30 de jun de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte I

           


                    por  Pedro Luso de Carvalho


        O presente trabalho, que passo a escrever sobre o grande escritor russo Liev Tolstói, será publicado em três postagens ou mais, a partir desta, com um pequeno intervalo de alguns dias, entre uma e outra parte. Inicio esta primeira parte com o relato de Máximo Gorki, outro importante escritor russo, sobre a notícia da morte de Tolstói:

        “Morreu Liev Tolstói. Chegou um telegrama e, nele, com as palavras mais banais está dito: faleceu. Isto foi um golpe no coração – diz Górki –, berrei de mágoa e de tristeza, e agora, num estado meio louco, imagino-o tal como o conheci, como o vi, e tenho uma vontade dolorosa de falar sobre ele. Vejo-o deitado no ataúde – como uma pedra lisa no fundo de um regato e, em sua barba grisalha, provavelmente, esconde-se silenciosamente seu sorriso ilusório e alheio a todos. E as mãos dele, finalmente, repousam uma sobre a outra, ao acabar seu trabalho de condenado”.

        Ao ler o que aí escreveu Gorki, in Tres Russos, lembrei-me da narrativa de Stefan Zweig sobre a súplica feita por Turguieniev, outro expoente da literatura russa, às véspera de sua morte, súplica essa para que Tolstói desistisse da ideia de abandonar a literatura, como havia sido anunciado, que o faria. Apesar de moribundo, Turguieniev segura a caneta, ou antes, o lápis – porque suas mãos enfraquecidas pela morte próxima não podem sustentar uma caneta – e se dirige a Tolstói, o mais grandioso gênio de sua pátria para lhe fazer uma pungente invocação: “Que esta seja – escreve Turguieniev – a última e sincera súplica de um moribundo. Voltai à literatura! É o vosso verdadeiro dom. Ouvi a minha prece, grande escritor da terra russa”.
        Foi vã a súplica de Turguieniev, que temia que Tolstói desperdiçasse seu tempo e seu talento com especulações religiosas. A respeito, escreve Stefan Zweig, in Tolstói: “A 27 de junho de 1883, Tolstoi, ao qual Turguieniev considera como o maior escritor de seu país, se afastou da literatura para se aproximar de uma “ética mística”, até ser completamente absorvido por ela; ele que sabia melhor do que ninguém retratar a natureza e o homem, conserva agora sobre sua mesa somente a Bíblia e tratados de teologia”.

        Máximo Górki permanecia ali, ao lado do seu amigo morto: “Lembro-me de seus olhos agudos – escreve Górki -, que viam através de tudo, o movimento dos dedos que sempre pareciam esculpir alguma coisa no ar, suas conversas, seus gracejos, as palavras mujiques prediletas e a voz indefinível. E vejo quanta vida abraçou este homem, quão inteligente, acima do humano, e temível ele era”.

         Em o Três russos, ainda falando sobre as lembranças, Górki diz que Tolstói “Uma noite, ao crepúsculo, apertando os olhos e mexendo as sobrancelhas, ele lia o seu Padre Sérgio, onde se descreve como uma mulher ia seduzir um eremita; leu até o fim, levantou a cabeça e, fechando os olhos, pronunciou claramente: - Escreveu bem, velho, bem! Isso foi dito de uma maneira tão surpreendentemente simples, a admiração com a beleza foi tão sincera – diz Górki -, que nunca vou esquecer o enlevo que não pude, não soube expressar, mas reprimi-lo, também, custou-me um esforço enorme. Até meu coração parou, mas depois de tudo em volta ficou vivificante, fresco e novo”. (Mais tarde, comentarei essa obra referida por Górki, Padre Sérgio, de Liev Tolstói, editada pela Cosac Naify, São Paulo, 2001.

        Para finalizar esta primeira parte de Liev Tolstói, acho interessante citar um trecho de André Maurois, que disse que “Tolstói foi um dos maiores criadores do romance na história da literatura. Descendia de uma velha família da aristocracia russa; encontrou no berço um domínio, uma fortuna. Todos os meios sociais lhe estavam abertos. Nunca foi obrigado a escrever e publicar por necessidade do dinheiro.

        (...) Na carreira literária – diz Maurois-, Tolstói conheceu imediatamente o sucesso. Desde as suas primeiras obras, os críticos e os romancistas mais velhos como Turguieniev o saudaram como um mestre. A partir de Guerra e Paz é o grande escritor da terra russa, o primeiro, numa época em que a literatura de seu país impressiona pela riqueza. As maiores obras nascem dos maiores sofrimentos. As lutas de multidões em Guerra e Paz e as lutas de sentimentos em Anna Karenina estão envoltas numa atmosfera de angústia que é aquela em que vive Tolstói”.

        Nos próximo trabalho farei a abordagem do período mais difícil da vida de Tolstói, a partir da época em que, aos cinquenta anos de idade, abandona a literatura. “A vida parou e se tornou inquietante”. Ele se apalpa – diz Stefan Zweig - e pergunta o que lhe aconteceu. Por que esta melancolia repentina , estas angústias que se apoderam dele? Por que não existe mais nada que o alegre ou comova? Sente somente que o trabalho lhe é aborrecido, que sua mulher se lhe torna estranha e seus filhos indiferentes. O desgosto da vida, toedium vitae se apossa dele. Fecha no armário seu fuzil de caça, receoso de que o desespero o faça virar contra si.

        Para ler a segunda parte do texto, clique em LIEV TOLSTÓI – Parte II.




REFERENCIAS:
GÓRKI, Máximo. Tres Russos. Tradução de Klara Gourianova. 1ª ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006.
MAUROIS, André. De Aragon a Montherlant. Tradução de Paulo Hecker Filho. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1967.
ZWEIG, Stefan. Tolstoi. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Ediora, 1961.



                                                             *  *  *  *  *  *

20 de jun de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte II


       
                  por  Pedro Luso de Carvalho



          Ao atingir a idade de cinquenta anos, o grande escritor Liev Tolstói, que atravessava um dos períodos mais difíceis de sua vida, sem causa visível, desiste da literatura, deixando de atender às súplicas de seu amigo Turgueniev. Este, que como Tolstói era tido como o mais importante escritor russo, se inquieta e se aflige, lembra Stefan Zweig: poderia Tolstói, como Gogol, desperdiçar anos decisivos em especulações religiosas que não tem sentido algum para o mundo? Justamente Tolstói que, mais do que qualquer outro – diz Zweig -, tinha visto e provado tudo o que existe de sensual no mundo, homem da terra e a ela ligado, nunca se inclinara, até então, em momento algum de sua vida, para a metafísica. Então, por instinto de conservação, de desespero, torna-se pesquisador e filósofo.

        Na altura dos seus cinquenta anos, Tolstói teria pela frente mais trinta anos para responder as seis “questões sobre o desconhecido”, que a esse tempo ele lhe fez e escreveu, quais sejam: a) Porque vivemos? b) Qual é a causa da minha e de todas as outras existencias? c) Qual é o fim da minha e de todas as outras existencias? d) Que significa esta distinção entre o bem e o mal que encontro em mim e por que ela existe? e) Como devo viver? f) O que é a morte e como me salvar? As respostas para essas indagações estavam a frente da criação artística, e seriam a sua razão de ser; tarefa da qual não pretendia afastar-se.

