DASP, como redator, sendo lotado, depois, na Agência Nacional. Mais tarde, foi redator-chefe da Gazeta de Notícias (1951 a 1955), e, em O Jornal, órgão líder dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, passou a escrever a seção “Semana Internacional”.

        E nesta altura, encerramos a lista desses poucos dados pessoais Manoel Caetano Bandeira de Mello, para, agora, falar-mos de sua obra poética, como segue: 

        No ano de 1987 a Livraria José Olympio publica, em convênio com a Secretaria da Cultura do Estado do Maranhão, ”Outono Estação de Amor”, do poeta Manoel Caetano Bandeira de Mello. Manifestações de acolhimento ao livro são feitas por nomes importantes da literatura brasileira; a esses escritores, poetas e críticos literários, soma-se a contribuição do romancista Josué Montello, membro da Academia Brasileira de Letras, com a brilhante apresentação que faz à obra. Para não nos alongarmos, veremos a seguir o que pensam alguns desses nomes, quais sejam:

       ADONIAS FILHO: É possível que os temas, sempre eternos porque integrados na condição da criatura – a morte e o amor -, tenham imposto essa estrutura clássica no sentido do conteúdo universal no fundo do artesanato moderno. Já não aparecem, porém, como uma experiência. Em suas bases líricas, por vezes no plano da reinvenção, a exemplo da configuração valéryana, tudo de tal modo vem da carne e do sangue que a palavra exata é esta: nascida, a poesia nascida.

        OCTÁVIO DE FARIA: A forma que alcançou agora, depois de laborioso esforço, é de tal modo nova e forte, tão rica e segura de si, de tal maneira trabalhada e marcante, seus decassílabos são tão firmes e eufônicos, suas quadras marcham com o ritmo tão desenvolto e consciente de si, tão grande é a liberdade das rimas e das elipses, das sugestões verbais e das ousadias silábicas, que nos encontramos diante de um mundo poético, totalmente diverso do que se encontrava entre os pólos extremos, tanto do amor e da morte, como do soneto clássico e do verso livre.

        JOSUÉ MONTELLO (trechos da sua apresentação): Manoel Caetano Bandeira de Mello, a quem já defini como poeta de minha geração maranhense, está na fase em que o criador literário tem ao mesmo tempo o domínio de seu ofício e o domínio da vida.

        A vida, que é uma adivinhação na juventude - escreve Montello-, constitui um acervo de experiências profundas, sempre que entramos na maturidade. O que, ontem, era intuição, passa a constituir vivência acumulada, que se exprime dispensando a fantasia, para nutrir-se de recordações.

        O poeta romântico preferiu a intuição à experiência - prossegue Montello. Não esperou pela vida vivida para recolhê-la à concha do poema. Captou-lhe as vozes líricas, e pôde ser mestre ainda jovem, como Gonçalves Dias e Castro Alves. A imaginação fez o seu ofício, com tal poder de verdade permanente, que a “Canção do Exílio”, escrita aos 20 anos, ajusta-se a todas as idades, sem ter envelhecido com o rolar do tempo.

        (...) Manoel Caetano Bandeira de Mello também passou pela fase em que o poeta se deixa conduzir pela intuição da vida. No momento próprio, pôs em versos os seus desencantos de adolescente (...). 

        Os livros que Manoel Caetano Bandeira de Mello publicou até hoje – enfatiza Montello -, balizando o seu caminho da poesia lúcida, ficariam derrogados, após o aparecimento deste Outono estação de amor, se os livros anteriores não contivessem as raízes deste remate intencional.

        Com efeito – diz Montello -, já o poeta de ontem – hoje mais exigente, ontem mais espontâneo. E como a poesia atual é essencialmente técnica, sem prescindir de certa invenção matinal, que lhe confere juventude perene, ocorre que, neste momento, o grande companheiro de geração maranhense, que pretendeu traduzir Milton ao tempo do Liceu, vem dizer-nos com o testamento de seus melhores versos, que o Amor, a primeira matriz da poesia, contemporânea da Primavera, tem no Outono a sua estação adequada.

