30 de mai. de 2013

[Literatura] JOHN CHEEVER – A Crônica de Whapshot


    
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Não faz muito tempo, pouco mais de dez anos, encontrei, na Feira do Livro de Porto Alegre, um livro do escritor norte-americano John Cheever, nascido em Quincy, Massachusetts, em 1912, cujo título é Até parece o paraíso, editado pela Companhia Das Letras.

Sobre essa obra, o escritor John Upidike escreveu, para The New Yorker: “Encantadora comédia suburbana, tão direta que chega a nos desarmar. Cheever exalta a sublime poesia da vida. Na criação de imagens e acontecimentos é um escritor sem igual na ficção americana contemporânea”.

Diante da qualidade do seu texto, procurei outras obras do escritor; encontrei o romance A Crônica dos Wapshot, que a crítica estadunidense considerou um dos cem melhores romances da língua inglesa; com ele, John Cheever ganhou o importante prêmio National Book Award, em 1958. Mais três importantes prêmios foram conquistados por John Cheever: em 1978, o Prêmio Pulitzer e a Medalha Edward MacDowell; em 1981, a National Medal for Literature.

Embora muito conhecido pelos norte-americanos, pela qualidade de sua obra, John Cheever era, até pouco tempo, desconhecido no Brasil. Por ocasião de sua morte, ocorrida em 1982, na localidade de Ossininng, Nova York, a Folha de S. Paulo publicou apenas um pequeno texto de Paulo Francis, sobre o escritor.

Quando o romance A Crônica dos Wapshot foi lançado nos Estados Unidos, em 1957, os críticos literários receberam a obra com grande surpresa, pelo fato de ter sido esse o primeiro romance do escritor. No Brasil, A Crônica dos Wapshot  foi publicada pela Editora ARX, em 2002.

Na data do lançamento do romance A Crônica dos Wapshot, John Cheever estava com 45 anos de idade; há muitos anos o escritor dedicava-se quase que inteiramente à narrativa curta. Como contista, era comparado por muitos críticos norte-americanos a Anton Tchekhov, escritor russo, que foi um dos nomes mais importantes da narrativa curta, e que influenciou inúmeros escritores de muitas nacionalidades.

Em A Crônica dos Wapshot, Cheever conta a história de uma família de classe média da Nova Inglaterra, na qual estão presentes personagens que a ela dão força e consistência, como é o caso Leander Wapshot, homem tranquilo absorvido pelo trabalho, em seu velho barco, e oprimido pela esposa dominadora, Mrs Wapshot, e por outra mulher, Honora, sua prima excêntrica.

Os dois filhos do casal Wapshot, Moses e Coverly, também são personagens importantes; eles trocam a pequena cidade em que nasceram por Washington, para onde vão à busca de trabalho. Com os acontecimentos, que se intercalam entre Washington e St. Botolphs, a narrativa se desenvolve e ganha grande intensidade.

Segue um trecho do romance A Crônica dos Wapshot, de John Cheever (in Cheever, John.  A Crônica dos Wapshot; [tradução Assef Kfouri] São Paulo: Arx, 2000, p. 269):

“Que coisa frágil é o homem. A despeito dos bagos e da bazófia, um simples sussurro é capaz é de transformar sua alma em cinzas. O gosto de sal numa casca de uva, o cheiro do mar, o calor do sol de primavera, frutos amargos e doces, um grão de areia nos dentes – tudo isso que entendia por vida lhe estava sendo tirado. Onde estavam os crepúsculos serenos de sua velhice? Arrancaria os próprios olhos. Ao ver o brilho de vela em seu navio – ele o trouxera de volta ao porto em meio a ventanias e tempestades – sentiu-se espectral e desvirilizado. Foi à gaveta da cômoda e pegou, debaixo da rosa desidratada e da trança de cabelo, a pistola carregada. Aproximou-se da janela. Os fogos do dia se extinguiam como uma conflagração numa cidade industrial, e acima da cúpula do celeiro viu a estrela Vésper, doce e rotunda feito lágrima humana. Disparou a pistola pela janela e caiu no chão”.



