20 de fev de 2011

HORACIO QUIROGA – “Edgar Allan Poe”

   Horacio Quiroga / Edgar Allan Poe     
                   
                 por  Pedro Luso de Carvalho
                 
        
        Em novembro de de 2007 publiquei uma matéria sobre a Antologia de Contos de Edgar Allan Poe, ocasião escrevi sobre sua vida e sobre seus poemas, dando destaque tanto à sua ficção como à sua poesia, que o tornaram admirado pelos intelectuais franceses da época, dentre eles Charles Baudelaire, que foi o principal divulgador de sua obra, tanto ficcional como poética, na França e em parte da Europa. Depois disso, fiz a apresentação e transcrição dos seguintes poemas de Poe: Annabel Lee, em janeiro/2008; O Corvo, em julho/2008; Ulalume, em janeiro2010; A Cidade no Mar, em maio/2010; A Marie-Louise Shew, em agosto/2010; Os Sinos, em novembro/2010. 

        Agora, para esta postagem, escolhi o texto de Horacio Quiroga, denominado “Edgar Allan Poe / A honestidade artística”, in A Galinha Degola e outros contos, seguido de Heroísmos (Biografias exemplares), publicado pela L&PM POCKET, reimpressão em agosto de 2008 (1ª edição em outubro de 2002), com tradução de Sergio Faraco, p. 114-116. 

        Horacio Quiroga, nascido em Salto, Uruguai, em 1878, e falecido em Buenos Aires, Argentina, em 1937, escreveu cerca de duzentos contos, que foram publicados em revistas, no período que compreende os anos de 1907 a 1921. Foi o responsável pela modernização do gênero literário de narrativa curta castelhano (conto), cujo modelo retórico se impôs. 

        O crítico literário Pablo Rocca faz a seguinte observação no seu posfácio à Galinha degolada, sobre o modelo retórico de Quiroga: “Trata-se do mesmo modelo que, em inglês, foi pensado e praticado por seus mestres Edgar Allan Poe ou Bret Harte: aquele que elimina os elementos acessórios do relato, sopesando o efeito e a potência expressiva de cada uma das palavras em espaço tão avaro (...)”.  

        Embora seduzido pelo conto, Quiroga também escreveu bons romances, como, por exemplo, História de uma amor louco ("Historia de un amor turbio"), traduzido por Serio Faraco e publicado pela Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

        Feito esse parêntesis, para a apresentação de Horacio Quiroga, para quem não o conhecia, passo a transcrever o seu texto intitulado EDGAR ALLAN POE / A HONESTIDADE ARTÍSTICA, in verbis:

        Ultimamente foram achados documentos – diz Quiroga - nos quais se constata que o trabalho literário de Poe era pago à razão de cinqüenta cêntimos de dólar a página impressa. Se seus contos menos conhecidos tinham, em média, quinze páginas, e os mais famosos apenas dez ou doze, a média geral era de seis dólares por conto, isto é, quinze pesos.

        Um dos mais extraordinários gênios que o mundo conheceu, quase sem ascendentes e sem sucessor algum – só e isolado na história literária como um diamante -, este homem de inteligência profunda até a vertigem, vivia, comia, vestia e mantinha suas relações interpessoais à razão de um peso por cada página que escrevesse.

        O caso não é único. De Homero a Leonhard Frank, passando por Bethoven (quando vendia sua quinta sinfonia por vinte e cinco pesos), o gênio adquire seus privilégios em detrimento do bem-estar. Se por um lado não causa espécie tal fenômeno, que de certo modo é biológico, surpreende, por outro, a honestidade de Poe, que limitou seus grandes contos a doze páginas, ganhando com eles não mais do que seis pesos, quando lhe teria sido tão fácil aumentá-los para vinte ou cem páginas.

        Admita-se que, com seis pesos, matava a fome de seis dias, e que nas noites correspondentes pudesse dormir num colchão de lã. Com Poe tudo é possível. O que não se admite é que essa renda também lhe fosse suficiente para beber o que bebia.

        São conhecidas as fraquezas do escritor. Não houve paraíso artificial que não visitasse nem serpente que não lhe devolvesse fielmente as visitas na forma de delirium tremens. Fome de comer e sede de álcool, estroinices desatinadas e o mais que se ignora dessa extravagante criatura, tudo devia ser fatal e mesquinhamente coberto pelos seis pesos de cada conto.

        Se para Poe a necessidade de álcool, éter, ópio, era tão orgânica quanto se supõe, poucas torturas teriam sido iguais àquelas que sofria quando a escassez de meios lhe permitia comer e beber, mas não embriagar-se. Nessas horas teria dado uma fortuna, se a tivesse, por uma gota de álcool. Admire-se, por isso, a honestidade mais do que heróica, o pudor mais do que divino do escritor quando, escrevendo um conto, terminava-o no momento preciso, na décima página, ainda que transtornado pela ânsia de beber.

      Vontade, confiança, decoro, tudo no grande contista naufragou, menos a honradez artística. Aumentando um pouco aqueles contos de excepcional sobriedade poderia ter alimentado folgadamente a besta do álcool. Ninguém como ele teria facilidade para tanto. Hoje, no entanto – sem pressões ou necessidades, e se a temos basta encompridar um conto, que de conto só tem o nome -, nos lembramos de Poe mais pelas bebedeiras do que pela honestidade. 

                                                            (by Horacio Quiroga)


[Para acessar meus outros textos sobre Edgar Allan Poe, basta clicar em:  Antologia de Contos ,  Annabel Lee, O Corvo, Ulalume, A Cidade no Mar, A Marie-Louise Shew, Os Sinos.]


31 de jan de 2011

MANOEL CAETANO BANDEIRA DE MELLO – Outono Estação de Amor

Manoel Caetano



                    por  Pedro Luso de Carvalho


        O maranhense de Caxias, Manoel Caetano Bandeira de Mello, nasceu a 30 de julho de 1918 e faleceu em 2008, aos 90 anos de idade. Passou sua infância e adolescência em São Luís. Com a idade de 19 anos, o acadêmico de Direito muda-se para o Rio, no ano de 1938. Aí passa a colaborar nas colunas do semanário de letras Dom Casmurro. 

       Quando Manoel Caetano concluiu o curso de Direito já era profissional da imprensa. Durante a Segunda Guerra Mundial – 1939 a 1945 - trabalhou nas Agências Havas e Reuters. Após esse período, ingressou, mediante concurso público, no DASP, como redator, sendo lotado, depois, na Agência Nacional. Mais tarde, foi redator-chefe da Gazeta de Notícias (1951 a 1955), e, em O Jornal, órgão líder dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, passou a escrever a seção “Semana Internacional”.