        Com trechos dessa peça rara, que é a apresentação da obra de Manoel Caetano, escrita por Josué Montello, e que ainda vai longe, nós ficamos por aqui, para a seguir mostrarmos os três primeiros sonetos dos trinta e sete que compõem o livro Outono estação de amor, de Manoel Caetano Bandeira de Mello: 


                        I

 No outono desta vida recomponho  
as horas que de novo viveria
se pudesse voltar aquele dia
que me semelha o espaço deste sonho.

É o passado de volta de seu sono
como o tempo de outrora voltaria.
Unido o cotidiano com a magia
o amor não muda na estação do outono.

Como se fosse outra primavera
a me trazer de novo ansiedade
agora temperada em experiências

que se não faz da gente o que antes era
nos deixa na lembrança a mesma idade
que ilumina de amor tamanha ausência
                   
                    II

Um encontro de olhares entre vento
e mares e azulejo e velha ilha
cabelos esvoaçantes pensamento
que a alma deste corpo maravilha

Um regresso na escada de outro tempo
as lembranças rolantes das meninas
que não sei se me vêem mas contemplo
ressurgidas diante da retina

Quanto calor de quem tanto à distância
se fascina com a chama que o atrai
e desconhece aonde lhe levam os passos

se para os umbrais de uma outra infância
que das fronteiras de minha alma sai
em viagem na noite dos espaços

                    III

Olhar de luz a me aquecer a face
quando comigo cruza aquele instante
passageiro, como eu, bem que não passe
amor já tão longínquo quanto o cante.

Naquela tarde luminosa diante
dessa criatura que talvez amasse,
sonho prendê-la em imaginário enlace
mas fujo do seu rosto radiante.

Se nunca ouvi tua voz eu a pressinto
a censurar, quem sabe, o amor covarde
que só em ver de longe se contenta

movido do poder daquele instinto
que ainda hoje como outrora arde
para erguer-me no vôo que sustenta

                                 
                                       (by Manoel Caetano Bandeira de Mello)


17/01/2011

E. P. PICCOLI - Essas coisas na vida de um guasca



                      por  Pedro Luso de Carvalho 


      Conheci o escritor Elbio Prates Piccoli há alguns anos, no apartamento de meu sogro, quando este comemorava seu aniversário. Enquanto as mulheres conversam na sala de visitas, nós, os homens, conversávamos na biblioteca. Na ocasião, o sogro dirigiu-se a mim, e disse: “Pedro, apresento-lhe o Coronel Piccoli”. Após essa apresentação, sentamo-nos, então, para não importunarmos os demais convivas, que aí se encontravam. Logo fui dizendo ao Coronel (esse era o tratamento que os familiares da Taís, minha mulher, dispensavam-lhe – era a sua patente de militar) que já o conhecia de vista, de ouvir falar, e, principalmente, pelos seus livros. Sabia de sua inteira dedicação à literatura a partir de 1974.

        Na seqüência dessa conversa, o Coronel Piccoli falou-me de seu interesse pela literatura, que vinha de sua infância, e apontou-me seus escritores favoritos: Guimarães Rosa, Mário Palmério, Anton Tchekhov, Dostoiévski, William Faulkner, e outros que seguiu nomeando na agradável conversa. Contou-me, um tanto constrangido, que estava escrevendo um difícil trabalho sobre a obra de Faulkner, por se tratar de um dos mais importantes romancistas norte-americano.

        Não terminamos nossa conversa antes que o Piccoli voltasse a abordar o prêmio Prêmio Jornal de Letras, que recebera em 1975. Disse-me ele que o seu conto premiado foi “Essas coisas na vida de um guasca”, que fora originalmente publicado em Sant'Ana do Livramento, sua cidade natal, no livro 1º Mutirão Literário de Sant'Ana do Livramento, ed. A Platéia, s/d. 

        No dia seguinte, o escritor telefonou-me para dizer que havia deixado esse livro, com o seu conto (“Essas coisas na vida de um guasca”), no apartamento de meu sogro, em cujo livro escreveu esta dedicatória: “Para o meu prezado amigo Pedro Luso ofereço a modesta participação de fls. 23/30. Piccoli. Poa, 12/nov 82”.

