20 de ago de 2009

JAMES ROBINSON - O Pensamento Crítico






por Pedro Luso de Carvalho

Escolhemos para esta publicação trechos do livro The Mind in the Making, de James Harvey Robinson, traduzido para o português por Monteiro Lobato com o título de A Formação da Mentalidade. Trata-se da terceira edição da obra, esta publicada pela Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1957.


O professor de História norte-americano, da Universidade de Pennsylvania e da Universidade de Columbia, James Harvey Robinson, nasceu em Bloomington, Illinois, em 29 de junho de 1863 - faleceu em 16 de fevereiro de 1936. Foi um dos fundadores e o primeiro diretor da Nova Escola para Pesquisa Social, em 1929. Em suas obras e palestras sempre deu ênfase na “Nova História”, na qual incluía não apenas acontecimentos políticos, mas também o social, o científico, o intelectual e o progresso da humanidade. Por isso, exerceu grande influência no ensino da História em seu país.

Passemos, pois, a A Origem do Pensamento Crítico, do livro The Mind in the Making, ("A Formação da Mentalidade"), de James Harvey Robinson, com trechos do início desse capítulo:

"Ao que sabemos, foram os egípcios o primeiro povo que inventou um método de escrever, há cinco ou seis mil anos atrás, e concebeu novas artes desconhecidas de seus bárbaros predecessores. Desenvolveram a pintura e a arquitetura, e ainda várias e engenhosas indústrias; trabalharam o vidro e criaram o esmalte; começaram a usar o cobre, desse modo introduzindo o metal na vida humana. Mas a despeito do extraordinário adiantamento prático dos egípcios, permaneceram eles muito primários em suas crenças.

O mesmo pode ser dito dos povos da Mesopotâmia e dos do ocidente asiático. E o mesmo foi observado entre nós, pois que entre nós as artes práticas se desenvolveram muito antes de começada a revisão das idéias relativas ao homem e aos deuses. As opiniões peculiares dos egípcios não penetraram diretamente em nossa herança intelectual; mas algumas das idéias religiosas fundamentais desenvolvidas no ocidente asiático, influenciaram-nos por intermédio da adaptação judaica.
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Para os gregos, entretanto, a nossa dívida é pesadíssima. A literatura grega, nos fragmentos escapos à destruição, estava destinada, conjuntamente com as Escrituras Hebraicas, a exercer uma incalculável influência na formação da mentalidade moderna. Essas duas heranças literárias originaram-se aproximadamente ao mesmo tempo, na perspectiva da história da espécie. Antes da civilização grega, os livros não haviam representado papel de vulto no desenvolvimento, disseminação e transmissão da cultura de uma geração para outra. Mas a partir da Grécia tornar-se-iam a principal força no estimular ou retardar a expansão do espírito humano.
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Foram necessários mil anos para que os pastores gregos das pradarias do Danúbio assimilassem a cultura das civilizadas regiões em que eles apareceram como bárbaros destruidores. Aceitaram as artes industriais do Mediterrâneo, adotaram o alfabeto fenício e competiram com os mercadores mais alertas da época. Pelo sétimo século antes de Cristo já possuíamos cidades, colônias e comércio, com muita movimentação de um ponto para outro. Os primeiros traços da nova intelectualidade nós os recolhemos nas cidades jônias, sobretudo Mileto, e nas colônias gregas da Itália. Só mais tarde se tornou Atenas o grande centro daquela maravilhosa maré da inteligência humana”.


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16 de ago de 2009

ARNOLD J. TOYNBEE – O SENTIDO DA VIDA





por Pedro Luso de carvalho



Arnold Joseph Toynbee (1889-1975), que se tornou conhecido por sua obra prima A Study of History, escreveu um livro excelente, nascido pelos diálogos que manteve com o professor Wakaizume, da Universidade Sangyo, Kyoto, do Japão, A Sociedade do Futuro (Surviving the Future), Essa obra do mestre da historiografia moderna, composta por sete ensaios, com cada um deles explorando a pergunta inicial que lhe foi feita por Wakaizume sobre a configuração futura do mundo, foi publicada no Brasil em 1976, já na sua 3ª ed., pela Zahar Editores, com tradução de Celina Whately.


Escolhemos, dentre os sete ensaios que compõe A Sociedade do Futuro, para esta publicação, trechos do primeiro ensaio, intitulado ‘O Sentido da Vida’, págs. 13-20, que se inicia com a pergunta que o professor Wakaizume faz a Arnold Toynbee:


WAKAIZUME: "A ciência aplicada à tecnologia tem produzido diversas, complexas e revolucionárias transformações em nossa vida. A rapidez com que se processam faz com que se torne cada vez mais difícil analisá-las. A sociedade que durante milhares de anos foi agrícola, pastoril e rural está-se tornando industrial e urbana. A conseqüente confusão, pressão e tensão que sofremos hoje em dia leva-nos a reconsiderar a questão fundamental do significado e do objetivo da vida. Para que vivem os homens?"


TOYNBBE: "A confusão, a pressão, as complicações e as rápidas transformações da vida moderna refletem-se sobre toda a humanidade e principalmente sobre os jovens. A juventude deseja encontrar o seu caminho, entender o sentido de viver, compreender as circunstâncias com que se defronta. Para que vivem os homens? Essa pergunta que aflige mais aos jovens persegue, entretanto, a todos, em qualquer idade.


Eu diria – continua Toynbee –que o homem deveria viver para amar, compreender e criar. Deveria empregar toda sua habilidade e força sacrificando-se, se necessário fosse, para a consecução desses três objetivos. Qualquer coisa valiosa pode exigir sacrifícios e se você considerá-la valiosa estará preparado para o sacrifício.


Pessoalmente eu acredito – diz Toynbee – que o amor seja um valor absoluto, aquele que dá significado à vida humana e à de algumas espécies de mamíferos e pássaros que, como nós, a meu ver, vivem para o amor. Também acredito (embora saiba que isso não possa ser demonstrado) que o amor que nós conhecemos através de experiências concretas de seres humanos no nosso planeta está presente da mesma forma que um espírito maior, transcendental. O amor pode, e efetivamente às vezes o faz, gerar um amor retributivo. Sabemos, por experiência própria, que quando isso ocorre o amor se expande e se espalha. Entretanto, o amor também pode defrontar-se com a hostilidade e então exigirá um auto sacrifício, mesmo que não vejamos nenhuma possibilidade da hostilidade se transformar em amor”.

