29 de mar de 2010

RADUAN NASSAR / Um Clássico Moderno




por Pedro uso de Carvalho


Raduan Nassar nasceu em 1935, na cidade de Pindorama, SP, onde passou sua infância. Seus pais, imigrantes libaneses, mudaram-se com a família, ainda na adolescência de Raduan, para a capital paulista, onde cursou direito e filosofia na USP. Também exerceu o jornalismo como diretor de um pequeno jornal da capital, Jornal do Bairro. Estreiou na literatura em 1975, com o romance Lavoura arcaica. Três anos depois, 1978, publica a novela Um copo de cólera, obra que foi escrita em 1970. Logo depois dessa edição, Raduan abandona a literatura.


A Companhia Das Letras publicou em 2003, Lavoura arcaica, em sua 3ª edição, 18ª reimpressão. Sobre Lavoura arcaica; por ocasião do seu lançamento, em 1975, assim se manifestou disse Alfredo Bosi: “uma revelação, dessas que marcam a história da nossa prosa narrativa”. Como disse Octávio Lanni: "Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim.”


Quanto à novela Um copo de cólera, que, como vimos, foi publicada em 1978, e depois editada pela Companhia das Letras, em 2002, em sua 5ª edição, 12ª reimpressão. A história, contada pelo autor de forma singular - a segunda obra clássica de Raduan Nassar -, comprova a sua genialidade pela densidade e pela atmosfera de sua linguagem, que dá à novela. A crítica a considera uma das mais importantes narrativas de nossa literatura moderna. Depois de publicar Um copo de cólera, Raduan Nassar desiste de escrever e passa a dedicar-se à atividade rural.


Mais tarde, cerca de vinte anos, aparece o seu livro Menina a caminho; são contos reunidos de Raduan, escritos nos anos 60 e 70, e que somente em 1997 foram publicados. Essa excelente obra, Menina a caminho (que é o título do primeiro conto do livro, e foi a primeira obra de ficção de Raduan), teve a sua 2ª edição (3ª reimpressão) pela Companhia das Letras, em 2002. Os contos, que compõem o livro, 83 págs., são: Menina a caminho, 'Hoje de madrugada, O vento seco, Aí pelas três da tarde e Mãozinhas de seda. Depois da leitura desses contos, a sensação que sentimos é a de que faremos uma releitura do livro, não para fazermos alguma apreciação crítica, mas, simplesmente, para sentirmos de novo o prazer que essas histórias nos proporcionaram.


Quanto ao fato de Raduan Nassar ter deixado de escrever, ainda tão jovem, e depois de ter publicado com sucesso um romance e uma novela, obras que deram novo fôlego à literatura brasileira – dois livros ontológicos - muitas perguntas tem sido feitas por escritores, leitores e críticos literários, ao longo dos anos, sobre os motivos que levaram Raduan a deixar de escrever. O próprio Raduan nunca chegou a esclarecer de forma convincente por que tomara essa decisão. Aliás, ele diz não saber como tudo terminou.


Por tudo o que dissemos, acho oportuno abordarmos a entrevista (rara) concedida pelo escritor à revista CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, número 2, setembro de 1996 (na época dessa entrevista, fazia doze anos que Raduan havia deixado de escrever). É interessante dizer que a matéria desse número 2, da revista, foi integralmente dedicada a Raduan Nassar, na qual está incluida a intrevista com o escritor, que CADERNOS dá o título de Conversa, cuja introdução (parte ) é a seguinte:


“Para Raduan Nassar, o capítulo menos atraente da literatura sempre foi o do burburinho literário – noites de autógrafos, debates, assédio da imprensa. Resultado: ele jamais admitiu autografar suas obras em festas de lançamento, não hesitou em comparecer a um encontro de escritores na França só para dizer à platéia que nada tinha a declarar e descobriu um modo educado de falar aos jornalistas que pode recebê-los, sim, a qualquer hora, desde que a conversa não gire em torno de literatura ou tema afins. Não é de estranhar, portanto, que sejam raras as entrevistas dadas por Raduan.”


Como é nossa intenção transcrever apenas um pequeno trecho da entrevista, de forma aleatória, principalmente no que diz respeito à renúncia de Raduan em escrever, vamos à primeira pergunta de "CADERNOS DA LITERATURA BRASILEIRA: O que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever? Raduan Nassar: Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei”.


Pergunta de “CADERNOS: Qual era, no início, o seu projeto literário? Raduan: O projeto era escrever, não ia além disso. Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também. Achava que isso bastava.”


Pergunta de “José Paulo Paes (da revista): Em entrevistas, você tem manifestado um relativismo radical em matéria de valores a ponto de dizer que não há criação artística ou literária que se compare a uma criação de galinhas. Esse relativismo estaria ligado à sua condição de ex-estudante de filosofia, ou representaria a destilação de uma experiência de vida? Ou um traço de seu temperamento? Raduan: Acho que tem um pouco de cada coisa, mas desconfio que tenha mais do meu temperamento, ou precisamente da minha falta de temperança. Se eu fosse um sujeito equilibrado, eu não teria tido a liberdade de fazer aquela afirmação. Só desequilibrados é que descobrem que este mundo não tem importância. O bom senso seria uma prisão.”


A revista pergunta, por “Octávio Lanni: Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim. A busca da realização, emancipação ou redenção é muito mais o caminho da danação. Você concorda com essa leitura? Raduan: Estou mais é sendo informado dessa sua leitura. Se o Lavoura passa a idéia de que a vida humana é uma danação sem fim, nesse caso a narrativa não é de se jogar fora. Só que essa danação poderia acontecer no âmbito de uma família patriarcal, em crise ou não. Seja como for, talvez a gente concorde nisso: nenhum grupo, familiar ou social, se organiza sem valores; como de resto, não há valores que não gerem excluídos. Na brecha larga desse desajuste é que o capeta deita e rola.”


Pergunta de “CADERNOS: Por que essa atitude de recusa radical em relação à teorias literárias? Você acredita que um autor possa dispensá-las? Raduan: Suponho que exista em toda obra uma teoria subjacente do autor, podendo ser apreendida pelos que eventualmente se interessem por ela. Mas quando um escritor faz a exposição da sua teoria, para suprir de significados uma poética que não consegue falar por ela mesma, acontece aí um evidente deajuste. A poética pretende ser revolucionária por desestruturar a linguagem convencional, só que seu autor, para explicá-la, acaba se socorrendo da mesma linguagem que usamos para pedir um copo d'água, o que é o fim da picada. Ou então a teoria tem cumulativamente caráter programático com o claro objetivo de arregimentar seguidores. Mas, nesse caso, o miolo da questão é outro. Seria mais sensato então que esse escritor fundasse um partido político. Sem rodeios.”


Pergunta de “CADERNOS: Mas as teorias não poderiam estar propondo inovações? Raduan: Acho que um texto efetivamente inovador, como tantos na história, pode acontecer sem alarde. Lima Barreto, que foi vítima de uma assassinato cultural em vida, como já disseram, reduzido que foi ao silêncio quase absoluto, desencadeou mudanças na linguagem narrativa antes de 22. Aliás, a melhor literatura brasileira não tem sido produzida aqui neste Estado, por que São Paulo faz tanto barulho.”
.
.
Por fim, esta pergunta: “CADERNOS: Atualmente suas peocupações são outras. O tempo se encarregou de dispersar seu grupo de amigos e você acabou trocando a literatura pela atividade rural. Como é sua vida hoje? Raduan: Hoje minha vida é fazer no âmbito da fazenda evidentemente, num espaço em constante transformação, o que não deixa de ser uma outra forma de escrever. Além disso, tem em comum com a literatura o fato de eu não saber por quê. Então, é fazer, fazer, fazer.”


Assim terminamos a transcrição de apenas sete perguntas/respostas do total de setenta, que integram a entrevista. Por fim fazemos duas recomencações a quem possa ler esta matéria: primeira, leiam a obra desse extraordinário escritor, que é Raduan Nassar: Lavoura arcaica (romance), Um copo de cólera (novela), Menina a caminho (contos); segunda recomendação: procurem ler CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, núnero 2, setembro de 1996, de onde extraimos trechos da referida entrevista, que compõem parte deste texto (o problema será encontrar a revista; mas vale a pena tentar).




REFERÊNCIA:
DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Cadernos de Literatura Brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, nº 2, setembro de 1996.

23 de mar de 2010

A MÚSICA ERUDITA DE BRAHMS




por Pedro Luso de Carvalho


Johannes Brahms, o terceiro filho do casal Johann Jakob Brahms e de Johanna Henrika, nasceu no dia 7 de maio de 1833. O pai do menino Johannes, que tocava contrabaixo na orquestra filamônica da cidade, percebendo o talento musical do filho deu-lhe as primeiras aulas de música; aos oito anos, passou a estudar piano com Otto Franz Cossel – o pai espera que, com o tempo, o menino se torne um virtuose desse instrumento.


Johannes queria dedicar-se à composição, além do piano, mas foi impedido pelo pai e pelo mestre Cossel; o piano exigia muita dedicação do aluno. Johann Jakob queria que o filho viesse ganhar dinheiro como pianista, e, para isso, queria que aprendesse a conviver com os rigores e o empenho que a profissão de músico exigia; e, para tanto, levou-o a tocar em bailes e em concertos populares.


Aos dez anos, Johannes havia avançado muito na educação musical, fato que levou o professor Cossel a aconselhar ao Sr. Brahmes a encaminhá-lo a um professor mais experirente. Johannes passou a estudar harmonia e composição, além do piano, com o conceituado músico erudito Eduard Marxsen. O mestre exigiu dele forte disciplina, ensinou-lhe o valor do estudo metodizado, e o essencial da música: o interior, que se opõe à exterioridade supérflua.


