30 de ago. de 2013

[Cartas] MÁRIO DE ANDRADE – Fernando Sabino




[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


A correspondência havida entre os escritores e amigos foi de grande importância para Mário de Andrade, como diz Moacir Werneck de Castro, na apresentação que faz do livro Mário de Andrade, Cartas a Murilo Miranda, publicado pela Editora Nova Fronteira em 1981:

A correspondência é parte essencial da obra de Mário de Andrade. Não apenas porque a explique e ilumine com revelações biográficas, mas pela riqueza que encerra de ideias, elaborações estéticas, projetos participantes, lampejos e intimidades do pensamento em transe de um homem que foi uma das expressões mais altas e completas da cultura brasileira. As cartas a Manoel Bandeira, Paulo Duarte, Rubens Borba de Moraes, Rodrigo M.F. de Andrade e Fernando Sabino, já publicadas, além de outras que saíram esparsas, dão a medida da importância desse acervo. Só isso bastaria para justificar a publicação das cartas a Murilo Miranda reunidas neste volume.

Não será desta vez, no entanto, que farei menção e transcrição de uma dessas cartas trocadas entre Mário e Murilo. Hoje me ocuparei de uma das cartas escrita por Mario de Andrade a Fernando sabino, que integra o livro Cartas a um Jovem Escritor. Remetente: Mário de Andrade. Destinatário: Fernando Sabino, publicado em 1993 pela Record, 3ª ed., que traz a seguinte nota: “As cartas de Mário de Andrade foram transcritas na íntegra, respeitadas a pontuação e a grafia característica de certas palavras. Apenas a acentuação foi atualizada”.

Na época em que se iniciou essa correspondência entre Mário de Andrade, escritor de grande prestígio, e Fernando Sabino, que era ainda muito jovem (18 anos), morava Belo Horizonte e estava no início de sua carreira literária. E foi justamente pela diferença de idade existente entre eles, e pela diferença de experiência literária havida entre os dois escritores – Sabino iniciando-se na literatura e Mário com grande prestígio literário –, que me vi motivado a fazer esta abordagem, esperando que os conselhos de Mário de Andrade a Fernando Sabino possam ser de alguma utilidade para os jovens escritores de hoje.

Então, passo a transcrever a carta de Mário (a segunda carta endereçada a Sabido), escrita em 25.01.1942 – a primeira foi enviada a Sabino quinze dias antes desta – e, por ser uma carta extensa, transcrevo apenas os trechos que considero  mais importantes (in Andrade, Mário. Cartas a um Jovem Escritor. Remetente: Mário de Andrade. Destinatário: Fernando Sabino. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1993):

S. Paulo, 25-1-42

Fernando Sabino:

Recebi sua carta e refleti sobre ela. A conclusão mais séria pra mim é a seguinte: Vejo que estamos os dois na iminência de iniciar uma correspondência longa e nutrida. Pra você, moço, cheio de vida e ainda “não consagrado”, ansioso de saber, isso não vai ser difícil. Pra mim vai. Seria estúpido eu não saber que sou “consagrado”. Só os esforços, os esperneios, os papelões que faço pra não virar medalhão duma vez, você nem imagina. Sucede pois, é natural, que tenho muitíssimo trabalho e também uma correspondência enorme .

(...) Mas antes exijo que você pense muito seriamente sobre você. Tanto mais que, pelo que seu livro indica como tendências pessoais, o seu caminho na arte é pesado, muito árduo e sem brilho. Você não irá estourar por aí, ganhando a batalha de um golpe só, como um Lins do Rego, uma Raquel de Queiroz. (...) Você irá escrevendo, irá escrevendo, se aperfeiçoando, progredindo aos poucos: um belo dia (si você aguentar o tranco) os outros percebem que existe um grande escritor.

