6 de jul. de 2013

[Conto] DALTON TREVISAN – A faca no coração





[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


DALTON TREVISAN foi um dos escritores brasileiros que, no início dos anos 60, passaram a adotar o conto para contar suas histórias; nessa época, que marcou uma revolução na produção desse gênero literário, também se destacaram: Rubem Fonseca, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles.

Na introdução de Os cem melhores contos brasileiros do século, o crítico literário Italo Moriconi disse que foi há cerca de cinco décadas que o conto se formatou em uma narrativa de no máximo 20 a 25 páginas, deixando para trás as histórias mais longas e caudalosas, que são classificadas como novelas.

No moderno conto brasileiro destacam-se Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, o que pode ser comprovado pela crítica literária e também pelos nomes das editoras que os publicam, pelo numero de suas reedições, em especial pela aceitação de ambos pelos leitores.


Segue A faca no coração, conto de Dalton Trevisan (in Trevisan, Dalton. A faca no coração. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1979, p. 105-108):


A FACA NO CORAÇÃO
         [ DALTON TREVISAN ]


      

Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.

– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.

– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.

– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.

– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?

– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.

– No começo eles tomam o partido da mãe.

– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe... Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.

– A outra filhinha?

– Também do lado da mãe.

– E o filho?

– Esse é o maior inimigo.

– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.

– Se ela está vendo... Tudo!

– Vendo o quê?

– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?

– ...

Meu filho, sinto uma pena de você!

– Ó Maria, mal de cada dia.

– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.

– É a famosa insônia de viúvo.

– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.

– E quando você acorda, a flor está ali?

– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.

– Deve arrumar uma companheira.

– Quem é que vai me querer?

– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.

Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.

– Mulher é que não falta.

– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.

– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.

Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.

– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.

– Nunca  tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?

– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!

– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?

– ...

– Só de traidora degolou o casal de garnisés...

– Nem tremeu a mão de unha dourada.

– ... estrangulou o canário no arame da gaiola...

– Não me diga, João!

– ... e furou o olho do peixinho vermelho.

– Esqueça a ingrata nos braços de outra.

– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?

– Assim é que se fala, João.

– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.



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27 de jun. de 2013

[Conto] CARLOS CARVALHO - De corpo presente

   


[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]
              

CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980, destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista.

Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com as peças que escreveu. Carlos Carvalho também foi ator e diretor. Por isso, foi homenageado pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre, que deu o seu nome a uma das salas de espetáculos, na Casa de Cultura Mario Quintana – “Teatro Carlos Carvalho”.

 Em 1971, conquistou o 1º prêmio do Salão de Porto Alegre, com o objeto poema Amortecedor; em 1974, foi o ganhador do 2º prêmio no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná – Fundepar. Livro publicado: Calendário do medo, conto, 1975. Participou das antologias Roda de fogo, 1970, e Os melhores contos brasileiros de 1974 – em 1975.        
              
O conto que segue, De corpo presente, integra o livro de Carlos Carvalho, Calendário do medo, 3ª ed. Porto Alegre, Editora Movimento, 1975, p.11-12:




DE CORPO PRESENTE
  ( CARLOS CARVALHO )



Foi quando se apercebeu de que vivia nas trevas não sabia desde quando. Com a descoberta, a compreensão exata e desagradável da ausência.

No desejo intenso de se tornar presente, tratou de utilizar-se: lançou um membro, arremeteu outro, em marradas sucessivas. À força de vibrar, tentou romper os muros que o rodeavam, mas a desconexão e a noite impediam-lhe o movimento. A sólida construção a tudo resistia. Exausto, abandonou-se ao tépido torpor que o massageava. E adormeceu por séculos e séculos.

Foi arrancado do sono pela convulsão noturna. As paredes infladas tremiam em espasmos contínuos; um mar negro e viscoso elevou-se do abismo; ondas fermentaram ao seu redor, engoliram-no e trouxeram-no de novo quando já se julgava perdido; corpos estranhos grudaram-se ao seu, aumentando a noção de limites. Debateu-se. Fugindo às barreiras que o aprisionavam e que agora ruíam, rastejou, escapando, lenta e exaustivamente dos tentáculos e escamas que insistiam em retê-lo na escuridão. Lutou e perdeu a consciência.