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14 de mai. de 2013

GABRIEL GARCIA MARQUEZ – Mistérios da Novela Policial



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Bem antes de receber o galardão do Prêmio Nobel de Literatura com a sua magistral obra, Cem anos de solidão, de ter publicado outras tantas obras como O amor nos tempos do cólera, Crônica de uma morte anunciada, Funerais de mamãe grande, Ninguém escreve ao coronel, O sequestro  O outono do patriarca  A incrível história de Cândida Erêndira, entre outras, e, a mais recente, Memória de minhas putas tristes, Gabriel Garcia Marques, bem antes, escreveu artigos para o jornal colombiano El Universal, quando tinha apenas aos 20 anos; Marques chegou a exercer o cargo de redator do El Universal.

Os seus artigos, escritos no período de 1948 a 1952, foram reunidos nos 2 volumes do livro Textos do Caribe, publicados no Brasil pela Editora Record, com compilação de Jacques Gilard e tradução de Joel Silveira. Do seu segundo volume, escolhi o artigo Mistérios da Novela Policial, que a seguir transcrevo  (In Textos do Caribe/Gabriel Garcia Marques, tradução de Joel Silveira, Rio de Janeiro: Record, 1981. v. 2):

“A novela policial é um dos grandes enigmas da literatura. Para decifrar o mistério de sua existência e de sua prosperidade é possível que não faça falta um crítico, mas um detetive literário. Os acadêmicos se empenham em não dar importância a essa espécie de leitura, mas a maioria deles é constituída de apaixonados leitores clandestinos de novelas policiais. Esse (e outros casos) permite pensar que a paixão pela aventuras detetivescas é biologicamente regida pelos mecanismos dos vícios. É como fumar, apostar na loteria ou injetar-se morfina. Daí sua avassaladora popularidade, e daí também a circunstância de que até agora ninguém tenha podido explicar por que gosta das novelas policiais.

Quase todos os bobos já esgotaram os livros de Ellery Queen. Mas quando pretendem dissimular sua mania boba, cobrem o livro com uma capa do Dom Quixote e ficam a lê-lo tranquilamente nos lugares públicos. Todos aqueles que têm alguma ideia de como “andam as coisas” e se esforça para que todo o mundo saiba disso, leem o Quixote em casa e vão para a rua ler novelas policiais. Atualmente, para os intelectuais, é prova de bom gosto dedicar-se a essa espécie de leitura. Mas a verdade é que o autêntico leitor de novelas policiais não submete sua paixão a quaisquer condições, nem sabe se se trata de uma preferência boa ou má; e nem parece ter o menor interesse em averiguá-lo. É possível que esse seja um tipo sem importância. Mas sem dúvida foi ele que tornou interessante a novela policial. Talvez interesse saber, aos que praticam tal vício, que o presidente Roosevelt era um irremediável leitor de mistérios policiais. Na Conferência de Yalta, enquanto se planejava o golpe final contra os nazistas, Stalin consumia grandes quantidades de vodka, Churchill fumava caixas de charutos e Roosevelt lia novelas policiais. Cada qual na sua. Não seria loucura imaginar que se Hitler tivesse lido Conan Doyle talvez tivesse dado uma pequena virada na história da última guerra.

Entre os fatores que contribuem para confundir os estudiosos da novela policial, destaca-se o fato de ter esse gênero de literatura cada vez mais êxito, apesar de ser uma espécie irregular, às vezes capenga. Um marxista diria, exaltado, que a novela policial, como todas as coisas vistas pelos marxistas, inclusive eles próprios, “traz consigo o germe da própria destruição”. O mais bem engendrado enigma detetivesco derrota-se a si mesmo, isso porque o que ele tem de mais extraordinário, que é precisamente o enigmático, destrói-se invariavelmente com uma coisa tão simples e boba como é a lógica.

Nessa regra, só conheço duas exceções: O Mistério de Edwin Drood, de Dickens, e o Édipo Rei, de Sófocles. A primeira é uma exceção, porque Dickens morreu precisamente quando havia acabado de propor o enigma e se dispunha a decifrá-lo. A morte tirou à lógica essa oportunidade, de maneira que Dickens foi para o túmulo levando consigo o seu segredo; e deixando os seus leitores saboreando para sempre a curiosidade de saber o que aconteceu a Edwin Drood.

A exceção de Édipo Rei é inexplicável. Trata-se do único caso na literatura policial em que o detetive, após um claro e honrado processo de investigação, descobre que é ele mesmo o assassino do próprio pai. Sófocles mudou as regras antes que as regras tivessem sido inventadas”.