10 de ago de 2009

SIGMUND FREUD / Ernest Jones





                            por Pedro Luso de Carvalho



         Dentre os muitos escritores que se ocuparam em escrever a trajetória da vida do médico Sigmund Freud, o criador da psicanálise, o mais importante deles foi Ernest Jones, que escreveu um livro excelente com mais de setecentas páginas, intitulado The Life Work of Sigmund Freud; Lionel Trilling e Steven Marcus foram os responsáveis pela organização e pelo resumo da obra; Trilling também escreveu a sua introdução, para ser editada pela Basic Books Publishing Co., Inc., em 1961. No Brasil, o livro foi editado em 1975, 2ª ed., com o título de Vida e Obra de Sigmund Freud, pela Zahar Editores, com tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos.

       Trilling inicia a introdução do livro, dizendo: “Sigmund Freud pronunciou-se resolutamente, em várias oportunidades, contra o fato de vir a ser objeto de um estudo biográfico, dando como uma de suas razões a afirmativa de que a única coisa importante acerca da sua pessoa eram as suas idéias – a sua vida pessoal, dizia ele, com toda a certeza não poderia ter o menor interesse para o mundo”.

        Para Lionel Trilling, a pessoa de Freud não foi secundada por sua opinião; seu nome e suas idéias foram objeto de reconhecimento universal. Motivos para essa aceitação: “a grandeza e natureza de sua obra”; inegavelmente, O Ocidente rendeu-se à Psicanálise, à teoria relativa a certas doenças mentais; ficou também fascinado pela pessoa de seu criador. “A obra é vasta e concatenada – escreve Trilling – corajosa e magnânima na sua intenção; e não podemos dizer menos da sua vida”.

        O psicanalista nascido em Gowerton, país de Gales, do Reino Unido, Ernest Jones, foi um dos dois ou três membros mais destacados do famoso ‘Comitê', grupo formado por Freud e seus mais admirados e fiéis colegas, escreve Trilling; e, mais: “Freud encontrou em Ernest Jones o seu biógrafo predestinado e plenamente adequado. No correr dos anos, não temos dúvida a respeito, outras biografias de Freud serão escritas, mas na medida em que houver virtudes específicas em quaisquer delas dependerão da obra monumental e autorizada do Dr. Jones”.
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        Diz mais, Trilling, sobre o famoso biógrafo: “Vinculado como estava à Psicanálise nos seus aspectos, digamos, mais ortodoxos, a ele foi sempre possível, pela razão mesma dessa vinculação vigorosa, assumir e manter-se ao nível de Freud acerca de certos itens da teoria”. Vejamos agora o que escreve Ernest Jones no início de sua introdução à Vida e Obra de Sigmund Freud, bem como outro trecho, mais adiante, dessa introdução:

        “Esta não tem a intenção de ser uma biografia popular de Freud - escreve Jones - muitas delas já foram escritas, registrando sérias distorções e inverdades. Seus objetivos consistem simplesmente e anotar os fatos principais da vida de Freud, enquanto ainda são acessíveis, e – numa intenção mais ambiciosa – tentar vincular sua personalidade e as experiências da sua vida ao processo de desenvolvimento de suas idéias”. Segue o segundo trecho da introdução escrita por Ernest Jones:

        “O que Freud deu ao mundo não foi uma teoria da mente perfeitamente acabada e burilada, uma filosofia que talvez pudesse ser debatida sem qualquer referência ao seu autor, mas uma visão que gradualmente se ampliava, uma visão que ocasionalmente se empanava, mas que, em seguida, se tornava luminosa. A Psicanálise, como se passa verdadeiramente com qualquer outro ramo da ciência, só pode ser proveitosamente ser estudada como uma evolução histórica, nunca como se fosse um corpo de conhecimento aperfeiçoado – e o seu desenvolvimento achava-se peculiar e intimamente ligado à personalidade de seu fundador”. 
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                                                                 *  *  *

4 de ago de 2009

LOUIS PASTEUR - A Ciência Moderna

                           
                 por Pedro Luso de Carvalho

     
       No ano de 1967 a Editora Edart publicou o livro Pasteur e a Ciência Moderna, escrito pelo francês René Dubos, no qual faz um relato minucioso das descobertas do criador da microbiologia, Louis Pasteur. René Jules Dubos (1901-1982) recebeu o grau de Doutor em Filosofia na Universidade Rutgers, em 1927. Foi microbiologista e patologista eminente, pioneiro na descoberta dos antibióticos; membro e professor do Instituto Rockefeller, de Nova York. Em 1944, lecionou na Universidade de Harvard no período de dois anos, sem ter deixado o Instituto.

        Nos quatorze capítulos dessa interessante obra sobre Louis Pasteur, físico, químico e biólogo, e um dos nomes mais importantes da ciência de todos os tempos, René Dubos traça uma biografia do cientista antes de abordar as suas pesquisas de estereoquímica, aos seguintes estudos: 1) sobre as fermentações [demonstrou que eram causadas por microorganismos e que não existia a “geração espontânea” de micróbios]; sobre o bicho-da-seda; 2) sobre os vinhos; 3) sobre a conservação da cerveja (pausterização). E, também, outras descobertas, como: o micróbio que causa o carbúnculo (e a vacina); vibrião séptico [descoberta]; o estafilococo; a vacina contra a raiva etc. 


        Louis Pasteur nasceu na pequena cidade francesa de Dôle, no dia 27 de dezembro de 1822. Sua família vivia com os sacrifícios próprios de quem não tem posses. Seu pai, um ex-sargento dos exércitos de Napoleão, que trabalhava com um pequeno curtume em sua casa, acalentava o sonho de ver seu filho formar-se para se tornar professor, profissão que na época representava grande distinção, e, para isso, não poupou esforços para mantê-lo estudando. Uma vez concluída a Escola Normal Superior, ingressou no magistério, mas aí ficaria por pouco tempo, já que voltaria sua vida para a ciência, com dedicação exclusiva.
       Pasteur dedicou-se, desde muito cedo, ao desenho e à pintura, e em certa altura de sua vida pretendeu tornar-se profissional, como caricaturista, inclusive. Mas, aos dezenove anos, deu a definitiva guinada em sua vida ao decidir-se pela ciência, em detrimento da carreira artística. Albert Edelfeldt, pintor de prestígio, que pintou o retrato de Pasteur em seu laboratório, em 1887, que se tornaria famoso, disse, por carta que “se Pasteur tivesse escolhido a arte ao invés da ciência, a França contaria hoje com mais um hábil pintor...” Perdeu a pintura para a ciência, em benefício da Humanidade.
       
        Por suas pesquisas e descobertas, Pasteur mereceu o lugar que ocupou na Academia Francesa de Letras, em 1882, já no ocaso de sua existência; o mesmo pode ser dito por ter integrado a Academia de Ciências (dela recebeu um prêmio por seus estudos sobre fermentação, em 1861). Bem antes de ter recebido essas honrarias Pasteur já havia recebido a Légion d'Honneur Francesa pela descoberta sobre o desvio no plano de polarização da luz, com apenas 26 anos de idade. Por tudo o que fez em prol da Humanidade, Pasteur constituiu-se no seu maior benfeitor.