        Para responder a si próprio a sua primeira questão – nessa primeira fase-, o “sentido da vida”, Tolstói distancia-se do gozo pela vida e do trabalho para, de repente, tornar-se um adepto da filosofia; então procura os mais importantes pensadores para conhecer suas opiniões e com eles aprender “a razão de ser e a finalidade da vida”. Para isso, escolhe Schopenhauer, Platão, Kant e Pascal para, por intermédio deles, entender o “sentido da vida”. Os filósofos e os sábios não deram, entretanto, a Tolstói, resposta para essa sua indagação.

        Tolstói então afasta-se dos filósofos para, nessa segunda fase, ouvir resposta a essa pergunta: “Que significação tem minha vida no tempo, na causalidade e no espaço”? Tolstói está então em busca de consolação, e, agora, espera encontrá-la no seio das religiões. Então, troca o “saber”, que não encontrou entre filósofos e sábios, pela “fé”, que passa a buscar; daí, sua súplica: “Dai-me, Senhor, uma fé e permiti que ajude os homens a encontrá-la”. Nessa época de busca, Tolstói ainda está preocupado apenas com a sua pessoa, e não com uma doutrina que vá além dela. A sua intenção é reencontrar a paz de espírito. Ele diz que procura “se salvar “ do niilismo interior e achar um sentido na insanidade da existência.

         Criado numa família de cristãos ortodoxos, e aos dezesseis anos de idade tendo deixado de rezar, comungar e de frequentar a igreja, agora a ela retorna: guarda jejum, faz peregrinações, ajoelha-se diante das imagens, discute com os bispos e, mais que tudo, estuda o Evangelho. Investigador arguto, logo percebe que as leis e os mandamentos do Evangelho não são mais observados. Percebe também que a doutrina de Cristo, como é ensinada pela Igreja Ortodoxa Russa não lhe parece ser original. Não parece ser a verdadeira doutrina de Cristo. Tolstói descobre então que interpretar o Evangelho e pregar esse Cristianismo será o seu principal trabalho, que seja visto “como nova concepção da vida e não como doutrina mística”.

        Do pesquisador -diz Zweig -, nasceu um crente, do crente um profeta, e do profeta ao fanático não há mais do que um passo. Do desespero pessoal brotou uma doutrina autoritária em embrião, uma reforma de todo o pensamento espiritual e moral e, ainda, uma nova sociologia; a pergunta primitiva de uma individualidade angustiada: “Qual é o sentido da minha vida e como devo viver?” se transformou pouco a pouco num postulado extensivo a toda a humanidade: “É assim que deveis viver”.

        O primeiro livro de doutrina cristã de Tolstói, Minha Confissão, é interditado pela censura, o segundo, Minha fé, é censurado pelo Santo Sínodo. É a ação da igreja, com sua habilidade milenar para despistar, defendendo-se de quem faz a interpretação pessoal do Evangelho. Embora respeitado pelas autoridades religiosas, Tolstói acabou sendo banido da igreja e por ela excomungado. Muito abalado, volta-se contra os fundamentos da igreja, do Estado e da ordem temporal por não te conseguido levar adiante o seu plano de “reconduzir a religião ao Cristianismo primitivo e viver unicamente segundo as fórmulas e leis da Bíblia”.

        O caminho agora tomado por Tolstói segue numa direção – como diz Zweig - “que o transforma, irresistivelmente, no inimigo mais resoluto do Estado, o anarquista e o adversário da coletividade mais apaixonado da época contemporanea. A energia, a resolução, a tenacidade, a coragem indomável, fazem-no ultrapassar os reformadores mais ardentes, como Lutero e Calvino, ou ainda, no domínio social, os anarquistas mais audaciosos, como Stirner e os de sua escola. Em breve, a civilização moderna, a sociedade do século dezenove, com todos os seus direitos e injustiças, não terá um adversário mais feroz nem mais perigoso do que o maior escritor deste tempo. Pela sua crítica da sociedade, ninguém exerceu ação mais destruidora do que Tolstói, que antes fora o expoente máximo dos criadores de sua época”.

        O grande crítico literário norte-americano, Harold Bloom, diz em sua obra O Cânone Ocidental, que “Poderíamos chamar o anseio de Tolstói mais de uma expectativa apocalíptica que um desejo religioso (...). Tolstói amava o que chamava de Deus – diz Bloom – com uma fria paixão, mais necessitada que ardente. Seu Cristo era o pregador do Sermão da Montanha e nada mais, talvez menos Deus que o próprio Tolstói. Lendo-se Tolstoi sobre religião encontramos um severo e às vezes selvagem moralista que não edifica, a menos que, como Gandhi, ponhamos a não violencia acima de todos os outros valores. Tolstoi gerou treze filhos na eposa, mas suas opiniões sobre o casamento e a família são dolorosas, e sua posição em relação à sexualidade humana é misogenica, num grau assustador. Claro, tudo isso se aplica ao Tolstói discursivo, não ao escritor de ficção, mesmo no último romance Ressurreição, ou em novelas posteriores como O Diabo e a sua famosa Sonata a Kreutzer. Tão poderoso e constante é o talento narrativo dele que as suas digressões moralizantes não disfiguram muito a sua ficção, nem a torna chata.”

        Na minha próxima postagem, continuarei ainda nesta fase da vida de Tolstói, que se inicia aos cinquenta anos de idade, quando abandona a literatura; deixo, pois, para mais adiante, a abordagem da primeira fase da vida e da obra do escritor. Para ler a primeira parte do texto, clique em LIEV TOLSTÓI – Parte III.



REFERENCIAS:
ZWIG. Stefan. Tolstói. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961.
BLOOM. Harold. O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola do Tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001.



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10 de jun de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte III

Liev Tolstói



                 por Pedro Luso de Carvalho


      No final da segunda parte do texto sobre Tolstói, transcrevi trecho do ensaio de Harold Bloom, in O Cânone Ocidental, no qual o crítico diz que as opiniões do escritor sobre o casamento e a família são dolorosas, e que a sua posição em relação à sexualidade humana é misogenica, mesmo casado e com treze filhos. Bloon faz justiça a Tolstói, no entanto, quando escreve: “Claro, tudo isso se aplica ao Tolstói discursivo, não ao escritor de ficção, mesmo no último romance Ressurreição, ou em novelas posteriores como O Diabo e a sua famosa Sonata a Kreutzer. Tão poderoso e constante é o talento narrativo dele que as suas digressões moralizantes não desfiguram muito a sua ficção, nem a torna chata.”

        Nesta terceira parte, continuarei ainda nessa fase da vida de Tolstói, que se inicia aos cinquenta anos de idade, quando abandona a literatura e passa a se interrogar sobre a sua vida, e, principalmente, sobre o sentido da vida. Quando se torna adepto da filosofia para buscar respostas a essas indagações, nas leituras aleatórias que faz de filósofos como Schopenhauer, Platão, Kant, Pascal. Quando se afasta dos filósofos por não ter encontrado neles uma resposta para os problemas que o afligem. Quando se dirige a religião na busca de consolo e percebe que a Igreja Católica Ortodoxa não ensina a verdadeira doutrina de Cristo, e então passa a fazer a sua própria interpretação do Evangelho. Quando se ve banido da igreja e por ela é excomungado.

        Voltado para esses questionamentos, Tolstói pergunta-se: “Que erro havia na minha vida?” Questiona-se ainda: “Que erro há na vida de todos nós?” Tolstói começa então a ver os contrastes existentes na sociedade russa: pobreza e riqueza, luxo e miséria. Logo pensa em por termo a essa injustiça, sentindo ser ele próprio um dos algozes dos desafortunados, homem de posses que era. O escritor dá-se conta dessas injustiças sociais quando se encontra em Moscou, em 1881. Aí Tolstói, pela primeira vez, entra em contato com a questão social, como diz Stefan Zweig: “No livro O que devemos fazer? descreve sob uma forma perturbadora o seu primeiro encontro com a miséria em massa da grande cidade”. Tolstói apenas percebe a existencia da pobreza nos vilarejos e nos campos. Falta a ele ver, pois, a perturbadora miséria do proletariado, que se concentra nas cidades industriais, que, como diz Zweig, era o produto de uma civilização industrial.

