16 de nov de 2009

[Editora Hedra] RUI BARBOSA - Oração aos Moços




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

 A última grande criação de Rui Barbosa foi Oração aos Moços, que, para os críticos, foi a sua obra-prima. Esse texto foi escrito por Rui para homenagear os formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, da turma de 1920, dos quais foi paraninfo.
Enfermo, Rui Barbosa não pode comparecer à solenidade de formatura; o seu discurso (Oração aos Moços) foi lido pelo professor Reinaldo Porchat. Escreveu Rui, como introito da sua peça de oratória:
Não quis Deus que os meus cinquenta anos de consagração ao direito viessem a receber no templo do seu ensino em S. Paulo o selo de uma grande benção, associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos em que o ides esposar.
Essa obra – Oração aos Moços – prestou-se para coroar o trabalho realizado por mais de cinquenta anos, por esse homem brilhante – exemplo de dedicação ao trabalho, que foi uma de suas tantas virtudes –, por esse homem honrado e de grande erudição – que teve por missão a luta contra a Monarquia –, por esse homem que não se cansou de defender o povo escravo, até que fosse proclamada a abolição da escravatura.
Constitui-se, Oração aos Moços, numa das mais brilhantes reflexões produzidas pelo jurista sobre o papel do magistrado e a missão do advogado. O autor faz um balanço de sua vida como advogado, jornalista e político, como exemplo para as novas gerações. Disse Gladstone Chaves de Melo:
Oração aos moços é o canto do cisne de Rui Barbosa, é a mais realizada de suas obras, a que com maior autenticidade, creio, nos dá a medida e o tom de seu estilo. Disse eu alhures que é ela a obra trabalhada da língua portuguesa.
Para essa edição de Oração aos Moços, fui convidado pela Editora HEDRA, de São Paulo, para escrever a introdução da obra – honra da qual não poderia declinar.
Quando a HEDRA publicou Oração aos Moços, de Rui Barbosa, no segundo semestre de 2009, tive a satisfação de ver o meu nome ligado ao mestre em razão dessa edição, na qual o meu nome consta na respectiva Ficha Técnica.
A Introdução que escrevi, em quinze páginas, para a publicação de Oração aos Moços, pela HEDRA, editora paulistana com reconhecidos méritos, fortaleceu mais ainda a minha convicção sobre a genialidade de Rui Barbosa.

Ficha técnica da obra:
Autor – RUI BARBOSA
Título – ORAÇÃO AOS MOÇOS
Organização – MARCELO MÓDOLO
Introdução – PEDRO LUSO


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10 de nov de 2009

RILKE – Um Poeta Além do Seu Tempo





por Pedro Luso de Carvalho


Este é o terceiro texto que escrevo, aqui no Blog Panorama, sobre Rainer Maria Rilke; editei o primeiro em 15.02.2008, com o título de Rainer Maria Rilke & A Religião; o segundo, neste mês, intitulado De Poemas & De Poetas. Então, começo o texto de hoje com alguns dados sobre o escritor, para os que ainda não o conhecem: Rilke foi um escritor de língua alemã, e um dos maiores poetas do século XX. Nasceu em Praga, capital da República Tcheca, em 1875; acometido de leucemia, faleceu num sanatório, na cidade de Montreux, Suíça, no ano de 1926.


Rainer Maria Rilke residiu em Paris por muitos anos; na capital francesa, foi secretário de célebre escultor Rodin. Como escritor, o simbolismo marcou o início de sua carreira; depois, o simbolismo foi substituído pela busca do significado real da arte e da morte, como se vê nas suas obras O livro de horas, 1903; Elegias de Duíno, 1922; Sonetos a Orfeu, 1923; Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, escritos entre 1904 a 1910. Rilke ficou largamente no Brasil com o sucesso obtido por suas obras: Cartas a um jovem poeta, Elegias de Duíno, Canção de amor, e Morte de Cristóvão Rilke.


J.M. Ibañez Langlois escreveu uma interessante obra crítica intitulada Rilke, Pound, Neruda, com o subtítulo Três Mestres da Poesia Contemporânea (Editora Nerman, São Paulo). Nesse ensaio, referindo-se a Rilke, disse serem os três poetas, possivelmente, os mais importantes da poesia contemporânea. José Miguel Ibañez Langlois, nasceu em Santiago do Chile em 1936; doutorou-se em Filosofia pelas Universidades de Madri e San Juan de Letrán, Roma, Itália. É professor titular da cadeira de Literatura da Universidade do Chile. Suas obras de Crítica Literária são publicadas na América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa.


Diz J.M. Ibañez Langlois, na sua obra sobre os poetas Rilke, Pound e Neruda, que a relação de Rilke com o existencialismo contribui para aproximar-se de nós, pelo menos em parte. E mais, que a “Sua grande poesia , gestadas nos mesmos anos que as grandes novelas de Kafka – também seu conterrâneo - terá uma significância não menor que estas na gênese do pensamento existencial, em Heidegger, Marcel, Jaspers. Assim o precursor das sombrias intuições do aberto, do existir, da angústia, da própria morte, da solidão, do risco, segue se beneficiando, com meio século de posteridade, da vertiginosa atualidade de tais explorações:

Só nós vemos a morte, o animal livre
já tem o seu próprio ocaso atrás de si
e perante si Deus, e quando vai, caminha
pelo eterno, o mesmo que as fontes.
Nunca temos, nem um momento, o puro
espaço à nossa frente, em que as flores
se abrem, intermináveis. Sempre há mundo...

