24/08/2010

JAMES JOYCE – PARTE II



           por Pedro Luso de Carvalho

        No seu Ulisses, que foi lançado em Paris, no ano de 1922, livro de quase mil páginas, James Joyce conta, no espaço de 24 horas do dia 16 de junho de 1904, a história de Leopold Bloom, um homem comum, de meia-idade, que trabalha em Dublin, na Irlanda, como agente publicitário. O romance, que foi inspirado na Odisséia de Homero, foi recebido pela crítica como inovador nesse genero da literatura. E custou a Joyce um longo e esmerado trabalho, que levou quase oito anos para que estivesse acabado de forma definitiva. Nos Estados Unidos, a distribuição da obra chegou a ser proibida pela Corte Suprema, que entendia tratar-se de um romance imoral e obsceno.

        No Brasil , no ano de 1960, o livro de Joyce, Ulisses, foi traduzido por Antônio Houaiss, membro da Academia Brasileira de Letras. Anos mais tarde, cerca de quatro décadas, nova tradução de Ulisses foi feita para o portugues, desta vez, pela professora Bernardina da Silveira Pinheiro.

        Na argentina, uma das mais importantes vozes da literatura, Jorge Luis Borges, diz como recebeu essa obra de James Joyce - e, para falar sobre Ulisses, faz antes menção ao conto Funes, o Memorioso. Assim, pois, se manifesta Borges sobre Ulisses:

        “Entre as obras que não escrevi nem escreverei (mas que de certo modo me justificam, embora misterioso e rudimentar) há um conto de umas oito ou dez páginas cujo profuso rascunho se chama Funes, o Memorioso, e que noutras versões mais castigadas se chama Ireneo Funes. O protagonista dessa ficção duas vezes quimérica é, por 1881, um 'compradrito' normalmente infeliz de Fray Bentos ou de Junín. (Borges então passa a contar essa história.)

        Do compadrito mágico do meu conto cabe afirmar que é um precursor dos super-homens, um Zaratustra suburbano e parcial; o indiscutível é que é um monstro. Lembrei-o porque a consecutiva e reta leitura das quatrocentas mil palavras de Ulisses exigiria monstros análogos. (Não aventurarei nada sobre o que exigiria Finnegans Wake; para mim, não menos inconcebível que a quarta dimensão de C. H, Hinton ou que a trindade de Nicca.) Ninguém ignora que para os leitores desprevenidos, o vasto romance de Joyce é indecifravelmente caótico. Nínguém tampouco ignora que seu intérprete oficial, Stuart Gilbert, propalou que cada um dos dezoito capítulos corresponde a uma hora do dia, a um órgão corporal, a uma arte, a um símbolo, a uma cor, a uma técnica literária e a uma das aventuras de Ulisses, filho de Laertes, da semente de Zeus. A mera notícia dessas imperceptíveis e laboriosas correspondencias bastou para que o mundo venere a severa construção e a disciplina clássica da obra. “Desses tics voluntários, o mais gabado tem sido o mais insignificante; os contatos de James Joyce com Homero, ou (simplesmente) com o senador pelo distrito de Jura, M. Victor Bérard.

        Sem dúvida, o obviamente admirável - prossegue Borges - é a multiplicidade multitudinária de estilos. Como Shakespeare, como Quevedo, como Goethe, como nenhum outro escritor, Joyce é menos um literato que uma literatura. E o é, incrivelmente, no espaço de um só volume. Sua escrita é intensa; a de Goethe nunca foi; é delicada: Quevedo não suspeitou essa virtude. Eu (como o resto do universo) não li Ulisses, mas leio e releio com felicidade algumas cenas: o diálogo sobre Shakespeare, a Wlapugisnacht no bordel, as interrogações e respostas do catecismo: ... They drank sin jocoserous silence Epp's massproduct, of creatture cocoa. E noutra página: A dark horse riderless, bolts like a phantom past the winningpost, his mane moonfoaming, his eyeballs stars. E noutra: Bridebed, childbed, bed of death ghostcandled.

        A plenitude e a indigencia - conclui Borges - convivem em Joyce. A falta de capacidade de construir (que seus deuses não lhe deram e que precisou suprir com árduas simetrias e labirintos) gozou de um dom verbal, de uma feliz onipotencia da palavra, que não é exagerado ou impreciso equiparará de Hamlet ou a de Urn Brurial... O Ulisses (ninguém ignora) é a história de um só dia, no território de uma só cidade. Nessa voluntária limitação é lícito perceber algo mais que uma elegancia aristotélica; é lícito deduzir que para Joyce todos os dias foram, de algum modo secreto, o dia irreparável do Juízo; todos os lugares, o Inferno ou o purgatório.

