17 de jun. de 2013

[Literatura] VIRGINIA WOOLF – Tormento e Genialidade


  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO 
  
No dizer de Harold Bloom, Virginia Woolf “foi a mais completa pessoa-de-letras da Inglaterra de nosso século”. Já no que diz respeito à qualidade de sua crítica, ressalta Bloom: “A crítica literária da própria Virginia Woolf me parece muito confusa, sobretudo no julgamento de contemporâneos. Encara Ulisses de Joyce como um desastre, ou os romances de Lawrence como não tendo poder final que faz as coisas inteiras em si”.
Harold Bloom dá realce ao fato de que os ensaios e romances de Virginia Woolf “alargam até as tradições centrais da literatura inglesa em aspectos que renovam além de todo possível alcance de suas polêmicas”. Tais observações, feitas pelo crítico norte-americano, que integram seu livro O Cânone Universal, devem-se a análise que faz sobre o romance Orlando, de Virginia.
Sobre o amor que a escritora inglesa nutria pela leitura, Harold Bloom diz, no seu ensaio, intitulado: ‘Orlando’ de Virginia Woolf: Feminismo como Amor à Leitura: “Talvez tenha havido outros escritores em nosso século que amassem tanto a leitura como Virginia Woolf, mas ninguém desde Hazlitt e Emerson expressou essa paixão de modo tão memorável e proveitoso quanto ela”. Bloom menciona que “O amor, em Orlando, é sempre o amor à leitura, mesmo quando disfarçado de amor por uma mulher ou homem”.
Já no que diz respeito ao romance de Virginia Woolf, há no ensaio de Harold Bloom, acima mencionado, um trecho que merece ser destacado por sua relevância histórica, qual seja: “Encontraremos algum dia romancistas tão originais e soberbas como Jane Austen, George Eliot e Virginia Woolf, ou uma poeta tão extraordinária e inteligente como Emily Dickinson? Meio século após a morte de Virginia, ela não tem rivais entre romancistas ou críticas, embora elas desfrutem da liberdade que ela profetizou”.
Também Mario Vargas Llosa, extraordinário romancista e crítico, no seu livro A verdade das mentiras, ocupou-se do romance de Virginia Woolf, no seu ensaio, Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, A vida intensa e suntuosa: “O livro apareceu em 1925 e foi o primeiro dos três grandes romances – os outros são Rumo ao farol e As ondas – com os quais Virginia Woolf revolucionaria a arte narrativa de seu tempo, criando uma linguagem capaz de fingir persuasivamente a objetividade humana, os meandros e os ritmos escorregadios da consciência. Sua façanha não é menor que as similares de Marcel Proust e James Joyce, as quais complementa e enriquece com um matiz particular: a sensibilidade feminina”.
Na sua análise sobre o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, Vargas Llosa faz referência ao tema que predomina a temática da escritora, a condição da mulher, com papéis tão insignificantes durante a história, por não terem, as mulheres, dinheiro e um teto para si, tornando-se dependente do homem: “Em Mrs. Dalloway, a realidade tinha sido reinventada a partir de uma perspectiva, na qual expressam, não exclusiva, mas, principalmente, a idiossincrasia e a condição da mulher”.
Virginia Woolf, em cujo registro civil consta a assento do nascimento de Adeline Virginia Stephen, a 25 de janeiro de 1882, em Londres, Inglaterra, sendo a terceira de quatro filhos, de uma família de classe média alta. O pai, Leslie Stephen, descendia da aristocracia intelectual da Inglaterra vitoriana. Foi crítico e o primeiro editor Dictionary of National Biography. Virginia não recebeu educação formal, mas cresceu cercada por livros e intelectuais. Por sua primeira residência passaram visitantes ilustres como Henry James, George Eliot, Henri Lewes. Talvez essa convivência tenha influenciado Virginia, ainda criança, a tornar-se escritora.
Os biógrafos de Virginia Woolf dão ênfase a distinção de dois tipos de marcos, quais sejam, seus livros e suas depressões. No dizer de Alexandra Lemasson, “Uma classificação simplificadora contribuiu para alinhá-la entre os escritores difíceis”. Para Lemasson, “Os mitos têm uma vida dura. No inconsciente coletivo, Virginia Woolf permanece uma mulher passiva e suicida, cuja companhia literária não é nada simpática”.
No ano de 1913, Virginia Woolf sofre a sua primeira depressão. Tal depressão vem na sequência de seu casamento com Leonard Woolf. Na verdade, vem de muito tempo os distúrbios que incapacitam Virginia Stephen. Diz Alexandra Lemasson: “Se, em setembro de 1913, Virginia – tendo há pouco se tornado sra.Woolf – faz uma tentativa de suicídio por ingestão massiva de barbitúricos, ela já tinha, há muito tempo, chamado a atenção para o seu estado”.
