28 de mai de 2009

DEONÍSIO DA SILVA E A LITERATURA





por Pedro Luso de Carvalho



No artigo anterior, que publiquei no meu outro blog (Quandrantes), o tema abordado, leitura e motivação para tornar-se leitor, foi encerrado com um dos pensamentos de Hermann Hesse: “Ler sem pensar, ler distraidamente, é como passar por entre belas paisagens com os olhos vendados”. E, para que não se perca a oportunidade de incentivo à leitura, este é o momento para se falar da entrevista feita com Deonísio da Silva, pela revista Língua Portuguesa, nº 34, em agosto de 2008.

Para conhecer um pouco o entrevistado: Deonísio da Silva é escritor (sete romances, dez livros de contos, quatro infanto-juvenis e dez ensaios literários), professor (Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro) e jornalista (na revista Caras, escreve sobre etimologia popular, e mantém uma coluna semanal no site Observatório da Imprensa).

Mais algumas linhas sobre o catarinense, natural de Siderópolis, Deonísio da Silva: doutorou-se em Letras pela USP, e na Universidade Estácio de Sá, onde leciona desde 2003, foi vice-reitor de Cultura e coordenador do curso de Letras. Em 1992, recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas, cujo júri foi presidido por José Saramago, com o livro Avante Soldados: Para Trás, com dez edições vendidas, publicadas no exterior.

Segue alguns trechos da entrevista, o primeiro, a resposta que deu à pergunta da revista Língua Portuguesa, qual seja: “Um escritor precisa mesmo ter preocupação com o uso que faz do idioma ou pensar nisso é o de menos?” Deonísio da Silva responde:

“Acho uma irresponsabilidade o escritor desconhecer sua ferramenta de trabalho. Desde a alfabetização, o que sempre me fascinou não foi a botânica, mas a jardinagem das palavras. Estudo por gosto, por prazer, pela alegria do convívio intelectual com meus pares, infelizmente cada vez mais raros. Em todos os níveis escolares, tive bons professores, mas sempre aprendi melhor sozinho, na relação bunda-cadeira-hora. Nas estantes estão aqueles amigos que jamais te traem, não te vendem por 30 dinheiros”.

À pergunta, “Há má vontade da mídia com a literatura brasileira?”, Deonísio da Silva responde: “Acredito que há incompetência. As evidências mostram que no Brasil há muitos incompetentes em postos importantes, vítimas e cúmplices do que lhes acontece. Na mídia, eles se acotovelam e enterram jornais e revistas, patinando nas mesmas tiragens, enquanto nós fazemos a nossa parte, isto é, produzindo novos livros e leitores. Somos o maior mercado editorial da América do Sul. Foram os livros que nos tornaram leitores e depois assinantes de revistas, não o contrário. Quando o jornal e a revista são bons, os leitores podem até migrar para a internet, para a edição eletrônica, mas sempre vão procurar o que precisam. E a imprensa precisa dar o que o leitor precisa; ou não precisa, mas quer”.


6 de mai de 2009

DOSTOIÉVSKI / Vida & Obra - Parte I





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por Pedro Luso de Carvalho
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, no dia 30 de dezembro de 1821. Foi o segundo filho do casal Mikhail Andierievitch Dostoiévski e Maria Fiódorovna. Nessa época, o casal morava no pavilhão do Hospital Marínski (em Moscou), onde Mikhail exercia a sua profissão de médico, no Regimento de Infantaria Borodínski. Maria Fiódorovna há muitos anos acometida de tuberculose, morreu no ano de 1837.
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Passado algum tempo, Mikhail Andiérievitch deixou de exercer a medicina para dedicar-se à administração de suas terras na localidade de Dorovoie, onde foi assassinado pelos seus servos, como vingança pelo cruel tratamento que recebiam. Quando soube da morte de seu pai, o escritor sofreu uma convulsão epilética. (Dostoiévski iria padecer do mal da epilepsia até os seus derradeiros dias.)

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No período que compreende os anos 1838 a 1843, Fiodor M. Dostoiévski freqüentou a Escola de Engenharia da Academia Militar, em Petersburgo, embora a literatura fosse a sua vocação. Tirando partido dessa Escola de Engenharia, ingressou no serviço público com a patente de tenente-engenheiro, cargo no qual permanceu por pouco tempo, até apresentar o seu pedido de exoneração. O chamado da literatura era inexorável. Dostoiévski voltava-se nessa época para os textos de Púshkin, Schiller, Byron, Shakespeare e Balzac. A sua primeira publicação deu-se com a tradução do romance de Balzac ‘Eugenie Grandet'. Quanto à publicação de seu primeiro romance, Pobres Gentes, foi recebido com grande entusiasmo, do crítico literário Vissarion Beleinski, inclusive. (Beleinski, estaria à disposição do jovem escritor para ajudá-lo no difícil ofício da literária.)



Fiodor M. Dostoiévski veria sua carreira de escritor sofrer uma trágica interrupção quando passou a integrar o grupo liderado por Petrachevski (Círculo de Petrashevski), que se reunia para discutir acontecimentos políticos, literários, temas relacionados com o socialismo, a censura, a abolição da servidão, entre outros; e seus participantes foram presos e acusados, em 1846, de estarem conspirando contra o tzar Nicolau I. Instaurada a ação penal (durante a sua tramitação, os acusados ficaram presos por mais de um ano), o juiz proferiu a sentença com a pena extrema: a morte para os acusados. Essa pena acabou sendo comutada pelo tzar para prisão com trabalhos forçados no Presídio de Omsk, na Sibéria. (Por manobra do tzar Nicolau I, os acusados só ficaram sabendo que não seriam executados, minutos antes da ordem de fuzilamento. Pode-se imaginar o terror sofrido por Dostoievski e seus companheiros, que se encontravam colocados frente ao pelotão de fuzilamento aguardando a ordem para atirar.)