        SUAS PRINCIPAIS OBRAS: a) Mealheiros de estórias - 1º lugar no gênero conto do I Congresso Universitário de Literatura, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1976, co-edição Editora da UFRGS/Editora Garatuja, Porto Alegre, 1977; b) Momentos - livro de contos, com destaque para o conto Essas coisas na vida de um guasca, 2º lugar no I Prêmio Nacional de Contos, promoção conjunta do Jornal de Letras e da Distribuidora Imprensa, Rio de Janeiro, em 1975, AGE Editora, Porto Alegre, 1996; c) Cara de Bronze – romance, que foi merecedor de Menção Honrosa no “I Prêmio Nacional José Lins do Rêgo” e vencedor do IX Prêmio Guimarães Rosa, em 1983 - Tchê Editora, Porto Alegre, 1988. Piccoli também participou de antologias de contos publicadas em vários centros do Brasil.

        A Comissão Julgadora, que concedeu o IX Prêmio Nacional de romance “Guimarães Rosa”, em 1983, Minas Gerais, ao escritor Elbio Prates Piccoli, assim se manifestou: “O romance Cara de Broze afigurou-se à comissão o de mais bem acabada realização. A história do camponês Bertoldo encontra neste romance um trabalho lingüístico e literário pouco comum na moderna ficção brasileira. Este romance, entre nós de difícil e rara realização literária, vive num mínimo de escritos brasileiros (...) resgata a melhor tradição literária vigente entre nós”. 

        Elbio Prates Piccoli nasceu em Sant'Ana do Livramento, cidade que faz fronteira com o Uruguai, no ano de 1925, e morreu em 28 de novembro 2009, em Porto Alegre, aos 84 anos de idade.

        Antes de transcrevermos  Essas coisas na vida de um guasca, conto que integra o seu livro de contos Momentos, Porto Alegre, AGE, p. 41-45, vamos ler o que Sérgio Jochyman, romancista e dramaturgo gaúcho, escreveu no jornal Folha da Tarde, em 12.11.1976, sobre Elbio Prates Piccoli: “Ele escreve pela mesma razão que o sabiá canta. É seu modo de ser”. 

        Segue o conto de Elbio Prates Piccoli, que lhe deu o 2º lugar no I Concurso Nacional de Contos, Prêmio Jornal de Letras/Distribuidora Imprensa, RJ, 1975:



              ESSAS COISAS NA VIDA DE UM GUASCA



        A enorme cicatriz na cara do guasca – dessas deixadas por lanho de facão que depois de cruzados ferros acima das cabeças, chispando lâmina em lâmina, escorrega e desce, um relâmpago, e rasga desde a raiz da guedelha na fonte, do lado direito, passando entre os olhos, no cavalete do nariz, abrindo sulco na bochecha do lado esquerdo, até embaixo da orelha salvante a carótida, talho de mais de palmo – inturgesceu-se junto com seus pensamentos. Essas coisas na vida de um qüera largado: partir para abrir a cancela do mundo, meter-se em revoluções; gauderiar perdidamente, de cambada e bilotagem com outros cupinudos em pombal de beira de estrada, em farromeiros farranchos; voltar depois, estragado, aperreado, lonqueado, aporreado, vazia dos dobrões e bolivianos a guaiaca, e só uns putas quatis-baianos!... Bateu a binga e pôs fogo no palheiro. A montada quieta, à sombra da reboleira, só espaventando a laçaços de cola, das suas virilhas, importunas varejeiras sequiosas do sudor e dos traços de sangue.

        Sob o puxado do rancho, a isso de umas cem braças para dentro do cercado, a mulher lavava roupas na tina. Ele se distraía na espreita, debruçado em forquilha de araçá, qual que estátua de gaúcho assim destroçada da intempérie e dos malevas ladrões, já desfalcado das boleadeiras, permutado o pala por roto bichará, despilchado das doblas da bombacha e dos arreios, restados mesmo de seus o trabuco, o punhal e as esporas. Franziu-se na testa quando, na esteira dos latidos e festejos do cachorro, o pequenote surgiu, encarapitado no pilungo puxador da pipa-de-arrasto, vencendo a dobra do terreno em lançante para o arroio.

        A verberação do sol no pedregulho do caminho produziu-lhe alguma cosquilhação nas vistas, porquanto baixou a aba do sombreiro a modo de protegê-las, ou do testemunho de Deus se a imagem nas suas pupilas do guri diligenciando subida da pipa para o jirau. Baforava o crioulo, mordido e babujado, irresoluto entre arrimar-se ou fazer cara-volta, brincando às mãos com uma ponta das rédeas ora de relhaços nas palmas ora nas formigas encarreiradas nos ramos do arbusto. 