Já adolescente, por volta de 1845, Johannes Brahmes tocou em tavernas, em festas, fez orquestração para bandas e lecionou. Aos quinze anos, deu o seu primeiro recital, em Hamburgo, no qual obteve grande sucesso. Num outro recital, em 1849, Brahms apresentou peças de Beethoven, Bach e Mendelssohn. Marxsen, no entanto, impediu que o jovem Brahms fazesse novos recitais, para que seus estudos fossem concluídos com êxito, como ocorreu em 1852.


No ano de 1853, Brahms chegou a Düsseldorf, onde conheceu o compositor Robert Schumann e sua esposa Clara Schumann, exímia pianista. Clara passou a ser a sua melhor amiga, que o acompanhou na sua trajetória até a celebridade. Robert Schumann contibuiu muito para o êxito que viria alcançar, bem como anteviu a celebridade de Brahms. Depois que Robert Schumann faleceu, em 1857, o jovem Brahms passou a dedicar grande parte de seu tempo à viúva e a seus filhos.
.
.
Na correspondência que manteve com Clara Schumann, Brahms externou-lhe a sua admiração, e possivelmente pensou em casar-se com ela; mas, em lugar dessa união, solidificou-se uma profunda e duradoura amizade entre ambos. (Boatos existiam sobre esse relacionamente entre Brahms e Clara.) Clara Schumann esteve sempre presente na vida de Brahms; sempre que o compositor precisava buscar alívio para os seus sofrimentos, ia para junto de Clara.

.
.
No ano de 1859 Brahms dedicou-se, por pouco tempo, aos corais em Hamburgo e Detmold, alternando-se na direção de um e outro. Dessa data até 1862 concentrou-se na composição e edição de novos trabalhos. No final desse ano, mudou-se para Viena, onde era cultuada a música antiga, que lhe convinha, porque estava bem afastada da “música do futuro”, que era representada pelas óperas de Wagner, que dominavam a Alemanha. O primeiro recital de Brahms, na capital austríaca, deu-se com êxito, em 1863, no qual apresentou os seus lieder. Aí, assumiu a Diretoria da “Academia do Canto” da cidade.

.
Todo entusiasmo de Brahms, com o êxito obtido em Viena, sofreu um forte abalo com a notícia que recebeu da Alemanha sobre a morte de sua mãe. A depressão que lhe acometeu levou-o a abandonar os trabalhos iniciados, os contratos de aulas e as excursões programadas. Então, refugiou-se na amizade de Clara Schumann, na cidade de Baden-Baden, onde residia a pianista. Mais tarde, em 1872, Brahms retornou a Baden-Baden para, junto de Clara, consolar-se pela morte de seu pai.


Por volta de 1874, Brahms sentiu-se cansado pela seqüência contínua de composições, pelas excursões, pelos concertos e pelo tumulto em decorrência de sua fama. Então, procurou uma casa nos arredores de Zurique, para escrever uma sinfonia que tinha em mente – precisa de tempo e sossego para concluir seu projeto, pois tinha grande respeito por esse gênero da música erudita. Mas, desenvolveu a sinfonia em outra casa, em Heidelberg; e somente conseguiu concluí-la junto de Clara Schumann, em Baden-Baden, onde oncontrava a verdadeira paz. (No ano de 1876, sua Primeira Sinfonia estreiou com grande sucesso, em Karlsruhe.)


Com sua Segunda Sinfonia, ocorreu fato semelhante à primeira: Brahms iniciou-a em Portscharch, na Áutria, mas a sua conclusão deu-se perto de Clara Schumann, na pequena cidade de Lichtental, próxima de Baden-Baden. A Segunda Sinfonia consagrou definitivamente o gênio de músico de Brahms, na sua estréia, em 1877, pela Filarmônica de Viena. A Terceira Sinfonia foi concluída em Wiesbaden, Alemanha, durante o verão de 1883; com ela, Brahms solidificou o seu prestígio como sinfonista, e foi apludido até pelos adeptos Wagner e de Brukner. A Quarta Sinfonia foi iniciada no ano seguinte, e foi concluída após dois anos de trabalho; essa sinfonia tornou-se peça do repertório das orquestras europeias mais importantes.


Os músicos predilétos de Brahms eram Dvorák e Grieg. Músicas de outros compositores, gostava apenas de algumas peças de Bizet, Massenet e Saint-Säens. Quando era levado a falar sobre a música de Brukner, dizia com a franqueza que o caracterizava: “É um mistificador, que sofre da doença sinfônica e compõe sinfonias baseadas num blefe”. Sobre as novas figuras e inovações das correntes musicais modernas, Brahms dizia que sempre procurou melhorar sobre os alicerces do passado.
.
.
Johannes Brahms continuava compondo, tocando e regendo. Recebe inúmeros títulos honoríficos. Marie Schumann, filha de Clara, escreveu-lhe, em 1896, para comunicar a doença da mãe, que inspirava cuidados; Brahms ficou prostrado com a notícia. Em maio desse ano, o compositor encontrava-se em Ischl, tratando de sua sáude, quando recebeu a comunicação da morte de Clara Schumann; imediatamente, viajou para Bonn, para vê-la pela última vez, antes que fosse sepultada.


A morte de Clara Schumann abalou a saúde de Brahms. Os médicos do compositor não lhe disseram que ele estava com câncer no fígado; assim, coninuou a freqüentar teatros, concertos e festas, até que suas energias ficaram esgotadas. No dia 3 de abril de 1897, Joahnnes Brahms morreu, deixando uma obra imortal, como legado à humanidade, com seus lieder, sua música de câmara, obras para piano, suas quatro sinfonias, aberturas, concertos, o seu Réquiem Alemão, e o seu Concerto Duplo para Violino e Violoncelo.




REFERÊNCIAS:
SOLÉ, Julian Viñuales. Os GranDes Mestres da Música Clássica. Edições Folio, Barcelona, Espanha, 1997, págs. 31-36.
THOMAS, Henry e Dana Lee. Vidas de Grandes Compositores. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.

14 de mar de 2010

ÉMILE ZOLA – Parte Final





por Pedro Luso de Carvalho
.
Depois que Émile foi resprovado no exame vestibular que prestou na Sobernne, em novembro de 1859, faz nova tentativa, agora em Marselha, e, pela segunda vez, é reprovado, tendo como conseqüência a perda da bolsa que havia conseguido para os estudos jurídicos. Aos vinte anos, já de volta a Paris, escreve a Cézanne para confessar a sua insatisfação por estar vivendo às custas da família, que se encontra em péssima situação financeira.


Ao atingir a maioridade, Émile resolve pedir a nacionalidade francesa, já que era considerado estrangeiro, por ser filho de pai italiano, embora filho de mãe francesa, e de ele próprio ter nascido em Paris. Por essa época, morre o seu avô Aubert, que vivia com a filha Emilie, sua mãe . No final 1861, Zola começa a trabalhar na livraria Hachette, por indicação de um membro da Academica de medicina, amigo da família. Émile então é encarregado de entregar o cartão de visita da livraria a varios destinatários - uma espécie de office-boy. Mais tarde, passa para o serviço de publicidade.


Émile mostra suas poesias para seu patrão, que as acha boas. Este pondera que o grande público é mais receptivo à prosa, e que, com ela, um grande futuro o espera, desde que esqueça os versos. Émile Zola escreve, então, um conto com o título de 'Le Baiser', que foi publicado por La Revue du mois; esse mesmo conto foi aceito também por La Nouvelle Revue de Paris, que o publicou, mais tarde. Com essas publicações de Le Baiser, nasce o escritor Zola.


Na livraria Hachette, Zola torna-se chefe do serviço de publicidade, e passa a viver profundamente a vida literária de Paris. É procurado por muitos escritores conhecidos na livraria, para ouvir dele aconselhamentos, bem como para saber o número de vendagem de seus livros e ouvir conselhos técnicos. Zola aprende com eles os segredos da profissão de escritor. Zola sabe que o escritor só escreverá bons livros com muita dedicação, como sabe da importância de ser bem remunerado por suas obras.

A todos, no entanto, Zola trata com certa distância; os seus únicos amigos são apenas os três de Aix: Cézanne, Baille e Marguery. (Cèzanne tem planos para entrar nas Belas Artes, e faz o exame para admissão, mas é reprovado no concurso. Em 1863 Cézanne propõe expor suas obras no Salão, mas é recusado, como também foram recusados, com ele, Pissarro, Claude Monet e Édouard Manet – nos tempos de Napoleão III, a burguesia não permitia que mudassem seus hábitos intocáveis.) Em Paris, Zola é introduzido nos ateliês por Cézzane. Conhece os pintores de vangarda citados e mais: Degas, Renoir e Fantin-Latour.


Émile Zola reune várias narrativas curtas para compor o seu primeiro livro, que seria publicado novembro de 1864. O seu livro de contos é bem recebido pelo público e pelos jornalistas. Essa edição abre-lhe as portas para escrever artigos e novelas para Petit Jounal , entre outros. Depois publica o romance autobiográfico La Confission de Claude; os críticos estão dividido entre os que gostam da obra e os que a acham injuriosa. O livro não foi um sucesso, mas Zola acredita que um grande público ainda vai aclamá-lo ou odiá-lo.


Com a morte de seu protetor, Louis Hachette, os novos diretores não são receptivos aos escritores de vanguarda, e Zola, escritor audacioso, necessita de liberdade para as suas obras. A publicação que fez de versos seus num jornal de esquerda (Le Travail - Clemenceau é o como diretor) chamou a atenção da polícia, que passou a vigiá-lo no escritório da livraria e na sua residência.


