25 de jul. de 2013

FRANÇOIS MAURIAC - Conselhos ao jovem escritor

   
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Imagino que boa parte de leitores tenham pensado, em determinada época de suas vidas, em tornarem-se escritor. Já ouvi, de alguns deles, que haviam desistido da ideia por sentirem o peso do talento de escritores como Machado de Assis, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Guimarães Rosa, entre outros. Nesses casos, o equívoco desses candidatos a escritor deveu-se ao fato de não terem começado a contar a história, que pensavam escrever (romance novela ou conto); esperar a consagração com o seu primeiro livro seria demasiada pretensão do iniciante

Escrevi para este blog, dois artigos sobre esse tema, isto é, sobre o jovem que se inicia na arte de escrever. No primeiro, falei sobre os conselhos que Mário de Andrade, na época escritor consagrado, dava ao então jovem Fernando Sabino, escritor iniciante. Na correspondência, que mantiveram até a morte de Mário, este disse a Sabino que ele deveria ir escrevendo e se aperfeiçoando. E, fazia a advertência de que o trabalho é árduo e sem brilho; e, depois, prognosticava que ele iria progredindo aos poucos, e que, se aguentasse o tranco, outros escritores perceberiam nele um grande escritor.


No segundo artigo que escrevi para o blog, falei sobre o livro de ensaios A arte de escrever, de Ezra Pound, e transcrevi parte do capítulo, no qual o poeta e crítico literário norte-americano fala sobre a linguagem, dirigindo-se especialmente aos jovens escritores. Pound ensina, nessa passagem, como se deve tratar a prosa: evitar o uso de palavras supérfluas e de adjetivos que nada revelam; e, ainda, não usar expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz), que se prestam apenas para obscurecer a imagem e misturar o abstrato com o concreto.


Outro texto, que me parece ser útil aos escritores iniciantes, é o de François Mauriac, publicado pela Paris Review, em 1953, que resultou de uma entrevista concedida a Jean le Marchand:

Minha opinião não mudou. Creio que meus confrades romancistas mais jovens se acham grandemente preocupados com a técnica. Parecem pensar que um bom romance deve seguir certas normas impostas de fora. Na verdade, porém, tal preocupação os tolhe e embaraça em sua criação. O grande romancista não depende de ninguém, exceto de si próprio. Proust não se assemelhava a nenhum de seus antecessores, e não teve, não poderia ter, quaisquer sucessores. O grande romancista quebra o seu molde; só ele pode usá-lo. Balzac criou o romance “balzaquiano”; seu estilo se adaptava apenas a Balzac.

Mauriac, conclui a resposta, que dá à primeira pergunta do seu entrevistador: “Há um laço estreito entre a originalidade de um romancista em geral e a qualidade pessoal de seu estilo. Um estilo emprestado é um mau estilo. Romancistas americanos, de Faulkner a Hemingway, inventaram um estilo para imprimir o que queriam dizer – e é um estilo que não pode ser transferido a seus adeptos”.

Como essa conversa sobre a nobre arte da literatura é longa, fico por aqui. Segue uma pequena nota biográfica desse escritor: François Mauriac nasceu em Bordéus, na França, a 11 de outubro de 1885. Frequentou as Universidade de Bordéus e a Universidade de Paris, por algum tempo. Em 1909, publicou um livro de versos. No período de 1914 a 1969, escreveu dez romances, entre eles, Le Baiser aux lépreux (O Beijo no Leproso), Le Désert de l'amour (Grande prêmio de romance da Academia Francesa) Le Nœud de vipères (O Ninho de Víboras), Le Mystère Frontenac, La Fin de la nuit, etc.

As obras acima mencionada deram a que lhe deram a François Mauriac a reputação de ser o principal romancista católico da França. Escreveu quatro peças teatrais, muitos livros de contos, crítica literária e ensaios. Também escreveu a biografia de Racine e a vida de Jesus. Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1952. Nessa época, iniciou a publicação de seus Diários ( que tiveram publicação póstuma em 1985). François Mauriac faleceu em, Paris, a 01 de setembro de 1970, com 85 anos de idade.