Acordou com a luz doendo nos olhos. O corpo pesava numa superfície fria e drapeada. Demorou a acostumar-se com a luz. Mas a alegria de se sentir presente, de ocupar o lugar que sempre lhe estivera reservado, deu-lhe forças e obstinou-o a educar-se.

Luz primeiro, conforme o constatado. Depois, manchas indecisas, flutuantes, que ao poucos se fixavam e tomavam formas onde ele se refletia e se via futuro. E sons que batiam dolorosamente nos tímpanos, tentando acomodar-se, e que eram rechaçados, estrangeiros. Pacientemente aprendeu a selecioná-los, a catalogá-los, a entender o significado de cada um.

E quando distinguiu claramente as formas, quando percebeu o sentido dos sons, foi tomado por uma grande saudade do lugar antigo. Um pânico maior abateu-se. Gritou.

Logo acorreram mãos que tentaram acalmá-lo e contra as quais se rebelou. Através das mãos que dele se apossavam, que dispunham dele, evidenciando a propriedade, compreendeu o real sentido de um mundo grosseiro e pesado que ameaçava esmagá-lo. Gritou mais.

Preocupados os pais, o médico os afastou do berçário, dizendo tratar-se de uma simples cólica intestinal.

Inútil qualquer esforço, bebeu, resignado, o chá de erva-doce que o forçavam a engolir. E gostou.



