25 de mar. de 2013

[Poesia] JOÃO CABRAL– Volta a Pernambuco



                         [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]
       

Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 1968, João Cabral de Melo Neto respondeu a uma pergunta feita sobre inspiração:

“Inspiração não tenho nunca. Aliás, como diz Auden, a poesia procura a gente até os 25 anos. Depois, é a gente que tem de procurá-la, inspirá-la. Confesso que desde o início construí minha poesia. Rendimento é uma questão de trabalho e método. De sentar todos os dias à mesma hora. O rendimento dos primeiros dias pode ser menor, mas depois se torna regular.”

Em 1958 a José Olympio Editora publicou o livro de João Cabral de Melo Neto intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos). Esse volume encerrou as obras publicadas em Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, 1954, e estes outros livros: Morte e Severina, Paisagens com Figuras, Uma Faca só Lâmina.

Os Poemas Reunidos citados compreendiam: Pedra do Sono, Recife, 1942; Os três Mal-Amados, 1943; O Engenheiro, Rio, 1945; Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, Barcelona, 1947, e O cão sem plumas, Barcelona, 1950. Esses livros - editados no volume intitulado Duas Águas (Poemas Reunidos) - sofreram algumas modificações, que o poeta considerou-os definitivos.
      
Segue o poema Volta a Pernambuco, de João Cabral de Melo Neto (In Duas Águas/João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958. p. 55-56):



VOLTA A PERNAMBUCO
        [ JOÃO CABRAL DE MELO NETO ]

A Benedito Coutinho



Contemplando a maré baixa
nos mangues de Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio,
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife surgiu.

As janelas do cais da Aurora,
olhos cumpridos, vadios,
incansáveis como em Chelsea
veem rio substituir rio,

e estas várzeas de Tiúma,
com seus estendais de cana,
vem devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.

(Culturas de folhas finas
e mais discreta presença,
lá como aqui, dos desertos
possuem a transparência,

e o canavial me devolve,
na luz de páramo puro,
um mar sem ilha, os trigais
onde senti Pernambuco.)

Mas as lajes da cidade
não me devolvem só uma,
nem foi uma só cidade
que me lembrou estas ruas.

As cidades se parecem
nas pedras do calçamento,
artérias iguais regando
faces de vário cimento,

por onde iguais procissões
do trabalho (sem ardor)
vão levar o seu produto
aos mercados do suor.

Todas lembram o Recife,
este em todas se situa,
em todas em que é um crime
para o povo estar na rua,

em todas em que este crime
– traço comum que surpreende –
pôs nódoas de vida humana
nas pedras do pavimento.




*  *

REFERÊNCIA:
ATHAYDE, Félix de. Idéias fixas de João Cabral de Melo Neto. 4ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: FBN; Mogi das Cruzes, SP: Universidade de Mogi das Cruzes, 1998, p. 48.



*  *  *


16 de mar. de 2013

GIORGIO DEL VECCHIO – Filosofia do Direito

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 [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]

       
Até o início de 1967, ano em que iniciei meus estudos jurídicos na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica em Porto Alegre (RS), o meu contato com a Filosofia deu-se com alguns de seus nomes mais representativos, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles, Montaigne, Maquiavel, Voltaire, Nietzche, Bertrand Russel, Ortega Y Casset, Jean-Paul Sartre, Camus, e outros; até então não havia tido qualquer aproximação com a Filosofia do Direito, que, de resto, não tinha o menor significado para mim, até que, por força curricular, fui instado a estudá-la; a obra, que viria a me lançar nessa experiência, foi Filosofia do Direito, do jurista Miguel Reale. A partir daí, procurei familiarizar-me com outros filósofos do direito, o que efetivamente ocorreu.

Dentre os filósofos do Direito há que mencionar Savigny, Jhering e Hans Kelsen, na Europa; no Brasil é de ser destacado Miguel Reale e Tércio Sampaio Ferraz jr.; ao tratar da Filosofia do Direito na América Latina em sua obra, Giorgio Del Vecchio destaca como importantes filósofos do Direito, no Brasil: Clóvis Bevilaqua, Sílvio Romero, Pedro Lessa, Pontes de Miranda; E. de Queiroz, Miguel Reale, Paulo Dourado de Gusmão, J. Arruda, R. de Farias Brito, J. Mendes, A. Diniz, J. Serrano, Armando Câmara, entre outros.