Por outro lado – diz Ibañez Langlois -, sua fama foi tardia. Na Alemanha foi pouco conhecido em vida; na própria França, onde viveu tantos anos, foram conhecidos, por muito tempo, unicamente Alferes e fragmentos de Apontamentos de Malte, traduzidos por Gide. Foi nos anos quarenta que Rilke invadiu boa parte da Europa, e com a Europa, a Espanha, e especialmente a América Espanhola – refere-se Ibañez Langlois à América do Sul -, onde desde então um fervor incondicional o tem acompanhado”.

Rilke dava pouca importância aos acontecimentos de sua época, no que respeita aos sucessos políticos, sociais e bélicos. Negava-se aceitar que o homem de espírito fosse adepto da violência e da improvisação revolucionária. E com relação à poesia, assim se manifestava Rilke: “E a esses jovens obreiros, revolucionários em sua maioria, que saem desorientados dos cárceres do Estado e que se perdem na literatura escrevendo poesias de embriagados..., que dizer-lhes? Como levantar seu coração desesperado, como modelar sua vontade disforme que, ante a força dos acontecimentos, adquiriu um caráter estranho e não próprio e que agora os alenta como uma potência alheia cujas propriedades desconhecem?”


Para Rilke, o problema humano, social ou político não era o que o preocupava, mas sim, como diz Ibañez Langlois, era o próprio homem em sua essência o enfermo, era o homem que se havia tornado insondável, obscuro. E é Rilke quem assim se expressa:


“O homem desta guerra e todo o contemporâneo deste homem, eu mesmo, todos me parecem tão separados do mundo da natureza! Relacionar-se com um campo, com a graça de uma tarde, parecia-me arbitrário e falso, pois que saberiam a árvore, o campo, e a paisagem da tarde sobre esse homem infeliz, devastador e assassino? Mas sempre existe uma conexão inexprimível entre um homem que trabalha e cria em paz e a natureza, ocupada santa e radicalmente.”


Ibañez Langlois escreve que “As pátrias de Rilke não são mais precisas que sua circunscrição temporal. Nascido em Praga, na Tcheco-Eslováquia do Império austro-húngaro, viajante de toda a Europa com centro em Paris, falecido na Suíça, foi cidadão da periferia alemã e exemplar extremo do europeísmo anterior à primeira guerra. Não se sentiu tcheco, mesmo sendo o eslavo uma categoria essencial de sua pessoa e de sua obra. Rilke, segundo ele mesmo, não pode ser alheio à essência alemã, pois está inserido em sua linguagem até a raiz; porém o alemão somente lhe provoca “estranheza e moléstia”, e o austríaco - “a insinceridade como situação” - parece-lhe “intolerável”. “Como eu – diz Rilke – eu cujo coração tem sido formado pela Rússia, França, Itália, Espanha, pelos desertos e pela Bíblia, vou poder encontrar harmonia com os que vociferam aqui ao meu redor? Basta!.”


Escreveu J.M. Ibañez Langlois, na obra citada: “A tensão criadora entre vida e poesia, entre arte e realidade, ativa em todo o grande escritor, atingem em Rainer Maria Rilke uma profundidade limite e uma autoconsciência que poucas vezes tem ocorrido na história literária. Somente nomes como Goethe, ou Rimbaud, Proust ou Pond poderiam ser referências adequadas para o caso”. Vemos, pois, que muitos são os motivos para lermos Rilke, e, passado algum tempo, para fazermos releituras - possivelmente, encontraremos novas riquezas, que passaram despercebidas nos desvãos de suas linhas.




REFERÊNCIAS:
LANGLOIS, Ibáñez, J. M. Rilke, Pound, Neruda. Três Mestres da Poesia Contemporânea. Tradução de Antonio José de Almeida Meirelles. São Paulo: Editora Nerman, 199?
KUSCHEL, Karl-Josef. Os Escritores e as Escrituras. Tradução de Maurício Cardoso. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

2 de nov de 2009

DE POEMAS & DE POETAS





por Pedro Luso de Carvalho



Desde a segunda metade do século XX, fala-se que o futuro da literatura é, no mínimo, incerto, para os menos pessimistas; e, para outros, que se dizem 'realistas', não há salvação para a literatura, é apenas uma questão de tempo, afirmam. Esse vaticínio é feito também em relação à poesia, que, nesse mister, mostra-se mais debilitada em relação à obra ficcional em prosa; pesam, sobre a poesia, alguns elementos negativos a mais, se comparados ao romance, ao conto e à crônica, que não são assim tão funestos, como, por exemplo, o mercado editorial para os livros de poemas, que está cada vez mais fechado por falta de interesse na aquisição dessas obras; e os motivos que levam a isso estão relacionados com o desinteresse das autoridades públicas da área do ensino em incluir a poesia no currículo escolar, por um lado, e pelo elevado preço dos livros, por outro lado – para ficarmos apenas nesses dois elementos.


Existem outros componentes que contribuem para debilitar a saúde dessa velha senhora, a poesia: uma delas é atração que exerce nas pessoas, desde muito cedo - para alguns jovens estudantes, ou mesmo para outros que estão fora das classes escolares -; aventuram-se a escrever poemas, sem antes buscar auxílio nos livros ou na escola; tornam-se adultos e seguem escrevendo, sem o amparo técnico necessário, já que, sabemos, a inspiração constitui-se apenas num dos elementos para a criação da obra poética; mais alguns componentes, que causam prejuízo à produção poética de boa qualidade, tais como a pressa em escrever grande quantidade de poemas em curto espaço de tempo, bem como a idade da para estar-se 'preparado' para escrever bons poemas - Ferreira Gullar escreve um livro de poema a cada dez anos; Edgar Allan Poe levou dez anos para considerar concluído o seu magistral poema O Corvo.