Émile Zola agora é um escritor profissional. Muda-se para um apartamento na rua de l'École-de-Médicine, onde passa a viver com a sua amante Alexandrine Meley, companheira dedicada, que se preocupa com seu trabalho e com sua saúde. Aí , reúne a cada quinta-feira, os companheiros Cézanne, Baille, Solari, Pajor e Pissarro. Tomam vinho, discutem arte e literatura. Zola sente-se seguro como escritor e está seguro de que ganhará dinheiro nessa profissão. Sem dúvida, o futuro o aguardava como um grande escritor, e também um combativo jornalista.


Émile Zola Escreveu, além das obras já mencionadas: A Confissão de Claude, O Desejo de uma Morta, Teresa Raquim, Os Rougon-Macquart, A Fortuna dos Rougon, Naná, Germinal (para muitos, sua obra-prima), A Besta Humana, A Taberna e Doutor Pascal, Os Quatros Evangelhos , Eu Acuso .


Com esta terceira postagem, encerro a trilogia sobre Émile Zola. Pretendo aguardar alguns meses para, novamente, escrever sobre Zola; dessa vez, fazendo uma abordagem sobre o seu famoso libelo Eu Acuso, escrito em 1898, em defesa de Alfred Dreyfus, oficial francês que, sem provas, foi acusado de espionagem, devido ao fato de ser judeu; depois foi julgado e condenado injustamente pelo crime que, ardilosamente, lhe foi imputado.


Émile Édouard Charles Antoine Zola nasceu no dia 2 de abril de 1840, em Paris, França. Em Aix-en-Provence, como vimos na primeira postagem, passou a maior parte de sua infância; e aí também, recebeu a maior parte de sua educação formal. Aix e Paris foram as cidades mais importantes para o escritor. Zola morreu em Paris, em 28 de setembro de 1902.
.
(Para ler a postagens anteriores, clique em ÉMILE ZOLAPARTE I, ou PARTE - II. )


REFERÊNCIAS:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.

7 de mar de 2010

ÉMILE ZOLA - PARTE II




por Pedro Luso de Carvalho


Como vimos na postagem anterior a esta, Émile Zola não negligencia os seus estudos no colégio Bourbon, em Aix; por seu esforço, ganha o concurso de melhor aluno do colégio, em 10 de agosto de 1853, entre outros prêmios. Os seus novos amigos, dentre eles Paul Cézanne, fazem-no sentir à vontade no colégio, que, como vimos, é freqüentado por filhos de pessoas de posses. Aí passa a dedizar-se à leitura de grandes escritores, e a dar os seus primeiros passos na arte da literatura, quando escreve a comédia Enfoncé le pion, e uma novela Les Grissettes de Provence.


Nessa época em que Émile obtém grande progresso nos estudos, sua família, que havia se mudado do beco Sylvacanne, para um pequeno alojamento na periferia, muda-se mais uma vez; agora, para uma casa muito pobre, de apenas dois cômodos, na rua Mazarine. Émilie Zola – mãe de Émile - vai à Paris, e aí, junto aos advogados tenta reverter a situação criada por Jules Migeon, que fora sócio de seu marido, no que respeita à dissolução da Sociedade do Canal. Em outubro de 1857, morre repentinamente a vovó Aubert, mulher forte e corajosa, mãe de Émilie e avó de Émile.


Enquanto Émilie Zola faz novas incursões à Paris, agora buscando ajuda do senhor Thiers, pessoa que sempre se mostrou atencioso para com François Zola, seu finado marido, Émile faz companhia ao avô, que se encontra abatido com a morte da esposa; mas, o jovem não exita em encontrar-se muitas vezes com seus amigos, principalmente com o que lhe é mais íntimo, Paul Cézanne. Émile gosta desse convívio com o seu amigo Cézanne, arrebatado e intratável, que sonha com a pintura. O pai de Cézanne, no entanto, faz séria objeção a essa amizade; o banqueiro não se conforma com o desnível social existente entre o seu filho e Émile. Tal objeção, no entanto, ajuda a estreitar mais ainda esse laço de amizade entre os dois jovens.


Aqui, abro um parêntesis para dizer algumas palavras sobre Paul Cézanne: pintor francês (Aix-en-Provence, 1839 – id.,1906) como seus amigos impressionistas, praticou a pintura ao ar livre, mas esforçou-se por fazer a pintura segundo sua própria expressão. Achava que a “reflexão modifica a visão”. É considerado um dos precursores da arte moderna. Paul Cézanne somente foi reconhecido em Paris, depois de muito tempo. Em vida do artista, poucas obras suas foram vendidas. Ao dizer, que, só às vésperas de sua morte podia vislumbrar a terra prometida, Cézanne perguntava-se: “Por que tão tarde e com tanta dificuldade?” Em 2001, o quadro Montanha de Santa Vitória, de Paul Cézanne, foi vendido no leilão da Casa Phillips, nos Estados Unidos, por cerca de 38 milhões de dólares. Fecho o parêntesis.


Em fevereiro de 1858, Émile recebe uma carta de sua mãe, que se encontra em Paris, que o deixa apreensivo, e que o faz antever a dor da separação dos seus passeios nas fontes de Aix e dos seus insubstituíveis amigos; diz na carta a senhora Émilie Zola: “A vida em Aix é insustentável, venda os quatro móveis que nos restam. Com o dinheiro, você terá como comprar seu bilhete de terceira classe e o do seu avô. Não demore. Espero por você.”


Atendendo o pedido de sua mãe, Émile e seu avô chegam a Paris, cidade que pouco conheceu na sua infância. Suas ruas cinzas e frias, são muito diferentes das ruas ensolaradas de Aix; Émile teme não poder adaptar-se em Paris, onde passa morar com sua mãe Emilie e o avô, na rua Monsieur-le-Prince, 63. Sua mãe diz que fez sua matrícula , como meio bolsista, no venerável liceu Saint-Louis, na seção de ciências. Émile está com dezoito anos. A sua adaptação aí seria muito difícil, já que teria que conviver com jovens burgueses zombeteiros, elegantes, que lêem jornais e acompanham as novidades da política, das atrizes, e tudo o que acontece na sociedade parisiense. Sente-se incomodado por ser mais velho que a maioria dos seus colegas, parecendo-lhe ser intelectualmente inferior.


Émile não perde o contato com Aix, para onde retornaria em suas férias, junto com sua mãe, para o convívio com os amigos. Escreve e recebe cartas de Cézzane, Baille e Marguery. A estes, Émile fala de seus projetos literários, de suas leituras, da solidão e das mulheres. Essa correspondência absorve-o a ponto de negligenciar os estudos. Émile não é mais o aluno aplicado de Aix. Interessa-se apenas pela literatura francesa, principalmente Hugo e Musset. Interessa-se também por Rabelais e por Montaigne. Prefere os escritores românticos – esses escritores são livres das amarras político-sociais -, aos tediosos clássicos. Termina o ano escolar apenas com o prêmio de segunda colocação, em francês.


Dois fatos deixa-o prostrado ao retornar à Paris, depois de suas férias em Aix: a febre tifóide, que o acomete, e o despejo do apartamento em que mora com a mãe e o avô, na rua Saint-Jacques, 241, por falta de pagamento do aluguel. Émile sente que terá de obter uma posição que lhe dê uma boa remuneração. Passar no vestibular para o curso de Direito, será o primeiro passo, para depois tornar-se advogado. É o que diz em carta ao amigo Baille, em 23 de janeiro de 1859: “... É apenas um meio de chegar, é o trabalho... Eu digo, por algum tempo, adeus aos meus belos sonhos dourados, certo de vê-los, em profusão, acolhendo-me quando minha voz vier a chamá-los, de novo, numa época melhor”, conclui.


Émile tinha razão, quando disse que os sonhos dourados não o abandonariam. A literatura atrai-o, enquando a ciência o confunde. Fala sobre esse sentimento ao amigo Marguerry, na carta que lhe escreve: “Não sou mais o Zola que trabalhava, que amava a ciência, que seguia como podia rumo ao abismo do ensino universitário. Você é um amigo, posso lhe contar muitas coisas: ora, saiba que me tornei um preguiçoso incorrigível, a álgebra me dá dor de cabeça, e a geometria me passa um horror tal que me arrepio só de ver um inocente triângulo... Tudo isto é uma trajetória para lhe dizer que, não fazendo nada, não serei aceito para o exame de bacharelado”.


Quanto às provas de exame vestibular, que faria na Sorbonne, Émile previra que não seria aprovado, em razão das dificuldades que tinha nas matérias de física, química e matemática. Mas, para sua surpresa, encontra o seu nome na lista dos aprovados, na fase escrita. Na prova oral, no entanto, Émile erra ao responder a data da morte de Carlos Magno. Depois, perde-se na resposta sobre obra de La Fontaine; e, na prova da língua alemã, demonstra pouco conhecimento. Então, os membros da mesa examinadora decidem, para a perplexidade de Émile, reprová-lo em literatura.


Em postagem anterior, editamos a primeira parte da vida e da obra de Émile Zola. Depois desta segunda parte, voltaremos a contar a história desse importante escritor francês. (Para ler a primeira postagem, clique em: ÉMILE ZOLA – PARTE I.)




REFERÊNCIAS:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.
DERENGOSKI, Paulo Ramos. Olhar brasileiro sobre grandes pintores. Lages: Editora Inês, 2004.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.

3 de mar de 2010

ÉMILE ZOLA - PARTE I



por pedro Luso de Carvalho


Émile Zona tinha 7 anos quando seu pai, o engenheiro italiano François Zola, faleceu em Marselha, França, março de 1847. O menimo Émile assiste ao funeral de seu pai junto de sua mãe Émilie, que, segurando-lhe a mão, soluçava ao despedir-se do marido, na solenidade que lhe prestavam os cidadãos de Aix. Acompanham o cortejo fúnebre, que atravessa a cidade, segurando os cordões do pano mortuário o vice-prefeito, o prefeito, o engenheiro do distrito e um advogado do Conselho do rei e do Supremo Tribunal.