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28 de jul de 2009

CORTÁZAR FALA SOBRE NERUDA





por Pedro Luso de Carvalho

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A Editora Civilização Brasileira lançou, em 2001, Obra crítica/3, de Julio Cortázar, um livro de excelente qualidade, o que, aliás, não surpreende, já que estamos falando de um importante romancista, contista, ensaísta e crítico. Nessa obra, em três volumes, vê-se que quem o escreve é um escritor erudito, maduro e sensível, aí distante das suas obras de ficção, já que se volta para ensaios, crítica, artigos e cartas . O responsável pela organização da obra foi Saúl Sosnowski. Os tradutores foram Paulina Wacht e Ari Roitman.


Escolhemos de Obra crítica/3, o ensaio Neruda entre nós, escrito por Cortázar, em Genebra, no ano de 1973, no qual analisa a época em que Neruda conviveu com seus amigos, na Ilha Negra e fora dela; em que fala de sua poesia, de sua luta política - sempre sonhando com a igualdade social, não apenas no Chile, seu país, ou na América do Sul, mas em todo o mundo, sem quaisquer fronteiras, nesse sentido. Vejamos, pois, o que Cortázar fala sobre Neruda, nos trechos que seguem:


“Tão próximo como está na vida e na morte, toda tentativa de ‘fixá-lo’ a partir da escrita corre o risco de qualquer fotografia, de qualquer testemunho unilateral: Neruda de perfil, Neruda poeta social, as abordagens usuais e quase sempre falíveis. A história, a arqueologia, a biografia, coincidem na mesma tarefa terrível: espetar a borboleta no cartão. E o único resgate que as justifica vem da região imaginária da inteligência, de sua capacidade para ver em pleno vôo aquelas asas que já não são cinza em cada pequeno ataúde de museu.


Quando entrei pela última vez em seu quarto na Ilha Negra, em fevereiro deste ano, Pablo Neruda estava na cama, talvez já definitivamente imobilizado, e no entanto sei que naquela noite andamos juntos, por praias e sendas, que chegamos ainda mais longe do que dois anos antes, quando ele veio me receber na entrada da casa e quis me mostrar as terras que pensava doar para que depois de sua morte erguessem ali uma residência para escritores jovens.


Assim, como se estivesse passeando ao seu lado e ouvindo as suas palavras, gostaria de dizer aqui a minha palavra de latino-americano já velho, porque muitas vezes no turbilhão da quase impensável aceleração histórica do século senti dolorosamente que para muitos a imagem universal de Pablo Neruda era uma imagem maniqueísta, uma estátua já erigida que os olhos das novas gerações olhavam com o respeito entremesclado de indiferença que parece ser o destino de todo bronze em toda praça.


Gostaria de poder contar a estes jovens de qualquer país do mundo, com a simplicidade de quem encontra os amigos num bar, as razões de um amor que transcende a poesia por si mesma, um amor que tem outro sentido, diferente do meu amor pela poesia de John Keats ou de César Vallejo ou de Paul Eluard; falar do que ocorreu nas minhas terras latino-americanas nesta primeira metade de um século que já se confunde para eles na continuidade de um passado que tudo devora e confunde".


Neste ponto deste ensaio de Cortázar, damos um salto para a página em que fala de seu relacionamento com Neruda. “Conheci muito pouco o homem Pablo Neruda, porque entre os meus defeitos está o de não me aproximar dos escritores, preferir egoisticamente a obra à pessoa. Tive dois testemunhos do seu afeto por mim: um par de livros com dedicatória que me remeteu a Paris, sem jamais ter recebido nada meu, e uma página que enviou para a revista cujo nome não me lembro, na qual generosamente tentava aplacar uma falsa, absurda polêmica entre José Maria Argüedas e mim a propósito de escritores residentes e escritores exilados”.


Damos mais um salto desta página para o final do ensaio de Cortázar: “Na minha primeira visita, dois anos antes, tinha me abraçado dizendo um ‘até logo’ que se cumpriria na França; dessa vez nos fitou por um instante, suas mãos nas nossas, e disse: “Melhor a gente não se despedir, não é mesmo?”, os fatigados olhos já distantes.


Era assim mesmo, não tínhamos que nos despedir; isto que escrevi é a minha presença junto a ele e junto ao Chile. Sei que um dia voltaremos à Ilha Negra, que o seu povo entrará por aquela porta e encontrará em cada pedra, em cada folha de árvore, em cada grito de pássaro marinho, a poesia sempre viva deste homem que tanto o amou”.


PABLO NERUDA, como era conhecido Neftalí Ricardo Reyes, nasceu em Parral, em 1904, e morreu em Santiago, Chile, em 1973. Em 1971, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.


JULIO CORTÁZAR, filho de pais argentinos, nasceu em Bruxelas, em 1914; foi educado na Argentina, onde estudou Letras e trabalhou como professor em áreas rurais do país; era naturalizado argentino. Em 1951, mudou-se para Paris, onde morreu no ano de 1984.


23 de jul de 2009

SARTRE – SEGUNDA PARTE





                       
                 por Pedro Luso de Carvalho


        No texto anterior, sobre Jean-Paul Sartre, publicado neste espaço, escrevi: “Nas próximas publicações, continuaremos falando da obra de ficção de Sartre, de suas peças para o Teatro (que, segundo Maurois, foi onde encarnou suas idéias de maneira mais intensa), e mais: da sua atuação na política, da influência que exerceu sobre a juventude do pós-guerra, de sua recusa em receber o Premio Nobel de Literatura etc.” No entanto, senti que se fazia necessário falar um pouco mais sobre a filosofia de Sartre, que, diga-se, sobre ela muito há para ser dito, e que não comporta neste pequeno espaço. Mas, de qualquer forma, vamos mostrar, nesta postagem, a opinião de importante escritor francês, André Maurois, membro da Academia Francesa, sobre a filosófica de Sartre.

