26 de fev. de 2013

SIGMUND FREUD – Resposta a Albert Einstein



.            [PEDRO LUSO DE CARVALHO]

     
     No final da carta que escreveu para Sigmund Freud, em post scriptum, Albert Einstein pediu-lhe: “Por favor, não responda a esta carta. Meu prazer em valer-me da ocasião para escrever-lha já me é suficiente”. Tal pedido, no entanto, não foi por atendido por Freud, que, segundo Ernest Jones (Vida e Obra de Sigmund Freud), não tardou a responder-lhe:
       
        Viena, 3.5.1936
        Verehrter Herr Einstein:
       
         São vãs as sua objeções para que eu não responda à suas amável carta. Efetivamente preciso dizer-lhe quão satisfeito fiquei da alteração havida no seu julgamento – ou, pelo menos, início de alteração. Sem dúvida que eu sempre soube que você me “admirava” por uma questão de cortesia e que acreditava muito pouco em quaisquer das minhas doutrinas, embora freqüentemente eu me perguntasse a mim mesmo o que, na verdade, havia nelas para ser admiradas, se não fossem a expressão da verdade, isto é, se não contivessem uma larga medida de verdade.
      Incidentalmente, não acredita você que eu teria sido mais bem tratado se as minhas doutrinas contivessem uma porcentagem maior de erros e de extravagâncias? Você é tão mais moço do que eu que posso esperar contá-lo entre meus “seguidores” quando atingir a minha idade. Uma vez que, então, não poderei certificar-me disso, antecipo agora o prazer dessa possibilidade. (Você bem sabe o que se passa na minha cabeça: ein Vorgefühl von solchem Glück geniesse ich etc.)

        In herzlicher Ergehenheit und unwandelbarer VerehrungIhr
                                                                                                            Freud.         
        _________                  
        NOTAS:
       
      Albert Einstein nasceu em 14.3.1879, em Ulm, Alemanha, e faleceu em 18.4.1955, em Princeton, EUA. Recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921
       
       Sigmund Freud nasceu em 6.5.1856, em Příbor, República Checa, e faleceu em 23.9.1939, em Londres, Inglaterra.

      A correspondência entre Sigmund Freud e Albert Einstein (Por quê da guerra?), foi publicada em 1933, na Europa e nos Estados Unidos.



       REFERÊNCIA:
      JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p.744-745.



                                                                     *  *  *

22 de jan. de 2013

EZRA POUND & The Paris Review


                  [PEDRO LUSO DE CARVALHO]

        Este é o meu segundo texto sobre Ezra Pound, poeta, músico e crítico literário; no primeiro, fiz um comentário sobre o seu livro A Arte da Poesia, editado pela Cultrix em 1976. Neste artigo, abordarei alguns aspectos da vida do poeta e farei a transcrição de um trecho da entrevista publicada inicialmente pela The Paris Review, em 1957, e depois editada em forma de livro (Writers at Work), em 1958 e 1963, pela The Vikink Press, Inc., Nova Iorque.

        Alguma coisa a ser dita sobre a vida de Ezra Pound: nasceu em 30 de outubro de 1885, em Hailey (Idaho), EUA. Foi educado na Universidade de Pensilvânia e no Hamilton College. O seu primeiro livro foi publicado em 1908 na cidade de Veneza, Itália. Dono de uma vasta obra, publicou cerca de 90 volumes de poesia, crítica e traduções de importantes poetas.

        Ezra Pound viveu muitos anos na Europa, primeiramente em Londres, na década de 1920 em Paris, depois na Itália, onde teria aderido ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, adesão que foi por ele negada. O fato é que proferia palestra pelo rádio denunciando a participação dos Aliados contra os países que integravam o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Preso pelos norte-americanos em 1945, foi levado para Pisa onde ficava o seu Centro de Adestramento Militar. Aí teve um tratamento extremamente rigoroso: foi jogado numa jaula improvisada com tiras de metal, onde dormia sob uma lâmpada continuamente acesa, e sobre cobertores colocados sobre o concreto.