Dostoiévski estava com 27 anos, quando, na véspera do Natal de 1849, foi conduzido com outros condenados, em trenós descobertos, com o frio de vinte graus negativos, para cumprir a pena na Prisão de Omsk, na Sibéria. Sobre essa prisão e sobre tratamento desumano que era dispensado aos prisioneiros, Dostoiévski fez alguns apontamentos:
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“Imaginem um velho barracão de madeira em ruínas. No verão asfixiávamos com falta de ar e no inverno o frio dilacera-nos a carne. O soalho era todo esburacado e cheio de imundícies; escorregávamos e caíamos a cada passo. O gelo cobria totalmente as vidraças, de modo que mal se podia ler durante o dia. A água pingava constantemente do telhado, e havia corrente de ar glaciais em todo lado. Estávamos comprimidos uns contra os outros como arengues numa barrica. Mesmo quando acendiam o fogão com chamas de lenha seca, mal amornávamos (o gelo derretia a muito custo) e ficávamos como que envenenados pela fumarada. Era assim que vivíamos todo o inverno (...) Cobríamos com peles de carneiro muito curtas, que me deixavam as pernas a descoberto. Tiritava de frio toda a noite. Havia milhões de percevejos, piolhos e carochas”.
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No Presídio de Omsk, Dostoiévski assistiu a terríveis espancamentos e torturas, e de tudo o que presenciou e sofreu resultaria na sua narrativa sobre esses anos cruéis, que passariam a integrar o seu livro Recordações da Casa dos Mortos, cujo trecho merece ser transcrito:

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“Aquele que, ao menos uma vez, exerceu poder ilimitado sobre o corpo, o sangue, a alma do seu semelhante, sobre o corpo do seu irmão, segundo a lei de Cristo, aquele que desfrutou a faculdade de vilipendiar enormemente outro ser feito à imagem de Deus, esse se torna incapaz de dominar as suas sensações. A tirania é um hábito dotado de extensão, pode desenvolver-se, tornar-se com o tempo uma doença. Afirmo que o melhor dos homens é suscetível de se insensibilizar até ser uma fera. (...) O homem e o cidadão eclipsam-se sempre no tirano. (...) Acrescentemos que o poder ilimitado da fruição seduz perniciosamente, e isso atua por contagio sobre a sociedade inteira.A sociedade que contempla tais atividades com indiferença já está contaminada até ao íntimo. Em suma, o direito de punir corporalmente, que um homem exerce sobre o outro, é uma das pragas da sociedade: um processo seguro de sufocar em si mesma qualquer germe de civismo, de provocar a sua decomposição”..
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski cumpriu a parte mais cruel de sua pena, na Sibéria, no presídio de Omsk, durante quatro intermináveis anos. A segunda fase da pena, prevista para mais cinco anos, deu-se de forma mais humana, cumprindo-a no destacamento militar de Semipalatinski, também na Sibéria, ao qual fora incorporado. Durante esse tempo escreveria cartas, bem como passaria a inteirar-se, na medida do possível, do que ocorria na literatura da Rússia. E voltaria a escrever, agora mais vivido e temperado pelo sofrimento. Muitas vidas tinha para retratar como vidas para serem criadas. De fato, depois do cumprimento de sua pena, o escritor viria criar obras literárias de incomensurável valor. Assim, a cada livro que escrevia firmava-se como romancista de excepcional talento, e mais tarde viria a ser reconhecido pelos críticos literários como um dos mais importantes escritores russos de todos os tempos.


.Com a morte de do tzar Nicolau I, sucedeu-lhe o tzar Alexandre II, que decretou, em 19 de fevereiro de 1861, a abolição da servidão na Rússia. Com sua permissão, Dostoiévski foi dispensado do serviço militar. Não tardou para que, acompanhado de Maria Dmitrievna, o escritor deixasse Omsk, passados pouco mais de nove anos de cumprimento da pena, tendo por destino a localidade de Tver, uma cidade com poucos recursos culturais, como bibliotecas, e sem acesso a informações. .
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Em Tver, Dostoiévski casou com Maria Dmitrievna, na Igreja Ortodoxa. Dmitrievna tinha 30 anos de idade e era viúva desde 1857. Em 1859, em entrevista com o imperador, o escritor obteve permissão para voltar a São Petersburgo. Nessa cidade, voltaria a editar o jornal literário ‘Vremia’ (O Tempo). Dostoiévski passaria a ter convulsões com freqüência nessa época, ocasionadas pelo mal da epilepsia. (Nos anos que se seguiriam, Maria Dmitrievna seria uma das causas de muitos sofrimentos pelos quais Dostoiévski viria passar.)
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F. M. Dostoiévski retornou a São Petersburgo no mês de dezembro de 1859. Desembarcou na estação ferroviária de Nicolaievski, juntamente com a esposa Maria Dmitrievna e com o filho que adotara na Sibéria, sem nenhuma cerimônia pública, contrariamente do que ocorreu dez anos atrás, quando foi detido juntamente com outros membros do chamado 'Círculo de Petrashevski', sob a acusação de serem conpiradores políticos, ocasião em que foram exibidos publicamente na enorme Praça Senovski, ordinariamente utilizada pelas autoridades para desfiles.
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Agora, Dostoiévski era aguardado por seu irmão mais velho Mikhail e por seu amigo Alexander Milukov. Mais tarde, Milukov viria declarar sobre esse encontro: “Fiódor Mikhailovitch, segundo minha observação, não havia mudado fisicamente, até parecia mais suadável que antes, e não havia perdido nada de sua habitual energia... Recordo que, naquela primeira ocasião, apenas trocamos algumas idéias e impressões, recordamos os velhos tempos, bem como nossos amigos comuns”.
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E aqui encerramos o texto FIÓDOR DOSTOIÉVSKI, VIDA E OBRA/PRIMEIRA PARTE. Outras partes serão escritas oportunamente, em homenagem a esse gênio da literatura russa (e, de resto, da literatura Universal).



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REFERÊNCIAS:
GROSSMAN, Leonid. Dostoiévski Artista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
MASON, Jayme. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Obejtiva, 1995.
MORAIS, Regis de. Fédor M. Dostoievski. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 19982.
FRANK, Joseph. Dostoievski. La secuela de la liberación 1860-1865. México: Fondo de Cultura Económica”, 1993.

