30 de jul. de 2011

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte IV (Final)



                 por  Pedro Luso de Carvalho


        Alberto Moravia foi registrado no cartório civil como Alberto Pincherle. Nasceu Roma, a 28 de novembro de 1907, onde morreu, em 26 de setembro de 1990, aos 83 anos. O seu último romance, 'Il Viaggio a Roma', foi escrito em 1988. Foi um dos maiores escritores do século 20. Além disso, foi um defensor intransigente dos direitos humanos, para cujas lutas estava sempre disposto a enfrentar. Embora fosse um homem público, resguardou com rigor sua privavacidade, à qual poucas pessoas tiveram acesso.  

        Ênio Silveira disse, na apresentação de Il Viaggio a Roma: “Era, como escritor, um dos mais legítimos herdeiros da grande tradição realista, que temperava com os molhos aparentemente antagônicos do marxismo e das teorias freudianas, e também um intelectual militante, sempre disposto a intervir, com grande paixão, nos debates do cotidiano, animado de uma permanente curiosidade cultural que não admitia barreiras nem quaisquer limitações de natureza sectária”.  

        Obras de Moravia, entre outras: [romances]: Os Indiferentes, Agostinho, A Romana, O Conformista, A Ciociara (Duas mulheres), La Mascherata (A Mascarada), Vidas Vazias, O homem que Olha, 1934, Viagem a Roma. [contos]: A Corça e Outros Contos, Contos Romanos, Novos Contos Romanos, Contos Satíticos e Realistas, A Coisa e Outros Contos [livro de viagem]: A quale tribù appartieni?.  

      Em agosto de 1986, o jornal literário LEIA publicou (p.12-13) trechos de uma longa entrevista concedida por Alberto Moravia a Jean Montalbetti e publicada pela revista francesa Magazine Littéraire. Nessa data, a entrevista encontrava-se no prelo para ser publicada na íntegra pela Civilização Brasileira. Segue trechos dessa entrevista:  

Jean Montalbetti - Moravia, com seu último livro, o Homem que Olha, certamente vão dizer: “Eis mais um romance de Moravia sobre sexo!” Não se trata mais de um romance sobre o poder e a dominação?

Moravia - Eu quis fazer o retrato de um homem idoso julgado por um mais jovem. O filho tem a metade da idade do pai. Este é um homem de poder, um grande burguês; o outro está do lado da moral, é um antigo rebelde de 1968. Pode ser que estes sejam dois aspectos diferentes da minha vida. O poder não é somente um poder social, é também um poder sexual. O sexo em meus romances é uma metáfora, não é sexo puro. Eu coloquei, portanto, de um lado a agressão sexual e de outro a moral. É um romance especulativo. Quanto à relação pai-filho, muito comum no romance europeu, apenas a conduzi até o fim, até a competição sexual.

Há entre este pai e filho um problema de herança; não apenas de um apartamento que deveria passar para o filho com a morte de sua mãe, mas a herança de uma concepção de mundo, ao qual o filho ligou-se contra sua vontade.

Moravia – O filho é que se submete. É um intelectual, e são sempre os intelectuais que se submetem. Fracassou, como professor e como marido. Ele não teve êxito em sua contestação porque não acredita mais. Na Itália, a contestação teve duas épocas: uma constestação individual, que dizia respeito aos costumes, e outra que se exprimiu no terrorismo. Eu fui simpático ao primeiro movimento, mas detesto o segundo. Em 68 me senti, pela primeira vez, de acordo com um movimento político. Eu sou um homem de esquerda, mas não posso ser soviético. Senti um ódio feroz contra Stálin, que foi a ruína do socialismo. Fui antifacista toda minha vida, mas, sendo um intelectual, não podia ignorar que as coisas não estavam boas para os intelectuais na URSS.

Entretanto, como deputado no Parlamento em Estrasburgo, você pertence ao grupo comunista na Assembléia Européia. Por quê?