        Também escrevi no artigo anterior, que: Em 1928, Sartre termina o curso de Filosofia. Nesse ano, prestou o serviço militar em Tours, na função de meteorologista. Retornou a Paris em 1930, de onde sairia para a cidade portuária de Havre, para ensinar Filosofia numa escola secundária, e depois em Laon, no Nordeste da França. Numa de suas voltas a Paris, encontrou-se, num café de Montparnasse, com seu ex-colega da Escola Normal, Raymond Aron, que retornava de Berlim, onde fora estudar a doutrina fenomenologista do filósofo Edmund Husserl (1859-1938). Com eles, encontrava-se Simone de Beauvoir; em suas memórias, La Force de L’Âge ('Na Força da Idade'), a escritora relata esse encontro:

        “Está vendo, meu amigo, afirmava Aron apontando seu copo; "se você é femenologista, pode falar deste coquetel e estará falando de filosofia". Sartre empalideceu de emoção, ou quase: era exatamente o que ambicionava havia anos: falar das coisas tais como as tocava, e que isso fosse filosofia. Aron convenceu-o de que a femenologia atendia exatamente a suas preocupações: ultrapassar a oposição do idealismo e do realismo...” . A oposição era eliminada por Husserl, segundo essa assertiva: “Toda consciência é consciência de alguma coisa”. Para o filósofo alemão, idéias e coisas não podem ser separadas e constituem um único fenômeno.

        Depois de ter uma bolsa para estudar um ano em Berlim, em 1933, Sartre estudou, além das teorias de Hussrl, as teorias existencialistas de Heidegger, Karl Jaspers e Max Scheler (1874-1928), que aprofundavam as idéias de Kierkegaard sobre a angústia e o vazio da existência humana. O jovem filósofo Sartre sentia-se inclinado para uma nova filosofia, misto de existencialismo e femenologia. Foi na Alemanha que Sartre exprimiu essa posição no seu romance (não num texto filosófico) Mélancolie ('Melancolia'), que mais tarde teria outro título: A Náusea.

        Os primeiros trabalhos publicados de Sartre sobre Filosofia pura foram: L’Imagination (1939) e L’Imaginaire (1940). Segundo Maurice Cranston: “Sartre deixou-se influenciar por Hussrl e Heidegger, os quais, todavia, não os conheceu – e acrescenta - esses trabalhos devem-se mais a Hussrl, o fenomenologista, do que a Heidegger, o existencialista. Mas na obra filosófica mais substancial de Sartre, L’Être et le Néant (1943), conquanto subintitulada essai d’ontologie phénoménologique, existe mais do gênero de filosofia de Heidegger; e o livro é geralmente visto como um tratado, na realidade como um clássico do existencialismo. O próprio Sartre sempre gostou de ser conhecido como existencialista”.

       Vejamos, agora, o que escreve André Maurois sobre o Sartre filósofo: “Sartre é filósofo antes de ser romancista. Seus romances, suas novelas, suas peças são encarnações de sua filosofia. Foi através dela que 'conquistou' os homens do seu tempo. A idéia que o tornou um homem ilustre foi unir literatura e filosofia. Ele sempre considerou que em cada época existe apenas uma filosofia viva, a que exprime o movimento geral da sociedade (... ) Sartre não acredita na existência de Deus. “Deus está morto”, dizia Nietzche. Quanto a Sartre, recebeu Deus de sua família cristã.”

         Prossegue, falando sobre a Critica da Razão Dialética, obra recente para a época; escreve Maurois: “ Numa obra recente ('Crítica da Razão Dialética') Sartre estudou as relações entre o existencialismo e o marxismo. Educado num humanismo burguês, ele sentiu, muito cedo, a necessidade de uma filosofia “que o arrancasse à cultura defunta de uma burguesia que vegetava sobre o passado”. O marxismo parecia-lhe ser essa filosofia. “Estávamos convencidos, ao mesmo tempo, de que o marxismo fornecia a única explicação válida da história, e que o existencialismo era a única aproximação concreta da realidade.” Na juventude do seu pensamento as duas doutrinas pareciam-lhe complementares. No entanto os elementos de um conflito existiam. O marxismo é um determinismo. Ele ensina que o pensamento de cada época é condicionado pelos métodos de produção e de distribuição.”

        Nesta altura, Maurois aborda o aborrecimento de Sartre com relação ao socialismo, quando os bolchevistas assumem o poder, e sua ânsia em defender o pensamento original de Marx, no seu entender desvirtuado pelos integrantes do poder: “Hoje em dia quer-se obrigar os indivíduos e os fatos a entrarem em fôrmas pré-fabricadas. Por conservadorismo burocrático, pretendem reduzir as mudanças à igualdade.” E, completa Maurois: “Diante desse marxismo preguiçoso, diz Sartre, é legítimo apelar para o existencialismo”.

        André Maurois escreve: “Que se deve concluir? Não que Sartre rejeita o marxismo, mas que tenta recuperar o homem que vive no interior do marxismo. Sem homens vivos e determinados não há história. Hegel já demonstrara que as teses opostas são sempre abstratas, com relação a uma solução que é concreta. (Assim terminará, com uma solução concreta, a abstrata e obsoleta querela entre o liberalismo e o dirigismo). Sartre também aproxima-se muito mais da vida no seu teatro que na sua filosofia.”

        "Essa filosofia causou muito barulho; exerceu uma influência. Mas em geral foi pouco compreendida. O povo chamou de existencialistas moças e rapazes de cabeos compridos! Na verdade o existencialismo é uma filosofia da liberdade, grave, profunda, que Sartre expôs brilhantemente, mas que não inventou. Ela veio, como já dissemos, de Kierkegaard, de Husserl. O que fez, com sucesso, um grupo de escritores franceses (e principalmente Sartre e Simone de Beauvoir) foi transpor essa filosofia para romances e dramas aos quais levava um peso e uma ressonância, enquanto, reciporocamente, romances e dramas conferiam ao existencialismo, sobre os espíritos modernos, um poder que jamais teria tido sem essas encarnações.”

        Por ora, ficamos por aqui, para não nos alongarmos. E, como muito mais há para ser dito sobre a filosofia de Sartre, deixaremos essa tarefa para outra ocasião. Somente depois que passarmos pelo seu mundo filosófico é que passaremos para a obra literária de Sartre. [Para ler ao primeiro texto sobre Sartre, clique em:
Sartre - Primeira Parte.]





REFERÊNCIA:
MAUROIS, André, 'De Gide a Sarte'. Tradução de Maria Clara Mariani Lacerda e Fernando Py. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1966.



20 de jul de 2009

PAULO COELHO, UM FENÔMENO!



por Pedro Luso de Carvalho



Não li nenhum dos livros de Paulo Coelho, mas reconheço que o escritor é um homem que sabe conduzir os negócios que se relacionam com a sua produção literária. Esse talento do escritor é inegável, tanto que até hoje ninguém vendeu tantos livros quanto ele, desde que livros são escritos e vendidos em todas as partes do mundo. Portanto, o preconceito, que no Brasil é manifesto em muitas esferas culturais sobre a qualidade das obras de Paulo Coelho, pouco tem pesado, ou quase nada, no que diz respeito à aceitação de seus livros pelos seus leitores, daqui e de boa parte do mundo.