Sobre a idade para a pessoa escrever versos, diz o poeta Rainer Maria Rilke, através de personagem do seu romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge, publicado pela editora Novo Século, São Paulo, 2008, com tradução de Lya Luft, págs. 18-19 :


“Acho que eu devia começar a fazer algo, a trabalhar, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos, e praticamente não aconteceu nada. Vamos recordar: escrevi um ensaio sobre Carpaccio, que é ruim, um drama chamado O casamento que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos. Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez se conseguissem dez versos bons. Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) – são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer”.


Prossegue Rilke, pela fala de seu personagem, dizendo sobre as experiências que se deve ter para escrever versos: “É preciso recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados, e despedidas que há muito sentíamos chegar – dias da infância, ainda não explicados, os pais que tínhamos de magoar quando nos davam alguma alegria e não a entendíamos (era uma alegria para outra pessoa), doenças de crianças que começam de modo tão singular, com tantas e tão profundas transformações, dias em quartos silenciosos e isolados, e manhãs no mar, o mar sobretudo, mares, noites de viagem rumorejando no alto e voando com todas as estrelas – e poder pensar em tudo isso ainda não é suficiente. É preciso ter lembranças de muitas noites de amor, nenhuma semelhante à outra, grito de mulheres dando à luz, leves e alvas parturientes adormecidas que se tornavam a fechar”.


O personagem de Rilke termina essa parte de sua fala sobre a necessária experiência para que se possa escrever versos: “ E também é preciso ter estado com moribundos, sentar-se junto aos mortos no quartinho com a janela aberta, e aqueles ruídos intermitentes. E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara brote do meio delas a primeira palavra de um poema”.


19 de out de 2009

ALBERT CAMUS / Vida & Obra




por PEDRO LUSO DE CARVALHO


Além da sua obra filosófia, Albert Camus escreveu romances, contos, ensaios e peças para o teatro. Também foi jornalista brilhante. Como não é recomendável escrever textos muito longos neste espaço, optei pelos seus romances e contos. Quanto ao Camus teatrólogo possivelmente falarei em outra ocasião. Lembro, apenas, que o escritor dizia que a obra teatral era “o mais alto dos gêneros literários”.

Inicio, pois, pelo último romance publicado após a morte de Camus, qual seja, O Primeiro Homem. Essa obra tem como centro os acontecimentos na Argélia, dos anos 30-40, e como personagem central Jacques Cormery, que outro não é que o próprio autor. No livro, Camus conta sua própria história. Começa pela sua infância, junto de sua mãe e de seus sete irmãos. Com estes, compartilhava a casa de sua avó, no bairro popular de Belcourt, em Argel.

Em razão de sua condição de pobreza, tudo levava a crer que as perspectivas de o menino Albert Camus ver mudada tal condição eram diminutas, pois todos os fatos conspiravam contra ele, como o de viver num país pobre, e politicamente dominado pela França (a Argélia foi colônia da França entre os anos de 1830 a 1962); de ter perdido seu pai com apenas um ano de idade; Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, na Argélia (cidade de Mondovi, distrito de Constantina). Mas, contrariando esses fatos, Camus cursou a Universidade de Letras na Argélia, e, com apenas 22 anos escreveu Direito e Avesso, o seu primeiro ensaio, e, ainda, em Argel realizou seus primeiros trabalhos jornalísticos; em 1936, quando contava com 26 anos , mudou-se para Paris, onde desenvolveu toda sua obra.

O romance O Primeiro Homem, no qual Camus conta a pungente história da sua infância e a memória do seu país, não chegou a ser concluído em razão da sua morte, aos 47 anos de idade, ocorrida no dia 4 de janeiro de 1960, perto de Villeblevin, no trajeto da cidade de Sens para Paris, quando um furo no pneu do carro em que viajava, em alta velocidade, dirigido por seu editor Marcel Gallimard, sofreu o trágico acidente.

Essa obra, cujos manuscritos foram encontrados sob as ferragens do carro acidentado, foi editada na França em 1994, pela Editions Gallimard; nesse mesmo ano a Editora Nova Fronteira publicou a obra no Brasil, com tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luíza Newlands Silveira.

Embora O Estrangeiro e A Peste sejam os romances mais importantes de Camus, O Primeiro Homem veio ocupar um lugar de singular importância no conjunto de sua obra ficcional, não apenas pela força de sua narrativa, com o estilo que o distingue dos demais escritores, mas, principalmente, por se constituir em importante legado histórico, dando-nos a conhecer, agora, fatos relacionados com a sua trajetória de vida.

Já que acima fiz menção à narrativa e ao estilo de Albert Camus, acho oportuno transcrever o que dele disse André Maurois, membro da Academia Francesa, em De Proust a Camus - Vida e obra dos maiores escritores do Século XX: “Sua linguagem era firme e simples; seu estilo semeado de belas fórmulas; ele pensava com coragem, força e precisão. No entanto, sua prodigiosa bagagem literária surpreende um pouco. Os leitores estrangeiros o adotaram com tanto fervor que ele obteve o Prêmio Nobel na idade em que outros sonham em vão com o Prêmio Goncourt. Seus romances são ensaios em forma de ficção; seus personagens não penetram na intimidade do leitor. E, no entanto, essa glória aparece-nos como coisa justa. É preciso explicar essa dissonância e essa concordância”.

