21 de fev de 2010

ENTREVISTA / Simone de Beauvoir


por Pedro Luso de Carvalho

A escritora francesa Simone de Beauvoir, romancista, memorialista e filósofa, tornou-se famosa tanto pela boa qualidade dos livros que publicou como pelo fato de ter sido a companheira de Jean-Paul Sartre. O seu livro filosófico O Segundo Sexo (Deuxième sexe), publicado em 1949, causou escândalo entre os leitores franceses dessa época pela crítica contra a cultura patriarcal do ocidente. Essa obra também foi importante para firmar a reputação de Simone de Beauvoir como importante intelectual. Essa reputação de intelectual é mantida até os dias atuais. A obra O Segundo Sexo bem como outros livros seus são freqüentemente reeditados em muitos países da Europa das Américas do Sul e do Norte.


Simone de Beauvoir conheceu Sartre na Sorbonne, quando se preparava para bacharelar-se em filosofia. Também aí começaria a relação íntima entre os dois, que duraria até a morte do filósofo, em 1980, sem que jamais tivessem casado - Sartre e Simone não aceitava o casamento, a monogamia e filhos. A partir da publicação do primeiro romance, A Convidada (L'Invitée), em 1943, a escritora desligou-se do liceus de Marselha e de Paris, onde ensinava filosofia, para dedicar-se em tempo integral à literatura. Não tardou para publicar o seu segundo romance, O Sangue dos Outros (Le Sang des Autres), sobre a Segunda Guerra Mundial, mais propriamente sobre a ocupação da França pela Alemanha, e a luta da Resistência francesa contra os nazistas.
O terceiro romance veio cinco anos depois. Além das obras de ficção, a escritora publicou uma peça para o teatro e inúmeros ensaios filosóficos, no qual se inclui O Segundo Sexo, em 1949. Três anos antes, fundou com Sartre a revista mensal Les Temps Modernes, que se tornaria importante veículo para divulgar o existencialismo francês.


As obras de Simone de Beauvoir já traduzidas, e publicadas no Brasil pela Difusão Européia do Livro são: A Convidada, Todos os Homens são Mortais, Memórias de uma Moça bem Comportada, O Segundo Sexo: I. Os Fatos e os Mitos , II. A Experiência Vivida, Na Força da Idade, 2 vols., Os Mandarins, 2 vols., As Belas Imagens, O Sangue dos Outros e Mulher Desiludida. A Editora Nova Fronteira publicou três obras muito importantes da escritora: Uma Morte Muito Suave (narra a morte de sua mãe pelo câncer, depois de ter sido internada numa clínica de Paris para tratar de uma fratura do fêmur), Os Mandarins (um de seus mais importantes romances), A cerimônia do Adeus, 604, págs. (seguido de entrevistas com Sartre), A Velhice, 711 págs. (talvez o ensaio contemporâneo mais importante sobre a vida dos idosos).

Passemos agora a anunciada entrevista (trechos) concedida por Simone de Beauvoir à Madeleine Gobeil, da The Paris Review (In Escritoras e a arte da escrita, edição de George Plimpton, Ed. Gryphus, Rio de Janeiro, 2001). Antes, porém, da entrevista, alguns dados (não a biografia, obviamente) para quem não conhece a escritora: Simone de Beauvoir nasceu em Paris, no dia 9 de janeiro de 1908. Nasceu no bairro Montparnasse, que sempre foi o endereço de importantes escritores e pintores franceses e estrangeiros,como ocorreucom Picasso, entre outros. (Sobre a famosa The Paris Review, contamos parte de sua históriaaqui no Blog Panorama, cujo link está inserido no final deste texto.)


Como o nosso propósito não é escrever a biografia de Simone de Beauvoir, passemos à entrevista, feita em seu apartamento na 'rue' Schoëlcher, em Montparnasse, que ficava bem próximo ao apartamento de Sartre. A entrevistadora Madeleine Gobeil faz referência ao livro de memórias de Simone de Beauvoir, que na época desse encontro esteve preparando a sete anos, e pergunta se a sua vocação e a sua profissão, deveu-se à perda da fé religiosa; a escritora responde:


“É muito difícil para uma pessoa relembrar o seu passado sem trapacear um pouco. Meu desejo de escrever começou muito antes disso. Eu já escrevia histórias aos oito anos, mas muitas crianças fazem a mesma coisa, o que não quer dizer que tenham vocação para escrever. No meu caso, pode ser que a vocação tenha se acentuado porque perdi a fé religiosa; também é verdade que li livros que me comoveram profundamente, como The Mill on the Floss (O moinho à beira do rio), de George Elliot. Quis muito ser como ela, alguém cujos livros seriam lidos e comoveriam os leitores”.


De Beauvoir, como é tratada a escritora pela The Paris Review, é perguntada se foi influenciada pela literatura inglesa, e esta foi sua resposta: “Estudar inglês foi uma das minhas paixões desde a infância. Há um repertório de literatura infantil em inglês muito mais encantador do que em francês. Eu adorava ler Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas), Peter Pan, George Eliot e até Rosamond Lehmann”.


Ainda nessa linha de literatura infantil, a entrevistadora pergunta sobre Dusty Answer (Poeira); a escritora então fala da paixão que tinha pelo livro, embora fosse quase medíocre; diz também que o livro era muito apreciado pelas meninas de sua geração. Diz mais: “Quanto a mim, eu invejava a vida universitária na Inglaterra, porque vivia em casa e nem sequer tinha um quarto só meu. Na verdade, não possuía nada. E embora aquela vida não fosse livre, dava espaço para a privacidade, por isso me parecia magnífica. A autora (Dusty Answer) conhecia todos os mitos das meninas na adolescência – belos rapazes com ar misterioso, etc. Mais tarde, naturalmente, li as irmãs Brontë e de Virginia Woolf: Orlando, Mrs. Dalloway. Não gosto de The Waves (As Vagas), mas aprecio muito, muito mesmo, seu livro sobre Elizabeth Barrett Browning”.


Madeleine Gobeil (The Paris Review) pergunta a Simone Beauvoir sobre o diário de Virginia Woolf; esta a sua resposta: “Interessa-me menos. É muito literário. É fascinante, mas distante de mim. Ela se preocupa demais imaginando se será publicada e com o que as pessoas dirão a seu respeito. Gostei bastante de A Room of One's Own, no qual ela fala sobre a situação das mulheres. É um ensaio curto, mas acerta em cheio. Explica muito bem porque as mulheres não conseguem escrever. Virginia Woolf é uma das escritoras que mais me interessam. Você já viu uma foto dela? Um rosto extremamente solitário... de certa forma, ela me interessa mais do que Colette. Afinal de contas, Colette se envolve muito com seus pequenos casos amorosos, com assuntos domésticos, com a roupa lavada, os animais de estimação. Viginia Woolf tem uma maior dimensão”.


Nesta altura da entrevista passemos por cima de suas respostas sobre a importância da educação universitária para o escritor, para deter-nos sobre o que De Beauvoir responde a respeito de ter ficado escrevendo dez anos até ter seu livro publicado, aos 36 anos. A entrevistadora pergunta se por isso ela nunca se sentiu desencorajada, e esta foi sua resposta:


“Não, porque no meu tempo era raro publicar quando se era jovem. Naturalmente, há uma ou duas exceções, como Radiguet, que foi um prodígio. O próprio Sartre só publicou com já estava com 35 anos, quando A Nausea e O Muro foram comprados. Quando meu primeiro livro foi rejeitado por uma editora, senti-me um pouco desencorajada, foi muito desagradável. Pensei então que deveria me dar um tempo. Conhecia muitos escritores que demoraram a dar a partida. As pessoas sempre mencionam o caso de Stendhal, que só começou a escrever depois dos 40 anos.”


Respondendo a pergunta se foi influenciada por algum escritor norte-americano, ao escrever os seus primeiros romances, responde: “Quando escrevi A Convidada fui influenciada por Hemingway, pois foi ele quem nos ensinou como usar um certo despojamento no diálogo e a importância das pequenas coisas da vida.”


Para encerar, mais um trecho da entrevista; vejamos o que Simone de Beauvoir responde a Madeleine Gobeil, da The Paris Review, quando esta pergunta-lhe se Beckett sentiu agudamente o logro da condição humana, e se Acha que ele é mais interessante do que os outros “novos romancistas? De Beauvoir responde:


“Certamente. Toda a especulação com o tempo empregado com o “novo romance” pode ser encontrada em Faulkner. Foi ele que nos ensinou como fazê-lo, e na minha opinião ele é quem o faz melhor. Quanto a Beckett, seu modo de enfatizar o lado escuro da vida é muito belo. Contudo, ele está convencido de que a vida é escura, só isso. Eu também estou convencida de que a vida é escura, mas ao mesmo tempo, amo a vida. Essa convicção parece ter estragado tudo para ele. Quando isto é tudo o que você pode dizer, não há 50 maneiras de dizê-lo; e por isso muitas das suas obras são meras repetições do que ele já disse. Endgame repete Waiting for Godot, de um modo mais fraco.”