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17 de jun. de 2013

[Literatura] VIRGINIA WOOLF – Tormento e Genialidade


  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO 
  
No dizer de Harold Bloom, Virginia Woolf “foi a mais completa pessoa-de-letras da Inglaterra de nosso século”. Já no que diz respeito à qualidade de sua crítica, ressalta Bloom: “A crítica literária da própria Virginia Woolf me parece muito confusa, sobretudo no julgamento de contemporâneos. Encara Ulisses de Joyce como um desastre, ou os romances de Lawrence como não tendo poder final que faz as coisas inteiras em si”.
Harold Bloom dá realce ao fato de que os ensaios e romances de Virginia Woolf “alargam até as tradições centrais da literatura inglesa em aspectos que renovam além de todo possível alcance de suas polêmicas”. Tais observações, feitas pelo crítico norte-americano, que integram seu livro O Cânone Universal, devem-se a análise que faz sobre o romance Orlando, de Virginia.
Sobre o amor que a escritora inglesa nutria pela leitura, Harold Bloom diz, no seu ensaio, intitulado: ‘Orlando’ de Virginia Woolf: Feminismo como Amor à Leitura: “Talvez tenha havido outros escritores em nosso século que amassem tanto a leitura como Virginia Woolf, mas ninguém desde Hazlitt e Emerson expressou essa paixão de modo tão memorável e proveitoso quanto ela”. Bloom menciona que “O amor, em Orlando, é sempre o amor à leitura, mesmo quando disfarçado de amor por uma mulher ou homem”.
Já no que diz respeito ao romance de Virginia Woolf, há no ensaio de Harold Bloom, acima mencionado, um trecho que merece ser destacado por sua relevância histórica, qual seja: “Encontraremos algum dia romancistas tão originais e soberbas como Jane Austen, George Eliot e Virginia Woolf, ou uma poeta tão extraordinária e inteligente como Emily Dickinson? Meio século após a morte de Virginia, ela não tem rivais entre romancistas ou críticas, embora elas desfrutem da liberdade que ela profetizou”.
Também Mario Vargas Llosa, extraordinário romancista e crítico, no seu livro A verdade das mentiras, ocupou-se do romance de Virginia Woolf, no seu ensaio, Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, A vida intensa e suntuosa: “O livro apareceu em 1925 e foi o primeiro dos três grandes romances – os outros são Rumo ao farol e As ondas – com os quais Virginia Woolf revolucionaria a arte narrativa de seu tempo, criando uma linguagem capaz de fingir persuasivamente a objetividade humana, os meandros e os ritmos escorregadios da consciência. Sua façanha não é menor que as similares de Marcel Proust e James Joyce, as quais complementa e enriquece com um matiz particular: a sensibilidade feminina”.
Na sua análise sobre o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, Vargas Llosa faz referência ao tema que predomina a temática da escritora, a condição da mulher, com papéis tão insignificantes durante a história, por não terem, as mulheres, dinheiro e um teto para si, tornando-se dependente do homem: “Em Mrs. Dalloway, a realidade tinha sido reinventada a partir de uma perspectiva, na qual expressam, não exclusiva, mas, principalmente, a idiossincrasia e a condição da mulher”.
Virginia Woolf, em cujo registro civil consta a assento do nascimento de Adeline Virginia Stephen, a 25 de janeiro de 1882, em Londres, Inglaterra, sendo a terceira de quatro filhos, de uma família de classe média alta. O pai, Leslie Stephen, descendia da aristocracia intelectual da Inglaterra vitoriana. Foi crítico e o primeiro editor Dictionary of National Biography. Virginia não recebeu educação formal, mas cresceu cercada por livros e intelectuais. Por sua primeira residência passaram visitantes ilustres como Henry James, George Eliot, Henri Lewes. Talvez essa convivência tenha influenciado Virginia, ainda criança, a tornar-se escritora.
Os biógrafos de Virginia Woolf dão ênfase a distinção de dois tipos de marcos, quais sejam, seus livros e suas depressões. No dizer de Alexandra Lemasson, “Uma classificação simplificadora contribuiu para alinhá-la entre os escritores difíceis”. Para Lemasson, “Os mitos têm uma vida dura. No inconsciente coletivo, Virginia Woolf permanece uma mulher passiva e suicida, cuja companhia literária não é nada simpática”.
No ano de 1913, Virginia Woolf sofre a sua primeira depressão. Tal depressão vem na sequência de seu casamento com Leonard Woolf. Na verdade, vem de muito tempo os distúrbios que incapacitam Virginia Stephen. Diz Alexandra Lemasson: “Se, em setembro de 1913, Virginia – tendo há pouco se tornado sra.Woolf – faz uma tentativa de suicídio por ingestão massiva de barbitúricos, ela já tinha, há muito tempo, chamado a atenção para o seu estado”.