16 de abr de 2009

LUIS BUÑUEL, MESTRE DO CINEMA

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por Pedro Luso de Carvalho
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Carlos Fuentes, romancista mexicano, em seu livro Este é Meu Credo (ed. Rocco, Rio de Janeiro, 2002) diz como conheceu o extraordinário cineasta o espanhol Luis Buñuel, que ocupa um lugar privilegiado na História do Cinema. Luis Buñuel tem o crédito da direção dos filmes O Anjo Exterminador, A Bela da Tarde, Um Cão Andaluz, O Discreto Charme da Burguesia, Esse Obscuro Objeto do Desejo, O Fantasma da Liberdade, Tristana, Uma Paixão Mórbida, Via Lacta, Veridiana, entre outros.

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A produção FRA/ESP/ITA, de 1972, “O Discreto Charme da Burguesia” (Le Charme Discret de la Burgeoisie), com Direção de Luis Buñuel, tendo como principais protagonistas Fernando Rey e Delphine Seyrig, foi premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas, voltando a Carlos Fuentes, dele transcrevo um pequeno trecho do que escreveu sobre o cinema de Buñuel, e de como conheceu esse mestre do cinema:

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“Em 1950, eu estudava na Universidade de Genebra e freqüentava um cineclube daquela cidade suíça. No princípio daquele ano, lá assisti, pela primeira vez, 'Um cão andaluz', de Luis Buñuel. O apresentador do filme disse que se tratava de um cineasta maldito, morto na Guerra Civil Espanhola. Levantei a mão para corrigi-lo: Buñuel estava vivo, morava no México e acabara de filmar Os esquecidos, que seria apresentado naquela mesma primavera em Cannes.

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Os esquecidos chegou a Cannes apesar das objeções de servidores pacatos e chauvinistas do governo mexicano, que consideravam o filme ‘um insulto ao México’. Octávio Paz, então secretário da Embaixada do México na França, desobedeceu a desaprovação oficial e pessoalmente distribuiu um lúcido ensaio sobre Buñuel e seu grande filme na entrada do Palácio dos Festivais em Cannes. Buñuel nunca esqueceu esse ato de coragem e generosidade. .
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Conheci Buñuel durante as filmagens de Nazarín em Cuautla. Atuavam no filme minha primeira mulher, Rita Macedo, Marga López e um extraordinário Francisco Rabal, que deu à personagem de Galdós uma aura de ausência mística e uma suave misericórdia que sustentavam maravilhosamente a raiva e a dor final da personagem.
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A essência da religiosidade secreta de Buñuel está em Nazarín. Sua famosa frase “Graças a Deus sou ateu” é não só uma divertida boutade, como também um disfarce necessário para um criador como Buñuel, que interpretou como ninguém a perturbadora frase que Pascal pôs na boca de Cristo: 'Se não me houvesses encontrado, não me procurarias'.
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Nesse sentido - prossegue Fuentes -, Buñuel foi parte de uma das correntes intelectuais mais sérias e inclassificáveis do século XX: o temperamento religioso sem a fé religiosa, sobre o qual testemunham, em graus diversos de temperatura, Camus, Mauriac, Graham Greene e, no cinema, o protestante, para seu desgosto, Ingmar Bergman, e o ateu, com a graça de Deus, Luis Buñuel”.
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8 de abr de 2009