        E nesta altura, encerramos a lista desses poucos dados pessoais Manoel Caetano Bandeira de Mello, para, agora, falar-mos de sua obra poética, como segue: 

        No ano de 1987 a Livraria José Olympio publica, em convênio com a Secretaria da Cultura do Estado do Maranhão, ”Outono Estação de Amor”, do poeta Manoel Caetano Bandeira de Mello. Manifestações de acolhimento ao livro são feitas por nomes importantes da literatura brasileira; a esses escritores, poetas e críticos literários, soma-se a contribuição do romancista Josué Montello, membro da Academia Brasileira de Letras, com a brilhante apresentação que faz à obra. Para não nos alongarmos, veremos a seguir o que pensam alguns desses nomes, quais sejam:

       ADONIAS FILHO: É possível que os temas, sempre eternos porque integrados na condição da criatura – a morte e o amor -, tenham imposto essa estrutura clássica no sentido do conteúdo universal no fundo do artesanato moderno. Já não aparecem, porém, como uma experiência. Em suas bases líricas, por vezes no plano da reinvenção, a exemplo da configuração valéryana, tudo de tal modo vem da carne e do sangue que a palavra exata é esta: nascida, a poesia nascida.

        OCTÁVIO DE FARIA: A forma que alcançou agora, depois de laborioso esforço, é de tal modo nova e forte, tão rica e segura de si, de tal maneira trabalhada e marcante, seus decassílabos são tão firmes e eufônicos, suas quadras marcham com o ritmo tão desenvolto e consciente de si, tão grande é a liberdade das rimas e das elipses, das sugestões verbais e das ousadias silábicas, que nos encontramos diante de um mundo poético, totalmente diverso do que se encontrava entre os pólos extremos, tanto do amor e da morte, como do soneto clássico e do verso livre.

        JOSUÉ MONTELLO (trechos da sua apresentação): Manoel Caetano Bandeira de Mello, a quem já defini como poeta de minha geração maranhense, está na fase em que o criador literário tem ao mesmo tempo o domínio de seu ofício e o domínio da vida.

        A vida, que é uma adivinhação na juventude - escreve Montello-, constitui um acervo de experiências profundas, sempre que entramos na maturidade. O que, ontem, era intuição, passa a constituir vivência acumulada, que se exprime dispensando a fantasia, para nutrir-se de recordações.

        O poeta romântico preferiu a intuição à experiência - prossegue Montello. Não esperou pela vida vivida para recolhê-la à concha do poema. Captou-lhe as vozes líricas, e pôde ser mestre ainda jovem, como Gonçalves Dias e Castro Alves. A imaginação fez o seu ofício, com tal poder de verdade permanente, que a “Canção do Exílio”, escrita aos 20 anos, ajusta-se a todas as idades, sem ter envelhecido com o rolar do tempo.

        (...) Manoel Caetano Bandeira de Mello também passou pela fase em que o poeta se deixa conduzir pela intuição da vida. No momento próprio, pôs em versos os seus desencantos de adolescente (...). 

        Os livros que Manoel Caetano Bandeira de Mello publicou até hoje – enfatiza Montello -, balizando o seu caminho da poesia lúcida, ficariam derrogados, após o aparecimento deste Outono estação de amor, se os livros anteriores não contivessem as raízes deste remate intencional.

        Com efeito – diz Montello -, já o poeta de ontem – hoje mais exigente, ontem mais espontâneo. E como a poesia atual é essencialmente técnica, sem prescindir de certa invenção matinal, que lhe confere juventude perene, ocorre que, neste momento, o grande companheiro de geração maranhense, que pretendeu traduzir Milton ao tempo do Liceu, vem dizer-nos com o testamento de seus melhores versos, que o Amor, a primeira matriz da poesia, contemporânea da Primavera, tem no Outono a sua estação adequada.

        Com trechos dessa peça rara, que é a apresentação da obra de Manoel Caetano, escrita por Josué Montello, e que ainda vai longe, nós ficamos por aqui, para a seguir mostrarmos os três primeiros sonetos dos trinta e sete que compõem o livro Outono estação de amor, de Manoel Caetano Bandeira de Mello: 


                        I

 No outono desta vida recomponho  
as horas que de novo viveria
se pudesse voltar aquele dia
que me semelha o espaço deste sonho.

É o passado de volta de seu sono
como o tempo de outrora voltaria.
Unido o cotidiano com a magia
o amor não muda na estação do outono.

Como se fosse outra primavera
a me trazer de novo ansiedade
agora temperada em experiências

que se não faz da gente o que antes era
nos deixa na lembrança a mesma idade
que ilumina de amor tamanha ausência
                   
                    II

Um encontro de olhares entre vento
e mares e azulejo e velha ilha
cabelos esvoaçantes pensamento
que a alma deste corpo maravilha

Um regresso na escada de outro tempo
as lembranças rolantes das meninas
que não sei se me vêem mas contemplo
ressurgidas diante da retina

Quanto calor de quem tanto à distância
se fascina com a chama que o atrai
e desconhece aonde lhe levam os passos

se para os umbrais de uma outra infância
que das fronteiras de minha alma sai
em viagem na noite dos espaços

                    III

Olhar de luz a me aquecer a face
quando comigo cruza aquele instante
passageiro, como eu, bem que não passe
amor já tão longínquo quanto o cante.

Naquela tarde luminosa diante
dessa criatura que talvez amasse,
sonho prendê-la em imaginário enlace
mas fujo do seu rosto radiante.

Se nunca ouvi tua voz eu a pressinto
a censurar, quem sabe, o amor covarde
que só em ver de longe se contenta

movido do poder daquele instinto
que ainda hoje como outrora arde
para erguer-me no vôo que sustenta

                                 
                                       (by Manoel Caetano Bandeira de Mello)


17 de jan de 2011

E. P. PICCOLI – Essas coisas na vida de um guasca



                      por  Pedro Luso de Carvalho 


      Conheci o escritor Elbio Prates Piccoli há alguns anos, no apartamento de meu sogro, quando este comemorava seu aniversário. Enquanto as mulheres conversam na sala de visitas, nós, os homens, conversávamos na biblioteca. Na ocasião, o sogro dirigiu-se a mim, e disse: “Pedro, apresento-lhe o Coronel Piccoli”. Após essa apresentação, sentamo-nos, então, para não importunarmos os demais convivas, que aí se encontravam. Logo fui dizendo ao Coronel (esse era o tratamento que os familiares da Taís, minha mulher, dispensavam-lhe – era a sua patente de militar) que já o conhecia de vista, de ouvir falar, e, principalmente, pelos seus livros. Sabia de sua inteira dedicação à literatura a partir de 1974.

        Na seqüência dessa conversa, o Coronel Piccoli falou-me de seu interesse pela literatura, que vinha de sua infância, e apontou-me seus escritores favoritos: Guimarães Rosa, Mário Palmério, Anton Tchekhov, Dostoiévski, William Faulkner, e outros que seguiu nomeando na agradável conversa. Contou-me, um tanto constrangido, que estava escrevendo um difícil trabalho sobre a obra de Faulkner, por se tratar de um dos mais importantes romancistas norte-americano.

