21 de jul. de 2008

JÚLIA / O novo romance de Roberto Gomes







                
             por Pedro Luso de Carvalho



        Ainda não li o novo romance de Roberto Gomes, que tem o título de JÚLIA (Editora Leitura, 320 págs.), mas já o encomendei. Essa será a minha próxima leitura. Não tenho dúvida de que esse romance estará à altura de outras obras do escritor, como é o caso de Os dias do Demônio, Memórias de um cadáver, Todas as casas, Exercício de solidão, Alma de bicho, Terceiro tempo de jogo, Alegres memórias de um cadáver, Crítica da razão tupiniquim, entre outros.


        Tomei conhecimento da edição de JÚLIA pelo jornal Rascunho (Curitiba, junho de 2008), que publica uma entrevista (duas páginas) de Márcio Renato dos Santos com o autor da obra. Depois que fizer a leitura de JÚLIA, escreverei alguma coisa sobre a obra neste blog ; limito-me agora a transcrever um pequeno trecho da entrevista:


        “Sai do café, caminho para casa e daqui a alguns minutos terei de escrever a resenha sobre JÚLIA, de Roberto Gomes - diz o entrevistador. Me encontro num impasse: a obra tem inúmeras nuances e a minha resenha ainda não tem nenhum ‘esqueleto’. Preciso salientar, na resenha, que a vida da autora – Júlia – é muito mais interessante do que tudo o que ela escreveu. E isso se evidencia na obra de Roberto Gomes. O desfecho do romance é genial, e surpreendente, pois o leitor não se dá conta e, de repente, o texto revela que a protagonista morreu depois de ter ficado 11 anos trancada no primeiro andar do casarão onde viveu com o comendador – e ao ter mencionado o fato não me torno estraga-prazeres, uma vez que a linguagem do autor é imensamente superior a um comentário. A resenha, caros leitores, caras leitoras, é um gênero que não consegue dar conta, nem minimamente, do que é um livro: o que se escreve sobre uma obra é apenas recorte, fragmento, mero ponto de vista. Nada substitui a experiência da leitura, e há um grande livro à espera de quem espera uma experiência literária inesquecível Júlia, de Roberto Gomes”.

        Leia mais sobre o autor, clicando em: ROBERTO GOMES - Exercício de Solidão.

14 de jul. de 2008

RUI BARBOSA – O que escrevo não é literatura




por Pedro Luso de carvalho



Rui Barbosa de Oliveira, dito Rui, nasceu em Salvador, BA, em 1849, e faleceu em Petrópolis, RJ, em 1923. Foi jurisconsulto, escritor, jornalista, orador e político. Foi brilhante em todas essas áreas. Rui deu início à campanha abolicionista no Diário da Bahia, prosseguindo-a em O País e no Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro. Em 1878 iniciou-se na política como deputado à Assembléia Provincial baiana, carreira que trilhou até 1920, quando passou a integrar a Corte Permanente Internacional de Justiça, instalada em Haia, na Holanda. Foi membro fundador e o segundo presidente da Academia Brasileira de Letras.


Rui escreveu obras de extraordinária importância, como: Queda do Império (1889), Carta de Inglaterra (1896), Parecer sobre a redação do Código Civil (1902), Discurso no Colégio Anchieta (1903), Oração aos Moços (1920), entre outras. Rui escreveu Oração aos Moços para ser pronunciada por ocasião da formatura da turma de 1920, da Faculdade de Direito de São Paulo, da qual foi seu paraninfo. Por motivos de saúde, não pode comparecer à colação de grau, sendo lido o discurso pelo Professor Reinaldo Porchat.


O prefácio escrito por Edgard Batista Pereira para Oração aos Moços mostra-nos fatos relacionados com a obra e a vida de Rui, nessa época em que escreveu o discurso, bem como fala da insistência do jurista em dizer que o que escrevia não era literatura. Diz Batista Pereira [trechos mais importantes do aludido prefácio]:


“Agosto de 1918, Rui se insurgiu contra a denominação de literário que lhe havia pretendido dar ao jubileu. “Qual é”, pergunta ele, “na minha existência, o ato da sua consagração essencial às letras?... Traços literários não lhe minguam, mas em produtos ligeiros e acidentais – prossegue Rui – , como o Elogio do Poeta, a respeito de Castro Alves; a oração no centenário de Marquês de Pombal; o ensaio acerca de Swift; a crítica do livro de Balfour; o discurso do Liceu de Artes e Ofícios, sobre o desenho aplicado à arte industrial; o discurso do Colégio Anchieta; o discurso do Instituto dos Advogados; o parecer e a réplica acerca do Código Civil; umas duas tentativas de versão homométrica da poesia inevitável de Leopardi; a adaptação do livro de Colkins e outros artigos esparsos de jornais, literários pelo feitio ou pelo assunto”.


E, no afã de demonstrar que sua obra não era literária, Rui conclui: “Tudo o mais demonstra que esses cinqüenta anos me não ocorreram na contemplação do belo, nos laboratórios d’arte, no culto das letras. Tudo o mais está evidenciado que a minha vida toda se desdobra nos comícios e nos tribunais, na imprensa militante ou na tribuna parlamentar, em oposições ou revoluções, em combate a regimes estabelecidos e organização de novos regimes, o que ela tem sido, a datar do seu primeiro dia, a datar do brinde político a José Bonifácio, em 13 de agosto de 1868, é uma vida inteira de ação, peleja e apostolado”.

Edgard Batista Pereira se pergunta e responde a ele próprio, nesse texto do prefácio de Oração aos Moços: “Teria sido por orgulho que Rui declinava dos lauréis da arte para só reivindicar os da política? Não. Levantava contra uma denegação evidente de justiça o protesto que estava implícito numa frase de Nabuco: É tão próprio chamar a Rui de artista como a Krupp, o fabricante de canhões. A comparação é precisa. Ninguém no Brasil os forjou de tão grosso calibre quanto os que ajudaram a arrasar a fortaleza do cativeiro e a derrubar o regime monárquico”.


Batista Pereira vai mais longe, dizendo que chamar o jubileu de Rui de literário seria o mesmo que chamar de cívico ao de Machado de Assis, acrescentando, mais adiante: “Tudo que lhe saia da pena, pela propriedade, pelo esmero, pela harmonia, pelo inesperado fulgor das imagens, trazia a marca da perfeição. Porém a sua meta era outra: a defesa do direito e da liberdade”.




REFERÊNCIAS:
BARBOSA, Rui. Oração aos Moços. Prefácio de Edgard Batista Pereira. Rio de Janeiro: Edições Ouro, 19-. Direitos cedidos pela Casa de Rui Barbosa.