(...) Ora, Fernando, pra aguentar com um destino desses, antes de mais nada, é preciso ter uma ambição enorme, uma paciência enraivecida, um desejo de se “vingar” da vida, e uma ensolarada saúde mental. Você tem isso? Não seja tímido nem humilde não, que então é fracasso na certa. Não tenha vergonha de se confessar a si mesmo (não a mim) que você tem ótimas qualidades, é muito inteligente, é orgulhoso de si, tem desprezo pela frouxidão alheia e quer chegar e há-de chegar.

(...) O prosador lida com a inteligência lógica, está no plano do consciente, das relações de causa e efeito. O seu discurso tem cabeça, tronco e membros, princípio-meio-e-fim, embora pouco importe que muitas vezes o assunto exija que o fim esteja no princípio, e o princípio no meio. Não tem disposição? Não se trata de ter disposição: você é um operário como qualquer outro: se trata de ter horas de trabalho. Então, vá escrevendo, vá trabalhando sem disposição mesmo. A coisa principia difícil, você hesita, escreve besteira, não faz mal. De repente você percebe que, correntemente ou penosamente (isto depende da pessoa) você está dizendo coisas acertadas, inventando belezas, forças, etc. Depois, então, no trabalho de polimento, você cortará o que não presta, descobrirá coisas pra encher os vazios, etc. etc.

(...) Sei que sou o animador mais... desanimador que existe. Mas é que sempre a convicção (e exemplos) que os bons aguentam o tranco, dão por paus e por pedras, mas vão pra diante de qualquer maneira. Com um abraço do
Mário de Andrade.

A amizade desses dois escritores (e correspondência) durou por muitos anos, até a morte de Mário de Andrade, no ano de 1945. E, pelo excepcional escritor que se tornou tudo nos leva a crer que Fernando Sabino seguiu à risca os conselhos do mestre.



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24 de ago. de 2013

ANDRÉ MAUROIS – Sobre Machado de Assis


[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]

ANDRÉ MAUROIS, foi o nome pelo qual se tornou conhecido Émile Herzog, nascido em a 26 de julho de 1885, em Elbeuf, uma comuna no Seine-Maritime, ao norte da França, de uma família de industriais emigrados da Alsácia. Era filho de Ernest Herzog  e de Alice Lévy-Rueff Herzog.

Maurois foi autor de estudos profundos sobre a Inglaterra e sobre ingleses: Os silêncios do coronel Bramble, Disraeli, Byron. Autor de romances: Climats e Cercle de famille. Escreveu ensaios, estudos históricos e biografias literárias. Tornou-se célebre com as biografias: A la recherche de Marcel Poust, Lélia, Trois Dumas, Ariel ou a vida de Shelley, Olímpio ou a vida de Victor Hugo, Prometeu ou a vida de Balzac. Obteve grande êxito com a sua trilogia De Proust a Camus, De Gide a Sartre, De Aragon a Montherlant.

André Maurois também foi respeitado educador e um dos grandes humanistas do Século XX. Em 1938, foi eleito para assumir uma cadeira na Academia Francesa. Faleceu a 9 de outubro de 1967, em Nevilly, França.

Segue trecho do livro Diário de uma viagem pela América Latina, de André Maurois, no qual o escritor francês faz menção à visita que fez num domingo, do ano de 1949, no Rio de Janeiro, acompanhado pelo poeta Frederico Schmidt, à casa de Luísa Miguel Pereira, biógrafa do nosso escritor maior, Machado de Assis (In Maurois, André. Diário de uma viagem pela América Latina. Tradução de Sieni Maria Campos. Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 31-33):



FALA SOBRE MACHADO DE ASSIS
[ ANDRÉ MAUROIS ]



Falamos de Machado de Assis – diz André Maurois –, surpreendente personagem, negro que foi o maior escritor do Brasil, fundador (há mais de cinquenta anos) da Academia Brasileira de Letras, discípulo de Sterne, humorista e estilista, funcionário público conformista e filósofo pessimista. O preconceito de cor aqui é tanto menos forte que muitos dos negros do Brasil chegavam das regiões mulçumanas da África e traziam uma sólida civilização.