Moravia - Quando das eleições européias, existiam três partidos aos quais eu podia me integrar: o Partido Comunista Italiano, o Partido Socialista e o Partido Radical. Apenas o PCI pediu-me para figurar em sua lista. Mas, você sabe, a Itália é um país hiperindividualista, cada um pode ter sua própria interpretação, tanto no domínio da fé como no da ideologia. Por outro lado, nenhum partido é bom para um intelectual. O artista busca o absoluto, o político procura o relativo.

Como escritor tem a impressão de ter contribuido para a liberação sexual?

Moravia – A liberação sexual foi uma verdadeira revolução, vivida como conquista coletiva. Eu contribuí modestamente para ela. Acredito de fato, que o sexo pode ser uma conquista do ponto de vista do escritor, quando ele escolhe falar sem tabus. Mas a revolução sexual foi, antes de tudo, anônima. Foram as próprias pessoas que descobriram que podiam se interessar pelo sexo sem cair no pecado.

Seu pai foi a pesonalidade dominante em sua família. Você teve com ele teve relações conflituosas?

Moravia – Não, porque havia uma grande diferênça de idade entre nós. Era um homem do século XIX, nascido em 1863. Tinha, portanto, 45 anos mais do que eu. Meu pai era um homem gentil. Dedicava-se à profissão de arquiteto; não se ocupava da casa e muito menos da família. Durante o dia, trabalhava; à noite, ia ao café. Ele morreu aos 82 anos, em 1944, no hospital. Eu tinha então 37. Não estava ao lado dele porque participava da Resistência. Ao contrário, minha mãe é que era a personalidade dominante da família.

Você sempre foi atraído por mulheres com personalidade dominante? Penso principalmente de suas duas primeiras mulheres, Elsa Morante e Dacia Moraini.

Moravia – Não posso viver com uma mulher que não tenha uma originalidade de artista. Eu detesto, em uma mulher, a determinação social. Uma mulher que fosse o espécime de uma classe seria cômica. Ora, o cômico é inimigo do amor. Minha mãe era uma mulher de pequena nobreza da província, quase uma camponesa, simples, com paixões fortes. Ela estava fora das classes. Casou-se em 1903 porque era a regra, mas ela era muito bovarista. Quanto a mim, é sobretudo o fato de ser um artista que influenciou meu gosto pelas mulheres originais. A civilização é masculina. O homem é perfeitamente integrado. A mulher é historicamente marginal. Tem um pé na sociedade e um pé fora. Ainda faz parte de um universo que é o da natureza. Mesmo hoje, na Itália, ela está apenas semi-integrada. É justamente isto que me interessa em uma mulher.

Ao longo de seu último livro, um tema obsessivo se exprime sob a forma de uma angústia existencial: o da bomba, do cogumelo atômico atrás da cúpula da catedral de São Pedro. Esta é uma grande preocupação sua. Você chegou, inclusive, a desenvolver uma pesquisa, em vários países sobre a ameaça nuclear.

Moravia – Eu sou mais que um pacifista. Sou zoólogo. Interessa-me a salvação da espécie. É por isso que, como deputado europeu, encarreguei-me deste programa antiluclear. Dirigi uma pesquisa no Japão, na Alemanha, na URSS. Interroguei intelectuais, bonzos, militares, políticos. O pessimismo é geral. A espécie humana pode ser aniquilada. Entre os EUA ea URSS existe um estoque de 50 mil bombas. Ora, é suficiente 20% deste potencial para destruir o mundo. As classes dirigentes não sabem o que fazer. O único meio de evitar a guerra é as massas estarem conscientes do perigo. Ora, atualmente, as massas são ignorantes e fatalistas.

A tentatação da morte, você afirma, existe como uma necessidade de vitalidade. Mas para o escritor tudo já estava escrito: o inverno nuclear está no Apocalipse.

Moravia – Eu não gosto do Apocalipse. É o devaneio de uma minoria impotente diante de um mundo antigo. Não aprecio as imagens do Apocalipse porque elas são barrocas. Mas esta imagística barroca exprime uma situação muito real: é uma visão catastrófica sobre o mundo pagão que ele se apressa em conquistar.