No ano de 1972, Lições de Filosofia do Direito, de Giorgio Del Vecchio, foi publicada em Coimbra, Portugal, pela editora Armênio Amado, Editor, Suc., com a tradução de António José Brandão. Da obra de Del Vecchio, professor e jurista, nascido em Bologna, em 1878, e morto em Gênova, em 1970, escolhi trechos do primeiro tema da obra: História da Filosofia do Direito, Considerações Preliminares, como segue:

 “De cada ciência é vantajoso conhecer a história. Mas a importância de tal conhecimento faz-se sentir de modo particular a respeito das disciplinas filosóficas; em estas, o presente, sem o passado, carece de sentido; e o passado revive no presente. Os problemas filosóficos que hoje discutimos são fundamentalmente os mesmos que aos filósofos antigos se mostraram, ainda que de modo germinal ou embrionário. O exame dos sistemas filosóficos, por outro lado, proporciona-nos uma série de experiências lógicas. Ao efetuá-las, aprendemos a ver a que conclusões se chega quando se parte de certas premissas e, assim, a tirar partido da aprendizagem, com o intuito de nos avizinharmos de sistema mais perfeito, que seja produto de mais intensa maturidade, capaz de evitar os erros já entretanto cometidos.

A História da Filosofia é, por conseguinte, meio de estudo e de investigação, e, como tal, poderosa ajuda para o nosso trabalho: oferece-nos repositório de observações, de raciocínios, de distinções, que a um homem só, no decurso da vida, seria impossível ocorrer. Acontece-nos o mesmo que a qualquer artífice atual que, agora, seria incapaz de ser o inventor de todos os instrumentos de sua arte.

No caso particular da Filosofia do Direito, a história dela mostra sobretudo que em todas as épocas se meditou sobre os problemas do Direito e da Justiça. Logo: o fato denuncia que tal problema não é uma invenção artificiosa, mas corresponde à necessidade natural e constante do espírito humano.

A Filosofia do Direito, porém, não se nos depara, nas suas origens, como disciplina autônoma, mas mesclada com a Teologia, a Moral e a Política; só pouco a pouco se operou a sua autonomia. Nos primeiros tempos, a confusão foi completa e, no Oriente, temos o seu melhor exemplo, pois, aí, os livros sagrados apresentam-se simultaneamente como tratados de Cosmogonia, de Moral, e contém elementos de outras ciências, assim teóricas como práticas. Nestes escritos predomina o espírito dogmático. Neles é o direito concebido à maneira de prescrição divina, superior ao poder humano, e, por isso, não como objeto de discussão e ciências, mas tão só de fé.

As leis positivas são também consideradas indiscutíveis; e não se julga suscetível de fiscalização e limite o poder existente, expressão da divindade. Em essa fase, própria dos povos ocidentais, ainda o espírito crítico ainda não se tinha manifestado.Contudo, injusto seria olvidar que muitos destes povos, sobretudo os hebreus, os chineses e os indianos deram notável impulso aos estudos filosóficos, sobretudo no respeitante à Moral...”




REFERÊNCIA
VECCHIO, Giorgio Del. Lições de Filosofia do Direito. Tradução de Antonio José Brandão. Revisão e prefácio de L. Cabral de Moncada. Atualizada por Anselmo de Castro. Coimbra: Armênio Amado, Editor, Suc., 1972.



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5 de mar. de 2013

RUBEM FONSECA & Sua Obra




[PEDRO LUSO DE CARVALHO]

  
Natural Juiz de Fora, MG, Rubem Fonseca nasceu em 11 de maio de 1925. Formou-se em Direito na cidade do Rio de Janeiro, onde, por alguns anos, exerceu o cargo de Inspetor de Polícia, função pública da qual se exonerou para dedicar-se à literatura. Como contista e romancista teve sua obra publicada em vários países, em muitos deles, como ocorreu no Brasil, recebeu inúmeros prêmios literários, como reconhecimento de sua obra, tanto pelo público como pela crítica especializada.

      Sua extensa obra literária, nos gêneros conto e romance, receberam, dentre os muitos prêmios referidos acima, para citar apenas alguns deles: Pen Club do Brasil (A coleira do cão); Câmara do Livro de São Paulo (A coleira do cão); Associação Paulista de Críticos de Arte (O cobrador); Prêmio Goethe (A grande arte); Prêmio Giuseppe Acerbi, Mantova, Itália (Vaste emozione e pensie imperfeti); Jabuti (O buraco na parede – conto); Prêmio Machado de Assis, Biblioteca Nacional (E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto); Prêmio Eça de Queiroz da União Brasileira de Escritores (A confraria dos Espadas – conto); Prêmio de melhor romance do ano, da Associação Paulista de Críticos de Arte (O doente Molière); Prêmio Luis de Camões, Brasil/Portugal, pelo conjunto da obra, em 2003; 14º Prêmio de Literatura Latino-americana e Caribe Juan Rulfo, México, em 2003.