No romance O Primeiro Homem faz-se presente também o tema do absurdo, como ocorreu em todas as suas obras, independentemente do gênero; exemplo apropriado da presença do absurdo é encontrado no primeiro romance de Albert Camus, O Estrangeiro, que tem como personagem Mersault, um jovem argelino, pequeno empregado de escritório, que mata um homem árabe e assume as conseqüências do crime, não como um castigo, mas como uma forma de libertação.

Mário Vargas Llosa escreveu um brilhante ensaio sobre esse romance de Camus, no seu livro A verdade das mentiras (São Paulo, ARX, 2005), no qual diz que O Estrangeiro foi recebido como uma metáfora sobre a ilogicidade do mundo e da vida; diz, ainda, que Sartre foi quem melhor fez essa a ligação entre ambos os textos, no seu comentário sobre O Estrangeiro. Para Sartre, diz Vargas Llosa: "Meursault seria a encarnação do homem jogado a uma vida sem sentido, vítima de mecanismos sociais que, sob o disfarce das grandes palavras - o Direito e a Justiça - somente escondiam gratuidade e irracionalidade. Parente máximo dos anônimos heróis kafkianos, Meursalt personificaria a patética situação do indivíduo, cuja sorte depende de forças tanto mais incontroláveis, quanto são ininteligíveis e arbitrárias.

Não tardou, no entanto, a surgir uma interpretação 'positiva', colocando Mersault como o protótipo do homem autêntico, liberto das convenções, incapaz de enganar e de se enganar, e que teve contra si a sociedade, que virá condená-lo, por ser incapaz de mentir e de fingir o que não sente. Vargas Llosa diz que o próprio Camus aceitou essa leitura do personagem Mersault, como se viu no prefácio de uma edição norte-americana de O Estrangeiro. Sobre o seu personagem Mersault, expressou-se Camus:

"O herói do livro é condenado porque não joga o jogo... porque repudia mentir. Mentir não é somente dizer o que não é. Também, e sobretudo, significa dizer mais do que é, e dizer mais do que se sente em relação ao coração humano. Isso é algo que fazemos todos, diariamente, para simplificar a vida. Mersault, ao contrário das aparências, não quer simplificar a vida. Ele diz o que é, recusa mascarar seus sentimentos, e no instante em que a sociedade se sente ameaçada... Não é de todo errôneo, pois, vem em O Estrangeiro, a história de um homem que, sem atitudes heróicas, aceita morrer pela verdade".

Para Albert Camus o absurdo era uma dimensão presente na vida do homem, que, em O Estrangeiro, foi mostrado com toda a sua maestria. Esse romance, publicado pela Éditions Gallimard, em 1957, foi levado para o cinema por Visconti, que o dirigiu; Meursault, o personagem central de O Estrangeiro, foi interpretado por Marcelo Mastroiani, que deu ao tema do absurdo a força dramática na cena em que comete o homicídio, no momento em que dispara sua arma contra a vítima, e justifica esse ato dizendo: ”Foi tudo por causa do sol”. Mas, como diz Horácio Ganzales, editora brasiliense: “Lucchino Visconti não consegue um bom Estrangeiro, pois transcreve situações literalmente, descambando todo o material narrativo para o realismo. Perdem-se a mitologia e os efeitos de tragédia da linguagem literária”.

No romance A Peste, de 1947, traduzida por Graciliano Ramos para a edição da Livraria José Olympio Editora, em 1973, o personagem central é o Doutor Rieux, médico da cidade de Oran, ao norte da África, que foi vítima de uma terrível peste que a isolou do resto do mundo. O absurdo está presente no drama da peste provocada por milhares de ratos que se multiplicavam e se espalham por todos os cantos da cidade; o absurdo está presente na vida de cada um dos habitantes de Oran; estes, tomados de pânico, não conseguem administrar os seus sentimentos de amor, ódio e inveja; encontram-se dominados pela fadiga e pelo medo de virem a somar-se às centenas de cadáveres fétidos que se encontram amontoados nas ruas e praças da cidade.

Também no romance A Queda, publicado em Paris, pela Éditions Gallimard em 1956, encontra-se presente o tema do absurdo; nele não aparece mais o sentimento de solidariedade, como ocorreu em A Peste; neste trecho de A Queda, Camus dá uma idéia clara dessa mudança: “Não podemos afirmar a inocência de ninguém enquanto pudermos afirmar sem dúvida a culpabilidade de todos”. Camus conta, nesse romance filosófico, a história de Clemence, um advogado parisiense, outrora respeitado, que troca Paris por Amsterdã, onde passa a morar numa hospedaria de marinheiros; aí confessa as suas faltas para pessoas desconhecidas; fala da hipocrisia de sua profissão, afirmando aos seus ouvintes: “nunca tive senão boas intenções”; Clemence procura saber o momento em que começou sua queda; seus ouvintes ouvem suas confissões e acabam contando-lhe também os seus erros, o que é esperado por ele; diante de tais confissões, Clemence passa a julgá-los, e a dar a si próprio o direito de cometer todos os crimes.