Jorge Luis Borges
(Sur, nº 77. Buenos Aires, 1941.)"
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        Para ler a terceira parte deste trabalho, clique em JAMES JOYCE - Parte III


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REFERENCIAS:
MONEGAL, Emir Rodrigues. Borges por Borges. Tradução de Ernani Só. Porto Alegre: L&PM, 1987.




13/08/2010

JAMES JOYCE – PARTE I



           por Pedro Luso de Carvalho       
       
        James Augustine Aloysius Joyce nasceu a 2 de fevereiro de 1882, em Dublin, Irlanda, e morreu no dia 13 de janeiro de 1941, em Zurique, Suíça. As principais obras de James Joyce são: Stephen Hero, escrito nos anos de 1904-1906, cuja publicação deu-se somente em 1944, após a morte do escritor; Retrato de um artista quando jovem (1916), Ulisses (1920), Finnegans Wake (1939); Dublinenses, livro de contos (1914); Exilados, peça de teatro (1918); Giacomo Joyce, obra poética (1907), publicada em 1968; Música de câmara, poesia (1907), Um tostão poesia (1927).

        No verbete James Joyce, do Koogan Larouse, com Direção de Antonio Houaiss, membro da Academia brasileira de Letras, lemos: “Autor de duas narrativas dotadas de simbolismo múltiplo e cuja personagem principal é, definitivamente, a linguagem: Ulisses (1922), Finnegans Wake (1939). Joyce está nas origens das pesquisas da literatura moderna”.

        O célebre escritor norte-americano Edmund Wilson, um dos mais importantes críticos literários, fala-nos de como Joyce escreveu Ulisses, a sua obra-prima, do ponto de vista formal, que se distancia do romance comum, no qual o escritor “negligencia a ação, narrativa e drama da espécie usual, inclusive o impacto direto de uma personagem sobre outra, conforme ocorre no romance comum, em favor de uma espécie de descrição psicológica”.

        Edmund Wilson (in O Castelo de Axel) reconhece, no entanto, a grande vitalidade que há em Joyce, mas diz que há muito pouco movimento na sua narrativa, frisando que o romance é mais sinfonico que narrativo, e que se assemelha a Proust.

        “Sua ficção – diz Edmundo Wilson - apresenta progressões e desenvolvimentos próprios, mas estes são mais musicais que dramáticos. A peça mais esmerada e interessante de Dublinenses – o conto intitulado Os mortos – é o simples registro da modificação ocasionada, numa única noite, nas relações entre o marido e a esposa pelo fato de o homem se ter dado conta, merce do efeito produzido na mulher por uma canção ouvida numa festa familiar, de que ela fora amada outrora por outro homem; Retrato do artista quando jovem é apenas uma série de retratos do autor em estágios sucessivos de seu desenvolvimento; o tema de Exilados, a modificação suscitada nas relações de marido e mulher pelo reaparecimento de um homem que fora amante desta.

        E Ulisses – prossegue Wilson -, por sua vez, a despeito de sua amplitude é tão somente a história de outra pequena mais significativa alteração nas relações de ainda outro casal, em consequencia da intrusão , em seu lar, da personalidade de um rapaz a quem a quem mal se conhecem. A maioria dessas histórias abrange um período de poucas horas, e nenhuma delas tem seguimento. Uma vez exploradas tais situações, uma vez restabelecido o pequeno reajuste gradual, Joyce fez tudo quanto lhe interessava fazer”.

        Em Ulisses, Joyce relata um dia na vida de Leonard Bloom, filho de um judeu húngaro, em Dublin. Para escrever esse romance Joyce inspirou-se em Odisséia, poema épico de Homero. No meio dessa narrativa Joyce utiliza o que de melhor conhece na arte de escrever, “do fluxo de consciencia ao pastiche, e faz paródias com tudo que encontra pela frente, dos romances populares à poesia heróica irlandesa. O romance foi criticado pelo excesso de virtuosismo. Mas quando entre as imitações de uma obra aparecem criações literárias tão importantes quanto Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, Terra desolada, de T.S. Eliot, por exemplo, tais críticas demonstram ser, de certa forma , academicos. Mesmo os detratores do romance precisam reconhecer que existem poucas obras de literatura inglesa, à exceção daquelas de William Shakespeare, cuja repercussão tenha sido mais significativa e duradoura”. (in Grandes Escritores, editor geral Julian Patrick).
       