      Rubem Fonseca também foi premiado como roteirista de cinema pelos roteiros dos filmes: Relatório de um homem casado, dirigido por Flávio Tambelini (prêmio Coruja de Ouro); Stelinha, dirigido por Miguel Faria (prêmio Kikito do Festival de Cinema de Gramado); A grande arte, dirigido por Walter Salles Jr. (prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte).

      Os livros de conto de Rubem Fonseca são: Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965) Lúcia McCartney (1967) Feliz Ano Novo (1975), O cobrador (1979), Romance negro e outras histórias (1992), O Buraco na parede (1995), Histórias de Amor (1997), Confraria dos Espadas (1998), Secreções, excreções e desatinos (2001), Pequenas criaturas (2002), Diário de um Fescenino (2003), 64 Contos de Rubem Fonseca (2004). No gênero romance Rubem Fonseca publicou: O caso Morel (1973), A grande arte (1983), Bufo & Spallanzani (1986), Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988), Agosto (1990), O selvagem da ópera (1994). Novela, Rubem Fonseca escreveu duas: Do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto (1997); O doente Molière (2000).

        O professor de Literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sergius Gonzaga, no seu livro Curso de Literatura Brasileira, Editora Leitura XXI, Porto Alegre, 2004, 1ª edição, no Capítulo Ficção Contemporânea II (1970 aos dias atuais), II Principais Autores, discorre sobre a obra de Rubem Fonseca, dizendo que começou sua carreira na década de 1960 com a publicação de dois livros de contos, e que somente na década de 1970 sua obra começou a ter repercussão. Diz, a seguir, que “Ao lado de Dalton Trevisan, ajudou a revolucionar a história curta no país”.

        No subtítulo O que fica da obra, Sergius Gonzaga afirma: “A novidade temática e formal da obra de Rubem Fonseca logo seduziu o leitor brasileiro e mesmo o do exterior. E com razão. Contos como A força humanaGazelaA coleira do cãoCorações solitáriosOnze de março e O buraco na parede são, entre outros, legítimas obras-primas. De seus romances, destacam-se O caso Morel e A grande arte, que estão entre os títulos mais expressivos da ficção brasileira pós 1970. Outros, como AgostoVastas emoções e pensamentos imperfeitos e Bufo & Spallanzani, ainda que não sejam obras fundamentais, possibilitam uma leitura agradável. O estilo despojado, por vezes elíptico, os diálogos convincentes, o experimentalismo formal e o realismo com que Rubem Fonseca revela e interpreta a vida urbana brasileira forma logo imitados. É hoje o escritor que mais tem seguidores no país. A maioria destes, contudo, não possui a mesma inspiração, caindo na banalidade jornalística, na fotografia gratuita da violência ou em um vulgar gosto pela morbidez”.


  

REFERÊNCIA:
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: Editora Leitura XXI, 2004.


  
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1 de mar. de 2013

ALBERT EINSTEIN – Carta para Sigmund Freud



                               [PEDRO LUSO DE CARVALHO]


          As cartas, de pessoas ligadas aos mais variados ramos do conhecimento, constituem-se em documentos importantes para a História da Ciência e das Artes, como para a História da Civilização, uma vez que o missivista relata fatos de uma determinada época sobre a existência de acontecimentos, como ocorre com os documentos oficiais (institucionais), que, igualmente, se prestam, como ensina Jolivet, para o estudo dos fatos do passado que influíram na evolução das sociedades humanas.