HISTÓRIA SOCIAL - Sérgio Buarque de Holanda






- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Antônio Cândido escreveu "O Significado de Raízes do Brasil, título do prefácio para a 13ª edição de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicada pela Livraria José Olympio Editora, em 1979. A 1ª edição dessa obra, reconhecida por muitos críticos como uma das obras mais importantes produzidas no Brasil, foi publicada em 1936. Diz Antônio Cândido, na sua brilhante apresentação de Raízes do Brasil:
A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar.
Prossegue Antônio Cândido:
Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinqüenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, publicado quando estávamos na escola superior. São estes os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi, apesar de tudo, abafado pelo Estado Novo. Ao lado de tais livros, a obra por tantos aspectos penetrante e antecipadora de Oliveira Viana já parecia superada, cheia de preconceitos ideológicos e uma vontade excessiva de adaptar o real a desígnios convencionais.
Mais um trecho do importante do prefácio do mestre Antônio Cândido:
Para nós há trinta anos atrás, Raízes do Brasil trouxe elementos como estes, fundamentando uma reflexão que nos foi da maior importância. Sobretudo porque o seu método repousa sobre um jogo de oposições e contrastes, que impede o dogmatismo e abre campo para a meditação de tipo dialético. Num momento em que os intérpretes do nosso passado ainda se preocupavam sobretudo sobre os aspectos de natureza biológica, manifestando, mesmo sobre aparência de contrário, a fascinação pela “raça” herdada dos evolucionistas, Sérgio Buarque de Holanda puxou a sua análise para o lado da psicologia e da história social, com um senso agudo das estruturas. Num tempo ainda banhado de indisfarçável saudosismo patriarcalista, sugeria que, do ponto de vista metodológico, o conhecimento do passado deve estar vinculado aos problemas do presente.
Mais diante, Antônio Cândido analisa a posição adotada por Sérgio Buarque de Holanda, no que diz respeito à política:
E do ponto de vista político, que, sendo o nosso passado um obstáculo, a liquidação das “raízes” era um imperativo do desenvolvimento histórico. Mais ainda: em plena voga das componentes lusas avaliadas sentimentalmente, percebeu o sentido moderno da evolução brasileira, mostrando que ela se processaria conforme uma perda crescente das características ibéricas, em benefício dos rumos abertos pela civilização urbana e cosmopolita, expressa pelo Brasil do imigrante, que há quase três quartos de século vem modificando as linhas tradicionais.
No que respeita ao prefácio de Raízes do Brasil, ficamos com mais este trecho escrito por Antônio Cândido:
Finalmente, deu-nos instrumentos para discutir os problemas da organização sem criar no louvor do autoritarismo e autorizou a interpretação dos caudilhismos, que então se misturavam às sugestões do fascismo, tanto entre os integralistas (contra os quais é visivelmente dirigida uma parte do livro) quanto entre outras tendências, que dali a pouco se concretizariam no Estado Novo. Com segurança, estarmos entrando naquele instante na fase aguda da crise de decomposição da sociedade tradicional. O ano era 1936. Em 37, veio o golpe de Estado e o advento da fórmula ao mesmo tempo rígida e conciliatória, que encaminhou a transformação das estruturas econômicas pela industrialização. O Brasil de agora deitava os seus galhos, ajeitando a seiva que aquelas raízes tinham recolhido. São Paulo, dezembro de 1967. Antônio Cândido.
Adiante mencionaremos os prêmio mais importantes concedidos a Sérgio Buarque de Holanda, bem como a relação de sua obra. O seu primeiro livro, Raízes do Brasil, (1936), foi uma obra que nasceu clássica, segundo o professor e ensaísta Antônio Cândido. Entre os anos de 1950 a 1953 Sérgio Buarque de Holanda escreveu para para a Folha de S. Paulo. O Premio Edgard Cavalheiro foi-lhe outorgado pelo Instituto Nacional do Livro em 1957, pela sua obra Caminhos e Fronteiras. No ano seguinte, com a tese "Visão do Paraíso - Os Motivos Edênicos no Descobrimento e na Colonização do Brasil", foi aprovado em concurso público para a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - USP. (Formou-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1925.)
Os livros que Sérgio Buarque de Holanda produziu, depois de Raízes do Brasil (1936), foram: Cobra de Vidro (1944); Monções (1945. 2ª ed. 1976); A Expansão Paulista do Século XVI e Começo do Século XVII (1948)”; Índios e Mamelucos na Expansão Paulista, (1949); Antologia dos Poetas Brasileiros na Fase Colonial. Revisão Crítica de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira (1952); “Le Brésil dans la Vie Américaine (em Le nouveau monde et l'Europe - IXes. Recontres Internationales de Genève) Neuchatel" (1955); Caminhos e Fronteiras (1957. 2ª ed., 1975); Visão do Paraíso . Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil (1958); História Geral da Civilização Brasileira (direção da obra de VII vols.; o último, Do Império à República, foi totalmente escrito por Sérgio Buarque de Holanda (1972); Brasil-Império (em 'Tres Lecciones Inaugurales, Buarque, Romano, Savelle), Santiago do Chile 1963).”
Obras Didáticas escritas por Sérgio Buarque de Holanda: História do Brasil, em colaboração com Tarqüinio de Souza (1944); História do Brasil – 1. Das Origens à Independência. 2. Da Independência aos Nossos Dias. Para a área de Estudos Sociais, Ensino de 1º grau - em colaboração com Carla de Queiróz, Sílvia Barbosa Ferraz e Vigílio Noya Pinto (1972-1974, 2 vols.); História da Civilização. Área de Estudos Sociais. 7ª e 8ª séries do 1º grau (antigas 3ª e 4ª séries ginasiais (em contribuição com a mesma equipe acima mencionada (1975).
Como reconhecimento da importância de seu trabalho em prol da cultura, Sérgio Buarque de Holanda recebeu o premio Intelectual do Ano, em 1979.
Sérgio Buarque de Holanda nasceu na cidade de São Paulo, em 11 de julho de 1902, onde faleceu, em 24 de abril de 1982. Dentre os seus sete filhos, dois tornaram-se famosos: Miúcha e Chico Buarque.





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25 de mar de 2009

FERNANDO PESSOA: Almoxarifado de Mitos

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                 por  Pedro Luso de Carvalho


        No ano de 2005, a Editora Escrituras editou Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos, livro de Carlos Felipe Moisés, que integra a coleção Ensaios Transversais. O escritor é poeta, e formado em Letras pela Universidade de São Paulo. Na USP, concluiu mestrado e doutorado, em 1968 e 1972, respectivamente. Ensinou teoria literária e literatura de língua portuguesa na Faculdade de Filosofia de São José do Rio Preto, na PUC de São Paulo, na USP e na Universidade Federal da Paraíba. Fora do Brasil, no período que compreende os anos de 1978 a 1982, lecionou na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Atualmente, é professor titular da Universidade São Marcos.

        
Carlos Felipe Moisés se dedica regularmente à crítica literária desde os anos 70, escrevendo para órgão especializados da imprensa brasileira. É autor, entre outros livros, de A poliflauta (1960), Carta de marear (Prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1966), Círculo imperfeito (Prêmio Gregório de Mattos e Guerra, Salvador, 1978), Subsolo (Prêmio APCA, 1989), Lição de casa (1998) e Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos (2005), uma obra que deverá agradar aos admiradores do poeta português; o livro começa com traços biográficos de Pessoa, como nos trechos que seguem:

       “Pouco antes de morrer, no Hospital São Luís, em Lisboa, a 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose provocada por ingestão de bebida alcoólica, Fernando Pessoa anotou num retalho de papel esta última frase: “I know not what tomorrow will bring”. O sentido e a circunstância da frase remetem a uma de suas obsessões: o mistério da existência, o horror da morte e do desconhecido, o pendor especulativo, em suma, que o levou a se interessar por mediunidade, espiritismo, astrologia, maçonaria, teosofia – o esoterismo em geral. Em inglês literário, a frase mostra a força com que se lhe fixou no espírito a educação britânica que recebera em Durban, na África do Sul, onde viveu dos sete aos 17 anos”.