A Morte Feliz, obra póstuma, foi publicada em 1971; Camus conta uma história que se passa, em grande parte, na década de 30, na Argélia dos anos de 1930; Patrice Marsault, personagem principal, é um empregado medíocre que vive um caso amoroso com Marthe, e que conhece seu ex-amante Roland Zagreus, homem requintado, de posses e inválido; Patrice mata Zagreus para roubá-lo; a partir desse dia, passa a viver uma vida independente; parte para Praga para depois voltar para a Argélia, em busca do sol que não encontrou na Europa. Camus conta essa história revivendo o bairro de Belcourt, na Argélia, no qual passou sua infância; seu emprego como despachante marítimo; sua viagem para a Europa Central, no verão de 1936, e sua passagem pela Itália em 1937; suas internações em sanatórios (tuberculose); sua vida na Maison Fichu, nas colinas da Argélia, em 1936; seu casamento com Simone Hué, e posterior rompimento - o seu segundo casamento foi com Francine Faure, em 1940.

A última obra de ficção publicada por Albert Camus foi O Exílio e o Reino, em 1957, ano em que recebeu o prêmio Nobel de Literatura. Esse é seu único livro de contos (seis histórias ao todo); tais contos, no dizer de André Maurois, pareciam constituir-se em esboço para futuros romances, como ocorreu com A Queda, publicada um ano antes desse livro de contos; estava para ser publicada como conto, mas Camus ampliou a história, que resultou no romance. Esse livro de contos foi publicado no Brasil pela Editora Record, em 1997, com tradução de Valerie Rumjanek, está na sua na sua 6ª edição. Os contos, que integram essa obra, são: A Mulher Adúltera, O Renegado ou um Espírito Confuso, Os Mudos, O Hóspede, Jonas ou o Artista Trabalhando e A Pedra que Cresce. Estes contos de Camus merecem nossa leitura.

Encerro este trabalho sobre Albert Camus, com o seguinte trecho, transcrito por André Maurois, na sua obra citada: “Jean-Claude Brisville perguntou um dia a Camus: “Qual é o cumprimento que mais o irrita?”– ao que Camus respondeu: “A honestidade, a consciência, o humano, enfim, você sabe, todo esse gargarejo moderno”.




REFERÊNCIAS:
CAMUS, Catherine. Nota In: CAMUS, Albert. O primeiro homem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
BARRETO, Vicente. Camus: vida e obra. Rio de Janeiro: José Álvaro, Editor, 197?
GONZÁLEZ, Horácio. Albert Camus. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.
MAUROIS, André. De Proust a Camus. . Trad. Fernando Py. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1966.
VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Tradução de Cordélia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: ARX, 2005.



13 de out de 2009

UM POUCO MAIS DE JOHN MAYNARD KEYNES






por Pedro Luso de Carvalho



Como o mundo enfrenta hoje o ímpeto de uma crise econômica que dá indicativos de que pode superar a Depressão Econômica, que se iniciou no dia 24 de outubro de 1929, na chamada "Quinta-feira Negra", com o crash da Bolsa de Nova York, não é demais voltar a falar um pouco mais de Lord John Maynard Keynes (1883-1946), cujo nome domina a última evolução do pensamento contemporâneo, como preleciona Henri Guitton (Economia Política, Rio de Janeiro, Editora Fundo de Cultura, 1961).


Guitton menciona, que se chegou a falar de uma “revolução keynesiana”, que dataria de 1936, ano tão importante como o de 1776, quando se conheceu a importante obra de Adam Smith. Nessa data, 1936, Keynes publicou sua obra General Theory of Employment, Interest and Money, que se constituiu num marco que geraria inúmeras discussões. Depois disso, raros foram os problemas tratados que não tenham se referido a suas teses, para adotá-las, ou para criticá-las.


De qualquer sorte, Keynes – professor em Cambridge, diretor do Economic Journal, cujo nome era conhecido pela sua atuação na política britânica por ocasião da elaboração do Tratado de Versailles - não se deixava facilmente caracterizar, como diz Guitton: é, ao mesmo tempo, matemático, marginalista e psicólogo. Para ele, o maior problema econômico é suprimir o desemprego e realizar o pleno emprego.


Afirma ainda, Guitton: “Se Keynes revolucionou a teoria, não é, entretanto, o que se chamou de revolucionário. Não preconiza a subversão da ordem estabelecida. Conclui-se, contudo, de sua interpretação que, em situação de desemprego, o Estado tem o dever de intervir para agir sobre as variáveis fundamentais, no sentido que permitir aproximar-se do pleno emprego. Mas esta ação não deve prejudicar a liberdade dos indivíduos. Keynes é um verdadeiro fundador de escola. De seu pensamento sutil, às vezes fugidio, sempre rico e sugestivo, mesmo quando não é muito claro, uma série de discípulos e comentadores tirou, sobre a política fiscal, financeira e econômica, um conjunto de conclusões que marcam o mundo contemporâneo”.

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24 de set de 2009

DOSTOIÉVSKI / Vida & Obra - Parte II




por Pedro Luso de Carvalho



No final da primeira parte de Fiódor Dostoiévski, vida e obra, dissemos: o escritor retorna a São Petersburgo no mês de dezembro de 1859, juntamente com a esposa Maria Dmitrievna e com o filho, que adotara na Sibéria; dez anos antes, quando o escritor é detido juntamente com outros membros do chamado Círculo de Petrashevski, havia muita gente na enorme Praça Senovski, para se despedir dele e de seus companheiros, quando deixam a cidade com destino à prisão da Sibéria; agora, Dostoiévski é aguardado apenas por seu irmão mais velho Mikhail e por seu amigo Alexander Milukov.