          Sendo assim, não se faz necessário fazer qualquer comentário sobre a carta que Albert Einstein escreveu a Sigmund Freud, que passou a integrar o livro Vida e Obra de Sigmund Freud, escrito por Ernest Jones, o biógrafo mais importante do criador da Psicanálise:

             Princeton. 21.4.1936
            Verehrter Herr Freud:
        Sinto-me contente de que esta geração tenha a boa sorte de poder valer-se da oportunidade para expressar-lhe o seu o seu respeito e a sua gratidão, na qualidade de um dos seus maiores educadores. Indubitavelmente, o seu trabalho não criou facilidades para as pessoas leigas, marcadas pelo ceticismo, viessem a formular um julgamento independente a respeito. Até a bem pouco tempo podia eu aprender tão-somente o poder especulativo de suas concepções, juntamente com a sua enorme influência sobre a Weltanschauung da era presente, sem achar-me em condições de formar uma opinião conclusiva acerca do grau de verdade que nelas se continha.
      Não há muito tempo, no entanto, tive a oportunidade de ouvir umas poucas coisas, em si mesmas não muito importantes, que, segundo o meu juízo, excluem qualquer outra interpretação que não seja a oferecida pela teoria da repressão. Senti-me satisfeito em ter dado com essas coisas, já que é sempre encantador quando uma grande e bela concepção prova a sua harmonia com as coisas da realidade.
                                                                                                    Seu       
                                                                                                   A. Einstein
P.S.: Por favor, não responda a esta carta. Meu prazer em valer-me da ocasião para escrever-lha já me é suficiente.
        

REFERÊNCIAS:
JOLIVET, Régis. Vocabulário de Filosofia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1975, p. 110.
JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p. 743-744.



                                                                     *  *  *


26 de fev. de 2013

SIGMUND FREUD – Resposta a Albert Einstein



.            [PEDRO LUSO DE CARVALHO]

     
     No final da carta que escreveu para Sigmund Freud, em post scriptum, Albert Einstein pediu-lhe: “Por favor, não responda a esta carta. Meu prazer em valer-me da ocasião para escrever-lha já me é suficiente”. Tal pedido, no entanto, não foi por atendido por Freud, que, segundo Ernest Jones (Vida e Obra de Sigmund Freud), não tardou a responder-lhe:
       
        Viena, 3.5.1936
        Verehrter Herr Einstein:
       
         São vãs as sua objeções para que eu não responda à suas amável carta. Efetivamente preciso dizer-lhe quão satisfeito fiquei da alteração havida no seu julgamento – ou, pelo menos, início de alteração. Sem dúvida que eu sempre soube que você me “admirava” por uma questão de cortesia e que acreditava muito pouco em quaisquer das minhas doutrinas, embora freqüentemente eu me perguntasse a mim mesmo o que, na verdade, havia nelas para ser admiradas, se não fossem a expressão da verdade, isto é, se não contivessem uma larga medida de verdade.
      Incidentalmente, não acredita você que eu teria sido mais bem tratado se as minhas doutrinas contivessem uma porcentagem maior de erros e de extravagâncias? Você é tão mais moço do que eu que posso esperar contá-lo entre meus “seguidores” quando atingir a minha idade. Uma vez que, então, não poderei certificar-me disso, antecipo agora o prazer dessa possibilidade. (Você bem sabe o que se passa na minha cabeça: ein Vorgefühl von solchem Glück geniesse ich etc.)

        In herzlicher Ergehenheit und unwandelbarer VerehrungIhr
                                                                                                            Freud.         
        _________                  
        NOTAS:
       
      Albert Einstein nasceu em 14.3.1879, em Ulm, Alemanha, e faleceu em 18.4.1955, em Princeton, EUA. Recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921
       
       Sigmund Freud nasceu em 6.5.1856, em Příbor, República Checa, e faleceu em 23.9.1939, em Londres, Inglaterra.

      A correspondência entre Sigmund Freud e Albert Einstein (Por quê da guerra?), foi publicada em 1933, na Europa e nos Estados Unidos.



       REFERÊNCIA:
      JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p.744-745.



                                                                     *  *  *

22 de jan. de 2013

EZRA POUND & The Paris Review


                  [PEDRO LUSO DE CARVALHO]

        Este é o meu segundo texto sobre Ezra Pound, poeta, músico e crítico literário; no primeiro, fiz um comentário sobre o seu livro A Arte da Poesia, editado pela Cultrix em 1976. Neste artigo, abordarei alguns aspectos da vida do poeta e farei a transcrição de um trecho da entrevista publicada inicialmente pela The Paris Review, em 1957, e depois editada em forma de livro (Writers at Work), em 1958 e 1963, pela The Vikink Press, Inc., Nova Iorque.