Além dos escritores mencionados nessa entrevista, Simone de Beauvoir conta no seu livro Na força da Idade (La force de l'âge), publicada no Brasil em 1961 pela Difusão Européia, quais são outros escritores importantes para ela; e ela então os enumera: Whitman, Blake, Yeats, Synge, Sean O'Casey, todos os livro de Virginia Woolf, Henry James (toneladas, diz ela), George Moore, Swinburne, Swinnerton, Rebecca West, Sinclair Lewis, Dreiser, Sherwood Anderson, Doroty Richardson (que em dez volumes não contou absolutamente nada, diz Simone), Alexandre Dumas, as obras de Népomucène Lemercier, as de Baour-Lormian, os romances de Gobineau, todo Restif de La Bretonne, as cartas de Diderot e Sophie Volland e também Hoffmann, Sudermann, Kelermann, Pio Baroja, Panaït Istrati.


Simone de Beauvoir foi contemplada com o famoso Prêmio Goncourt, em 1954. Foi uma importante escritora feminista. Com Sartre, visitou o Brasil no final de 1960. Na visita que Simone e Sartre fizeram a Cuba foram recepcionados por Fidel Castro e por Che Guevara. Simone de Beauvoir morreu em Paris, em 14 de abril de 1986, aos 78 anos.

9 de fev de 2010

TOM JOBIM / João Gilberto e Miles Davis



por Pedro Luso de Carvalho


Nelson Motta conta, no seu livro Noites Tropicais (Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2000, fls. 402/403), passagens sobre o famoso Festival de Montreux, Canadá (desde 1978, o Festival Internacional de Jazz de Montreux conta com a presença da música brasileira), onde Antonio Carlos Jobim e João Gilberto se apresentariam, entre outros músicos de renome internacional, dentre eles, Miles Davis. Vejamos o que Nelson Motta escreveu sobre esse encontro de feras da música nesse festival de Montreux (trecho):


“Quando chego a Montreux, o diretor do festival, Claude Nobis, está eufórico: João Gilberto já chegou. Antonio Carlos Jobim é esperado a qualquer momento: vai dividir com João a Noite brasileira. Miles Davis também já chegou e Ella Fitzgerald, Kid Creole and the Coconuts, Astor Piazzolla e King Sunny Adé chegam nos próximos dias junto com estrelas que fazem as 20 noites do festival.


"João e Tom - prossegue Motta - não se apresentam juntos há 23 anos, desde o histórico show do Au Bom Gourmet junto com Vinícius e Os Cariocas. E Claude está excitado com a possibilidade de que eles façam duas ou três músicas juntos: o festival é gravado inteiro para disco (e lançado pela Warner) e um dueto de tom e João é uma preciosidade. João não diz que sim nem que não e Tom está na Espanha fazendo Shows com sua Banda Nova e seu quinteto vocal feminino”.


Prossegue Nelson Motta com sua narrativa: “No bar do cassino encontro os amigos Nesuhi Ertegun, big bos da Warner e grande fã de João, e Tommy LiPuma, que produziu Amoroso, um dos grandes discos de João. LiPuma também é o produtor de Miles Davis e diz que um dos seus grandes sonhos é juntar os dois, e que Miles adora a idéia. Diz que a música de João e de Tom mudaram o jeito de Miles tocar no início dos anos 60, quando gravou, com arranjos de Gil Evans, o seu histórico Lp Quiet Nigths”.


Sobre Miles Davis devo dizer alguma coisa. Miles Davis foi, dentre os trobetistas, a estrela maior do estilo cool. Não se pode esquecer, no entanto, que teve como mestre nada menos que Charlie Parker e Lester Young, este um expoente do estilo cool. Em razão de sua constante evolução, Miles deixaria esse estilo para emigrar para o jazz rock, nos anos 70; Miles foi um dos inventores desse estilo.


No estilo jazz rock pode-se pensar que Miles deixara de lado a livre sonoridade, uma das principais qualidades do jazz negro; mas não. Em Miles essa livre sonoridade aparecia como neutra; foi descrita como a de um homem que pisa em ovos: fina, leve, curiosamente velada. “Miles Davis deu novo sentido ao vibrato – diz André Francis -, dotando-o de uma estrutura rítmica extremamente nova em notas escolhidas (ponto em que deve algo a Charlie Parcker e Leste Young) engendrando assim um swing intenso”. (Jazz, Martins Fontes, São Paulo, 1987).


Hoje, apenas podemos ficar imaginando nos palcos do Brasil, em Montreaux ou em qualquer parte do mundo, esses três gênios do jazz/bossa nova: Miles Davis, Tom Jobim e João Gilberto. Infelizmente, Miles e Tom já nos deixaram, há algum tempo. Felizmente, ainda podemos ouvir João Gilberto cantar, acompanhando-se ao violão, em cujas audições haveremos sempre de homenageá-lo com o nosso silêncio, em atenção a essa exigência do mestre, que, convenhamos, merece.
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1 de fev de 2010

MONTEIRO LOBATO & Lima Barreto



                      
                 por Pedro Luso de Carvalho
             
       Nesta semana, estive mexendo nos meus livros à procura de Contos Pesados, de Monteiro Lobato, escrito em 1940. Para minha surpresa, ao lado de Contos Pesados deparei-me com Críticas e Outras Notas, vol. 18, das Obras Completas de Monteiro Lobato, com publicação da Editora Brasiliense, São Paulo, 1965. Passando os olhos pelo índice, ali estava o comentário sobre Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá; lembrei-me que depois que li a crítica de Lobato, sobre esse livro (em Críticas e Outras Notas), lá pela sugunda metade dos anos 60, quando ainda freqüentava os bancos universitários, foi que passei a interessar-me pela obra de Lima Barreto.

        Então, falemos um pouco do que encontrei em Críticas e Outras Notas: no ano de 1919, Monteiro Lobato edita, em sua editora, a obra de Lima barreto: Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Tal edição resulta em fracasso. Lobato coloca a culpa pelo mau êxito editorial no título do romance, como ele próprio diz a Barreto, em carta que lhe escreve: “Teu livro sai pouco, sabe por que? O título! O título não é psicologicamente comercial. O bom título é metade do negócio. Ao ler o título de teu romance toda gente supõe que é a biografia de... ilustre desconhecido”. (Carta de 23/111919 – Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, em Os cadernos de Cultura, organizado por Edgar Cavalheiro.)

        Sobre esse romance de Lima Barreto, Monteiro Lobato escreve um artigo com o título Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, publicado em São Paulo pela Revista do Brasil', nº 39, em março de 1919, pág. 352, como segue:

        “De Lima Barreto não é exagero dizer que lançou entre nós uma fórmula nova de romance. O romance de crítica social sem doutrinarismo dogmático. Surgiu com as Memórias do Escrivão Isaías Caminha de que pouco falou a imprensa na pessoa de eminentes jornalistas postos em cena com inaudita irreverência. Publicou depois o Triste Fim de Policarpo Quaresma, e está na memória de todos a impressão profunda, algo desnorteadora, desse magnífico estudo de caracteres e costumes, onde se escalpam cruamente umas tantas idéias correntes, transformadas em tabu pela ausência de crítica sincera.”

        “Em seguida – escreve Monteiro Lobato -, tomado ao rodapé da Noite, tivemos Numa e Ninfa, mais fracos que os anteriores, e visivelmente prejudicado pelo apressado da composição. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá vem agora completar uma série suficiente para colocar o autor em plano de alto destaque na plêiade de nosos romancistas. Revela-se neste a mesma qualidade primacial obaservada nos anteriores: forte poder de empolgar o leitor, da primeira à última linha. Ninguém interrompe por fastio, a leitura dos seus livros – esse mortal fastio que nos leva a 'admirar' tantos autores inibindo-nos de os ler. Vida e Morte é um romance pouco romanceado. Nenhuma tragédia dentro; apenas o entaperar-se progressivo dum espírito superior enleado pelo cipó mortífero da burocracia. Gonzaga de Sa vê-se um dia entalado nas engrenagens desse Moloque transformador de homens em bonecos de engoço”.

