16 de abr de 2009

LUIS BUÑUEL, MESTRE DO CINEMA

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por Pedro Luso de Carvalho
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Carlos Fuentes, romancista mexicano, em seu livro Este é Meu Credo (ed. Rocco, Rio de Janeiro, 2002) diz como conheceu o extraordinário cineasta o espanhol Luis Buñuel, que ocupa um lugar privilegiado na História do Cinema. Luis Buñuel tem o crédito da direção dos filmes O Anjo Exterminador, A Bela da Tarde, Um Cão Andaluz, O Discreto Charme da Burguesia, Esse Obscuro Objeto do Desejo, O Fantasma da Liberdade, Tristana, Uma Paixão Mórbida, Via Lacta, Veridiana, entre outros.

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A produção FRA/ESP/ITA, de 1972, “O Discreto Charme da Burguesia” (Le Charme Discret de la Burgeoisie), com Direção de Luis Buñuel, tendo como principais protagonistas Fernando Rey e Delphine Seyrig, foi premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas, voltando a Carlos Fuentes, dele transcrevo um pequeno trecho do que escreveu sobre o cinema de Buñuel, e de como conheceu esse mestre do cinema:

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“Em 1950, eu estudava na Universidade de Genebra e freqüentava um cineclube daquela cidade suíça. No princípio daquele ano, lá assisti, pela primeira vez, 'Um cão andaluz', de Luis Buñuel. O apresentador do filme disse que se tratava de um cineasta maldito, morto na Guerra Civil Espanhola. Levantei a mão para corrigi-lo: Buñuel estava vivo, morava no México e acabara de filmar Os esquecidos, que seria apresentado naquela mesma primavera em Cannes.

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Os esquecidos chegou a Cannes apesar das objeções de servidores pacatos e chauvinistas do governo mexicano, que consideravam o filme ‘um insulto ao México’. Octávio Paz, então secretário da Embaixada do México na França, desobedeceu a desaprovação oficial e pessoalmente distribuiu um lúcido ensaio sobre Buñuel e seu grande filme na entrada do Palácio dos Festivais em Cannes. Buñuel nunca esqueceu esse ato de coragem e generosidade. .
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Conheci Buñuel durante as filmagens de Nazarín em Cuautla. Atuavam no filme minha primeira mulher, Rita Macedo, Marga López e um extraordinário Francisco Rabal, que deu à personagem de Galdós uma aura de ausência mística e uma suave misericórdia que sustentavam maravilhosamente a raiva e a dor final da personagem.
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A essência da religiosidade secreta de Buñuel está em Nazarín. Sua famosa frase “Graças a Deus sou ateu” é não só uma divertida boutade, como também um disfarce necessário para um criador como Buñuel, que interpretou como ninguém a perturbadora frase que Pascal pôs na boca de Cristo: 'Se não me houvesses encontrado, não me procurarias'.
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Nesse sentido - prossegue Fuentes -, Buñuel foi parte de uma das correntes intelectuais mais sérias e inclassificáveis do século XX: o temperamento religioso sem a fé religiosa, sobre o qual testemunham, em graus diversos de temperatura, Camus, Mauriac, Graham Greene e, no cinema, o protestante, para seu desgosto, Ingmar Bergman, e o ateu, com a graça de Deus, Luis Buñuel”.
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8 de abr de 2009

HISTÓRIA SOCIAL - Sérgio Buarque de Holanda






- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Antônio Cândido escreveu "O Significado de Raízes do Brasil, título do prefácio para a 13ª edição de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicada pela Livraria José Olympio Editora, em 1979. A 1ª edição dessa obra, reconhecida por muitos críticos como uma das obras mais importantes produzidas no Brasil, foi publicada em 1936. Diz Antônio Cândido, na sua brilhante apresentação de Raízes do Brasil:
A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar.
Prossegue Antônio Cândido:
Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinqüenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, publicado quando estávamos na escola superior. São estes os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi, apesar de tudo, abafado pelo Estado Novo. Ao lado de tais livros, a obra por tantos aspectos penetrante e antecipadora de Oliveira Viana já parecia superada, cheia de preconceitos ideológicos e uma vontade excessiva de adaptar o real a desígnios convencionais.
Mais um trecho do importante do prefácio do mestre Antônio Cândido:
Para nós há trinta anos atrás, Raízes do Brasil trouxe elementos como estes, fundamentando uma reflexão que nos foi da maior importância. Sobretudo porque o seu método repousa sobre um jogo de oposições e contrastes, que impede o dogmatismo e abre campo para a meditação de tipo dialético. Num momento em que os intérpretes do nosso passado ainda se preocupavam sobretudo sobre os aspectos de natureza biológica, manifestando, mesmo sobre aparência de contrário, a fascinação pela “raça” herdada dos evolucionistas, Sérgio Buarque de Holanda puxou a sua análise para o lado da psicologia e da história social, com um senso agudo das estruturas. Num tempo ainda banhado de indisfarçável saudosismo patriarcalista, sugeria que, do ponto de vista metodológico, o conhecimento do passado deve estar vinculado aos problemas do presente.
Mais diante, Antônio Cândido analisa a posição adotada por Sérgio Buarque de Holanda, no que diz respeito à política:
E do ponto de vista político, que, sendo o nosso passado um obstáculo, a liquidação das “raízes” era um imperativo do desenvolvimento histórico. Mais ainda: em plena voga das componentes lusas avaliadas sentimentalmente, percebeu o sentido moderno da evolução brasileira, mostrando que ela se processaria conforme uma perda crescente das características ibéricas, em benefício dos rumos abertos pela civilização urbana e cosmopolita, expressa pelo Brasil do imigrante, que há quase três quartos de século vem modificando as linhas tradicionais.
No que respeita ao prefácio de Raízes do Brasil, ficamos com mais este trecho escrito por Antônio Cândido:
Finalmente, deu-nos instrumentos para discutir os problemas da organização sem criar no louvor do autoritarismo e autorizou a interpretação dos caudilhismos, que então se misturavam às sugestões do fascismo, tanto entre os integralistas (contra os quais é visivelmente dirigida uma parte do livro) quanto entre outras tendências, que dali a pouco se concretizariam no Estado Novo. Com segurança, estarmos entrando naquele instante na fase aguda da crise de decomposição da sociedade tradicional. O ano era 1936. Em 37, veio o golpe de Estado e o advento da fórmula ao mesmo tempo rígida e conciliatória, que encaminhou a transformação das estruturas econômicas pela industrialização. O Brasil de agora deitava os seus galhos, ajeitando a seiva que aquelas raízes tinham recolhido. São Paulo, dezembro de 1967. Antônio Cândido.
Adiante mencionaremos os prêmio mais importantes concedidos a Sérgio Buarque de Holanda, bem como a relação de sua obra. O seu primeiro livro, Raízes do Brasil, (1936), foi uma obra que nasceu clássica, segundo o professor e ensaísta Antônio Cândido. Entre os anos de 1950 a 1953 Sérgio Buarque de Holanda escreveu para para a Folha de S. Paulo. O Premio Edgard Cavalheiro foi-lhe outorgado pelo Instituto Nacional do Livro em 1957, pela sua obra Caminhos e Fronteiras. No ano seguinte, com a tese "Visão do Paraíso - Os Motivos Edênicos no Descobrimento e na Colonização do Brasil", foi aprovado em concurso público para a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - USP. (Formou-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1925.)
Os livros que Sérgio Buarque de Holanda produziu, depois de Raízes do Brasil (1936), foram: Cobra de Vidro (1944); Monções (1945. 2ª ed. 1976); A Expansão Paulista do Século XVI e Começo do Século XVII (1948)”; Índios e Mamelucos na Expansão Paulista, (1949); Antologia dos Poetas Brasileiros na Fase Colonial. Revisão Crítica de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira (1952); “Le Brésil dans la Vie Américaine (em Le nouveau monde et l'Europe - IXes. Recontres Internationales de Genève) Neuchatel" (1955); Caminhos e Fronteiras (1957. 2ª ed., 1975); Visão do Paraíso . Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil (1958); História Geral da Civilização Brasileira (direção da obra de VII vols.; o último, Do Império à República, foi totalmente escrito por Sérgio Buarque de Holanda (1972); Brasil-Império (em 'Tres Lecciones Inaugurales, Buarque, Romano, Savelle), Santiago do Chile 1963).”
Obras Didáticas escritas por Sérgio Buarque de Holanda: História do Brasil, em colaboração com Tarqüinio de Souza (1944); História do Brasil – 1. Das Origens à Independência. 2. Da Independência aos Nossos Dias. Para a área de Estudos Sociais, Ensino de 1º grau - em colaboração com Carla de Queiróz, Sílvia Barbosa Ferraz e Vigílio Noya Pinto (1972-1974, 2 vols.); História da Civilização. Área de Estudos Sociais. 7ª e 8ª séries do 1º grau (antigas 3ª e 4ª séries ginasiais (em contribuição com a mesma equipe acima mencionada (1975).
Como reconhecimento da importância de seu trabalho em prol da cultura, Sérgio Buarque de Holanda recebeu o premio Intelectual do Ano, em 1979.
Sérgio Buarque de Holanda nasceu na cidade de São Paulo, em 11 de julho de 1902, onde faleceu, em 24 de abril de 1982. Dentre os seus sete filhos, dois tornaram-se famosos: Miúcha e Chico Buarque.