Nos anos que se seguem, após o casamento com Virginia, Leonard Woolf demonstra toda a sua capacidade de dedicar-se a esposa. A saúde mental de Virginia Woolf mostra-se mais debilitada: alucinações, agressividade, incapacidade para alimentar-se. As dificuldades multiplicam-se para ela e para o marido, a cada ano que passa. Leonard conforma-se com todas as dificuldades que enfrenta para ajudar Virginia. Leonard passa a ser, além de marido, editor, enfermeiro e tutor.
A vida sexual do casal sempre contou com o pouco interesse que Virginia tinha por Leonard, mesmo antes do casamento. Na lua-de-mel, que passaram na Espanha, ela dedica boa parte do seu tempo para a leitura autores russo. Na realidade, Virginia sentia-se atraída por mulheres. Segundo Quentin Bell, “Madge Symonds foi a primeira mulher a capturar seu coração”. Alexandra Lemasson diz: “É nas relações com mulheres mais velhas que Virginia encontra geralmente estímulo erótico e um reconforto materno”.
Quanto aos relacionamentos com mulheres, Alexandra Lemasson, diz, depois de fazer menção a quatro delas: “Nenhuma dessas relações durará muito tempo, com exceção da que Virginia tem com Violet Dickinson. Ao lado dessa mulher – frisa Lemasson – Virginia encontra não apenas um substituto materno, mas também um guia literário. Depois de Violet – acrescenta – de quem Virginia se desvencilhará assim que ela não lhe for mais indispensável, a romancista só se interessa por mulheres que dividam sua paixão pelas letras. Em 1919, sua relação com a romancista Katherine Mansfield chega a seu auge”.
Depois da morte de Katherine, em 1922, Virginia conhece a jovem Vita Sackville-West, uma jovem romancista de porte masculino, cuja homossexualidade ninguém ignora. Vita é casada com o brilhante diplomata Harold Nicolson, que, por sua vez, não esconde da mulher sua homossexualidade. No início do relacionamento, Virginia não se apaixona por Vita. Em 1926, a relação entre elas toma um rumo mais apaixonado, mas não chega a ameaçar seus casamentos. No plano sexual, o casamento de Virginia é um verdadeiro fracasso. Depois de algum tempo, outras mulheres atraem a atenção de Vita, o que ocasiona grande sofrimento para Virginia.
Alexandra Lemasson discorre sobre essa relação: “É Vita quem falará a Virginia daquela que será sua última grande amiga. Em 1930, Ethel Smyth tem quase 72 anos, mas parece estar, como sempre, em sua melhor forma. Virginia tem 48 anos, mas já se sente velha. No mundo das letras como no da música, uma e outra são personalidades conhecidas. Se Virginia Woolf é admirada e um pouco temida, zombam abertamente da chamada Dama Ethel. É uma mulher sozinha, uma compositora, ridicularizada, por seu comportamento excêntrico e seu porte singular”.
A amizade entre Ethel e Virginia não resiste ao choque causado pela forma com que elas levam em frente suas lutas em favor dos direitos que defendem em prol da mulher no plano social, econômico e político. Quando Ethel pede o apoio a uma questão que defendeu em praça pública, Virginia se recusa categoricamente, por não querer se expor. Virginia, então, escreve em seu Diário: “Não quero ser célebre nem grande. Quero avançar, mudar, abrir meu espírito e meus olhos, recusar ser rotulada e estereotipada. O que conta é liberar-se por si mesma, descobrir suas próprias dimensões, recusar os entraves”.
Ao ver Londres bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, com os escombros e as casas transformadas em cinza, ao longo das ruas pelas quais caminha, Virginia fica fortemente abalada com a destruição que presencia, e, de tal abalo, nunca mais se recuperará.
No dia 27 de março de 1941, Virginia é levada pelo marido, contra sua vontade, à clínica mais próxima. Os médicos pedem que pare de ler, que pare de escrever, que repouse, pois sua saúde mental depende dessas observações. O pesadelo volta a repetir-se, para Virginia: as visões, as alucinações. Combater agora, como fizera antes, tantas vezes, não era mais possível: “Lutei tanto quanto pude, mas não consigo mais”.
Nos dias que se seguem, Virginia escreve para as duas pessoas mais importantes de sua vida – o marido e para sua irmã. Ao marido lembra de seu amor por ele, lembra de sua bondade e de sua paciência; de sentir que não pode atravessar um novo episódio de demência. “Se alguém tivesse podido me salvar, teria sido você”. Ninguém poderá salvar Virginia Woolf. Pela primeira vez, Leonard chega tarde demais. Virginia Woolf resolve terminar sua vida pelo suicídio. E, num ato de coragem, joga-se no rio Ouse na manhã do dia 28 de março de 1941, aos 59 anos.
Principais obras de Virginia Woolf: (romance) A viagem, 1915; Noite e dia, 1919; O quatro de Jacob, 1922; Mrs. Dalloway, 1925; Passeio ao farol, 1927; Orlando, 1928; As ondas, 1931; Os anos, 1937; Entre atos, 1941; (contos) The complete Shorter Fiction, 1985 (não ficção) Modern fiction, 1919; O leitor comum, 1925; Um teto todo seu, 1929; Cenas londrinas, 1931; Three Guineas, 1931; The Death of the Month and Other Essays, 1942 – entre outros.