Em seu último livro, você trata em diversos momentos, do voyeur. Às vezes dá a impressão de que para você o voyeur é, por excelência, o romancista.

Moravia – O voyeur, sim, é o romancista. E nos dá a visão do buraco da fechadura, do que poderia ser visto de outra forma. Um tipo que era terrivelmente voyeur é Dostoiévski. Ele nos faz assistir à confissão de assassinato de Raskolnikov para Sonia, por intermédio de Svidrigailov, que observa toda a cena através do buraco da fechadura. Da mesma forma, encontramos em Heródoto, o caso mais perfeito de voyeurismo: o rei observa seu cortesão, que observa a rainha. Robbe-Grillet também utilizou o tema do voyeur . Há aí toda uma teoria literária (...).

Mudando de assunto, você pode nos dizer como vive sua velhice?

Moravia – Aos 78 anos, penso que a velhice é uma decadência física. O que me abalou muito é não poder andar mais como antes, quando percorria vários quilômetros. Meus contemporâneos estão mortos. Meus amigos são todos muito mais jovens do que eu – têm entre 30 e 40 anos. Eu não sou um homem que gosta de ter um cortejo em torno de si, como foi o caso de Visconti. Meus amigos me interessam dentro de uma relação paritária. Era, por exemplo, muito ligado a Pasolini, que tinha 55 anos em 1975, quando foi assassinado. Era quase um irmão para mim. Nós tínhamos viajado juntos pela África, Marrocos, Índia. Vivi sua morte como uma catástrofe pessoal. Mas não renuncio. Vivo mais ou menos como vivia quando tinha 20 anos. Casei com Elsa Morante, vivi 20 anos com Dacia Moraini. Acabo de tornar a me casar aos 78 anos. Eu detesto o passado, eu detesto o que não é o presente ou o futuro. Estou para escrever um novo livro cujo título provisório é Mãe, Esposa, Filha.

A mulher permanece para você o modelo de observação por excelência?

Moravia - Eu não nego que tenha um interesse particular pelas mulheres. Elas são a metade da humanidade.




18 de jul. de 2011

JOÃO CABRAL DE MELO NETO – A Mulher do Hotel





                     por  Pedro Luso de Carvalho


         
       Entrevistado por uma revista brasileira, há muito tempo, João Cabral de Melo Neto disse, entre outras coisas, que não acreditava em inspiração para escrever poemas; para ele, essa é uma tarefa que exige método e dedicação. Foi nessa entrevista que o poeta pernambucano disse – não sei se pela primeira vez – que escrevia poesia com cinco por cento de inspiração e noventa e cinco por cento de transpiração. 

        Não é por outro motivo que os críticos e os escritores de 1945 combateram a sua poesia, quer pelo rigor de sua construção, quer pela secura de sua linguagem, que ficava muito distante dos poemas inspirados da época. João Cabral era para eles um poeta racional e sem coração. Não é por outro motivo que é tido por poeta engenheiro.

        Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 1968, João Cabral respondeu a uma pergunta feita justamente sobre inspiração; eis a resposta do poeta:

        Inspiração não tenho nunca. Aliás, como diz Auden, a poesia procura a gente até os 25 anos. Depois, é a gente que tem de procurá-la, inspirá-la. Confesso que desde o início construí minha poesia. Rendimento é uma questão de trabalho e método. De sentar todos os dias à mesma hora. O rendimento dos primeiros dias pode ser menor, mas depois se torna regular.

        Em 1958 a José Olympio Editora publicou o livro de João Cabral de Melo Neto intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos). Esse volume encerrou as obras publicadas em Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, 1954, e estes outros livros: Morte e Severina, Paisagens com Figuras, Uma Faca só Lâmina.

         Os Poemas Reunidos citados compreendiam: Pedra do Sono, Recife, 1942; Os três Mal-Amados, 1943; O Engenheiro, Rio, 1945; Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, Barcelona, 1947, e O Cão sem Plumas, Barcelona, 1950. Esses livros - editados no volume intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos) - sofreram algumas modificações, que o poeta considerou-os definitivos. 
       