        “Reage, mentalmente - prossegue Lobato - apenas: é muito fraco para sacudir os músculos e desempegar-se da massa viscosa; a iniciativa lhe morre, a resignação sobrevem. Gonzaga, vencido, deixa-se boiar como um ex-homem à tona da lagoa de águas verdes, sofrendo em silêncio o contato doloroso dos gelatinosos colegas. Vinga-se confabulando com o interlocutor que o acom,panha através do livro inteiro. Sua vingança, vingança calma de velho filósofo, resume em dissertar sobre homens e coisas com ática superioridade. É um Mr. Bergeret carioca, irônico e cético, paradoxal e compeensivo, por cujo civo de análise se coam todos os aspectos da velha cidade. O Rio está inteiro nesse livro, nas paisagens naturais, na paisagem urbana, na população caleidoscópica – salada de raças em que o mestiço esbarra com loiras mulheres gaulesas e inconciente missão civilizatória. Sucedem-se os flagrantes, os instantâneos cinematográficos onde a alma das gentes e das coisas é apanhada ao vivo e escorchada às vezes o mais íntimo dos recessos."
       

        “Nos livros cariocas – conclui Lobato – de Machado de Assis o leitor entrevê desvãos do Rio. Machado, criador de almas, raro curava da paisagem urbana. Em Lima Barreto conjugam-se equilibradamente as duas coisas: o desenho dos tipos ea a pintura do cenário; por isso dá ele, melhor que ninguém, a sensação carioca. É um revoltado em período manso de revolta. Em vez de cólera, ironia; em vez de diatribe, essa nonchalanche filosofante de quem vê a vida sentado num café e amolentado por um dia de calor...”


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3 de jan de 2010

[Poesia] EDGAR ALLAN POE / Ulalume



             por Pedro Luso de Carvalho
       
         Sobre o genial escritor Edgar Allan Poe (1809-1849) escrevi três textos, que se encontram postados neste espaço, quais sejam: Edgar Allan Poe e sua Antologia de Contos; O Corvo e Annabel Lee. Num desses textos, fiz menção ao seguinte fato: no ano de 1847, o escritor norte-americano tem algumas de suas histórias traduzidas para o francês, por Charles Baudelaire (1821-1867), dentre eles um dos famosos contos de Poe, qual seja, A Queda da Casa de Usher; Baudelaire também escreve o prefácio das obras de Poe. Eis um trecho do prefácio de Baudelaire:

        “Como poeta Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.

        Charles Baudelaire prossegue sua análise sobre os poemas de Poe, dizendo: “Há um pequeno poema seu intitulado Os Sinos”, que é uma verdadeira curiosidade literária; traduzível, porém, não o é; O Corvo logrou grande êxito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson, é uma maravilha. O assunto é quase nada, e é uma pura obra de arte. O tom é grave e quase sobrenatural, como os pensamentos da insônia; os versos caem um a um, como lágrimas monótonas; No país dos sonhos tentou descrever a sucessão dos sonhos e das imagens fantásticas que assaltam a alma, quando o olho corpóreo está cerrado”.

        A consagração de Poe, dois anos antes de sua morte, deveu-se não apenas ao conto, mas também aos seus brilhantes ensaios e aos seus poemas magistrais. Efetivamente, a imaginação de Poe era extraordinária, qualidade que se somava a outra, qual seja, a de ter sido intransigente no tocante à excelência literária de sua obra. Mas, assim não entendiam os pseudos intelectuais da época, que não compreendiam a grandiosidade da obra de Poe. Para os críticos europeus, até o ano de 1847, quando Baudelaire traduziu Poe, os Estados Unidos tinham uma literatura de segunda categoria.
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        Julio Cortázar menciona os motivos da tardia aceitação da obra de Poe pelos norte-americanos, qual seja, de estarem os Estados Unidos atrelados à literatura do século XVIII, com “péssimos romances e poemas, ensaios triviais ou extravagantes, contos insípidos”; e mais: que entre os anos de 1830 e 1850 os Estados Unidos estavam iniciando sua história literária, e que os poucos escritores de talento eram: James Russel Lowell, Hawthorne, Emerson e Longfellow.

        Exemplo desse cuidado com sua obra é o seu imortal poema O Corvo, que foi traduzido inúmeras vezes para vários idiomas; para o idioma português, a tradução foi feita por dois mestres da literatura: o brasileiro Machado de Assis e o português Fernando Pessoa. As primeiras traduções de O Corvo, foram feitas pelos franceses Baudelaire e Mallarmé. Outros poemas, como Ulalume, Annabel Lee, Tamerlão, Os Sinos e Al Aaraaf, entre outros, gozam de igual celebridade. Para quem não conhece ULALUNE, esta é a oportunidade para ler esse excelente poema de Edgar Allan Poe.

            

         ULALUME


Era o céu de um cinzento funerário
e a folhagem, fanada, morria,
a folhagem, crispada, morria;
era noite, no outubro solitário
de ano que já me não lembraria;
ficava ali bem perto o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem perto, o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir.


Lá, uma vez, por um renque titânico
de ciprestes, vagueei, em desconsolo.
Era então o meu peito vulcânico
qual torrente de lava que no solo
salta, vinda dos cumes de Yaanek,
nas mais longínquas regiões do pólo,
que ululando se atira do Yaanek
nos panoramas árticos do pólo.


Tristonha e gravemente conversamos,
mas a idéia era lassa e vazia
e a memória traidora e vazia;
que o mês era de outubro não lembramos,
nem soubemos que noite fugia.
(Ai! A noite das noites fugia!)
Não recordamos a lagoa de Auber
(e já fôramos lá, certo dia);
não pensamos no charco úmido de Auber
nem no bosque assombrado de Weir.


Quando a noite ia já desmaiada
e as estrelas chamavam pela aurora,
pálidos astros apontando a aurora,
eis que surge, no extremo da estrada,
uma luz fluida, nebulosa; e fora
dela se ergue um crescente recurvo,
diadema de Astarté, que se alcandora.
“Menos fria que Diana é essa estrela”,
digo, “a girar num éter feito de ais.
Viu o pranto, que a mágoa revela,
nas faces em que há vermes imortais
e, por onde o Leão se constela,
vem mostrar o caminho aos céus, letais
caminhos para a paz dos céus letais;
a despeito do Leão, vem-nos ela
iluminar, com olhos triunfais;
das cavernas do Leão, vem-nos ela,
cheia de amor nos olhos triunfais.”


Mas diz Psique, tremendo de aflição:
“Dessa estrela, por Deus, desconfia!
Desse estranho palor desconfia!
É preciso fugir de luz tão fria!
Apressemo-nos! Voemos, então!”
E, perdidas de tanta agonia,
suas asas se inclinavam para o chão;
soluçava e, de tanta agonia,
as plumas rastejavam pelo chão,
tristemente roçando pelo chão.


“Isso”, falei, “é um sonho de criança!
Oh! sigamos a luz que facina,
mergulhemos na luz cristalina!
É um clarão de beleza e de esperança
o que vem dessa luz sibilina.
Olha-a: entre as sombras, como gira e dança!
Guie-nos, pois, essa estrela, que ilumina
nossa estrada, com toda a confiança;
que nos guie para onde se destina.
Nessa estrela tenhamos confiança,
pois nas sombras, assim, volteia e dança!”


Dou um beijo a Psique, que a conforta,
impedindo que o medo se avolume,
que a dúvida, a tristeza se avolume,
e da estrela seguimos o lume
a té que nos deteve uma porta
de tumba, e uma legenda nessa porta.
“Doce irmã”, perguntei, “dessa porta
que tragédia a legenda resume?”
“Ulalume!” - responde-me. “Ulalume!”
“Essa é a tumba perdida de Ulalume!”


E me vi de tristezas referto,
como a folhagem seca que morria,
a folhagem fanada que morria!
E exclamei: “Era outubro, decerto,
e era esta mesma, há um ano, a noite fria
em que vim, a chorar, aqui perto,
fardo horrível trazendo, aqui perto!
Nesta noite das noites, sombria,
que demônio me arrasta aqui tão perto?
Bem reconheço agora o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem vejo o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir!”.



(Tradução de Osmar Mendes)



27 de dez de 2009

DE ESTRADAS & De Políticos





por Pedro Luso de Carvalho



Não é à toa que o Brasil esteja colocado entre os cinco países com maior número de acidentes de automóveis em todo o mundo: as estradas brasileiras estão um caos, em sua grande maioria. De norte a sul do país, é sempre a mesma coisa. Todos os dias novos registros de acidentes entram na triste estatística de morte e de incapacidade física de pessoas: ônibus, caminhões e carros de passeio que deixam a triste estatística crescer dia-a-dia.