  
REFERÊNCIAS:
BLOOM, Harold. O Cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
VARGAS LLOSA, Julio. A verdade das mentiras. Tradução de  Cordelia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: ARX, 2004.
LEMASSON, Alexandra. Virginia Woolf. Tradução de Ilana Heineberg. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011.


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9 de jun. de 2013

MILAN KUNDERA – Fuentes, Cortázar e Márquez



    [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


O último romance que li de Milan Kundera foi A identidade; antes, li A insustentável leveza do ser e Risíveis amores. A leitura de outras obras do escritor, como A brincadeira, A valsa dos adeuses, A imortalidade, dentre outros, sempre esteve nos meus planos, mas, com as exigências de minha profissão e com tantos autores por ler, fui deixando essas leituras de Kundera para mais tarde.

Agora, depois de ter lido o excelente ensaio de Carlos Fuentes, com o título de "Milan Kundera: O Idílio Secreto", que compõe o seu livro Geografia do Romance, fiquei entusiasmado com a ideia de ler outros romances do escritor tcheco. Fuentes inicia esse ensaio contando a aventura dos três escritores latino-americanos que, em 1968, desembarcaram em Praga: ele, Carlos Fuentes, Julio Cortázar e Gabriel García Márquez.

Fuentes demonstra nesse ensaio todo o seu fascínio por Praga: “Não há cidade mais bonita na Europa. Entre o alto gótico e o século barroco, sua opulência e sua tristeza se consumaram nas bodas da pedra com o rio. Como o personagem de Proust, Praga ganhou o rosto que merece. É difícil voltar a Praga; é impossível esquecê-la. É certo: habitam-na demasiados fantasmas”. A descrição de Praga, cidade de Kundera e de Kafka, por Fuentes, vai mais longe, e é feita com a maestria que é própria desse importante romancista e ensaísta mexicano, que, não faz muito tempo, nos deixou.

Esse ensaio de Fuentes tem como centro o escritor Milan Kundera e sua obra, começando por A brincadeira, publicada em Paris em 1968. Fuentes diz que nesse mesmo ano que conheceu Kundera, foi à capital francesa, por ocasião de sua publicação, para prestigiar o amigo. Conta que esse livro foi elogiado por Claude Gallimard e pelo poeta Aragon; este, que foi o responsável pelo seu prólogo, disse que o romance ”explica o inexplicável”, acrescentando: “É preciso ler este romance. É preciso crer nele”.

Voltando a Praga, onde Fuentes, Cortázar e García Márquez travam amizade com Kundera, fica-se sabendo por esse ensaio do que conversaram na ocasião, como, por exemplo, de como os tchecos viam os russos, que em 1945 os libertaram de Hitler, pelo que diz Kundera: “Como entender que agora entrassem com seus tanques em Praga, para esmagar os comunistas em nome do comunismo, quando deviam estar comemorando o triunfo do comunismo tcheco em nome do internacionalismo socialista?”

No seu ensaio, Fuentes conta que foram a Praga a convite da União de Escritores Tchecos, nesse período estranhíssimo – como diz –, que vai do outono de 1968 a primavera de 1969. E que, nessa época, também tinham ido a Praga: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, além de Nathalie Serraute e outros romancistas franceses, além dos escritores alemães Heinrich Böll e Günter Grass (vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 1972 e 1999, respectivamente).

O tema romance, como não poderia deixar de ser, foi motivo de muita conversa entre esses quatro escritores. Numa dessas conversas, conta Fuentes que Kundera brincou com os três romancistas latino-americanos, dizendo que ele (Kundera) teve o privilégio de ler Kafka no original. Fuentes diz que compartilhava com Kundera de “certa visão do romance como um elemento indispensável, não sacrificável, da civilização (...). O romance, gênero supostamente em agonia, tem tanta vida que deve ser assassinado”.

Com isso, Fuentes faz alusão à severa proibição quanto à publicação e divulgação da obra de Milan Kundera, pelos comunistas, na sua terra natal, a então Tchecoslováquia, como de resto, em todos os países que integravam a extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), fato esse que o forçava a publicar os seus livros em países não comunistas, de modo especial na França. Daí a declaração de Aragon, no prefácio da edição francesa do romance de Kundera, A brincadeira: “O romance é indispensável ao homem, como o pão”.

“Por que” – pergunta Fuentes a si próprio, sobre essa afirmação de Aragon, e logo tem a resposta: “Porque nele se encontrará a chave que o historiador – o mitógrafo vencedor – ignora ou dissimula”. E, a seguir, Fuentes diz qual o ponto de vista de Kundera: “O romance não está ameaçado pelo esgotamento, mas pelo estado ideológico do mundo contemporâneo”. Kundera conclui: “Nada há de mais oposto ao espírito do romance, profundamente ligado à descoberta da relatividade do mundo, do que a mentalidade totalitária, dedicada à implantação de uma verdade única”.

Como que disseram Fuentes e Kundera, nesse último parágrafo, não se pode ter dúvida de que o romance é temido por todos os regimes totalitários, de esquerda ou de direita, porque o romancista conta a verdadeira História da Humanidade, por estar ele (o romancista) imune à pressão totalitária, e por não aceitar que exista uma verdade única. Por isso pode-se ter a certeza de que o romance sobreviverá às ideologias.



REFERÊNCIA:
FUENTES, Carlos. Geografia do Romance. Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993.


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30 de mai. de 2013

[Literatura] JOHN CHEEVER – A Crônica de Whapshot


    
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Não faz muito tempo, pouco mais de dez anos, encontrei, na Feira do Livro de Porto Alegre, um livro do escritor norte-americano John Cheever, nascido em Quincy, Massachusetts, em 1912, cujo título é Até parece o paraíso, editado pela Companhia Das Letras.