        Alguma coisa a ser dita sobre a vida de Ezra Pound: nasceu em 30 de outubro de 1885, em Hailey (Idaho), EUA. Foi educado na Universidade de Pensilvânia e no Hamilton College. O seu primeiro livro foi publicado em 1908 na cidade de Veneza, Itália. Dono de uma vasta obra, publicou cerca de 90 volumes de poesia, crítica e traduções de importantes poetas.

        Ezra Pound viveu muitos anos na Europa, primeiramente em Londres, na década de 1920 em Paris, depois na Itália, onde teria aderido ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, adesão que foi por ele negada. O fato é que proferia palestra pelo rádio denunciando a participação dos Aliados contra os países que integravam o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Preso pelos norte-americanos em 1945, foi levado para Pisa onde ficava o seu Centro de Adestramento Militar. Aí teve um tratamento extremamente rigoroso: foi jogado numa jaula improvisada com tiras de metal, onde dormia sob uma lâmpada continuamente acesa, e sobre cobertores colocados sobre o concreto.

        Em decorrência desse tratamento cruel, na terceira semana subseqüente à sua prisão Pound sofreu um colapso nervoso, que o deixou com amnésia parcial, além de outra seqüela, a claustrofobia. Mesmo assim foi mantido na prisão por seis meses, sem qualquer contato com outras pessoas, o que agravou mais ainda sua saúde, já debilitada pelos freqüentes ataques de histeria e de terror. Daí, foi levado para Washington DC, onde ficou internado durante 13 anos, no Hospital Saint Elizabeth, por ter sido considerado portador de demência. Em 1958, os Estados Unidos retirou a acusação de traição. Nesse ano, retornou para a Itália, onde passaria a viver com sua filha.

        Na poesia, Erza Pound destacou-se com Os Cantos, de inspiração erudita e repleta de símbolos. Essa obra foi iniciada em 1917, e a sua última parte, intitulada Thrones, somente foi publicada em 1959; trabalhou em sua obra até o ano de sua morte. Pound publicou também Personae, livro com seus poemas mais curtos, em 1926, que foi reeditado em 1950, com a inclusão de outros poemas; e, em 1962, foi publicada uma tradução de Love Poems of Ancient Egypt; em 1963, a antologia From Confucius to Cumings, editada por Marcella Spann.

        A influência de Ezra Pound e do seu projeto de renovação da linguagem poética fez-se sentir em Joyce, Yeats, William Carlos Williams e particularmente em T. S. Eliot, que submeteu o manuscrito da sua obra The Waste Land à apreciação de Pound antes de o publicar em 1922. As correções feitas por Pound mereceram-lhe a dedicatória de Eliot: "For Ezra Pound, il miglior fabbro" (A Ezra Pound, o melhor artífice), como consta na Wikipédia. Segue, pois, um trecho da entrevista que Erza Pound concedeu a Donald Hall, da The Paris Review:

        “Entrevistador – Um ponto de ligação entre a literatura e a política, que o senhor estabelece em seus escritos, interessa-me particularmente. Em A. B. C. of Reading diz o senhor que os bons escritores são aqueles que mantém eficiente a linguagem, e que essa é a sua função. O senhor desassocia essa função do partido político. Pode um homem pertencente ao partido errado usar eficientemente a linguagem?

        POUND – Pode. Aí é que está toda a complicação! Uma arma é igualmente boa, não importa quem a usa.

        Entrevistador – Pode um instrumento ordeiro ser usado para criar desordem? Suponhamos que uma boa linguagem seja usada para fomentar um mau governo? Acaso um mau governo não torna má a linguagem?

        POUND – Sim, mas a má linguagem está destinada a fazer, ademais, um mau governo, enquanto a boa linguagem não está destinada a fazer um mau governo. Isso, também, é puro Confúcio: se as ordens não forem claras, não podem ser executadas. As leis de Lloyd George eram tal mixórdia, que os advogados jamais sabiam o que significavam. E Telleyrand proclamou que os políticos mudavam o sentido das palavras entre uma e outra conferência. Os meios de comunicação se rompem, e é disso que estamos sofrendo hoje em dia. Estamos suportando o esforço de se trabalhar sobre o subconsciente sem que apelemos para a razão. Repetem, como música, algumas vezes, uma denominação qualquer, e, depois, a música sem a denominação, para que a música no-la dê. Penso no assalto. Sofremos do uso da linguagem a ocultar o pensamento e a impedir todas as respostas diretas e vitais. Há o uso da linguagem dialética, de propaganda, destinada simplesmente a ocultar e a iludir”.