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28 de abr. de 2013

BERTRAND RUSSEL & Georg Bernard Shaw



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


BERTRAND RUSSEL – matemático e filósofo britânico – nasceu em Trellek, País de Gales, em l872 e morreu em 1970; foi um dos criadores da lógica moderna, e também conhecido pela luta que empreendeu contra o uso das armas nucleares. Além de ter sido distinguido com o recebimento do Prêmio Nobel de Literatura de 1950, discorreu sobre a longa vida de George Bernard Shaw, dizendo que ela poderia ser dividida em três fases: a de crítico musical, polemista, novelista e inimigo da impostura, até aos quarenta anos de idade, na primeira fase; na segunda, autor de comédias, com as quais obteve merecido êxito; na terceira fase de vida surgiu Shaw como profeta, admirado por Santa Joana de Orleans e São José de Moscou. Bertrand Russel diz que o achava encantador e útil nas duas primeiras fases, e que, na terceira e última fase, a sua admiração por ele era limitada.

          Neste espaço apenas parte do ensaio de Bertrand Russel sobre George Bernard Shaw – escritor, jornalista e dramaturgo –, nascido em 26 de julho de 1856, Dublin, Irlanda, e falecido em 2 de novembro de 1950, em St. Lawrence de Ayot, Hertfordshire, Inglaterra, conhecido e admirado na Europa tanto pelo valor intrínseco de sua obra como pelo poder de seu humor sarcástico; nesse ensaio, que faz parte de um dos capítulos de Retratos de Memória, Russel sintetiza o que pensa sobre a obra desse irreverente irlandês, que, já setuagenário, obteve o Prêmio Nobel de Literatura de 1925, e que, por ser avesso ao esnobismo e honrarias, recusou-se a recebê-lo; com relutância, aceitou a distinção, mas pediu que o dinheiro fosse empregado para ajudar a difundir as letras suecas na Grã-Bretanha.

        Segue parte do ensaio de Bertrand Russel sobre Bernard Shaw, que merece nossa atenção, quer por ter sido escrito por um dos filósofos mais importantes do século vinte, quer pelo nome de quem é objeto desse estudo, pela importância de sua obra (In: Retratos de memória e outros ensaios/ Bertrand Russel. Tradução de Brenno Silveira. Rio de Janeiro: Cia. Ed. Nacional, 1958):

“O que havia melhor de seu talento – diz Russel – , ele o revelava como polemista. Se houvesse algo de tolo ou de insincero em seu oponente, Shaw, para delícia dos que estavam de seu lado na disputa, se aferrava infalivelmente ao ponto vulnerável. No começo da Primeira Guerra Mundial, publicou o seu Common Sense about the War. Embora não escrevesse como pacifista, enfureceu a maioria dos patriotas, recusando-se a concordar com o tom moral, grandemente hipócrita, do Governo e seus partidários. Era inteiramente digno de louvor nessa sua atitude, até que passou a adular o governo soviético, perdendo, subitamente, o seu espírito crítico e a sua capacidade de perceber a mistificação, se esta vinha de Moscou”.

Prossegue Russel: “Excelente como era na polêmica, não se saia tão bem quando tinha de expor suas próprias opiniões, que eram um tanto confusas, até que, nos últimos anos adotou o marxismo sistemático. Shaw tinha muitas qualidades que merecem grande admiração. Era inteiramente destituído de medo. Expunha com igual vigor suas opiniões, quer fossem populares ou impopulares. Era implacável para com aqueles que não merecem piedade – mas, às vezes, também o era com pessoas que não mereciam ser suas vítimas. Em suma, pode-se dizer que fez muita coisa boa e algumas nocivas. Como iconoclasta era admirável, mas como ícone nem tanto”.



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20 de abr. de 2013

INGMAR BERGMAN – Mestre do Cinema




PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Os universitários brasileiros dos anos 60 e 70, que se opunham à Ditadura Militar - não os reacionários, como se dizia na época - não se contentavam com as matérias curriculares a que estavam submetidos e voltavam-se para as ideologias contrárias a esse regime político, que lhes fora imposto, bem como para todas as manifestações artísticas que denunciavam a ruptura com a Democracia: o Cinema, o Teatro, a Música e as Artes Plásticas.