Sobre essa obra, o escritor John Upidike escreveu, para The New Yorker: “Encantadora comédia suburbana, tão direta que chega a nos desarmar. Cheever exalta a sublime poesia da vida. Na criação de imagens e acontecimentos é um escritor sem igual na ficção americana contemporânea”.

Diante da qualidade do seu texto, procurei outras obras do escritor; encontrei o romance A Crônica dos Wapshot, que a crítica estadunidense considerou um dos cem melhores romances da língua inglesa; com ele, John Cheever ganhou o importante prêmio National Book Award, em 1958. Mais três importantes prêmios foram conquistados por John Cheever: em 1978, o Prêmio Pulitzer e a Medalha Edward MacDowell; em 1981, a National Medal for Literature.

Embora muito conhecido pelos norte-americanos, pela qualidade de sua obra, John Cheever era, até pouco tempo, desconhecido no Brasil. Por ocasião de sua morte, ocorrida em 1982, na localidade de Ossininng, Nova York, a Folha de S. Paulo publicou apenas um pequeno texto de Paulo Francis, sobre o escritor.

Quando o romance A Crônica dos Wapshot foi lançado nos Estados Unidos, em 1957, os críticos literários receberam a obra com grande surpresa, pelo fato de ter sido esse o primeiro romance do escritor. No Brasil, A Crônica dos Wapshot  foi publicada pela Editora ARX, em 2002.

Na data do lançamento do romance A Crônica dos Wapshot, John Cheever estava com 45 anos de idade; há muitos anos o escritor dedicava-se quase que inteiramente à narrativa curta. Como contista, era comparado por muitos críticos norte-americanos a Anton Tchekhov, escritor russo, que foi um dos nomes mais importantes da narrativa curta, e que influenciou inúmeros escritores de muitas nacionalidades.

Em A Crônica dos Wapshot, Cheever conta a história de uma família de classe média da Nova Inglaterra, na qual estão presentes personagens que a ela dão força e consistência, como é o caso Leander Wapshot, homem tranquilo absorvido pelo trabalho, em seu velho barco, e oprimido pela esposa dominadora, Mrs Wapshot, e por outra mulher, Honora, sua prima excêntrica.

Os dois filhos do casal Wapshot, Moses e Coverly, também são personagens importantes; eles trocam a pequena cidade em que nasceram por Washington, para onde vão à busca de trabalho. Com os acontecimentos, que se intercalam entre Washington e St. Botolphs, a narrativa se desenvolve e ganha grande intensidade.

Segue um trecho do romance A Crônica dos Wapshot, de John Cheever (in Cheever, John.  A Crônica dos Wapshot; [tradução Assef Kfouri] São Paulo: Arx, 2000, p. 269):

“Que coisa frágil é o homem. A despeito dos bagos e da bazófia, um simples sussurro é capaz é de transformar sua alma em cinzas. O gosto de sal numa casca de uva, o cheiro do mar, o calor do sol de primavera, frutos amargos e doces, um grão de areia nos dentes – tudo isso que entendia por vida lhe estava sendo tirado. Onde estavam os crepúsculos serenos de sua velhice? Arrancaria os próprios olhos. Ao ver o brilho de vela em seu navio – ele o trouxera de volta ao porto em meio a ventanias e tempestades – sentiu-se espectral e desvirilizado. Foi à gaveta da cômoda e pegou, debaixo da rosa desidratada e da trança de cabelo, a pistola carregada. Aproximou-se da janela. Os fogos do dia se extinguiam como uma conflagração numa cidade industrial, e acima da cúpula do celeiro viu a estrela Vésper, doce e rotunda feito lágrima humana. Disparou a pistola pela janela e caiu no chão”.



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14 de mai. de 2013

GABRIEL GARCIA MARQUEZ – Mistérios da Novela Policial



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Bem antes de receber o galardão do Prêmio Nobel de Literatura com a sua magistral obra, Cem anos de solidão, de ter publicado outras tantas obras como O amor nos tempos do cólera, Crônica de uma morte anunciada, Funerais de mamãe grande, Ninguém escreve ao coronel, O sequestro  O outono do patriarca  A incrível história de Cândida Erêndira, entre outras, e, a mais recente, Memória de minhas putas tristes, Gabriel Garcia Marques, bem antes, escreveu artigos para o jornal colombiano El Universal, quando tinha apenas aos 20 anos; Marques chegou a exercer o cargo de redator do El Universal.

Os seus artigos, escritos no período de 1948 a 1952, foram reunidos nos 2 volumes do livro Textos do Caribe, publicados no Brasil pela Editora Record, com compilação de Jacques Gilard e tradução de Joel Silveira. Do seu segundo volume, escolhi o artigo Mistérios da Novela Policial, que a seguir transcrevo  (In Textos do Caribe/Gabriel Garcia Marques, tradução de Joel Silveira, Rio de Janeiro: Record, 1981. v. 2):

“A novela policial é um dos grandes enigmas da literatura. Para decifrar o mistério de sua existência e de sua prosperidade é possível que não faça falta um crítico, mas um detetive literário. Os acadêmicos se empenham em não dar importância a essa espécie de leitura, mas a maioria deles é constituída de apaixonados leitores clandestinos de novelas policiais. Esse (e outros casos) permite pensar que a paixão pela aventuras detetivescas é biologicamente regida pelos mecanismos dos vícios. É como fumar, apostar na loteria ou injetar-se morfina. Daí sua avassaladora popularidade, e daí também a circunstância de que até agora ninguém tenha podido explicar por que gosta das novelas policiais.