        Erza Pound de volta a Itália viveu a maior parte do tempo no Tirol, com sua filha, genro e netos. Por ocasião dessa entrevista, realizada em Roma, Pound encontrava-se no apartamento de Ugo Dadone, seu velho amigo. Sobre esse momento, diz o entrevistador: “Durante as horas da entrevista, que durou três dias, ele falou cansadamente, e as perguntas, às vezes, o deixavam exausto. Pela manhã, quando o entrevistador voltava, Mr. Pound mostrava-se ansioso por rever as falhas da véspera”.

         Erza Weston Loomis Pound faleceu em Veneza, no dia 1º de novembro de 1972, com 86 anos de idade.



REFERÊNCIA:
LAROUSSE, Petit. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tours. 24ª tirage. Paris: L. Larousse, 1966.
WIKIPÉDIA. Ezra Pound. Wikipédia, disponível em http//pt.wikipedia.org. Acesso em: 31/07/2007.
POUND, Ezra. A Arte da poesia. Trad. Lima Dantas e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1976.
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Trad. Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.




                                                                    *  *  *

19 de jan. de 2013

MÃOS – Carlos Drummond de Andrade






PEDRO LUSO DE CARVALHO

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE dizia que a sua vida não tinha nada de interessante, e que o pouco que tinha para contar já estava nas duas autobiografias que escreveu para a Revista Acadêmica e para Leitura. Dizia ele que a biografia do escritor deve ser dada a conhecer ao público quando é movimentada, rica de passagens curiosas e quando os vários lugares em que esteve e as pessoas que de algum modo alguma forma influíram em sua obra. E acrescenta que nessas duas outobiografias disse que nasci em Itabira, no Estado de Minas Gerais, no ano de 1902, de pais portugueses que me criaram no temor de Deus e que seu pai era fazendeiro, sem ter sequer o curso primário completo. (In Carlos Drummond de Andrade, Coleção Fortuna Crítica, p.21-22).
Segue o poema de Carlos Drummond de Andrade, “As mãos” (in Menino antigo. Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1974, p. 88):


MÃOS
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Aquele doce que ela faz
quem mais saberia fazê-lo?


Tentam. Insistem, caprichando.
Mandam vir o leite mais nobre.
Ovos de qualidade são os mesmos,
manteiga, a mesma,
iguais açúcar e canela.
É tudo igual. As mãos (as mães?)
são diferentes.



*    *    *


10 de jan. de 2013

[Crônica] PEDRO LUSO – Faça o que eu digo!



  

  
[ESPAÇO DA CRÔNICA]


FAÇA O QUE EU DIGO!
[PEDRO LUSO DE CARVALHO]


Todos nós conhecemos uma ou mais pessoas, que estão sempre prontas a dar-nos conselhos, embora não tenhamos a intenção de recebê-los; para que comecem as sessões de aconselhamento, basta um simples comentário sobre este ou aquele assunto, feito por quem não está preparado para defender-se do inconveniente assédio; essa situação é agravada pelo fato de que essas pessoas acreditam que ouviremos atentamente as suas recomendações, e que as cumpriremos, o que certamente não vai ocorrer.

À primeira vista, o incômodo que causam esses conselheiros compulsivos, pode parecer de pouca importância, e que com paciência poderemos ouvir tudo o que têm a dizer, e que logo tudo passará; mas, infelizmente, isso não ocorrerá; somente param de falar depois de terem dito tudo o que, para eles, deve ser dito, ‘para o nosso bem’; damo-nos conta, no entanto, a certa altura da ‘conversa’, que nossa paciência sumiu, e que a ansiedade passou a ser o nosso sentimento predominante; pior ainda: sentimo-nos desesperados por desconhecermos um meio eficaz para administrar essa situação, e, então, somos tomados de incontrolável fúria, que só não transparecerá com esforço sobre-humano, se tivermos força para isso.

Depois de tantos aborrecimentos, de noites insones, do uso de calmantes para amenizar a fúria da qual fomos acometidos, quando estávamos na frente de um deles, que insistia que ficássemos atentos às suas opiniões, agarrando-nos pelo colarinho para evitar nossa distração, e dizendo que gosta de falar olhando nos olhos de quem o ouve, a alternativa que temos é a adoção de medidas preventivas contra esse abominável assédio, como, por exemplo, colocar os seus nomes num pequeno caderno, que fique ao nosso alcance para que possamos identificá-los; o passo seguinte é a fuga do algoz, que está à nossa espreita qual uma serpente pronta para o bote.