A viúva Emilie Zola recebe condolências das pessoas que vão até sua casa visitá-la e ao menino Émile. Além do sofrimento pela perda do marido, à sua profunda tristeza somam-se as preocupações para manter-se a si e ao filho, devido a péssima situação financeira que se encontra. Os credores do marido não a deixam em paz. Essa situação, pela qual passa a viúva, é agravada pela posição tomada Jules Migeon, que quer ver dissolvida a Sociedade do Canal, para resgatar o que havia perdido na sociedade com François Zola, sociedade essa que foi criada com este para a construção de um canal de irrigação para abastecer de água a cidade de Aix.


Não resta alternativa à vúva: em toda a parte ela distribui ações do canal como garantia da dívida. A familia deixa então o beco Sylvacanne, sem dinheiro algum, trocando o imóvel em que morava, cujo aluguel era muito alto, por um alojamento pequeno e mais barato, num bairro da periferia, onde moram pedreiros italinos e ciganos desonestos. Depois, decide-se por increver o menino Émile como aluno no pensionato-escola Notre-Dame.


Situado às margens do sinuoso rio Torse, encontra-se o pensionato-escola Notre-Dame. Aí o menino Émile encontra muita coisa que irá seduzí-lo. Émile, que mal sabe ler, hesita escrever as letras sobre um papel, e o diretor obriga-o a decifrar, depois da aula, as fábulas de La Fontaine. Dentre algumas dezenas de alunos espertos, o menino escolhe dois deles para serem seus amigos; com eles brinca de bola de gude, de pião, de atiradeira. Émile sente que está decidido pela educação.


Contava com doze anos quando sua mãe o tranfere do educandário Notre-Dame para o austero colégio Bourbon, em Aix, onde poderia receber visitas de sua mãe e de sua avó todos os dias, já que permanecia em regime de internato. Aí não se sentia à vontade, como ocorria com os meninos pobres e barulhentos do educandário Notre-Dame. Contra ele pesava o preconceito dos demais alunos do colégio Bourbon, por ser bolsista, que significa ser indigente.


Sente-se desconfortável no meio de crianças que fazem parte de uma sociedade rica; para eles, filhos de burgueses provençais, Émile é o Franciú, o estranho, o intruso. Por isso o menino passa a ser perseguido por eles, com seus sarcasmos. Dentre esses meninos ricos, por sorte de Émile, um deles passa a dar-lhe proteção; trata-se um menino moreno, grandalhão, de nariz quebrado, e um ano mais velho que ele, que se chama Paul Cézanne.


Émile não se demora em tranquilizar-se e a enfrentá-los. E logo embrenha-se nos estudos, tomado de um sentimento de raiva, e ganha o concurso de melhor aluno do colégio, em 10 de agosto de 1853, além de outros prêmios: concurso de recitação clássica e de gramática francesa. Emilé sente que após essa consagração não mais perderá sua reputação. Então passa a gostar de sua nova escola. Além de Paul Cézanne, filho de um banqueiro, que sonha tornar-se pintor, faz outros dois bons amigos: Baptistin Baille e Louis Marguery.


Nos momentos de folga, os quatro amigos saem a passear. Apreciam as festas religiosas, que lhes possibilita ver as jovens que passam na procissão. Émile não consegue tirá-las da mente. Já com quinze anos, procura livrar-se dessa obsessão pelas mulheres. Então busca na leitura uma saída para esses sentimentos que o perturbam. E nisso é seguido pelos seus três amigos, que se dispõem a trocar livros e discutir sobre os assuntos das leituras. E assim exercitam-se na crítica. Émile dedica-se com mais profundidade na atividade literária. Lê Hugo, Musset, Lamartine, entre outros. Vai muitas vezes, com seus amigos, ao teatro de Aix. Também se interessam pela música; o regente do colégio cria uma fanfarra na qual participam; Marguery aprende pistom, Cézanne corneta e Émile clarineta.


As inexitosas buscas amorosas do jovem Émile, fazem-no a abandonar as aspirações românticas e interessar-se pela sátira. Então, escreve Enfoncé le pion, uma comédia em versos em três atos. Depois redige Les Grissettes de Provence, uma novela, na qual conta as libertinagens da juventude em Aix, experiências vividas e inventadas. Essa obra encontra-se perdida. Esses, pois, os primeiros passos singelos daquele que se tornaria um dos mais importantes escritores franceses de todos os tempos, como veremos na próximas postagens.



REFERÊNCIA:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.

21 de fev de 2010

ENTREVISTA / Simone de Beauvoir


por Pedro Luso de Carvalho

A escritora francesa Simone de Beauvoir, romancista, memorialista e filósofa, tornou-se famosa tanto pela boa qualidade dos livros que publicou como pelo fato de ter sido a companheira de Jean-Paul Sartre. O seu livro filosófico O Segundo Sexo (Deuxième sexe), publicado em 1949, causou escândalo entre os leitores franceses dessa época pela crítica contra a cultura patriarcal do ocidente. Essa obra também foi importante para firmar a reputação de Simone de Beauvoir como importante intelectual. Essa reputação de intelectual é mantida até os dias atuais. A obra O Segundo Sexo bem como outros livros seus são freqüentemente reeditados em muitos países da Europa das Américas do Sul e do Norte.


Simone de Beauvoir conheceu Sartre na Sorbonne, quando se preparava para bacharelar-se em filosofia. Também aí começaria a relação íntima entre os dois, que duraria até a morte do filósofo, em 1980, sem que jamais tivessem casado - Sartre e Simone não aceitava o casamento, a monogamia e filhos. A partir da publicação do primeiro romance, A Convidada (L'Invitée), em 1943, a escritora desligou-se do liceus de Marselha e de Paris, onde ensinava filosofia, para dedicar-se em tempo integral à literatura. Não tardou para publicar o seu segundo romance, O Sangue dos Outros (Le Sang des Autres), sobre a Segunda Guerra Mundial, mais propriamente sobre a ocupação da França pela Alemanha, e a luta da Resistência francesa contra os nazistas.
O terceiro romance veio cinco anos depois. Além das obras de ficção, a escritora publicou uma peça para o teatro e inúmeros ensaios filosóficos, no qual se inclui O Segundo Sexo, em 1949. Três anos antes, fundou com Sartre a revista mensal Les Temps Modernes, que se tornaria importante veículo para divulgar o existencialismo francês.


As obras de Simone de Beauvoir já traduzidas, e publicadas no Brasil pela Difusão Européia do Livro são: A Convidada, Todos os Homens são Mortais, Memórias de uma Moça bem Comportada, O Segundo Sexo: I. Os Fatos e os Mitos , II. A Experiência Vivida, Na Força da Idade, 2 vols., Os Mandarins, 2 vols., As Belas Imagens, O Sangue dos Outros e Mulher Desiludida. A Editora Nova Fronteira publicou três obras muito importantes da escritora: Uma Morte Muito Suave (narra a morte de sua mãe pelo câncer, depois de ter sido internada numa clínica de Paris para tratar de uma fratura do fêmur), Os Mandarins (um de seus mais importantes romances), A cerimônia do Adeus, 604, págs. (seguido de entrevistas com Sartre), A Velhice, 711 págs. (talvez o ensaio contemporâneo mais importante sobre a vida dos idosos).

Passemos agora a anunciada entrevista (trechos) concedida por Simone de Beauvoir à Madeleine Gobeil, da The Paris Review (In Escritoras e a arte da escrita, edição de George Plimpton, Ed. Gryphus, Rio de Janeiro, 2001). Antes, porém, da entrevista, alguns dados (não a biografia, obviamente) para quem não conhece a escritora: Simone de Beauvoir nasceu em Paris, no dia 9 de janeiro de 1908. Nasceu no bairro Montparnasse, que sempre foi o endereço de importantes escritores e pintores franceses e estrangeiros,como ocorreucom Picasso, entre outros. (Sobre a famosa The Paris Review, contamos parte de sua históriaaqui no Blog Panorama, cujo link está inserido no final deste texto.)


Como o nosso propósito não é escrever a biografia de Simone de Beauvoir, passemos à entrevista, feita em seu apartamento na 'rue' Schoëlcher, em Montparnasse, que ficava bem próximo ao apartamento de Sartre. A entrevistadora Madeleine Gobeil faz referência ao livro de memórias de Simone de Beauvoir, que na época desse encontro esteve preparando a sete anos, e pergunta se a sua vocação e a sua profissão, deveu-se à perda da fé religiosa; a escritora responde:


“É muito difícil para uma pessoa relembrar o seu passado sem trapacear um pouco. Meu desejo de escrever começou muito antes disso. Eu já escrevia histórias aos oito anos, mas muitas crianças fazem a mesma coisa, o que não quer dizer que tenham vocação para escrever. No meu caso, pode ser que a vocação tenha se acentuado porque perdi a fé religiosa; também é verdade que li livros que me comoveram profundamente, como The Mill on the Floss (O moinho à beira do rio), de George Elliot. Quis muito ser como ela, alguém cujos livros seriam lidos e comoveriam os leitores”.


De Beauvoir, como é tratada a escritora pela The Paris Review, é perguntada se foi influenciada pela literatura inglesa, e esta foi sua resposta: “Estudar inglês foi uma das minhas paixões desde a infância. Há um repertório de literatura infantil em inglês muito mais encantador do que em francês. Eu adorava ler Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas), Peter Pan, George Eliot e até Rosamond Lehmann”.