         A família de Machado de Assis era pobre. Criança, por volta de 1850, entrou em contato com um padeiro francês, M. Gallor, cuja família ensinou-lhe francês. Logo dominou nossa língua – prossegue Maurois – e se tronou admirador de nossos escritores, de Lamartine em particular. Operário gráfico, depois revisor, escreveu versos, fez jornalismo e, aos vinte e dois anos, publicou seu primeiro livro. De suas obras – diz Maurois –, só li uma: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ele me fez pensar tanto em Sterne como em Anatole France, pela mistura de desespero, ironia e piedade.

Luísa Pereira – diz Maurois – me mostra um retrato de Machado de Assis. Barba cortada como a de Loubert, longos bigodes, olhos doces e tristes, monóculo. Tem ar de professor da Sobborne do Século XX. “Ele detestava a espécie e amava o indivíduo”, diz Luísa Pereira. Simétrico de Woodrow Wilson, que amava a humanidade e detestava os homens.



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REFERÊNCIAS:
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24º tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.
MAUROIS, André. Diário de uma viagem pela América Latina. Tradução de Sieni Maria Campos. Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 31-33.



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14 de ago. de 2013

RAINER MARIA RILKE – O poeta e a religião


                  
                        [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


RAINER MARIA RILKE nasce em Praga, quando esta integra o Império Austro-Húngaro, a 4 de dezembro de 1875. No cartório de registro civil foi averbado o  nome de René Karl Wilhelm Josef Maria Rilke. O prenome René foi mudado anos mais tarde para Rainer.

Até aos cinco anos de idade, a mãe de René impõe ao menino uma educação de menina. Esse foi o meio encontrado por ela para aplacar a dor da perda da filha recém-nascida. Tal distorção na educação do filho não impede que ele se torne um dos mais importantes escritores de língua alemã, tanto em prosa como em poesia.

O caminho que Rilke percorre até ser reconhecido como expressivo escritor impõe-lhe determinação para vencer os seus inúmeros obstáculos. Um fato de grande significado, a religiosidade que a mãe Sophie impõe a ele desde a mais tenra idade, deixa para sempre sua marca. Religiosa fanática, Sophie educa o filho de acordo com os ensinamentos da Igreja Católica.

Rilke tem uma infância infeliz. Sofre com a separação dos pais, cujo casamento não pode ser sustentado pelo desnível sociocultural do casal. Sophie Entz vem de uma rica família pequeno-burguesa.  Joseph Rilke, um ex-oficial e inspetor ferroviário, é homem simples e rude para os padrões de sua família. Mas é o arrebatamento religioso da mãe que causa maior sofrimento ao menino. Mais tarde Rilke afasta-se do cristianismo, com forte recusa de Cristo e da Igreja.

O que foi dito sobre o arrebatamento religioso de Sophie, pode ser aquilatado pela carta que ela, sua mãe, lhe escreve em 1922, quando Rilke conta na época com 47 anos: “À meia-noite na mesma hora em que nascera nosso Salvador – e já que era noite de sexta-feira para sábado – você se tornou um filho de Maria, com a bênção da madona misericordiosa”.

A fase escolar é para Rilke de tal forma tormentosa que, quando estuda em internato militar (1886-1891), no dia em que completa dezenove anos escreve uma carta para sua amiga Valerie von David Rohnfeld fazendo-lhe um retrospecto de sua vida:

“Você conhece a história sem brilho de minha infância falha, e conhece também aquelas pessoas que carregam a culpa por eu não conseguir guardar nada ou quase nada de agradável daqueles dias de minha formação (...). Na minha forma infantil de compreensão, acreditava que minha paciência me aproximava do mérito de Jesus Cristo. Certa vez, ao receber uma forte tapa no rosto, tão forte que meus joelhos tremeram, disse ao meu agressor injusto – posso ouvir ainda hoje – em voz baixa: Eu tolero isto porque Cristo também tolerou, em silêncio, sem lamentação, e enquanto você me batia eu rezava a meu bom Deus para que te perdoasse...”.

