
– PEDRO LUSO DE CARVALHO
A jornalista brasileira, Denira Rosário, autora do livro "Palavra de Poeta – Portugal", entrevistou na cidade do Porto, Portugal, o poeta Egito Gonçalves, no ano de 1990. Nessa entrevista, o poeta diz que nasceu no ano de 1920, numa vila que foi centro de uma grande indústria de sardinha em conserva; e que seus pais eram de origem camponesa do minifúndio transmontano, e que, assim, teve um ambiente familiar esse componente rural e o citadino marítimo, mistura essa que, no seu entender, foi muito importante para sua vida.
A jornalista brasileira, Denira Rosário, autora do livro "Palavra de Poeta – Portugal", entrevistou na cidade do Porto, Portugal, o poeta Egito Gonçalves, no ano de 1990. Nessa entrevista, o poeta diz que nasceu no ano de 1920, numa vila que foi centro de uma grande indústria de sardinha em conserva; e que seus pais eram de origem camponesa do minifúndio transmontano, e que, assim, teve um ambiente familiar esse componente rural e o citadino marítimo, mistura essa que, no seu entender, foi muito importante para sua vida.
Denira Rozário diz que Egito Gonçalves fala com naturalidade de sua família e de sua formação, como neste trecho: “Pobre, sem grande cultura, temente a Deus, mas indiferente à prática religiosa. As minhas relações com meu pai foram más – era um homem com alguns traumas. Com o resto da família as relações foram boas. Mas era gente que não exteriorizava muito a ternura, do que resultou uma infância seca e carente, sem deixar marcas de amargura mas também não produziu alegria. É um período que não se esvaziou, a memória encarregou-se de relegar”.
Sobre a sua formação e autores que leu, diz Egito: “Freqüentei um curso técnico, que não terminei pois não levaria nenhum proveito para a literatura. Ninguém me orientou leituras; sempre li muito, tudo o que me vinha à mão; Victor Hugo, Emilio Salgari, Julio Verne, Eça de Queirós, foram certamente os primeiros autores que li. Quanto aos poetas, quase nada. Poemas avulsos de Guerra Junqueiro, Florbela Espanca, Antero e outros.
O poeta Egito fala a Denira sobre sua chegada à Ilha de São Miguel, Açores: “Ali fiz amigos cultos, com bibliotecas ótimas e atualizadas. A aprendizagem da escrita foi lenta, passando por numerosos autores; o segundo livro de poemas que li foi A Viagem, de Cecília Meireles, depois Drummond, Bandeira, mas penso que nenhum me influenciou profundamente: de todos tirei alguma coisa para conseguir encontrar-me. Em Drummond descobri que a ironia era possível e permitiu a liberdade a essa minha tendência”.
Mais adiante, a entrevistadora Denira Rosário indaga sobre a militância política. Egito Gonçalves passa a falar sobre a luta política contra o fascismo e a violência da Guerra de Espanha, bem como as suas conseqüências e as preocupações sociais, que, como diz, “não se compadeciam com a arte pela arte, com a pura especulação estética”. Egito se refere a essa especulação estética, a arte pela arte, como 'torre de marfim', que acabou sendo substituída pelo humanismo, que, para ele, constituiu-se em “momento importante de uma consciência intelectual necessária. Mas nunca me considerei participante e muito menos militante de qualquer movimento - conclui”.

Como é longa a entrevista concedida pelo poeta à Denira, vamos ficar com mais este pequeno trecho, no qual é perguntado se ele escreve muito. “Escreve muito? - pergunta Denira -Muito pouco - responde: a safra de cada ano não ultrapassa a dúzia de poemas. Mas a quantidade nunca me preocupou. A qualidade, sim. Atingir um determinado nível estético e sobretudo não me transformar num 'moinhos de oração', num poeta que escreve – e publica – regularmente, repetindo-se a si mesmo, transformando a poesia numa fórmula.”
Egito Gonçalves passou a viver na cidade do Porto desde 1948, aí residindo até a sua morte, em 2001. Seu nome completo era José Egito de Oliveira Gonçalves. Exerceu ao longo de sua vida atividades diversas. Publicou seus primeiros livros em 1950. Em 1951 fundou a revista A Serpente (1951), tendo depois participado na fundação e direção de outras revistas literárias: a Árvore (1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68), e Limiar (de que saiu o primeiro número em 1992). Foi escritor e tradutor.
Ao poeta Egito Gonçalves foram concedidos os seguintes prêmios: Prêmio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa pela seleção de Poemas da Resistência Chilena (1977); Prêmio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros (1985); e, mais: Prêmio de Poesia do Pen Clube, o Prêmio Eça de Queirós e o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro E No Entanto Move-se' (1995). Sua obra encontra-se traduzida para o espanhol, francês, búlgaro, polonês, turco, romeno e catalão. Egito Gonçalves (José Egito de Oliveira Gonçalves) faleceu na cidade do Porto, Portugal, em 29 de Janeiro de 2001.