        Agora consciente dessa triste realidade, Tolstói avança lentamente no sentido de contribuir para minorar os sofrimentos de seus semelhantes, e então passa dar esmolas por meio de uma organização de beneficencia; mas, não tarda a ver que isso não ajudará a mudar a condição social do povo russo. Para ele “somente o ouro não será bastante para transformar a trágica existencia dessa gente”. Ele, que tem agora consciencia de que todo o sistema social terá que sofrer uma mudança completa, escreve: “Entre nós, os ricos e os pobres, se levanta a barreira de uma falsa educação e, antes que possamos ajudar os miseráveis é preciso derrubá-la. Cheguei finalmente à conclusão de que a verdadeira causa da miséria dos pobres é a nossa riqueza”. Estando certo de que há alguma coisa falsa na organização social, o seu objetivo agora é trabalhar para que os russos passem a ser instruídos. Só isso, pensa Tolstói, poderá reparar toda a monstruosa injustiça social.

        Na sua obra Tolstói diz Stefan Zweig: “De motu proprio e consciente de uma moral pura – é aqui que começa o tolstoísmo – Tolstói visa unicamente uma revolução moral, isenta de violencia que, o mais cedo possível, operaria aquele nivelamento e pouparia à humanidade uma outra revolta – a sangrenta. Uma revolta vinda da consciencia, uma revolta realizada pela renúncia espontanea dos ricos às riquezas, dos ociosos à inação, pela próxima redistribuição do trabalho segundo o sentido expresso por Deus: onde ninguém se ache sobrecarregado para alijar a outrem, e todos tenham somente as mesmas necessidades. O luxo, daí por diante, não é para ele mais do que a flor venenosa deste charco, fazendo-se mister extirpá-la, pelo amor da igualdade entre os homens. Ciente disso, Tolstói trava contra a propriedade um combate cem vezes mais encarniçado do que o de Karl Marx e Poudhom.

         Essa é a sua luta para ver a metamorfose social, com a distribuição das riquezas, tirando boa parte das propriedades dos ricos para serem repassadas aos pobres, de forma direta ou indireta, visando o equilíbrio social. Tolstói pregava que “A propriedade é hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que possuem e dos que não a possuem. O perigo dum conflito entre os que dispõe do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. Todo o mal começa com a propriedade”. Para Tolstói, o Estado erra ao defender o princípio da propriedade, que, para ele, trata-se de atitude não apenas anti-cristã, mas também de atitude anti-social.

        Nessa época de desequilíbrio social na Rússia, com a miséria ceifando vidas precocemente, de um lado, e da prevalencia da vontade dos ricos, de outro, a inércia do Estado denotava uma forte cumplicidade com os poderosos. Tolstói, que com isso não mais se conforma, e escreve:

        “Os Estados e os governos intrigam e entram em guerra, ora para possuir as margens do Reno ou terras na África, ora a China e os Balcãs; os banqueiros, os comerciantes, os fabricantes e os proprietários rurais não trabalham, não fazem projetos e não se atormentam, a si e aos outros, senão pelo desejo de possuir. Levados pelo mesmo desejo os empregados lutam, enganam, oprimem e sofrem. Nossos tribunais e nossa polícia sustentam a propriedade. Nossas colonias penitenciárias e prisões, todos os erros que chamamos repressão do crime, somente existem para proteger a propriedade”.

         Para Tolstói, o Estado é o único responsável pela injustiça social. Para ele, o Estado cria mecanismos para proteger a propriedade. O Estado impõe com violencias sua vontade, como centro de um sistema, que, para sustentá-lo, tem suas ramificações nos poderes legislativo executivo e judiciário. Tolstói opõe-se ao serviço militar obrigatório por não achar justificativa para que alguém se dobre às ordens do Estado, e que, com uma palavra de ordem, sirva de instrumento para matar alguém que desconhece, e que a isso se opõe.

        O escritor Henry Thomas diz que “Tolstói estava fadado a sobreviver a sua própria grandeza. Durante os últimos dez anos de sua vida ele bateu-se por um ideal social político e ético só possível num mundo de super-homens... ou de velhos. Com os anos, cada vez mais avultava nele o filósofo profundo e a criança simples”.

        É minha intenção continuar escrevendo sobre a vida e a obra e Liev Tolstói, talvez ainda abordando essa fase da vida do escritor em que se encontrava preocupado em trabalhar para mudar o sistema vigente em sua pátria, visando impor uma justiça social na sua Rússia dividida entre ricos e miseráveis. (Para ler a primeira parte do texto, clique em LIEV TOLSTÓI – Parte Final.)




REFERENCIAS:
ZWEIG, Stefan. Tolstói. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961.
THOMAS, Henry e Dana Lee Thomas. Vida de grandes romancistas. Tradução de James Amado. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1957.

                                                                 * * * * * *

9 de mai de 2010

EDGAR ALLAN POE - A Cidade no Mar




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

O célebre poeta frances Charles Baudelaire, escreve, no prefácio para Poemas e ensaios, de Edgar Allan Poe, que o escritor norte-americano “se apresenta sob três aspectos: crítico, poeta e romancista; e mais – diz Baudelaire -, no romancista há um filósofo. Referindo-se ao trabalho que Poe desempenhava no jornal Mensageiro Literário do Sul, diz Baudelaire, referindo-se às críticas que escrevia: “Todas são feitas com o maior cuidado, e denotam no autor um conhecimento das diversas literaturas e uma aptidão científica que recordam os escritores franceses do século XVIII”.
Sobre o Poe ficcionista, escreve Baudelaire: “Como novelista e romancista, Edgar Poe é único no seu genero, como Maturim, Balzac, Hoffmann. . Os variados trabalhos que espalhou em revistas foram reunidos em dois grupos: Contos grotescos e do arabesco, o outro Contos de Edgar A. Poe, edição Wilwy e Putnam. Forma tudo um total de setenta e dois trabalhos mais ou menos. Há ali bufonadas violentas, puro grotesco, aspirações desenfreadas para o infinito e uma grande preocupação pelo magnetismo”.
No que respeita à poesia de Poe, escreve Baudelaire: “Como poeta, Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romantico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os rítmos complicados e, por mais complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.
A prova, do que diz Charles Baudelaire sobre a excelencia da poesia de Edgar Allan Poe, encontra-se no seu poema:


A CIDADE NO MAR
EDGAR ALLA POE




Olhai! A Morte edificou o seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres
(torres que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oceano lívido
invade os torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilonicas muralhas;
sobe aos arcos escuros e esquecidos
onde o granito se fecunda em flores;
sobe aos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.

Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberta torre,
contempla, gigantesta, o panorama.
Lá, os sepúlcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portentosa
dos ídolos com olhos de diamante,
nem das jóias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas do seu leito imóvel;
pois, ai! Nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas não contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.

Mas, vede! Um fremito percorre os ares.
Uma onda... Faz-se ali um movimento!
E dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas tem, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, languidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa, for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.






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REFERENCIA:
POE, Edgar Allan. Poemas e ensaios. Tradução de Oscar Mendes e Milton Amado, 3ª ed. Revista. São Paulo: Editora Globo, 1999, págs. 11-13, 45-46.)