Ainda nessa linha de literatura infantil, a entrevistadora pergunta sobre Dusty Answer (Poeira); a escritora então fala da paixão que tinha pelo livro, embora fosse quase medíocre; diz também que o livro era muito apreciado pelas meninas de sua geração. Diz mais: “Quanto a mim, eu invejava a vida universitária na Inglaterra, porque vivia em casa e nem sequer tinha um quarto só meu. Na verdade, não possuía nada. E embora aquela vida não fosse livre, dava espaço para a privacidade, por isso me parecia magnífica. A autora (Dusty Answer) conhecia todos os mitos das meninas na adolescência – belos rapazes com ar misterioso, etc. Mais tarde, naturalmente, li as irmãs Brontë e de Virginia Woolf: Orlando, Mrs. Dalloway. Não gosto de The Waves (As Vagas), mas aprecio muito, muito mesmo, seu livro sobre Elizabeth Barrett Browning”.


Madeleine Gobeil (The Paris Review) pergunta a Simone Beauvoir sobre o diário de Virginia Woolf; esta a sua resposta: “Interessa-me menos. É muito literário. É fascinante, mas distante de mim. Ela se preocupa demais imaginando se será publicada e com o que as pessoas dirão a seu respeito. Gostei bastante de A Room of One's Own, no qual ela fala sobre a situação das mulheres. É um ensaio curto, mas acerta em cheio. Explica muito bem porque as mulheres não conseguem escrever. Virginia Woolf é uma das escritoras que mais me interessam. Você já viu uma foto dela? Um rosto extremamente solitário... de certa forma, ela me interessa mais do que Colette. Afinal de contas, Colette se envolve muito com seus pequenos casos amorosos, com assuntos domésticos, com a roupa lavada, os animais de estimação. Viginia Woolf tem uma maior dimensão”.


Nesta altura da entrevista passemos por cima de suas respostas sobre a importância da educação universitária para o escritor, para deter-nos sobre o que De Beauvoir responde a respeito de ter ficado escrevendo dez anos até ter seu livro publicado, aos 36 anos. A entrevistadora pergunta se por isso ela nunca se sentiu desencorajada, e esta foi sua resposta:


“Não, porque no meu tempo era raro publicar quando se era jovem. Naturalmente, há uma ou duas exceções, como Radiguet, que foi um prodígio. O próprio Sartre só publicou com já estava com 35 anos, quando A Nausea e O Muro foram comprados. Quando meu primeiro livro foi rejeitado por uma editora, senti-me um pouco desencorajada, foi muito desagradável. Pensei então que deveria me dar um tempo. Conhecia muitos escritores que demoraram a dar a partida. As pessoas sempre mencionam o caso de Stendhal, que só começou a escrever depois dos 40 anos.”


Respondendo a pergunta se foi influenciada por algum escritor norte-americano, ao escrever os seus primeiros romances, responde: “Quando escrevi A Convidada fui influenciada por Hemingway, pois foi ele quem nos ensinou como usar um certo despojamento no diálogo e a importância das pequenas coisas da vida.”


Para encerar, mais um trecho da entrevista; vejamos o que Simone de Beauvoir responde a Madeleine Gobeil, da The Paris Review, quando esta pergunta-lhe se Beckett sentiu agudamente o logro da condição humana, e se Acha que ele é mais interessante do que os outros “novos romancistas? De Beauvoir responde:


“Certamente. Toda a especulação com o tempo empregado com o “novo romance” pode ser encontrada em Faulkner. Foi ele que nos ensinou como fazê-lo, e na minha opinião ele é quem o faz melhor. Quanto a Beckett, seu modo de enfatizar o lado escuro da vida é muito belo. Contudo, ele está convencido de que a vida é escura, só isso. Eu também estou convencida de que a vida é escura, mas ao mesmo tempo, amo a vida. Essa convicção parece ter estragado tudo para ele. Quando isto é tudo o que você pode dizer, não há 50 maneiras de dizê-lo; e por isso muitas das suas obras são meras repetições do que ele já disse. Endgame repete Waiting for Godot, de um modo mais fraco.”


Além dos escritores mencionados nessa entrevista, Simone de Beauvoir conta no seu livro Na força da Idade (La force de l'âge), publicada no Brasil em 1961 pela Difusão Européia, quais são outros escritores importantes para ela; e ela então os enumera: Whitman, Blake, Yeats, Synge, Sean O'Casey, todos os livro de Virginia Woolf, Henry James (toneladas, diz ela), George Moore, Swinburne, Swinnerton, Rebecca West, Sinclair Lewis, Dreiser, Sherwood Anderson, Doroty Richardson (que em dez volumes não contou absolutamente nada, diz Simone), Alexandre Dumas, as obras de Népomucène Lemercier, as de Baour-Lormian, os romances de Gobineau, todo Restif de La Bretonne, as cartas de Diderot e Sophie Volland e também Hoffmann, Sudermann, Kelermann, Pio Baroja, Panaït Istrati.


Simone de Beauvoir foi contemplada com o famoso Prêmio Goncourt, em 1954. Foi uma importante escritora feminista. Com Sartre, visitou o Brasil no final de 1960. Na visita que Simone e Sartre fizeram a Cuba foram recepcionados por Fidel Castro e por Che Guevara. Simone de Beauvoir morreu em Paris, em 14 de abril de 1986, aos 78 anos.

9 de fev de 2010

TOM JOBIM / João Gilberto e Miles Davis



por Pedro Luso de Carvalho


Nelson Motta conta, no seu livro Noites Tropicais (Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2000, fls. 402/403), passagens sobre o famoso Festival de Montreux, Canadá (desde 1978, o Festival Internacional de Jazz de Montreux conta com a presença da música brasileira), onde Antonio Carlos Jobim e João Gilberto se apresentariam, entre outros músicos de renome internacional, dentre eles, Miles Davis. Vejamos o que Nelson Motta escreveu sobre esse encontro de feras da música nesse festival de Montreux (trecho):


“Quando chego a Montreux, o diretor do festival, Claude Nobis, está eufórico: João Gilberto já chegou. Antonio Carlos Jobim é esperado a qualquer momento: vai dividir com João a Noite brasileira. Miles Davis também já chegou e Ella Fitzgerald, Kid Creole and the Coconuts, Astor Piazzolla e King Sunny Adé chegam nos próximos dias junto com estrelas que fazem as 20 noites do festival.


"João e Tom - prossegue Motta - não se apresentam juntos há 23 anos, desde o histórico show do Au Bom Gourmet junto com Vinícius e Os Cariocas. E Claude está excitado com a possibilidade de que eles façam duas ou três músicas juntos: o festival é gravado inteiro para disco (e lançado pela Warner) e um dueto de tom e João é uma preciosidade. João não diz que sim nem que não e Tom está na Espanha fazendo Shows com sua Banda Nova e seu quinteto vocal feminino”.


Prossegue Nelson Motta com sua narrativa: “No bar do cassino encontro os amigos Nesuhi Ertegun, big bos da Warner e grande fã de João, e Tommy LiPuma, que produziu Amoroso, um dos grandes discos de João. LiPuma também é o produtor de Miles Davis e diz que um dos seus grandes sonhos é juntar os dois, e que Miles adora a idéia. Diz que a música de João e de Tom mudaram o jeito de Miles tocar no início dos anos 60, quando gravou, com arranjos de Gil Evans, o seu histórico Lp Quiet Nigths”.


Sobre Miles Davis devo dizer alguma coisa. Miles Davis foi, dentre os trobetistas, a estrela maior do estilo cool. Não se pode esquecer, no entanto, que teve como mestre nada menos que Charlie Parker e Lester Young, este um expoente do estilo cool. Em razão de sua constante evolução, Miles deixaria esse estilo para emigrar para o jazz rock, nos anos 70; Miles foi um dos inventores desse estilo.


No estilo jazz rock pode-se pensar que Miles deixara de lado a livre sonoridade, uma das principais qualidades do jazz negro; mas não. Em Miles essa livre sonoridade aparecia como neutra; foi descrita como a de um homem que pisa em ovos: fina, leve, curiosamente velada. “Miles Davis deu novo sentido ao vibrato – diz André Francis -, dotando-o de uma estrutura rítmica extremamente nova em notas escolhidas (ponto em que deve algo a Charlie Parcker e Leste Young) engendrando assim um swing intenso”. (Jazz, Martins Fontes, São Paulo, 1987).


Hoje, apenas podemos ficar imaginando nos palcos do Brasil, em Montreaux ou em qualquer parte do mundo, esses três gênios do jazz/bossa nova: Miles Davis, Tom Jobim e João Gilberto. Infelizmente, Miles e Tom já nos deixaram, há algum tempo. Felizmente, ainda podemos ouvir João Gilberto cantar, acompanhando-se ao violão, em cujas audições haveremos sempre de homenageá-lo com o nosso silêncio, em atenção a essa exigência do mestre, que, convenhamos, merece.
.

1 de fev de 2010

MONTEIRO LOBATO & Lima Barreto



                      
                 por Pedro Luso de Carvalho
             
       Nesta semana, estive mexendo nos meus livros à procura de Contos Pesados, de Monteiro Lobato, escrito em 1940. Para minha surpresa, ao lado de Contos Pesados deparei-me com Críticas e Outras Notas, vol. 18, das Obras Completas de Monteiro Lobato, com publicação da Editora Brasiliense, São Paulo, 1965. Passando os olhos pelo índice, ali estava o comentário sobre Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá; lembrei-me que depois que li a crítica de Lobato, sobre esse livro (em Críticas e Outras Notas), lá pela sugunda metade dos anos 60, quando ainda freqüentava os bancos universitários, foi que passei a interessar-me pela obra de Lima Barreto.

        Então, falemos um pouco do que encontrei em Críticas e Outras Notas: no ano de 1919, Monteiro Lobato edita, em sua editora, a obra de Lima barreto: Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Tal edição resulta em fracasso. Lobato coloca a culpa pelo mau êxito editorial no título do romance, como ele próprio diz a Barreto, em carta que lhe escreve: “Teu livro sai pouco, sabe por que? O título! O título não é psicologicamente comercial. O bom título é metade do negócio. Ao ler o título de teu romance toda gente supõe que é a biografia de... ilustre desconhecido”. (Carta de 23/111919 – Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, em Os cadernos de Cultura, organizado por Edgar Cavalheiro.)