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25 de mar de 2009

FERNANDO PESSOA: Almoxarifado de Mitos

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                 por  Pedro Luso de Carvalho


        No ano de 2005, a Editora Escrituras editou Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos, livro de Carlos Felipe Moisés, que integra a coleção Ensaios Transversais. O escritor é poeta, e formado em Letras pela Universidade de São Paulo. Na USP, concluiu mestrado e doutorado, em 1968 e 1972, respectivamente. Ensinou teoria literária e literatura de língua portuguesa na Faculdade de Filosofia de São José do Rio Preto, na PUC de São Paulo, na USP e na Universidade Federal da Paraíba. Fora do Brasil, no período que compreende os anos de 1978 a 1982, lecionou na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Atualmente, é professor titular da Universidade São Marcos.

        
Carlos Felipe Moisés se dedica regularmente à crítica literária desde os anos 70, escrevendo para órgão especializados da imprensa brasileira. É autor, entre outros livros, de A poliflauta (1960), Carta de marear (Prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1966), Círculo imperfeito (Prêmio Gregório de Mattos e Guerra, Salvador, 1978), Subsolo (Prêmio APCA, 1989), Lição de casa (1998) e Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos (2005), uma obra que deverá agradar aos admiradores do poeta português; o livro começa com traços biográficos de Pessoa, como nos trechos que seguem:

       “Pouco antes de morrer, no Hospital São Luís, em Lisboa, a 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose provocada por ingestão de bebida alcoólica, Fernando Pessoa anotou num retalho de papel esta última frase: “I know not what tomorrow will bring”. O sentido e a circunstância da frase remetem a uma de suas obsessões: o mistério da existência, o horror da morte e do desconhecido, o pendor especulativo, em suma, que o levou a se interessar por mediunidade, espiritismo, astrologia, maçonaria, teosofia – o esoterismo em geral. Em inglês literário, a frase mostra a força com que se lhe fixou no espírito a educação britânica que recebera em Durban, na África do Sul, onde viveu dos sete aos 17 anos”.

        Nascido em Lisboa, a 13 de junho de 1888, filho único (o irmão mais novo, Jorge, morreu em 1894, com um ano de idade), órfão de pai antes de completar os seis anos, Pessoa parte em 1896 para a África, com a mãe, que se casara de novo, com João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban. Os dez anos aí passados foram decisivos para a sua formação. É na África, e em inglês, que ele adquire a base de sua cultura literária (Milton, Shelley, Shakespeare, Tennyson, Pope e outros), escreve os seus primeiros poemas e concebe os proto-heterônimos Alexander Search e Robert Anon, sucessores adolescentes de Chevalier de Pas, personagem inventada aos quatro anos, com quem ele então se entretinha horas a fio. Em Durban, realizou os estudos primários numa escola de freiras irlandesas; secundários, na Durban High School e, em 1904, foi aprovado nos exames de ingresso no Curso de Artes, na Cape Univerty. Mas no ano seguinte decidiu regressar a Lisboa, sozinho.

        De volta a Portugal, redescobre sua cultura e literatura: Cesário Verde, Antonio Nobre, Antero de Quental, Camilo Pessanha, que vêm somar-se a uns, como ele diz, “subpoetas”, lidos na infância. (É curioso o escasso interesse que Pessoa declara ter tido por Camões – a influência mais forte que sofreu, dentre todas. Harold Bloom, autor de "The anxiety of influence", teria aí matéria farta para demonstrar a sua tese, segundo a qual todo poeta anseia por matar o “pai”, escamoteando as influências que tenha recebido.) Em 1906, matricula-se no Colégio Superior de Letras, em Lisboa, que abandona em seguida, e começa a alimentar arrojados planos, literários e outros, nunca realizados na íntegra. Após o fracasso comercial de sua “Empresa Íbis – Tipografia e Editora”, experiência em que mais tarde reincidirá, emprega-se como correspondente de firmas estrangeiras sediadas em Lisboa, modéstia atividade que lhe garantirá o sustento até o fim de sua vida.

        Em 1912, estréia como crítico literário na revista A Águia, órgão do movimento nacionalista “Renascença Portuguesa”, chefiado por Teixeira Pascoaes, com o ensaio “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, onde profetiza o aparecimento, para breve, do “Supra Camões”, isto é, um poeta que irá suplantar o grande épico – e este é um dos raros momentos em que deixa entrever o alto apreço que tinha pelo poeta clássico, bem como o desejo de superá-lo. Daí em diante, a literatura lhe absorverá todo o tempo e interesse, tornando-se alvo de dedicação exclusiva”. Aí estão, pois, alguns trechos dessa excelente obra de Carlos Felipe Moisés, Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos, que vale a pena ser lido na íntegra.