Nos dias atuais, os universitários daquela época trabalham nas áreas por eles escolhidas, e, acredito, a maioria deles têm apenas uma vaga lembrança do que se passou naqueles anos de chumbo – mesmo os que se diziam de vanguarda. Por minha vez, tenho bem nítida na memória todos os atos de protestos, não apenas das passeatas e dos discursos proferidos em palanques improvisados, mas também dos protestos feitos por cineastas, teatrólogos, músicos, pintores, etc.

Mas, como essa história é longa, fico apenas com a lembrança do que representava para esses estudantes os importantes diretores de cinema, como o sueco Ingmar Bergman, o mexicano Luís Buñuel (1900-1983), os italianos Vittorio de Sica (1902-1974), Luchino Visconti (1906-1976), Michelangelo Antonioni (1912-2007), Federico Fellini (1920-1993) e Pier Paolo Pasolini (1922-1975).

  Para esses ex-universitários, dentre os quais me incluo e para inúmeros apreciadores do cinema de todo o mundo, o ano de 2007 ficou marcado indelevelmente pela morte de dois gênios do Cinema: Ingmar Bergman e Luchino Visconti. Esses dois cineastas eram os últimos dos que se encontravam no mais alto patamar da Sétima Arte. O legado deixado por eles à Humanidade é de valor incalculável, como, aliás, ocorreu com as obras dos cineastas referidos acima, dentre outros. Possivelmente, o cinema nunca mais terá cineastas como esses. Não sei mesmo se surgirá pelo menos um único gênio, capaz de igualar-se a eles.

Em homenagem modesta a Ingmar Bergman, falecido em 2007, direi alguma coisa sobre sua obra, começando pelo seu livro Face a face, que resultaria no filme com esse mesmo título, que viria a dirigir, tendo como interprete Liv Ullmann – que, sob sua direção, participou ao longo de sua vida de 10 filmes seus. No final de um parágrafo da obra, no qual dizia que, pelo tamanho do manuscrito, o filme seria longo, assim se manifestou Bergman: “Tentei em vão comprimi-lo, mas cada coisa tem a sua medida e aprendi também a só interferir e dirigir com muito cuidado, a ação e os diálogos das minhas personagens. No momento de ensaiar, costumávamos encontrar sempre certos pontos que se mostram redundantes ou desnecessários”.

A excelência de seus filmes deveu-se em muito a essa sensibilidade que se somava a uma exigência de busca da perfeição a que se impunha, além da larga experiência obtida ao longo dos anos, desde a sua passagem pelo teatro quando era estudante, como na sua atividade de roteirista no período de 1941 a 1945, quando reescrevia roteiros. O mesmo ocorreu com todos os seus filmes, a partir do primeiro deles, Kris, em 1945. Essa exigência também era dirigida na escolha de seus atores. Os seus preferidos foram Liv Ullmann e Max von Sydow.

Alguns filmes de Bergman, dentre os 52 que dirigiu: O Sétimo Selo (de 1956, ganhador de alguns prêmios em Cannes e responsável pela notoriedade do diretor no final dos anos 50), Morangos silvestres (1957), Através do espelho (1961) Quando duas mulheres pecam – Persona (1966), A hora do lobo (1968), Gritos e sussurros (1972), Cenas de um casamento (1972), A flauta mágica (1974), Face a face (1976), O ovo da serpente (1977), Sonata de outono (1978), Fanny e Alexander (de 1982 – ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1983 – para muitos o melhor de seus filmes).

Mais alguns dos importantes filmes de Bergman: Crise (1945), Música na noite (1948), Porto (1948), Sede de paixões (1949), Monika e o desejo (1952), Sorriso de uma noite de amor (1955), O rosto (1958), A fonte da donzela (1960), Luz de inverno (1962), O silêncio (1963), A paixão de Ana (1969), A hora do amor (1971), Da vida das Marionetas (1980), Depois do ensaio (1984).

O patrimônio cultural legado por Ingmar Bergman é de valor inestimável, como de resto é inestimável o legado cultural dos cineastas contemporâneos seus, já referidos. Sobre eles há muito ainda para ser dito. É o que aguardamos, nós os ex-universitários e seus admiradores daquela época e de hoje, sem querer com isso limitar essa expectativa. E não faltam estudiosos de escol para fazê-lo.