        Sobre esse romance de Lima Barreto, Monteiro Lobato escreve um artigo com o título Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, publicado em São Paulo pela Revista do Brasil', nº 39, em março de 1919, pág. 352, como segue:

        “De Lima Barreto não é exagero dizer que lançou entre nós uma fórmula nova de romance. O romance de crítica social sem doutrinarismo dogmático. Surgiu com as Memórias do Escrivão Isaías Caminha de que pouco falou a imprensa na pessoa de eminentes jornalistas postos em cena com inaudita irreverência. Publicou depois o Triste Fim de Policarpo Quaresma, e está na memória de todos a impressão profunda, algo desnorteadora, desse magnífico estudo de caracteres e costumes, onde se escalpam cruamente umas tantas idéias correntes, transformadas em tabu pela ausência de crítica sincera.”

        “Em seguida – escreve Monteiro Lobato -, tomado ao rodapé da Noite, tivemos Numa e Ninfa, mais fracos que os anteriores, e visivelmente prejudicado pelo apressado da composição. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá vem agora completar uma série suficiente para colocar o autor em plano de alto destaque na plêiade de nosos romancistas. Revela-se neste a mesma qualidade primacial obaservada nos anteriores: forte poder de empolgar o leitor, da primeira à última linha. Ninguém interrompe por fastio, a leitura dos seus livros – esse mortal fastio que nos leva a 'admirar' tantos autores inibindo-nos de os ler. Vida e Morte é um romance pouco romanceado. Nenhuma tragédia dentro; apenas o entaperar-se progressivo dum espírito superior enleado pelo cipó mortífero da burocracia. Gonzaga de Sa vê-se um dia entalado nas engrenagens desse Moloque transformador de homens em bonecos de engoço”.

        “Reage, mentalmente - prossegue Lobato - apenas: é muito fraco para sacudir os músculos e desempegar-se da massa viscosa; a iniciativa lhe morre, a resignação sobrevem. Gonzaga, vencido, deixa-se boiar como um ex-homem à tona da lagoa de águas verdes, sofrendo em silêncio o contato doloroso dos gelatinosos colegas. Vinga-se confabulando com o interlocutor que o acom,panha através do livro inteiro. Sua vingança, vingança calma de velho filósofo, resume em dissertar sobre homens e coisas com ática superioridade. É um Mr. Bergeret carioca, irônico e cético, paradoxal e compeensivo, por cujo civo de análise se coam todos os aspectos da velha cidade. O Rio está inteiro nesse livro, nas paisagens naturais, na paisagem urbana, na população caleidoscópica – salada de raças em que o mestiço esbarra com loiras mulheres gaulesas e inconciente missão civilizatória. Sucedem-se os flagrantes, os instantâneos cinematográficos onde a alma das gentes e das coisas é apanhada ao vivo e escorchada às vezes o mais íntimo dos recessos."
       

        “Nos livros cariocas – conclui Lobato – de Machado de Assis o leitor entrevê desvãos do Rio. Machado, criador de almas, raro curava da paisagem urbana. Em Lima Barreto conjugam-se equilibradamente as duas coisas: o desenho dos tipos ea a pintura do cenário; por isso dá ele, melhor que ninguém, a sensação carioca. É um revoltado em período manso de revolta. Em vez de cólera, ironia; em vez de diatribe, essa nonchalanche filosofante de quem vê a vida sentado num café e amolentado por um dia de calor...”


                                                                    *  *  *

3 de jan de 2010

[Poesia] EDGAR ALLAN POE / Ulalume



             por Pedro Luso de Carvalho
       
         Sobre o genial escritor Edgar Allan Poe (1809-1849) escrevi três textos, que se encontram postados neste espaço, quais sejam: Edgar Allan Poe e sua Antologia de Contos; O Corvo e Annabel Lee. Num desses textos, fiz menção ao seguinte fato: no ano de 1847, o escritor norte-americano tem algumas de suas histórias traduzidas para o francês, por Charles Baudelaire (1821-1867), dentre eles um dos famosos contos de Poe, qual seja, A Queda da Casa de Usher; Baudelaire também escreve o prefácio das obras de Poe. Eis um trecho do prefácio de Baudelaire:

        “Como poeta Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.

        Charles Baudelaire prossegue sua análise sobre os poemas de Poe, dizendo: “Há um pequeno poema seu intitulado Os Sinos”, que é uma verdadeira curiosidade literária; traduzível, porém, não o é; O Corvo logrou grande êxito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson, é uma maravilha. O assunto é quase nada, e é uma pura obra de arte. O tom é grave e quase sobrenatural, como os pensamentos da insônia; os versos caem um a um, como lágrimas monótonas; No país dos sonhos tentou descrever a sucessão dos sonhos e das imagens fantásticas que assaltam a alma, quando o olho corpóreo está cerrado”.

        A consagração de Poe, dois anos antes de sua morte, deveu-se não apenas ao conto, mas também aos seus brilhantes ensaios e aos seus poemas magistrais. Efetivamente, a imaginação de Poe era extraordinária, qualidade que se somava a outra, qual seja, a de ter sido intransigente no tocante à excelência literária de sua obra. Mas, assim não entendiam os pseudos intelectuais da época, que não compreendiam a grandiosidade da obra de Poe. Para os críticos europeus, até o ano de 1847, quando Baudelaire traduziu Poe, os Estados Unidos tinham uma literatura de segunda categoria.
.
       
        Julio Cortázar menciona os motivos da tardia aceitação da obra de Poe pelos norte-americanos, qual seja, de estarem os Estados Unidos atrelados à literatura do século XVIII, com “péssimos romances e poemas, ensaios triviais ou extravagantes, contos insípidos”; e mais: que entre os anos de 1830 e 1850 os Estados Unidos estavam iniciando sua história literária, e que os poucos escritores de talento eram: James Russel Lowell, Hawthorne, Emerson e Longfellow.

        Exemplo desse cuidado com sua obra é o seu imortal poema O Corvo, que foi traduzido inúmeras vezes para vários idiomas; para o idioma português, a tradução foi feita por dois mestres da literatura: o brasileiro Machado de Assis e o português Fernando Pessoa. As primeiras traduções de O Corvo, foram feitas pelos franceses Baudelaire e Mallarmé. Outros poemas, como Ulalume, Annabel Lee, Tamerlão, Os Sinos e Al Aaraaf, entre outros, gozam de igual celebridade. Para quem não conhece ULALUNE, esta é a oportunidade para ler esse excelente poema de Edgar Allan Poe.

            

         ULALUME


Era o céu de um cinzento funerário
e a folhagem, fanada, morria,
a folhagem, crispada, morria;
era noite, no outubro solitário
de ano que já me não lembraria;
ficava ali bem perto o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem perto, o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir.


Lá, uma vez, por um renque titânico
de ciprestes, vagueei, em desconsolo.
Era então o meu peito vulcânico
qual torrente de lava que no solo
salta, vinda dos cumes de Yaanek,
nas mais longínquas regiões do pólo,
que ululando se atira do Yaanek
nos panoramas árticos do pólo.


Tristonha e gravemente conversamos,
mas a idéia era lassa e vazia
e a memória traidora e vazia;
que o mês era de outubro não lembramos,
nem soubemos que noite fugia.
(Ai! A noite das noites fugia!)
Não recordamos a lagoa de Auber
(e já fôramos lá, certo dia);
não pensamos no charco úmido de Auber
nem no bosque assombrado de Weir.


Quando a noite ia já desmaiada
e as estrelas chamavam pela aurora,
pálidos astros apontando a aurora,
eis que surge, no extremo da estrada,
uma luz fluida, nebulosa; e fora
dela se ergue um crescente recurvo,
diadema de Astarté, que se alcandora.
“Menos fria que Diana é essa estrela”,
digo, “a girar num éter feito de ais.
Viu o pranto, que a mágoa revela,
nas faces em que há vermes imortais
e, por onde o Leão se constela,
vem mostrar o caminho aos céus, letais
caminhos para a paz dos céus letais;
a despeito do Leão, vem-nos ela
iluminar, com olhos triunfais;
das cavernas do Leão, vem-nos ela,
cheia de amor nos olhos triunfais.”


Mas diz Psique, tremendo de aflição:
“Dessa estrela, por Deus, desconfia!
Desse estranho palor desconfia!
É preciso fugir de luz tão fria!
Apressemo-nos! Voemos, então!”
E, perdidas de tanta agonia,
suas asas se inclinavam para o chão;
soluçava e, de tanta agonia,
as plumas rastejavam pelo chão,
tristemente roçando pelo chão.


“Isso”, falei, “é um sonho de criança!
Oh! sigamos a luz que facina,
mergulhemos na luz cristalina!
É um clarão de beleza e de esperança
o que vem dessa luz sibilina.
Olha-a: entre as sombras, como gira e dança!
Guie-nos, pois, essa estrela, que ilumina
nossa estrada, com toda a confiança;
que nos guie para onde se destina.
Nessa estrela tenhamos confiança,
pois nas sombras, assim, volteia e dança!”


Dou um beijo a Psique, que a conforta,
impedindo que o medo se avolume,
que a dúvida, a tristeza se avolume,
e da estrela seguimos o lume
a té que nos deteve uma porta
de tumba, e uma legenda nessa porta.
“Doce irmã”, perguntei, “dessa porta
que tragédia a legenda resume?”
“Ulalume!” - responde-me. “Ulalume!”
“Essa é a tumba perdida de Ulalume!”


E me vi de tristezas referto,
como a folhagem seca que morria,
a folhagem fanada que morria!
E exclamei: “Era outubro, decerto,
e era esta mesma, há um ano, a noite fria
em que vim, a chorar, aqui perto,
fardo horrível trazendo, aqui perto!
Nesta noite das noites, sombria,
que demônio me arrasta aqui tão perto?
Bem reconheço agora o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem vejo o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir!”.