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17 de mar de 2009

HEITOR VILLA-LOBOS

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por Pedro Luso de Carvalho


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Diz Bruno Kieffer, em Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira, que "Não poder haver dúvida: foi Raul Villa-Lobos, pai do compositor, quem deu impulso inicial e decisivo para a formação musical do jovem Heitor. O próprio compositor, já famoso, declarou em rápida autobiografia: “Meu pai, além de ser um homem de aprimorada cultura geral e excepcionalmente inteligente, era um músico prático, técnico e perfeito. Com ele, assistia sempre a ensaios, concerto e óperas, a fim de habituar-me ao gênero de conjunto instrumental”.

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Quando Fernando Lopes Graça, conhecido compositor e musicólogo português, perguntou, em entrevista, ao autor dos Choros: - Quais os mestres por quem se sente devedor na formação da sua arte e da sua personalidade? – Sou devedor ao meu pai da minha formação da arte e da minha personalidade. Não posso, no entanto, deixar de reconhecer o quanto me interessam J. S. Bach, Florent Schmitt e Stravinski. O conhecimento de obras dos dois últimos compositores, deu-se somente por ocasião da primeira estada de Villa-Lobos na Europa (Paris, 1923/24).

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Sylvio Salema Garção Ribeiro (compositor, cantor e crítico musical de A Noite, Rio), que conheceu Villa-Lobos desde 1910, dá o seguinte depoimento: “Heitor teve boa base, aprendeu com o pai a ler música e a tocar violino (sic). Da biblioteca de seu pai guardou um Tratado de Harmonia do Padre Moura e de Durant, em francês, língua que aprendeu não sei com quem, mas sabia ler e falar”. E ainda: “Sua família era sócia do Clube Sinfônico que realizava concertos...”

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O instrumento do pai era o violoncelo. Como o dele era grande demais para o menino, Raul teve a idéia de adaptar um espigão a uma viola. Heitor podia agora estudar num “violoncelo” de tamanho adequado, só que tudo soava oitava acima... Mais adiante aprenderia também a soprar clarinete sob orientação do pai. Nota-se que Raul Villa-Lobos tinha acentuado interesse na educação musical de Tuhu, como era apelidado o pequeno Heitor.
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Na casa dos Villa-Lobos cultivava-se não somente a música individual. Segundo Vasco Mariz, um dos biógrafos de Heitor: “Nomes respeitados na época freqüentavam-lhe a casa com assiduidade e organizavam-se em grupos de câmara fazendo música até altas horas da noite. Tal hábito, que durou anos, influiu decisivamente na formação da mentalidade de tuhu. Cultivou o gosto musical naquela atmosfera, conheceu de tudo e de todos, acumulou considerável experiência. (...) Data de seus oito anos o interesse por Bach (...) Responsável por essa nova predileção foi a tia Zizinha, boa pianista e entusiasta do Gravo Bem Temperado. E o pequeno Heitor extasiava-se diante dos prelúdios e fugas que a tia lhe tocava”.
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Villa-Lobos recebera na infância a influência dos autores clássicos e românticos, quer na casa paterna, quer nos recitais e concertos aos quais assistia. Em 1899, Heitor tinha então doze anos, quando seu pai faleceu. Daí em diante, a vida de Villa-Lobos seria radicalmente diferente.
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Heitor Villa-Lobos nasceu no dia 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro, onde morreu, no dia 17 de novembro de 1959.



REFERÊNCIA:
KIEFFER, Bruno. Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira - Movimento/MinC/ Pró-Memória – Instituto Nacional do Livro – Porto alegre: Editora Movimento, 1986, págs. 17/19.
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11 de mar de 2009

[Poesia] PEDRO LUSO - A Mulher e o Algoz




                                                                                
 [ESPAÇO DA POESIA]


A MULHER E O ALGOZ
 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
      


Quarto às escuras. Noite chuvosa.
No desalinho da cama, absorta,
 a mulher olha através da janela.

Da rua, nesga de luz clareia livros
sobre o velho baú. Na calçada, iluminado
entre ramos de árvores, o relógio:

longos ponteiros, duplicados
pelo efeito das sombras. Mulher
paralisada: dos pulmões puxa o ar

que falta, e sente a ameaça mortal.
Aterrorizada, coração descompassado,
desmaio. Passam minutos, horas

ou séculos – resta o desfecho. Na rua,
silêncio e ruído de carros alternam-se
sobre o asfalto molhado.

Lívida, no chão busca refúgio:
rosto entre os joelhos – domínio
do medo. Na porta, forte batida

transpassa-a (barulho de passos,
escuridão, mulher encolhida
no assoalho, desesperançada).

De repente, no frio da noite,
lâmina zune no breu: dor lancinante.
Grunhido de ave ferida.




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1 de mar de 2009

CLARICE LISPECTOR / Uma Entrevista



                 por  Pedro Luso de Carvalho



        Entre uma pilha petições e outra de processos findos, que pretendia encaminhá-los à lixeira, encontrei dois recortes da revista Manchete, amassados, amarelecidos e sem data, que reproduzia uma entrevista concedida pelo filho de Clarice Lispector, o economista Paulo Gurgel Valente, a Jorge de Aquino Filho. 

        Acho que um de meus filhos, no afã de ajudar-me no emaranhado de papéis, misturou uma coisa com outra. Nas fotos de Paulo Marcos, o filho de Clarice posa para a foto principal da entrevista. Na parede da sala, um quadro da escritora pintado por De Chirico. Na primeira página da entrevista, acima dessa foto, aparece a manchete: “Minha mãe Clarice Lispector”.

        Como a entrevista é longa, farei menção apenas a alguns trechos do que Paulo falou sobre sua mãe Clarice, deixando de reproduzir a pergunta do entrevistador, e passando diretamente à resposta. Pois bem, o texto da entrevista tem uma espécie de ementa (própria de acórdão de tribunais): “Mamãe era extremamente vaidosa. Jamais escreveu trancada num quarto com cachimbo na boca, como diziam”.

        No camarote da Gávea – diz o entrevistador, nesse intróito – a presença de Clarice Lispector está viva nos pequenos baús de prata e no potinho que enfeitam a grande arca de madeira. E prossegue descrevendo a sala em que se encontram: “Na parede, ela revive em seus retratos feitos por Scliar e De Chirico, mostrando fases da escritora nascida na Ucrânia, União Soviética (na época), a 10 de dezembro de 1925, mas desde um ano de idade tornada brasileira pelos pais que escolheram o Brasil como pátria”.

        No início dessa conversa, Paulo dizia-se emocionado ao falar de sua mãe, e contente por saber da importância de sua obra. Disse do agradável convívio que Clarice tinha com ele, Paulo, e com seu irmão Pedro: “Mamãe se preocupava muito com seus filhos. Nossos deveres escolares, nossas amizades, nossa alimentação tinham sempre sua supervisão. Ao mesmo tempo criou-nos com muita liberdade. A característica principal foi inspirar sempre muita criatividade. Jamais nos cerceou”.
       
        Quando o entrevistador perguntou-lhe se sua mãe reclamava quando era interrompida pelos filhos, respondeu-lhe que não, e que ela gostava de escrever rodeada de seus dois filhos. Lembrava-se dela com a máquina de escrever no colo. Foi assim – disse - que escreveu todos os seu romances. E mais: sua mãe, não gostava de escritório, e mesmo enquanto escrevia, não deixava de ser uma dona-de-casa. “Ora falava de empregada, ora fazia a relação de compras. Muitas vezes fomos juntos à feira. Escrever, para ela, era como fazer compras ou concluir qualquer tarefa doméstica – algo muito natural”.
       