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2 de mai de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte IV [Final]




             por Pedro Luso de Carvalho
 

      Liev Tolstói passou a condenar a injustiça social em seus país, principalmente depois que deixou de escrever os seus romances, para, na altura dos seus cinquenta anos, voltar-se para a religião e tentar, em vão, fazer uma mudança da Igreja Ortodoxa Russa, no sentido de que esta passasse a transmitir os ensinamentos cristãos, rigorosamente como está no Evangelho, e não distanciado dele, como vinha ocorrendo, na época. E o que mais tarde viria chamar-se tolstoísmo viria fracassar, nos lugares em que pessoas que seguiam as ideias de Tolstói, fundaram colonias, convencidas que estavam na negação da propriedade.

        Escreve Stefan Zweig, sobre o que se passou nessa época, em que todos os ensaios de Tolstói resultaram de decepções, mesmo entre sua família, na sua própria casa; "Durante anos, se esforçou por adaptar sua vida pessoal às suas teorias: renunciou à caça, de que tanto gostava, para não sacrificar animais; evitou o mais possível usar a estrada de ferro; entregou à sua família ou empregou em obras de caridade a renda de sua produções; repeliu toda a alimentação de carnes, porque esta pressupunha a matança de seres vivos. Ele mesmo lavrou a terra, vestiu roupas grosseiras e, com suas próprias mãos, trocou as solas dos seus sapatos".

        As ideias de Tolstói foram vencidas pela resistencia da realidade; e esta, como diz Zweig, foi a tragédia mais profunda de sua vida, envolvendo seus os membros de sua família. "Sua mulher separou-se dele, seus filhos não compreenderam por que razão, logo eles, devidos aos teoremas de seu pai, deviam ser educados como moços do campo e filhos de camponeses; seus secretários e tradutores brigaram, como cocheiros bebados, pela 'propriedade' dos escritos de Tolstói; na sua vizinhança, ninguém compreendeu a vida deste esplendido pagão como uma existencia verdadeiramente cristã e finalmente ele mesmo soube – prova-o seu diário – que, com a sua espiritualidade e seu orgulho, era menos capaz do que ninguém de dar o exemplo desse ideal por ele proclamado tão imperiosamente".

        Os seus momentos de amargura, nessa triste fase de sua vida, lemos no seu diário a pergunta: "Dize-me Leão Tolstoi, vives segundo os princípios de tua doutrina?" e, logo a seguir a resposta amargurada: "Não. Morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo". Diz Zweig, que Tolstói apenas pressente a aproximação da morte, este velhinho de oitenta e tres anos foge de casa, à noite, para morrer, solitário e decepcionado pelas suas mais sagradas aspirações, numa pequena estação de estrada de ferro. Assim morria o homem que, mais do que qualquer outro, contribuiu para, como diz Zweig, "radicalizar a Rússia quanto o radicalismo intelectual de Tolstói; nenhum encorajou tanto seus compatriotas a não recuar diante de nenhuma ousadia.

        A despeito de sua oposição interior - prossegue Zweig -, merece Tolstói um monumento na Praça Vermelha. Assim como Rousseau é o precurssor da Revolução Francesa, Tolstói (sem dúvida, tanto quanto esta individualidade intemperante, contra sua vontade) foi o precursor, o verdadeiro predecessor da revolução russa, da revolução mundial. Todo homem de Estado, todo sociólogo, descobrirá, na sua crítica aprofundada da nossa época, visões profética, todo artista se sentirá entusiasmado pelo exemplo deste poeta poderoso que torturou sua alma por querer por todos e combater, pela força de sua palavra, a injustiça da terra.

        É sempre uma grande alegria poder sentir que um artista - diz mais Zweig - é ao mesmo tempo um exemplo moral, um homem que, em vez de reinar pela própria glória, se fez servidor da humanidade e que, no esforço para descobrir a verdadeira ética, repele todas as autoridades terrenas e se submete a uma: à própria incorruptível consciencia".

        Encerro este trabalho sobre Liev Tolstói, com a transcrição da anotação de um trecho de seu diário, feita em 1900:

        " Nós, as classes ricas, arruinamos os operários, nós os obrigamos a um trabalho rude e incessante, enquanto desfrutamos luxo e lazer. Nós não permitimos que eles, esmagados pelo trabalho, tenham a possibilidade de criar o florescer espiritual, o fruto espiritual da existencia: nem poesia, nem ciencia, nem religião. Nós procuramos dar-lhes tudo isto e damos-lhes uma falsa poesia - 'para que partiste para o Cáucaso destruidor?', etc., uma falsa ciencia – jurisprudencia, darwinismo, filosofia, história dos czares, uma falsa religião- a igreja oficial. Que pecado terrível. Se nós não os sugássemos até o fundo, eles fariam aparecer a poesia, a ciencia, a doutrina sobre a vida". 


        Liev Nikolaievich Tolstói nasceu em 09 de setembro de 1828, em Yasnaya Polyana, Rússia, e morreu em 20 de novembro de 1910, em Astapovo, Rússia. 

        Embora muito ainda se tenha para escrever sobre o escritor russo e sobre sua obra, encerro aqui este trabalho sobre Tolstói. Para acessar a primeira parte deste trabalho, basta clicar em: LIEV TOLSTÓIParte I.



REFERENCIAS:
ZWIG. Stefan. Tolstoi. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961.
SCHNAIDERMAN, Boris. Leão Tolstói. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

     
                                                                   
                                                                  *  *  *  *  *  *



1 de mai de 2010

CARTAS: José Verissímo a Machado de Assis





por Pedro Luso de Carvalho



José Veríssimo, como se tornou conhecido no âmbito da literatura, foi registrado com o nome de José Veríssimo Dias de Matos. Nasceu em 8 de abril de 1857, na Colônia Militar, perto de Óbidos, na província do Pará, onde seu pai era médico; morreu no Rio de Janeiro, em 2 de fevereiro de 1916.


Aos doze anos, Veríssimo ingressa no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde inicia seus estudos preparatórios; em 1871 estuda na Escola Central, depois na Politécnica, no curso de engenharia, até 1876, quando abandona os estudos por encontrar-se doente; então volta a ao Pará, e passsa a residir em Belém, sua capital. Passa a escrever no jornal O liberal, e ingressa, como funcionário público, na Companhia de Navegação do Amazonas.


A sua primeira publicação foi Primeiras páginas, em 1878, com os seus escritos jornalísticos reunidos, com temas históricos e críticos, na sua maioria sobre a região do amazônica. Em 1879, funda jornal Gazeta do norte; no ano seguinte vai à Lisboa para participar do congresso internacional, onde apresenta um trabalho sobre o movimento intelectual do Brasil.


Em 1891, Veríssimo muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa a lecionar e a exercer o cargo de direitor da Escola Normal, que mais tarde teria o seu nome mudado para Colégio Pedro II. Passa a escrever no Jornal do Brasil recém criado, onde alguns de seu artigos são reunidos em Estudos brasileiros, segunda série. Funda e dirige a Revista Brasileira, em cujo local reuniam-se importantes intelectuais, e onde discutiam a formação da Academia Brasileira de Letras, à qual pertenceu.