E, mesmo que dito preconceito barrassem a venda de sua obra aqui no Brasil, isso não impediria que em outros países leitores buscassem livrarias para adquirir os seus livros, como vem ocorrendo há muitos anos. O que se tem visto pelos meios de comunicação é que a obra de Paulo Coelho tem tido uma invejável aceitação, como acontece, por exemplo, na França, país que é um símbolo do bom gosto e da cultura, onde escritores de todo o mundo aportam, principalmente em Paris, em busca da fama que a Cidade Luz pode lhes dar, isso, desde os anos de 1930, no mínimo.


Também não se pode dizer que, nos países em que seus livros são vendidos, Paulo Coelho seja tratado como uma pessoa folclórica, como, aliás, acontece no seu país, o Brasil. Em muitos países o escritor é recebido por pessoas públicas importantes, como é o caso de Sarkozy, presidente da França, e por aí afora. E nos locais onde se apresenta, a ele é dispensada uma atenção digna de escritor de renome, onde não se vislumbra preconceito sobre a sua obra literária.



No dia 15 de outubro de 2008, Paulo Coelho concedeu uma entrevista coletiva em Frankfurt, Alemanha, onde ele foi o convidado de honra para a 60ª edição da Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento da indústria editorial do mundo. Paulo Coelho desembarcou em Frankfurt, onde se encontravam 7.373 expositores de 101 países, para comemorar os 100 milhões de exemplares de livros vendidos em todo o mundo e receber o prêmio Guinness por ser o autor do livro mais traduzido no mundo, O Alquimista, em 67 idiomas. Em entrevista coletiva, Paulo Coelho foi sucinto ao se autodefinir: “Sou o intelectual mais importante do Brasil. Ponto. Não preciso explicar”. Salve, Paulo Coelho!



15 de jul de 2009

EGITO GONÇALVES – Pedra de Fecho





                     PEDRO LUSO DE CARVALHO



        A jornalista brasileira, Denira Rosário, autora do livro "Palavra de Poeta – Portugal", entrevistou na cidade do Porto, Portugal, o poeta Egito Gonçalves, no ano de 1990. Nessa entrevista, o poeta diz que nasceu no ano de 1920, numa vila que foi centro de uma grande indústria de sardinha em conserva; e que seus pais eram de origem camponesa do minifúndio transmontano, e que, assim, teve um ambiente familiar esse componente rural e o citadino marítimo, mistura essa que, no seu entender, foi muito importante para sua vida.

        Denira Rozário diz que Egito Gonçalves fala com naturalidade de sua família e de sua formação, como neste trecho: “Pobre, sem grande cultura, temente a Deus, mas indiferente à prática religiosa. As minhas relações com meu pai foram más – era um homem com alguns traumas. Com o resto da família as relações foram boas. Mas era gente que não exteriorizava muito a ternura, do que resultou uma infância seca e carente, sem deixar marcas de amargura mas também não produziu alegria. É um período que não se esvaziou, a memória encarregou-se de relegar”.

        Sobre a sua formação e autores que leu, diz Egito: “Freqüentei um curso técnico, que não terminei pois não levaria nenhum proveito para a literatura. Ninguém me orientou leituras; sempre li muito, tudo o que me vinha à mão; Victor Hugo, Emilio Salgari, Julio Verne, Eça de Queirós, foram certamente os primeiros autores que li. Quanto aos poetas, quase nada. Poemas avulsos de Guerra Junqueiro, Florbela Espanca, Antero e outros.

        O poeta Egito fala a Denira sobre sua chegada à Ilha de São Miguel, Açores: “Ali fiz amigos cultos, com bibliotecas ótimas e atualizadas. A aprendizagem da escrita foi lenta, passando por numerosos autores; o segundo livro de poemas que li foi A Viagem, de Cecília Meireles, depois Drummond, Bandeira, mas penso que nenhum me influenciou profundamente: de todos tirei alguma coisa para conseguir encontrar-me. Em Drummond descobri que a ironia era possível e permitiu a liberdade a essa minha tendência”.

        Mais adiante, a entrevistadora Denira Rosário indaga sobre a militância política. Egito Gonçalves passa a falar sobre a luta política contra o fascismo e a violência da Guerra de Espanha, bem como as suas conseqüências e as preocupações sociais, que, como diz, “não se compadeciam com a arte pela arte, com a pura especulação estética”. Egito se refere a essa especulação estética, a arte pela arte, como 'torre de marfim', que acabou sendo substituída pelo humanismo, que, para ele, constituiu-se em “momento importante de uma consciência intelectual necessária. Mas nunca me considerei participante e muito menos militante de qualquer movimento - conclui”.

         Como é longa a entrevista concedida pelo poeta à Denira, vamos ficar com mais este pequeno trecho, no qual é perguntado se ele escreve muito. “Escreve muito? - pergunta Denira -Muito pouco - responde: a safra de cada ano não ultrapassa a dúzia de poemas. Mas a quantidade nunca me preocupou. A qualidade, sim. Atingir um determinado nível estético e sobretudo não me transformar num 'moinhos de oração', num poeta que escreve – e publica – regularmente, repetindo-se a si mesmo, transformando a poesia numa fórmula.”

        Egito Gonçalves passou a viver na cidade do Porto desde 1948, aí residindo até a sua morte, em 2001. Seu nome completo era José Egito de Oliveira Gonçalves. Exerceu ao longo de sua vida atividades diversas. Publicou seus primeiros livros em 1950. Em 1951 fundou a revista A Serpente (1951), tendo depois participado na fundação e direção de outras revistas literárias: a Árvore (1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68), e Limiar (de que saiu o primeiro número em 1992). Foi escritor e tradutor.

        Ao poeta Egito Gonçalves foram concedidos os seguintes prêmios: Prêmio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa pela seleção de Poemas da Resistência Chilena (1977); Prêmio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros (1985); e, mais: Prêmio de Poesia do Pen Clube, o Prêmio Eça de Queirós e o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro E No Entanto Move-se' (1995). Sua obra encontra-se traduzida para o espanhol, francês, búlgaro, polonês, turco, romeno e catalão.
Egito Gonçalves (José Egito de Oliveira Gonçalves) faleceu na cidade do Porto, Portugal, em 29 de Janeiro de 2001.


                                   [ESPAÇO DA POESIA]

                                      
                                     PEDRA DE FECHO

                                                            (Egito Gonçalves)



        Sobre o presente escrevo. Raspo
         a caliça do invólucro, tento
         atingir o cerne emparedado.

         Sobe até mim a esperança de supor
         que serei ininteligível
         aos leitores do futuro.