Quase todos os bobos já esgotaram os livros de Ellery Queen. Mas quando pretendem dissimular sua mania boba, cobrem o livro com uma capa do Dom Quixote e ficam a lê-lo tranquilamente nos lugares públicos. Todos aqueles que têm alguma ideia de como “andam as coisas” e se esforça para que todo o mundo saiba disso, leem o Quixote em casa e vão para a rua ler novelas policiais. Atualmente, para os intelectuais, é prova de bom gosto dedicar-se a essa espécie de leitura. Mas a verdade é que o autêntico leitor de novelas policiais não submete sua paixão a quaisquer condições, nem sabe se se trata de uma preferência boa ou má; e nem parece ter o menor interesse em averiguá-lo. É possível que esse seja um tipo sem importância. Mas sem dúvida foi ele que tornou interessante a novela policial. Talvez interesse saber, aos que praticam tal vício, que o presidente Roosevelt era um irremediável leitor de mistérios policiais. Na Conferência de Yalta, enquanto se planejava o golpe final contra os nazistas, Stalin consumia grandes quantidades de vodka, Churchill fumava caixas de charutos e Roosevelt lia novelas policiais. Cada qual na sua. Não seria loucura imaginar que se Hitler tivesse lido Conan Doyle talvez tivesse dado uma pequena virada na história da última guerra.

Entre os fatores que contribuem para confundir os estudiosos da novela policial, destaca-se o fato de ter esse gênero de literatura cada vez mais êxito, apesar de ser uma espécie irregular, às vezes capenga. Um marxista diria, exaltado, que a novela policial, como todas as coisas vistas pelos marxistas, inclusive eles próprios, “traz consigo o germe da própria destruição”. O mais bem engendrado enigma detetivesco derrota-se a si mesmo, isso porque o que ele tem de mais extraordinário, que é precisamente o enigmático, destrói-se invariavelmente com uma coisa tão simples e boba como é a lógica.

Nessa regra, só conheço duas exceções: O Mistério de Edwin Drood, de Dickens, e o Édipo Rei, de Sófocles. A primeira é uma exceção, porque Dickens morreu precisamente quando havia acabado de propor o enigma e se dispunha a decifrá-lo. A morte tirou à lógica essa oportunidade, de maneira que Dickens foi para o túmulo levando consigo o seu segredo; e deixando os seus leitores saboreando para sempre a curiosidade de saber o que aconteceu a Edwin Drood.

A exceção de Édipo Rei é inexplicável. Trata-se do único caso na literatura policial em que o detetive, após um claro e honrado processo de investigação, descobre que é ele mesmo o assassino do próprio pai. Sófocles mudou as regras antes que as regras tivessem sido inventadas”.



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28 de abr. de 2013

BERTRAND RUSSEL & Georg Bernard Shaw



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


BERTRAND RUSSEL – matemático e filósofo britânico – nasceu em Trellek, País de Gales, em l872 e morreu em 1970; foi um dos criadores da lógica moderna, e também conhecido pela luta que empreendeu contra o uso das armas nucleares. Além de ter sido distinguido com o recebimento do Prêmio Nobel de Literatura de 1950, discorreu sobre a longa vida de George Bernard Shaw, dizendo que ela poderia ser dividida em três fases: a de crítico musical, polemista, novelista e inimigo da impostura, até aos quarenta anos de idade, na primeira fase; na segunda, autor de comédias, com as quais obteve merecido êxito; na terceira fase de vida surgiu Shaw como profeta, admirado por Santa Joana de Orleans e São José de Moscou. Bertrand Russel diz que o achava encantador e útil nas duas primeiras fases, e que, na terceira e última fase, a sua admiração por ele era limitada.

          Neste espaço apenas parte do ensaio de Bertrand Russel sobre George Bernard Shaw – escritor, jornalista e dramaturgo –, nascido em 26 de julho de 1856, Dublin, Irlanda, e falecido em 2 de novembro de 1950, em St. Lawrence de Ayot, Hertfordshire, Inglaterra, conhecido e admirado na Europa tanto pelo valor intrínseco de sua obra como pelo poder de seu humor sarcástico; nesse ensaio, que faz parte de um dos capítulos de Retratos de Memória, Russel sintetiza o que pensa sobre a obra desse irreverente irlandês, que, já setuagenário, obteve o Prêmio Nobel de Literatura de 1925, e que, por ser avesso ao esnobismo e honrarias, recusou-se a recebê-lo; com relutância, aceitou a distinção, mas pediu que o dinheiro fosse empregado para ajudar a difundir as letras suecas na Grã-Bretanha.