        Não terminamos nossa conversa antes que o Piccoli voltasse a abordar o prêmio Prêmio Jornal de Letras, que recebera em 1975. Disse-me ele que o seu conto premiado foi “Essas coisas na vida de um guasca”, que fora originalmente publicado em Sant'Ana do Livramento, sua cidade natal, no livro 1º Mutirão Literário de Sant'Ana do Livramento, ed. A Platéia, s/d. 

        No dia seguinte, o escritor telefonou-me para dizer que havia deixado esse livro, com o seu conto (“Essas coisas na vida de um guasca”), no apartamento de meu sogro, em cujo livro escreveu esta dedicatória: “Para o meu prezado amigo Pedro Luso ofereço a modesta participação de fls. 23/30. Piccoli. Poa, 12/nov 82”.

        SUAS PRINCIPAIS OBRAS: a) Mealheiros de estórias - 1º lugar no gênero conto do I Congresso Universitário de Literatura, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1976, co-edição Editora da UFRGS/Editora Garatuja, Porto Alegre, 1977; b) Momentos - livro de contos, com destaque para o conto Essas coisas na vida de um guasca, 2º lugar no I Prêmio Nacional de Contos, promoção conjunta do Jornal de Letras e da Distribuidora Imprensa, Rio de Janeiro, em 1975, AGE Editora, Porto Alegre, 1996; c) Cara de Bronze – romance, que foi merecedor de Menção Honrosa no “I Prêmio Nacional José Lins do Rêgo” e vencedor do IX Prêmio Guimarães Rosa, em 1983 - Tchê Editora, Porto Alegre, 1988. Piccoli também participou de antologias de contos publicadas em vários centros do Brasil.

        A Comissão Julgadora, que concedeu o IX Prêmio Nacional de romance “Guimarães Rosa”, em 1983, Minas Gerais, ao escritor Elbio Prates Piccoli, assim se manifestou: “O romance Cara de Broze afigurou-se à comissão o de mais bem acabada realização. A história do camponês Bertoldo encontra neste romance um trabalho lingüístico e literário pouco comum na moderna ficção brasileira. Este romance, entre nós de difícil e rara realização literária, vive num mínimo de escritos brasileiros (...) resgata a melhor tradição literária vigente entre nós”. 

        Elbio Prates Piccoli nasceu em Sant'Ana do Livramento, cidade que faz fronteira com o Uruguai, no ano de 1925, e morreu em 28 de novembro 2009, em Porto Alegre, aos 84 anos de idade.

        Antes de transcrevermos  Essas coisas na vida de um guasca, conto que integra o seu livro de contos Momentos, Porto Alegre, AGE, p. 41-45, vamos ler o que Sérgio Jochyman, romancista e dramaturgo gaúcho, escreveu no jornal Folha da Tarde, em 12.11.1976, sobre Elbio Prates Piccoli: “Ele escreve pela mesma razão que o sabiá canta. É seu modo de ser”. 

        Segue o conto de Elbio Prates Piccoli, que lhe deu o 2º lugar no I Concurso Nacional de Contos, Prêmio Jornal de Letras/Distribuidora Imprensa, RJ, 1975:



              ESSAS COISAS NA VIDA DE UM GUASCA



        A enorme cicatriz na cara do guasca – dessas deixadas por lanho de facão que depois de cruzados ferros acima das cabeças, chispando lâmina em lâmina, escorrega e desce, um relâmpago, e rasga desde a raiz da guedelha na fonte, do lado direito, passando entre os olhos, no cavalete do nariz, abrindo sulco na bochecha do lado esquerdo, até embaixo da orelha salvante a carótida, talho de mais de palmo – inturgesceu-se junto com seus pensamentos. Essas coisas na vida de um qüera largado: partir para abrir a cancela do mundo, meter-se em revoluções; gauderiar perdidamente, de cambada e bilotagem com outros cupinudos em pombal de beira de estrada, em farromeiros farranchos; voltar depois, estragado, aperreado, lonqueado, aporreado, vazia dos dobrões e bolivianos a guaiaca, e só uns putas quatis-baianos!... Bateu a binga e pôs fogo no palheiro. A montada quieta, à sombra da reboleira, só espaventando a laçaços de cola, das suas virilhas, importunas varejeiras sequiosas do sudor e dos traços de sangue.

        Sob o puxado do rancho, a isso de umas cem braças para dentro do cercado, a mulher lavava roupas na tina. Ele se distraía na espreita, debruçado em forquilha de araçá, qual que estátua de gaúcho assim destroçada da intempérie e dos malevas ladrões, já desfalcado das boleadeiras, permutado o pala por roto bichará, despilchado das doblas da bombacha e dos arreios, restados mesmo de seus o trabuco, o punhal e as esporas. Franziu-se na testa quando, na esteira dos latidos e festejos do cachorro, o pequenote surgiu, encarapitado no pilungo puxador da pipa-de-arrasto, vencendo a dobra do terreno em lançante para o arroio.

        A verberação do sol no pedregulho do caminho produziu-lhe alguma cosquilhação nas vistas, porquanto baixou a aba do sombreiro a modo de protegê-las, ou do testemunho de Deus se a imagem nas suas pupilas do guri diligenciando subida da pipa para o jirau. Baforava o crioulo, mordido e babujado, irresoluto entre arrimar-se ou fazer cara-volta, brincando às mãos com uma ponta das rédeas ora de relhaços nas palmas ora nas formigas encarreiradas nos ramos do arbusto. 

        A mulher movimentou-se para o varal, desentrouxando e estendendo lençóis.

       Aí ele decidiu-se. As chilenas iam riscando lento ruído cansado de carretilhas no trilho, passada a porteira, espavorindo gafanhotos e libelinhas, e logo atrás o modorro pisoteio das patas do cavalo. O cusco alertara-se, de orelhas e olfato, e armou a primeira carreira, ladrando; parou, a pouco mais de dois tiros de laço, farejando interrogações; agachou-se, de barriga no pasto; lambia-se, hesitante; afinal, meneando ancas e a cauda peluda, cabeça humildosa, rumou no trotezito ao encontro do recém-chegado.

        Recostado à tronqueira do curralete, o viajante viu como ela se afligia de recolher para a casa a dois outros pequeninos. No peito do guasca o coração martelou mais forte; uma desconfiança trincou-lhe dentes de jaguatirica na alma.

       Viraçãozinha da banda do nascente fazia olorosas as boninas ao gozo da ressolana, embriagando a passarada no retouço dos ares e do arvoredo. O vestido dela panejava – e ele lembrou-se do estandarte revolucionário – e os cabelos envolviam como pendões de trigal acossado da ventania. Nele, as listas pretas e brancas do poncho dobrado sobre o ombro e as peiteiras abertas do jaleco engolfavam-se em ondulações.