Sobre esse encontro, Milukov viria dizer, mais tarde, que “Fiódor Mikhailovitch, segundo minha observação, não havia mudado fisicamente, até parecia mais saudável que antes, e não havia perdido nada de sua habitual energia. Recordo que, naquela primeira ocasião, apenas trocamos algumas idéias e impressões, recordamos os velhos tempos, bem como nossos amigos comuns”. Foi neste ponto que encerramos o texto FIÓDOR DOSTOIÉVSKI, VIDA OBRA – PRIMEIRA PARTE. Portanto, no presente texto - nesta segunda parte -, abordaremos uma outra etapa da vida desse mestre da literatura. Vejamos, pois.


Nesse seu retorno a São Petersburo, Dostoiévski edita, com a parceria de seu irmão Mikhail, o jornal literário O Tempo (Vremia) , que mais tarde seria sucedido pelo A Época (Epokha). Nessa quadra, Dostoiévski tem sucessivas convulsões em conseqüência da epilepsia que o acomete. Embora de saúde precária, consegue completar o seu primeiro romance importante, Humilhados e Ofendidos, cujos capítulos são publicados em sua revista (Vremia); o livro é recebido com entusiasmo pelo grande público, o mesmo não ocorrendo com a crítica; Humilhados e Ofendidos não tem a mesma sorte que seu livro Recordações da Casa dos Mortos, que faz grande sucesso junto a leitores e crítica.


O seu livro Recordações da Casa dos Mortos, constitui-se em importante relato do que Dostoiévski passou no presídio de Omsk, na Sibéria. Essa narrativa de suas amargas lembranças no cativeiro resulta no livro que foi publicado em 1860, depois de ter enfrentado inúmeros obstáculos criados pela censura até a sua publicação, que deu fama ao escritor. Dostoiévski cria um personagem, Alexander Petrovich Gorianchikov, para ser o narrador, visando desviar a atenção da censura. Gorianchikov, da nobreza russa, fora condenado a dez anos de trabalhos forçados pelo homicídio de sua esposa. Esse é o personagem, que, no entanto, não esconde tratar-se do próprio Dostoiévski .

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Na realidade, Recordações da Casa dos Mortos é o resultado da vivência do autor, na condição de presidiário em Omosk, no convívio com criminosos condenados pelos mais diversos crimes, além dos presos políticos. Dostoiévski é o primeiro escritor a escrever sobre os campos de trabalhos forçados da Rússia czarista. Choca a muitos pelo realismo de seus relatos: homens presos pelos pés por correntes, imundícies, promiscuidades, castigos corporais - os presos eram surrados com chicote ou vara, que só cessavam com a ordem do médico da prisão, para daí serem levados aos hospital, até retornarem para o cumprimento do castigo a que foram condenados.


O que se passava no inferno de Omosk não poderia escapar à sensibilidade do escritor: o homicida que mata premido pelas circunstâncias ou o que mata como meio de vida; do ladrão ao astuto chefe de quadrilha, tudo o que via e ouvia seria a matéria-prima para o seu livro 'Recordações da Casa dos Mortos, como para futuras obras, que viria dar conhecimento ao povo russo das atrocidades pelas quais passavam os apenados.

Dostoiévski soube aprender o que a poderosa escola, que é o presídio, tinha para ensinar-lhe; soube interpretar os sentimentos daqueles que com ele compartilham do mesmo infortúnio, das horas de sofrimentos com terríveis espancamentos, torturas desumanas, que acabam desaguando nas suas Recordações da Casa dos Mortos. Nessa obra, escreve Dostoiévski :

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“Aquele que, ao menos uma vez exerceu poder ilimitado sobre o corpo, o sangue, a alma do seu semelhante, sobre o corpo do seu irmão, segundo a lei de Cristo, aquele que desfrutou a faculdade de vilipendiar enormemente outro outro ser feito à imagem de Deus, esse torna-se incapaz de dominar as suas sensações. A tirania é um hábito dotado de extensão, pode desenvolver-se, tornar-se com o tempo uma doença. Afirmo que o melhor dos homens é suscetível de se insensibilizar até ser uma fera. (...) O homem e o cidadão eclipsam-se sempre no tirano. (...) Acrescentemos que o poder ilimitado da fruição seduz perniciosamente, e isso atua por contágio sobre a sociedade inteira. A sociedade que contempla tais atividades com indiferença está já contaminada até ao íntimo. Em suma, o direito de punir corporalmente, que um homem exerce sobre outro, é uma das pragas da sociedade: um processo seguro de sufocar em si mesma qualquer germe de civismo, de provocar a sua decomposição.”


É no final da obra que Dostoiévski acusa o sistema prisional czarista: “Quanta juventude foi desperdiçada dentro desses muros! Quantas energias pereceram, sem serem usadas, pois, a bem da verdade, estes homens eram fora do comum! Todavia, esta poderosa força foi desperdiçada irrevogavelmente! Pergunta-se: "a quem cabe a culpa?" Obviamente, a reposta não precisa ser dada, pois todos a conhecem.”


Jayme Mason escreveu: “A crítica não poupou elogios às Recordações da Casa dos Mortos. Alexander Herzen comparou a pena de Dostoiévski ao pincel de Michelangelo, e Lenin considerou o livro como inigualável na literatura russa e mundial. Não faltou quem comparasse os quadros de Dostoiévski , nesta obra, aos versos do Inferno de Dante. O nome de Dostoiévski atravessava as fronteiras da Rússia e sua obra ganhava a atenção dos países da Europa.”