Diz mais Rilke, em sua carta para Valerie: “Então fugi, recuando até o último vão da janela, segurando minhas lágrimas para que somente à noite, quando pairasse a respiração regular dos garotos no amplo dormitório, elas rompessem impetuosas e calorosamente. E na noite em que se comemoravam os anos de meu nascimento, não sei quantos, ajoelhei-me na cama e, de mãos postas, pedi pela morte. Naquele tempo, uma doença me pareceria um sinal certo de elevação, só que ela não vinha. Em compensação, começou a se desenvolver naquela época o impulso de escrever, que mesmo no seu princípio, ainda ingênuo, já me servia de consolo”.

O fato de Rilke não se defender ante essa agressão, não respondendo com qualquer meio de defesa, quer física, quer verbal, denota que assume o papel de Cristo, sentindo-se legitimado religiosamente, e, com isso, onde deveria estar presente a autopreservação via em seu lugar assentar-se um sentimento de masoquismo, posição essa que o faz sofrer, até que, adulto, despede-se do culto de Cristo e de sua Igreja, aos dezoito anos, um ano antes de escrever a carta para sua amiga Valerie, quando fez, em 2 de abril de 1893, sua Confissão de Fé, como se vê no primeiro verso do poema:

Vós cristãos piedosos de boca para fora,
a mim julgais ateu e ides embora
para longe de mim,
só porque diferente de vós todos
não me deixo levar pelos engodos
das armadilhas do cristianismo.

Como muda, no tocante à religiosidade, Rilke passa a traçar o seu próprio caminho como escritor; assim passa do simbolismo para a busca do que significaria a arte e a morte, com algumas de suas obras: Livro de horas, Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu – este é considerado por muitos críticos o seu melhor livro de poemas – e Os cadernos de Malte Laurides Brigge (seu único romance).

Pela expressividade de sua obra, de modo especial seus livros de poemas, voltarei a escrever sobre Rilke  em outra oportunidade, já que neste texto a abordagem é feita sobre alguns fatos de sua infância e de sua religiosidade, bem como sobre a influência de sua mãe, e com o seu afastamento de Cristo e da Igreja. Também muito se pode dizer de sua vida, sua formação cultural, seu relacionamento com a intelectual e escritora Lou Andréas-Salomé, seu casamento com Clara Westhoff, etc.

Rainer Maria Rilke é acometido de leucemia, doença que o leva à morte no dia 2 de janeiro de 1926, aos 51 anos, no sanatório de Valmont, na Suíça.




REFERÊNCIAS:
KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro: Editora Larousse do Brasil, 1979.
KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras. São Paulo: Edições Loyola, 1999.



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8 de ago. de 2013

[Poesia] FERNANDO PESSOA – Qualquer caminho...




 [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Nascido em Lisboa, a 13 de junho de 1888, filho único (o irmão mais novo, Jorge, morreu em 1894, com um ano de idade), órfão de pai antes de completar os seis anos, Pessoa parte em 1896 para a África, com a mãe, que se casara de novo, com João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban. Em Durban, África do Sul, realizou os estudos primários numa escola de freiras irlandesas; secundários, na Durban High School e, em 1904, foi aprovado nos exames de ingresso no Curso de Artes, na Cape Univerty. Mas no ano seguinte decidiu regressar a Lisboa, sozinho.

Os dez anos aí passados foram decisivos para a sua formação. É na África, e em inglês, que ele adquire a base de sua cultura literária (Milton, Shelley, Shakespeare, Tennyson, Pope e outros), escreve os seus primeiros poemas e concebe os proto-heterônimos Alexander Search e Robert Anon, sucessores adolescentes de Chevalier de Pas, personagem inventada aos quatro anos, com quem ele então se entretinha horas a fio.