        Em decorrência desse tratamento cruel, na terceira semana subseqüente à sua prisão Pound sofreu um colapso nervoso, que o deixou com amnésia parcial, além de outra seqüela, a claustrofobia. Mesmo assim foi mantido na prisão por seis meses, sem qualquer contato com outras pessoas, o que agravou mais ainda sua saúde, já debilitada pelos freqüentes ataques de histeria e de terror. Daí, foi levado para Washington DC, onde ficou internado durante 13 anos, no Hospital Saint Elizabeth, por ter sido considerado portador de demência. Em 1958, os Estados Unidos retirou a acusação de traição. Nesse ano, retornou para a Itália, onde passaria a viver com sua filha.

        Na poesia, Erza Pound destacou-se com Os Cantos, de inspiração erudita e repleta de símbolos. Essa obra foi iniciada em 1917, e a sua última parte, intitulada Thrones, somente foi publicada em 1959; trabalhou em sua obra até o ano de sua morte. Pound publicou também Personae, livro com seus poemas mais curtos, em 1926, que foi reeditado em 1950, com a inclusão de outros poemas; e, em 1962, foi publicada uma tradução de Love Poems of Ancient Egypt; em 1963, a antologia From Confucius to Cumings, editada por Marcella Spann.

        A influência de Ezra Pound e do seu projeto de renovação da linguagem poética fez-se sentir em Joyce, Yeats, William Carlos Williams e particularmente em T. S. Eliot, que submeteu o manuscrito da sua obra The Waste Land à apreciação de Pound antes de o publicar em 1922. As correções feitas por Pound mereceram-lhe a dedicatória de Eliot: "For Ezra Pound, il miglior fabbro" (A Ezra Pound, o melhor artífice), como consta na Wikipédia. Segue, pois, um trecho da entrevista que Erza Pound concedeu a Donald Hall, da The Paris Review:

        “Entrevistador – Um ponto de ligação entre a literatura e a política, que o senhor estabelece em seus escritos, interessa-me particularmente. Em A. B. C. of Reading diz o senhor que os bons escritores são aqueles que mantém eficiente a linguagem, e que essa é a sua função. O senhor desassocia essa função do partido político. Pode um homem pertencente ao partido errado usar eficientemente a linguagem?

        POUND – Pode. Aí é que está toda a complicação! Uma arma é igualmente boa, não importa quem a usa.

        Entrevistador – Pode um instrumento ordeiro ser usado para criar desordem? Suponhamos que uma boa linguagem seja usada para fomentar um mau governo? Acaso um mau governo não torna má a linguagem?

        POUND – Sim, mas a má linguagem está destinada a fazer, ademais, um mau governo, enquanto a boa linguagem não está destinada a fazer um mau governo. Isso, também, é puro Confúcio: se as ordens não forem claras, não podem ser executadas. As leis de Lloyd George eram tal mixórdia, que os advogados jamais sabiam o que significavam. E Telleyrand proclamou que os políticos mudavam o sentido das palavras entre uma e outra conferência. Os meios de comunicação se rompem, e é disso que estamos sofrendo hoje em dia. Estamos suportando o esforço de se trabalhar sobre o subconsciente sem que apelemos para a razão. Repetem, como música, algumas vezes, uma denominação qualquer, e, depois, a música sem a denominação, para que a música no-la dê. Penso no assalto. Sofremos do uso da linguagem a ocultar o pensamento e a impedir todas as respostas diretas e vitais. Há o uso da linguagem dialética, de propaganda, destinada simplesmente a ocultar e a iludir”.

        Erza Pound de volta a Itália viveu a maior parte do tempo no Tirol, com sua filha, genro e netos. Por ocasião dessa entrevista, realizada em Roma, Pound encontrava-se no apartamento de Ugo Dadone, seu velho amigo. Sobre esse momento, diz o entrevistador: “Durante as horas da entrevista, que durou três dias, ele falou cansadamente, e as perguntas, às vezes, o deixavam exausto. Pela manhã, quando o entrevistador voltava, Mr. Pound mostrava-se ansioso por rever as falhas da véspera”.

         Erza Weston Loomis Pound faleceu em Veneza, no dia 1º de novembro de 1972, com 86 anos de idade.



REFERÊNCIA:
LAROUSSE, Petit. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tours. 24ª tirage. Paris: L. Larousse, 1966.
WIKIPÉDIA. Ezra Pound. Wikipédia, disponível em http//pt.wikipedia.org. Acesso em: 31/07/2007.
POUND, Ezra. A Arte da poesia. Trad. Lima Dantas e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1976.
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Trad. Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.