        A mulher movimentou-se para o varal, desentrouxando e estendendo lençóis.

       Aí ele decidiu-se. As chilenas iam riscando lento ruído cansado de carretilhas no trilho, passada a porteira, espavorindo gafanhotos e libelinhas, e logo atrás o modorro pisoteio das patas do cavalo. O cusco alertara-se, de orelhas e olfato, e armou a primeira carreira, ladrando; parou, a pouco mais de dois tiros de laço, farejando interrogações; agachou-se, de barriga no pasto; lambia-se, hesitante; afinal, meneando ancas e a cauda peluda, cabeça humildosa, rumou no trotezito ao encontro do recém-chegado.

        Recostado à tronqueira do curralete, o viajante viu como ela se afligia de recolher para a casa a dois outros pequeninos. No peito do guasca o coração martelou mais forte; uma desconfiança trincou-lhe dentes de jaguatirica na alma.

       Viraçãozinha da banda do nascente fazia olorosas as boninas ao gozo da ressolana, embriagando a passarada no retouço dos ares e do arvoredo. O vestido dela panejava – e ele lembrou-se do estandarte revolucionário – e os cabelos envolviam como pendões de trigal acossado da ventania. Nele, as listas pretas e brancas do poncho dobrado sobre o ombro e as peiteiras abertas do jaleco engolfavam-se em ondulações.

        Desencafuando-se do entre-paus, arrastou o gasto solado das botas até onde ela, abraçado a si o ginete do mancarrão pipeiro, esperando. Encorujado no topo de sua estatura, era tronco de coronilha estorricado de raio, parava-se ali, em frente da mulher, estaqueado num espanto, espiava a porta do rancho. No depoisinho, volveu-lhe uma expressão vincada pelo desprezo, prescrutando no fundo dos seus olhos azuis: Isaltina...? Ela desencorajava-se de sorrir, pateta da surpresa, encobria a falta de dentes com a ponta do avental; e inferia, dos trajes farrapentos, do desaprumo dele, os desperdícios provocados por cinco anos de geadas e soalheiras a deus-dará.

        As luzes do céu da tarde não eram mais intensas do que a alegria nos olhos dela. - “Anda, Fermininho, a tomá a bênça do teu pai” - “Isaltina!...” - e ele subtraía a mão às tentativas da criança por beijá-la - “...Isaltina, e essas duas? Menino e menina de nem três e quatro!” - e sua voz pautava-se grave, acusadora. “Vai, chê, porquera de ruivo nanico! Desencilha, aguateia e bota pra pastorejá o meu zaino.”

        Dela, o gesto de apontar em torno o vazio da campina, apenas povoada pela quincha e a chaminé de lata do casebre, o tímido movimento do braço, pesado de amarga submissão, antecipou sua resposta: - “A gente ficou abandonados, meu marido, sem defesa nestas lonjuras de quem chega com malas intenções. Mulher sozinha, tu sabe, é rês que qualesquer carneia!” 

        Assoviando nas cristazinhas do capim-forquilha, do alpiste, da carqueja – reclinados em respeitoso cumprimento – fazendo gemerem chorões no banhado, a aragem assentava compressas frias na febre da sua alucinação. Pendia-lhe o mango de um lado, no seguimento do membro inerte, enquanto a mão do lado do revólver amaciava, aflitiva, a borla do barbicacho.

       - “Quem sabe tu entra? Descansa. Eu preparo mate e te dou janta. E costuro, prego botões. Aí tu arresolves da nossa vida...” - brotou murmurado suave dos lábios de Isaldina. E ela se voltou, silenciando suas dores, adentrando-se em casa.

        A escuridão e os ruídos noturnos do brejal nanavam a três criaturinhas enrodilhadas num catre. Isaltina, pelas tantas e quantas, interrompia os labores de agulha e linha tão-só para espevitar o candeeiro.