Nos anos que se seguem, após o casamento com Virginia, Leonard Woolf demonstra toda a sua capacidade de dedicar-se a esposa. A saúde mental de Virginia Woolf mostra-se mais debilitada: alucinações, agressividade, incapacidade para alimentar-se. As dificuldades multiplicam-se para ela e para o marido, a cada ano que passa. Leonard conforma-se com todas as dificuldades que enfrenta para ajudar Virginia. Leonard passa a ser, além de marido, editor, enfermeiro e tutor.
A vida sexual do casal sempre contou com o pouco interesse que Virginia tinha por Leonard, mesmo antes do casamento. Na lua-de-mel, que passaram na Espanha, ela dedica boa parte do seu tempo para a leitura autores russo. Na realidade, Virginia sentia-se atraída por mulheres. Segundo Quentin Bell, “Madge Symonds foi a primeira mulher a capturar seu coração”. Alexandra Lemasson diz: “É nas relações com mulheres mais velhas que Virginia encontra geralmente estímulo erótico e um reconforto materno”.
Quanto aos relacionamentos com mulheres, Alexandra Lemasson, diz, depois de fazer menção a quatro delas: “Nenhuma dessas relações durará muito tempo, com exceção da que Virginia tem com Violet Dickinson. Ao lado dessa mulher – frisa Lemasson – Virginia encontra não apenas um substituto materno, mas também um guia literário. Depois de Violet – acrescenta – de quem Virginia se desvencilhará assim que ela não lhe for mais indispensável, a romancista só se interessa por mulheres que dividam sua paixão pelas letras. Em 1919, sua relação com a romancista Katherine Mansfield chega a seu auge”.
Depois da morte de Katherine, em 1922, Virginia conhece a jovem Vita Sackville-West, uma jovem romancista de porte masculino, cuja homossexualidade ninguém ignora. Vita é casada com o brilhante diplomata Harold Nicolson, que, por sua vez, não esconde da mulher sua homossexualidade. No início do relacionamento, Virginia não se apaixona por Vita. Em 1926, a relação entre elas toma um rumo mais apaixonado, mas não chega a ameaçar seus casamentos. No plano sexual, o casamento de Virginia é um verdadeiro fracasso. Depois de algum tempo, outras mulheres atraem a atenção de Vita, o que ocasiona grande sofrimento para Virginia.
Alexandra Lemasson discorre sobre essa relação: “É Vita quem falará a Virginia daquela que será sua última grande amiga. Em 1930, Ethel Smyth tem quase 72 anos, mas parece estar, como sempre, em sua melhor forma. Virginia tem 48 anos, mas já se sente velha. No mundo das letras como no da música, uma e outra são personalidades conhecidas. Se Virginia Woolf é admirada e um pouco temida, zombam abertamente da chamada Dama Ethel. É uma mulher sozinha, uma compositora, ridicularizada, por seu comportamento excêntrico e seu porte singular”.
A amizade entre Ethel e Virginia não resiste ao choque causado pela forma com que elas levam em frente suas lutas em favor dos direitos que defendem em prol da mulher no plano social, econômico e político. Quando Ethel pede o apoio a uma questão que defendeu em praça pública, Virginia se recusa categoricamente, por não querer se expor. Virginia, então, escreve em seu Diário: “Não quero ser célebre nem grande. Quero avançar, mudar, abrir meu espírito e meus olhos, recusar ser rotulada e estereotipada. O que conta é liberar-se por si mesma, descobrir suas próprias dimensões, recusar os entraves”.
Ao ver Londres bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, com os escombros e as casas transformadas em cinza, ao longo das ruas pelas quais caminha, Virginia fica fortemente abalada com a destruição que presencia, e, de tal abalo, nunca mais se recuperará.
No dia 27 de março de 1941, Virginia é levada pelo marido, contra sua vontade, à clínica mais próxima. Os médicos pedem que pare de ler, que pare de escrever, que repouse, pois sua saúde mental depende dessas observações. O pesadelo volta a repetir-se, para Virginia: as visões, as alucinações. Combater agora, como fizera antes, tantas vezes, não era mais possível: “Lutei tanto quanto pude, mas não consigo mais”.
Nos dias que se seguem, Virginia escreve para as duas pessoas mais importantes de sua vida – o marido e para sua irmã. Ao marido lembra de seu amor por ele, lembra de sua bondade e de sua paciência; de sentir que não pode atravessar um novo episódio de demência. “Se alguém tivesse podido me salvar, teria sido você”. Ninguém poderá salvar Virginia Woolf. Pela primeira vez, Leonard chega tarde demais. Virginia Woolf resolve terminar sua vida pelo suicídio. E, num ato de coragem, joga-se no rio Ouse na manhã do dia 28 de março de 1941, aos 59 anos.
Principais obras de Virginia Woolf: (romance) A viagem, 1915; Noite e dia, 1919; O quatro de Jacob, 1922; Mrs. Dalloway, 1925; Passeio ao farol, 1927; Orlando, 1928; As ondas, 1931; Os anos, 1937; Entre atos, 1941; (contos) The complete Shorter Fiction, 1985 (não ficção) Modern fiction, 1919; O leitor comum, 1925; Um teto todo seu, 1929; Cenas londrinas, 1931; Three Guineas, 1931; The Death of the Month and Other Essays, 1942 – entre outros.