De volta a Portugal, redescobre sua cultura e literatura: Cesário Verde, Antonio Nobre, Antero de Quental, Camilo Pessanha, que vêm somar-se a uns, como ele diz, “subpoetas”, lidos na infância. 1906 matricula-se no Colégio Superior de Letras, em Lisboa, que abandona em seguida, e começa a alimentar arrojados planos, literários e outros, nunca realizados na íntegra. Após o fracasso comercial de sua “Empresa Íbis – Tipografia e Editora”, experiência em que mais tarde reincidirá, emprega-se como correspondente de firmas estrangeiras sediadas em Lisboa, modesta atividade que lhe garantirá o sustento até o fim de sua vida. (Fernando Pessoa morreu em Lisboa, em 30 de novembro de 1935).
       
Segue o poema [Qualquer caminho leva a toda parte] de Fernando pessoa (In  Pessoa, QUALQUER CAMINHO LEVA A TODA PARTE [ Fernando Pessoa ]ando. Poesia. 1918 - 1930. Fernando Pessoa: edição Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 87-88):




QUALQUER CAMINHO LEVA A TODA PARTE
[ Fernando Pessoa ]



Qualquer caminho leva a toda parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
E por isso, qualquer que seja a arte
De ir ou ficar, do nosso corpo ou ‘spr’rito,
Tudo é ‘stático e morto. Só a ilusão
Tem passado e futuro, e nela erramos.
Não há ‘strada senão na sensação
É só através de nós que caminhamos.

Tenhamos p’ra nós mesmos a verdade
De aceitar a ilusão como real
Sem dar crédito à sua realidade.
E, eternos viajantes, sem ideal
Salvo nunca parar, dentro de nós,
Consigamos a viagem sempre nada
Outros eternamente, e sempre sós;
Nossa própria viagem é viajante e ‘strada.

Que importa que a verdade da nossa alma
Seja ainda mentira, e nada seja
A sensação, e essa certeza calma
De nada haver, em nós ou fora, seja
Seja inutilmente a nossa consciência?
Faça-se a absurda viagem sem razão,
Porque a única verdade é a consciência
E a consciência é ainda uma ilusão.

E se há nisto um segredo e uma verdade
Os deuses ou destinos que a demonstrem
Do outro lado da realidade,
Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem
O caminho é de âmbito maior
Que a aparência visível do que está fora,
Excede de todos nós o exterior
Não pára como as cousas, nem tem hora.

Ciência? Consciência? Pó que a ‘strada deixa
E é a própria ‘strada, sem ‘strada ser.
É absurda a oração, é absurda a queixa.
Resignar(- se) é tão falso como ter.
Coexistir? Com quem, se estamos sós?
Quem sabe? Sabe o que é ou quem são?
Quantos cabemos dentro de nós?
Ir é ser. Não parar é ter razão.


11-10-1919



REFERÊNCIA:
MOISÉS, Carlos Felipe. Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos. São Paulo: Escrituras, 2005.



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25 de jul. de 2013

FRANÇOIS MAURIAC - Conselhos ao jovem escritor

   
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Imagino que boa parte de leitores tenham pensado, em determinada época de suas vidas, em tornarem-se escritor. Já ouvi, de alguns deles, que haviam desistido da ideia por sentirem o peso do talento de escritores como Machado de Assis, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Guimarães Rosa, entre outros. Nesses casos, o equívoco desses candidatos a escritor deveu-se ao fato de não terem começado a contar a história, que pensavam escrever (romance novela ou conto); esperar a consagração com o seu primeiro livro seria demasiada pretensão do iniciante

Escrevi para este blog, dois artigos sobre esse tema, isto é, sobre o jovem que se inicia na arte de escrever. No primeiro, falei sobre os conselhos que Mário de Andrade, na época escritor consagrado, dava ao então jovem Fernando Sabino, escritor iniciante. Na correspondência, que mantiveram até a morte de Mário, este disse a Sabino que ele deveria ir escrevendo e se aperfeiçoando. E, fazia a advertência de que o trabalho é árduo e sem brilho; e, depois, prognosticava que ele iria progredindo aos poucos, e que, se aguentasse o tranco, outros escritores perceberiam nele um grande escritor.