        Ele, no sossego de couro acolchoado em Santa Fé, circunscrevia memórias pelas taipas – em detenças ligeiras no casco de tatu, na lonca de capivara, na pele curtida de cruzeira, na guampa dependurada – terçando armas em peleia de macho, de brutezas e de morte com o avantesma do seu orgulho. Arreceava-se de esquecer contemplação no perfil dela – o mesmo de oito anos atrás, quando esticara aramados naquela sesmaria de campo, erguera o rancho e a fora buscar na cidade, da pensão da Naná. Isaltina havia-lhe dito que Zeca e Maria do Carmo chamavam-se os dois, pagãozinhos todavia. - “Fermininho!... ah!... sangue mesmo do seu , o tal do campeiraço havia-de.”

        Ainda piscava o carijó no poleiro do tapume e ele já encilhando a montada. Isaltina, forneando pão-doce e enrolando cozido para a matula, azafamava-se embaixo do puxado; um descuido e fluíam de pingos na massa lágrimas desconsoladas, de cambulha com gotas de orvalho. Parecia até ela querendo sua saudade viajasse junto com ele. Fermininho ajudando. De correrias com o cachorro as criancinhas. E elas vieram de lá, de bênça-meu-pai, assim ele passava a perna, endireitando-se nos arreios.

         Para os lados das grotas, ao longe, por detrás dos contrafortes escuros da serrania, pegara de barrar-se vermelho o firmamento. E as coxilhas espreguiçavam-se da dormilança.

        De súbito, o ovelheiro, rosnando no meio da alacridade dos inocentes, denunciou o recorte entre as sombras que se esvaeciam, de três vultos, de a-cavalo, envindo-se no chouto desde a varanda vicinal.

        O guasca não se moqueou no brasido da incerteza. Boleou-se, num parpadeio de mocho, entregou as rédeas a Fermininho - “Desarreia o tostado, Ruivo...” - e governou: - “Pra dentro, meus filhos, co'a sua mãe!”

        Na altura do palanque, pertinho de em donde a carreta se abandonara capenga, os três chegadiços sofrenaram os rocinantes. Postado, ele alteante, feito mestre de alambrado, aguardava saudações.

        Replicou: - “Y santas! Se apeiem nomás. Les mando servir um amargo”.



                                                                                (by Elbio Piccoli) 

04/01/2011

[CONTO] CYRO MARTINS / DERROTADO

Cyro Martins

                         por Pedro Luso de Carvalho

                                      
      Importantes homens e mulheres da letras brasileira vêm analisando a obra do escritor gaúcho Cyro Martins - médico-psicanalista por formação-, que se sobressaiu no conto, no romance e no ensaio. Um destes críticos, foi Carlos Jorge Appel, que fez a apresentação do seu livro de ensaios, qual seja,  Escritores Gaúchos, que foi publicado pela editora Movimento, em 1981; diz Appel: “Cyro Martins, lançando-se em 1934, teve não só a força de revisar, reestruturar todos os seus romances e livros de contos, como ainda conseguiu, 'no rabo das horas', como costuma dizer, analisar a obra de muitos contemporâneos seus”.

        Carlos Jorge Appel menciona os muitos nomes desses escritores da geração de 30: Érico Veríssimo, Dyonélio Machado, Nogueira Leiria, Lilla Ripoll, Mário Quintana e Raul Bopp. E conclui Appe1: “Mais que uma devoção que nutre por todos eles, como reconhece o próprio Cyro Martins, mais que um depoimento ou reminiscências criativas, deve-se reconhecer em Escritores Gaúchos o que propõe a epígrafe de Augusto Meyer: Cada palavra impressa esconde um espelho de mil facetas, onde a nossa imagem pode multiplicar-se até a tortura dos indefiníveis".

        O livro de contos Campo Fora foi a estréia de Cyro Martins, em 1934.Sobre essa obra, escreveu o também escritor e crítico literário Guilhermino Cesar: Campo Fora troxe ao gênero uma perspectiva social que todos os seus críticos têm valorizado; e sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as “modas” de hoje estiverem esquecidas. Mas, a meu ver, há nele um traço que o singulariza entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de narrar”. 

        Cyro dos Santos Martins nasceu em 5 de agosto de 1908, em Quaraí, RS, e faleceu a 15 de dezembro de 1995, em Porto Alegre.