        Mais adiante, na entrevista, ante a pergunta do que marcou mais no contato entre mãe e filho, Paulo respondeu que “foi quando ainda garoto, vendo-a a escrever sempre sentada no seu sofá preferido, um dia lhe perguntei: ‘Já que a senhora tanto escreve, por que não faz uma história só para mim?' Mamãe parou o romance que estava escrevendo e iniciou a história. Depois, guardou-a na gaveta. Passados quinze anos a história foi editada como seu primeiro livro infantil chamado O Mistério do Coelhinho Pensante. Paulo diz que esse livro foi o início da incursão de sua mãe na literatura infantil.

                                                                   
                                                               
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14 de fev de 2009

RISCO DE DEPRESSÃO ECONÔMICA NOS EUA

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por Pedro Luso de Carvalho


O país mais poderoso do mundo está com as barbas de molho, com temor de que se repita o crash da Bolsa de Nova York, a chamada Quinta-feira Negra, quando, no dia 24 de outubro de 1929, as ações começaram a despencar, causando o maior desastre econômico de todos os tempos - as principais ações da Bolsa perderam até 90% de seu valor -, resultando na quebra de milhares de bancos e no fechamento do comércio, com investidores desesperados, muitos deles levados ao paroxismo do suicídio.


O que vemos hoje nos Estados Unidos é uma situação econômica similar, com um sinal de quebra, segundo noticiam os jornais, com seus poderosos bancos indo para o brejo, em decorrência das dívidas hipotecárias, e com suas Bolsas de Valores no vermelho, por um lado, e, por outro, o Governo disposto a injetar no mercado milhões de dólares para salvar o país dessa grande crise econômica, que parece repetir a política implantada por Franklin D. Roosevelt, quando se viu ante a dramática crise econômica, que se iniciou em 1929.
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O então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, fortemente influenciado pelas teorias econômicas de dois economistas ingleses, John Stuart Mill e John Maynard Keynes, concebeu um plano para salvar os Estados Unidos, a partir da Grande Depressão. Stuart Mill sempre foi adepto da expansão do governo, e Keynes acreditava na lei da oferta e procura; daí ter o New Deal se aproveitado dessas teorias para estabilizar o mercado.


A respeito de Roosevelt, Keynes escreveu um artigo no Daily Mail , em 4 de julho de 1933: “Há muito tempo que um estadista não destruía teias de aranha com a coragem com que o fez, ontem, o presidente dos Estados Unidos... Sua mensagem é substancialmente um desafio a nós lançado para que decidamos entre continuar por velhos caminhos ou procurar novos; novos para estadistas e banqueiros, mas não para o pensamento, pois que conduzem à moeda equilibrada do futuro, cujo exame tem sido o argumento central da economia pós-bélica”.
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Quanto à participação de Keynes no plano de recuperação da economia depois da Quinta-feira Negra, esta não era aceita pacificamente pelos norte-americanos, ao contrário: “Em grandes círculos dos Estados Unidos, o nome de Keynes tornou-se objeto de ódio. Muitos, não estando preparados, sem poderem distinguir os aspectos do New Deal de caráter Keynesiano dos que não o eram, atiraram a Keynes a responsabilidade de tudo que mais odiavam... Os partidários do laissez-fair eram, naturalmente, levados a denunciar Keynes, como este os denunciava” (R. F. Harrod, A Vida de J.M. Keynes, Einaudi, Turim, 1965).


O New Deal - preleciona Schlesinger jr. - era, em parte, inspirado por um sentimento defensivo: a determinação de proteger as liberdades e as oportunidades americanas da fúria do desemprego e do desespero. Grande parte dos Cem Dias foi um frenético esforço para harmonizar o sistema americano. Todavia, dali decorreu uma iniciativa que se erguia como modelo da melhor América, que homens completamente dedicados a ela tinham podido criar. A aprovação do Tennesee Valley Authority Act, ocorrida a 18 de maio de 1933. Talvez nenhuma das leis aprovadas durante os Cem Dias expressasse mais apaixonadamente um dos maiores interesses do presidente. Este interesse dependia só, em parte, do amor que Roosevelt sempre nutrira pela terra, as florestas, as águas. Provinha também da sua procura de um melhor sistema de vida nacional”. (Arthur M. Schlesinger jr., The Vital Center, Boston: Houghton Mifflin Company, 1949.)
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Esperam os Estados Unidos, nos dias que correm, que o seu novo presidente, Barack Obama, possa, inspirado no seu colega Franklin Delano Roosevelt, impedir que os norte-americanos venham passar por privações semelhantes às ocorridas nos anos de 1930, quando poucas eram as esperanças de a economia recuperar-se. Quem sabe ele encontre um John Maynard Keynes para mostrar-lhe uma luz no final do túnel.
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28 de jan de 2009

MORRE O ESCRITOR JOHN UPDIKE

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por Pedro Luso de Carvalho



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No dia 27 de janeiro deste ano, morreu o escritor estadunidense John Updike, aos 76 anos. Câncer no pulmão, foi a causa da morte de Updike, doença contra a qual lutava há alguns anos, segundo informação de seu editor Alfred A. Knopf, ao The New York Times. Updike Era considerado um dos intelectuais mais influentes dos Estados Unidos durante a segunda metade do século 20. Na literatura norte-americana contemporânea, ombreava-se com grandes nomes do romance como Saul Bellow e Philip Roth, entre outros. O escritor residiu em Beverly Farms, Massachusetts (USA).


John Hoyer Updike nasceu 18 de março de 1932, na pequena cidade de Shillington, Pennsylvania (EUA). Formou-se em Harvard em 1954, e no mesmo ano residiu por um ano na Inglaterra, onde foi estudar belas-artes. De 1955 a 1957, fez parte da equipe de redação da revista The New Yorker, para a qual contribuiu com poemas, contos, ensaios e resenhas. Destacou-se também como cronista, crítico literário e ensaísta no The New York Review of Books. Em 1957, mudou-se para Massachusetts.