No segundo artigo que escrevi para o blog, falei sobre o livro de ensaios A arte de escrever, de Ezra Pound, e transcrevi parte do capítulo, no qual o poeta e crítico literário norte-americano fala sobre a linguagem, dirigindo-se especialmente aos jovens escritores. Pound ensina, nessa passagem, como se deve tratar a prosa: evitar o uso de palavras supérfluas e de adjetivos que nada revelam; e, ainda, não usar expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz), que se prestam apenas para obscurecer a imagem e misturar o abstrato com o concreto.


Outro texto, que me parece ser útil aos escritores iniciantes, é o de François Mauriac, publicado pela Paris Review, em 1953, que resultou de uma entrevista concedida a Jean le Marchand:

Minha opinião não mudou. Creio que meus confrades romancistas mais jovens se acham grandemente preocupados com a técnica. Parecem pensar que um bom romance deve seguir certas normas impostas de fora. Na verdade, porém, tal preocupação os tolhe e embaraça em sua criação. O grande romancista não depende de ninguém, exceto de si próprio. Proust não se assemelhava a nenhum de seus antecessores, e não teve, não poderia ter, quaisquer sucessores. O grande romancista quebra o seu molde; só ele pode usá-lo. Balzac criou o romance “balzaquiano”; seu estilo se adaptava apenas a Balzac.

Mauriac, conclui a resposta, que dá à primeira pergunta do seu entrevistador: “Há um laço estreito entre a originalidade de um romancista em geral e a qualidade pessoal de seu estilo. Um estilo emprestado é um mau estilo. Romancistas americanos, de Faulkner a Hemingway, inventaram um estilo para imprimir o que queriam dizer – e é um estilo que não pode ser transferido a seus adeptos”.

Como essa conversa sobre a nobre arte da literatura é longa, fico por aqui. Segue uma pequena nota biográfica desse escritor: François Mauriac nasceu em Bordéus, na França, a 11 de outubro de 1885. Frequentou as Universidade de Bordéus e a Universidade de Paris, por algum tempo. Em 1909, publicou um livro de versos. No período de 1914 a 1969, escreveu dez romances, entre eles, Le Baiser aux lépreux (O Beijo no Leproso), Le Désert de l'amour (Grande prêmio de romance da Academia Francesa) Le Nœud de vipères (O Ninho de Víboras), Le Mystère Frontenac, La Fin de la nuit, etc.

As obras acima mencionada deram a que lhe deram a François Mauriac a reputação de ser o principal romancista católico da França. Escreveu quatro peças teatrais, muitos livros de contos, crítica literária e ensaios. Também escreveu a biografia de Racine e a vida de Jesus. Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1952. Nessa época, iniciou a publicação de seus Diários ( que tiveram publicação póstuma em 1985). François Mauriac faleceu em, Paris, a 01 de setembro de 1970, com 85 anos de idade.




REFERÊNCIAS:
POUND, Ezra. Arte da poesia, ensaios. Tradução. de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: Cultrix, 1976.
MAURIAC, Francois. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1982.
MAUROIS, André. De Proust a Camus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1965.
ANDRADE, Mário de: Cartas a um jovem escritor. Remetente: Mário de Andrade. Destinatário: Fernando Sabino. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1993.


                                                             *  *  *


16 de jul. de 2013

[Poema em prosa] CHARLES BAUDELAIRE – O estrangeiro




[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


CHARLES BAUDELAIRE nasce em Paris no dia 9 de abril de 1821. No ano de 1846 começa sua carreira de crítico de arte, com Salon de 1845, e, em seguida, com a publicação de Salon de 1846. Seu livro maior, Flores do mal, é publicado em 1857.  Acometido de sífilis, Baudelaire morre a 31 de agosto de 1867.