        Desencafuando-se do entre-paus, arrastou o gasto solado das botas até onde ela, abraçado a si o ginete do mancarrão pipeiro, esperando. Encorujado no topo de sua estatura, era tronco de coronilha estorricado de raio, parava-se ali, em frente da mulher, estaqueado num espanto, espiava a porta do rancho. No depoisinho, volveu-lhe uma expressão vincada pelo desprezo, prescrutando no fundo dos seus olhos azuis: Isaltina...? Ela desencorajava-se de sorrir, pateta da surpresa, encobria a falta de dentes com a ponta do avental; e inferia, dos trajes farrapentos, do desaprumo dele, os desperdícios provocados por cinco anos de geadas e soalheiras a deus-dará.

        As luzes do céu da tarde não eram mais intensas do que a alegria nos olhos dela. - “Anda, Fermininho, a tomá a bênça do teu pai” - “Isaltina!...” - e ele subtraía a mão às tentativas da criança por beijá-la - “...Isaltina, e essas duas? Menino e menina de nem três e quatro!” - e sua voz pautava-se grave, acusadora. “Vai, chê, porquera de ruivo nanico! Desencilha, aguateia e bota pra pastorejá o meu zaino.”

        Dela, o gesto de apontar em torno o vazio da campina, apenas povoada pela quincha e a chaminé de lata do casebre, o tímido movimento do braço, pesado de amarga submissão, antecipou sua resposta: - “A gente ficou abandonados, meu marido, sem defesa nestas lonjuras de quem chega com malas intenções. Mulher sozinha, tu sabe, é rês que qualesquer carneia!” 

        Assoviando nas cristazinhas do capim-forquilha, do alpiste, da carqueja – reclinados em respeitoso cumprimento – fazendo gemerem chorões no banhado, a aragem assentava compressas frias na febre da sua alucinação. Pendia-lhe o mango de um lado, no seguimento do membro inerte, enquanto a mão do lado do revólver amaciava, aflitiva, a borla do barbicacho.

       - “Quem sabe tu entra? Descansa. Eu preparo mate e te dou janta. E costuro, prego botões. Aí tu arresolves da nossa vida...” - brotou murmurado suave dos lábios de Isaldina. E ela se voltou, silenciando suas dores, adentrando-se em casa.

        A escuridão e os ruídos noturnos do brejal nanavam a três criaturinhas enrodilhadas num catre. Isaltina, pelas tantas e quantas, interrompia os labores de agulha e linha tão-só para espevitar o candeeiro.

        Ele, no sossego de couro acolchoado em Santa Fé, circunscrevia memórias pelas taipas – em detenças ligeiras no casco de tatu, na lonca de capivara, na pele curtida de cruzeira, na guampa dependurada – terçando armas em peleia de macho, de brutezas e de morte com o avantesma do seu orgulho. Arreceava-se de esquecer contemplação no perfil dela – o mesmo de oito anos atrás, quando esticara aramados naquela sesmaria de campo, erguera o rancho e a fora buscar na cidade, da pensão da Naná. Isaltina havia-lhe dito que Zeca e Maria do Carmo chamavam-se os dois, pagãozinhos todavia. - “Fermininho!... ah!... sangue mesmo do seu , o tal do campeiraço havia-de.”

        Ainda piscava o carijó no poleiro do tapume e ele já encilhando a montada. Isaltina, forneando pão-doce e enrolando cozido para a matula, azafamava-se embaixo do puxado; um descuido e fluíam de pingos na massa lágrimas desconsoladas, de cambulha com gotas de orvalho. Parecia até ela querendo sua saudade viajasse junto com ele. Fermininho ajudando. De correrias com o cachorro as criancinhas. E elas vieram de lá, de bênça-meu-pai, assim ele passava a perna, endireitando-se nos arreios.

         Para os lados das grotas, ao longe, por detrás dos contrafortes escuros da serrania, pegara de barrar-se vermelho o firmamento. E as coxilhas espreguiçavam-se da dormilança.

        De súbito, o ovelheiro, rosnando no meio da alacridade dos inocentes, denunciou o recorte entre as sombras que se esvaeciam, de três vultos, de a-cavalo, envindo-se no chouto desde a varanda vicinal.

        O guasca não se moqueou no brasido da incerteza. Boleou-se, num parpadeio de mocho, entregou as rédeas a Fermininho - “Desarreia o tostado, Ruivo...” - e governou: - “Pra dentro, meus filhos, co'a sua mãe!”

        Na altura do palanque, pertinho de em donde a carreta se abandonara capenga, os três chegadiços sofrenaram os rocinantes. Postado, ele alteante, feito mestre de alambrado, aguardava saudações.

        Replicou: - “Y santas! Se apeiem nomás. Les mando servir um amargo”.



                                                                                (by Elbio Piccoli) 

4 de jan de 2011

[Conto] CYRO MARTINS – Derrotado

Cyro Martins

                         por Pedro Luso de Carvalho

                                      
      Importantes homens e mulheres da letras brasileira vêm analisando a obra do escritor gaúcho Cyro Martins - médico-psicanalista por formação-, que se sobressaiu no conto, no romance e no ensaio. Um destes críticos, foi Carlos Jorge Appel, que fez a apresentação do seu livro de ensaios, qual seja,  Escritores Gaúchos, que foi publicado pela editora Movimento, em 1981; diz Appel: “Cyro Martins, lançando-se em 1934, teve não só a força de revisar, reestruturar todos os seus romances e livros de contos, como ainda conseguiu, 'no rabo das horas', como costuma dizer, analisar a obra de muitos contemporâneos seus”.

        Carlos Jorge Appel menciona os muitos nomes desses escritores da geração de 30: Érico Veríssimo, Dyonélio Machado, Nogueira Leiria, Lilla Ripoll, Mário Quintana e Raul Bopp. E conclui Appe1: “Mais que uma devoção que nutre por todos eles, como reconhece o próprio Cyro Martins, mais que um depoimento ou reminiscências criativas, deve-se reconhecer em Escritores Gaúchos o que propõe a epígrafe de Augusto Meyer: Cada palavra impressa esconde um espelho de mil facetas, onde a nossa imagem pode multiplicar-se até a tortura dos indefiníveis".

        O livro de contos Campo Fora foi a estréia de Cyro Martins, em 1934.Sobre essa obra, escreveu o também escritor e crítico literário Guilhermino Cesar: Campo Fora troxe ao gênero uma perspectiva social que todos os seus críticos têm valorizado; e sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as “modas” de hoje estiverem esquecidas. Mas, a meu ver, há nele um traço que o singulariza entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de narrar”. 

