20 de jan. de 2009

GEORGE W. BUSH NÃO FOI O ÚNICO CULPADO

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por Pedro Luso de Carvalho
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Finalmente, George W. Bush deixou a presidência dos Estados Unidos da América, depois de ter feito uma histórica lambança nos seus oito anos de mandato. Deixou com seu sucessor, Barack Obama, inúmeros problemas, sendo os mais graves, e que não podem ser resolvidos em curto espaço de tempo, a retirada das tropas americanas do Iraque e o sistema bancário, que se encontra no fundo do poço pela avidez dos banqueiros, que emprestaram dinheiro para quem não comprovou ter renda familiar compatível com a dívida assumida com hipotecas para a compra da casa própria, entre outros. Sem falar que pessoas obtinham tal financiamento e desviavam o dinheiro para outros fins, já que não sentiam o peso da fiscalização. E agora o Governo se vê obrigado a socorrer os banqueiros, com o dinheiro do povo, para evitar mais farinha no ventilador. Então, nessa primeira etapa, constatamos que, além de Bush com os seus desmandos, aparecem os banqueiros como culpados por parte da crise financeira estadunidense; mas, também eles não são os únicos culpados por todo esse caos, como veremos com apenas uma breve sondagem no passado recente de mais pessoas e instituições que sentam no banco dos réus com o presidente que deixa o Governo. E é nesse passado que, de novo, encontramos Bush como responsável pela crise financeira, ao consentir na fraude que foi sua reeleição, quando seu concorrente democrata Al Gore já tinha obtido a maioria de votos, como se anunciava na época, mas não assumiu. E, nesse caso, uma das instituições mais importantes do país, a Suprema Corte, permitiu que Bush se reelegesse, mesmo com a contagem de votos eivada de vícios e se tornasse o 43º presidente dos Estados Unidos, No seu livro, Sonhando a Guerra (2ª ed., Nova Fronteira, 2003) Gore Vidal - não confundir com Al Gore -, escreve, no capítulo Visões democráticas: “Vice-presidente de Richard Nixon e considerado subornável por muitos, Spiro Agnew teve um dia a inspiração de dizer: “Com todas as suas falhas, os Estados Unidos ainda são a maior nação do país”. Hoje, ainda no rastro deixado pela defraudação eleitoral da Suprema Corte nas eleições para o 43º presidente, Spiro deve estar nas alturas entre seus sombrios correligionários. Será que mais uma vez deixamos de cumprir nossa parte? Tal como fizemos em 1888, quando a pluralidade do voto popular de Grover Cleveland foi cancelada pelos liames do Colégio Eleitoral, e ainda mais notoriamente fizemos em 1876, quando o democrata Samuel Tilden ganhou 264 votos mais do que o republicano Rutherford B. Heyes, cujo partido então os impugnou no Oregon, na Carolina do Sul, na Louisiana e, claro, na dissoluta Flórida. Uma comissão eleitoral escolhida pelo Congresso deu a eleição ao perdedor, Heyes. Por um único voto, resultado de uma maracutaia envolvendo um corrupto juiz da Suprema Corte indicado pelo sacrossanto Lincoln”. Mas agora o que importa é a posse de Barack Obama, com a presença de milhares de pessoas em frente ao Capitólio, numa festa como nunca se viu antes na posse de um presidente dos Estados Unidos da América, nem mesmo com o fenômeno eleitoral que foi John F. Kennedy. E esse poderoso país e o mundo aguardam medidas político-administrativas importantes para enfrentar a crise atual , mesmo sabendo todos que a tarefa é árdua, tanto no que se refere a política interna como a política externa, como é o caso da Faixa de Gaza (na guerra entre judeus e palestinos), onde morreram centenas de civis inocentes nestes últimos meses, de forma injustificável. Portanto, resta darmos adeus a Bush, o pior presidente norte-americano, e boas-vindas a Barack Obama, o primeiro presidente negro estadunidense. Salve, Obama!
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18 de jan. de 2009