        Segue o conto Derrotado, de Cyro Martins, que integra o seu livro de contos Campo Fora, sua obra de estréia, publicado em Porto alegre pela editora Movimento, em 1991, p. 32-33: 



                            DERROTADO



        Isidoro Palma vinha derrotado.

        Esfalfados, ele e o cavalo, a expressão de caiporice estampada no semblante, e um ar triste de derrota nos gestos.

        Descia o Caverá. Ao tranco, que o montado não dava para mais.

        Na estrada não havia rasto de ninguém. Os aramados em extensões enormes deitados no chão, o pasto quebradiço e branco, e as lavouras sem viço, minguadas, davam uma desolada impressão de abandono.

        Meia tarde. Sol de dezembro castigando a terra. A cintilação áspera das distâncias cegava. E na encosta dos cerros, e no fundo das baixadas, o abrigo da sombra das restingas. Mais adiante, à beira-estrada, quietas e sós, raras árvores franqueando-se buenas ao andante estafado para uma sesteada de alívio.

        Havia um ano atrás, bem justo, passara ali mesmo.

        Mas que brutal mudança! Daquela vez, que alegria solta! Nos companheiros, nos campos, nos cerros, nas árvores, nos animais! E ele, fanfarrão, alteando a estampa moça, era decerto o mais feliz na gaiatice geral. Tinha motivos demais para tamanha alegria.

        Trazia aquilo bem vivo na memória. A troca cruzara ali de manhã. Os pingos recém-potreados, alarifes e graxudos, resvalavam os cascos brutos naquela fartura de capim ainda molhado da serenada grande. E os índios levavam dentro do peito ímpetos xucros de carga. E o capitão Isidoro Palma, à frente do seu grupo guapo, mais resolvido do que nunca pra que viesse, perna estaqueada no pingo arpista, era a esperança da coluna.

        E agora? Tudo mudado!

        Era funda a mágoa do gaúcho caipora, vendo a mesma paisagem gloriosa de outro tempo estirar-se hostil aos seus olhos cansados.
  
        Quando o sol entrou, já vinha longe do Caverá.

        Atravessava agora a várzea do Cantagalo. Sempre ao tranco, como se não levasse pressa. Alheio à instinção da paisagem. As vistas varando a meia luz do horizonte quase morto, rumo a um rancho no garupá. Lá, enlaçando o busto na procura do que vinha nas distâncias, uma chinita esperava impaciente o dono do seu coração. Aquela noite, devagar mesmo, havia de chegar.

        O cavalo parou. O índio o convidou de leve com a espora. Nada. O montado não dava mais.

      Isidoro Palma apeou, fronte franzida num pressentimento. E sem queixa,sem maldições, com muita cautela, com muito mimo, com muita pena desencilhou o pobre pingo, para não judiar do flete companheiraço.

        O gaúcho, estirado nos arreios, integrou-se na paz daquele chão.

        Longe, num estirão de léguas, subindo de trás do Jarau uma montoeira de nuvens afogueadas. E no céu alto e aberto, na rasura dos planos e nas árvores perdidas, o jeito pesado das coisas imóveis.

        Quando acordou no outro dia, vinha apontando o sol. De pé, varreu a várzea num golpe de vista. A meia légua, um piquete guerreiro.
     
        A perseguição aos derrotados continuava.

        Endereçou-se ao cavalo, ainda espichado na grama miúda. Chegou cauteloso. Amimou-lhe a anca, o lombo, as crinas. Levou o buçal com cuidado. E a custo se convenceu que lhe morrera o pingo.

        Recalcando a crua mágoa, ficou tempo parado diante do flete companheiro de muitas noitadas de amor, de incontáveis carreiras de peleia e tava, de muita corrida braba de boi, e de brutais arriscadas na guerra.

        O piquete inimigo vinha perto.

        Reluziam ao sol os dentes rilhados do animal. E os olhos vidrados pareciam fixar o perfil acabrunhado do guerreiro.

        Os perseguidores galopearam. O tropel se espraiou longínquo alarmado no descampado. Um grito e mais outro e um berreiro estalou. Luziram espadas contra o sol nascente. Lenços e palas revoaram sacudidos pelo vento.

        Isidoro Palma tinha ainda a sua adaga fiel.

        Caiu hirto, em golpe duro, como um pau sobre o cavalo morto.