        Nascido em Lisboa, a 13 de junho de 1888, filho único (o irmão mais novo, Jorge, morreu em 1894, com um ano de idade), órfão de pai antes de completar os seis anos, Pessoa parte em 1896 para a África, com a mãe, que se casara de novo, com João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban. Os dez anos aí passados foram decisivos para a sua formação. É na África, e em inglês, que ele adquire a base de sua cultura literária (Milton, Shelley, Shakespeare, Tennyson, Pope e outros), escreve os seus primeiros poemas e concebe os proto-heterônimos Alexander Search e Robert Anon, sucessores adolescentes de Chevalier de Pas, personagem inventada aos quatro anos, com quem ele então se entretinha horas a fio. Em Durban, realizou os estudos primários numa escola de freiras irlandesas; secundários, na Durban High School e, em 1904, foi aprovado nos exames de ingresso no Curso de Artes, na Cape Univerty. Mas no ano seguinte decidiu regressar a Lisboa, sozinho.

        De volta a Portugal, redescobre sua cultura e literatura: Cesário Verde, Antonio Nobre, Antero de Quental, Camilo Pessanha, que vêm somar-se a uns, como ele diz, “subpoetas”, lidos na infância. (É curioso o escasso interesse que Pessoa declara ter tido por Camões – a influência mais forte que sofreu, dentre todas. Harold Bloom, autor de "The anxiety of influence", teria aí matéria farta para demonstrar a sua tese, segundo a qual todo poeta anseia por matar o “pai”, escamoteando as influências que tenha recebido.) Em 1906, matricula-se no Colégio Superior de Letras, em Lisboa, que abandona em seguida, e começa a alimentar arrojados planos, literários e outros, nunca realizados na íntegra. Após o fracasso comercial de sua “Empresa Íbis – Tipografia e Editora”, experiência em que mais tarde reincidirá, emprega-se como correspondente de firmas estrangeiras sediadas em Lisboa, modéstia atividade que lhe garantirá o sustento até o fim de sua vida.

        Em 1912, estréia como crítico literário na revista A Águia, órgão do movimento nacionalista “Renascença Portuguesa”, chefiado por Teixeira Pascoaes, com o ensaio “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, onde profetiza o aparecimento, para breve, do “Supra Camões”, isto é, um poeta que irá suplantar o grande épico – e este é um dos raros momentos em que deixa entrever o alto apreço que tinha pelo poeta clássico, bem como o desejo de superá-lo. Daí em diante, a literatura lhe absorverá todo o tempo e interesse, tornando-se alvo de dedicação exclusiva”. Aí estão, pois, alguns trechos dessa excelente obra de Carlos Felipe Moisés, Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos, que vale a pena ser lido na íntegra.




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17 de mar de 2009

HEITOR VILLA-LOBOS

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por Pedro Luso de Carvalho


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Diz Bruno Kieffer, em Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira, que "Não poder haver dúvida: foi Raul Villa-Lobos, pai do compositor, quem deu impulso inicial e decisivo para a formação musical do jovem Heitor. O próprio compositor, já famoso, declarou em rápida autobiografia: “Meu pai, além de ser um homem de aprimorada cultura geral e excepcionalmente inteligente, era um músico prático, técnico e perfeito. Com ele, assistia sempre a ensaios, concerto e óperas, a fim de habituar-me ao gênero de conjunto instrumental”.

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Quando Fernando Lopes Graça, conhecido compositor e musicólogo português, perguntou, em entrevista, ao autor dos Choros: - Quais os mestres por quem se sente devedor na formação da sua arte e da sua personalidade? – Sou devedor ao meu pai da minha formação da arte e da minha personalidade. Não posso, no entanto, deixar de reconhecer o quanto me interessam J. S. Bach, Florent Schmitt e Stravinski. O conhecimento de obras dos dois últimos compositores, deu-se somente por ocasião da primeira estada de Villa-Lobos na Europa (Paris, 1923/24).

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Sylvio Salema Garção Ribeiro (compositor, cantor e crítico musical de A Noite, Rio), que conheceu Villa-Lobos desde 1910, dá o seguinte depoimento: “Heitor teve boa base, aprendeu com o pai a ler música e a tocar violino (sic). Da biblioteca de seu pai guardou um Tratado de Harmonia do Padre Moura e de Durant, em francês, língua que aprendeu não sei com quem, mas sabia ler e falar”. E ainda: “Sua família era sócia do Clube Sinfônico que realizava concertos...”

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O instrumento do pai era o violoncelo. Como o dele era grande demais para o menino, Raul teve a idéia de adaptar um espigão a uma viola. Heitor podia agora estudar num “violoncelo” de tamanho adequado, só que tudo soava oitava acima... Mais adiante aprenderia também a soprar clarinete sob orientação do pai. Nota-se que Raul Villa-Lobos tinha acentuado interesse na educação musical de Tuhu, como era apelidado o pequeno Heitor.
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Na casa dos Villa-Lobos cultivava-se não somente a música individual. Segundo Vasco Mariz, um dos biógrafos de Heitor: “Nomes respeitados na época freqüentavam-lhe a casa com assiduidade e organizavam-se em grupos de câmara fazendo música até altas horas da noite. Tal hábito, que durou anos, influiu decisivamente na formação da mentalidade de tuhu. Cultivou o gosto musical naquela atmosfera, conheceu de tudo e de todos, acumulou considerável experiência. (...) Data de seus oito anos o interesse por Bach (...) Responsável por essa nova predileção foi a tia Zizinha, boa pianista e entusiasta do Gravo Bem Temperado. E o pequeno Heitor extasiava-se diante dos prelúdios e fugas que a tia lhe tocava”.
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Villa-Lobos recebera na infância a influência dos autores clássicos e românticos, quer na casa paterna, quer nos recitais e concertos aos quais assistia. Em 1899, Heitor tinha então doze anos, quando seu pai faleceu. Daí em diante, a vida de Villa-Lobos seria radicalmente diferente.
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Heitor Villa-Lobos nasceu no dia 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro, onde morreu, no dia 17 de novembro de 1959.



REFERÊNCIA:
KIEFFER, Bruno. Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira - Movimento/MinC/ Pró-Memória – Instituto Nacional do Livro – Porto alegre: Editora Movimento, 1986, págs. 17/19.
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11 de mar de 2009

[Poesia] PEDRO LUSO - A Mulher e o Algoz




                                                                                
 [ESPAÇO DA POESIA]


A MULHER E O ALGOZ
 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
      


Quarto às escuras. Noite chuvosa.
No desalinho da cama, absorta,
 a mulher olha através da janela.