Os motivos de tanta desgraça são muitos, como, por exemplo, estradas mal cuidadas, o álcool e outras drogas que prejudicam a atenção dos motoristas. Então, vemos pais perdendo seus filhos (o número de carros acidentados com jovens são os registros mais freqüentes), são filhos perdendo seus país, fato este que resulta sempre em perda insubstituível como em prejuízos que dizem respeito à manutenção das famílias, que, daí em diante, passam a enfrentar sérias dificuldades; e as viúvas sem estarem preparadas para isso, o que é óbvio, vêem-se na direção de suas famílias com o pouco dinheiro que passam a receber a título de pensão previdenciária, quando têm direito a ela.


E essa guerra nas estradas parece não ter fim, com o número de morte e invalidez aumentando a cada fim de semana e feriados, principalmente. Vê-se, todos os dias, a morte de pessoas que desfrutavam de uma vida com bons recursos, depois de terem trilhado por caminhos árduos até conseguirem uma estabilidade financeira e de assumirem a responsabilidade de criar seus filhos. Os locais desses tristes acontecimentos vão do sul ao norte do país, com suas estradas intransitáveis, na sua maioria - salvam-se as estradas administradas por empresas privadas, que cobram preços altos dos usuários para manterem as vias trafegáveis.


O fato é que o Brasil sempre viveu esses problemas das estradas sem condições de tráfego. Vemos com freqüência, em reportagens produzidas pelos meios de comunicação, estradas que não permitem um rodar normal dos veículos, que ficam atolados na lama, que os prende por horas ou mesmo dias, até que o tempo melhore ou que recebam alguma forma de socorro.


Os presidentes do Brasil, em todos os tempos, deram mostra de que desconhecem esse caos de nossas estradas e das mortes ceifadas por elas. Os políticos brasileiros de um modo geral, parecem que só tomam conhecimentos das precárias condições de nossas estradas durante o período de campanha eleitoral, quando se mostram conhecedores profundos desses problemas, bem como sabem o que deve ser feito para melhorá-las. Passadas as eleições, com elas o interesse dos políticos em dar estradas dignas dos brasileiros logo fica no passado.


E os políticos seguem no seu caminho em busca dos votos e de tudo o que possa aumentar os seus já elevados salários, pelo pouco que fazem. E o presidente Lula segue ignorando tudo o que acontece em seu redor (e está com alta cotação com o eleitorado!). Os políticos não se cansam de causar-nos vergonha pelos seus atos, como acontece com vários governadores, que estão envolvidos em escândalos financeiros, como é o caso da governadora Ieda, do Rio Grande do Sul, no caso Detran; o caso que envolve o governador Requião do Paraná, que empurrou goela abaixo dos paranaenses a nomeação de um irmão seu para o Tribunal de Contas, com o “singelo” salário de 22 mil reais por mês.


O governador do Distrito Federal (este, merece maior destaque), o “famoso” Arruda, e os políticos comparsas seus, que se apoderaram, de forma criminosa, como vimos pela televisão, de altas quantias de dinheiro, que escondiam nos bolsos, em valises, nas cuecas e até nas meias. Aos políticos interessam muito os bancos e as empreiteiras. E o Poder Judiciário, onde está? Será que o povo brasileiro merece tanto descaso, tanta impunidade? O certo é que, nas próximas eleições, eu não darei o meu voto para nenhum desses políticos: anularei o meu voto. E ponto final.


20 de dez de 2009

TOM ZÉ & A Revista Cult




por Pedro Luso de Carvalho

A revista Cult apresentou no seu nº 125, junho/2008, uma interessante entrevista com o cantor e compositor Tom Zé, na qual o músico falou de seu primeiro álbum gratuito na Internet. Mas, em se tratando desse tropicalista com tantos anos de estrada, não se poderia esperar que se limitasse a falar sobre o seu novo disco - o primeiro a lançar em formato virtual -, o inteligente Tom Zé, que por deleito pratica jardinagem no condomínio em que mora em São Paulo, quando não está envolvido com a música, falou de muitas coisas à revista, com sua peculiar desenvoltura e simpatia.


Vejamos, pois, o que Tom Zé disse a Cult, depois que o entrevistador falou-lhe dos formatos pelos quais ele passou na sua carreira: “Sim, mas a Internet era um lugar inimaginável. Quando era pequeno, uma lâmpada elétrica era um fato de um alumbramento tal que me lembro ainda hoje o dia que vi, na casa do farmacêutico de Irará, Seu Chaves, a lâmpada nua. Uma Lâmpada só era um objeto tão totêmico que não tinha nada para vestir uma lâmpada. Fiquei olhando aqueles raios, a cor, o tipo de luz era completamente diferente, uma luz que não tinha fonte. Enfim tudo da civilização foi um alumbramento e um encanto. Nos anos 1960, o único computador que tinha em São Paulo era do tamanho dessa sala, no Sesi. A pessoa para trabalhar botava um guarda-pó porque o bicho soltava algumas faíscas. Rapaz, são tantas coisas tão diferentes para quem veio da Idade Média como eu”.


Nas três páginas da entrevista da Cult, Tom Zé filosofou à vontade. Falou da falta de ética nos dias de hoje, no prazer que lhe dá fazer música nos dias atuais, de sua participação no novo disco dos Mutantes, com Sérgio Dias, e muito mais, como, por exemplo, na resposta que deu à revista sobre se ainda existem as gravadoras, no sentido clássico: “As grandes gravadoras - responde Tom Zé - não existem mais. As pessoas que trabalham com música ainda estão muito presas ao conceito de gravadora. A indústria acabou. Se um artista não consegue montar uma banda, gravar suas músicas e distribuí-las pela Internet é porque ele não foi feito para isso”.


15 de dez de 2009

THEODORE E FRANKLIN ROOSEVELT




por Pedro Luso de Carvalho



A atuação de quem preside os Estados Unidos (EUA) sempre foi, em todos os tempos, muito importante para os demais países, sejam eles ricos ou pobres; e, por sua importância, nunca será demais sabermos um pouco mais da política e dos políticos norte-americanos. Daí ter pensado em colocar em cena dois de seus presidentes, que tinham o mesmo sobrenome, quais sejam: Theodore “Teddy” Roosevelt e Franklin Delano Roosevelt.


Vejamos, pois, o que dizem sobre o paralelismo entre os presidentes Theodore e Franklin, os escritores John e Alice Durand, em sua obra Pictorial History of American Presidents, Barnes Nova York, 1969: "No dia 6 de setembro de 1901, o presidente dos E.U.A. William McKinley, era alvejado a tiros, em Bufalo, por um anarquista. Oito dias depois, morria. Sucedia-lhe no cargo, o dinâmico vice-presidente Theodore Roosevelt, de 43 anos. A presidência de Theodore Roosevelt (1901-09) identifica-se com o que Frederick L. Allen chamou de a revolta da consciência americana”.


Diz Allen, que “Em fevereiro de 1902, o ministro da Justiça de Roosevelt iniciou uma ação judiciária para obter a dissolução da Northen Security Company, baseado na Lei Sherman contra os trustes... Tratava-se de uma sociedade financeira fundada por J. Pierpont Morgan e Edward H. Harriman...” Nos anos que se sucederam, entre o presidente e a plutocracia foi mantida sem muita convicção. Theodore Roosevelt continuava sendo um presidente republicano e não podia afastar-se demais da linha de um partido que contava, entre seus adeptos, com a grande maioria dos ricos e privilegiados.


Mais alguns dados sobre Theodore Roosevelt: Além de ter sido eleito para a Assembléia do Estado de Nova York, chefiou os Rough Riders na guerra hispano-americana, assumiu o cargo de governado do esta de Nova York, foi eleito vice-presidente dos Estado Unidos, e, nessa condição, torna-se 26º presidente dos EUA, com a morte (assassinado) do presidente Mackinley; foi reeleito para a presidência, em 1904.

Franklin Delano Roosevelt, que integrou o Partido Democrata, foi 32° Presidente dos Estados Unidos da América, e o primeiro presidente reeleito mais de duas vezes; foi eleito em 1933 e reeleito em 1936, 1940 e 1944. Um dos feitos mais importantes de seu governo foi a restauração econômica dos Estados Unidos (New Deal), após a grave crise econômica de 1929-1932, iniciada com o crash da Bolsa de Nova York, a chamada Quinta-feira Negra (24 de outubro de 1929). Também foi no seu governo que os EUA passou a tomar parte na Segunda Guerra Mundial, a partir de 1941, após o ataque ao Pearl Harbor, na qual foi um dos principais responsáveis pela vitória dos aliados.