         Penso que acreditarão mórbida
         a minha "fantasia". Não poderão
         entender este gosto de saliva
         e veneno; esta floração
         de artérias abertas sob a raiva.

         Pensarão: "Que pavores o povoaram"?
         Como acreditar na falta de saúde
         do tempo que descreve? Aceitaremos
         este emissário da dor, este vazio
         febril das mãos que estende?

         Entre o papel e a luz escrevo
         das moedas do agora. Pressagio
         que não entenderão, que não serão
         raros braços a arder os clarões na noite.



REFERÊNCIAS:
ROZÁRIO, Denira. Palavra de Poeta – Portugal. Introdução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1994.


                                                                                      *  *  *  *  *  *


10 de jul de 2009

HERMANN HESSE - Leitura e Livros


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por Pedro Luso de Carvalho


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Infelizmente, o brasileiro lê muito pouco: 1 livro por pessoa, ao ano, é a média; a exceção está no Estado do Rio Grande do Sul, que são 4 livros por pessoa, também por ano; convenhamos, mesmo esse número (quatro) é pouco significativo. A falta de motivação à leitura, é uma das causas que geram esse baixo número de leitores: quando os pais não têm o hábito da leitura, livros não são encontrados em suas casas, o que decretará que, também eles, os filhos, não serão leitores no futuro; e, parar esse círculo vicioso, é quase impossível.


Também o Governo da União não contribui para melhorar essa situação, e o mesmo ocorre com os governadores dos Estados e com os prefeitos dos Municípios, que deveriam criar bibliotecas em todas as escolas, além de bibliotecas públicas, pois, é na infância e na adolescência que se adquire o hábito da leitura; depois dessas fases, as resistências para que se adquira esse hábito são quase insuperáveis. Sobre tema da leitura, vejamos o que diz Hermann Hesse, no capítulo Leitura e Livros (in Para Ler e Pensar, Rio de Janeiro, Editora Record, 198?):


“Ler sem pensar, ler distraidamente, é como passar por entre belas paisagens com os olhos vendados. Tampouco devemos ler para esquecer-nos a nós e à nossa vida quotidiana, mas, ao contrário, para reassumirmos em nossas mãos firmes e da maneira mais consciente e madura, a nossa própria existência. Devemos ir aos livros não como alunos tímidos que temessem aproximar-se de mestres frios e indiferentes; não como os ociosos que passam o tempo a beber. E sim, como alpinistas a galgar as alturas; como guerreiros que correm ao quartel para buscar armas. E não como quem estivesse a fugir de si mesmo, sem vontade de viver”.

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7 de jul de 2009

PETER WEIR - Sociedade dos Poetas Mortos



por Pedro Luso de Carvalho


O filme Dead Poets Society, dirigido por Peter Weir (o mesmo diretor de A Testemunha), foi lançado nos Estados Unidos no ano de 1989, e não tardou a chegar às telas brasileiras com a correta tradução de Sociedade dos Poetas Mortos. O filme recebeu o Oscar de melhor roteiro original; o roteirista Tom Schulman foi o responsável pela merecida premiação. O ator principal do filme, Robin Williams, representa um professor distante dos padrões da época e da escola; ele é o responsável pelas aulas de literatura inglesa.


A história se passa na Nova Inglaterra, que recebe alunos em regime de internato, no fim dos anos 50. A atuação desse professor é diferenciada de seus colegas, fato que preocupa a diretoria da Escola, que se mostra ressentida com a sua maneira anticonvencional de ministrar as suas aulas, insistindo que seus alunos aprendam a pensar por conta própria; que aprendam a discutir poesia e “aproveitar cada dia ao máximo” - em latim, Carpe Diem.


Li numa revista, na época em que o filme foi lançado, não me lembro qual era, que a história desse professor foi inspirada em Jean-Paul Sartre; não sei se é verdade, mas o certo é que sempre que vejo o filme (Dead Poets Society), como o fiz ontem – muito distante, portanto, do ano de seu lançamento –, me vem à mente a figura de Sartre; da mesma forma que volto a pensar na sua mensagem (do filme), transmitida por esse professor idealista, que ensina seus alunos a pensar por conta própria e aproveitar cada dia ao máximo (Carpe Diem). Por isso, acho que sempre vale a pena rever esse filme para não esquecer a sua mensagem.


3 de jul de 2009

[Poesia] PEDRO LUSO - Hemoptise





   HEMOPTISE                    
   – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Vi o homem sonolento
no quarto sombrio.
Olhos vítreos,
pálido rosto
marcado
por rugas precoces –
prenúncio da morte
esperada,  
lenitivo da dor.

Tosse prestes a romper
a azulada veia,
desenhada
por mão
de espectral ser
no marmóreo
rosto do homem.

Corpo esquálido,
denúncia da luta inútil
pela inútil vida
do homem.
De súbito, a hemoptise,
cone de ventre ávido
e impiedoso – 
sangue manchando
os sonhos
e afogando a vida.



    *  *  *

30 de jun de 2009

QUEM FOI LENIN? - SEGUNDA PARTE



por Pedro Luso de Carvalho


Encerrei o texto Quem Foi Lenin? - Primeira Parte, com este parágrafo: Depois de muita reflexão sobre os camponeses de Samara, Vladimir tornou-se um revolucionário; e, uma vez formada sua convicção, tomou a decisão de colocar em prática a sua teoria, e, para tanto, mudou-se em caráter definitivo para São Petersburgo, no fim do verão de 1893. Lenin assimilou dois elementos marxistas: a luta de classes e a necessidade de uma etapa capitalista.

Nesta segunda parte de Quem Lenin?, a abordagem do tema será sobre a sua atuação política e seu casamento com Nadejda Konstantinovna Krupskaia. A respeito da atuação do revolucionário Vladimir Ilitch Ulianov Lenin, diz o registro histórico que, aos 23 anos, já residindo em São Petersburgo, ele estava decido lutar pelo marxismo, e essa sua adesão seria, como de fato foi, irreversível.


Vladimir Ilitch rejeitava as idéias populistas que eram propagadas pelos seus contemporâneos. Para Lenin, acreditar que se podia realizar o socialismo com base nas massas camponesas seria um erro; na Rússia havia profundas distinções sociais, distinções essas que eram provocadas pelo capitalismo, que também atingia a economia rural; e havia ainda a falta de capacidade de agruparem-se, pois a classe dos camponeses não era homogênea. Para ele os camponeses podiam apenas lutar em si - ricos contra pobres -, o que em nada contribuiria para edificar uma nova ordem social.