        Para a edição neste espaço, escolhemos o poema de João Cabral, A Mulher do Hotel, que integra o livro Duas Águas  (Poemas Reunidos):

                    


                      A MULHER DO HOTEL




        A mulher que eu não sabia
        (rosas nas mãos que eu não via,
        olhos, braços, boca, seios)
        deita comigo nas nuvens.
        Nos seus ombros correm ventos,
        crescem ervas no seu leito,
        vejo gente no deserto
        onde eu sonhara morrer.
        Terei de engolir a poeira
        que seus cabelos levantam
        e pousa na minha alma
        me dando um gosto de inferno?
        Terei de esmagar as crianças?
        Pisar nas flores crescendo?
        Terei de arrasar as cidades
        sob seu corpo bulindo?
        Hei de achar um cemitério
        onde em seu pé plantarei.
        Vou cuspir nos olhos brancos
        desta mulher que não sei.



                                                                    (João Cabral de Melo Neto)



REFERÊNCIAS:
ATHAYDE, Félix de. Idéias fixas de João Cabral de Melo Neto. 4ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: FBN; Mogi das Cruzes, SP: Universidade de Mogi das Cruzes, 1998, p. 48.
DE MELO NETO, João Cabral. Duas águas. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, p. 161.



8 de jul. de 2011

ALDOUS HUXLEY – Arte e Intelecto

Aldous Huxley





                por Pedro Luso de Carvalho



        Aldous Huxley nasceu a 26 de julho de 1894, em Godalming, Surrey, Inglaterra. A sua descendência contribuiu, sem dúvida, para que não tivesse muitos percalços na sua caminhada, já que descendia de duas das mais eminentes famílias vitorianas. Também a genética viria contribuir para que Huxley se tornasse um dos escritores mais importantes do século XX: herdou de seu avô, T. H. Huxley, a ciência, e de seu tio-avô, Matthew Arnold, as letras.

        Por outro lado, a sua saúde não lhe dava muita margem para dela vangloriar-se. Foi acometido de uma doença nos olhos, ceratite, que o deixou quase cego. Estudou no Eton College e no Balliol College. A falta de visão não lhe permitiu concluir os seus estudos. Retomou-os após alguns anos; munido de óculos, com grossas lentes, ingressou na prestigiada Universidade de Oxford, onde conluiu a faculdade de literatura inglesa.

        Um passo importante na vida de Huxley deu-se em 1919, quando se associou com J. Middleton Murry, editor da Athenaeum . E foi justamente nessa época que começou a escrever versos, ensaios e trabalhos históricos. Tais gêneros nunca seriam abandonados pelo escritor. A partir de 1920, a sátira social viria constituir-se em nota especial, e quase sempre presente em sua obra.

      Em 1937 Aldous Huxley mudou-se para os Estados Unidos, onde fixou residência em Los Angeles, Califonia, num subúrbio chamado Hollywooland. Aí dedicou-se a escrever mais sobre filosofia, história e misticismo, e menos romances. Escolheu Los Angeles para viver, e aí iria morrer.

       Com o seu livro Admirável Mundo Novo (Brave new world), editado nos Estados Unidos em 1932, Huxley ganhou a simpatia de muitos leitores jovens; por muito tempo constituiu-se na leitura favorita dos universitários intrangigentemente agnósticos, que nunca se preocuparam em ler nenhum outro romance do autor, como disse Jacqueline Hazard Bridgeman, no prefácio que escreveu para o livro de ensaios de Aldous Huxley, intitulado Huxley e Deus.
Jachie H. Bridgeman

       Jacqueline Hazard Bridgeman escreveu nessse prefácio (trecho): “Nos seus romances e ensaios dos anos 20, Huxley era sarcásticamente cético, descrente da religião e do recolhimento em que viviam fiéis devotos. Seus deuses eram vida, amor e sexo. Desdenhava a religião que negasse essa trilogia. Abominava as colocações de Swift, Pascal, Baudelaire e mesmo São francisco de assis! De acordo com Huxley, eles eram pessoas que odiavam a vida”. [É oportuno dizer que o escritor teve dois casamentos.]