José Veríssimo escreveu contos regionalistas e foi um dos mais importantes críticos da literatura do final do século 19 e início do 20; intelectual dotado de autoridade moral, equilibrado e justo quando era levado a apreciar as obras dos escritores contemporâneos seus. Amigo de Machado de assis, com ela matém correspondência – segue uma das cartas que escreveu ao autor de Dom Casmurro – mais adiante, a resposta de Machado a Veríssimo; em ambas as cartas os Veríssimo e Machado fazem menção ao romance Canaã, escrito por Graça Aranha ( S.Luis, MA, 1868 - Rio de Janeiro, 1931), escritor e diplomata; espírito de vanguarda, associou-se à Semana da Arte Moderna e rompeu ruidosamento com a Academia Brasileira de Letras, em sessão memorável, em 1924, da qual sai carregado aos ombros pelos jovens:


Meu caro Machado, - Estive meio zangado com você; fiz ontem anos, os ominosos 45 anos, e v. não me felicitou. Escrevi-lhe um dias destes pedindo-lhe uns números do Temps que me faltaram. Não me são mais preciosos, pois os recebi depois - você deve ter recebido hoje o Canaã, em edição especial, do nosso querido Aranha. Ele mo anunciou em carta na qual me diz que dessa edição só mandou para cá 2 exemplares. Pede-me também que não divulguemos o livro antes dele ser aqui posto à venda, segundo pediu-lhe o editor. Diz-me que só comunique as minhas impressões a v. - o que eu aliás já tinha feito. - Você verá que o livro é soberbo, e vingativo dos que, como nós, não podíamos aturar os “novos”, não por serem “novos”, mas por não terem talento. Estou certo que a sua glória assentada sorrirá benévolo a este sucessor que lhe chega – o único digno do glorioso avô das nossas letras contemporâneas. Espero que não lhe faltará a sua bênção alentadora, inestimável prêmio deste primeiro e já vitorioso feito do nosso cavaleiro. Quem o armaria com mais competência? - Seu de todo o coração – J. Veríssimo.


Rio, 21 de abril 1902. (Machado responde a Veríssimo.)
Meu caro J. Verríssimo, - Recebi sábado o seu recado, e respondo que sim que estou zangado com você, como você esteve comigo. A sua zanga veio de o não haver felicitado pelos 45 anos, a minha vem de os ter feito sem me propor antes uma troca. E a aceitaria de muito boa vontade. - Já recebi e já li Canaã; é realmente um livro soberbo e uma estréia de mestre. Tem idéias, verdade e poesia; paira alto. Os caracteres são originais e firmes, as descrições admiráveis. Em particular, - de viva voz, quero dizer, - falaremos longamente. Vou escrever ao nosso querido Aranha. Na carta em que ele me anunciou o livro, lembra-me aquela “nossa trindade indissolúvel...”. O vento dispersou-nos. - Esta semana, no primeiro dia de despacho, sairei mais cedo e irei buscá-lo ao Garnier. Espero ler a sua análise de Canaã. A propósito, quem será o autor do artigo que saiu hoje no Jornal do comércio? - Adeus, até amanhã ou depois. Já nos vemos poucas vezes. Adeus daquele que já fez 45 anos (bela idade!). - M. de Assis.
P.S. - Abro a carta, hoje 22, para lhe apertar a mão pelo artigo – apoteose de Victor Hugo. - M. de A.



REFERÊNCIAS:
LINS, Álvaro e Aurélio Buarque de Hollanda. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966, vol 2, págs. 150-151, 237-238.
HOUAISS, Antônio. Koogan Larousse. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de janeiro: Editora Koogan Larousse do Brasil, 1979, p. 951.

11 de abr de 2010

QUEM FOI LENIN? - Quarta Parte





por Pedro Luso de Carvalho



Em Quem foi Lenin – Terceira Parte, descrevi fatos relacionados com a vida que o casal levava no exílio, em Genebra, que antecederam à sua volta Rússia. Neste texto pretendo abordar fatos ligados ao seu retorno à pátria, em 16 de abril de 1917, quando Lenin e Krupskaia, sua mulher, tomaram um trem que, através da Alemanha levou-os à Suécia e depois à Russia, juntamente com trinta e dois outros revolucionários. Na estação de Petrogrado foram recebidos com flores, refletores, discursos e bandeiras, recepção que desgradou Lenin, por estar a revolução apenas no começo, e já havia deomonstrações de falsas aparências burguesas.


As autoridades que alí estavam para recepcão, foram ignoradas; Lenin, dirigiu-se diretamente aos soldados e operários, para incitá-los a acabar com a revolução operária. A multidão que o aplaudia escolta Lenin, no carro blindado em que se encontra, até o quartel-general dos bolchevistas, intalado no palácio que fora de Ksesinskaia, uma bailarina que fora amante de Nicolau II. Aí Lenin iniciou uma batalha que, em seis meses, o levou a chefe de Estado.


Referindo-se à chegada do líder do seu exílio, escreve Christopher Hill (Lenin), que: “No dia de sua chegada a Petrogrado, o Ministro das Relações Exteriores recebeu da Embaixada Britânica um memorando no qual Lenin era citado como homem extremamente perigoso e excelente organizador, que muito provavelmente haveria de encontrar numerosos adeptos na capital russa”.

A História registra que Lenin foi o teório organizador e líder da revolta. No entanto, sua figura não era familiar ao Soviete (menchevistas), por ter andado escondido durante os meses imediatamente anteriores à revolução; não apenas por isso, mas também porque preferia deixar o Soviete entregue a seus camaradas, que se distinguiam pela oratória.


Mas, na manhã de 8 de novembro de 1917, Lenin dirigiu-se ao Soviete de Petrogrado, para o trabalho que tinha que ser feito. Foi recebido com aplauso de camaradas entusiasmados, que, a um sinal seu, cessaram com o aplauso; Lenin foi direto ao assunto: “A revolução dos operários e camponeses, cuja necessidade urgente sempre foi proclamada pelos bolcheviques está nas ruas... Esta terceira revolução, em suas últimas consequências, tem de levar à vitória do socialismo”.


Após às teses de abril, a nova linha estatégica de Lenin, que seria adotada pelo partido, com os conselhos de deputados do povo, com todos os poderes numa República dos Sovietes, os bolchevistas conquistaram a maioria dos Sovietes e deram continuação ao novo programa: suprimir a polícia, o exército e o corpo de funcionários; confiscar todos os bens dos proprietários rurais; nacionalizar todas as terras; fundir todos os bancos num único banco nacional, controlado pelos trabalhadores. Aí estava, dizia Lenin, o primeiro passo para uma nova ordem.


Cumpre não esquecer que em 1917 ainda estava em curso a Primeira Guerra Mundial, na qual a Rússia integrava-a, por ter assinado o tratado da Triple Entente como um dos aliados contra a Alemanha. Por isso, as teses de abril tinha com um dos seus pontos a proposta de paz com a Alemanha, que causou reações contundentes por partes de todos que eram favoráveis ao prosseguimento da guerra ao lado dos aliados, sentimento que os leva a desencadear forte campanha difamatória contra Lenin.

As relações do líder com governo alemão, foram o alvo preferido pela imprensa liberal (Lenin voltou à Rússia depois de ter atravessado todo o território alemão, até a Suécia, com o seu país em guerra contra a Alemanha, sem ser molestado pelos alemães). Sobre o fato de Lenin ter atravessado a Alemanha, em 1917, com este país em guerra (Primeira Guerra Mundial) contra os aliados, o jornal italiano A Tribuna, assim se manifestou, em 29.04.1917:


“Lenin disse que foi obrigado a passar pela Alemanha porque a França não lhe permitiu transitar pelo país. Entretanto uma autoridade diplomática francesa noticiou que o Sr. Lenin jamais sonhou em pedir um sal-conduto para o território francês”.