Na Itália , Maurizio Ferrara publicou no L'Unità, em 19 de abril de 1970: “Lenin marxista e revolucionário nasceu de um indissolúvel entrecho de precoces virtudes intelectuais e de capacidade de análise e ação diante da realidade. Já era um homem 'absolutamente politizado' que, logo após deixar a província e se transferir para São Petersburgo, lança-se à luta sem, no entanto, abandonar, de todo, a profissão de advogado, que sempre lhe dava algum dinheiro. Emerge no mundo ainda restrito mas já férvido do marxismo. Filia-se a um círculo clandestino chamado 'dos Velhos', onde, rapidamente, torna-se um líder e supera os elementos que apenas convidam a preleções (...)”.
 

Para Lenin, não havia dúvida quanto a forma de ação para atingir o objetivo do marxismo, que aspirava: buscaria os pequenos lavradores, as demais pessoas pobres e os trabalhadores assalariados, colocando-os, para a sua revolução, ao lado da classe operária, e passaria a instruí-los como fazia com com os operários das fábricas. Para Lenin não seria necessário esperar a industrialização da Rússia, como ponto de partida para desencadear a revolução; essa sua posição era contrária a que defendia Plekhanov, o mais autorizado marxista russo da época.


Foi numa das reuniões realizadas em São Petersburgo, entre os militantes aos quais se integrara, que Lenin conheceu a mulher com quem logo se casaria, Nadejda Konstantinovna Krupskaia, oriunda da pequena nobreza, embora sem dinheiro; sua mãe (de Nadejda), após concluir seus estudos, foi trabalhar como governanta (serviço que mais tarde seria desempenhado também pela filha Nadejda Krupskaia). Nadejda não se descurava de seu trabalho, e à noite estudava; mais tarde, formou-se numa pequena faculdade para mulheres, em São Petersburgo.


Sobre Nadejda Konstantinovna Krupskaia, disse o crítico norte-americano (e autor de contos e romances), Edmund Wilson, no seu famoso livro Rumo à Estação Finlândia: “No início dos anos 1890, ensinava geografia em escolas dominicais para operários. Uma vez descobriu que uma de suas turmas era um grupo de estudos de Marx. Leu Marx também, e tornou-se marxista. Nas fotos que a mostram quando jovem, com blusas de colarinho alto e mangas largas da época Krupskaia parece um tanto masculina, os cabelos lisos escovados para trás, os olhos apertados com uma expressão de desdém, um nariz voluntarioso e uma boca com lábios carnudos, porém carrancuda”.


Em São Petersburgo foi realizado o casamento de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin com Nadejda Konstantinovna Krupskaia, depois de terem se conhecido entre os militantes dessa cidade. Encontraram-se numa reunião em que os militantes projetavam Comitês de Instrução Popular e discutiam sobre literatura, artes e outros assuntos do gênero. Krupskaia conta do seu entusiasmo ao ouvir Lenin discursar, e de ouvi-lo dizer: “Se pensam, realmente conseguir alguma coisa com esse sistema, o melhor é acomodarem-se!” Nadejda Krupskaia passou a ficar perto Vladimir Ilitch, e tornou-se sua mais fiel colaboradora.


Na próxima parte de Quem foi Lenin?” será abordada a atuação do revolucionário Vladimir Ilitch Ulianov na fase embrionária do marxismo, com a importante colaboração de sua mulher Nadejda Konstantinovna Krupskaia; também será abordada a prisão de Lenin e seu manifesto do Dia do Trabalho escrito na prisão, de onde manteve correspondência com o Ocidente. [Clique aqui para ler:
Quem Foi Lenin - Primeira Parte.]




REFERÊNCIAS:
TROTSKY, Leon. Lenin, Sua Juventude. Tradução de Helene Iono. São Paulo: Global Editora, 1981.
PALTRINIERE, Marisa. Lenin. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1975.
WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. São Paulo: Companhia Das Letras, 1987.

26 de jun de 2009

BUNK AND BECHET IN BOSTON





por Pedro Luso de Carvalho



In 1940 Sydney Bechet had been involved in a abortive attempt to bring Bunk Johnson up to New York to take part in a recording session for Victor. This may have been a gesture to please is brother Leonard, who was anxious to get some mileage out of the teeth he had made for Bunk. In any case, Bunk was was clearly not read for such an outing al that time. The plan had to be kept secret, lest Victor should find out that anon-union musician was to take part in one of their sessions, and Sydney had a ready-made excuse to scrap in the venture when Bunk spilled the beans to Louis Armstrong, who told the press. 


Bechet also used the situation to foster is dislike of Eugen Williams who, he claimed, had turned
Bunk off the idea because he wanted him to record in New Orleans first. Bunk, in his turn, told Sydney that the agreed to record for williams and Bill Russell only go him drumk, but the fact that the Jazz Man session took place two years later makes a nonsense of this. Clearly, there was not much integrity on either side of the deal. In the event Rex Stewart played cornet in the Victor session and made a very good job of it. (Bunk Johnson, in Christopher Hillman, Omnibus Press, London, 1988.)

25 de jun de 2009

FREDDIE HUBBARD, UMA LENDA DO JAZZ






por Pedro Luso de Carvalho


O jornal Globo.com. noticiou na sua seção de Música/Jazz, em 30 de dezembro de 2008: "Morre a lenda do jazz Freddie Hubbard . O trompetista tocou com John Coltrane e Ornette Coleman. Hubbard iniciou a carreira em 1958 e influenciou uma geração de jazzistas.



Freddie Hubbard, o jazzista norte-americano ganhador do Grammy cujo estilo influenciou toda uma geração de trompetistas e que colaborou com artistas como Ornette Coleman, John Coltrane e Sonny Rollins, morreu nesta segunda-feira (29), um mês após sofrer um ataque cardíaco. Ele tinha 70 anos de idade.


Segundo seu empresário, o também trompetista David Weiss, do New Jazz Composers Octet, Hubbard morreu no Sherman Oaks Hospital. Ele havia sido hospitalizado após um ataque cardíaco no dia 26 de novembro.


Figura importante nos círculos de jazz, Hubbard tocou em centenas de discos, numa carreira que começou em 1958, ano em que chegou em Nova York, vindo de sua cidade natal Indianápolis, onde ele estudou no Arthur Jordan Conservatory of Music e com a Sinfônica de Indianápolis.


Logo ele começou a andar com lendas do jazz como Thelonious Monk, Miles Davis, Cannonball Adderley e Coltrane. “Conheci Trane (apelido de John Coltrane) numa jam session na casa de Count Basie, no Harlem, em 1958”, contou Hubbard à revista especializada Down Beat em 1995. “Ele disse: ‘Por que você não chega mais e vamos tentar ensaiar um pouco’. Eu quase fiquei louco. Imagine, um garoto de 20 anos de idade tocando com John Coltrane. Ele me ajudou muito, e trabalhamos bastante juntos”.
 