Da rua, nesga de luz clareia livros
sobre o velho baú. Na calçada, iluminado
entre ramos de árvores, o relógio:

longos ponteiros, duplicados
pelo efeito das sombras. Mulher
paralisada: dos pulmões puxa o ar

que falta, e sente a ameaça mortal.
Aterrorizada, coração descompassado,
desmaio. Passam minutos, horas

ou séculos – resta o desfecho. Na rua,
silêncio e ruído de carros alternam-se
sobre o asfalto molhado.

Lívida, no chão busca refúgio:
rosto entre os joelhos – domínio
do medo. Na porta, forte batida

transpassa-a (barulho de passos,
escuridão, mulher encolhida
no assoalho, desesperançada).

De repente, no frio da noite,
lâmina zune no breu: dor lancinante.
Grunhido de ave ferida.




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1 de mar de 2009

CLARICE LISPECTOR / Uma Entrevista



                 por  Pedro Luso de Carvalho



        Entre uma pilha petições e outra de processos findos, que pretendia encaminhá-los à lixeira, encontrei dois recortes da revista Manchete, amassados, amarelecidos e sem data, que reproduzia uma entrevista concedida pelo filho de Clarice Lispector, o economista Paulo Gurgel Valente, a Jorge de Aquino Filho. 

        Acho que um de meus filhos, no afã de ajudar-me no emaranhado de papéis, misturou uma coisa com outra. Nas fotos de Paulo Marcos, o filho de Clarice posa para a foto principal da entrevista. Na parede da sala, um quadro da escritora pintado por De Chirico. Na primeira página da entrevista, acima dessa foto, aparece a manchete: “Minha mãe Clarice Lispector”.

        Como a entrevista é longa, farei menção apenas a alguns trechos do que Paulo falou sobre sua mãe Clarice, deixando de reproduzir a pergunta do entrevistador, e passando diretamente à resposta. Pois bem, o texto da entrevista tem uma espécie de ementa (própria de acórdão de tribunais): “Mamãe era extremamente vaidosa. Jamais escreveu trancada num quarto com cachimbo na boca, como diziam”.

        No camarote da Gávea – diz o entrevistador, nesse intróito – a presença de Clarice Lispector está viva nos pequenos baús de prata e no potinho que enfeitam a grande arca de madeira. E prossegue descrevendo a sala em que se encontram: “Na parede, ela revive em seus retratos feitos por Scliar e De Chirico, mostrando fases da escritora nascida na Ucrânia, União Soviética (na época), a 10 de dezembro de 1925, mas desde um ano de idade tornada brasileira pelos pais que escolheram o Brasil como pátria”.

        No início dessa conversa, Paulo dizia-se emocionado ao falar de sua mãe, e contente por saber da importância de sua obra. Disse do agradável convívio que Clarice tinha com ele, Paulo, e com seu irmão Pedro: “Mamãe se preocupava muito com seus filhos. Nossos deveres escolares, nossas amizades, nossa alimentação tinham sempre sua supervisão. Ao mesmo tempo criou-nos com muita liberdade. A característica principal foi inspirar sempre muita criatividade. Jamais nos cerceou”.
       
        Quando o entrevistador perguntou-lhe se sua mãe reclamava quando era interrompida pelos filhos, respondeu-lhe que não, e que ela gostava de escrever rodeada de seus dois filhos. Lembrava-se dela com a máquina de escrever no colo. Foi assim – disse - que escreveu todos os seu romances. E mais: sua mãe, não gostava de escritório, e mesmo enquanto escrevia, não deixava de ser uma dona-de-casa. “Ora falava de empregada, ora fazia a relação de compras. Muitas vezes fomos juntos à feira. Escrever, para ela, era como fazer compras ou concluir qualquer tarefa doméstica – algo muito natural”.
       
        Mais adiante, na entrevista, ante a pergunta do que marcou mais no contato entre mãe e filho, Paulo respondeu que “foi quando ainda garoto, vendo-a a escrever sempre sentada no seu sofá preferido, um dia lhe perguntei: ‘Já que a senhora tanto escreve, por que não faz uma história só para mim?' Mamãe parou o romance que estava escrevendo e iniciou a história. Depois, guardou-a na gaveta. Passados quinze anos a história foi editada como seu primeiro livro infantil chamado O Mistério do Coelhinho Pensante. Paulo diz que esse livro foi o início da incursão de sua mãe na literatura infantil.

                                                                   
                                                               
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14 de fev de 2009

RISCO DE DEPRESSÃO ECONÔMICA NOS EUA

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por Pedro Luso de Carvalho


O país mais poderoso do mundo está com as barbas de molho, com temor de que se repita o crash da Bolsa de Nova York, a chamada Quinta-feira Negra, quando, no dia 24 de outubro de 1929, as ações começaram a despencar, causando o maior desastre econômico de todos os tempos - as principais ações da Bolsa perderam até 90% de seu valor -, resultando na quebra de milhares de bancos e no fechamento do comércio, com investidores desesperados, muitos deles levados ao paroxismo do suicídio.


O que vemos hoje nos Estados Unidos é uma situação econômica similar, com um sinal de quebra, segundo noticiam os jornais, com seus poderosos bancos indo para o brejo, em decorrência das dívidas hipotecárias, e com suas Bolsas de Valores no vermelho, por um lado, e, por outro, o Governo disposto a injetar no mercado milhões de dólares para salvar o país dessa grande crise econômica, que parece repetir a política implantada por Franklin D. Roosevelt, quando se viu ante a dramática crise econômica, que se iniciou em 1929.
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O então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, fortemente influenciado pelas teorias econômicas de dois economistas ingleses, John Stuart Mill e John Maynard Keynes, concebeu um plano para salvar os Estados Unidos, a partir da Grande Depressão. Stuart Mill sempre foi adepto da expansão do governo, e Keynes acreditava na lei da oferta e procura; daí ter o New Deal se aproveitado dessas teorias para estabilizar o mercado.