       Bridgeman diz, também, que “Os primeiros mentores de Huxley foram os apaixonados amantes da vida - Robert Burns, D. H. Lawrence e William Blake. Usando suas palavras, ele era um adorador da vida. O seu Deus era o Deus da Vida. Ele acreditava na diversidade do ser humano; todos os desejos satisfeitos, mas temperados pela razão. A moderação pregada por Aristóteles. A filosofia da justa moderação era, como Huxley escreveu, uma questão de equilíbrio dos excessos balanceados.” 

     Místico - diz Bridgeman -, Huxley tornou-se devoto de Prabhavananda, monge da ordem de Ramakrishma, da Índia. Depois que o autor começou a fazer uso de mescalina e de LSD, viu-se obrigado a afastar-se da ordem, porque Prabhavananda não admitia o uso de drogas como atalho para aguçar a percepção espiritual. Prabhavananda dizia que “se o indivíduo se torna tolo quando entra no estado visionário induzido, permanece tolo quando retorna à consciência normal”. Huxley escreveu sobre a mescalina, As portas da percepção (The Doors of Perception), em 1954, que se tornou leitura obrigatória para a cultura emergente hippie e psicodélica dos anos 60. 

       Depois dessa experiência com Prabhavananda, Huxley foi atraído por Krishnamurt, mais próximo do Zem do que do Vedanta. Antes de ter se aproximado de Prabhavananda, Huxley havia pertencido à Sociedade Vedanta, da qual se afastou, mas continou a escrever seus ensaios para a revista.

       Huston Smith, professor de religião e de filosofia da Universidade de Siracusa e da Universidade de Berkeley, USA, conheceu Aldous Huxley quando tinha 28 anos. Quando Huxley morreu, disse Smith: “o mundo perdeu uma inteligência excepcionalmente criativa. Mais concretamente, perdeu uma mente enciclopédica. Quando um importante jornal concluiu que a décima quarta edição da Enciclopédia Britânica devia sofrer uma revisão, ninguém ficou surpreso quando pediram a Huxley que o fizesse”.

        O professor Huston Smith realça ainda importantes traços do caráter de Aldous Huxley e seu interesse pela religião: “Mais marcante do que o nível de sua mente, entretanto, eram sua simpatia e interesse. Poucas notáveis inteligências, desde Williams James, foram tão abertas. O respeito de Huxley pelo misticismo era conhecido à força de ser quase notório. O que alguns deixaram de perceber foi o seu igual interesse pelo mundo cotidiano e suas exigências: paz, explosão populacional e conservação de nossas reservas naturais”. (Huxley escreveu a respeito dos horrores da guerra nuclear, O macaco e a essência (Ape and Essence), em 1948).

        Malcolm Cowley, responsável pelo prefácio para The Paris Review, deu sua impressão sobre Aldous Huxley: “Nas maneiras e no falar, é muito gentil. Onde se poderia esperar encontrar o satírico mordaz ou o vago místico, a gente, em lugar disso, se impressiona, de um lado, ao ver quão tranquilo e delicado é ele e, de outro, como é sensível e voltado para a terra. Suas maneiras refletem-se em seu rosto magro, cinéreo, emaciado: ele é atencioso, reflexivo e, quase sempre, sério. Ouve, pacientemente, enquanto os outros falam e, então, responde com deliberação”.
Henry James

        Nessa entrevista que concedeu à The Pais Review, Huxley falou, entre outras coisas, de religião, do método que usa para escrever seus romances, de suas obras, de crítica, de escritores e de como eles escrevem. 

        O entrevistador perguntou a Huxley se é um romancista nato, ele responde que não. “Tenho grande dificuldade, por exemplo, em inverter enredos. Certas pessoas nascem com um dom surpreendente para contar histórias; é um dom que jamais possuí. (...) A grande dificuldade, para mim, foi sempre criar situações”. Nessa altura da entrevista, Huxley enaltece Alexandre Dumas: “Santo Deus, como é bom o Conde de Monte Cristo".  
    