        Cyro dos Santos Martins nasceu em 5 de agosto de 1908, em Quaraí, RS, e faleceu a 15 de dezembro de 1995, em Porto Alegre.

        Segue o conto Derrotado, de Cyro Martins, que integra o seu livro de contos Campo Fora, sua obra de estréia, publicado em Porto alegre pela editora Movimento, em 1991, p. 32-33: 



                                                              DERROTADO
                                                                          
                                                                                  – CYRO MARTINS



        Isidoro Palma vinha derrotado.

        Esfalfados, ele e o cavalo, a expressão de caiporice estampada no semblante, e um ar triste de derrota nos gestos.

        Descia o Caverá. Ao tranco, que o montado não dava para mais.

        Na estrada não havia rasto de ninguém. Os aramados em extensões enormes deitados no chão, o pasto quebradiço e branco, e as lavouras sem viço, minguadas, davam uma desolada impressão de abandono.

        Meia tarde. Sol de dezembro castigando a terra. A cintilação áspera das distâncias cegava. E na encosta dos cerros, e no fundo das baixadas, o abrigo da sombra das restingas. Mais adiante, à beira-estrada, quietas e sós, raras árvores franqueando-se buenas ao andante estafado para uma sesteada de alívio.

        Havia um ano atrás, bem justo, passara ali mesmo.

        Mas que brutal mudança! Daquela vez, que alegria solta! Nos companheiros, nos campos, nos cerros, nas árvores, nos animais! E ele, fanfarrão, alteando a estampa moça, era decerto o mais feliz na gaiatice geral. Tinha motivos demais para tamanha alegria.

        Trazia aquilo bem vivo na memória. A troca cruzara ali de manhã. Os pingos recém-potreados, alarifes e graxudos, resvalavam os cascos brutos naquela fartura de capim ainda molhado da serenada grande. E os índios levavam dentro do peito ímpetos xucros de carga. E o capitão Isidoro Palma, à frente do seu grupo guapo, mais resolvido do que nunca pra que viesse, perna estaqueada no pingo arpista, era a esperança da coluna.

        E agora? Tudo mudado!

        Era funda a mágoa do gaúcho caipora, vendo a mesma paisagem gloriosa de outro tempo estirar-se hostil aos seus olhos cansados.
  
        Quando o sol entrou, já vinha longe do Caverá.

        Atravessava agora a várzea do Cantagalo. Sempre ao tranco, como se não levasse pressa. Alheio à instinção da paisagem. As vistas varando a meia luz do horizonte quase morto, rumo a um rancho no garupá. Lá, enlaçando o busto na procura do que vinha nas distâncias, uma chinita esperava impaciente o dono do seu coração. Aquela noite, devagar mesmo, havia de chegar.

        O cavalo parou. O índio o convidou de leve com a espora. Nada. O montado não dava mais.

      Isidoro Palma apeou, fronte franzida num pressentimento. E sem queixa,sem maldições, com muita cautela, com muito mimo, com muita pena desencilhou o pobre pingo, para não judiar do flete companheiraço.

        O gaúcho, estirado nos arreios, integrou-se na paz daquele chão.

        Longe, num estirão de léguas, subindo de trás do Jarau uma montoeira de nuvens afogueadas. E no céu alto e aberto, na rasura dos planos e nas árvores perdidas, o jeito pesado das coisas imóveis.

        Quando acordou no outro dia, vinha apontando o sol. De pé, varreu a várzea num golpe de vista. A meia légua, um piquete guerreiro.
     
        A perseguição aos derrotados continuava.

        Endereçou-se ao cavalo, ainda espichado na grama miúda. Chegou cauteloso. Amimou-lhe a anca, o lombo, as crinas. Levou o buçal com cuidado. E a custo se convenceu que lhe morrera o pingo.

        Recalcando a crua mágoa, ficou tempo parado diante do flete companheiro de muitas noitadas de amor, de incontáveis carreiras de peleia e tava, de muita corrida braba de boi, e de brutais arriscadas na guerra.

        O piquete inimigo vinha perto.

        Reluziam ao sol os dentes rilhados do animal. E os olhos vidrados pareciam fixar o perfil acabrunhado do guerreiro.

        Os perseguidores galopearam. O tropel se espraiou longínquo alarmado no descampado. Um grito e mais outro e um berreiro estalou. Luziram espadas contra o sol nascente. Lenços e palas revoaram sacudidos pelo vento.

        Isidoro Palma tinha ainda a sua adaga fiel.

        Caiu hirto, em golpe duro, como um pau sobre o cavalo morto.


  

24 de dez de 2010

[Poesia] LUIZ DE MIRANDA – A esse amor

Luís de Miranda

                



                por Pedro Luso de carvalho


         

        Passei a conhecer a poesia de Luiz de Miranda quando dava os meus primeiros passos no exercício da advocacia. Posso afirmar que desde que li os seus primeiros poemas, passei a comprar os seus livros, sempre que os editava; na maioria das vezes, fazia-o na Feira do Livro de Porto Alegre, a maior feira de livros a céu aberto da América do Sul. 

        Pessoalmente, conheci Luiz de Miranda quando fui por ele procurado em meu escritório, para resolver um pequeno problema ligado a imóveis. Depois que minha secretária o anunciou pelo interfone, logo ela apareceu acompanhada pelo poeta, para abrir a porta da minha sala, e conduziu-o à uma cadeira em frente de minha mesa. Ali estava, pois, à minha frente, o ainda jovem Luiz de Miranda com sua barba e cabelos compridos, parecendo-se muito com a clássica figura de Shakespeare. Disse-me que vinha ao meu escritório por recomendação do escritor Sergio Faraco, seu amigo dileto. Acomodou-se calmamente na cadeira e estendeu o braço trazendo na mão o seu último lançamento: Estado de Alerta, (in Editora Movimento, Porto alegre, 1981). Folhei-o em seguida para ver se havia alguma dedicatória, e de fato havia:

Ao Pedro Luso de Carvalho, o poema como esperança. O abraço amigo, Luiz de Miranda. Porto alegre, abril de 83.

         Agradeci ao poeta pelo livro e pela dedicatória e logo passamos a tratar do assunto para o qual me procurou.

        Vejamos, a seguir, o que dizem sobre a poesia de Luiz de Miranda, alguns nomes importantes da literatura brasileira (in Antololgia de Poemas):

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: “Poesia aberta, comunicante, como um sopro de vida e insatisfação”.
 
FERREIRA GULLAR: “No caso de um poeta como Luiz de Miranda, as soluções formais resultam da necessidade de formular o vivido e sentido, emoções e idéias que são expressão de um compromisso claro com seu país e o seu tempo. A poesia de Luiz de Miranda fala de nós todos”.

RAUL BOPP: “A poesia de Luiz de Miranda revela a sensibilidade do verdadeiro e grande poeta. É um contribuição definitiva à literatura brasileira”.