A respeito de Roosevelt, Keynes escreveu um artigo no Daily Mail , em 4 de julho de 1933: “Há muito tempo que um estadista não destruía teias de aranha com a coragem com que o fez, ontem, o presidente dos Estados Unidos... Sua mensagem é substancialmente um desafio a nós lançado para que decidamos entre continuar por velhos caminhos ou procurar novos; novos para estadistas e banqueiros, mas não para o pensamento, pois que conduzem à moeda equilibrada do futuro, cujo exame tem sido o argumento central da economia pós-bélica”.
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Quanto à participação de Keynes no plano de recuperação da economia depois da Quinta-feira Negra, esta não era aceita pacificamente pelos norte-americanos, ao contrário: “Em grandes círculos dos Estados Unidos, o nome de Keynes tornou-se objeto de ódio. Muitos, não estando preparados, sem poderem distinguir os aspectos do New Deal de caráter Keynesiano dos que não o eram, atiraram a Keynes a responsabilidade de tudo que mais odiavam... Os partidários do laissez-fair eram, naturalmente, levados a denunciar Keynes, como este os denunciava” (R. F. Harrod, A Vida de J.M. Keynes, Einaudi, Turim, 1965).


O New Deal - preleciona Schlesinger jr. - era, em parte, inspirado por um sentimento defensivo: a determinação de proteger as liberdades e as oportunidades americanas da fúria do desemprego e do desespero. Grande parte dos Cem Dias foi um frenético esforço para harmonizar o sistema americano. Todavia, dali decorreu uma iniciativa que se erguia como modelo da melhor América, que homens completamente dedicados a ela tinham podido criar. A aprovação do Tennesee Valley Authority Act, ocorrida a 18 de maio de 1933. Talvez nenhuma das leis aprovadas durante os Cem Dias expressasse mais apaixonadamente um dos maiores interesses do presidente. Este interesse dependia só, em parte, do amor que Roosevelt sempre nutrira pela terra, as florestas, as águas. Provinha também da sua procura de um melhor sistema de vida nacional”. (Arthur M. Schlesinger jr., The Vital Center, Boston: Houghton Mifflin Company, 1949.)
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Esperam os Estados Unidos, nos dias que correm, que o seu novo presidente, Barack Obama, possa, inspirado no seu colega Franklin Delano Roosevelt, impedir que os norte-americanos venham passar por privações semelhantes às ocorridas nos anos de 1930, quando poucas eram as esperanças de a economia recuperar-se. Quem sabe ele encontre um John Maynard Keynes para mostrar-lhe uma luz no final do túnel.
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28 de jan de 2009

MORRE O ESCRITOR JOHN UPDIKE

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por Pedro Luso de Carvalho



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No dia 27 de janeiro deste ano, morreu o escritor estadunidense John Updike, aos 76 anos. Câncer no pulmão, foi a causa da morte de Updike, doença contra a qual lutava há alguns anos, segundo informação de seu editor Alfred A. Knopf, ao The New York Times. Updike Era considerado um dos intelectuais mais influentes dos Estados Unidos durante a segunda metade do século 20. Na literatura norte-americana contemporânea, ombreava-se com grandes nomes do romance como Saul Bellow e Philip Roth, entre outros. O escritor residiu em Beverly Farms, Massachusetts (USA).


John Hoyer Updike nasceu 18 de março de 1932, na pequena cidade de Shillington, Pennsylvania (EUA). Formou-se em Harvard em 1954, e no mesmo ano residiu por um ano na Inglaterra, onde foi estudar belas-artes. De 1955 a 1957, fez parte da equipe de redação da revista The New Yorker, para a qual contribuiu com poemas, contos, ensaios e resenhas. Destacou-se também como cronista, crítico literário e ensaísta no The New York Review of Books. Em 1957, mudou-se para Massachusetts.


Escreveu sobre a América, que ressurgiu com ímpeto depois da Segunda Guerra Mundial - e que começava a esquecer a Grande Depressão. E foi nessa época, que passou pelo pessimismo com crash da Bolsa de 1929 ao otimismo dos anos cinqüenta, que cresceu o jovem Updike no seio de uma família protestante da Pennsylvania, e tornou-se profundo conhecedor da sociedade estadunidense. Nos sessenta anos que se seguiriam, escreve sobre essa sociedade que veria o surgimento da luta pelos direitos civis e a oposição à guerra do Vietnã.
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Updike foi um autor prolifero, com mais de 50 livros, dentre eles, 25 romances e mais de 12 livros de contos, além de livros de poesia, ensaio e teatro; toda sua obra abrange o período de tempo que compreende a Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Era exigente no tocante a qualidade de seu texto, tanto na sua produção ficcional como na sua produção como crítico literário e ensaísta. Foi ganhador do prêmio Pulitzer (por duas vezes), do National Book Award e do National Critics Circle Award.=
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Dentre os muitos romances que Updike escreveu, destaca-se a famosa saga do Coelho Angstron, um brilhante painel da cultura e da sociedade norte-americana nas últimas décadas. Updike era um escritor de larga experiência, com surpreendente talento para apreender detalhes e riquezas do quotidiano. No Brasil, alguns livros do escritor foram editados pela Companhia das Letras: Coelho corre, Coelho cai, Brazil, Memórias em braco (romances); Bem perto da costa (ensaios); e Consciência à flor da pele (memórias), entre outros. Corre coelho também foi publicado pela Editora Civilização.
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20 de jan de 2009

GEORGE W. BUSH NÃO FOI O ÚNICO CULPADO


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por Pedro Luso de Carvalho
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Finalmente, George W. Bush deixou a presidência dos Estados Unidos da América, depois de ter feito uma histórica lambança nos seus oito anos de mandato. Deixou com seu sucessor, Barack Obama, inúmeros problemas, sendo os mais graves, e que não podem ser resolvidos em curto espaço de tempo, a retirada das tropas americanas do Iraque e o sistema bancário, que se encontra no fundo do poço pela avidez dos banqueiros, que emprestaram dinheiro para quem não comprovou ter renda familiar compatível com a dívida assumida com hipotecas para a compra da casa própria, entre outros. Sem falar que pessoas obtinham tal financiamento e desviavam o dinheiro para outros fins, já que não sentiam o peso da fiscalização. E agora o Governo se vê obrigado a socorrer os banqueiros, com o dinheiro do povo, para evitar mais farinha no ventilador.