Sobre a sua formação e autores que leu, diz Egito: “Freqüentei um curso técnico, que não terminei pois não levaria nenhum proveito para a literatura. Ninguém me orientou leituras; sempre li muito, tudo o que me vinha à mão; Victor Hugo, Emilio Salgari, Julio Verne, Eça de Queirós, foram certamente os primeiros autores que li. Quanto aos poetas, quase nada. Poemas avulsos de Guerra Junqueiro, Florbela Espanca, Antero e outros.
O poeta Egito fala a Denira sobre sua chegada à Ilha de São Miguel, Açores: “Ali fiz amigos cultos, com bibliotecas ótimas e atualizadas. A aprendizagem da escrita foi lenta, passando por numerosos autores; o segundo livro de poemas que li foi A Viagem, de Cecília Meireles, depois Drummond, Bandeira, mas penso que nenhum me influenciou profundamente: de todos tirei alguma coisa para conseguir encontrar-me. Em Drummond descobri que a ironia era possível e permitiu a liberdade a essa minha tendência”.
Mais adiante, a entrevistadora Denira Rosário indaga sobre a militância política. Egito Gonçalves passa a falar sobre a luta política contra o fascismo e a violência da Guerra de Espanha, bem como as suas conseqüências e as preocupações sociais, que, como diz, “não se compadeciam com a arte pela arte, com a pura especulação estética”. Egito se refere a essa especulação estética, a arte pela arte, como 'torre de marfim', que acabou sendo substituída pelo humanismo, que, para ele, constituiu-se em “momento importante de uma consciência intelectual necessária. Mas nunca me considerei participante e muito menos militante de qualquer movimento - conclui”.

Como é longa a entrevista concedida pelo poeta à Denira, vamos ficar com mais este pequeno trecho, no qual é perguntado se ele escreve muito. “Escreve muito? - pergunta Denira -Muito pouco - responde: a safra de cada ano não ultrapassa a dúzia de poemas. Mas a quantidade nunca me preocupou. A qualidade, sim. Atingir um determinado nível estético e sobretudo não me transformar num 'moinhos de oração', num poeta que escreve – e publica – regularmente, repetindo-se a si mesmo, transformando a poesia numa fórmula.”
Egito Gonçalves passou a viver na cidade do Porto desde 1948, aí residindo até a sua morte, em 2001. Seu nome completo era José Egito de Oliveira Gonçalves. Exerceu ao longo de sua vida atividades diversas. Publicou seus primeiros livros em 1950. Em 1951 fundou a revista A Serpente (1951), tendo depois participado na fundação e direção de outras revistas literárias: a Árvore (1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68), e Limiar (de que saiu o primeiro número em 1992). Foi escritor e tradutor.
Ao poeta Egito Gonçalves foram concedidos os seguintes prêmios: Prêmio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa pela seleção de Poemas da Resistência Chilena (1977); Prêmio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros (1985); e, mais: Prêmio de Poesia do Pen Clube, o Prêmio Eça de Queirós e o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro E No Entanto Move-se' (1995). Sua obra encontra-se traduzida para o espanhol, francês, búlgaro, polonês, turco, romeno e catalão. Egito Gonçalves (José Egito de Oliveira Gonçalves) faleceu na cidade do Porto, Portugal, em 29 de Janeiro de 2001.
[ESPAÇO DA POESIA]
PEDRA DE FECHO
(Egito Gonçalves)
(Egito Gonçalves)
Sobre o presente escrevo. Raspo
a caliça do invólucro, tento
atingir o cerne emparedado.
Sobe até mim a esperança de supor
que serei ininteligível
aos leitores do futuro.
Penso que acreditarão mórbida
a minha "fantasia". Não poderão
entender este gosto de saliva
e veneno; esta floração
de artérias abertas sob a raiva.
Pensarão: "Que pavores o povoaram"?
Como acreditar na falta de saúde
do tempo que descreve? Aceitaremos
este emissário da dor, este vazio
febril das mãos que estende?
Entre o papel e a luz escrevo
das moedas do agora. Pressagio
que não entenderão, que não serão
raros braços a arder os clarões na noite.
a caliça do invólucro, tento
atingir o cerne emparedado.
Sobe até mim a esperança de supor
que serei ininteligível
aos leitores do futuro.
Penso que acreditarão mórbida
a minha "fantasia". Não poderão
entender este gosto de saliva
e veneno; esta floração
de artérias abertas sob a raiva.
Pensarão: "Que pavores o povoaram"?
Como acreditar na falta de saúde
do tempo que descreve? Aceitaremos
este emissário da dor, este vazio
febril das mãos que estende?
Entre o papel e a luz escrevo
das moedas do agora. Pressagio
que não entenderão, que não serão
raros braços a arder os clarões na noite.
REFERÊNCIAS:
ROZÁRIO, Denira. Palavra de Poeta – Portugal. Introdução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1994.
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