REFERÊNCIAS:
POUND, Ezra. Arte da poesia, ensaios. Tradução. de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: Cultrix, 1976.
MAURIAC, Francois. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1982.
MAUROIS, André. De Proust a Camus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1965.
ANDRADE, Mário de: Cartas a um jovem escritor. Remetente: Mário de Andrade. Destinatário: Fernando Sabino. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1993.


                                                             *  *  *


16 de jul. de 2013

[Poema em prosa] CHARLES BAUDELAIRE – O estrangeiro




[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


CHARLES BAUDELAIRE nasce em Paris no dia 9 de abril de 1821. No ano de 1846 começa sua carreira de crítico de arte, com Salon de 1845, e, em seguida, com a publicação de Salon de 1846. Seu livro maior, Flores do mal, é publicado em 1857.  Acometido de sífilis, Baudelaire morre a 31 de agosto de 1867.

É bom que se diga que o livro Flores do mal, de Charles Baudelalire, contém cem poemas, sendo que dentre eles um número grande de sonetos; o texto mais longo não ultrapassa cem versos. Sobre a poesia de Baudelaire, assim escreveu ThéophileGautier: “A poesia de Baudelaire, profundamente imagética, vivaz e viva, possui em alto grau essas qualidades de intensidade e de espontaneidade que peço ao poeta moderno”. Diz mais, Théophile Gautier (1811-1871):

Ele possui tons raros, e que são graças, da evocação e da penetração. Sua poesia, concisa e brilhante, impõe-se ao espírito como uma imagem forte e lógica. Quer evoque a lembrança, quer enflore o sonho, quer tire da miséria e dos vícios do tempo um ideal terrível, impiedoso, a magia é sempre completa, a imagem abundante e rica prossegue sempre e rigorosamente em seus termos.

Segue O estrangeiro, poema em prosa de Charles Baudelaire (in Baudelaire, Charles. Pequenos poemas em prosa / edição bilíngue. Tradução de Gilson Maurity. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.19):



O ESTRANGEIRO
( Charles Baudelaire )



A quem mais amas tu, homem enigmático, dize: teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?

– Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.

– Tens amigos?

– Você se serve de uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.

– Tua pátria?

– Ignoro em qual latitude ela esteja situada.

– A beleza?

– Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.

– O ouro?

– Eu o detesto como vocês detestam Deus.

– Quem é então que tu amas, extraordinário estrangeiro?

– Eu amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe... as maravilhosas nuvens!



  *

REFERÊNCIA:
GAUTIER, Théophile. Baudelaire. Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001, p. 119.



*  *  *


6 de jul. de 2013

[Conto] DALTON TREVISAN – A faca no coração





[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


DALTON TREVISAN foi um dos escritores brasileiros que, no início dos anos 60, passaram a adotar o conto para contar suas histórias; nessa época, que marcou uma revolução na produção desse gênero literário, também se destacaram: Rubem Fonseca, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles.

Na introdução de Os cem melhores contos brasileiros do século, o crítico literário Italo Moriconi disse que foi há cerca de cinco décadas que o conto se formatou em uma narrativa de no máximo 20 a 25 páginas, deixando para trás as histórias mais longas e caudalosas, que são classificadas como novelas.

No moderno conto brasileiro destacam-se Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, o que pode ser comprovado pela crítica literária e também pelos nomes das editoras que os publicam, pelo numero de suas reedições, em especial pela aceitação de ambos pelos leitores.


Segue A faca no coração, conto de Dalton Trevisan (in Trevisan, Dalton. A faca no coração. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1979, p. 105-108):


A FACA NO CORAÇÃO
         [ DALTON TREVISAN ]


      

Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.

– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.

– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.

– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.

– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?

– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.

– No começo eles tomam o partido da mãe.

– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe... Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.

– A outra filhinha?

– Também do lado da mãe.

– E o filho?

– Esse é o maior inimigo.

– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.

– Se ela está vendo... Tudo!

– Vendo o quê?

– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?

– ...

Meu filho, sinto uma pena de você!

– Ó Maria, mal de cada dia.

– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.

– É a famosa insônia de viúvo.

– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.

– E quando você acorda, a flor está ali?

– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.

– Deve arrumar uma companheira.

– Quem é que vai me querer?

– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.

Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.

– Mulher é que não falta.

– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.

– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.

Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.

– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.

– Nunca  tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?

– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!

– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?

– ...

– Só de traidora degolou o casal de garnisés...

– Nem tremeu a mão de unha dourada.

– ... estrangulou o canário no arame da gaiola...

– Não me diga, João!

– ... e furou o olho do peixinho vermelho.

– Esqueça a ingrata nos braços de outra.

– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?

– Assim é que se fala, João.

– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.



*  *  *



27 de jun. de 2013

[Conto] CARLOS CARVALHO - De corpo presente

   


[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]
              

CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980, destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista.

Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com as peças que escreveu. Carlos Carvalho também foi ator e diretor. Por isso, foi homenageado pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre, que deu o seu nome a uma das salas de espetáculos, na Casa de Cultura Mario Quintana – “Teatro Carlos Carvalho”.

 Em 1971, conquistou o 1º prêmio do Salão de Porto Alegre, com o objeto poema Amortecedor; em 1974, foi o ganhador do 2º prêmio no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná – Fundepar. Livro publicado: Calendário do medo, conto, 1975. Participou das antologias Roda de fogo, 1970, e Os melhores contos brasileiros de 1974 – em 1975.        
              
O conto que segue, De corpo presente, integra o livro de Carlos Carvalho, Calendário do medo, 3ª ed. Porto Alegre, Editora Movimento, 1975, p.11-12:




DE CORPO PRESENTE
  ( CARLOS CARVALHO )



Foi quando se apercebeu de que vivia nas trevas não sabia desde quando. Com a descoberta, a compreensão exata e desagradável da ausência.

No desejo intenso de se tornar presente, tratou de utilizar-se: lançou um membro, arremeteu outro, em marradas sucessivas. À força de vibrar, tentou romper os muros que o rodeavam, mas a desconexão e a noite impediam-lhe o movimento. A sólida construção a tudo resistia. Exausto, abandonou-se ao tépido torpor que o massageava. E adormeceu por séculos e séculos.

Foi arrancado do sono pela convulsão noturna. As paredes infladas tremiam em espasmos contínuos; um mar negro e viscoso elevou-se do abismo; ondas fermentaram ao seu redor, engoliram-no e trouxeram-no de novo quando já se julgava perdido; corpos estranhos grudaram-se ao seu, aumentando a noção de limites. Debateu-se. Fugindo às barreiras que o aprisionavam e que agora ruíam, rastejou, escapando, lenta e exaustivamente dos tentáculos e escamas que insistiam em retê-lo na escuridão. Lutou e perdeu a consciência.

Acordou com a luz doendo nos olhos. O corpo pesava numa superfície fria e drapeada. Demorou a acostumar-se com a luz. Mas a alegria de se sentir presente, de ocupar o lugar que sempre lhe estivera reservado, deu-lhe forças e obstinou-o a educar-se.

Luz primeiro, conforme o constatado. Depois, manchas indecisas, flutuantes, que ao poucos se fixavam e tomavam formas onde ele se refletia e se via futuro. E sons que batiam dolorosamente nos tímpanos, tentando acomodar-se, e que eram rechaçados, estrangeiros. Pacientemente aprendeu a selecioná-los, a catalogá-los, a entender o significado de cada um.

E quando distinguiu claramente as formas, quando percebeu o sentido dos sons, foi tomado por uma grande saudade do lugar antigo. Um pânico maior abateu-se. Gritou.

Logo acorreram mãos que tentaram acalmá-lo e contra as quais se rebelou. Através das mãos que dele se apossavam, que dispunham dele, evidenciando a propriedade, compreendeu o real sentido de um mundo grosseiro e pesado que ameaçava esmagá-lo. Gritou mais.