Escreveu sobre a América, que ressurgiu com ímpeto depois da Segunda Guerra Mundial - e que começava a esquecer a Grande Depressão. E foi nessa época, que passou pelo pessimismo com crash da Bolsa de 1929 ao otimismo dos anos cinqüenta, que cresceu o jovem Updike no seio de uma família protestante da Pennsylvania, e tornou-se profundo conhecedor da sociedade estadunidense. Nos sessenta anos que se seguiriam, escreve sobre essa sociedade que veria o surgimento da luta pelos direitos civis e a oposição à guerra do Vietnã.
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Updike foi um autor prolifero, com mais de 50 livros, dentre eles, 25 romances e mais de 12 livros de contos, além de livros de poesia, ensaio e teatro; toda sua obra abrange o período de tempo que compreende a Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Era exigente no tocante a qualidade de seu texto, tanto na sua produção ficcional como na sua produção como crítico literário e ensaísta. Foi ganhador do prêmio Pulitzer (por duas vezes), do National Book Award e do National Critics Circle Award.=
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Dentre os muitos romances que Updike escreveu, destaca-se a famosa saga do Coelho Angstron, um brilhante painel da cultura e da sociedade norte-americana nas últimas décadas. Updike era um escritor de larga experiência, com surpreendente talento para apreender detalhes e riquezas do quotidiano. No Brasil, alguns livros do escritor foram editados pela Companhia das Letras: Coelho corre, Coelho cai, Brazil, Memórias em braco (romances); Bem perto da costa (ensaios); e Consciência à flor da pele (memórias), entre outros. Corre coelho também foi publicado pela Editora Civilização.
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20 de jan de 2009

GEORGE W. BUSH NÃO FOI O ÚNICO CULPADO


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por Pedro Luso de Carvalho
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Finalmente, George W. Bush deixou a presidência dos Estados Unidos da América, depois de ter feito uma histórica lambança nos seus oito anos de mandato. Deixou com seu sucessor, Barack Obama, inúmeros problemas, sendo os mais graves, e que não podem ser resolvidos em curto espaço de tempo, a retirada das tropas americanas do Iraque e o sistema bancário, que se encontra no fundo do poço pela avidez dos banqueiros, que emprestaram dinheiro para quem não comprovou ter renda familiar compatível com a dívida assumida com hipotecas para a compra da casa própria, entre outros. Sem falar que pessoas obtinham tal financiamento e desviavam o dinheiro para outros fins, já que não sentiam o peso da fiscalização. E agora o Governo se vê obrigado a socorrer os banqueiros, com o dinheiro do povo, para evitar mais farinha no ventilador.


Então, nessa primeira etapa, constatamos que, além de Bush com os seus desmandos, aparecem os banqueiros como culpados por parte da crise financeira estadunidense; mas, também eles não são os únicos culpados por todo esse caos, como veremos com apenas uma breve sondagem no passado recente de mais pessoas e instituições que sentam no banco dos réus com o presidente que deixa o Governo. E é nesse passado que, de novo, encontramos Bush como responsável pela crise financeira, ao consentir na fraude que foi sua reeleição, quando seu concorrente democrata Al Gore já tinha obtido a maioria de votos, como se anunciava na época, mas não assumiu. E, nesse caso, uma das instituições mais importantes do país, a Suprema Corte, permitiu que Bush se reelegesse, mesmo com a contagem de votos eivada de vícios e se tornasse o 43º presidente dos Estados Unidos,


No seu livro, Sonhando a Guerra (2ª ed., Nova Fronteira, 2003) Gore Vidal - não confundir com Al Gore -, escreve, no capítulo Visões democráticas: “Vice-presidente de Richard Nixon e considerado subornável por muitos, Spiro Agnew teve um dia a inspiração de dizer: “Com todas as suas falhas, os Estados Unidos ainda são a maior nação do país”. Hoje, ainda no rastro deixado pela defraudação eleitoral da Suprema Corte nas eleições para o 43º presidente, Spiro deve estar nas alturas entre seus sombrios correligionários.


Será que mais uma vez deixamos de cumprir nossa parte? Tal como fizemos em 1888, quando a pluralidade do voto popular de Grover Cleveland foi cancelada pelos liames do Colégio Eleitoral, e ainda mais notoriamente fizemos em 1876, quando o democrata Samuel Tilden ganhou 264 votos mais do que o republicano Rutherford B. Heyes, cujo partido então os impugnou no Oregon, na Carolina do Sul, na Louisiana e, claro, na dissoluta Flórida. Uma comissão eleitoral escolhida pelo Congresso deu a eleição ao perdedor, Heyes. Por um único voto, resultado de uma maracutaia envolvendo um corrupto juiz da Suprema Corte indicado pelo sacrossanto Lincoln”.


Mas agora o que importa é a posse de Barack Obama, com a presença de milhares de pessoas em frente ao Capitólio, numa festa como nunca se viu antes na posse de um presidente dos Estados Unidos da América, nem mesmo com o fenômeno eleitoral que foi John F. Kennedy. E esse poderoso país e o mundo aguardam medidas político-administrativas importantes para enfrentar a crise atual , mesmo sabendo todos que a tarefa é árdua, tanto no que se refere a política interna como a política externa, como é o caso da Faixa de Gaza (na guerra entre judeus e palestinos), onde morreram centenas de civis inocentes nestes últimos meses, de forma injustificável. Portanto, resta darmos adeus a Bush, o pior presidente norte-americano, e boas-vindas a Barack Obama, o primeiro presidente negro estadunidense. Salve, Obama!
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18 de jan de 2009

AS MÃES DA PRAÇA DE MAIO



por Pedro Luso de Carvalho



Uma data para não ser esquecida: 31 de março de 2009, quando, numa terça-feira, a Justiça Argentina julgou e condenou à prisão perpétua o ex-capelão da Igreja Católica, Christian Von Wernich, de 69 anos, pela sua participação em sete homicídios, 31 casos de tortura e 42 seqüestros –, foi no caos da ditadura militar (1976-1983) que, com a dor pela perda de seus filhos, desaparecidos e mortos, nasceu um símbolo da resistência dos argentinos: a Associação das Mães da Praça de Maio, tendo como presidente a conhecida e respeitada senhora Hebe Pastor Bonafini. 


Para esse julgamento, que durou cerca de três meses, as portas do Tribunal foram abertas para o público, e também foi permitida a sua cobertura ao vivo, por emissoras de televisão. Na parte externa do prédio foi instalado um telão para que as pessoas pudessem acompanhar o julgamento. Os sobreviventes e familiares das vítimas, que participaram do julgamento na condição de testemunhas, disseram que o ex-capelão ouvia confissões nos locais onde eram torturados e informava aos militares o que ouvia. 


Antes desse julgamento, outro foi realizado, na província de Córdoba, para julgar o ex-general Luciano Benjamín Menéndez (81 anos), e, no dia 17 de junho de 2008, o Tribunal deu o seu veredicto: culpado. A pena que lhe foi imposta foi prisão perpétua, pela autoria da morte de quatro militantes de esquerda em um centro de torturas do Terceiro Corpo do Exército, sob comando do general. Centenas de pessoas festejaram a sua condenação.


Será que semelhante julgamento seria realizado no Brasil? Acho difícil, em que pese o Ministro da Justiça Tarso Genro venha demonstrando clara intenção de imitar os argentinos. Jornais publicaram esta manifestação de Genro: “É uma análise que deve ser baseada em uma visão universal: que é do extravasamento do mandato dado pelo Estado e a responsabilidade do agente que extravasa esse mandato e comete tortura”. Aguardemos os acontecimentos. 


No mês de junho próximo passado, tive a grata oportunidade de acompanhar uma conferência proferida por Hebe Pastor Bonafini, transmitida pela TV estatal argentina, na qual essa incansável lutadora pela causa dos filhos mortos por atos da Ditadura Militar daquele país, dizia que jamais deixaria de denunciar para o mundo tais crimes, e que, mais cedo ou mais tarde, veria outros responsáveis pela inominável matança de seus filhos sentarem nos bancos dos réus, e ouvir dos juízes a sentença de "culpado", para depois serem conduzidos à prisão para o cumprimento das penas que a eles serão impostas. 