        Huxley dá realce ao talento de Dumas para contar histórias, mas, para ele, “isso não constitui a última palavra. Quando se encontra um narrador que executa – diz -, ao mesmo tempo, uma espécie de significado que se assemelha a uma parábola (como se tem, por exemplo, em Dostoiévski ou no melhor de Tolstói), isso é algo extraordinário, julgo eu. Fico sempre pasmo quando releio algumas das coisas curtas de Tolstói, como A Morte de Ivan Ilyich. Que espantoso trabalho é esse! Ou algumas das narrativas breves de Dostoiévski, como, por exemplo, as Notas do Subterrâneo”. 

       Ainda falando à revista The Paris Review sobre os escritores que foram importantes para ele, Huxley disse que quando era estudante lia os romancista franceses, dando destaque para Anatole France, que o considerava antiquado (na época da entrevista), e que não o lia há mais de 40 anos. Disse também lembrar-se de ter lido “o primeiro volume de Proust em 1915, e de ter ficado muito impressionado por ele. Relio-o, não faz muito, e senti-me curiosamente decepcionado”.

       Huxley disse também ter lido Gide naquela época. O entrevistador então pergunta-lhe se sofreu influência de Gide e de Proust, e o escritor respondeu: “Suponho que alguns de meus primeiros romances sejam vagamente proustianos. Não creio que jamais torne a fazer experimentos (...)”. 
Virginia Woolf

        A The Paris Review perguntou a Huxley se ele havia sido muito influenciado por Joyce; e esta foi sua resposta: “Não... jamais o fui muito. Jamais obtive muita coisa com a leitura de Ulisses. Penso que é um livro extraordinário, mas parte muito grande do mesmo consiste em demonstrações um tanto extensas de como não se deve escrever um romance.

        O entrevistador perguntou a opinião de Huxley sobre os escritos de Virginia Woolf, e o escritor disse-lhe que “Suas obras são bastante estranhas. São belas, não são? Ela vê com incrível clareza, mas sempre como se o fizesse através de um anteparo de vidro; jamais toca em coisa alguma. Seus livros não são diretos. São bastante intrincados para mim”.

        A o entrevistador da revista (The Paris Review) quis saber ainda o que o escritor pensa sobre Henry James. Huxley deu sua opinião de forma bastante sucinta: “James deixa-me bastante frio. É evidentemente, um romancista admirável”. 

        Além de romances, Aldous Huxley escreveu poesia, teatro, ensaios, livros de viagem, biografia e história. Dentre suas principais obras, destam-se: 

        ROMANCES: Crome Yellou, 1921; Geração devassa (Antic Way), 1923; Folhas inúteis (Those Barren Leaves), 1925; Contraponto (Point Counter Point), 1928; Admirável mundo novo (Brave New World), 1932; Sem olhos em Gaza (Eyeless in Gaza), 1936; Também o cisne morre (After Many a Summer Dies the Swan), 1939; O macaco e a essência (Ape and Essence), 1948; O gênio e a deusa (The genius and the goddess), 1955; A ilha ( Island), 1962; 

       NÃO-FICÇÃO: Os demônios de Loudum (The demons of Loudum), 1952; As portas da percepção (The Doors of Perception), 1954; Céu e inferno (Heaven and hell ), 1956.

       Aldous Huxley morreu no dia 22 de novembro de 1963, aos 69 anos, em Los Angeles, EUA. No seu leito de morte, a mulher do escritor atendeu ao seu pedido, aplicando-lhe doses de LSD. Nesse mesmo dia ocorreram duas coincidências, o assassinato de John F. Kennedy e a morte do escritor irlandês C. S. Lewis. 




REFERÊNCIAS:
HUXLEY, Aldous. Huxley e Deus. Tradução de Murilo Nunes de Azevedo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 7-10; 12-13.
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1982, p. 212- 213; 226-228.