No mês de abril de 1917 Lenin econtra-se isolado, mas isso não significaria que fosse perdurar tal isolamento; o tempo e os fatos fariam mudar essa situação: a burguesia e o proletariado não mais poderiam permanecer unidos pelo ódio contra a autocracia, de um lado, e, de outro lado, o soldado russo encontrava-se em mortal cansaço, e recusava-se a continuar combatendo no primeiro conflito mundial. Então o partido bolchevista logo tiraria vantagens importantes por ser o único partido qua havia se colacado ao lado do proletariado e contra a burguesia; mais ainda: era o único partido que queria a paz com a Alemanha.


Em futura postagem, continuaremos a contar um pouco mais da história de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin. Para ler o primeiro texto, clique em QUEM FOI LENIN ? - PRIMEIRA PARTE.




REFERÊNCIAS:
WALTER, Gerard. Lenin. Paris: Edições Albin Michel, 1971.
PALTRINIERE, Marisa. Lenin. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1975.
FOTIEVA, L. Lenin. Trad. de Zuleika Alambert. São Paulo: Editora Fulgor, 1963.
HILL, Christofher. Lenin e a Revolução Russa. Trad. De Geir Campos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1963.


29 de mar de 2010

RADUAN NASSAR / Um Clássico Moderno




por Pedro uso de Carvalho


Raduan Nassar nasceu em 1935, na cidade de Pindorama, SP, onde passou sua infância. Seus pais, imigrantes libaneses, mudaram-se com a família, ainda na adolescência de Raduan, para a capital paulista, onde cursou direito e filosofia na USP. Também exerceu o jornalismo como diretor de um pequeno jornal da capital, Jornal do Bairro. Estreiou na literatura em 1975, com o romance Lavoura arcaica. Três anos depois, 1978, publica a novela Um copo de cólera, obra que foi escrita em 1970. Logo depois dessa edição, Raduan abandona a literatura.


A Companhia Das Letras publicou em 2003, Lavoura arcaica, em sua 3ª edição, 18ª reimpressão. Sobre Lavoura arcaica; por ocasião do seu lançamento, em 1975, assim se manifestou disse Alfredo Bosi: “uma revelação, dessas que marcam a história da nossa prosa narrativa”. Como disse Octávio Lanni: "Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim.”


Quanto à novela Um copo de cólera, que, como vimos, foi publicada em 1978, e depois editada pela Companhia das Letras, em 2002, em sua 5ª edição, 12ª reimpressão. A história, contada pelo autor de forma singular - a segunda obra clássica de Raduan Nassar -, comprova a sua genialidade pela densidade e pela atmosfera de sua linguagem, que dá à novela. A crítica a considera uma das mais importantes narrativas de nossa literatura moderna. Depois de publicar Um copo de cólera, Raduan Nassar desiste de escrever e passa a dedicar-se à atividade rural.


Mais tarde, cerca de vinte anos, aparece o seu livro Menina a caminho; são contos reunidos de Raduan, escritos nos anos 60 e 70, e que somente em 1997 foram publicados. Essa excelente obra, Menina a caminho (que é o título do primeiro conto do livro, e foi a primeira obra de ficção de Raduan), teve a sua 2ª edição (3ª reimpressão) pela Companhia das Letras, em 2002. Os contos, que compõem o livro, 83 págs., são: Menina a caminho, 'Hoje de madrugada, O vento seco, Aí pelas três da tarde e Mãozinhas de seda. Depois da leitura desses contos, a sensação que sentimos é a de que faremos uma releitura do livro, não para fazermos alguma apreciação crítica, mas, simplesmente, para sentirmos de novo o prazer que essas histórias nos proporcionaram.


Quanto ao fato de Raduan Nassar ter deixado de escrever, ainda tão jovem, e depois de ter publicado com sucesso um romance e uma novela, obras que deram novo fôlego à literatura brasileira – dois livros ontológicos - muitas perguntas tem sido feitas por escritores, leitores e críticos literários, ao longo dos anos, sobre os motivos que levaram Raduan a deixar de escrever. O próprio Raduan nunca chegou a esclarecer de forma convincente por que tomara essa decisão. Aliás, ele diz não saber como tudo terminou.


Por tudo o que dissemos, acho oportuno abordarmos a entrevista (rara) concedida pelo escritor à revista CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, número 2, setembro de 1996 (na época dessa entrevista, fazia doze anos que Raduan havia deixado de escrever). É interessante dizer que a matéria desse número 2, da revista, foi integralmente dedicada a Raduan Nassar, na qual está incluida a intrevista com o escritor, que CADERNOS dá o título de Conversa, cuja introdução (parte ) é a seguinte:


“Para Raduan Nassar, o capítulo menos atraente da literatura sempre foi o do burburinho literário – noites de autógrafos, debates, assédio da imprensa. Resultado: ele jamais admitiu autografar suas obras em festas de lançamento, não hesitou em comparecer a um encontro de escritores na França só para dizer à platéia que nada tinha a declarar e descobriu um modo educado de falar aos jornalistas que pode recebê-los, sim, a qualquer hora, desde que a conversa não gire em torno de literatura ou tema afins. Não é de estranhar, portanto, que sejam raras as entrevistas dadas por Raduan.”


Como é nossa intenção transcrever apenas um pequeno trecho da entrevista, de forma aleatória, principalmente no que diz respeito à renúncia de Raduan em escrever, vamos à primeira pergunta de "CADERNOS DA LITERATURA BRASILEIRA: O que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever? Raduan Nassar: Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei”.


Pergunta de “CADERNOS: Qual era, no início, o seu projeto literário? Raduan: O projeto era escrever, não ia além disso. Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também. Achava que isso bastava.”


Pergunta de “José Paulo Paes (da revista): Em entrevistas, você tem manifestado um relativismo radical em matéria de valores a ponto de dizer que não há criação artística ou literária que se compare a uma criação de galinhas. Esse relativismo estaria ligado à sua condição de ex-estudante de filosofia, ou representaria a destilação de uma experiência de vida? Ou um traço de seu temperamento? Raduan: Acho que tem um pouco de cada coisa, mas desconfio que tenha mais do meu temperamento, ou precisamente da minha falta de temperança. Se eu fosse um sujeito equilibrado, eu não teria tido a liberdade de fazer aquela afirmação. Só desequilibrados é que descobrem que este mundo não tem importância. O bom senso seria uma prisão.”


A revista pergunta, por “Octávio Lanni: Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim. A busca da realização, emancipação ou redenção é muito mais o caminho da danação. Você concorda com essa leitura? Raduan: Estou mais é sendo informado dessa sua leitura. Se o Lavoura passa a idéia de que a vida humana é uma danação sem fim, nesse caso a narrativa não é de se jogar fora. Só que essa danação poderia acontecer no âmbito de uma família patriarcal, em crise ou não. Seja como for, talvez a gente concorde nisso: nenhum grupo, familiar ou social, se organiza sem valores; como de resto, não há valores que não gerem excluídos. Na brecha larga desse desajuste é que o capeta deita e rola.”


Pergunta de “CADERNOS: Por que essa atitude de recusa radical em relação à teorias literárias? Você acredita que um autor possa dispensá-las? Raduan: Suponho que exista em toda obra uma teoria subjacente do autor, podendo ser apreendida pelos que eventualmente se interessem por ela. Mas quando um escritor faz a exposição da sua teoria, para suprir de significados uma poética que não consegue falar por ela mesma, acontece aí um evidente deajuste. A poética pretende ser revolucionária por desestruturar a linguagem convencional, só que seu autor, para explicá-la, acaba se socorrendo da mesma linguagem que usamos para pedir um copo d'água, o que é o fim da picada. Ou então a teoria tem cumulativamente caráter programático com o claro objetivo de arregimentar seguidores. Mas, nesse caso, o miolo da questão é outro. Seria mais sensato então que esse escritor fundasse um partido político. Sem rodeios.”