      A propósito, sobre Ingmar Bergman a sua atriz predileta e companheira Liv Ullmann conta em sua obra Mutações algumas passagens de sua vida com esse mestre do cinema, no período que abrange o início do relacionamento amoroso até o seu rompimento. O livro foi dedicado a Linn, filha de Ullmann e Bergman.

Em parte do livro, com o subtítulo Ilhéus, Liv Ulmann narra fatos interessantes relacionados com o diretor e a atriz: “Tenho uma fotografia de Ingmar na escola. Ele está no meio de uma fileira de meninos de treze anos. Vejo que sua pele é espinhenta, reconheço a solidão e a timidez, acredito poder captar seu sentimento de estranheza”.

Prossegue Ulmann: “Uma vez fomos convidados para jantar com um rico produtor de Roma. Devíamos ser os únicos convidados, mas, dentro de meia hora, o grande apartamento do anfitrião estava cheio de gente que tinha sido chamada para conhecer Ingmar de perto. Então, ele teve a mesma expressão daquela foto. Estava pálido, quando disse ao produtor que tinha de sair imediatamente. Os outros se sentaram para jantar sem o convidado de honra”.

Mais adiante, lembra Liv Ullmann: “Filmagem em Farö. Ele estava zangado comigo desde o café da manhã. Eu me encontrava diante de uma casa em chamas. “Mais perto”, ele gritou olhando para dentro da câmara. Fagulhas passavam voando pelas minhas orelhas. “Mais perto!” O calor em meu rosto era tão forte que tive de fechar os olhos. Estava cheia de ódio. “Mais perto!” Mas na tela ficou ótimo”.

Liv Ullmann segue falando de seu relacionamento com Ingmar Bergman: “Ninguém poderia ficar com mais raiva do que Ingmar. Talvez só eu. Uma vez fiquei com tanto medo dele que me tranquei no banheiro. Ele ficou do lado de fora, batendo e dando chutes na porta, na tentativa de entrar. De repente, com horror, vi seu pé atravessar inteiro a porta, como uma bala de canhão, fazendo um grande buraco – e com tanta força que seu chinelo saiu e voou para dentro do vaso”.

          A escritora (sua atriz preferida) fala mais sobre seu relacionamento com Bergman: “Raramente nos entediávamos, juntos. Mas me lembro de uma vez no Jardim Zoológico. Olhávamos para os animais e caminhávamos, caminhávamos e olhávamos para os animais, sem nada para dizer. Embora estivesse fazendo sol e calor. Em seguida, tomamos um chocolate, num restaurante. Ficamos ambos satisfeitos quando o passeio terminou e nos sentamos, cada um lendo um jornal”.

      Liv Ulmann lembra da primeira viagem com Bergman: “Quando fizemos nossa primeira viagem juntos, ele me mandou na frente, com toda a bagagem, para eu poder desfazer as malas e arrumar o quarto de hotel, como se fosse uma casa, para quando ele chegasse. O violento protesto dentro de mim explodiu, depois de vários dias, e, no meio da noite, anunciei que chegáramos ao fim de nosso relacionamento e seria bom ele se levantar e pedir outro quarto para ele. Muito devagar, ele se vestiu. Durante minutos, ficou diante do espelho, penteando o cabelo já um tanto ralo. Parecia o menino na fotografia da escola”.

Mais adiante, Liv Ullmann fala do encontro de Bergman com Fellini: “Quando ele e Fellini se encontraram, tornaram-se irmãos num instante. Abraçaram-se, riram juntos, como se tivessem vivido a mesma vida. Caminhavam pelas ruas, à noite, com os braços passados pelas costas um do outro, Fellini usando uma impressionante capa negra, Ingmar com seu pequeno boné e um casaco velho. O jantar em casa de Fellini, quando Ingmar se sentou num canto com Giulietta Masina, a mulher de Fellini, e ela perdeu sua timidez e começou a cantar. Uma voz alta, clara, como a de uma criança.”

Liv Ullmann termina esse capítulo de Mutações falando sobre o rompimento de seu relacionamento com Bergman: “Um ano depois de nosso rompimento, eu estava sentada nos degraus da igreja São Pedro. O sol brilhava e eu me sentia um tanto apaixonada. Imediatamente percebi que, dali em diante, Roma guardaria outras lembranças além de Ingmar. E lhe escrevi uma carta dizendo que tudo terminara”.