Essa medida preventiva, contra a ação desses aconselhadores, não pode ficar restrita ao caderno no qual constam os seus nomes, já que outros tantos, que ainda não conhecemos, andam por aí, sôfregos, à procura de alguém para dar a sua ‘sábia’ orientação de vida, para dizer o que devemos fazer, nesta ou naquela situação; e, pobre de nós, se tentarmos convencê-los que devem deixar que cada um resolva os seus problemas, nos limites de suas possibilidades: premidos pela incontrolável compulsão de aconselhar, doença que pensam tratar-se de qualidade de caráter, dão início a uma interminável explicação sobre os motivos que os levam a ter esse comportamento, em relação às pessoas que o cercam, concluindo que devemos saber ouvir os ‘bons conselhos’, sem falar no diagnóstico, que poderão fazer sobre nossa saúde mental.



*  *  *


14 de dez. de 2012

WERNECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte VI (final)



por Pedro Luso de Carvalho


Nesta ultima parte de A Música Brasileira, vamos ver como surgiu a Bossa Nova, sob o enfoque de Nelson Lins de Barros, e depois, sob a ótica de Nelson Werneck Sodré, os motivos que impediram que a Bossa nova, nascida da classe média, e pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural dessa classe, não teve condições de penetração nas massas. (Nelson Werneck Sodré in Síntese de História da Cultura Brasileira, 9ª ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1981.)

Nelson Lins de Barros é referido na obra de Nelson Werneck Sodré pela sua profunda análise do movimento musical no Brasil:

Foi então surgindo na geração nova da classe média - diz Nelson Lins de Barros -, uma preocupação de fazer samba de boa qualidade, utilizando o melhor espírito do samba antigo de bom gosto, com uma simplificação e mudança de acentuação no ritmo, uma harmonia mais rica, vinda por influencia do 'jazz' e dos impressionistas, uma melodia bem construída e desenvolvida. As letras tornaram-se poéticas, com maior valorização das palavras, das ideias em relação à melodia, excluindo rimas forçadas e lamentos banais. Os intérpretes perderam a tendencia à voz possante e rebuscada. Os instrumentistas procuravam a pureza do som e a sensibilidade em vez do malabarismo frio. Não se tratava de negar, destruir, superar. Tratava-se de atualizar a música brasileira ao nível do que havia de melhor no mundo inteiro, sem o que pereceria. Embora com influencias alienígenas, o movimento resultava nacionalista, desenvolvimentista.

Um problema que a Bossa nova não conseguiu resolver, apesar de todo o esforço empreendido, é mostrado por Nelson Lins de Barros:

A Bossa Nova, nascida na classe média, pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural da classe média, não teve condições de penetração na massa. O sistema de rádio e televisão, cuja função precípua consiste em anunciar cosméticos, usa como chamariz a arte vulgar formada para a massa desprovida de cultura. Quando se dirige à classe média, evidentemente para anunciar produtos da classe média, e tem de usar e tem de usar um chamariz da classe média, prefere importar música de outros países que já tem prestígio e popularização assegurada pelo cinema americano, pois são todos – programas, produtos, música e cinema – filhos do mesmo dono. (...) Não esquecer que todos os responsáveis pelo rádio, televisão, teatro, cinema, gravadores, boites, etc.,tem a mesma visão do mundo: são todos comerciantes. Foi essa a situação que o compositor da Bossa Nova teve de enfrentar – que todo artista tem de enfrentar: ou fazer das tripas coração para manter a dignidade – tornando-se um artista de elite – ou seguir a rotina, cair na maré da promiscuidade.

No balanço que faz sobre a Bossa Nova, o negativo e o positivo, Nelson Lins de Barros destaca como sendo positivo:

(...) embora não tenha atingido as massas (...) atingiu em cheio a classe média, a alta burguesia e, muito significativamente, os meios artísticos e intelectuais; embora não tenha evitado a invasão cada vez maior da música estrangeira, rivalizou-se realmente com o que havia de melhor no movimento musical internacional, superando mesmo as vanguardas de muitos países; embora o movimento não tenha conseguido elevar o nível da música popular como um todo, conseguiu influenciá-la de algum modo.

Quanto ao balanço negativo da Bossa Nova, Nelson Lins de Barros destaca: (...) a falta de teorização, a falta de conhecimento de teoria musical, e, por último, a falta de maior número de intérpretes próprios”. Também chama a atenção para a falta de união e no individualismo dos componentes do grupo.