                                                                    *  *  *

19 de jan. de 2013

MÃOS – Carlos Drummond de Andrade






PEDRO LUSO DE CARVALHO

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE dizia que a sua vida não tinha nada de interessante, e que o pouco que tinha para contar já estava nas duas autobiografias que escreveu para a Revista Acadêmica e para Leitura. Dizia ele que a biografia do escritor deve ser dada a conhecer ao público quando é movimentada, rica de passagens curiosas e quando os vários lugares em que esteve e as pessoas que de algum modo alguma forma influíram em sua obra. E acrescenta que nessas duas outobiografias disse que nasci em Itabira, no Estado de Minas Gerais, no ano de 1902, de pais portugueses que me criaram no temor de Deus e que seu pai era fazendeiro, sem ter sequer o curso primário completo. (In Carlos Drummond de Andrade, Coleção Fortuna Crítica, p.21-22).
Segue o poema de Carlos Drummond de Andrade, “As mãos” (in Menino antigo. Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1974, p. 88):


MÃOS
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Aquele doce que ela faz
quem mais saberia fazê-lo?


Tentam. Insistem, caprichando.
Mandam vir o leite mais nobre.
Ovos de qualidade são os mesmos,
manteiga, a mesma,
iguais açúcar e canela.
É tudo igual. As mãos (as mães?)
são diferentes.



*    *    *


10 de jan. de 2013

[Crônica] PEDRO LUSO – Faça o que eu digo!



  

  
[ESPAÇO DA CRÔNICA]


FAÇA O QUE EU DIGO!
[PEDRO LUSO DE CARVALHO]


Todos nós conhecemos uma ou mais pessoas, que estão sempre prontas a dar-nos conselhos, embora não tenhamos a intenção de recebê-los; para que comecem as sessões de aconselhamento, basta um simples comentário sobre este ou aquele assunto, feito por quem não está preparado para defender-se do inconveniente assédio; essa situação é agravada pelo fato de que essas pessoas acreditam que ouviremos atentamente as suas recomendações, e que as cumpriremos, o que certamente não vai ocorrer.

À primeira vista, o incômodo que causam esses conselheiros compulsivos, pode parecer de pouca importância, e que com paciência poderemos ouvir tudo o que têm a dizer, e que logo tudo passará; mas, infelizmente, isso não ocorrerá; somente param de falar depois de terem dito tudo o que, para eles, deve ser dito, ‘para o nosso bem’; damo-nos conta, no entanto, a certa altura da ‘conversa’, que nossa paciência sumiu, e que a ansiedade passou a ser o nosso sentimento predominante; pior ainda: sentimo-nos desesperados por desconhecermos um meio eficaz para administrar essa situação, e, então, somos tomados de incontrolável fúria, que só não transparecerá com esforço sobre-humano, se tivermos força para isso.

Depois de tantos aborrecimentos, de noites insones, do uso de calmantes para amenizar a fúria da qual fomos acometidos, quando estávamos na frente de um deles, que insistia que ficássemos atentos às suas opiniões, agarrando-nos pelo colarinho para evitar nossa distração, e dizendo que gosta de falar olhando nos olhos de quem o ouve, a alternativa que temos é a adoção de medidas preventivas contra esse abominável assédio, como, por exemplo, colocar os seus nomes num pequeno caderno, que fique ao nosso alcance para que possamos identificá-los; o passo seguinte é a fuga do algoz, que está à nossa espreita qual uma serpente pronta para o bote.

Essa medida preventiva, contra a ação desses aconselhadores, não pode ficar restrita ao caderno no qual constam os seus nomes, já que outros tantos, que ainda não conhecemos, andam por aí, sôfregos, à procura de alguém para dar a sua ‘sábia’ orientação de vida, para dizer o que devemos fazer, nesta ou naquela situação; e, pobre de nós, se tentarmos convencê-los que devem deixar que cada um resolva os seus problemas, nos limites de suas possibilidades: premidos pela incontrolável compulsão de aconselhar, doença que pensam tratar-se de qualidade de caráter, dão início a uma interminável explicação sobre os motivos que os levam a ter esse comportamento, em relação às pessoas que o cercam, concluindo que devemos saber ouvir os ‘bons conselhos’, sem falar no diagnóstico, que poderão fazer sobre nossa saúde mental.