9 de jan de 2009

ROGER GARAUDY - Ainda é Tempo de Viver



               
                       por  Pedro Luso de Carvalho  
       
       
        O filósofo francês, ex-integrante do Partido Comunista da França, Roger Garaudy, autor de mais de 50 livros, uma grande parte dessa produção sobre a filosofia política e marxismo, deu como título de uma de suas obras Est enconre temps de vivre ('Ainda é tempo de viver’), esta, escrita em cooperação com Pierre-Luc Seguillon (Paris: Editions Stock, 1980); no Brasil, o livro foi publicado em 1981, com tradução de Aulyde Soares Rodrigues, pela Editora Nova Fronteira.

        O título da obra, Ainda é tempo de viver, não antecipa, como o leitor poderia pensar, tão-somente uma mensagem de esperança e de otimismo, mas, antes de tudo, uma forte crítica sobre ausência da fé pelos povos - não a fé pregada pelas igrejas cristãs. E, essa é mesmo a intenção de Garaudy, que no início do livro pergunta: “Existe um futuro para o homem?” E, após, convida o leitor para, com ele, ler um pequeno artigo de jornal, sobre um homem que morreu dilacerado por um trem do metrô, logo acrescentando: “Um homem livre, entre homens livres, foi dilacerado por essa liberdade”.

        Mais adiante, Garaudy diz o motivo que o levou a contar essa história: “Porque ela nos conduz ao problema central. Não apenas ao problema de viver, mas ao problema central do nosso tempo: as vidas sem objetivo. Vidas que levam apenas à morte”. Após essa afirmação, indaga o que se deve fazer para mudar isso; e afirma que pelo menos quinze mil suicídios são cometidos na França, por ano – ‘quase tanto como o número de mortes nas estradas’ -; e que as tentativas de suicídios ficam em torno de cem mil – ‘muito menos do que o número de inválidos por desastres de carro ou de moto’ -; e que, por alcoolismo, morrem quarenta mil pessoas, bem menos que as mortes pelo fumo, que atingem vinte mil; e menciona que morrem menos pelas drogas – ‘Falo das drogas que não o álcool, o fumo ou o automóvel’.

        É evidente que esses dados estatísticos não valem para os dias atuais, para este início do ano 2009, bem distante desses levantamentos mencionados por Garaudy, na França de 1980. E, se esses números de suicídios e das suas tentativas de suicídio, das mortes nas estradas por acidentes de carro e das mortes pelo vício do álcool e do fumo são demasiadamente elevados, o que poderíamos dizer sobre uma estatística francesa atualizada, cujos números devem ter aumentado em razão da taxa populacional, aumento astronômico do número de veículos rodando pelas ruas e estradas, além do aumento do número de alcoólatras, fumantes, etc. O mesmo vale para o Brasil e para as principais metrópoles do mundo.
 
         Garaudy pergunta, depois de dizer que a metade das neuroses é provocada pelo ruído, que oitenta por cento por câncer ambiental, e, ainda, as doenças cardíacas, em conseqüência da vida agitada que se leva. Depois se pergunta se tudo isso faz sentido. E mais: ‘Nossa vida quotidiana significa alguma coisa? Quem é o chefe da orquestra invisível que rege essa cacofonia?” A resposta a essas perguntas de Garaudy, é ele mesmo quem as dá: “O crescimento. Isto é, o domínio de toda a sociedade por este modelo de organização de empresa, exatamente como foi concebido na primeira metade do século XX, denunciada por Chaplin em Tempos modernos. Uma empresa cuja única finalidade é produzir seja lá o que for e fabricar o mais possível”.

        Segue parte da crítica ao crescimento, por Garaudy: “Minha crítica ao crescimento não tem fundo ‘moral’, nem mesmo ‘ecológico; é uma crítica feita em nome de um outro modo de agir no mundo. A tese central do meu ‘Apelo aos vivos’ é a de que o problema do crescimento não é apenas um problema econômico e político, mas acima de tudo um problema de fé, uma vez que o crescimento é o deus oculto de nossas sociedades e que a publicidade é sua liturgia demente. Toda a minha argumentação baseia-se neste princípio: ‘podemos viver de outro modo’. Saber que podemos nos livrar desse mergulho suicida do atual modelo de crescimento é um ato de fé”.

        Garaudy fala mais dessa fé, para ele indispensável para que se possa viver melhor no mundo conturbado de hoje, com todo o tipo de violência, como as que foram por ele mencionadas, e que, por certo, deve fazer menção também ao morticínio que nos dias atuais ocorre na Faixa de Gaza, entre judeus e palestinos, com vítimas inocentes, como crianças, mulheres e velhos - além dos combatentes -, que não tiveram nenhuma ingerência nas decisões políticas tomadas pelos líderes responsáveis por essa barbárie:

        “Em uma palavra, a fé é a alma de toda a política que está à altura do homem, de toda a política sem dogmatismo e sem dominação, desde que cada um aja com a consciência de ser pessoalmente responsável pelo destino de todos os outros”. E aduz o filósofo: “E essa fé pode ser a de um hindu, de um judeu, de um cristão, de um mulçumano ou de um ateu”.

        No capítulo “Do crescimento cego à fé no homem”, o primeiro de seu livro Ainda é tempo de viver, já perto do final do texto, escreve Garaudy: “Toda a revolução profunda nasce da conjunção da miséria e da revolta com a esperança e a fé. A grande fraqueza das igrejas cristãs é o seu distanciamento dos movimentos populares e a degradação da fé transformada em religião. Dessa dupla mutilação, a revolução de um lado, e as Igrejas de outro, decorre nossa incapacidade atual de operar as mutações necessárias à nossa sobrevivência e à nossa vida”. [Alguns dados biográficos de
Roger Garaudy.]



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3 de jan de 2009

JOSÉ SARAMAGO E SEU NOVO LIVRO

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por Pedro Luso de Carvalho


Acho que todas as pessoas que se interessam pela literatura estiveram preocupadas com a saúde de José Saramago, em parte do ano de 2007 e nos últimos meses do primeiro semestre de 2008. Em algumas fotos de Saramago, mostradas por alguns jornais e revistas, víamos o escritor muito magro e abatido. Saramago parecia ter envelhecido muito nesse espaço de tempo.Vi, pois, com preocupação as fotos que foram tiradas do escritor durante a sua doença (ou quando já convalescia).


Quando publiquei este texto no meu outro blog
, disse que naquela ocasião as fotos mais recentes do escritor português mostravam que os problemas respiratórios haviam cedido, e que podíamos vê-lo com melhor aparência. Falei da agradável surpresa que tive com a sua convalescença, e que a essa boa notícia se somava outra, o lançamento da novela A viagem do elefante, que Saramago autografou. O livro foi escrito no final de 2007, quando o escritor se encontrava hospitalizado. Pilar Del Rio, mulher de Saramago contou, na ilha de Lanzarote onde vive o casal, que a novela é uma reflexão sobre o sentimento da ‘compaixão solidária’.
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A novela, que Saramago define como ‘um conto’, descreve a viagem épica, e ao mesmo tempo prosaica e jovial de um elefante asiático chamado Salomóm, que, no século XIX, percorreu mais da metade da Europa, conta a jornalista Pilar Del Rio; e acrescenta que a história se baseia em fatos da época de Maximiliano da Áustria, que nasceu em Viena, foi nomeado imperador do México em 1864 e fuzilado em 1867. O livro A viagem do elefante contém 240 páginas, e parte do texto pode ser lido no blog de sua Fundação.