  
REFERÊNCIAS:
BLOOM, Harold. O Cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
VARGAS LLOSA, Julio. A verdade das mentiras. Tradução de  Cordelia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: ARX, 2004.
LEMASSON, Alexandra. Virginia Woolf. Tradução de Ilana Heineberg. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011.


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9 de jun. de 2013

MILAN KUNDERA – Fuentes, Cortázar e Márquez



    [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


O último romance que li de Milan Kundera foi A identidade; antes, li A insustentável leveza do ser e Risíveis amores. A leitura de outras obras do escritor, como A brincadeira, A valsa dos adeuses, A imortalidade, dentre outros, sempre esteve nos meus planos, mas, com as exigências de minha profissão e com tantos autores por ler, fui deixando essas leituras de Kundera para mais tarde.

Agora, depois de ter lido o excelente ensaio de Carlos Fuentes, com o título de "Milan Kundera: O Idílio Secreto", que compõe o seu livro Geografia do Romance, fiquei entusiasmado com a ideia de ler outros romances do escritor tcheco. Fuentes inicia esse ensaio contando a aventura dos três escritores latino-americanos que, em 1968, desembarcaram em Praga: ele, Carlos Fuentes, Julio Cortázar e Gabriel García Márquez.

Fuentes demonstra nesse ensaio todo o seu fascínio por Praga: “Não há cidade mais bonita na Europa. Entre o alto gótico e o século barroco, sua opulência e sua tristeza se consumaram nas bodas da pedra com o rio. Como o personagem de Proust, Praga ganhou o rosto que merece. É difícil voltar a Praga; é impossível esquecê-la. É certo: habitam-na demasiados fantasmas”. A descrição de Praga, cidade de Kundera e de Kafka, por Fuentes, vai mais longe, e é feita com a maestria que é própria desse importante romancista e ensaísta mexicano, que, não faz muito tempo, nos deixou.

Esse ensaio de Fuentes tem como centro o escritor Milan Kundera e sua obra, começando por A brincadeira, publicada em Paris em 1968. Fuentes diz que nesse mesmo ano que conheceu Kundera, foi à capital francesa, por ocasião de sua publicação, para prestigiar o amigo. Conta que esse livro foi elogiado por Claude Gallimard e pelo poeta Aragon; este, que foi o responsável pelo seu prólogo, disse que o romance ”explica o inexplicável”, acrescentando: “É preciso ler este romance. É preciso crer nele”.

Voltando a Praga, onde Fuentes, Cortázar e García Márquez travam amizade com Kundera, fica-se sabendo por esse ensaio do que conversaram na ocasião, como, por exemplo, de como os tchecos viam os russos, que em 1945 os libertaram de Hitler, pelo que diz Kundera: “Como entender que agora entrassem com seus tanques em Praga, para esmagar os comunistas em nome do comunismo, quando deviam estar comemorando o triunfo do comunismo tcheco em nome do internacionalismo socialista?”

No seu ensaio, Fuentes conta que foram a Praga a convite da União de Escritores Tchecos, nesse período estranhíssimo – como diz –, que vai do outono de 1968 a primavera de 1969. E que, nessa época, também tinham ido a Praga: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, além de Nathalie Serraute e outros romancistas franceses, além dos escritores alemães Heinrich Böll e Günter Grass (vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 1972 e 1999, respectivamente).

O tema romance, como não poderia deixar de ser, foi motivo de muita conversa entre esses quatro escritores. Numa dessas conversas, conta Fuentes que Kundera brincou com os três romancistas latino-americanos, dizendo que ele (Kundera) teve o privilégio de ler Kafka no original. Fuentes diz que compartilhava com Kundera de “certa visão do romance como um elemento indispensável, não sacrificável, da civilização (...). O romance, gênero supostamente em agonia, tem tanta vida que deve ser assassinado”.

Com isso, Fuentes faz alusão à severa proibição quanto à publicação e divulgação da obra de Milan Kundera, pelos comunistas, na sua terra natal, a então Tchecoslováquia, como de resto, em todos os países que integravam a extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), fato esse que o forçava a publicar os seus livros em países não comunistas, de modo especial na França. Daí a declaração de Aragon, no prefácio da edição francesa do romance de Kundera, A brincadeira: “O romance é indispensável ao homem, como o pão”.

“Por que” – pergunta Fuentes a si próprio, sobre essa afirmação de Aragon, e logo tem a resposta: “Porque nele se encontrará a chave que o historiador – o mitógrafo vencedor – ignora ou dissimula”. E, a seguir, Fuentes diz qual o ponto de vista de Kundera: “O romance não está ameaçado pelo esgotamento, mas pelo estado ideológico do mundo contemporâneo”. Kundera conclui: “Nada há de mais oposto ao espírito do romance, profundamente ligado à descoberta da relatividade do mundo, do que a mentalidade totalitária, dedicada à implantação de uma verdade única”.

Como que disseram Fuentes e Kundera, nesse último parágrafo, não se pode ter dúvida de que o romance é temido por todos os regimes totalitários, de esquerda ou de direita, porque o romancista conta a verdadeira História da Humanidade, por estar ele (o romancista) imune à pressão totalitária, e por não aceitar que exista uma verdade única. Por isso pode-se ter a certeza de que o romance sobreviverá às ideologias.



REFERÊNCIA:
FUENTES, Carlos. Geografia do Romance. Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993.