Preocupados os pais, o médico os afastou do berçário, dizendo tratar-se de uma simples cólica intestinal.

Inútil qualquer esforço, bebeu, resignado, o chá de erva-doce que o forçavam a engolir. E gostou.



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17 de jun. de 2013

[Literatura] VIRGINIA WOOLF – Tormento e Genialidade


  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO 
  
No dizer de Harold Bloom, Virginia Woolf “foi a mais completa pessoa-de-letras da Inglaterra de nosso século”. Já no que diz respeito à qualidade de sua crítica, ressalta Bloom: “A crítica literária da própria Virginia Woolf me parece muito confusa, sobretudo no julgamento de contemporâneos. Encara Ulisses de Joyce como um desastre, ou os romances de Lawrence como não tendo poder final que faz as coisas inteiras em si”.
Harold Bloom dá realce ao fato de que os ensaios e romances de Virginia Woolf “alargam até as tradições centrais da literatura inglesa em aspectos que renovam além de todo possível alcance de suas polêmicas”. Tais observações, feitas pelo crítico norte-americano, que integram seu livro O Cânone Universal, devem-se a análise que faz sobre o romance Orlando, de Virginia.
Sobre o amor que a escritora inglesa nutria pela leitura, Harold Bloom diz, no seu ensaio, intitulado: ‘Orlando’ de Virginia Woolf: Feminismo como Amor à Leitura: “Talvez tenha havido outros escritores em nosso século que amassem tanto a leitura como Virginia Woolf, mas ninguém desde Hazlitt e Emerson expressou essa paixão de modo tão memorável e proveitoso quanto ela”. Bloom menciona que “O amor, em Orlando, é sempre o amor à leitura, mesmo quando disfarçado de amor por uma mulher ou homem”.
Já no que diz respeito ao romance de Virginia Woolf, há no ensaio de Harold Bloom, acima mencionado, um trecho que merece ser destacado por sua relevância histórica, qual seja: “Encontraremos algum dia romancistas tão originais e soberbas como Jane Austen, George Eliot e Virginia Woolf, ou uma poeta tão extraordinária e inteligente como Emily Dickinson? Meio século após a morte de Virginia, ela não tem rivais entre romancistas ou críticas, embora elas desfrutem da liberdade que ela profetizou”.
Também Mario Vargas Llosa, extraordinário romancista e crítico, no seu livro A verdade das mentiras, ocupou-se do romance de Virginia Woolf, no seu ensaio, Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, A vida intensa e suntuosa: “O livro apareceu em 1925 e foi o primeiro dos três grandes romances – os outros são Rumo ao farol e As ondas – com os quais Virginia Woolf revolucionaria a arte narrativa de seu tempo, criando uma linguagem capaz de fingir persuasivamente a objetividade humana, os meandros e os ritmos escorregadios da consciência. Sua façanha não é menor que as similares de Marcel Proust e James Joyce, as quais complementa e enriquece com um matiz particular: a sensibilidade feminina”.
Na sua análise sobre o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, Vargas Llosa faz referência ao tema que predomina a temática da escritora, a condição da mulher, com papéis tão insignificantes durante a história, por não terem, as mulheres, dinheiro e um teto para si, tornando-se dependente do homem: “Em Mrs. Dalloway, a realidade tinha sido reinventada a partir de uma perspectiva, na qual expressam, não exclusiva, mas, principalmente, a idiossincrasia e a condição da mulher”.