        Segue parte do ensaio de Bertrand Russel sobre Bernard Shaw, que merece nossa atenção, quer por ter sido escrito por um dos filósofos mais importantes do século vinte, quer pelo nome de quem é objeto desse estudo, pela importância de sua obra (In: Retratos de memória e outros ensaios/ Bertrand Russel. Tradução de Brenno Silveira. Rio de Janeiro: Cia. Ed. Nacional, 1958):

“O que havia melhor de seu talento – diz Russel – , ele o revelava como polemista. Se houvesse algo de tolo ou de insincero em seu oponente, Shaw, para delícia dos que estavam de seu lado na disputa, se aferrava infalivelmente ao ponto vulnerável. No começo da Primeira Guerra Mundial, publicou o seu Common Sense about the War. Embora não escrevesse como pacifista, enfureceu a maioria dos patriotas, recusando-se a concordar com o tom moral, grandemente hipócrita, do Governo e seus partidários. Era inteiramente digno de louvor nessa sua atitude, até que passou a adular o governo soviético, perdendo, subitamente, o seu espírito crítico e a sua capacidade de perceber a mistificação, se esta vinha de Moscou”.

Prossegue Russel: “Excelente como era na polêmica, não se saia tão bem quando tinha de expor suas próprias opiniões, que eram um tanto confusas, até que, nos últimos anos adotou o marxismo sistemático. Shaw tinha muitas qualidades que merecem grande admiração. Era inteiramente destituído de medo. Expunha com igual vigor suas opiniões, quer fossem populares ou impopulares. Era implacável para com aqueles que não merecem piedade – mas, às vezes, também o era com pessoas que não mereciam ser suas vítimas. Em suma, pode-se dizer que fez muita coisa boa e algumas nocivas. Como iconoclasta era admirável, mas como ícone nem tanto”.



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20 de abr. de 2013

INGMAR BERGMAN – Mestre do Cinema




PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Os universitários brasileiros dos anos 60 e 70, que se opunham à Ditadura Militar - não os reacionários, como se dizia na época - não se contentavam com as matérias curriculares a que estavam submetidos e voltavam-se para as ideologias contrárias a esse regime político, que lhes fora imposto, bem como para todas as manifestações artísticas que denunciavam a ruptura com a Democracia: o Cinema, o Teatro, a Música e as Artes Plásticas.

Nos dias atuais, os universitários daquela época trabalham nas áreas por eles escolhidas, e, acredito, a maioria deles têm apenas uma vaga lembrança do que se passou naqueles anos de chumbo – mesmo os que se diziam de vanguarda. Por minha vez, tenho bem nítida na memória todos os atos de protestos, não apenas das passeatas e dos discursos proferidos em palanques improvisados, mas também dos protestos feitos por cineastas, teatrólogos, músicos, pintores, etc.

Mas, como essa história é longa, fico apenas com a lembrança do que representava para esses estudantes os importantes diretores de cinema, como o sueco Ingmar Bergman, o mexicano Luís Buñuel (1900-1983), os italianos Vittorio de Sica (1902-1974), Luchino Visconti (1906-1976), Michelangelo Antonioni (1912-2007), Federico Fellini (1920-1993) e Pier Paolo Pasolini (1922-1975).

  Para esses ex-universitários, dentre os quais me incluo e para inúmeros apreciadores do cinema de todo o mundo, o ano de 2007 ficou marcado indelevelmente pela morte de dois gênios do Cinema: Ingmar Bergman e Luchino Visconti. Esses dois cineastas eram os últimos dos que se encontravam no mais alto patamar da Sétima Arte. O legado deixado por eles à Humanidade é de valor incalculável, como, aliás, ocorreu com as obras dos cineastas referidos acima, dentre outros. Possivelmente, o cinema nunca mais terá cineastas como esses. Não sei mesmo se surgirá pelo menos um único gênio, capaz de igualar-se a eles.

Em homenagem modesta a Ingmar Bergman, falecido em 2007, direi alguma coisa sobre sua obra, começando pelo seu livro Face a face, que resultaria no filme com esse mesmo título, que viria a dirigir, tendo como interprete Liv Ullmann – que, sob sua direção, participou ao longo de sua vida de 10 filmes seus. No final de um parágrafo da obra, no qual dizia que, pelo tamanho do manuscrito, o filme seria longo, assim se manifestou Bergman: “Tentei em vão comprimi-lo, mas cada coisa tem a sua medida e aprendi também a só interferir e dirigir com muito cuidado, a ação e os diálogos das minhas personagens. No momento de ensaiar, costumávamos encontrar sempre certos pontos que se mostram redundantes ou desnecessários”.

A excelência de seus filmes deveu-se em muito a essa sensibilidade que se somava a uma exigência de busca da perfeição a que se impunha, além da larga experiência obtida ao longo dos anos, desde a sua passagem pelo teatro quando era estudante, como na sua atividade de roteirista no período de 1941 a 1945, quando reescrevia roteiros. O mesmo ocorreu com todos os seus filmes, a partir do primeiro deles, Kris, em 1945. Essa exigência também era dirigida na escolha de seus atores. Os seus preferidos foram Liv Ullmann e Max von Sydow.

Alguns filmes de Bergman, dentre os 52 que dirigiu: O Sétimo Selo (de 1956, ganhador de alguns prêmios em Cannes e responsável pela notoriedade do diretor no final dos anos 50), Morangos silvestres (1957), Através do espelho (1961) Quando duas mulheres pecam – Persona (1966), A hora do lobo (1968), Gritos e sussurros (1972), Cenas de um casamento (1972), A flauta mágica (1974), Face a face (1976), O ovo da serpente (1977), Sonata de outono (1978), Fanny e Alexander (de 1982 – ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1983 – para muitos o melhor de seus filmes).