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30 de mai. de 2013

[Literatura] JOHN CHEEVER – A Crônica de Whapshot


    
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Não faz muito tempo, pouco mais de dez anos, encontrei, na Feira do Livro de Porto Alegre, um livro do escritor norte-americano John Cheever, nascido em Quincy, Massachusetts, em 1912, cujo título é Até parece o paraíso, editado pela Companhia Das Letras.

Sobre essa obra, o escritor John Upidike escreveu, para The New Yorker: “Encantadora comédia suburbana, tão direta que chega a nos desarmar. Cheever exalta a sublime poesia da vida. Na criação de imagens e acontecimentos é um escritor sem igual na ficção americana contemporânea”.

Diante da qualidade do seu texto, procurei outras obras do escritor; encontrei o romance A Crônica dos Wapshot, que a crítica estadunidense considerou um dos cem melhores romances da língua inglesa; com ele, John Cheever ganhou o importante prêmio National Book Award, em 1958. Mais três importantes prêmios foram conquistados por John Cheever: em 1978, o Prêmio Pulitzer e a Medalha Edward MacDowell; em 1981, a National Medal for Literature.

Embora muito conhecido pelos norte-americanos, pela qualidade de sua obra, John Cheever era, até pouco tempo, desconhecido no Brasil. Por ocasião de sua morte, ocorrida em 1982, na localidade de Ossininng, Nova York, a Folha de S. Paulo publicou apenas um pequeno texto de Paulo Francis, sobre o escritor.

Quando o romance A Crônica dos Wapshot foi lançado nos Estados Unidos, em 1957, os críticos literários receberam a obra com grande surpresa, pelo fato de ter sido esse o primeiro romance do escritor. No Brasil, A Crônica dos Wapshot  foi publicada pela Editora ARX, em 2002.

Na data do lançamento do romance A Crônica dos Wapshot, John Cheever estava com 45 anos de idade; há muitos anos o escritor dedicava-se quase que inteiramente à narrativa curta. Como contista, era comparado por muitos críticos norte-americanos a Anton Tchekhov, escritor russo, que foi um dos nomes mais importantes da narrativa curta, e que influenciou inúmeros escritores de muitas nacionalidades.

Em A Crônica dos Wapshot, Cheever conta a história de uma família de classe média da Nova Inglaterra, na qual estão presentes personagens que a ela dão força e consistência, como é o caso Leander Wapshot, homem tranquilo absorvido pelo trabalho, em seu velho barco, e oprimido pela esposa dominadora, Mrs Wapshot, e por outra mulher, Honora, sua prima excêntrica.

Os dois filhos do casal Wapshot, Moses e Coverly, também são personagens importantes; eles trocam a pequena cidade em que nasceram por Washington, para onde vão à busca de trabalho. Com os acontecimentos, que se intercalam entre Washington e St. Botolphs, a narrativa se desenvolve e ganha grande intensidade.

Segue um trecho do romance A Crônica dos Wapshot, de John Cheever (in Cheever, John.  A Crônica dos Wapshot; [tradução Assef Kfouri] São Paulo: Arx, 2000, p. 269):

“Que coisa frágil é o homem. A despeito dos bagos e da bazófia, um simples sussurro é capaz é de transformar sua alma em cinzas. O gosto de sal numa casca de uva, o cheiro do mar, o calor do sol de primavera, frutos amargos e doces, um grão de areia nos dentes – tudo isso que entendia por vida lhe estava sendo tirado. Onde estavam os crepúsculos serenos de sua velhice? Arrancaria os próprios olhos. Ao ver o brilho de vela em seu navio – ele o trouxera de volta ao porto em meio a ventanias e tempestades – sentiu-se espectral e desvirilizado. Foi à gaveta da cômoda e pegou, debaixo da rosa desidratada e da trança de cabelo, a pistola carregada. Aproximou-se da janela. Os fogos do dia se extinguiam como uma conflagração numa cidade industrial, e acima da cúpula do celeiro viu a estrela Vésper, doce e rotunda feito lágrima humana. Disparou a pistola pela janela e caiu no chão”.