Falando pelo marido, Pilar diz que o leitor vai encontrar ironia, sarcasmo, beleza em estado puro e a responsabilidade de escrever. Diz mais: e, como já se tornou característico do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, também em 'A Viagem do Elefante' ele pontua de acordo com suas próprias regras. Pilar conclui: os diálogos se intercalam na narrativa, um todo que o leitor tem que ordenar segundo sua respiração, que dessa forma, Saramago continuamente implica o leitor no texto, “porque escrever, como ler, não são ações inocentes”.


Então, neste início de 2009, não apenas podemos ler A viagem do elefante, como podemos esperar que Saramago nos surpreenda mais uma vez com um novo livro. Resta-nos, pois, desejar ao escritor e à sua esposa Pilar Del Rio, que desfrutem este ano com saúde, que é o mais importante.
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26 de dez de 2008

HAROLD PINTER MORRE EM LONDRES

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por Pedro Luso de Carvalho



A dramaturgia britânica perdeu nesta quarta-feira (24 de dezembro de 2008), um dos melhores representantes de sua geração, Harold Pinter, aos 78 anos. Antonia Fraser, esposa de Pinter, e também escritora, foi quem comunicou a morte do dramaturgo - que descrevia a si próprio como "dramaturgo, diretor, ator, poeta e ativista político" -; mais tarde a BBC de Londres divulgou que foi câncer do fígado a causa da morte desse eterno rebelde.


Ao conceder-lhe o Nobel de Literatura, a Academia sueca qualificou Pinter como “o representante mais destacado do teatro britânico da segunda metade do século XX”. Sobre o Nobel que recebera, disse Pinter aos repórteres, na porta de sua casa, em Londres, quando lhe comunicaram que a Academia havia lhe concedido o premio: “Não tive tempo de pensar sobre isso (o Nobel), mas estou muito comovido. É algo que não esperava por nada em nenhum momento”.


Em declaração divulgada pelo jornal The Guardian, em sua edição eletrônica, sua mulher Antonia Fraser disse que “Ele foi um grande e foi um privilegio viver com ele durante 33 anos – e que ele - Nunca será esquecido”. Em decorrência de sua enfermidade, o dramaturgo não pode receber a sua investidura, este mês, como “doctor honoris causa” na Central School of Speech and Drama de Londres.
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Pertencente a geração dos Jovens Irados britânicos, Printer iniciou sua carreira com publicação de sua primeira obra, O Quarto, em 1957. Depois disso, escreveu peças teatrais tão famosas como The Caretaker, The Birthday Party (A Festa de Aniversário) e The Dumb Waiter; ao todo, foram 29 peças; escreveu poesia, ensaios, um romance, contos e mais de 20 roteiros para o cinema, entre eles, para o diretor americano Joseph Losey. Entre esses, inclui-se o roteiro do filme A mulher do tenente francês (1981), baseado na novela homônimo de John Fowles. Printer escreveu também inúmeros trabalhos para a televisão e para o rádio, com numerosas adaptações de suas próprias obras para esses dois meios de comunicação.


Considerado um escritor politicamente comprometido, Harold Pinter escreveu nos últimos anos suas críticas políticas mais ácidas contra a violação dos direitos humanos e contra a guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel parceiro dos Estados Unidos. Do ex- primeiro ministro britânico Tony Blair disse ser ele um “criminoso de guerra”. Uniu-se a banda Blur e ao cineasta Ken Loach (Terra e liberdade) para enviar ao Governo britânico uma carta de oposição à invasão do Iraque em 2003. Sobre os Estados Unidos, disse ser o país dirigido por uma turba de delinqüentes.


Filho de pais judeus, Pinter nasceu do bairro londrino de Hackney. Seus avós exilaram-se no Reino Unido para fugir da perseguição política na Polônia e em Odessa (Ucrânia). Desde muito jovem, interessou-se pela arte de interpretar , ocasião em que também se sentiu atraído pelo ativismo político. Em 1948 alegou conflito de consciência para negar-se a cumprir o serviço militar.


Esse gênio do teatro teve um filho, Daniel, de seu casamento com atriz Vivien Merchant, de quem se divorciou em 1980 para casar-se com Antonia Fraser. Pouco amigo dos eruditos tendentes ao excesso interpretativo de suas obras, Harold Pinter refutou esses arroubos dos críticos literários afirmando que sua vida literária não foi mais que “uma vida de prazer, desafio e entusiasmo”.





REFERÊNCIAS:
Muere el Dramaturgo Harold Pinter a los 78 años. ‘E''LPAÍS.com/EFE’ - Londres - 25/12/2008.
Declaração da morte de Harold Pinter. Antonia Fraser. The Guardian edição eletrônica de 25/12/3008.
Morre de Câncer, Harold Pinter. BBC, edição eletrônica de 25/12/2005.

8 de dez de 2008

SARTRE – PRIMEIRA PARTE

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por Pedro Luso de Carvalho



Depois da publicação de Les Mots (As Palavras), pela Editions Gallimard, em 1964, ficou menos difícil escrever sobre o escritor Jean-Paul Sartre, pelo menos no que diz respeito a fatos biográficos. Nessa obra autobiográfica, Sartre conta como seu pai Jean-Baptiste conheceu Anne-Marie, como morreu, e como sua mãe enfrentou, aos vinte anos de idade, essa situação inesperada, e tendo que manter a si própria e ao filho, este recém saído de uma enfermidade, sem dinheiro e sem profissão:


“Jean-Baptiste quis ingressar na Escola Naval, para ver o mar. Em 1904, em Cherbourg, oficial da marinha e já roído pelas febres da Conchichina, conheceu Anne-Marie Schweitzer, apoderou-se da mocetona desamparada, desposou-a, fez-lhe um filho a galope, eu, e tentou refugiar-se na morte. Morrer não é fácil: a febre intestinal subia sem pressa; houve remissões. Anne-Marie cuidava dele com devotamento, mas sem levar a indecência a ponto de amá-lo (...) Não chegou a conhecer bem meu pai, nem antes nem depois do casamento, e por vezes devia perguntar-se por que aquele estranho optara por morrer entre os seus braços”.