Ingmar Bergman nasceu em 14 de julho de 1918, na cidade universitária de Uppsala, próxima a Estocolmo, e faleceu com 89 anos de idade, em sua casa, na cidade de Farö, Suécia, no dia 30 de julho de 2007.




REFERÊNCIAS:
ULLMANN, Liv. Mutações. Trad.de Sonia Coutinho. São Paulo: Círculo do Livro, 198?, p.134-137.
BERGMAN, Ingmar. Face a Face. 2ª ed. Trad. Jaime Bernardes. Rio de Janeiro: Nórdica, 1976, p. 7.
COMPACTA, Enciclopédia. 100 Anos de Cinema. São Paulo: Editora 3, 1993.



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2 de abr. de 2013

FERNANDO NAMORA – Domingo à Tarde

  
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


FERNANDO NAMORA (Fernando Gonçalves Namora) nasceu a 15 de abril de 1919, em Condeixa (Coimbra), Portugal, e faleceu em Lisboa no dia 31 de Janeiro de 1989. Iniciou o curso secundário em Coimbra, continuou em Lisboa e o concluiu na cidade Coimbra, onde se formou em Medicina, em 1942. Mais tarde, Mário Sacramento escreveria: “Fernando Namora foi, desde sempre, ‘médico-escritor’ e, com o dobrar dos anos, tornou-se ‘escritor-médico’.”

Em 1937 o grande escritor português fez sua estreia nas letras com o livro de poemas Relevos e com o romance Sete partidas do mundo. Em 1940 e 1941 publicou mais dois livros de poesia, Mar de Sargaço e Terra. Em 1959 sua obra poética foi reunida no livro As frias madrugadas. Em 1969 lançou Marketing, outro livro de poesia.

O seu primeiro grande romance foi Fogo na noite escura (1943). Depois foram editadas, entre outras obras de Fernando Namora: Casa de Malta, novela, 1945; A noite e a madrugada, romance, 1950; O trigo e o joio, romance, 1954; O homem disfarçado, romance, 1957.

Fernando Namora recebeu os seguintes prêmios: Prêmio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pelo romance Minas de São Francisco (1946); Prêmio Vértice, pelas narrativas  Retalhos da vida de um médico (1ª série, em 1949); Prêmio José Lins do Rego, pelo romance Domingo à tarde (1961).

O escritor tem seus livros traduzidos para o castelhano, catalão, francês, inglês, alemão, italiano, romeno, checo, russo, esperanto, sueco, holandês, búlgaro etc. Fogo na noite escura é o oitavo livro de Fernando Namora editado no Brasil.

No seu romance Domingo à tarde (Prêmio José Lins do Rego) Fernando Namora conta em uma história densa; o tratamento que dá às personagens deixa transparecer uma sensibilidade incomum; as abordagens que faz sobre a miséria humana, miséria essa que o cerca no seu dia-a-dia no hospital, no qual exerce sua profissão de médico.

Em Domingo à tarde o escritor demonstra saber lidar com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam o hospital, ambiente impregnado de dor, de angústia, de esperança e de desesperança. Namora demonstra ter um profundo conhecimento da alma humana, e faz com que o leitor se torne cúmplice das suas personagens.

 Nesse romance (Domingo à tarde) o escritor desperta no leitor um forte sentimento de compaixão e solidariedade pelos seus infortúnios, sentimentos esses que se mesclam com um traço de culpa, como se quem o lê também seja responsável por todo o caos social que passa a permear a sua narrativa.
          
        Melhor que falar é mostrar um trecho do romance Domingo à tarde, para então podermos concordar com o que diz Fernando Mendonça, sobre o talento desse grande escritor português: "Ler um texto de Fernando Namora é volvermos os olhos para imutável perfeição clássica da nossa língua. A sua elasticidade, o seu equilíbrio e simultaneamente as suas largas pinceladas impressionistas fazem desse texto uma lição permanente da língua portuguesa."