ALCEU VALENÇA: “A poesia de Miranda é o vento Minuano que passa em voz alta e nos marca para sempre”.

GUILHERMINO CÉSAR: “De qualquer modo, penso que Memorial assinala uma vertente; reúne-se ao que de melhor existe no Brasil”.

NELSON WERNECK SODRÉ: “Luiz de Miranda sabe que a solidão é provisória e decorre de derrota, exílio, distância, saudade. Escreveu longe e perto. Sua poesia se junta a de alguns, uns poucos, que souberam ver o que viu, sentir o que ele sentiu. A época, amarga e opaca e escura, é atravessada por essa poesia como um relâmpago. Sua luz denuncia auroras. Do provisório, entrevemos o definitivo”.

JOSÉ ÉDIL DE LIMA ALVES: “Poeta comprometido com a realidade do seu país e de seu continente, ele trilha os caminhos percorridos por um Pablo Neruda, um Atahualpa Yupanqui, um Ferreira Gullar, com seu canto enérgico de protesto”.

        Passemos ao poema A ESSE AMOR, de Luiz de Miranda (in Antologia Poética, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1987, p. 67):


A ESSE AMOR


        Luiz de Miranda
                    a Alice de Salles



Chegarei a esse amor
pelo próprio destrato
que ele me empresta
pelo seu avesso, o reverso
pela porta menor, retrato
de luz aquecida


Chegarei a esse amor
amando o lado opaco
que se infiltra e bruxuleia
nas quietudes mais cerradas
pelo círculo de giz, pacto
por onde renasço da cinza


Chegarei com o hálito antigo
a calça de brim
o chinelo, a bombacha
na mala da memória
e a palavra, irmã de insônia
                   cisma
que habita o desatino
com seu sopro alumbrado


Chegarei a esse amor
sem explicações ou fórmulas
com o coração aberto
na manhã de sombra



Um pouco mais da vida e da obra do poeta gaúcho, Luiz de Miranda, pode ser lido em Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_de_Miranda





11 de dez de 2010

JOSÉ ALBANO – Canção a Camões




                 por Pedro Luso de Carvalho

       
        
        Abordaremos a poesia de José Albano não apenas nesta edição, mas também em outras, que serão apresentadas de forma intercaladas. E em cada um desses futuros textos daremos a conhecer a posição de poetas igualmente importantes e de críticos literários, no que respeita a obra do poeta. Podemos antecipar, inclusive, alguns nomes que abordam a obra (e a vida) de José Albano; são, entre outros: Alfredo Bosi, Manoel Bandeira, Agripino Grieco, Antônio Sales, Tristão de Athayde, Braga Montenegro.

        Cumpre fazermos de plano a presentação do poeta, para os que não o conhecem, e então passarmos à sua poesia. José Albano é um dos mais importantes poetas brasileiros, embora pouco conhecido em sua pátria. Entre os poetas neoparnasianos, José Albano foi o mais aristocrático.

         Filho de família cearense abastada, e neto de barões pelo lado paterno, não encontrou dificuldades em sair do Brasil aos onze anos de idade para estudar em colégios ingleses, austríacos e franceses, tendo o privilégio de receber uma apurada formação humanística. Volta ao Brasil - Fortaleza, sua cidade natal -, já na adolescência, e tenta cursar Direito, mas a doença o impediu de continuar os estudos. Então, com ajuda do Barão do Rio Branco, seu amigo e protetor, retorna à Europa, para, depois de visitar alguns países, fixar-se na França. Aí morre o poeta no dia 11 de julho de 1923, na localidade de Montauban.

        Um dos nossos mais importantes críticos literários, Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima), “num assomo de entusiasmo”, como observa Alfredo Bosi, manifestou-se sobre a obra do poeta no seu importante ensaio, Poesia Redentora, in José Albano, Rimas. 3ª ed., Rio de Janeiro, Graphia Editorial, 1993, p. 220.221:

        "A figura de José Albano é das mais indiscutíveis desse período pré-modernista, entre 1900 a 1920, em que escreveu o principal de sua estranha e puríssima obra poética, agora de novo revelada ao grande público, pela coragem editorial dos irmãos Pongetti e pela independência e bom gosto literário de Manoel Bandeira. As Rimas (Pongetti Editores, 1948) compreendendo essa deliciosa Comédia Angélica, esses maravilhosos quatro sonetes em inglês, o Triunfo que é uma obra-prima e os Dez sonetos escolhidos pelo autor, que são seguramente dos mais belos que jamais foram escritos em nossa língua e mesmo em qualquer língua humana – representam um imenso drama interior – uma incomparável realização de poesia pura''.

        Além de Rimas, o primeiro livro de José albano, publicado em Barcelona, em 1912 (no Brasil a sua edição deu-se em 1948, por Pongetti Editores), e Comédia Angélica, publicada em 1918 (quatro sonetos em inglês com tradução portuguesa, com argumento religioso e forma clássica), o poeta também publicou Antologia Poética.

        Em outras oportunidades, como dissemos acima, continuaremos com a abordagem da obra de José Albano. Agora, passemos ao poema CANÇÃO A CAMÕES, que integra o seu livro Rimas, p. 113-115:



        CANÇÃO A CAMÕES


Co'uma espada de prata e lira de ouro
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.

Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito -
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.

Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saüdosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.

Eis se alça Adamastor fero e iracundo,
Como uma nuvem negra aparecendo
À frota, do naufrágio ameaçada.
Treme nos fundamentos todo o mundo,
Quando ele em tom altíssimo e tremendo
Blasfema, grita, brama, ruge e brada.
Eis surge a sublimada
Vênus superna que nasceu da escuma;
De flores se matizam as campinas,
A aragem se perfuma
E serenam as ondas neptuninas:
Protege a deusa o peito lusitano,
Conquistador da terra e do oceano.

Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branca e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.

Da baixa terra também sobe a ver-te
Outra figura, envolta em negro luto,
Que no passado mais ditosa viste.
Do longo caminhar cansada e inerte,
De lágrimas o rosto nunca enxuto,
Suspira e nenhum peito lhe resiste:
É Lusitânia triste,
É tua ingrata mãe que ânsia secreta
De saüdades sente dentro da alma,
Mas vendo-te, ó Poeta,
A mágoa se lhe um pouco abranda e acalma.
E para que o remorso menos doa,
De imarcescíveis louros te coroa.

Canção, voa ao Parnaso
E ao Mestre amado meu que lá de cima
Me ouve cantar em venturoso enlevo,
Entrega o verso e rima
Que em tributo ofereço do que devo.
E se durares qual lhe dura o nome,
Fico que nunca o tempo te consome.