Pergunta de “CADERNOS: Mas as teorias não poderiam estar propondo inovações? Raduan: Acho que um texto efetivamente inovador, como tantos na história, pode acontecer sem alarde. Lima Barreto, que foi vítima de uma assassinato cultural em vida, como já disseram, reduzido que foi ao silêncio quase absoluto, desencadeou mudanças na linguagem narrativa antes de 22. Aliás, a melhor literatura brasileira não tem sido produzida aqui neste Estado, por que São Paulo faz tanto barulho.”
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Por fim, esta pergunta: “CADERNOS: Atualmente suas peocupações são outras. O tempo se encarregou de dispersar seu grupo de amigos e você acabou trocando a literatura pela atividade rural. Como é sua vida hoje? Raduan: Hoje minha vida é fazer no âmbito da fazenda evidentemente, num espaço em constante transformação, o que não deixa de ser uma outra forma de escrever. Além disso, tem em comum com a literatura o fato de eu não saber por quê. Então, é fazer, fazer, fazer.”


Assim terminamos a transcrição de apenas sete perguntas/respostas do total de setenta, que integram a entrevista. Por fim fazemos duas recomencações a quem possa ler esta matéria: primeira, leiam a obra desse extraordinário escritor, que é Raduan Nassar: Lavoura arcaica (romance), Um copo de cólera (novela), Menina a caminho (contos); segunda recomendação: procurem ler CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, núnero 2, setembro de 1996, de onde extraimos trechos da referida entrevista, que compõem parte deste texto (o problema será encontrar a revista; mas vale a pena tentar).




REFERÊNCIA:
DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Cadernos de Literatura Brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, nº 2, setembro de 1996.

23 de mar de 2010

A MÚSICA ERUDITA DE BRAHMS




por Pedro Luso de Carvalho


Johannes Brahms, o terceiro filho do casal Johann Jakob Brahms e de Johanna Henrika, nasceu no dia 7 de maio de 1833. O pai do menino Johannes, que tocava contrabaixo na orquestra filamônica da cidade, percebendo o talento musical do filho deu-lhe as primeiras aulas de música; aos oito anos, passou a estudar piano com Otto Franz Cossel – o pai espera que, com o tempo, o menino se torne um virtuose desse instrumento.


Johannes queria dedicar-se à composição, além do piano, mas foi impedido pelo pai e pelo mestre Cossel; o piano exigia muita dedicação do aluno. Johann Jakob queria que o filho viesse ganhar dinheiro como pianista, e, para isso, queria que aprendesse a conviver com os rigores e o empenho que a profissão de músico exigia; e, para tanto, levou-o a tocar em bailes e em concertos populares.


Aos dez anos, Johannes havia avançado muito na educação musical, fato que levou o professor Cossel a aconselhar ao Sr. Brahmes a encaminhá-lo a um professor mais experirente. Johannes passou a estudar harmonia e composição, além do piano, com o conceituado músico erudito Eduard Marxsen. O mestre exigiu dele forte disciplina, ensinou-lhe o valor do estudo metodizado, e o essencial da música: o interior, que se opõe à exterioridade supérflua.


Já adolescente, por volta de 1845, Johannes Brahmes tocou em tavernas, em festas, fez orquestração para bandas e lecionou. Aos quinze anos, deu o seu primeiro recital, em Hamburgo, no qual obteve grande sucesso. Num outro recital, em 1849, Brahms apresentou peças de Beethoven, Bach e Mendelssohn. Marxsen, no entanto, impediu que o jovem Brahms fazesse novos recitais, para que seus estudos fossem concluídos com êxito, como ocorreu em 1852.


No ano de 1853, Brahms chegou a Düsseldorf, onde conheceu o compositor Robert Schumann e sua esposa Clara Schumann, exímia pianista. Clara passou a ser a sua melhor amiga, que o acompanhou na sua trajetória até a celebridade. Robert Schumann contibuiu muito para o êxito que viria alcançar, bem como anteviu a celebridade de Brahms. Depois que Robert Schumann faleceu, em 1857, o jovem Brahms passou a dedicar grande parte de seu tempo à viúva e a seus filhos.
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Na correspondência que manteve com Clara Schumann, Brahms externou-lhe a sua admiração, e possivelmente pensou em casar-se com ela; mas, em lugar dessa união, solidificou-se uma profunda e duradoura amizade entre ambos. (Boatos existiam sobre esse relacionamente entre Brahms e Clara.) Clara Schumann esteve sempre presente na vida de Brahms; sempre que o compositor precisava buscar alívio para os seus sofrimentos, ia para junto de Clara.

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No ano de 1859 Brahms dedicou-se, por pouco tempo, aos corais em Hamburgo e Detmold, alternando-se na direção de um e outro. Dessa data até 1862 concentrou-se na composição e edição de novos trabalhos. No final desse ano, mudou-se para Viena, onde era cultuada a música antiga, que lhe convinha, porque estava bem afastada da “música do futuro”, que era representada pelas óperas de Wagner, que dominavam a Alemanha. O primeiro recital de Brahms, na capital austríaca, deu-se com êxito, em 1863, no qual apresentou os seus lieder. Aí, assumiu a Diretoria da “Academia do Canto” da cidade.

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Todo entusiasmo de Brahms, com o êxito obtido em Viena, sofreu um forte abalo com a notícia que recebeu da Alemanha sobre a morte de sua mãe. A depressão que lhe acometeu levou-o a abandonar os trabalhos iniciados, os contratos de aulas e as excursões programadas. Então, refugiou-se na amizade de Clara Schumann, na cidade de Baden-Baden, onde residia a pianista. Mais tarde, em 1872, Brahms retornou a Baden-Baden para, junto de Clara, consolar-se pela morte de seu pai.


Por volta de 1874, Brahms sentiu-se cansado pela seqüência contínua de composições, pelas excursões, pelos concertos e pelo tumulto em decorrência de sua fama. Então, procurou uma casa nos arredores de Zurique, para escrever uma sinfonia que tinha em mente – precisa de tempo e sossego para concluir seu projeto, pois tinha grande respeito por esse gênero da música erudita. Mas, desenvolveu a sinfonia em outra casa, em Heidelberg; e somente conseguiu concluí-la junto de Clara Schumann, em Baden-Baden, onde oncontrava a verdadeira paz. (No ano de 1876, sua Primeira Sinfonia estreiou com grande sucesso, em Karlsruhe.)


Com sua Segunda Sinfonia, ocorreu fato semelhante à primeira: Brahms iniciou-a em Portscharch, na Áutria, mas a sua conclusão deu-se perto de Clara Schumann, na pequena cidade de Lichtental, próxima de Baden-Baden. A Segunda Sinfonia consagrou definitivamente o gênio de músico de Brahms, na sua estréia, em 1877, pela Filarmônica de Viena. A Terceira Sinfonia foi concluída em Wiesbaden, Alemanha, durante o verão de 1883; com ela, Brahms solidificou o seu prestígio como sinfonista, e foi apludido até pelos adeptos Wagner e de Brukner. A Quarta Sinfonia foi iniciada no ano seguinte, e foi concluída após dois anos de trabalho; essa sinfonia tornou-se peça do repertório das orquestras europeias mais importantes.