Franklin Delano Roosevelt teve muito em comum com Theodore “Teddy” Roosevelt. Ambos nasceram numa família muito rica; ambos tiveram, primeiramente, uma cadeira na Assembléia do Estado, e depois o subsecretariado da Marinha; ambos foram nomeados candidatos à vice-presidência (Teddy foi eleito, Franklin D. Roosevelt não). Ambos foram governadores de Nova York antes de se tornarem presidentes dos Estados Unidos.


Como reformadores e expoentes de revoluções econômicas e sociais (Teddy com seu Square Deal (Conduta Leal), Franklin D. Roosevelt com seu New Deal (Nova Conduta), ambos foram detestados ou adorados. O paralelismo continua na aversão de ambos, pelo que Teddy chamou de os ‘malfeitores da grande finança’ e Franklin ‘mercadores a escorraçar do tempo’...


Sem dúvida, o mais importante deles foi Franklin Delano Roosevelt, que mesmo depois de morto, é amado ou detestado, e os historiadores ainda discordam em seus julgamentos: para Arthur Schlesinger Jr., por exemplo, ele é o terceiro presidente estadunidense entre os grandes presidentes, depois de Abraham Lincoln e George Washington. Para Harry E. Barnes e Charles A. Beard, foi apenas um monumental charlatão".


Theodoro Roosevelt nasceu em 1858 na cidade de Nova York, e morreu em 6 de janeiro de 1919, na cidade em que nasceu, Nova York. Franklin Delano Roosevelt nasceu em 30 de Janeiro de 1882, em Nova York e morreu em 12 de Abril de 1945, em Warm Springs, no Estado da Georgia.




REFERÊNCIAS:
DURAND, John e Alice. Pictorial History of American Presidents. Barnes Nova York, 1969.
THOMAS, Henry e Dana Lee. Vida de Estadistas Americanos. Trad. Alzira Vallandro. Porto Alegre: Editora Globo, 1956.

6 de dez de 2009

QUEM FOI LENIN? - Terceira Parte




por Pedro Luso de Carvalho



A família Ulianov muda-se para Moscou no outono de 1893; Lenin resolve morar sozinho em São Petersburgo. Aí, nos seus primeiros anos, Lenin diz da importância de pensar com clareza para não se desviar do caminho por falsas tendências. As grandes distâncias russas resultam num isolamento entre as cidades mais importantes, e também com o interior do seu imenso território. Quebrar esse isolamento é o propósito de Lenin para ir ao encontro das personalidades importantes da social-democracia internacional. Para Lenin, é imperioso saber como se comporta o desenvolvimento do marxismo no Ocidente. Então, ainda muito jovem, vê-se no exterior, na sua primeira experiência. Na Suíça, encontra-se com Pleklanov; em Berlim, com Karl Liebknecht; em Paris, com o genro de Karl Marx, Paul Lafargue.


Assim Lenin foi descrito pelo bolchevista Potresov, em suas Memórias, por ocasião dessa viagem ao exterior: "rosto emagrecido, a cabeça quase completamente calva, apenas com alguns tufos de cabelo, uma pequena barba avermelhada. Sob as sobrancelhas os olhos entreabertos pareciam astutos e penetrantes. Os amigos brincavam, dizendo que nascera velho e calvo e que pelo aspecto físico um típico negociante da Rússia setentrional".


Após ter retornado a São Petersburgo, Lenin tenta delinear a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, que passa a atuar em cerca de vinte círculos marxistas; os locais escolhidos para essa ação, para a divulgação dos primeiros lineamentos marxistas entre os trabalhadores, por meio de manifestos e panfletos, são os centros industriais russos. Nessa época, ou seja, em meados de 1890, Vladimir Lenin não é ainda o líder entre os marxista em São Petersburgo; mas já é importante no círculo dirigente, composto de quarenta pessoas.


Em dezembro de 1895, são presos todos os membros do círculo dirigentes: o descuido de um jovem ativista, leva a polícia a prendê-lo; e encontra com ele as provas do primeiro número do jornal Classe Operária, cuja impressão era aguardada. O prisioneiro logo aponta à polícia os membros da organização. Lenin é conduzido ao cárcere da Rua Spalernaia, onde fica recluso por pouco mais mais de um ano. Nesse período, mantem-se ativo com suas leituras e correspondência com companheiros da prisão e os que se encontram fora dela. Entre os inocentes comunicados que escreve da prisão, Lenin dá instruções, pede notícias, redige proclamações e manifestos. Para evitar a depressão e outros problemas de saúde, Vladimir exercita-se.


Sobre a prisão de Lenin, Gerard Walter escreve: “Para o frio planejador que foi Lenin, até a prisão oferecia vantagens. Ele a considerava uma pausa útil para voltar à boa forma. Tinha problemas com o estômago, e jamais tivera tempo para tratar-se quando em liberdade. Agora finalmente seguiria uma férrea dieta, que antes lhe fora aconselhada por um médico suíço. Era, muitas vezes, atormentado por problemas com os dentes; consegue, na prisão, licença para tratá-los com um dentista particular. Longas horas de sono, ginástica e, contra o tédio, leituras recreativas, traduções e um trabalho obrigatório: a elaboração de um de seus livros fundamentais: O desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Podia ler e escrever à vontade na prisão, e ainda pedir livros da biblioteca. Recluso, não lhe faltam calma e reflexão. No fim da pena Lenin disse, entre brincalhão e sério: 'Que pena, não pude terminar meu trabalho'”.
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Ainda sobre a prisão e condenação de Lenin, escreve Christofher Hill: “Lenin foi mantido na prisão por mais de um ano, tempo em que continuou a elaborar panfletos e declarações, escrevendo com leite guardado em 'tinteiros' de pão fáceis de engolir quando necessário. Sentia-se, entretanto, muito solitário. Sua futura esposa, Nadiejda Constantinovna Krupskaia, encontramo-la, pela primeira vez, em pé num determinado ponto da calçada fora da prisão, horas à espera de que Lenin pudesse olhá-la de relance através de uma janela enquanto os prisioneiros faziam exercício”.


“ Quando a final foi submetido a julgamento – diz Hill -, Lenin viu-se condenado a três anos de exílio na Sibéria, Chuchenskoie, perto de Minusinski, na Província de Jenissei. A não ser pelo clima adverso, e pelo fato de uma fuga tornar-se impraticável em região tão desolada e inacessível, as condições desse degredo não eram demasiado severas: Lenin ali pode receber livros para estudar, escreveu muita coisa, e completou O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Uma vez por semana podia livremente falar com os camponeses sobre questões jurídicas. E maio de 1898 viu chegar Krupskaia, que também fora condenada ao exílio e com quem se casou mesmo na Sibéria”.


Sobre a companheira de Lenin, escreve Curzio Malaparte: Nadejda Konstantinovna Krupskaia teve, na vida de Lenin singular importância: representa uma parte que surpreende até mesmo os que vêem em Lenin o Gêngis Khan da revolução proletária. Mulher enérgica e muito inteligente, de olhos claros e salientes, olhar doce e lento lábios grossos e moles, espírito claro e limitado, caráter paciente e resoluto, Nadejda Konstantinovna Krupskaia não foi apenas a secretária do revolucionário profissional, mas sua colaboradora devotada e incansável, mulher no sentido mais burguês do termo, aquela que, tanto em Chutchenskoie [Sibéria], como em Londres, Paris e Zurique, nos tristes anos de exílio, ou nos trágicos dias da revolução, zelará pela saúde de Lenin, pelo seu trabalho, descanso, suas distrações, e lhe proporcionará um ambiente doméstico simples mas tranqüilo, num clima de confiança e tranquilidade familiar”.


L. Fotieva (Lydia Alexandrovna Fotieva), autora do livro traduzido do russo para o espanhol com o título De la vida de Lenin, e depois traduzido para o português, por Zuleika Alambert, com o título de Lenin, escreve: “Antes de minha chegada a Genebra, não tinha uma idéia exata do caráter e do tamanho das divergências entre os bolchevistas e os menchevistas. No entanto, mesmo o pouco que chegava até nós fazia com que inclinássemos para os bolchevistas. Assim é que, quando cheguei a Genebra, senti todas as minhas simpatias voltadas para os bolchevistas – mais por intuição, que por compreensão absoluta – e a seguir incorporei-me ao seu círculo. Somente em Genebra, quando comecei a ler ávidamente a literatura do Partido, sobretudo o livro de Lenin Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás, e conversando com os camaradas de mais idade, compreendi plenamente toda a profundidade e antagonismo das divergência entre Bolchevistas e Menchevistas”.