Georg Lukács diz nos seus Ensaios Sobre Literatura, a respeito da transitoriedade do homem: “Um personagem secundário de Dostoiévski ilustra muito bem a atmosfera desses romances, afirmando sobre os homens em geral, transcrevendo trecho do livro de Dostoiévski: “Todos, como se nos encontrássemos numa estação ferroviária”.


“Essas poucas palavras - diz Lukács - exprime algo extraordinariamente importante. Em primeiro lugar, para essas pessoas toda situação tem caráter transitório. Estamos parados numa estação esperando a saída do trem. Naturalmente a estação não é a nossa casa, assim como o trem é apenas a passagem de um ponto para outro. Essa imagem exprime apenas a passagem de uma forma genérica o sentido da própria vida dos personagens de Dostoiévski. Memórias da Casa dos Mortos, escrita no cárcere ele observa que até mesmo os condenados a 20 anos consideram a permanência na prisão como um estado transitório.”


Em breve voltaremos com mais um texto sobre a vida e a obra do escritor. Leia também, FIÓDOR DOSTOIÉVSKI, VIDA OBRA – PRIMEIRA PARTE.




REFERÊNCIAS:
GROSSMAN, Leonid. Dostoiévski Artista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
MASON, Jayme. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Obejtiva, 1995.
MORAIS, Regis de. Fédor M. Dostoievski. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 19982.
LUKÁCS, Georg. Ensaios Sobre Literatura. Tradução de Leandro Konder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
FRANK, Joseph. Dostoievski. La secuela de la liberación 1860-1865. México: Fondo de Cultura Económica”, 1993.

17 de set de 2009

DINHEIRO APLICADO EM AÇÕES



por Pedro Luso de Carvalho

Enquanto aguardava a partilha de uma pequena herança, em ação de inventário que tramitava numa das Varas de Família e Sucessões do Foro Central de Porto Alegre, meu cliente, um dos herdeiros, não saia do banco que elegeu para fazer suas futuras aplicações monetárias, buscando entender os meandros da Bolsa de Valores, para, no mínimo, duplicar o dinheiro que logo passaria aplicar.


De posse de seu formal de partilha, não titubeou: destinou tudo o que recebeu em ações, de médio e longo prazo. Resultado: transcorrido um pouco mais de três anos, o dinheiro sumiu, na sua integralidade. Hoje, esse incauto aplicador em ações vive as amarguras que são próprias de quem não tem mais perspectivas. É mais um número nesse caos.


Essa história que contam, que uma aplicação financeira em ações de empresas sólidas - principalmente para longo prazo -, traz resultados de ganho garantido, não é engodo recente, pelo contrário, vem de muitos anos. É o que encontramos na obra O Fim dos Ricos, do Professor Honorário do Colégio de França e Representante da França nos Nações Unidas, Alfred Sauvy, com tradução de Roberto Cortes de Lacerda e Helena da Rosa Cortes de Lacerda, publicado pela Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977. O demógrafo, antropólogo e historiador da economia francesa, Alfred Sauvy (1898-1990), foi quem cunhou a expressão "Terceiro Mundo", que a usou para classificar, no âmbito da economia política, os países pobres; países esses que, ainda hoje, são chamados pelos políticos e por alguns economistas, de “países em desenvolvimento”, num eufemismo mal-intencionado.


Vejamos, pois, o que Sauvy escreveu, em 1975, quando a Editora Calmann-Lévy, de Paris, França, editou Le fin des riches: “O difícil, como se sabe, não é tanto ganhar dinheiro, mas conservá-lo. Tradicionalmente, aquele que economiza, isto é, adia um consumo, tem intenção de efetuá-lo mais tarde, com, até mesmo, um pequeno suplemento. Se a soma anual é suficiente, o proprietário pode viver sem fazer nada”.


“Entretanto, o capitalista - prossegue Sauvy -, na acepção de alguém que vive de rendas, desapareceu. Desde os anos 20, quando a esperança insensata do “retorno a como era antes” se dissipou, aqueles que poupam se voltaram para os valores “reais”, que são as ações. Mas visto que, com o passar do tempo, o cálculo se apresentava cada vez mais decepcionante, foi preciso procurar outra coisa. Se bem que uma sociedade por ações possua, sem dúvida, “valores reais”, fábrica etc, uma ação nunca é mais do que um papel. Antes da nacionalização das estradas de ferro, as companhias tinham um ativo enorme, mas o valor das estações, vias, oficinas, material rolante etc, não tinha qualquer sentido mercantil, até mesmo... a estação de Perpignan, tão grata a Salvador Dali”.


Conclui, Sauvy: “O incansável poupador que, por função, segrega incansavelmente o seu suco, procurou verdadeiros “valores reais”, para conservar o fruto do seu suor ou da sua massa cinzenta. Muitas soluções se apresentaram a essa formiga”. O autor termina esse capítulo, falando sobre o ouro, Picasso, pedra e terra. Possivelmente, voltaremos a esse assunto mais tarde.