Virginia Woolf, em cujo registro civil consta a assento do nascimento de Adeline Virginia Stephen, a 25 de janeiro de 1882, em Londres, Inglaterra, sendo a terceira de quatro filhos, de uma família de classe média alta. O pai, Leslie Stephen, descendia da aristocracia intelectual da Inglaterra vitoriana. Foi crítico e o primeiro editor Dictionary of National Biography. Virginia não recebeu educação formal, mas cresceu cercada por livros e intelectuais. Por sua primeira residência passaram visitantes ilustres como Henry James, George Eliot, Henri Lewes. Talvez essa convivência tenha influenciado Virginia, ainda criança, a tornar-se escritora.
Os biógrafos de Virginia Woolf dão ênfase a distinção de dois tipos de marcos, quais sejam, seus livros e suas depressões. No dizer de Alexandra Lemasson, “Uma classificação simplificadora contribuiu para alinhá-la entre os escritores difíceis”. Para Lemasson, “Os mitos têm uma vida dura. No inconsciente coletivo, Virginia Woolf permanece uma mulher passiva e suicida, cuja companhia literária não é nada simpática”.
No ano de 1913, Virginia Woolf sofre a sua primeira depressão. Tal depressão vem na sequência de seu casamento com Leonard Woolf. Na verdade, vem de muito tempo os distúrbios que incapacitam Virginia Stephen. Diz Alexandra Lemasson: “Se, em setembro de 1913, Virginia – tendo há pouco se tornado sra.Woolf – faz uma tentativa de suicídio por ingestão massiva de barbitúricos, ela já tinha, há muito tempo, chamado a atenção para o seu estado”.
Nos anos que se seguem, após o casamento com Virginia, Leonard Woolf demonstra toda a sua capacidade de dedicar-se a esposa. A saúde mental de Virginia Woolf mostra-se mais debilitada: alucinações, agressividade, incapacidade para alimentar-se. As dificuldades multiplicam-se para ela e para o marido, a cada ano que passa. Leonard conforma-se com todas as dificuldades que enfrenta para ajudar Virginia. Leonard passa a ser, além de marido, editor, enfermeiro e tutor.
A vida sexual do casal sempre contou com o pouco interesse que Virginia tinha por Leonard, mesmo antes do casamento. Na lua-de-mel, que passaram na Espanha, ela dedica boa parte do seu tempo para a leitura autores russo. Na realidade, Virginia sentia-se atraída por mulheres. Segundo Quentin Bell, “Madge Symonds foi a primeira mulher a capturar seu coração”. Alexandra Lemasson diz: “É nas relações com mulheres mais velhas que Virginia encontra geralmente estímulo erótico e um reconforto materno”.
Quanto aos relacionamentos com mulheres, Alexandra Lemasson, diz, depois de fazer menção a quatro delas: “Nenhuma dessas relações durará muito tempo, com exceção da que Virginia tem com Violet Dickinson. Ao lado dessa mulher – frisa Lemasson – Virginia encontra não apenas um substituto materno, mas também um guia literário. Depois de Violet – acrescenta – de quem Virginia se desvencilhará assim que ela não lhe for mais indispensável, a romancista só se interessa por mulheres que dividam sua paixão pelas letras. Em 1919, sua relação com a romancista Katherine Mansfield chega a seu auge”.