AS MÃES DA PRAÇA DE MAIO

por Pedro Luso de Carvalho Uma data para não ser esquecida: 31 de março de 2009, quando, numa terça-feira, a Justiça Argentina julgou e condenou à prisão perpétua o ex-capelão da Igreja Católica, Christian Von Wernich, de 69 anos, pela sua participação em sete homicídios, 31 casos de tortura e 42 seqüestros –, foi no caos da ditadura militar (1976-1983) que, com a dor pela perda de seus filhos, desaparecidos e mortos, nasceu um símbolo da resistência dos argentinos: a Associação das Mães da Praça de Maio, tendo como presidente a conhecida e respeitada senhora Hebe Pastor Bonafini.  Para esse julgamento, que durou cerca de três meses, as portas do Tribunal foram abertas para o público, e também foi permitida a sua cobertura ao vivo, por emissoras de televisão. Na parte externa do prédio foi instalado um telão para que as pessoas pudessem acompanhar o julgamento. Os sobreviventes e familiares das vítimas, que participaram do julgamento na condição de testemunhas, disseram que o ex-capelão ouvia confissões nos locais onde eram torturados e informava aos militares o que ouvia.  Antes desse julgamento, outro foi realizado, na província de Córdoba, para julgar o ex-general Luciano Benjamín Menéndez (81 anos), e, no dia 17 de junho de 2008, o Tribunal deu o seu veredicto: culpado. A pena que lhe foi imposta foi prisão perpétua, pela autoria da morte de quatro militantes de esquerda em um centro de torturas do Terceiro Corpo do Exército, sob comando do general. Centenas de pessoas festejaram a sua condenação. Será que semelhante julgamento seria realizado no Brasil? Acho difícil, em que pese o Ministro da Justiça Tarso Genro venha demonstrando clara intenção de imitar os argentinos. Jornais publicaram esta manifestação de Genro: “É uma análise que deve ser baseada em uma visão universal: que é do extravasamento do mandato dado pelo Estado e a responsabilidade do agente que extravasa esse mandato e comete tortura”. Aguardemos os acontecimentos.  No mês de junho próximo passado, tive a grata oportunidade de acompanhar uma conferência proferida por Hebe Pastor Bonafini, transmitida pela TV estatal argentina, na qual essa incansável lutadora pela causa dos filhos mortos por atos da Ditadura Militar daquele país, dizia que jamais deixaria de denunciar para o mundo tais crimes, e que, mais cedo ou mais tarde, veria outros responsáveis pela inominável matança de seus filhos sentarem nos bancos dos réus, e ouvir dos juízes a sentença de "culpado", para depois serem conduzidos à prisão para o cumprimento das penas que a eles serão impostas. 

9 de jan. de 2009

ROGER GARAUDY - Ainda é Tempo de Viver



               
                       por  Pedro Luso de Carvalho  
       
       
        O filósofo francês, ex-integrante do Partido Comunista da França, Roger Garaudy, autor de mais de 50 livros, uma grande parte dessa produção sobre a filosofia política e marxismo, deu como título de uma de suas obras Est enconre temps de vivre ('Ainda é tempo de viver’), esta, escrita em cooperação com Pierre-Luc Seguillon (Paris: Editions Stock, 1980); no Brasil, o livro foi publicado em 1981, com tradução de Aulyde Soares Rodrigues, pela Editora Nova Fronteira.

        O título da obra, Ainda é tempo de viver, não antecipa, como o leitor poderia pensar, tão-somente uma mensagem de esperança e de otimismo, mas, antes de tudo, uma forte crítica sobre ausência da fé pelos povos - não a fé pregada pelas igrejas cristãs. E, essa é mesmo a intenção de Garaudy, que no início do livro pergunta: “Existe um futuro para o homem?” E, após, convida o leitor para, com ele, ler um pequeno artigo de jornal, sobre um homem que morreu dilacerado por um trem do metrô, logo acrescentando: “Um homem livre, entre homens livres, foi dilacerado por essa liberdade”.