Mais alguns dos importantes filmes de Bergman: Crise (1945), Música na noite (1948), Porto (1948), Sede de paixões (1949), Monika e o desejo (1952), Sorriso de uma noite de amor (1955), O rosto (1958), A fonte da donzela (1960), Luz de inverno (1962), O silêncio (1963), A paixão de Ana (1969), A hora do amor (1971), Da vida das Marionetas (1980), Depois do ensaio (1984).

O patrimônio cultural legado por Ingmar Bergman é de valor inestimável, como de resto é inestimável o legado cultural dos cineastas contemporâneos seus, já referidos. Sobre eles há muito ainda para ser dito. É o que aguardamos, nós os ex-universitários e seus admiradores daquela época e de hoje, sem querer com isso limitar essa expectativa. E não faltam estudiosos de escol para fazê-lo.

      A propósito, sobre Ingmar Bergman a sua atriz predileta e companheira Liv Ullmann conta em sua obra Mutações algumas passagens de sua vida com esse mestre do cinema, no período que abrange o início do relacionamento amoroso até o seu rompimento. O livro foi dedicado a Linn, filha de Ullmann e Bergman.

Em parte do livro, com o subtítulo Ilhéus, Liv Ulmann narra fatos interessantes relacionados com o diretor e a atriz: “Tenho uma fotografia de Ingmar na escola. Ele está no meio de uma fileira de meninos de treze anos. Vejo que sua pele é espinhenta, reconheço a solidão e a timidez, acredito poder captar seu sentimento de estranheza”.

Prossegue Ulmann: “Uma vez fomos convidados para jantar com um rico produtor de Roma. Devíamos ser os únicos convidados, mas, dentro de meia hora, o grande apartamento do anfitrião estava cheio de gente que tinha sido chamada para conhecer Ingmar de perto. Então, ele teve a mesma expressão daquela foto. Estava pálido, quando disse ao produtor que tinha de sair imediatamente. Os outros se sentaram para jantar sem o convidado de honra”.

Mais adiante, lembra Liv Ullmann: “Filmagem em Farö. Ele estava zangado comigo desde o café da manhã. Eu me encontrava diante de uma casa em chamas. “Mais perto”, ele gritou olhando para dentro da câmara. Fagulhas passavam voando pelas minhas orelhas. “Mais perto!” O calor em meu rosto era tão forte que tive de fechar os olhos. Estava cheia de ódio. “Mais perto!” Mas na tela ficou ótimo”.

Liv Ullmann segue falando de seu relacionamento com Ingmar Bergman: “Ninguém poderia ficar com mais raiva do que Ingmar. Talvez só eu. Uma vez fiquei com tanto medo dele que me tranquei no banheiro. Ele ficou do lado de fora, batendo e dando chutes na porta, na tentativa de entrar. De repente, com horror, vi seu pé atravessar inteiro a porta, como uma bala de canhão, fazendo um grande buraco – e com tanta força que seu chinelo saiu e voou para dentro do vaso”.

          A escritora (sua atriz preferida) fala mais sobre seu relacionamento com Bergman: “Raramente nos entediávamos, juntos. Mas me lembro de uma vez no Jardim Zoológico. Olhávamos para os animais e caminhávamos, caminhávamos e olhávamos para os animais, sem nada para dizer. Embora estivesse fazendo sol e calor. Em seguida, tomamos um chocolate, num restaurante. Ficamos ambos satisfeitos quando o passeio terminou e nos sentamos, cada um lendo um jornal”.

      Liv Ulmann lembra da primeira viagem com Bergman: “Quando fizemos nossa primeira viagem juntos, ele me mandou na frente, com toda a bagagem, para eu poder desfazer as malas e arrumar o quarto de hotel, como se fosse uma casa, para quando ele chegasse. O violento protesto dentro de mim explodiu, depois de vários dias, e, no meio da noite, anunciei que chegáramos ao fim de nosso relacionamento e seria bom ele se levantar e pedir outro quarto para ele. Muito devagar, ele se vestiu. Durante minutos, ficou diante do espelho, penteando o cabelo já um tanto ralo. Parecia o menino na fotografia da escola”.

Mais adiante, Liv Ullmann fala do encontro de Bergman com Fellini: “Quando ele e Fellini se encontraram, tornaram-se irmãos num instante. Abraçaram-se, riram juntos, como se tivessem vivido a mesma vida. Caminhavam pelas ruas, à noite, com os braços passados pelas costas um do outro, Fellini usando uma impressionante capa negra, Ingmar com seu pequeno boné e um casaco velho. O jantar em casa de Fellini, quando Ingmar se sentou num canto com Giulietta Masina, a mulher de Fellini, e ela perdeu sua timidez e começou a cantar. Uma voz alta, clara, como a de uma criança.”

Liv Ullmann termina esse capítulo de Mutações falando sobre o rompimento de seu relacionamento com Bergman: “Um ano depois de nosso rompimento, eu estava sentada nos degraus da igreja São Pedro. O sol brilhava e eu me sentia um tanto apaixonada. Imediatamente percebi que, dali em diante, Roma guardaria outras lembranças além de Ingmar. E lhe escrevi uma carta dizendo que tudo terminara”.