       
        Na próxima postagem continuaremos a falar sobre a obra de James Joyce - Retrato de um artista quando jovem, Ulisses, Finnegans Wake, Dublinenses, entre outros livros - e também da vida do escritor.

        Para ler a continuação deste texto, clique em JAMES JOYCE - Parte II.

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REFERENCIAS:
WILSON, Edmund. O Castelo de Axel. Tradução de José Paulo Paes. 2ª ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 2004.
LAROUSSE, Koogan. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Direção de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Larousse do Brasil, 1979.
GOLDBERG, S.L. Joyce. Tradução de Francisco da Rocha Guimarães. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968.


03/08/2010

A MARIE-LOUISE SHEW – Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe



                 por Pedro Luso de Carvalho


 

        Edgar Allan Poe pouco antes de ingressar em West Point, já havia publicado o seu segundo volume de versos com uma revisão de Tamerlane e Al Aaraaf, que, em 1831 foi reeditado – os versos Israfele e Para Helena denunciavam o poeta que viria ser. Em 1833 ganhou um prêmio literário instituído pelo Saturday Visitor, com o conto Um manuscrito encontrado numa garrafa; nessa época, que contava com vinte e quatro anos de idade, Poe vivia em extrema pobreza. No ano de 1847, teve algumas de suas histórias traduzidas para o francês; Charles Baudelaire ao lê-las, assim se exprimiu: “experimentara estranha emoção”. Baudelaire aguardava as revistas norte-americanas que chegavam com a publicação dos contos e poesias de Poe.

        E, foi justamente Charles Baudelaire o primeiro tradutor de contos e ensaios de Poe, levando-os a ser conhecidos pela elite de literatos de Paris, que passaram a admirar a sua obra. Mallarmé, um dos expoentes do Simbolismo, continuou a fazer a divulgação das histórias e poesias de Poe, que se viu consagrado nos dois anos que antecederam sua morte. Essa consagração deveu-se não apenas ao conto, mas também à excelência de sua poesia, cujos temas ficavam circunscritos à solidão, a inutilidade do esforço, ao remorso por sua vida miserável. Seus versos falam apenas de mundos interiores, sem qualquer menção ao mundo exterior. Como já mencionei em edição anterior, o poema O Corvo – seu poema imortal – só ficou acabado depois de ter sido modificado ao longo de dez anos. Poe não transigia quanto à qualidade literária de sua obra – que era a moldura de sua extraordinária imaginação. Outro poema de Poe que merece a nossa atenção é A Marie-Louise Shew, adiante transcrito:



                A MARIE-LOUISE SHEW


       
Aquele que estas linhas traça, outrora,
no louco orgulho do intelectualismo,
definiu o “poder do verbo”, crendo
jamais haver na mente um pensamento
que fosse intraduzível em palavras.
Mas, agora, a zombar dessa jactância,
dois dissílabos suaves, estrangeiros,
sons da Itália, só de anjos murmurados
quando sonham ao luar, que faz do orvalho
“sobre o outeiro do Hermon um rio de pérolas”,
tiraram, dos abismos deste peito,
almas de pensamentos não pensados,
visões tão belas, singulares, célicas,
que nem mesmo Israfel, cantor seráfico
(“a mais doce das vozes já criadas”)
poderia narrar. Quebrou-se o encanto!
Cai a pena, impotente, da mão trêmula.
Com teu nome por tema, embora o ordenes,
eu não posso escrever... Nem penso ou falo...
Ai! nem sinto... Pois não é sentimento
ficar assim, imóvel, à dourada
enorme porta aberta sobre os sonhos,
contemplando, extasiado, o panorama,
trêmulo, por só ver, de cada lado
e pela longa estrada, entre impurpúreas
névoas, e na distância, onde termina
a perspectiva – A TI UNICAMENTE.
                                            


                                                                (Edgar Allan Poe)  




REFERENCIA:
POE, Edgar Allan. Poemas e ensaios. Tradução de Oscar Mendes e Milton Amado, 3ª ed. Revista. São Paulo: Editora Globo, 1999, pág. 54