 Segue um trecho do romance Domingo à tarde, de Fernando Namora (In Domingo à tarde/Fernando Namora. Porto Alegre: Globo, 1963, p. 107):


DOMINGO À TARDE (fragmento)
         (Fernando Namora)


PEDIA-ME aqueles nadas que reanimam uma vida. Enfim: a torpe ilusão de que poderia haver um erro ou uma possibilidade. Mas nem só Clarisse necessitava dessa ilusão, embora fosse eu, que também dela necessitava, a última pessoa que a doença pudesse burlar. Não era apenas a magreza, o embaciado amarelento da face, os olhos que começavam a parecer desmedidos, isolados numa paisagem desabitada: as próprias feições se tinham alterado. A gente percebia-lhe, com uma ácida e progressiva nitidez, a corrupção. No entanto, à medida que essa decadência se acentuava, menos eu a queria admitir. Pela primeira vez, por assim dizer, nessa revolta das vísceras, eu fazia a violenta descoberta da morte – através de uma pessoa viva. Durantes as minhas longas vigílias de cigarros trespassava-me o eco de longínquas vozes.


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REFERÊNCIA:
NAMORA, Fernando. Fogo na noite escura. Prefácio de Nelly Novaes Coelho. Notas bibliográficas de João Alves das Neves. São Paulo: Editor Verbo, 1973.

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25 de mar. de 2013

[Poesia] JOÃO CABRAL– Volta a Pernambuco



                         [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]
       

Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 1968, João Cabral de Melo Neto respondeu a uma pergunta feita sobre inspiração:

“Inspiração não tenho nunca. Aliás, como diz Auden, a poesia procura a gente até os 25 anos. Depois, é a gente que tem de procurá-la, inspirá-la. Confesso que desde o início construí minha poesia. Rendimento é uma questão de trabalho e método. De sentar todos os dias à mesma hora. O rendimento dos primeiros dias pode ser menor, mas depois se torna regular.”

Em 1958 a José Olympio Editora publicou o livro de João Cabral de Melo Neto intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos). Esse volume encerrou as obras publicadas em Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, 1954, e estes outros livros: Morte e Severina, Paisagens com Figuras, Uma Faca só Lâmina.

Os Poemas Reunidos citados compreendiam: Pedra do Sono, Recife, 1942; Os três Mal-Amados, 1943; O Engenheiro, Rio, 1945; Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, Barcelona, 1947, e O cão sem plumas, Barcelona, 1950. Esses livros - editados no volume intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos) - sofreram algumas modificações, que o poeta considerou-os definitivos.
      
Segue o poema Volta a Pernambuco, de João Cabral de Melo Neto (In Duas Águas/João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958. p. 55-56):



VOLTA A PERNAMBUCO
        [ JOÃO CABRAL DE MELO NETO ]

A Benedito Coutinho



Contemplando a maré baixa
nos mangues de Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio,
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife surgiu.

As janelas do cais da Aurora,
olhos cumpridos, vadios,
incansáveis como em Chelsea
veem rio substituir rio,

e estas várzeas de Tiúma,
com seus estendais de cana,
vem devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.

(Culturas de folhas finas
e mais discreta presença,
lá como aqui, dos desertos
possuem a transparência,

e o canavial me devolve,
na luz de páramo puro,
um mar sem ilha, os trigais
onde senti Pernambuco.)

Mas as lajes da cidade
não me devolvem só uma,
nem foi uma só cidade
que me lembrou estas ruas.

As cidades se parecem
nas pedras do calçamento,
artérias iguais regando
faces de vário cimento,

por onde iguais procissões
do trabalho (sem ardor)
vão levar o seu produto
aos mercados do suor.

Todas lembram o Recife,
este em todas se situa,
em todas em que é um crime
para o povo estar na rua,

em todas em que este crime
– traço comum que surpreende –
pôs nódoas de vida humana
nas pedras do pavimento.




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REFERÊNCIA:
ATHAYDE, Félix de. Idéias fixas de João Cabral de Melo Neto. 4ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: FBN; Mogi das Cruzes, SP: Universidade de Mogi das Cruzes, 1998, p. 48.



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16 de mar. de 2013

GIORGIO DEL VECCHIO – Filosofia do Direito

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 [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]

       
Até o início de 1967, ano em que iniciei meus estudos jurídicos na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica em Porto Alegre (RS), o meu contato com a Filosofia deu-se com alguns de seus nomes mais representativos, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles, Montaigne, Maquiavel, Voltaire, Nietzche, Bertrand Russel, Ortega Y Casset, Jean-Paul Sartre, Camus, e outros; até então não havia tido qualquer aproximação com a Filosofia do Direito, que, de resto, não tinha o menor significado para mim, até que, por força curricular, fui instado a estudá-la; a obra, que viria a me lançar nessa experiência, foi Filosofia do Direito, do jurista Miguel Reale. A partir daí, procurei familiarizar-me com outros filósofos do direito, o que efetivamente ocorreu.