(Tradução de Osmar Mendes)



27 de dez de 2009

DE ESTRADAS & De Políticos





por Pedro Luso de Carvalho



Não é à toa que o Brasil esteja colocado entre os cinco países com maior número de acidentes de automóveis em todo o mundo: as estradas brasileiras estão um caos, em sua grande maioria. De norte a sul do país, é sempre a mesma coisa. Todos os dias novos registros de acidentes entram na triste estatística de morte e de incapacidade física de pessoas: ônibus, caminhões e carros de passeio que deixam a triste estatística crescer dia-a-dia.


Os motivos de tanta desgraça são muitos, como, por exemplo, estradas mal cuidadas, o álcool e outras drogas que prejudicam a atenção dos motoristas. Então, vemos pais perdendo seus filhos (o número de carros acidentados com jovens são os registros mais freqüentes), são filhos perdendo seus país, fato este que resulta sempre em perda insubstituível como em prejuízos que dizem respeito à manutenção das famílias, que, daí em diante, passam a enfrentar sérias dificuldades; e as viúvas sem estarem preparadas para isso, o que é óbvio, vêem-se na direção de suas famílias com o pouco dinheiro que passam a receber a título de pensão previdenciária, quando têm direito a ela.


E essa guerra nas estradas parece não ter fim, com o número de morte e invalidez aumentando a cada fim de semana e feriados, principalmente. Vê-se, todos os dias, a morte de pessoas que desfrutavam de uma vida com bons recursos, depois de terem trilhado por caminhos árduos até conseguirem uma estabilidade financeira e de assumirem a responsabilidade de criar seus filhos. Os locais desses tristes acontecimentos vão do sul ao norte do país, com suas estradas intransitáveis, na sua maioria - salvam-se as estradas administradas por empresas privadas, que cobram preços altos dos usuários para manterem as vias trafegáveis.


O fato é que o Brasil sempre viveu esses problemas das estradas sem condições de tráfego. Vemos com freqüência, em reportagens produzidas pelos meios de comunicação, estradas que não permitem um rodar normal dos veículos, que ficam atolados na lama, que os prende por horas ou mesmo dias, até que o tempo melhore ou que recebam alguma forma de socorro.


Os presidentes do Brasil, em todos os tempos, deram mostra de que desconhecem esse caos de nossas estradas e das mortes ceifadas por elas. Os políticos brasileiros de um modo geral, parecem que só tomam conhecimentos das precárias condições de nossas estradas durante o período de campanha eleitoral, quando se mostram conhecedores profundos desses problemas, bem como sabem o que deve ser feito para melhorá-las. Passadas as eleições, com elas o interesse dos políticos em dar estradas dignas dos brasileiros logo fica no passado.


E os políticos seguem no seu caminho em busca dos votos e de tudo o que possa aumentar os seus já elevados salários, pelo pouco que fazem. E o presidente Lula segue ignorando tudo o que acontece em seu redor (e está com alta cotação com o eleitorado!). Os políticos não se cansam de causar-nos vergonha pelos seus atos, como acontece com vários governadores, que estão envolvidos em escândalos financeiros, como é o caso da governadora Ieda, do Rio Grande do Sul, no caso Detran; o caso que envolve o governador Requião do Paraná, que empurrou goela abaixo dos paranaenses a nomeação de um irmão seu para o Tribunal de Contas, com o “singelo” salário de 22 mil reais por mês.


O governador do Distrito Federal (este, merece maior destaque), o “famoso” Arruda, e os políticos comparsas seus, que se apoderaram, de forma criminosa, como vimos pela televisão, de altas quantias de dinheiro, que escondiam nos bolsos, em valises, nas cuecas e até nas meias. Aos políticos interessam muito os bancos e as empreiteiras. E o Poder Judiciário, onde está? Será que o povo brasileiro merece tanto descaso, tanta impunidade? O certo é que, nas próximas eleições, eu não darei o meu voto para nenhum desses políticos: anularei o meu voto. E ponto final.


20 de dez de 2009

TOM ZÉ & A Revista Cult




por Pedro Luso de Carvalho

A revista Cult apresentou no seu nº 125, junho/2008, uma interessante entrevista com o cantor e compositor Tom Zé, na qual o músico falou de seu primeiro álbum gratuito na Internet. Mas, em se tratando desse tropicalista com tantos anos de estrada, não se poderia esperar que se limitasse a falar sobre o seu novo disco - o primeiro a lançar em formato virtual -, o inteligente Tom Zé, que por deleito pratica jardinagem no condomínio em que mora em São Paulo, quando não está envolvido com a música, falou de muitas coisas à revista, com sua peculiar desenvoltura e simpatia.


Vejamos, pois, o que Tom Zé disse a Cult, depois que o entrevistador falou-lhe dos formatos pelos quais ele passou na sua carreira: “Sim, mas a Internet era um lugar inimaginável. Quando era pequeno, uma lâmpada elétrica era um fato de um alumbramento tal que me lembro ainda hoje o dia que vi, na casa do farmacêutico de Irará, Seu Chaves, a lâmpada nua. Uma Lâmpada só era um objeto tão totêmico que não tinha nada para vestir uma lâmpada. Fiquei olhando aqueles raios, a cor, o tipo de luz era completamente diferente, uma luz que não tinha fonte. Enfim tudo da civilização foi um alumbramento e um encanto. Nos anos 1960, o único computador que tinha em São Paulo era do tamanho dessa sala, no Sesi. A pessoa para trabalhar botava um guarda-pó porque o bicho soltava algumas faíscas. Rapaz, são tantas coisas tão diferentes para quem veio da Idade Média como eu”.


Nas três páginas da entrevista da Cult, Tom Zé filosofou à vontade. Falou da falta de ética nos dias de hoje, no prazer que lhe dá fazer música nos dias atuais, de sua participação no novo disco dos Mutantes, com Sérgio Dias, e muito mais, como, por exemplo, na resposta que deu à revista sobre se ainda existem as gravadoras, no sentido clássico: “As grandes gravadoras - responde Tom Zé - não existem mais. As pessoas que trabalham com música ainda estão muito presas ao conceito de gravadora. A indústria acabou. Se um artista não consegue montar uma banda, gravar suas músicas e distribuí-las pela Internet é porque ele não foi feito para isso”.


15 de dez de 2009

THEODORE E FRANKLIN ROOSEVELT




por Pedro Luso de Carvalho



A atuação de quem preside os Estados Unidos (EUA) sempre foi, em todos os tempos, muito importante para os demais países, sejam eles ricos ou pobres; e, por sua importância, nunca será demais sabermos um pouco mais da política e dos políticos norte-americanos. Daí ter pensado em colocar em cena dois de seus presidentes, que tinham o mesmo sobrenome, quais sejam: Theodore “Teddy” Roosevelt e Franklin Delano Roosevelt.


Vejamos, pois, o que dizem sobre o paralelismo entre os presidentes Theodore e Franklin, os escritores John e Alice Durand, em sua obra Pictorial History of American Presidents, Barnes Nova York, 1969: "No dia 6 de setembro de 1901, o presidente dos E.U.A. William McKinley, era alvejado a tiros, em Bufalo, por um anarquista. Oito dias depois, morria. Sucedia-lhe no cargo, o dinâmico vice-presidente Theodore Roosevelt, de 43 anos. A presidência de Theodore Roosevelt (1901-09) identifica-se com o que Frederick L. Allen chamou de a revolta da consciência americana”.


Diz Allen, que “Em fevereiro de 1902, o ministro da Justiça de Roosevelt iniciou uma ação judiciária para obter a dissolução da Northen Security Company, baseado na Lei Sherman contra os trustes... Tratava-se de uma sociedade financeira fundada por J. Pierpont Morgan e Edward H. Harriman...” Nos anos que se sucederam, entre o presidente e a plutocracia foi mantida sem muita convicção. Theodore Roosevelt continuava sendo um presidente republicano e não podia afastar-se demais da linha de um partido que contava, entre seus adeptos, com a grande maioria dos ricos e privilegiados.


Mais alguns dados sobre Theodore Roosevelt: Além de ter sido eleito para a Assembléia do Estado de Nova York, chefiou os Rough Riders na guerra hispano-americana, assumiu o cargo de governado do esta de Nova York, foi eleito vice-presidente dos Estado Unidos, e, nessa condição, torna-se 26º presidente dos EUA, com a morte (assassinado) do presidente Mackinley; foi reeleito para a presidência, em 1904.

Franklin Delano Roosevelt, que integrou o Partido Democrata, foi 32° Presidente dos Estados Unidos da América, e o primeiro presidente reeleito mais de duas vezes; foi eleito em 1933 e reeleito em 1936, 1940 e 1944. Um dos feitos mais importantes de seu governo foi a restauração econômica dos Estados Unidos (New Deal), após a grave crise econômica de 1929-1932, iniciada com o crash da Bolsa de Nova York, a chamada Quinta-feira Negra (24 de outubro de 1929). Também foi no seu governo que os EUA passou a tomar parte na Segunda Guerra Mundial, a partir de 1941, após o ataque ao Pearl Harbor, na qual foi um dos principais responsáveis pela vitória dos aliados.


Franklin Delano Roosevelt teve muito em comum com Theodore “Teddy” Roosevelt. Ambos nasceram numa família muito rica; ambos tiveram, primeiramente, uma cadeira na Assembléia do Estado, e depois o subsecretariado da Marinha; ambos foram nomeados candidatos à vice-presidência (Teddy foi eleito, Franklin D. Roosevelt não). Ambos foram governadores de Nova York antes de se tornarem presidentes dos Estados Unidos.