Sobre a vida de Lenin com sua mulher, em Genebra, diz L. Fotieva: “Foi nesse ambiente complicado, tenso e difícil em que me encontrei ao incorporar-me à colônia de emigrados em Genebra, no verão de 1904. Vladimir Ilitch e Nadiejda Constantinovna voltaram logo. Meu encontro com eles produziu-me enorme impressão. Era surpreendente a simplicidade e afabilidade deles. Era surpreendente a singular perspicácia de Vladimir Ilitch. Diziam que lia até o fundo da alma das pessoas”. L. Fotieva diz ainda, que, ao trabalhar com Nadiejda sentiu por ela um grande afeto. Afirma também que Nadiejda era uma pessoa equilibrada, tranqüila e cordial; e que possuía conhecimentos teóricos e grande experiência do trabalho partidário.


No próximo artigo sobre a vida de Lenin [QUEM FOI LENIN – QUARTA PARTE], escreverei ainda sobre fatos políticos e fatos que envolveram Lenin e Nadiejda, no período do exílio do casal, que antecedem à sua volta à Rússia. Para a leitura do primeiro artigo, sobre a vida de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin , clique em QUEM FOI LENIN? - QUARTA PARTE.



REFERÊNCIAS:
WALTER, Gerard. Lenin. Paris: Edições Albin Michel, 1971.
MALAPARTE, Curzio. Lenin, Boa Criatura. Itália: ed. Vallechi, 1962.
PALTRINIERE, Marisa. Lenin. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1975.
FOTIEVA, L. Lenin. Trad. de Zuleika Alambert. São Paulo: Editora Fulgor, 1963.
HILL, Christofher. Lenin e a Revolução Russa'. Trad. De Geir Campos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1963.

16 de nov de 2009

[Editora Hedra] RUI BARBOSA - Oração aos Moços




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

 A última grande criação de Rui Barbosa foi Oração aos Moços, que, para os críticos, foi a sua obra-prima. Esse texto foi escrito por Rui para homenagear os formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, da turma de 1920, dos quais foi paraninfo.
Enfermo, Rui Barbosa não pode comparecer à solenidade de formatura; o seu discurso (Oração aos Moços) foi lido pelo professor Reinaldo Porchat. Escreveu Rui, como introito da sua peça de oratória:
Não quis Deus que os meus cinquenta anos de consagração ao direito viessem a receber no templo do seu ensino em S. Paulo o selo de uma grande benção, associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos em que o ides esposar.
Essa obra – Oração aos Moços – prestou-se para coroar o trabalho realizado por mais de cinquenta anos, por esse homem brilhante – exemplo de dedicação ao trabalho, que foi uma de suas tantas virtudes –, por esse homem honrado e de grande erudição – que teve por missão a luta contra a Monarquia –, por esse homem que não se cansou de defender o povo escravo, até que fosse proclamada a abolição da escravatura.
Constitui-se, Oração aos Moços, numa das mais brilhantes reflexões produzidas pelo jurista sobre o papel do magistrado e a missão do advogado. O autor faz um balanço de sua vida como advogado, jornalista e político, como exemplo para as novas gerações. Disse Gladstone Chaves de Melo:
Oração aos moços é o canto do cisne de Rui Barbosa, é a mais realizada de suas obras, a que com maior autenticidade, creio, nos dá a medida e o tom de seu estilo. Disse eu alhures que é ela a obra trabalhada da língua portuguesa.
Para essa edição de Oração aos Moços, fui convidado pela Editora HEDRA, de São Paulo, para escrever a introdução da obra – honra da qual não poderia declinar.
Quando a HEDRA publicou Oração aos Moços, de Rui Barbosa, no segundo semestre de 2009, tive a satisfação de ver o meu nome ligado ao mestre em razão dessa edição, na qual o meu nome consta na respectiva Ficha Técnica.
A Introdução que escrevi, em quinze páginas, para a publicação de Oração aos Moços, pela HEDRA, editora paulistana com reconhecidos méritos, fortaleceu mais ainda a minha convicção sobre a genialidade de Rui Barbosa.

Ficha técnica da obra:
Autor – RUI BARBOSA
Título – ORAÇÃO AOS MOÇOS
Organização – MARCELO MÓDOLO
Introdução – PEDRO LUSO


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10 de nov de 2009

RILKE – Um Poeta Além do Seu Tempo





por Pedro Luso de Carvalho


Este é o terceiro texto que escrevo, aqui no Blog Panorama, sobre Rainer Maria Rilke; editei o primeiro em 15.02.2008, com o título de Rainer Maria Rilke & A Religião; o segundo, neste mês, intitulado De Poemas & De Poetas. Então, começo o texto de hoje com alguns dados sobre o escritor, para os que ainda não o conhecem: Rilke foi um escritor de língua alemã, e um dos maiores poetas do século XX. Nasceu em Praga, capital da República Tcheca, em 1875; acometido de leucemia, faleceu num sanatório, na cidade de Montreux, Suíça, no ano de 1926.


Rainer Maria Rilke residiu em Paris por muitos anos; na capital francesa, foi secretário de célebre escultor Rodin. Como escritor, o simbolismo marcou o início de sua carreira; depois, o simbolismo foi substituído pela busca do significado real da arte e da morte, como se vê nas suas obras O livro de horas, 1903; Elegias de Duíno, 1922; Sonetos a Orfeu, 1923; Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, escritos entre 1904 a 1910. Rilke ficou largamente no Brasil com o sucesso obtido por suas obras: Cartas a um jovem poeta, Elegias de Duíno, Canção de amor, e Morte de Cristóvão Rilke.


J.M. Ibañez Langlois escreveu uma interessante obra crítica intitulada Rilke, Pound, Neruda, com o subtítulo Três Mestres da Poesia Contemporânea (Editora Nerman, São Paulo). Nesse ensaio, referindo-se a Rilke, disse serem os três poetas, possivelmente, os mais importantes da poesia contemporânea. José Miguel Ibañez Langlois, nasceu em Santiago do Chile em 1936; doutorou-se em Filosofia pelas Universidades de Madri e San Juan de Letrán, Roma, Itália. É professor titular da cadeira de Literatura da Universidade do Chile. Suas obras de Crítica Literária são publicadas na América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa.


Diz J.M. Ibañez Langlois, na sua obra sobre os poetas Rilke, Pound e Neruda, que a relação de Rilke com o existencialismo contribui para aproximar-se de nós, pelo menos em parte. E mais, que a “Sua grande poesia , gestadas nos mesmos anos que as grandes novelas de Kafka – também seu conterrâneo - terá uma significância não menor que estas na gênese do pensamento existencial, em Heidegger, Marcel, Jaspers. Assim o precursor das sombrias intuições do aberto, do existir, da angústia, da própria morte, da solidão, do risco, segue se beneficiando, com meio século de posteridade, da vertiginosa atualidade de tais explorações:

Só nós vemos a morte, o animal livre
já tem o seu próprio ocaso atrás de si
e perante si Deus, e quando vai, caminha
pelo eterno, o mesmo que as fontes.
Nunca temos, nem um momento, o puro
espaço à nossa frente, em que as flores
se abrem, intermináveis. Sempre há mundo...

Por outro lado – diz Ibañez Langlois -, sua fama foi tardia. Na Alemanha foi pouco conhecido em vida; na própria França, onde viveu tantos anos, foram conhecidos, por muito tempo, unicamente Alferes e fragmentos de Apontamentos de Malte, traduzidos por Gide. Foi nos anos quarenta que Rilke invadiu boa parte da Europa, e com a Europa, a Espanha, e especialmente a América Espanhola – refere-se Ibañez Langlois à América do Sul -, onde desde então um fervor incondicional o tem acompanhado”.

Rilke dava pouca importância aos acontecimentos de sua época, no que respeita aos sucessos políticos, sociais e bélicos. Negava-se aceitar que o homem de espírito fosse adepto da violência e da improvisação revolucionária. E com relação à poesia, assim se manifestava Rilke: “E a esses jovens obreiros, revolucionários em sua maioria, que saem desorientados dos cárceres do Estado e que se perdem na literatura escrevendo poesias de embriagados..., que dizer-lhes? Como levantar seu coração desesperado, como modelar sua vontade disforme que, ante a força dos acontecimentos, adquiriu um caráter estranho e não próprio e que agora os alenta como uma potência alheia cujas propriedades desconhecem?”