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8 de set de 2009

ERICH FROMM - A ADAPTABILIDADE DO HOMEM





por Pedro Luso de Carvalho



Escolhemos para esta publicação um texto de Erich Fromm, um dos mais destacados psicanalistas e ensaístas contemporâneos. Fromm estudou Sociologia e Psicanálise nas Universidades de Heidelberg, Frankfurt e Munique. Por ser descendente de judeus, e antevendo, com a ascensão do nazismo, o que mais tarde viria acontecer na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), emigrou para os Estados Unidos em 1932, tornando-se cidadão norte-americano. Seus livros ainda são traduzidos em muitos países. Deu interpretação própria às finalidades da terapêutica, aprofundando-se no estudo sobre a necessidade de ajustar o indivíduo ao meio social e cultural. Erich Fromm nasceu em Frankfurt am Main, em 23 de março de 1900, e faleceu em Muralto, Suíça, em 18 de março de 1980.


Segue, pois, um trecho do livro Análise do Homem (Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1960), trecho este que tem por título Natureza e Caráter do Homem, no qual Erich Fromm inicia-o com ênfase na situação humana, dizendo:


“Um indivíduo representa a raça humana: ele é um exemplo específico da espécie humana. Ele é “ele” e é “todos”; ele é um indivíduo com suas peculiaridades e, nesse sentido, sem igual, mas ao mesmo tempo é representativo de todas as características da raça humana. Sua personalidade individual é determinada pelas peculiaridades da existência humana, comum a todos os homens. Por isso, o exame da situação humana deve preceder o da personalidade”.


E, no título A Debilidade Biológica do Homem, diz Fromm: “O primeiro elemento que diferencia o homem da existência animal é negativo: a ausência relativa, no homem, de uma regulação instintiva do processo de adaptação ao mundo que o rodeia. O modo de adaptação do animal a seu mundo é sempre o mesmo; se o seu equipamento instintivo não mais estiver apto a fazer face a um meio em transformação, a espécie perecerá. O animal pode adaptar-se a condições mutáveis modificando-se a si próprio – aloplasticamente.

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Desta maneira, ele vive harmoniosamente - escreve Fromm -, não na acepção de ausência de luta, mas na de que seu equipamento herdado torna-o uma parte fixa e imutável de seu mundo: ou ele se adapta ou morre. “Quanto menos completo e rígido for o equipamento instintivo dos animais, tanto mais desenvolvido será seu cérebro e, por conseguinte, sua capacidade de aprendizagem”.


A seguir, Fromm diz que o homem está em parte em desvantagem em relação aos animais e traça uma comparação com o homem, desprovido que é desse instinto para adaptar-se, com a mesma intensidade que os animais: “O aparecimento do homem pode ser definido como tendo ocorrido no ponto do processo da evolução em que a adaptação instintiva atingiu seu mínimo. Ele aparece, porém, com novas qualidades que o diferenciam do animal: sua consciência de si mesmo como entidade independente, sua capacidade de lembrar o passado, de visualizar o futuro, e de indicar objetos e atos por meio de símbolos; sua razão para conceber e compreender o mundo; e sua imaginação, graças à qual ele alcança bem além do limite de seus sentidos. O homem é o mais inerme dos animais, mas esta mesma debilidade biológica é a base de sua força, a causa primordial do desenvolvimento de suas qualidades especificamente humanas”.


E no que diz respeito à condição gregária do homem, contrária, pois, a uma vida alienada, longe de seus semelhantes, diz Erich Fromm: “O homem é sozinho e, ao mesmo tempo, relacionado com outros. Ele é sozinho por ser uma entidade original, não idêntica a outrem, e cônscio do próprio ‘eu’ como uma entidade independente. Ele tem de ficar sozinho quando precisa julgar ou tomar decisões exclusivamente baseado no poder de seu raciocínio. E, no entanto, ele não suporta ficar sozinho, desligado de seus semelhantes. Sua felicidade depende da solidariedade que sente com os outros homens, com as gerações passadas e futuras”.

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1 de set de 2009

T. S. ELIOT - Os Homens Ocos




PEDRO LUSO DE CARVALHO


T. S. Eliot, é o nome literariamente adotado por Thomas Stearns Eliot. O escritor norte-americano nasceu em St. Louis, Missouri. Estudou na Universidade de Harvard, onde concluiu o curso de medicina, em 1910. E depois, também em Harvard, doutorou-se em Filosofia. Mais tarde, tornar-se-ia um dos poetas modernos mais discutidos na Europa e nos Estados Unidos. Eliot também foi responsável por importantes ensaios, e, como dramaturgo, por peças de teatro, dentre elas, Assassinato na Catedral (1935).
Em 1914, Thomas Eliot passou a residir na Inglaterra. Após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, lecionou filosofia na conceituada universidade de Oxford. Com 25 anos, Eliot resolveu que não mais voltaria a morar nos Estados Unidos. Quando contava com 39 anos de idade, no ano de 1927, tornou-se cidadão britânico. Em 1948 , recebeu o Premio Nobel de Literatura. A sua morte, em 4 de janeiro de 1965, na Inglaterra, deixaria uma importante lacuna na literatura.
No trabalho que publicamos em 25.08.2009, que se encontra postado abaixo deste, intitulado T. S. ELIOT - POESIA E TEATRO, não foi publicado, na oportunidade, nenhum de seus poemas, mas o faremos hoje com “Os homens ocos”, poema de 1925, traduzido por Ivan Junqueira.


OS HOMENS OCOS
T. S. ELIOT


                                                 "    A penny for the Old Guy"
                                                    (Um pêni para o Velho Guy)




Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
               II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular
               III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.
                IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
               V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.





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