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14 de dez. de 2012

WERNECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte VI (final)



por Pedro Luso de Carvalho


Nesta ultima parte de A Música Brasileira, vamos ver como surgiu a Bossa Nova, sob o enfoque de Nelson Lins de Barros, e depois, sob a ótica de Nelson Werneck Sodré, os motivos que impediram que a Bossa nova, nascida da classe média, e pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural dessa classe, não teve condições de penetração nas massas. (Nelson Werneck Sodré in Síntese de História da Cultura Brasileira, 9ª ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1981.)

Nelson Lins de Barros é referido na obra de Nelson Werneck Sodré pela sua profunda análise do movimento musical no Brasil:

Foi então surgindo na geração nova da classe média - diz Nelson Lins de Barros -, uma preocupação de fazer samba de boa qualidade, utilizando o melhor espírito do samba antigo de bom gosto, com uma simplificação e mudança de acentuação no ritmo, uma harmonia mais rica, vinda por influencia do 'jazz' e dos impressionistas, uma melodia bem construída e desenvolvida. As letras tornaram-se poéticas, com maior valorização das palavras, das ideias em relação à melodia, excluindo rimas forçadas e lamentos banais. Os intérpretes perderam a tendencia à voz possante e rebuscada. Os instrumentistas procuravam a pureza do som e a sensibilidade em vez do malabarismo frio. Não se tratava de negar, destruir, superar. Tratava-se de atualizar a música brasileira ao nível do que havia de melhor no mundo inteiro, sem o que pereceria. Embora com influencias alienígenas, o movimento resultava nacionalista, desenvolvimentista.

Um problema que a Bossa nova não conseguiu resolver, apesar de todo o esforço empreendido, é mostrado por Nelson Lins de Barros:

A Bossa Nova, nascida na classe média, pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural da classe média, não teve condições de penetração na massa. O sistema de rádio e televisão, cuja função precípua consiste em anunciar cosméticos, usa como chamariz a arte vulgar formada para a massa desprovida de cultura. Quando se dirige à classe média, evidentemente para anunciar produtos da classe média, e tem de usar e tem de usar um chamariz da classe média, prefere importar música de outros países que já tem prestígio e popularização assegurada pelo cinema americano, pois são todos – programas, produtos, música e cinema – filhos do mesmo dono. (...) Não esquecer que todos os responsáveis pelo rádio, televisão, teatro, cinema, gravadores, boites, etc.,tem a mesma visão do mundo: são todos comerciantes. Foi essa a situação que o compositor da Bossa Nova teve de enfrentar – que todo artista tem de enfrentar: ou fazer das tripas coração para manter a dignidade – tornando-se um artista de elite – ou seguir a rotina, cair na maré da promiscuidade.

No balanço que faz sobre a Bossa Nova, o negativo e o positivo, Nelson Lins de Barros destaca como sendo positivo:

(...) embora não tenha atingido as massas (...) atingiu em cheio a classe média, a alta burguesia e, muito significativamente, os meios artísticos e intelectuais; embora não tenha evitado a invasão cada vez maior da música estrangeira, rivalizou-se realmente com o que havia de melhor no movimento musical internacional, superando mesmo as vanguardas de muitos países; embora o movimento não tenha conseguido elevar o nível da música popular como um todo, conseguiu influenciá-la de algum modo.

Quanto ao balanço negativo da Bossa Nova, Nelson Lins de Barros destaca: (...) a falta de teorização, a falta de conhecimento de teoria musical, e, por último, a falta de maior número de intérpretes próprios”. Também chama a atenção para a falta de união e no individualismo dos componentes do grupo.

Para Nelson Werneck Sodré essa análise mostra, realmente, o ambiente que condicionou o aparecimento do movimento que se propunha renovar a música popular brasileira; no conjunto ressalta o caráter culturalmente desnacionalizador dos meios de massa, rádio e televisão, no que se refere à arte a que servem de veículo quase específico de divisão, a música.

Aqui encerro o trabalho que desenvolvi em seis partes, sobre a música popular no Brasil. Para acessar a primeira parte do texto, basta clicar em A Música Brasileira – 1ª Parte.