Como reformadores e expoentes de revoluções econômicas e sociais (Teddy com seu Square Deal (Conduta Leal), Franklin D. Roosevelt com seu New Deal (Nova Conduta), ambos foram detestados ou adorados. O paralelismo continua na aversão de ambos, pelo que Teddy chamou de os ‘malfeitores da grande finança’ e Franklin ‘mercadores a escorraçar do tempo’...


Sem dúvida, o mais importante deles foi Franklin Delano Roosevelt, que mesmo depois de morto, é amado ou detestado, e os historiadores ainda discordam em seus julgamentos: para Arthur Schlesinger Jr., por exemplo, ele é o terceiro presidente estadunidense entre os grandes presidentes, depois de Abraham Lincoln e George Washington. Para Harry E. Barnes e Charles A. Beard, foi apenas um monumental charlatão".


Theodoro Roosevelt nasceu em 1858 na cidade de Nova York, e morreu em 6 de janeiro de 1919, na cidade em que nasceu, Nova York. Franklin Delano Roosevelt nasceu em 30 de Janeiro de 1882, em Nova York e morreu em 12 de Abril de 1945, em Warm Springs, no Estado da Georgia.




REFERÊNCIAS:
DURAND, John e Alice. Pictorial History of American Presidents. Barnes Nova York, 1969.
THOMAS, Henry e Dana Lee. Vida de Estadistas Americanos. Trad. Alzira Vallandro. Porto Alegre: Editora Globo, 1956.

6 de dez de 2009

QUEM FOI LENIN? - Terceira Parte




por Pedro Luso de Carvalho



A família Ulianov muda-se para Moscou no outono de 1893; Lenin resolve morar sozinho em São Petersburgo. Aí, nos seus primeiros anos, Lenin diz da importância de pensar com clareza para não se desviar do caminho por falsas tendências. As grandes distâncias russas resultam num isolamento entre as cidades mais importantes, e também com o interior do seu imenso território. Quebrar esse isolamento é o propósito de Lenin para ir ao encontro das personalidades importantes da social-democracia internacional. Para Lenin, é imperioso saber como se comporta o desenvolvimento do marxismo no Ocidente. Então, ainda muito jovem, vê-se no exterior, na sua primeira experiência. Na Suíça, encontra-se com Pleklanov; em Berlim, com Karl Liebknecht; em Paris, com o genro de Karl Marx, Paul Lafargue.


Assim Lenin foi descrito pelo bolchevista Potresov, em suas Memórias, por ocasião dessa viagem ao exterior: "rosto emagrecido, a cabeça quase completamente calva, apenas com alguns tufos de cabelo, uma pequena barba avermelhada. Sob as sobrancelhas os olhos entreabertos pareciam astutos e penetrantes. Os amigos brincavam, dizendo que nascera velho e calvo e que pelo aspecto físico um típico negociante da Rússia setentrional".


Após ter retornado a São Petersburgo, Lenin tenta delinear a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, que passa a atuar em cerca de vinte círculos marxistas; os locais escolhidos para essa ação, para a divulgação dos primeiros lineamentos marxistas entre os trabalhadores, por meio de manifestos e panfletos, são os centros industriais russos. Nessa época, ou seja, em meados de 1890, Vladimir Lenin não é ainda o líder entre os marxista em São Petersburgo; mas já é importante no círculo dirigente, composto de quarenta pessoas.


Em dezembro de 1895, são presos todos os membros do círculo dirigentes: o descuido de um jovem ativista, leva a polícia a prendê-lo; e encontra com ele as provas do primeiro número do jornal Classe Operária, cuja impressão era aguardada. O prisioneiro logo aponta à polícia os membros da organização. Lenin é conduzido ao cárcere da Rua Spalernaia, onde fica recluso por pouco mais mais de um ano. Nesse período, mantem-se ativo com suas leituras e correspondência com companheiros da prisão e os que se encontram fora dela. Entre os inocentes comunicados que escreve da prisão, Lenin dá instruções, pede notícias, redige proclamações e manifestos. Para evitar a depressão e outros problemas de saúde, Vladimir exercita-se.


Sobre a prisão de Lenin, Gerard Walter escreve: “Para o frio planejador que foi Lenin, até a prisão oferecia vantagens. Ele a considerava uma pausa útil para voltar à boa forma. Tinha problemas com o estômago, e jamais tivera tempo para tratar-se quando em liberdade. Agora finalmente seguiria uma férrea dieta, que antes lhe fora aconselhada por um médico suíço. Era, muitas vezes, atormentado por problemas com os dentes; consegue, na prisão, licença para tratá-los com um dentista particular. Longas horas de sono, ginástica e, contra o tédio, leituras recreativas, traduções e um trabalho obrigatório: a elaboração de um de seus livros fundamentais: O desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Podia ler e escrever à vontade na prisão, e ainda pedir livros da biblioteca. Recluso, não lhe faltam calma e reflexão. No fim da pena Lenin disse, entre brincalhão e sério: 'Que pena, não pude terminar meu trabalho'”.
.
Ainda sobre a prisão e condenação de Lenin, escreve Christofher Hill: “Lenin foi mantido na prisão por mais de um ano, tempo em que continuou a elaborar panfletos e declarações, escrevendo com leite guardado em 'tinteiros' de pão fáceis de engolir quando necessário. Sentia-se, entretanto, muito solitário. Sua futura esposa, Nadiejda Constantinovna Krupskaia, encontramo-la, pela primeira vez, em pé num determinado ponto da calçada fora da prisão, horas à espera de que Lenin pudesse olhá-la de relance através de uma janela enquanto os prisioneiros faziam exercício”.


“ Quando a final foi submetido a julgamento – diz Hill -, Lenin viu-se condenado a três anos de exílio na Sibéria, Chuchenskoie, perto de Minusinski, na Província de Jenissei. A não ser pelo clima adverso, e pelo fato de uma fuga tornar-se impraticável em região tão desolada e inacessível, as condições desse degredo não eram demasiado severas: Lenin ali pode receber livros para estudar, escreveu muita coisa, e completou O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Uma vez por semana podia livremente falar com os camponeses sobre questões jurídicas. E maio de 1898 viu chegar Krupskaia, que também fora condenada ao exílio e com quem se casou mesmo na Sibéria”.


Sobre a companheira de Lenin, escreve Curzio Malaparte: Nadejda Konstantinovna Krupskaia teve, na vida de Lenin singular importância: representa uma parte que surpreende até mesmo os que vêem em Lenin o Gêngis Khan da revolução proletária. Mulher enérgica e muito inteligente, de olhos claros e salientes, olhar doce e lento lábios grossos e moles, espírito claro e limitado, caráter paciente e resoluto, Nadejda Konstantinovna Krupskaia não foi apenas a secretária do revolucionário profissional, mas sua colaboradora devotada e incansável, mulher no sentido mais burguês do termo, aquela que, tanto em Chutchenskoie [Sibéria], como em Londres, Paris e Zurique, nos tristes anos de exílio, ou nos trágicos dias da revolução, zelará pela saúde de Lenin, pelo seu trabalho, descanso, suas distrações, e lhe proporcionará um ambiente doméstico simples mas tranqüilo, num clima de confiança e tranquilidade familiar”.


L. Fotieva (Lydia Alexandrovna Fotieva), autora do livro traduzido do russo para o espanhol com o título De la vida de Lenin, e depois traduzido para o português, por Zuleika Alambert, com o título de Lenin, escreve: “Antes de minha chegada a Genebra, não tinha uma idéia exata do caráter e do tamanho das divergências entre os bolchevistas e os menchevistas. No entanto, mesmo o pouco que chegava até nós fazia com que inclinássemos para os bolchevistas. Assim é que, quando cheguei a Genebra, senti todas as minhas simpatias voltadas para os bolchevistas – mais por intuição, que por compreensão absoluta – e a seguir incorporei-me ao seu círculo. Somente em Genebra, quando comecei a ler ávidamente a literatura do Partido, sobretudo o livro de Lenin Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás, e conversando com os camaradas de mais idade, compreendi plenamente toda a profundidade e antagonismo das divergência entre Bolchevistas e Menchevistas”.


Sobre a vida de Lenin com sua mulher, em Genebra, diz L. Fotieva: “Foi nesse ambiente complicado, tenso e difícil em que me encontrei ao incorporar-me à colônia de emigrados em Genebra, no verão de 1904. Vladimir Ilitch e Nadiejda Constantinovna voltaram logo. Meu encontro com eles produziu-me enorme impressão. Era surpreendente a simplicidade e afabilidade deles. Era surpreendente a singular perspicácia de Vladimir Ilitch. Diziam que lia até o fundo da alma das pessoas”. L. Fotieva diz ainda, que, ao trabalhar com Nadiejda sentiu por ela um grande afeto. Afirma também que Nadiejda era uma pessoa equilibrada, tranqüila e cordial; e que possuía conhecimentos teóricos e grande experiência do trabalho partidário.


No próximo artigo sobre a vida de Lenin [QUEM FOI LENIN – QUARTA PARTE], escreverei ainda sobre fatos políticos e fatos que envolveram Lenin e Nadiejda, no período do exílio do casal, que antecedem à sua volta à Rússia. Para a leitura do primeiro artigo, sobre a vida de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin , clique em QUEM FOI LENIN? - QUARTA PARTE.



REFERÊNCIAS:
WALTER, Gerard. Lenin. Paris: Edições Albin Michel, 1971.
MALAPARTE, Curzio. Lenin, Boa Criatura. Itália: ed. Vallechi, 1962.
PALTRINIERE, Marisa. Lenin. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1975.
FOTIEVA, L. Lenin. Trad. de Zuleika Alambert. São Paulo: Editora Fulgor, 1963.
HILL, Christofher. Lenin e a Revolução Russa'. Trad. De Geir Campos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1963.