Os músicos predilétos de Brahms eram Dvorák e Grieg. Músicas de outros compositores, gostava apenas de algumas peças de Bizet, Massenet e Saint-Säens. Quando era levado a falar sobre a música de Brukner, dizia com a franqueza que o caracterizava: “É um mistificador, que sofre da doença sinfônica e compõe sinfonias baseadas num blefe”. Sobre as novas figuras e inovações das correntes musicais modernas, Brahms dizia que sempre procurou melhorar sobre os alicerces do passado.
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Johannes Brahms continuava compondo, tocando e regendo. Recebe inúmeros títulos honoríficos. Marie Schumann, filha de Clara, escreveu-lhe, em 1896, para comunicar a doença da mãe, que inspirava cuidados; Brahms ficou prostrado com a notícia. Em maio desse ano, o compositor encontrava-se em Ischl, tratando de sua sáude, quando recebeu a comunicação da morte de Clara Schumann; imediatamente, viajou para Bonn, para vê-la pela última vez, antes que fosse sepultada.


A morte de Clara Schumann abalou a saúde de Brahms. Os médicos do compositor não lhe disseram que ele estava com câncer no fígado; assim, coninuou a freqüentar teatros, concertos e festas, até que suas energias ficaram esgotadas. No dia 3 de abril de 1897, Joahnnes Brahms morreu, deixando uma obra imortal, como legado à humanidade, com seus lieder, sua música de câmara, obras para piano, suas quatro sinfonias, aberturas, concertos, o seu Réquiem Alemão, e o seu Concerto Duplo para Violino e Violoncelo.




REFERÊNCIAS:
SOLÉ, Julian Viñuales. Os GranDes Mestres da Música Clássica. Edições Folio, Barcelona, Espanha, 1997, págs. 31-36.
THOMAS, Henry e Dana Lee. Vidas de Grandes Compositores. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.

14 de mar de 2010

ÉMILE ZOLA – Parte Final





por Pedro Luso de Carvalho
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Depois que Émile foi resprovado no exame vestibular que prestou na Sobernne, em novembro de 1859, faz nova tentativa, agora em Marselha, e, pela segunda vez, é reprovado, tendo como conseqüência a perda da bolsa que havia conseguido para os estudos jurídicos. Aos vinte anos, já de volta a Paris, escreve a Cézanne para confessar a sua insatisfação por estar vivendo às custas da família, que se encontra em péssima situação financeira.


Ao atingir a maioridade, Émile resolve pedir a nacionalidade francesa, já que era considerado estrangeiro, por ser filho de pai italiano, embora filho de mãe francesa, e de ele próprio ter nascido em Paris. Por essa época, morre o seu avô Aubert, que vivia com a filha Emilie, sua mãe . No final 1861, Zola começa a trabalhar na livraria Hachette, por indicação de um membro da Academica de medicina, amigo da família. Émile então é encarregado de entregar o cartão de visita da livraria a varios destinatários - uma espécie de office-boy. Mais tarde, passa para o serviço de publicidade.


Émile mostra suas poesias para seu patrão, que as acha boas. Este pondera que o grande público é mais receptivo à prosa, e que, com ela, um grande futuro o espera, desde que esqueça os versos. Émile Zola escreve, então, um conto com o título de 'Le Baiser', que foi publicado por La Revue du mois; esse mesmo conto foi aceito também por La Nouvelle Revue de Paris, que o publicou, mais tarde. Com essas publicações de Le Baiser, nasce o escritor Zola.


Na livraria Hachette, Zola torna-se chefe do serviço de publicidade, e passa a viver profundamente a vida literária de Paris. É procurado por muitos escritores conhecidos na livraria, para ouvir dele aconselhamentos, bem como para saber o número de vendagem de seus livros e ouvir conselhos técnicos. Zola aprende com eles os segredos da profissão de escritor. Zola sabe que o escritor só escreverá bons livros com muita dedicação, como sabe da importância de ser bem remunerado por suas obras.

A todos, no entanto, Zola trata com certa distância; os seus únicos amigos são apenas os três de Aix: Cézanne, Baille e Marguery. (Cèzanne tem planos para entrar nas Belas Artes, e faz o exame para admissão, mas é reprovado no concurso. Em 1863 Cézanne propõe expor suas obras no Salão, mas é recusado, como também foram recusados, com ele, Pissarro, Claude Monet e Édouard Manet – nos tempos de Napoleão III, a burguesia não permitia que mudassem seus hábitos intocáveis.) Em Paris, Zola é introduzido nos ateliês por Cézzane. Conhece os pintores de vangarda citados e mais: Degas, Renoir e Fantin-Latour.


Émile Zola reune várias narrativas curtas para compor o seu primeiro livro, que seria publicado novembro de 1864. O seu livro de contos é bem recebido pelo público e pelos jornalistas. Essa edição abre-lhe as portas para escrever artigos e novelas para Petit Jounal , entre outros. Depois publica o romance autobiográfico La Confission de Claude; os críticos estão dividido entre os que gostam da obra e os que a acham injuriosa. O livro não foi um sucesso, mas Zola acredita que um grande público ainda vai aclamá-lo ou odiá-lo.


Com a morte de seu protetor, Louis Hachette, os novos diretores não são receptivos aos escritores de vanguarda, e Zola, escritor audacioso, necessita de liberdade para as suas obras. A publicação que fez de versos seus num jornal de esquerda (Le Travail - Clemenceau é o como diretor) chamou a atenção da polícia, que passou a vigiá-lo no escritório da livraria e na sua residência.


Émile Zola agora é um escritor profissional. Muda-se para um apartamento na rua de l'École-de-Médicine, onde passa a viver com a sua amante Alexandrine Meley, companheira dedicada, que se preocupa com seu trabalho e com sua saúde. Aí , reúne a cada quinta-feira, os companheiros Cézanne, Baille, Solari, Pajor e Pissarro. Tomam vinho, discutem arte e literatura. Zola sente-se seguro como escritor e está seguro de que ganhará dinheiro nessa profissão. Sem dúvida, o futuro o aguardava como um grande escritor, e também um combativo jornalista.


Émile Zola Escreveu, além das obras já mencionadas: A Confissão de Claude, O Desejo de uma Morta, Teresa Raquim, Os Rougon-Macquart, A Fortuna dos Rougon, Naná, Germinal (para muitos, sua obra-prima), A Besta Humana, A Taberna e Doutor Pascal, Os Quatros Evangelhos , Eu Acuso .


Com esta terceira postagem, encerro a trilogia sobre Émile Zola. Pretendo aguardar alguns meses para, novamente, escrever sobre Zola; dessa vez, fazendo uma abordagem sobre o seu famoso libelo Eu Acuso, escrito em 1898, em defesa de Alfred Dreyfus, oficial francês que, sem provas, foi acusado de espionagem, devido ao fato de ser judeu; depois foi julgado e condenado injustamente pelo crime que, ardilosamente, lhe foi imputado.


Émile Édouard Charles Antoine Zola nasceu no dia 2 de abril de 1840, em Paris, França. Em Aix-en-Provence, como vimos na primeira postagem, passou a maior parte de sua infância; e aí também, recebeu a maior parte de sua educação formal. Aix e Paris foram as cidades mais importantes para o escritor. Zola morreu em Paris, em 28 de setembro de 1902.
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(Para ler a postagens anteriores, clique em ÉMILE ZOLAPARTE I, ou PARTE - II. )


REFERÊNCIAS:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.