Dentre os filósofos do Direito há que mencionar Savigny, Jhering e Hans Kelsen, na Europa; no Brasil é de ser destacado Miguel Reale e Tércio Sampaio Ferraz jr.; ao tratar da Filosofia do Direito na América Latina em sua obra, Giorgio Del Vecchio destaca como importantes filósofos do Direito, no Brasil: Clóvis Bevilaqua, Sílvio Romero, Pedro Lessa, Pontes de Miranda; E. de Queiroz, Miguel Reale, Paulo Dourado de Gusmão, J. Arruda, R. de Farias Brito, J. Mendes, A. Diniz, J. Serrano, Armando Câmara, entre outros.

No ano de 1972, Lições de Filosofia do Direito, de Giorgio Del Vecchio, foi publicada em Coimbra, Portugal, pela editora Armênio Amado, Editor, Suc., com a tradução de António José Brandão. Da obra de Del Vecchio, professor e jurista, nascido em Bologna, em 1878, e morto em Gênova, em 1970, escolhi trechos do primeiro tema da obra: História da Filosofia do Direito, Considerações Preliminares, como segue:

 “De cada ciência é vantajoso conhecer a história. Mas a importância de tal conhecimento faz-se sentir de modo particular a respeito das disciplinas filosóficas; em estas, o presente, sem o passado, carece de sentido; e o passado revive no presente. Os problemas filosóficos que hoje discutimos são fundamentalmente os mesmos que aos filósofos antigos se mostraram, ainda que de modo germinal ou embrionário. O exame dos sistemas filosóficos, por outro lado, proporciona-nos uma série de experiências lógicas. Ao efetuá-las, aprendemos a ver a que conclusões se chega quando se parte de certas premissas e, assim, a tirar partido da aprendizagem, com o intuito de nos avizinharmos de sistema mais perfeito, que seja produto de mais intensa maturidade, capaz de evitar os erros já entretanto cometidos.

A História da Filosofia é, por conseguinte, meio de estudo e de investigação, e, como tal, poderosa ajuda para o nosso trabalho: oferece-nos repositório de observações, de raciocínios, de distinções, que a um homem só, no decurso da vida, seria impossível ocorrer. Acontece-nos o mesmo que a qualquer artífice atual que, agora, seria incapaz de ser o inventor de todos os instrumentos de sua arte.

No caso particular da Filosofia do Direito, a história dela mostra sobretudo que em todas as épocas se meditou sobre os problemas do Direito e da Justiça. Logo: o fato denuncia que tal problema não é uma invenção artificiosa, mas corresponde à necessidade natural e constante do espírito humano.

A Filosofia do Direito, porém, não se nos depara, nas suas origens, como disciplina autônoma, mas mesclada com a Teologia, a Moral e a Política; só pouco a pouco se operou a sua autonomia. Nos primeiros tempos, a confusão foi completa e, no Oriente, temos o seu melhor exemplo, pois, aí, os livros sagrados apresentam-se simultaneamente como tratados de Cosmogonia, de Moral, e contém elementos de outras ciências, assim teóricas como práticas. Nestes escritos predomina o espírito dogmático. Neles é o direito concebido à maneira de prescrição divina, superior ao poder humano, e, por isso, não como objeto de discussão e ciências, mas tão só de fé.

As leis positivas são também consideradas indiscutíveis; e não se julga suscetível de fiscalização e limite o poder existente, expressão da divindade. Em essa fase, própria dos povos ocidentais, ainda o espírito crítico ainda não se tinha manifestado.Contudo, injusto seria olvidar que muitos destes povos, sobretudo os hebreus, os chineses e os indianos deram notável impulso aos estudos filosóficos, sobretudo no respeitante à Moral...”




REFERÊNCIA
VECCHIO, Giorgio Del. Lições de Filosofia do Direito. Tradução de Antonio José Brandão. Revisão e prefácio de L. Cabral de Moncada. Atualizada por Anselmo de Castro. Coimbra: Armênio Amado, Editor, Suc., 1972.



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