Depois da morte de Katherine, em 1922, Virginia conhece a jovem Vita Sackville-West, uma jovem romancista de porte masculino, cuja homossexualidade ninguém ignora. Vita é casada com o brilhante diplomata Harold Nicolson, que, por sua vez, não esconde da mulher sua homossexualidade. No início do relacionamento, Virginia não se apaixona por Vita. Em 1926, a relação entre elas toma um rumo mais apaixonado, mas não chega a ameaçar seus casamentos. No plano sexual, o casamento de Virginia é um verdadeiro fracasso. Depois de algum tempo, outras mulheres atraem a atenção de Vita, o que ocasiona grande sofrimento para Virginia.
Alexandra Lemasson discorre sobre essa relação: “É Vita quem falará a Virginia daquela que será sua última grande amiga. Em 1930, Ethel Smyth tem quase 72 anos, mas parece estar, como sempre, em sua melhor forma. Virginia tem 48 anos, mas já se sente velha. No mundo das letras como no da música, uma e outra são personalidades conhecidas. Se Virginia Woolf é admirada e um pouco temida, zombam abertamente da chamada Dama Ethel. É uma mulher sozinha, uma compositora, ridicularizada, por seu comportamento excêntrico e seu porte singular”.
A amizade entre Ethel e Virginia não resiste ao choque causado pela forma com que elas levam em frente suas lutas em favor dos direitos que defendem em prol da mulher no plano social, econômico e político. Quando Ethel pede o apoio a uma questão que defendeu em praça pública, Virginia se recusa categoricamente, por não querer se expor. Virginia, então, escreve em seu Diário: “Não quero ser célebre nem grande. Quero avançar, mudar, abrir meu espírito e meus olhos, recusar ser rotulada e estereotipada. O que conta é liberar-se por si mesma, descobrir suas próprias dimensões, recusar os entraves”.
Ao ver Londres bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, com os escombros e as casas transformadas em cinza, ao longo das ruas pelas quais caminha, Virginia fica fortemente abalada com a destruição que presencia, e, de tal abalo, nunca mais se recuperará.
No dia 27 de março de 1941, Virginia é levada pelo marido, contra sua vontade, à clínica mais próxima. Os médicos pedem que pare de ler, que pare de escrever, que repouse, pois sua saúde mental depende dessas observações. O pesadelo volta a repetir-se, para Virginia: as visões, as alucinações. Combater agora, como fizera antes, tantas vezes, não era mais possível: “Lutei tanto quanto pude, mas não consigo mais”.
Nos dias que se seguem, Virginia escreve para as duas pessoas mais importantes de sua vida – o marido e para sua irmã. Ao marido lembra de seu amor por ele, lembra de sua bondade e de sua paciência; de sentir que não pode atravessar um novo episódio de demência. “Se alguém tivesse podido me salvar, teria sido você”. Ninguém poderá salvar Virginia Woolf. Pela primeira vez, Leonard chega tarde demais. Virginia Woolf resolve terminar sua vida pelo suicídio. E, num ato de coragem, joga-se no rio Ouse na manhã do dia 28 de março de 1941, aos 59 anos.
Principais obras de Virginia Woolf: (romance) A viagem, 1915; Noite e dia, 1919; O quatro de Jacob, 1922; Mrs. Dalloway, 1925; Passeio ao farol, 1927; Orlando, 1928; As ondas, 1931; Os anos, 1937; Entre atos, 1941; (contos) The complete Shorter Fiction, 1985 (não ficção) Modern fiction, 1919; O leitor comum, 1925; Um teto todo seu, 1929; Cenas londrinas, 1931; Three Guineas, 1931; The Death of the Month and Other Essays, 1942 – entre outros.