Então, nessa primeira etapa, constatamos que, além de Bush com os seus desmandos, aparecem os banqueiros como culpados por parte da crise financeira estadunidense; mas, também eles não são os únicos culpados por todo esse caos, como veremos com apenas uma breve sondagem no passado recente de mais pessoas e instituições que sentam no banco dos réus com o presidente que deixa o Governo. E é nesse passado que, de novo, encontramos Bush como responsável pela crise financeira, ao consentir na fraude que foi sua reeleição, quando seu concorrente democrata Al Gore já tinha obtido a maioria de votos, como se anunciava na época, mas não assumiu. E, nesse caso, uma das instituições mais importantes do país, a Suprema Corte, permitiu que Bush se reelegesse, mesmo com a contagem de votos eivada de vícios e se tornasse o 43º presidente dos Estados Unidos,


No seu livro, Sonhando a Guerra (2ª ed., Nova Fronteira, 2003) Gore Vidal - não confundir com Al Gore -, escreve, no capítulo Visões democráticas: “Vice-presidente de Richard Nixon e considerado subornável por muitos, Spiro Agnew teve um dia a inspiração de dizer: “Com todas as suas falhas, os Estados Unidos ainda são a maior nação do país”. Hoje, ainda no rastro deixado pela defraudação eleitoral da Suprema Corte nas eleições para o 43º presidente, Spiro deve estar nas alturas entre seus sombrios correligionários.


Será que mais uma vez deixamos de cumprir nossa parte? Tal como fizemos em 1888, quando a pluralidade do voto popular de Grover Cleveland foi cancelada pelos liames do Colégio Eleitoral, e ainda mais notoriamente fizemos em 1876, quando o democrata Samuel Tilden ganhou 264 votos mais do que o republicano Rutherford B. Heyes, cujo partido então os impugnou no Oregon, na Carolina do Sul, na Louisiana e, claro, na dissoluta Flórida. Uma comissão eleitoral escolhida pelo Congresso deu a eleição ao perdedor, Heyes. Por um único voto, resultado de uma maracutaia envolvendo um corrupto juiz da Suprema Corte indicado pelo sacrossanto Lincoln”.


Mas agora o que importa é a posse de Barack Obama, com a presença de milhares de pessoas em frente ao Capitólio, numa festa como nunca se viu antes na posse de um presidente dos Estados Unidos da América, nem mesmo com o fenômeno eleitoral que foi John F. Kennedy. E esse poderoso país e o mundo aguardam medidas político-administrativas importantes para enfrentar a crise atual , mesmo sabendo todos que a tarefa é árdua, tanto no que se refere a política interna como a política externa, como é o caso da Faixa de Gaza (na guerra entre judeus e palestinos), onde morreram centenas de civis inocentes nestes últimos meses, de forma injustificável. Portanto, resta darmos adeus a Bush, o pior presidente norte-americano, e boas-vindas a Barack Obama, o primeiro presidente negro estadunidense. Salve, Obama!
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18 de jan de 2009

AS MÃES DA PRAÇA DE MAIO



por Pedro Luso de Carvalho



Uma data para não ser esquecida: 31 de março de 2009, quando, numa terça-feira, a Justiça Argentina julgou e condenou à prisão perpétua o ex-capelão da Igreja Católica, Christian Von Wernich, de 69 anos, pela sua participação em sete homicídios, 31 casos de tortura e 42 seqüestros –, foi no caos da ditadura militar (1976-1983) que, com a dor pela perda de seus filhos, desaparecidos e mortos, nasceu um símbolo da resistência dos argentinos: a Associação das Mães da Praça de Maio, tendo como presidente a conhecida e respeitada senhora Hebe Pastor Bonafini. 


Para esse julgamento, que durou cerca de três meses, as portas do Tribunal foram abertas para o público, e também foi permitida a sua cobertura ao vivo, por emissoras de televisão. Na parte externa do prédio foi instalado um telão para que as pessoas pudessem acompanhar o julgamento. Os sobreviventes e familiares das vítimas, que participaram do julgamento na condição de testemunhas, disseram que o ex-capelão ouvia confissões nos locais onde eram torturados e informava aos militares o que ouvia. 


Antes desse julgamento, outro foi realizado, na província de Córdoba, para julgar o ex-general Luciano Benjamín Menéndez (81 anos), e, no dia 17 de junho de 2008, o Tribunal deu o seu veredicto: culpado. A pena que lhe foi imposta foi prisão perpétua, pela autoria da morte de quatro militantes de esquerda em um centro de torturas do Terceiro Corpo do Exército, sob comando do general. Centenas de pessoas festejaram a sua condenação.


Será que semelhante julgamento seria realizado no Brasil? Acho difícil, em que pese o Ministro da Justiça Tarso Genro venha demonstrando clara intenção de imitar os argentinos. Jornais publicaram esta manifestação de Genro: “É uma análise que deve ser baseada em uma visão universal: que é do extravasamento do mandato dado pelo Estado e a responsabilidade do agente que extravasa esse mandato e comete tortura”. Aguardemos os acontecimentos. 


No mês de junho próximo passado, tive a grata oportunidade de acompanhar uma conferência proferida por Hebe Pastor Bonafini, transmitida pela TV estatal argentina, na qual essa incansável lutadora pela causa dos filhos mortos por atos da Ditadura Militar daquele país, dizia que jamais deixaria de denunciar para o mundo tais crimes, e que, mais cedo ou mais tarde, veria outros responsáveis pela inominável matança de seus filhos sentarem nos bancos dos réus, e ouvir dos juízes a sentença de "culpado", para depois serem conduzidos à prisão para o cumprimento das penas que a eles serão impostas.