Para Nelson Werneck Sodré essa análise mostra, realmente, o ambiente que condicionou o aparecimento do movimento que se propunha renovar a música popular brasileira; no conjunto ressalta o caráter culturalmente desnacionalizador dos meios de massa, rádio e televisão, no que se refere à arte a que servem de veículo quase específico de divisão, a música.

Aqui encerro o trabalho que desenvolvi em seis partes, sobre a música popular no Brasil. Para acessar a primeira parte do texto, basta clicar em A Música Brasileira – 1ª Parte.


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9 de dez. de 2012

WENECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte V



por Pedro Luso de Carvalho


Na quarta parte de A Música Brasileira, dei realce ao que disse Nelson Werneck Sodré, in Síntese de História da Cultura Brasileira, 9.ª ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1981: "apesar das concessões feitas diante das preferencias artísticas e musicais norte-americanas, a Bossa nova trouxe indiscutível benefício para renovação do nosso ambiente musical e contribuição no sentido da preservação do prestígio e da justa evidencia da música popular brasileira". Agora, na continuação da referencia feita por Sodré sobre o texto de Claribalte Passos, entendo ser importante dar o devido destaque ao que este diz sobre a Bossa Nova:

“A crédito do pessoal da Bossa Nova fica, porém, o esforço benéfico em favor da nossa música popular de modo geral esquecida e sofrida, graças aos falseamentos de suas tradicionais características, como que encostada à parede pela avalancha de produção musical importada e forçada através das missões diplomáticas sediadas no Brasil. Não adianta negar, pois, a respeito desse acintoso e criminoso 'financiamento' oriundo do exterior em detrimento dos nossos autores, maestros, instrumentistas e cantores, numa concorrência artístico-cultural das mais revoltantes e desleais. E o pior, em tudo isto, pasmem leitores – salienta Claribalte Passos -, é a ajuda recebida por tais 'invasores artísticos' por parte das emissoras de rádio, das televisões e das próprias fábricas de discos! (...)

A realidade, porém – diz Passos -, não deixa que alimentemos dúvidas. Basta para tanto, que sejam observadas as chamadas Paradas de Sucesso (Hit Parade) das emissoras nacionais de rádio e de televisão. Nelas, sem nenhuma contestação, predominam atualmente as produções musicais americanas, francesas e italianas, graças ao expediente fácil das versões realizadas, por incrível que pareça, pelos autores brasileiros e até mesmo alguns que nem compositores são!”

Depois de ter dado a posição de Claribalte Passos sobre esses fatos, Nelson Werneck Sodré escreve que o julgamento final do crítico não deixa dúvidas, quando afirma que “a mensagem artística oferecida pela Bossa Nova... trouxe indiscutivelmente resultados promissores para a ativação e até mesmo um renascimento da música popular brasileira. (...) Enunciou a Bossa Nova a necessidade de renovar velhas estruturas harmônicas do nosso samba, polindo suas arestas, encorajando novos e veteranos a cerrarem fileiras em favor da sobrevivência musical brasileira. E, assim, nas emissoras de rádio e televisão, a nossa música popular brasileira”. A Bossa Nova então passou a ser apresentada, no dizer de Sodré, como o saboroso prato do dia no cardápio gustativo popular.

A análise mais profunda do movimento musical - diz Sodré - que marca atual etapa foi realizada por Nelson Lins de Barros. “O movimento caracterizou-se – escreveu ele – por duas tendências concorrentes; uma, fazer frente à invasão da música estrangeira, principalmente, elevando seu próprio nível artístico. Enfim, atualizar o seu padrão ao nível internacional para fazer frente a essa música internacional”. E diz como isso ocorreu: “Ao surto industrial correspondeu um considerável melhoramento das condições técnicas propícias ao desenvolvimento da música: multiplicação de rádios, televisões, orquestras, instrumentistas, cantores, etc. A música brasileira já havia, anteriormente, alcançado grandes picos, mas nessa época não correspondia ao desenvolvimento do país".

Na próxima postagem, e última parte de A música Brasileira, veremos como surgiu a Bossa Nova, sob o enfoque de Nelson Lins de Barros, e, finalmente, a abordagem, sob a ótica de Nelson Werneck Sodré, dos motivos que impediram que a Bossa nova, nascida da classe média, como diz o escritor, e pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural da classe média, não teve condições de penetração nas massas.



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