Para Rilke, o problema humano, social ou político não era o que o preocupava, mas sim, como diz Ibañez Langlois, era o próprio homem em sua essência o enfermo, era o homem que se havia tornado insondável, obscuro. E é Rilke quem assim se expressa:


“O homem desta guerra e todo o contemporâneo deste homem, eu mesmo, todos me parecem tão separados do mundo da natureza! Relacionar-se com um campo, com a graça de uma tarde, parecia-me arbitrário e falso, pois que saberiam a árvore, o campo, e a paisagem da tarde sobre esse homem infeliz, devastador e assassino? Mas sempre existe uma conexão inexprimível entre um homem que trabalha e cria em paz e a natureza, ocupada santa e radicalmente.”


Ibañez Langlois escreve que “As pátrias de Rilke não são mais precisas que sua circunscrição temporal. Nascido em Praga, na Tcheco-Eslováquia do Império austro-húngaro, viajante de toda a Europa com centro em Paris, falecido na Suíça, foi cidadão da periferia alemã e exemplar extremo do europeísmo anterior à primeira guerra. Não se sentiu tcheco, mesmo sendo o eslavo uma categoria essencial de sua pessoa e de sua obra. Rilke, segundo ele mesmo, não pode ser alheio à essência alemã, pois está inserido em sua linguagem até a raiz; porém o alemão somente lhe provoca “estranheza e moléstia”, e o austríaco - “a insinceridade como situação” - parece-lhe “intolerável”. “Como eu – diz Rilke – eu cujo coração tem sido formado pela Rússia, França, Itália, Espanha, pelos desertos e pela Bíblia, vou poder encontrar harmonia com os que vociferam aqui ao meu redor? Basta!.”


Escreveu J.M. Ibañez Langlois, na obra citada: “A tensão criadora entre vida e poesia, entre arte e realidade, ativa em todo o grande escritor, atingem em Rainer Maria Rilke uma profundidade limite e uma autoconsciência que poucas vezes tem ocorrido na história literária. Somente nomes como Goethe, ou Rimbaud, Proust ou Pond poderiam ser referências adequadas para o caso”. Vemos, pois, que muitos são os motivos para lermos Rilke, e, passado algum tempo, para fazermos releituras - possivelmente, encontraremos novas riquezas, que passaram despercebidas nos desvãos de suas linhas.




REFERÊNCIAS:
LANGLOIS, Ibáñez, J. M. Rilke, Pound, Neruda. Três Mestres da Poesia Contemporânea. Tradução de Antonio José de Almeida Meirelles. São Paulo: Editora Nerman, 199?
KUSCHEL, Karl-Josef. Os Escritores e as Escrituras. Tradução de Maurício Cardoso. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

2 de nov de 2009

DE POEMAS & DE POETAS





por Pedro Luso de Carvalho



Desde a segunda metade do século XX, fala-se que o futuro da literatura é, no mínimo, incerto, para os menos pessimistas; e, para outros, que se dizem 'realistas', não há salvação para a literatura, é apenas uma questão de tempo, afirmam. Esse vaticínio é feito também em relação à poesia, que, nesse mister, mostra-se mais debilitada em relação à obra ficcional em prosa; pesam, sobre a poesia, alguns elementos negativos a mais, se comparados ao romance, ao conto e à crônica, que não são assim tão funestos, como, por exemplo, o mercado editorial para os livros de poemas, que está cada vez mais fechado por falta de interesse na aquisição dessas obras; e os motivos que levam a isso estão relacionados com o desinteresse das autoridades públicas da área do ensino em incluir a poesia no currículo escolar, por um lado, e pelo elevado preço dos livros, por outro lado – para ficarmos apenas nesses dois elementos.


Existem outros componentes que contribuem para debilitar a saúde dessa velha senhora, a poesia: uma delas é atração que exerce nas pessoas, desde muito cedo - para alguns jovens estudantes, ou mesmo para outros que estão fora das classes escolares -; aventuram-se a escrever poemas, sem antes buscar auxílio nos livros ou na escola; tornam-se adultos e seguem escrevendo, sem o amparo técnico necessário, já que, sabemos, a inspiração constitui-se apenas num dos elementos para a criação da obra poética; mais alguns componentes, que causam prejuízo à produção poética de boa qualidade, tais como a pressa em escrever grande quantidade de poemas em curto espaço de tempo, bem como a idade da para estar-se 'preparado' para escrever bons poemas - Ferreira Gullar escreve um livro de poema a cada dez anos; Edgar Allan Poe levou dez anos para considerar concluído o seu magistral poema O Corvo.


Sobre a idade para a pessoa escrever versos, diz o poeta Rainer Maria Rilke, através de personagem do seu romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge, publicado pela editora Novo Século, São Paulo, 2008, com tradução de Lya Luft, págs. 18-19 :


“Acho que eu devia começar a fazer algo, a trabalhar, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos, e praticamente não aconteceu nada. Vamos recordar: escrevi um ensaio sobre Carpaccio, que é ruim, um drama chamado O casamento que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos. Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez se conseguissem dez versos bons. Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) – são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer”.


Prossegue Rilke, pela fala de seu personagem, dizendo sobre as experiências que se deve ter para escrever versos: “É preciso recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados, e despedidas que há muito sentíamos chegar – dias da infância, ainda não explicados, os pais que tínhamos de magoar quando nos davam alguma alegria e não a entendíamos (era uma alegria para outra pessoa), doenças de crianças que começam de modo tão singular, com tantas e tão profundas transformações, dias em quartos silenciosos e isolados, e manhãs no mar, o mar sobretudo, mares, noites de viagem rumorejando no alto e voando com todas as estrelas – e poder pensar em tudo isso ainda não é suficiente. É preciso ter lembranças de muitas noites de amor, nenhuma semelhante à outra, grito de mulheres dando à luz, leves e alvas parturientes adormecidas que se tornavam a fechar”.


O personagem de Rilke termina essa parte de sua fala sobre a necessária experiência para que se possa escrever versos: “ E também é preciso ter estado com moribundos, sentar-se junto aos mortos no quartinho com a janela aberta, e aqueles ruídos intermitentes. E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara brote do meio delas a primeira palavra de um poema”.


19 de out de 2009

ALBERT CAMUS / Vida & Obra




por PEDRO LUSO DE CARVALHO


Além da sua obra filosófia, Albert Camus escreveu romances, contos, ensaios e peças para o teatro. Também foi jornalista brilhante. Como não é recomendável escrever textos muito longos neste espaço, optei pelos seus romances e contos. Quanto ao Camus teatrólogo possivelmente falarei em outra ocasião. Lembro, apenas, que o escritor dizia que a obra teatral era “o mais alto dos gêneros literários”.

Inicio, pois, pelo último romance publicado após a morte de Camus, qual seja, O Primeiro Homem. Essa obra tem como centro os acontecimentos na Argélia, dos anos 30-40, e como personagem central Jacques Cormery, que outro não é que o próprio autor. No livro, Camus conta sua própria história. Começa pela sua infância, junto de sua mãe e de seus sete irmãos. Com estes, compartilhava a casa de sua avó, no bairro popular de Belcourt, em Argel.

Em razão de sua condição de pobreza, tudo levava a crer que as perspectivas de o menino Albert Camus ver mudada tal condição eram diminutas, pois todos os fatos conspiravam contra ele, como o de viver num país pobre, e politicamente dominado pela França (a Argélia foi colônia da França entre os anos de 1830 a 1962); de ter perdido seu pai com apenas um ano de idade; Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, na Argélia (cidade de Mondovi, distrito de Constantina). Mas, contrariando esses fatos, Camus cursou a Universidade de Letras na Argélia, e, com apenas 22 anos escreveu Direito e Avesso, o seu primeiro ensaio, e, ainda, em Argel realizou seus primeiros trabalhos jornalísticos; em 1936, quando contava com 26 anos , mudou-se para Paris, onde desenvolveu toda sua obra.

O romance O Primeiro Homem, no qual Camus conta a pungente história da sua infância e a memória do seu país, não chegou a ser concluído em razão da sua morte, aos 47 anos de idade, ocorrida no dia 4 de janeiro de 1960, perto de Villeblevin, no trajeto da cidade de Sens para Paris, quando um furo no pneu do carro em que viajava, em alta velocidade, dirigido por seu editor Marcel Gallimard, sofreu o trágico acidente.

Essa obra, cujos manuscritos foram encontrados sob as ferragens do carro acidentado, foi editada na França em 1994, pela Editions Gallimard; nesse mesmo ano a Editora Nova Fronteira publicou a obra no Brasil, com tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luíza Newlands Silveira.

Embora O Estrangeiro e A Peste sejam os romances mais importantes de Camus, O Primeiro Homem veio ocupar um lugar de singular importância no conjunto de sua obra ficcional, não apenas pela força de sua narrativa, com o estilo que o distingue dos demais escritores, mas, principalmente, por se constituir em importante legado histórico, dando-nos a conhecer, agora, fatos relacionados com a sua trajetória de vida.