                                       (by José Albano)



REFERÊNCIAS:
ALFREDO BOSI. A Literatura Brasileira. O Pré-modernismo. Vol. V. São Paulo: Ed. Cultrix, 1966, p. 19-24.
ALBANO, José. Rimas, 3ª ed., Rio de Janeiro, Graphia Editorial, 1993 , p. 220.221.



28 de nov de 2010

EDGAR ALLAN POE – Os Sinos

Edgar Allan Poe



             por Pedro Luso de Carvalho


        Quando publicamos o nosso primeiro trabalho sobre a obra de Edgar Allan Poe, qual seja, ANTOLOGIA DE CONTOS, falamos da importância de Poe na literatura, na poesia. E também isto: Charles Baudelaire lera algumas das suas histórias, e mais tarde dissera, ao lê-las, que “experimentara estranha emoção”. Nas revistas que chegavam dos Estados Unidos a Paris, Baudelaire procurava pelos contos e pelos poemas de Poe. Baudelaire escreveu certo dia em seu diário, que, dali em diante, iria orar todas as manhãs a Deus, ao seu pai e a Edgar Allan Poe (in Antologia de Contos - prefácio de Brenno Silveira -, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959). A sedução e o fascínio que Poe exerceu sobre Baudelaire levou o poeta francês a traduzir os contos e os ensaios do autor de A Queda da Casa de Usher. Depois dessas traduções, Baudelaire juntou-se ao célebre Mallarmé, que o ajudou a divulgar a obra de Poe, razão pela qual teve plena aceitação pela avant garde literária de Paris.

        Os poemas de Poe, que publicamos aqui no blog Panorama, foram: ANNABEL LEE, em setembro/2008; O CORVO - o poema imortal do poeta -, em julho de 2008; ULALUME, janeiro/2010; A CIDADE NO MAR, em maio/2010; A MARIE-LOUISE SHEW, em agosto/2010. Para esta publicação escolhemos o poema OS SINOS (in Edgar Allan Poe - Poemas e Ensaios, tradução de Oscar Mendes e Milton Amado. 3ª ed. São Paulo: 1999, p. 64-67).




OS SINOS


I


Escuta: nos trenós tilintam sinos
argentinos!
Ah! que mundo de alegria o som cantante prenuncia!
Como tinem, lindo, lindo,
no ar da noite fria e bela!
Vão tinindo e o céu inteiro se constela,
florescente, refulgindo
com deleites cristalinos!
Dão ao tempo uma cadência tão constante
como um rúnico descante,
com os tintinabulares, pequeninos sons, bem finos,
que nascendo vão dos sinos,
sim, dos sinos, sim, dos sinos,
saltitantes, bimbalhantes, dentre os sinos.


II


Escuta; em núpcias vão cantando os sinos,
áureos sinos!
Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!
No ar da noite, embalsamado,
como entoam seu enlevo abençoado!
Tons dourados, lentas notas
concordantes...
E tão límpido poema aí flutua
para as rolas que o escutam, divagantes,
vendo a lua!
Volumoso, vem das celas retumbantes
todo um jorro de eufonia
que se amplia,
“O futuro é belo e bom!”
- clama o som,
que arrebata, como em êxtases divinos,
no balanço repicante que lá soa,
que tão bem, tão bem ecoa
na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos,
carrilhões e sinos, sinos,
no rimado, consonante som dos sinos.


III


Escuta; um longo alarma bradam os sinos,
brônzeos sinos!
Ah! que história de agonia, turbulenta, se anuncia!
Treme a noite, com pavor,
quando os ouve em seu bramido assustador,
Tanto é o medo que, incapazes de falar,
se limitam a gritar,
em tons frouxos, desiguais,
clamorosos, apelando por clemência ao surdo fogo,
contendendo loucamente com o frenesi do fogo,
que se lança bem mais alto,
que em desejo audaz estua
de, no empenho resoluto de algum salto
sim! Agora ou nunca mais!),
alcançar a fronte pálida da lua!
Oh! Os sinos, sinos, sinos,
De que lenda pavorosa, de alarmar,
falam tanto?
Clangorantes, ululantes, graves, finos,
quanto espanto vertem, quanto,
no fremente seio do ar!
E por eles bem a gente sabe – ouvindo
seu tinido, seu bramido -
se o perigo é vindo ou findo.
Bem distintamente o ouvido reconhece
pela luta,
na disputa,
se o perigo morre ou cresce,
pela ampliante ou decrescente voz colérica dos sinos,
badalante voz dos sinos,
sim, dos sinos, sim, dos sinos,
do clamor e do clangor que vêm dos sinos!


IV

Escuta: dobram, lentamente, os sinos,
férreos sinos!
Ah! que mundo de pensares tão solenes põem nos ares!
Na silente noite fria,
quando a alma se arrepia
à ameaça desse canto melancólico de espanto!
Pois em cada som saído
da garganta enferrujada
há um gemido!
E os sineiros (ah! essa gente
que, habitando o campanário
solitário,
vai dobrando, badalando a redobrada
voz monótona e envolvente...),
quão ufanos ficam eles, quando vão
tombar pedras sobre o humano coração!
Nem mulher nem homem são,
nem são feras: nada mais
do que seres fantasmais.
E é seu Rei que assim tange,
é quem tange, e dobra, e tange.
E reboa
triunfal, do sino, a loa!
E seu peito de ventura se intumesce
com o hino funerário lá dos sinos;
dança, ulula, e bem parece
ter o Tempo num compasso tão constantes
qual o rúnico descante,
pelos hinos lá dos sinos!
Ah! Dos sinos!
Leva o Tempo num compasso tão constante
como um rúnico descante,
pela pulsação dos sinos,
a plangente voz dos sinos,
pelo soluçar dos sinos!
Leva o Tempo em tal compasso, tão constante,
que a dobrar se sente, ovante,
bem feliz com esse rúnico descante,
com o reboar que vem dos sinos,
a gemente voz dos sinos,
o clamor que sai dos sinos,
a alucinação dos sinos,
o angustioso,
lamentoso, lutuoso som dos sinos!




(by Edgar Allan Poe)

 

16 de nov de 2010

J. D. SALINGER – Sob o fogo da crítica

                                                                               

        
            por Pedro Luso de Carvalho


        O famoso recluso J. D. Salinger antes de dedicar-se à literatura passou rapidamente pelas universidades de Nova York e Columbia. Depois que retornou da Segunda Guerra Mundial suas histórias foram publicadas regularmente pela revista The New Yorker; com isso tornou-se bastante conhecido, principalmente nos Estados Unidos. Escreveu um único romance, O apanhador no campo de centeio, um clássico da adolescência (1951); e os contos e novelas curtas, Nine stories (1953); Fanny and Zooey (1961); Carpinteiro, levantem bem alto a cumeeira (1963); Seymour: Uma Apresentação(1963).