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14 de mai. de 2013

GABRIEL GARCIA MARQUEZ – Mistérios da Novela Policial



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Bem antes de receber o galardão do Prêmio Nobel de Literatura com a sua magistral obra, Cem anos de solidão, de ter publicado outras tantas obras como O amor nos tempos do cólera, Crônica de uma morte anunciada, Funerais de mamãe grande, Ninguém escreve ao coronel, O sequestro  O outono do patriarca  A incrível história de Cândida Erêndira, entre outras, e, a mais recente, Memória de minhas putas tristes, Gabriel Garcia Marques, bem antes, escreveu artigos para o jornal colombiano El Universal, quando tinha apenas aos 20 anos; Marques chegou a exercer o cargo de redator do El Universal.

Os seus artigos, escritos no período de 1948 a 1952, foram reunidos nos 2 volumes do livro Textos do Caribe, publicados no Brasil pela Editora Record, com compilação de Jacques Gilard e tradução de Joel Silveira. Do seu segundo volume, escolhi o artigo Mistérios da Novela Policial, que a seguir transcrevo  (In Textos do Caribe/Gabriel Garcia Marques, tradução de Joel Silveira, Rio de Janeiro: Record, 1981. v. 2):

“A novela policial é um dos grandes enigmas da literatura. Para decifrar o mistério de sua existência e de sua prosperidade é possível que não faça falta um crítico, mas um detetive literário. Os acadêmicos se empenham em não dar importância a essa espécie de leitura, mas a maioria deles é constituída de apaixonados leitores clandestinos de novelas policiais. Esse (e outros casos) permite pensar que a paixão pela aventuras detetivescas é biologicamente regida pelos mecanismos dos vícios. É como fumar, apostar na loteria ou injetar-se morfina. Daí sua avassaladora popularidade, e daí também a circunstância de que até agora ninguém tenha podido explicar por que gosta das novelas policiais.

Quase todos os bobos já esgotaram os livros de Ellery Queen. Mas quando pretendem dissimular sua mania boba, cobrem o livro com uma capa do Dom Quixote e ficam a lê-lo tranquilamente nos lugares públicos. Todos aqueles que têm alguma ideia de como “andam as coisas” e se esforça para que todo o mundo saiba disso, leem o Quixote em casa e vão para a rua ler novelas policiais. Atualmente, para os intelectuais, é prova de bom gosto dedicar-se a essa espécie de leitura. Mas a verdade é que o autêntico leitor de novelas policiais não submete sua paixão a quaisquer condições, nem sabe se se trata de uma preferência boa ou má; e nem parece ter o menor interesse em averiguá-lo. É possível que esse seja um tipo sem importância. Mas sem dúvida foi ele que tornou interessante a novela policial. Talvez interesse saber, aos que praticam tal vício, que o presidente Roosevelt era um irremediável leitor de mistérios policiais. Na Conferência de Yalta, enquanto se planejava o golpe final contra os nazistas, Stalin consumia grandes quantidades de vodka, Churchill fumava caixas de charutos e Roosevelt lia novelas policiais. Cada qual na sua. Não seria loucura imaginar que se Hitler tivesse lido Conan Doyle talvez tivesse dado uma pequena virada na história da última guerra.

Entre os fatores que contribuem para confundir os estudiosos da novela policial, destaca-se o fato de ter esse gênero de literatura cada vez mais êxito, apesar de ser uma espécie irregular, às vezes capenga. Um marxista diria, exaltado, que a novela policial, como todas as coisas vistas pelos marxistas, inclusive eles próprios, “traz consigo o germe da própria destruição”. O mais bem engendrado enigma detetivesco derrota-se a si mesmo, isso porque o que ele tem de mais extraordinário, que é precisamente o enigmático, destrói-se invariavelmente com uma coisa tão simples e boba como é a lógica.

Nessa regra, só conheço duas exceções: O Mistério de Edwin Drood, de Dickens, e o Édipo Rei, de Sófocles. A primeira é uma exceção, porque Dickens morreu precisamente quando havia acabado de propor o enigma e se dispunha a decifrá-lo. A morte tirou à lógica essa oportunidade, de maneira que Dickens foi para o túmulo levando consigo o seu segredo; e deixando os seus leitores saboreando para sempre a curiosidade de saber o que aconteceu a Edwin Drood.

A exceção de Édipo Rei é inexplicável. Trata-se do único caso na literatura policial em que o detetive, após um claro e honrado processo de investigação, descobre que é ele mesmo o assassino do próprio pai. Sófocles mudou as regras antes que as regras tivessem sido inventadas”.



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