  
REFERÊNCIAS:
BLOOM, Harold. O Cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
VARGAS LLOSA, Julio. A verdade das mentiras. Tradução de  Cordelia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: ARX, 2004.
LEMASSON, Alexandra. Virginia Woolf. Tradução de Ilana Heineberg. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011.


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9 de jun. de 2013

MILAN KUNDERA – Fuentes, Cortázar e Márquez



    [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


O último romance que li de Milan Kundera foi A identidade; antes, li A insustentável leveza do ser e Risíveis amores. A leitura de outras obras do escritor, como A brincadeira, A valsa dos adeuses, A imortalidade, dentre outros, sempre esteve nos meus planos, mas, com as exigências de minha profissão e com tantos autores por ler, fui deixando essas leituras de Kundera para mais tarde.

Agora, depois de ter lido o excelente ensaio de Carlos Fuentes, com o título de "Milan Kundera: O Idílio Secreto", que compõe o seu livro Geografia do Romance, fiquei entusiasmado com a ideia de ler outros romances do escritor tcheco. Fuentes inicia esse ensaio contando a aventura dos três escritores latino-americanos que, em 1968, desembarcaram em Praga: ele, Carlos Fuentes, Julio Cortázar e Gabriel García Márquez.

Fuentes demonstra nesse ensaio todo o seu fascínio por Praga: “Não há cidade mais bonita na Europa. Entre o alto gótico e o século barroco, sua opulência e sua tristeza se consumaram nas bodas da pedra com o rio. Como o personagem de Proust, Praga ganhou o rosto que merece. É difícil voltar a Praga; é impossível esquecê-la. É certo: habitam-na demasiados fantasmas”. A descrição de Praga, cidade de Kundera e de Kafka, por Fuentes, vai mais longe, e é feita com a maestria que é própria desse importante romancista e ensaísta mexicano, que, não faz muito tempo, nos deixou.

Esse ensaio de Fuentes tem como centro o escritor Milan Kundera e sua obra, começando por A brincadeira, publicada em Paris em 1968. Fuentes diz que nesse mesmo ano que conheceu Kundera, foi à capital francesa, por ocasião de sua publicação, para prestigiar o amigo. Conta que esse livro foi elogiado por Claude Gallimard e pelo poeta Aragon; este, que foi o responsável pelo seu prólogo, disse que o romance ”explica o inexplicável”, acrescentando: “É preciso ler este romance. É preciso crer nele”.

Voltando a Praga, onde Fuentes, Cortázar e García Márquez travam amizade com Kundera, fica-se sabendo por esse ensaio do que conversaram na ocasião, como, por exemplo, de como os tchecos viam os russos, que em 1945 os libertaram de Hitler, pelo que diz Kundera: “Como entender que agora entrassem com seus tanques em Praga, para esmagar os comunistas em nome do comunismo, quando deviam estar comemorando o triunfo do comunismo tcheco em nome do internacionalismo socialista?”

No seu ensaio, Fuentes conta que foram a Praga a convite da União de Escritores Tchecos, nesse período estranhíssimo – como diz –, que vai do outono de 1968 a primavera de 1969. E que, nessa época, também tinham ido a Praga: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, além de Nathalie Serraute e outros romancistas franceses, além dos escritores alemães Heinrich Böll e Günter Grass (vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 1972 e 1999, respectivamente).

O tema romance, como não poderia deixar de ser, foi motivo de muita conversa entre esses quatro escritores. Numa dessas conversas, conta Fuentes que Kundera brincou com os três romancistas latino-americanos, dizendo que ele (Kundera) teve o privilégio de ler Kafka no original. Fuentes diz que compartilhava com Kundera de “certa visão do romance como um elemento indispensável, não sacrificável, da civilização (...). O romance, gênero supostamente em agonia, tem tanta vida que deve ser assassinado”.

Com isso, Fuentes faz alusão à severa proibição quanto à publicação e divulgação da obra de Milan Kundera, pelos comunistas, na sua terra natal, a então Tchecoslováquia, como de resto, em todos os países que integravam a extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), fato esse que o forçava a publicar os seus livros em países não comunistas, de modo especial na França. Daí a declaração de Aragon, no prefácio da edição francesa do romance de Kundera, A brincadeira: “O romance é indispensável ao homem, como o pão”.

“Por que” – pergunta Fuentes a si próprio, sobre essa afirmação de Aragon, e logo tem a resposta: “Porque nele se encontrará a chave que o historiador – o mitógrafo vencedor – ignora ou dissimula”. E, a seguir, Fuentes diz qual o ponto de vista de Kundera: “O romance não está ameaçado pelo esgotamento, mas pelo estado ideológico do mundo contemporâneo”. Kundera conclui: “Nada há de mais oposto ao espírito do romance, profundamente ligado à descoberta da relatividade do mundo, do que a mentalidade totalitária, dedicada à implantação de uma verdade única”.

Como que disseram Fuentes e Kundera, nesse último parágrafo, não se pode ter dúvida de que o romance é temido por todos os regimes totalitários, de esquerda ou de direita, porque o romancista conta a verdadeira História da Humanidade, por estar ele (o romancista) imune à pressão totalitária, e por não aceitar que exista uma verdade única. Por isso pode-se ter a certeza de que o romance sobreviverá às ideologias.



REFERÊNCIA:
FUENTES, Carlos. Geografia do Romance. Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993.


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