        Em quatro dos cinco livros de Salinger, figuram como personagens principais e recorrentes a Família Glass, constituída por Buddy (alter ego de Salinger), Seymour, Boo Boo, Franny e Zooey Glass, todos irmãos. A novela Franny & Zooey, que está dividida em duas partes, e está destinada a um público sem qualquer envolvimento com o profissionalismo literário, para o qual dedica o seu livro: “Se ainda resta um leitor amador no mundo – ou alguém que simplesmente leia por ler -, peço a ele ou a ela, com indizível afeição e gratidão, para dividir a dedicatória deste livro em quatro com minha mulher e meus filhos”.

        J. D. Salinger tornou-se um escritor de sucesso popular. Estudantes de níveis inferiores do meio acadêmico colocaram-no em alto pedestal; no entanto, intelectuais de gosto literário mais sofisticados desprezavam o escritor. No seu conto Seymour: An Introduction (Seymour: Uma Apresentação), em 1963, Salinger manifesta-se sobre a aristocracia intelectual da época, chamando-a de “uma nobreza de orelhas de lata”. E quando outro livro seu, Franny and Zooey passou da New York para o livro, abriu-se uma janela para que essa aristocracia fizesse sua contestação, como adiante se verá.

        Norman Mailer, que descreveu Salinger como o “preferido de todos”, chegou a dizer: Parece que sou o único a achar que ele não é mais que a maior cabeça a continuar no curso primário...claro que essa opinião não pode advir de nada mais amável que inveja. Salinger teve a sabedoria de escolher temas que são confortadores (...); mas já que o mundo está agora num estado de desconforto agudo, não acho que a sabedoria dele seja respeitável.

        Não tardou muito para que George Steiner tivesse seguido a mesma linha de Norman Mailer, fazendo sua denúncia de que a “indústria Salinger” era em grande parte causada pelo próprio Salinger. Assim se manifestou Steiner:

        Os jovens gostaram de ler sobre os jovens. Salinger escreve sucintamente... Ele nada exige de seus leitores em termos de cultura ou interesse político... Salinger lisonjeia a ignorância mesmo e a superficialidade moral de seus jovens leitores. Sugere-lhes que ignorância formal, apatia política e um vago sentimento de tristeza são virtudes. É aí que entra o uso engenhoso e um tanto deturpado que ele faz do zen. O zen está na moda. Gente que nem sequer tem os rudimentos de conhecimento necessários à leitura de Dante, nem a fibra de Schopenhauer exige, compra logo o último livro sobre zen.

        Essa declarações de Mailer e de Steiner, que demonstram aversão pelos jovens leitores de Salinger, logo o atingem. Vê-se que o sucesso comercial dos livros de Salinger não têm boa sustentação. O escritor manipulava os sentimentos desse público jovem: gostos, manias, apatia carência e tudo mais contavam com a compreensão de Salinger. Este tinha por objetivo a fama e a riqueza (ser amado, também estava nos seus planos).

        John Updike escreveu com certo embaraço no New York Times: Assim como Hemingway procurava as palavra para as coisas em movimento, Salinger procura palavras para coisas transmutadas em subjetividade. Sua ficção, com aquela bravata um tanto soturna, aquele humor, aquela morbidez, aquela esperança deturpada mas persistente, combina no tom e na forma com a vida americana atual. (Dentre os intelectuais de peso, Updike era o único que não apontava deficiências em Salinger).

        Alfred Kazin, que dizia que Salinger tinha um talento considerável, embora não se sentisse à vontade com seu pedantismo, escreveu um artigo para The New Yorker: O vasto público de Salinger, estou convencido, não se fundamenta apenas no vasto número de jovens que reconhecem seus problemas emocionais na ficção dele e sua rebeldia frustrada na linguagem sofisticada que ele manipula com tanta perícia. Baseia-se, principalmente, no vasto número de pessoas que nossa sociedade liberou para se considerarem infinitamente sensíveis, espiritualmente solitárias, talentosas, e cujo sofrimento decorrem de terem voltado a consciência apenas para si mesmas, de terem se desinteressado por uma sociedade à qual acham que entendem bem demais, de terem esgotado a esperança, a confiança e a curiosidade no mundo propriamente dito.

        Joan Didion publicou na National Review um texto crítico no qual chamou o conto 'Fanny and Zooey' de “definitivamente especioso”; e diz mais: Por mais brilhantemente apresentado que seja (e é), por mais assombrosamente correto que seja o ritmo de seus diálogos (e é), Fanny and Zooey é definitivamente especioso, e o que o torna especioso é a tendência de Salinger a lisonjear a trivialidade inerente a cada um de seus leitores, sua predileção por ensinar como se deve viver. O que dá ao livro esse enorme poder de atração é exatamente a matéria de auto-ajuda: isso emerge em última instância como Pensamento Positivo para a classe média alta, como Dobre sua Energia e Pense sem Cansar para garotas da Sarah Lawrence.

        Leslie Fiedler concordava com a crítica de Didion. Em seu texto crítico para Partisan Review, disse Fiedler: Salinger obviamente fala para os mais limpos, mais bem-educados, mais bem vestidos, mais bem alimentados e mais lidos dos jovens carentes (e quem não é carente?): não sendo drogados, bichas, nem mesmo boêmios da alta, seus protagonistas andam por uma trilha limitada de um lado pela escola e do outro pelo lar. Eles têm família e professores em vez de amantes e amigos, e suas crises tendem a se definir em termos de se devem ou não voltar para Vassar, Princeton, Dana Hall ou St. Marks no segundo semestre. A angústia deles é improvavelmente inspirada por perguntas do tipo: “Será que o garoto de Harvard com quem vou sair no fim de semana 'realmente' compreende o que é poesia?” ou “Será possível que no fim das contas o meu professor de inglês odeie literatura”.

       Consta que, dentre as críticas dirigidas a Salinger, a que mais o irritou foi a escrita por Mary McCarthy, no seu artigo intitulado “O Circuito Fechado de J. D. Saliger”, publicado pela primeira vez no Observer de Londres, e depois na Harper's: E quem são esses garotos prodígios – escreve Mary McCarthy – a não ser o próprio, dividindo-se e multiplicando-se como a ameba original... confrontar-se com as sete faces de Salinger, todas sábias e amáveis e simples, é fitar um lago narcísico assustador. O mundo de Salinger não contém nada a não ser Salinger...

        J. D. Salinger (Jerome David Salinger) nasceu a 1 de janeiro de 1919, Manhattan, Nova York, e morreu em Cornish, New Hampshire (EUA), no dia 27 de janeiro de 2010.




REFERÊNCIAS;
PATRICK, Julian. 501 Grande escritores. Trad. Livia Almeida e Pedro Jorsensen Junior. Rio de Janeiro: Editora Sextante, s/d.HAMILTON, Ian. Em busca de J. D. Salinger. Trad. Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Casa Maria Editorial, 1990, p. 185-189.]