        Mais adiante, Garaudy diz o motivo que o levou a contar essa história: “Porque ela nos conduz ao problema central. Não apenas ao problema de viver, mas ao problema central do nosso tempo: as vidas sem objetivo. Vidas que levam apenas à morte”. Após essa afirmação, indaga o que se deve fazer para mudar isso; e afirma que pelo menos quinze mil suicídios são cometidos na França, por ano – ‘quase tanto como o número de mortes nas estradas’ -; e que as tentativas de suicídios ficam em torno de cem mil – ‘muito menos do que o número de inválidos por desastres de carro ou de moto’ -; e que, por alcoolismo, morrem quarenta mil pessoas, bem menos que as mortes pelo fumo, que atingem vinte mil; e menciona que morrem menos pelas drogas – ‘Falo das drogas que não o álcool, o fumo ou o automóvel’.

        É evidente que esses dados estatísticos não valem para os dias atuais, para este início do ano 2009, bem distante desses levantamentos mencionados por Garaudy, na França de 1980. E, se esses números de suicídios e das suas tentativas de suicídio, das mortes nas estradas por acidentes de carro e das mortes pelo vício do álcool e do fumo são demasiadamente elevados, o que poderíamos dizer sobre uma estatística francesa atualizada, cujos números devem ter aumentado em razão da taxa populacional, aumento astronômico do número de veículos rodando pelas ruas e estradas, além do aumento do número de alcoólatras, fumantes, etc. O mesmo vale para o Brasil e para as principais metrópoles do mundo.
 
         Garaudy pergunta, depois de dizer que a metade das neuroses é provocada pelo ruído, que oitenta por cento por câncer ambiental, e, ainda, as doenças cardíacas, em conseqüência da vida agitada que se leva. Depois se pergunta se tudo isso faz sentido. E mais: ‘Nossa vida quotidiana significa alguma coisa? Quem é o chefe da orquestra invisível que rege essa cacofonia?” A resposta a essas perguntas de Garaudy, é ele mesmo quem as dá: “O crescimento. Isto é, o domínio de toda a sociedade por este modelo de organização de empresa, exatamente como foi concebido na primeira metade do século XX, denunciada por Chaplin em Tempos modernos. Uma empresa cuja única finalidade é produzir seja lá o que for e fabricar o mais possível”.

        Segue parte da crítica ao crescimento, por Garaudy: “Minha crítica ao crescimento não tem fundo ‘moral’, nem mesmo ‘ecológico; é uma crítica feita em nome de um outro modo de agir no mundo. A tese central do meu ‘Apelo aos vivos’ é a de que o problema do crescimento não é apenas um problema econômico e político, mas acima de tudo um problema de fé, uma vez que o crescimento é o deus oculto de nossas sociedades e que a publicidade é sua liturgia demente. Toda a minha argumentação baseia-se neste princípio: ‘podemos viver de outro modo’. Saber que podemos nos livrar desse mergulho suicida do atual modelo de crescimento é um ato de fé”.

        Garaudy fala mais dessa fé, para ele indispensável para que se possa viver melhor no mundo conturbado de hoje, com todo o tipo de violência, como as que foram por ele mencionadas, e que, por certo, deve fazer menção também ao morticínio que nos dias atuais ocorre na Faixa de Gaza, entre judeus e palestinos, com vítimas inocentes, como crianças, mulheres e velhos - além dos combatentes -, que não tiveram nenhuma ingerência nas decisões políticas tomadas pelos líderes responsáveis por essa barbárie:

        “Em uma palavra, a fé é a alma de toda a política que está à altura do homem, de toda a política sem dogmatismo e sem dominação, desde que cada um aja com a consciência de ser pessoalmente responsável pelo destino de todos os outros”. E aduz o filósofo: “E essa fé pode ser a de um hindu, de um judeu, de um cristão, de um mulçumano ou de um ateu”.

        No capítulo “Do crescimento cego à fé no homem”, o primeiro de seu livro Ainda é tempo de viver, já perto do final do texto, escreve Garaudy: “Toda a revolução profunda nasce da conjunção da miséria e da revolta com a esperança e a fé. A grande fraqueza das igrejas cristãs é o seu distanciamento dos movimentos populares e a degradação da fé transformada em religião. Dessa dupla mutilação, a revolução de um lado, e as Igrejas de outro, decorre nossa incapacidade atual de operar as mutações necessárias à nossa sobrevivência e à nossa vida”. [Alguns dados biográficos de
Roger Garaudy.]



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