É bom que se diga que o livro Flores do mal, de Charles Baudelalire, contém cem poemas, sendo que dentre eles um número grande de sonetos; o texto mais longo não ultrapassa cem versos. Sobre a poesia de Baudelaire, assim escreveu ThéophileGautier: “A poesia de Baudelaire, profundamente imagética, vivaz e viva, possui em alto grau essas qualidades de intensidade e de espontaneidade que peço ao poeta moderno”. Diz mais, Théophile Gautier (1811-1871):

Ele possui tons raros, e que são graças, da evocação e da penetração. Sua poesia, concisa e brilhante, impõe-se ao espírito como uma imagem forte e lógica. Quer evoque a lembrança, quer enflore o sonho, quer tire da miséria e dos vícios do tempo um ideal terrível, impiedoso, a magia é sempre completa, a imagem abundante e rica prossegue sempre e rigorosamente em seus termos.

Segue O estrangeiro, poema em prosa de Charles Baudelaire (in Baudelaire, Charles. Pequenos poemas em prosa / edição bilíngue. Tradução de Gilson Maurity. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.19):



O ESTRANGEIRO
( Charles Baudelaire )



A quem mais amas tu, homem enigmático, dize: teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?

– Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.

– Tens amigos?

– Você se serve de uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.

– Tua pátria?

– Ignoro em qual latitude ela esteja situada.

– A beleza?

– Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.

– O ouro?

– Eu o detesto como vocês detestam Deus.

– Quem é então que tu amas, extraordinário estrangeiro?

– Eu amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe... as maravilhosas nuvens!



  *

REFERÊNCIA:
GAUTIER, Théophile. Baudelaire. Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001, p. 119.



*  *  *


6 de jul. de 2013

[Conto] DALTON TREVISAN – A faca no coração





[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


DALTON TREVISAN foi um dos escritores brasileiros que, no início dos anos 60, passaram a adotar o conto para contar suas histórias; nessa época, que marcou uma revolução na produção desse gênero literário, também se destacaram: Rubem Fonseca, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles.

Na introdução de Os cem melhores contos brasileiros do século, o crítico literário Italo Moriconi disse que foi há cerca de cinco décadas que o conto se formatou em uma narrativa de no máximo 20 a 25 páginas, deixando para trás as histórias mais longas e caudalosas, que são classificadas como novelas.

No moderno conto brasileiro destacam-se Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, o que pode ser comprovado pela crítica literária e também pelos nomes das editoras que os publicam, pelo numero de suas reedições, em especial pela aceitação de ambos pelos leitores.


Segue A faca no coração, conto de Dalton Trevisan (in Trevisan, Dalton. A faca no coração. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1979, p. 105-108):


A FACA NO CORAÇÃO
         [ DALTON TREVISAN ]


      

Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.

– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.

– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.

– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.

– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?

– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.

– No começo eles tomam o partido da mãe.

– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe... Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.

– A outra filhinha?

– Também do lado da mãe.

– E o filho?

– Esse é o maior inimigo.

– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.

– Se ela está vendo... Tudo!

– Vendo o quê?

– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?

– ...

Meu filho, sinto uma pena de você!

– Ó Maria, mal de cada dia.

– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.

– É a famosa insônia de viúvo.

– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.

– E quando você acorda, a flor está ali?

– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.

– Deve arrumar uma companheira.

– Quem é que vai me querer?

– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.

Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.

– Mulher é que não falta.

– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.

– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.

Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.

– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.

– Nunca  tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?

– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!

– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?

– ...

– Só de traidora degolou o casal de garnisés...

– Nem tremeu a mão de unha dourada.

– ... estrangulou o canário no arame da gaiola...

– Não me diga, João!

– ... e furou o olho do peixinho vermelho.

– Esqueça a ingrata nos braços de outra.

– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?

– Assim é que se fala, João.

– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.



*  *  *