Após a morte de Jean-Baptiste, em 1907, Anne-Marie vendo que não tinha meio pecuniário para manter-se com o filho mudou-se para a casa de seu pai, o austero Charles Schweitzer, em Meudon, perto de Paris. Aí o velho Schweitzer passaria a tratar a filha como a tratava quando criança, exigindo-lhe irrestrita obediência. Sob a rígida autoridade do pai e avô o relacionamento entre mãe e filho mais parecia o de irmãos, já que para o menino a imagem da mãe havia desaparecido. Agora, com o encargo de manter filha e neto, Charles Schweitzer passaria também a deter toda autoridade sobre eles, inclusive na educação do menino.
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Sobre a morte de seu pai, Sartre revela que “A morte de Jean-Baptiste foi o grande acontecimento de minha vida: devolveu minha mãe aos seus grilhões e me deu a liberdade”. E mais esta sentença: “Não há bom pai, é a regra; que não se faça disso agravo aos homens e sim ao laço de paternidade que apodreceu. Fazer filhos, não há coisa melhor; tê-los, que iniqüidade! Houvesse vivido, meu pai ter-se-ia deitado sobre mim com todo o seu comprimento e ter-me-ia esmagado. Por sorte, morreu moço”. Sartre lembra que durante vários anos via no seu quarto o retrato de um pequeno oficial, seu pai, de olhos cândidos, com o crânio redondo e pelado, de grandes bigodes, retrato esse que desapareceu depois que sua mãe casou novamente.


Em Les Mots Jean-Paul Sartre lembraria sua infância: “Eu era uma criança bem comportada. Consinto gentilmente que me ponham as meias, que pinguem gotas no nariz, que me escovem e que me lavem, que me enfeitem e me esfreguem; não sei de coisa mais divertida do que bancar o bem comportado. Nunca choro, quase não rio, não faço barulho...” O menino passava horas no escritório do avô, envolvido com leitura de livros infantis e clássicos da literatura. Mais tarde explicaria que para ele existia unicamente um mundo imaginário, distante, pois, do mundo real.


Em 1911, a família Schweitzer mudou-se para Paris. Em 1917, Anne-Marie casou-se com um engenheiro naval que dirigia os estaleiros La Rochelle; assim o menino deixou Paris para ir morar com a mãe e o padrasto nessa cidade portuária, até o ano de 1924; nesse ano, aos dezenove anos, voltou a Paris para cursar a École Normale Supérieure (Escola Normal Superior), estabelecimento que, além de formar professores secundários, propiciava encontros para discussão filosófica e política. E, foi num desses encontros para debates, que Sartre conheceu Simone de Beauvoir, com quem se identificou, já no primeiro encontro, e disse-lhe: “A partir de agora eu tomo conta de você”. Essa ligação com Simone de Beauvoir, distinta do casamento burguês, seria para a vida inteira.


Nesses encontros, as palestras cingiam-se aos problemas que se relacionavam ao papel do homem e de suas idéias na história, ou da interação da sociedade com o homem, que afligiam e ao mesmo tempo animava a geração do pós-guerra – com os reflexos do primeiro conflito mundial (1914-1918), que gerou na juventude perguntas como: até que ponto o homem pode agir sobre a realidade e influenciar, com o seu pensamento, a marcha da história? Em que medida a realidade segue um caminho independente, esquivando-se ao controle dos indivíduos?


Em 1928, Sartre termina o curso de Filosofia. Nesse ano, prestou o serviço militar em Tours, na função de meteorologista. Retornou a Paris em 1930, de onde sairia para a cidade portuária de Havre, para ensinar Filosofia numa escola secundária, e depois em Laon, no Nordeste da França. Numa de suas voltas a Paris, encontrou-se, num café de Montparnasse, com seu ex-colega da Escola Normal, Raymond Aron, que retornava de Berlim, onde fora estudar a doutrina fenomenologista do filósofo Edmund Husserl (1859-1938). Com eles, encontrava-se Simone de Beauvoir; em suas memórias, La Force de L’Âge (Na Força da Idade), a escritora relata esse encontro:


“Está vendo, meu amigo, afirmava Aron apontando seu copo; "se você é femenologista, pode falar deste coquetel e estará falando de filosofia". Sartre empalideceu de emoção, ou quase: era exatamente o que ambicionava havia anos: falar das coisas tais como as tocava, e que isso fosse filosofia. Aron convenceu-o de que a femenologia atendia exatamente a suas preocupações: ultrapassar a oposição do idealismo e do realismo...” . A oposição era eliminada por Husserl, segundo essa assertiva: “Toda consciência é consciência de alguma coisa”. Para o filósofo alemão, idéias e coisas não podem ser separadas e constituem um único fenômeno.


Depois de ter uma bolsa para estudar um ano em Berlim, em 1933, Sartre estudou, além das teorias de Hussrl, as teorias existencialistas de Heidegger, Karl Jaspers e Max Scheler (1874-1928), que aprofundavam as idéias de Kierkegaard sobre a angústia e o vazio da existência humana. O jovem filósofo Sartre sentia-se inclinado para uma nova filosofia, misto de existencialismo e femenologia. Foi na Alemanha que Sartre exprimiu essa posição no seu romance (não num texto filosófico) Mélancolie (Melancolia), que mais tarde teria outro título: A Náusea.


Os primeiros trabalhos publicados de Sartre sobre Filosofia pura foram: L’Imagination (1939) e L’Imaginaire (1940). Segundo Maurice Cranston: “Sartre deixou-se influenciar por Hussrl e Heidegger, os quais, todavia, não os conheceu – e acrescenta - esses trabalhos devem-se mais a Hussrl, o fenomenologista, do que a Heidegger, o existencialista. Mas na obra filosófica mais substancial de Sartre, L’Être et le Néant (1943), conquanto subintitulada essai d’ontologie phénoménologique, existe mais do gênero de filosofia de Heidegger; e o livro é geralmente visto como um tratado, na realidade como um clássico do existencialismo. O próprio Sartre sempre gostou de ser conhecido como existencialista”.
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Além de ensaios acadêmicos comuns, Sartre voltou-se para outras formas de escrever - até por ser existencialista. Escolheu para isso a ficção. Simone de Beauvoir disse em suas memórias: “só a novela permite ao escritor evocar o jaillissement original da existência”. Talvez tenha sido por isso que Sartre fez seu nome primeiro como ficcionista.


E, com o êxito obtido com seus romances, ter abandonado esse gênero, aos quarenta anos de idade, causou justa surpresa. Sua trajetória na obra de ficção não teve aceitação imediata, mas no ano de 1937, quando, aos trinta e dois anos foi apresentado a Gaston Gallimard, o mais poderoso editor francês, este aceitou o seu primeiro romance, que tinha o título de Melancholia, mas, persuadido por Gallimard, mudou para La Nausée (A Náusea). A essa obra, seguiu-se a publicação de Le Mur (O Muro), pela revista La Nouvelle Revue Française, de um dos redatores de Gallimard.


Nas próximas publicações (subseqüentes) continuaremos falando da obra de ficção de Sartre, de suas peças para o Teatro (que, segundo Maurois, foi onde encarnou suas idéias de maneira mais intensa), e mais: da sua atuação na política, da influência que exerceu sobre a juventude do pós-guerra, de sua recusa em receber o Premio Nobel de Literatura etc. [Para ler o segundo texto sobre Sartre, clique em:
Sartre - Segunda Parte].



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REFERÊNCIAS:
SARTRE, Jean-Paul. As Palavras. Tradução de J. Guinsburg. 6ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
CRANSTON, Maurice. Sartre. Tradução de Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
THODY, Philip. Sartre. Tradução de Paulo Perdigão e Amena Mayall. Rio de Janeiro: Editora Bloch, 1974.
MAUROIS. André. de Gide a Sartre. Tradução de Maria Clara Mariani Lacerda e Fernando Py. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 197?
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