Ingmar Bergman nasceu em 14 de julho de 1918, na cidade universitária de Uppsala, próxima a Estocolmo, e faleceu com 89 anos de idade, em sua casa, na cidade de Farö, Suécia, no dia 30 de julho de 2007.




REFERÊNCIAS:
ULLMANN, Liv. Mutações. Trad.de Sonia Coutinho. São Paulo: Círculo do Livro, 198?, p.134-137.
BERGMAN, Ingmar. Face a Face. 2ª ed. Trad. Jaime Bernardes. Rio de Janeiro: Nórdica, 1976, p. 7.
COMPACTA, Enciclopédia. 100 Anos de Cinema. São Paulo: Editora 3, 1993.



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2 de abr. de 2013

FERNANDO NAMORA – Domingo à Tarde

  
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


FERNANDO NAMORA (Fernando Gonçalves Namora) nasceu a 15 de abril de 1919, em Condeixa (Coimbra), Portugal, e faleceu em Lisboa no dia 31 de Janeiro de 1989. Iniciou o curso secundário em Coimbra, continuou em Lisboa e o concluiu na cidade Coimbra, onde se formou em Medicina, em 1942. Mais tarde, Mário Sacramento escreveria: “Fernando Namora foi, desde sempre, ‘médico-escritor’ e, com o dobrar dos anos, tornou-se ‘escritor-médico’.”

Em 1937 o grande escritor português fez sua estreia nas letras com o livro de poemas Relevos e com o romance Sete partidas do mundo. Em 1940 e 1941 publicou mais dois livros de poesia, Mar de Sargaço e Terra. Em 1959 sua obra poética foi reunida no livro As frias madrugadas. Em 1969 lançou Marketing, outro livro de poesia.

O seu primeiro grande romance foi Fogo na noite escura (1943). Depois foram editadas, entre outras obras de Fernando Namora: Casa de Malta, novela, 1945; A noite e a madrugada, romance, 1950; O trigo e o joio, romance, 1954; O homem disfarçado, romance, 1957.

Fernando Namora recebeu os seguintes prêmios: Prêmio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pelo romance Minas de São Francisco (1946); Prêmio Vértice, pelas narrativas  Retalhos da vida de um médico (1ª série, em 1949); Prêmio José Lins do Rego, pelo romance Domingo à tarde (1961).

O escritor tem seus livros traduzidos para o castelhano, catalão, francês, inglês, alemão, italiano, romeno, checo, russo, esperanto, sueco, holandês, búlgaro etc. Fogo na noite escura é o oitavo livro de Fernando Namora editado no Brasil.

No seu romance Domingo à tarde (Prêmio José Lins do Rego) Fernando Namora conta em uma história densa; o tratamento que dá às personagens deixa transparecer uma sensibilidade incomum; as abordagens que faz sobre a miséria humana, miséria essa que o cerca no seu dia-a-dia no hospital, no qual exerce sua profissão de médico.

Em Domingo à tarde o escritor demonstra saber lidar com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam o hospital, ambiente impregnado de dor, de angústia, de esperança e de desesperança. Namora demonstra ter um profundo conhecimento da alma humana, e faz com que o leitor se torne cúmplice das suas personagens.

 Nesse romance (Domingo à tarde) o escritor desperta no leitor um forte sentimento de compaixão e solidariedade pelos seus infortúnios, sentimentos esses que se mesclam com um traço de culpa, como se quem o lê também seja responsável por todo o caos social que passa a permear a sua narrativa.
          
        Melhor que falar é mostrar um trecho do romance Domingo à tarde, para então podermos concordar com o que diz Fernando Mendonça, sobre o talento desse grande escritor português: "Ler um texto de Fernando Namora é volvermos os olhos para imutável perfeição clássica da nossa língua. A sua elasticidade, o seu equilíbrio e simultaneamente as suas largas pinceladas impressionistas fazem desse texto uma lição permanente da língua portuguesa."

 Segue um trecho do romance Domingo à tarde, de Fernando Namora (In Domingo à tarde/Fernando Namora. Porto Alegre: Globo, 1963, p. 107):


DOMINGO À TARDE (fragmento)
         (Fernando Namora)


PEDIA-ME aqueles nadas que reanimam uma vida. Enfim: a torpe ilusão de que poderia haver um erro ou uma possibilidade. Mas nem só Clarisse necessitava dessa ilusão, embora fosse eu, que também dela necessitava, a última pessoa que a doença pudesse burlar. Não era apenas a magreza, o embaciado amarelento da face, os olhos que começavam a parecer desmedidos, isolados numa paisagem desabitada: as próprias feições se tinham alterado. A gente percebia-lhe, com uma ácida e progressiva nitidez, a corrupção. No entanto, à medida que essa decadência se acentuava, menos eu a queria admitir. Pela primeira vez, por assim dizer, nessa revolta das vísceras, eu fazia a violenta descoberta da morte – através de uma pessoa viva. Durantes as minhas longas vigílias de cigarros trespassava-me o eco de longínquas vozes.


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REFERÊNCIA:
NAMORA, Fernando. Fogo na noite escura. Prefácio de Nelly Novaes Coelho. Notas bibliográficas de João Alves das Neves. São Paulo: Editor Verbo, 1973.

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