Nos seus primeiros trabalhos, que incluem os álbuns Open Sesame e Goin' up  lançados pelo selo Blue Note, a influência de Davis e outros no trabalho de Hubbard é obvia, disse Weiss. Bem em um par de anos ele desenvolveria um trabalho único, que influenciaria uma geração de músicos, incluindo Wynton Marsalis.


“Ele influenciou todos os trompetistas que vieram depois dele”, disse Marsalis. “Certamente eu ouvi muito do seu trabalho... Todos nós o ouvíamos. Ele tem esse som alto, e um grande senso de ritmo e tempo e a grande marca do seu estilo é uma exuberância. Sua técnica é exuberante”.


Hubbard tocou em mais de 300 discos, incluindo seus próprios álbuns e em bandas de apoio de outros artistas. Ele ganhou um Grammy em 1972 como melhor performance de jazz em grupo, pelo disco First light.


23 de jun de 2009

MILES DAVIS / Umas linhas Sobre o Mestre



               por Pedro Luso de Carvalho


        O trompetista Miles Davis foi o principal intérprete do estilo cool, estilo este que teve como origem a execução de Lester Young. Miles permaneceu por determinado tempo executando sua música no gênero cool, de onde passaria para o 'jazz rock', no início dos anos 70. Na época em que executou o cool, fez com que muitos saxofonistas brancos seguissem os seus passos.

        André Francis diz que "Miles Davis é uma sonoridade nova onde encontramos, finalmente recomposto, o desempenho do grande trombetista branco dos anos 28-32, Bix Beiderbeche; é uma sonoridade tão diversa da de Amstrong, e, em seguida, de inovadores como Roy Elddridge e Dizzy Gillespie, que no seu estilo tornou-se objeto de renhidas controvérsias. Acreditou-se que fora perdida uma das qualidades do jazz negro, a livre manipulação da sonoridade"

        "Ora - prossegue Francis -, sob a aparência neutra da sonoridade de Miles aprendemos a discernir uma vibrante humanidade, um feeling delicioso de tocante sensibilidade e gosto dos mais originais. Essa sonoridade foi descrita como a de 'um homem que pisa em ovos': fina, leve, curiosamente velada. Para sermos absolutamente justos, assinalemos que, no trato da inspiração, ele por vezes se deixou levar à produção de sons com excesso de metal".

        Miles Davis estudou na conceituada escola Juilliard, de Nova York, graças à iniciativa e apoio de seu pai. Depois, passou a tocar com Benny Carter, Coleman Hawkins e Charlie Parker; este, se tornaria seu verdadeiro mestre. Em 1948, no famoso bar Royal Roost, dirigiu uma orquestra com Allan Eager, Kai Winding e Charlie Parker.
       
        Nesse mesmo local (bar Royal Roost), dirigiu outra orquestra, que marcaria os anos 40 e 50 como um dos períodos mais importantes do jazz, composta de nove músicos, entre eles, Al Haig ou John Lewis, Jay Jay Johnson, Guerry Mulligan, Lee Konitz, Max Roach ou Kenny Clarke. Com esta orquestra, saíram as gravações da dupla Gillespie-Parker, gravada pela Capitol, gravação que consistiu no maior valor para a música, já que o grupo atuou apenas por quinze dias.

        As gravações de Miles Davis foram numerosas, como a série Dial, com Charlie Parker, depois a série Capitol, onde o trompetista contou com excelentes arranjadores, quais sejam: Johnny Carisi, Gerry Mulligan, Gil Evans e John Lewis. A partir daí, diz André Francis (Jazz, ed. Martins Fontes, São Paulo, 1987): “Miles Davis orienta o jazz para uma concepção orquestral nova. Essa formação de importância mediana, ao mesmo tempo que servia de moldura perfeita aos solistas principais, operou uma feliz ligação com a música de câmara erudita: Goldchild, Israël, Boplicity, Moon dreams. Onze peças a serem colocadas na primeira linha das obras-primas do jazz moderno”.

        Miles Dewey Davis Jr nasceu em 26 de maio de 1926, em Alton, Illinois (EUA) e morreu no dia 28 de Setembro de 1991, em Santa Monica, Califórnia.



                                                                                                *  *  *  *  *  *

20 de jun de 2009

MICHEL DE MONTAIGNE / O VERDADEIRO E O FALSO







por Pedro Luso de Carvalho



É loucura opinar acerca do verdadeiro e do falso de acordo unicamente com a razão, escreve Michel de Montaigne nos seus Ensaios. Para o filósofo francês, a facilidade com que certas pessoas acreditam e se deixam persuadir deve-se à simplicidade e à ignorância, pois, para ele, acreditar é o resultado de uma espécie de impressão sobre nossa alma. E vaticina: “Quanto mais a alma é vazia e nada têm como contrapeso, tanto mais ela cede facilmente à carga das primeiras impressões”.

Quer dizer com isso, que somos levados pela sugestão com mais facilidade quanto mais tenra for a resistência de cada um, como ocorre com as crianças, com os enfermos, com mulheres e homens com pouco esclarecimento, pouco ilustrados. "É tola a presunção de desdenhar e condenar como falso – diz Montaigne – tudo o que não nos parece verossímil, defeito comum aos que estimam ser mais dotados de razão que o homem normal".

O filósofo diz que a razão lhe impeliu a reconhecer que “condenar uma coisa de maneira absoluta é ultrapassar os limites que podem atingir a vontade de Deus e a força de nossa mãe, a natureza”. Para ele, reduzir essa vontade e essa força à medida da capacidade e da inteligência é o maior sintoma de loucura. Quer ele dizer com isso que a razão não se presta para todos os nossos julgamentos, ao asseverar: “Chamemos ou não monstros ou milagres às coisas que não podemos explicar, não se apresentarão elas em menor número à nossa vista”. E que consideramos naturais esses casos, nos quais a razão torna-se impotente, mais por hábito do que pela ciência.

Montaigne escreve, que somos incitados a procurar a origem de uma coisa, mais pela novidade do que pela sua importância, e que “o infinito poder da natureza deve ser julgado com mais deferência e tendo em conta nossa ignorância”. E faz alusão sobre as coisas pouco verossímeis que ouvimos de pessoas dignas de fé; e diz que devemos ser mais prudentes nos nossos julgamentos. E acrescenta que, se não somos convencidos do que ouvimos, não devemos nos vangloriar disso, ou seja, de considerar as afirmações feitas impossíveis, para não cairmos numa presunção exagerada. (In, Michel de Montaigne, Ensaios, Livro I, tradução de Sérgio Milliet, Editora Globo, Porto Alegre, 1961,
págs. 240/241).