Já que acima fiz menção à narrativa e ao estilo de Albert Camus, acho oportuno transcrever o que dele disse André Maurois, membro da Academia Francesa, em De Proust a Camus - Vida e obra dos maiores escritores do Século XX: “Sua linguagem era firme e simples; seu estilo semeado de belas fórmulas; ele pensava com coragem, força e precisão. No entanto, sua prodigiosa bagagem literária surpreende um pouco. Os leitores estrangeiros o adotaram com tanto fervor que ele obteve o Prêmio Nobel na idade em que outros sonham em vão com o Prêmio Goncourt. Seus romances são ensaios em forma de ficção; seus personagens não penetram na intimidade do leitor. E, no entanto, essa glória aparece-nos como coisa justa. É preciso explicar essa dissonância e essa concordância”.

No romance O Primeiro Homem faz-se presente também o tema do absurdo, como ocorreu em todas as suas obras, independentemente do gênero; exemplo apropriado da presença do absurdo é encontrado no primeiro romance de Albert Camus, O Estrangeiro, que tem como personagem Mersault, um jovem argelino, pequeno empregado de escritório, que mata um homem árabe e assume as conseqüências do crime, não como um castigo, mas como uma forma de libertação.

Mário Vargas Llosa escreveu um brilhante ensaio sobre esse romance de Camus, no seu livro A verdade das mentiras (São Paulo, ARX, 2005), no qual diz que O Estrangeiro foi recebido como uma metáfora sobre a ilogicidade do mundo e da vida; diz, ainda, que Sartre foi quem melhor fez essa a ligação entre ambos os textos, no seu comentário sobre O Estrangeiro. Para Sartre, diz Vargas Llosa: "Meursault seria a encarnação do homem jogado a uma vida sem sentido, vítima de mecanismos sociais que, sob o disfarce das grandes palavras - o Direito e a Justiça - somente escondiam gratuidade e irracionalidade. Parente máximo dos anônimos heróis kafkianos, Meursalt personificaria a patética situação do indivíduo, cuja sorte depende de forças tanto mais incontroláveis, quanto são ininteligíveis e arbitrárias.

Não tardou, no entanto, a surgir uma interpretação 'positiva', colocando Mersault como o protótipo do homem autêntico, liberto das convenções, incapaz de enganar e de se enganar, e que teve contra si a sociedade, que virá condená-lo, por ser incapaz de mentir e de fingir o que não sente. Vargas Llosa diz que o próprio Camus aceitou essa leitura do personagem Mersault, como se viu no prefácio de uma edição norte-americana de O Estrangeiro. Sobre o seu personagem Mersault, expressou-se Camus:

"O herói do livro é condenado porque não joga o jogo... porque repudia mentir. Mentir não é somente dizer o que não é. Também, e sobretudo, significa dizer mais do que é, e dizer mais do que se sente em relação ao coração humano. Isso é algo que fazemos todos, diariamente, para simplificar a vida. Mersault, ao contrário das aparências, não quer simplificar a vida. Ele diz o que é, recusa mascarar seus sentimentos, e no instante em que a sociedade se sente ameaçada... Não é de todo errôneo, pois, vem em O Estrangeiro, a história de um homem que, sem atitudes heróicas, aceita morrer pela verdade".

Para Albert Camus o absurdo era uma dimensão presente na vida do homem, que, em O Estrangeiro, foi mostrado com toda a sua maestria. Esse romance, publicado pela Éditions Gallimard, em 1957, foi levado para o cinema por Visconti, que o dirigiu; Meursault, o personagem central de O Estrangeiro, foi interpretado por Marcelo Mastroiani, que deu ao tema do absurdo a força dramática na cena em que comete o homicídio, no momento em que dispara sua arma contra a vítima, e justifica esse ato dizendo: ”Foi tudo por causa do sol”. Mas, como diz Horácio Ganzales, editora brasiliense: “Lucchino Visconti não consegue um bom Estrangeiro, pois transcreve situações literalmente, descambando todo o material narrativo para o realismo. Perdem-se a mitologia e os efeitos de tragédia da linguagem literária”.

No romance A Peste, de 1947, traduzida por Graciliano Ramos para a edição da Livraria José Olympio Editora, em 1973, o personagem central é o Doutor Rieux, médico da cidade de Oran, ao norte da África, que foi vítima de uma terrível peste que a isolou do resto do mundo. O absurdo está presente no drama da peste provocada por milhares de ratos que se multiplicavam e se espalham por todos os cantos da cidade; o absurdo está presente na vida de cada um dos habitantes de Oran; estes, tomados de pânico, não conseguem administrar os seus sentimentos de amor, ódio e inveja; encontram-se dominados pela fadiga e pelo medo de virem a somar-se às centenas de cadáveres fétidos que se encontram amontoados nas ruas e praças da cidade.

Também no romance A Queda, publicado em Paris, pela Éditions Gallimard em 1956, encontra-se presente o tema do absurdo; nele não aparece mais o sentimento de solidariedade, como ocorreu em A Peste; neste trecho de A Queda, Camus dá uma idéia clara dessa mudança: “Não podemos afirmar a inocência de ninguém enquanto pudermos afirmar sem dúvida a culpabilidade de todos”. Camus conta, nesse romance filosófico, a história de Clemence, um advogado parisiense, outrora respeitado, que troca Paris por Amsterdã, onde passa a morar numa hospedaria de marinheiros; aí confessa as suas faltas para pessoas desconhecidas; fala da hipocrisia de sua profissão, afirmando aos seus ouvintes: “nunca tive senão boas intenções”; Clemence procura saber o momento em que começou sua queda; seus ouvintes ouvem suas confissões e acabam contando-lhe também os seus erros, o que é esperado por ele; diante de tais confissões, Clemence passa a julgá-los, e a dar a si próprio o direito de cometer todos os crimes.

A Morte Feliz, obra póstuma, foi publicada em 1971; Camus conta uma história que se passa, em grande parte, na década de 30, na Argélia dos anos de 1930; Patrice Marsault, personagem principal, é um empregado medíocre que vive um caso amoroso com Marthe, e que conhece seu ex-amante Roland Zagreus, homem requintado, de posses e inválido; Patrice mata Zagreus para roubá-lo; a partir desse dia, passa a viver uma vida independente; parte para Praga para depois voltar para a Argélia, em busca do sol que não encontrou na Europa. Camus conta essa história revivendo o bairro de Belcourt, na Argélia, no qual passou sua infância; seu emprego como despachante marítimo; sua viagem para a Europa Central, no verão de 1936, e sua passagem pela Itália em 1937; suas internações em sanatórios (tuberculose); sua vida na Maison Fichu, nas colinas da Argélia, em 1936; seu casamento com Simone Hué, e posterior rompimento - o seu segundo casamento foi com Francine Faure, em 1940.

A última obra de ficção publicada por Albert Camus foi O Exílio e o Reino, em 1957, ano em que recebeu o prêmio Nobel de Literatura. Esse é seu único livro de contos (seis histórias ao todo); tais contos, no dizer de André Maurois, pareciam constituir-se em esboço para futuros romances, como ocorreu com A Queda, publicada um ano antes desse livro de contos; estava para ser publicada como conto, mas Camus ampliou a história, que resultou no romance. Esse livro de contos foi publicado no Brasil pela Editora Record, em 1997, com tradução de Valerie Rumjanek, está na sua na sua 6ª edição. Os contos, que integram essa obra, são: A Mulher Adúltera, O Renegado ou um Espírito Confuso, Os Mudos, O Hóspede, Jonas ou o Artista Trabalhando e A Pedra que Cresce. Estes contos de Camus merecem nossa leitura.

Encerro este trabalho sobre Albert Camus, com o seguinte trecho, transcrito por André Maurois, na sua obra citada: “Jean-Claude Brisville perguntou um dia a Camus: “Qual é o cumprimento que mais o irrita?”– ao que Camus respondeu: “A honestidade, a consciência, o humano, enfim, você sabe, todo esse gargarejo moderno”.




REFERÊNCIAS:
CAMUS, Catherine. Nota In: CAMUS, Albert. O primeiro homem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
BARRETO, Vicente. Camus: vida e obra. Rio de Janeiro: José Álvaro, Editor, 197?
GONZÁLEZ, Horácio. Albert Camus. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.
MAUROIS, André. De Proust a Camus. . Trad. Fernando Py. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1966.
VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Tradução de Cordélia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: ARX, 2005.