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9 de dez. de 2012

WENECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte V



por Pedro Luso de Carvalho


Na quarta parte de A Música Brasileira, dei realce ao que disse Nelson Werneck Sodré, in Síntese de História da Cultura Brasileira, 9.ª ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1981: "apesar das concessões feitas diante das preferencias artísticas e musicais norte-americanas, a Bossa nova trouxe indiscutível benefício para renovação do nosso ambiente musical e contribuição no sentido da preservação do prestígio e da justa evidencia da música popular brasileira". Agora, na continuação da referencia feita por Sodré sobre o texto de Claribalte Passos, entendo ser importante dar o devido destaque ao que este diz sobre a Bossa Nova:

“A crédito do pessoal da Bossa Nova fica, porém, o esforço benéfico em favor da nossa música popular de modo geral esquecida e sofrida, graças aos falseamentos de suas tradicionais características, como que encostada à parede pela avalancha de produção musical importada e forçada através das missões diplomáticas sediadas no Brasil. Não adianta negar, pois, a respeito desse acintoso e criminoso 'financiamento' oriundo do exterior em detrimento dos nossos autores, maestros, instrumentistas e cantores, numa concorrência artístico-cultural das mais revoltantes e desleais. E o pior, em tudo isto, pasmem leitores – salienta Claribalte Passos -, é a ajuda recebida por tais 'invasores artísticos' por parte das emissoras de rádio, das televisões e das próprias fábricas de discos! (...)

A realidade, porém – diz Passos -, não deixa que alimentemos dúvidas. Basta para tanto, que sejam observadas as chamadas Paradas de Sucesso (Hit Parade) das emissoras nacionais de rádio e de televisão. Nelas, sem nenhuma contestação, predominam atualmente as produções musicais americanas, francesas e italianas, graças ao expediente fácil das versões realizadas, por incrível que pareça, pelos autores brasileiros e até mesmo alguns que nem compositores são!”

Depois de ter dado a posição de Claribalte Passos sobre esses fatos, Nelson Werneck Sodré escreve que o julgamento final do crítico não deixa dúvidas, quando afirma que “a mensagem artística oferecida pela Bossa Nova... trouxe indiscutivelmente resultados promissores para a ativação e até mesmo um renascimento da música popular brasileira. (...) Enunciou a Bossa Nova a necessidade de renovar velhas estruturas harmônicas do nosso samba, polindo suas arestas, encorajando novos e veteranos a cerrarem fileiras em favor da sobrevivência musical brasileira. E, assim, nas emissoras de rádio e televisão, a nossa música popular brasileira”. A Bossa Nova então passou a ser apresentada, no dizer de Sodré, como o saboroso prato do dia no cardápio gustativo popular.

A análise mais profunda do movimento musical - diz Sodré - que marca atual etapa foi realizada por Nelson Lins de Barros. “O movimento caracterizou-se – escreveu ele – por duas tendências concorrentes; uma, fazer frente à invasão da música estrangeira, principalmente, elevando seu próprio nível artístico. Enfim, atualizar o seu padrão ao nível internacional para fazer frente a essa música internacional”. E diz como isso ocorreu: “Ao surto industrial correspondeu um considerável melhoramento das condições técnicas propícias ao desenvolvimento da música: multiplicação de rádios, televisões, orquestras, instrumentistas, cantores, etc. A música brasileira já havia, anteriormente, alcançado grandes picos, mas nessa época não correspondia ao desenvolvimento do país".

Na próxima postagem, e última parte de A música Brasileira, veremos como surgiu a Bossa Nova, sob o enfoque de Nelson Lins de Barros, e, finalmente, a abordagem, sob a ótica de Nelson Werneck Sodré, dos motivos que impediram que a Bossa nova, nascida da classe média, como diz o escritor, e pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural da classe média, não teve condições de penetração nas massas.



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17 de nov. de 2012

WERNECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte IV




         por Pedro Luso de Carvalho
    
                
             Nesta quarta parte de A Música Brasileira será feita a abordagem da Bossa nova, gênero musical, que não tardaria a ser considerado de nível internacional, e que surgiu para defender a nossa música popular, como disse Nelson Werneck Sodré (in, Síntese de História e Cultura Brasileira, no seu capítulo Música. Civilização Brasileira, 9ª ed., Rio de Janeiro, 1981, p. 100).
 
 O escritor fala sobre a interferência dos meios de comunicação, rádio e televisão, para a divulgação de nossa música popular, e da influência desses veículos até mesmo nas criações artísticas.

Werneck Sodré não se posiciona contra a toda a música que chega do exterior, desde que ao Brasil venha um pouco do melhor da música de outros países. Mas o que constata é que a música que importamos é a música de massa, que representa prejuízo para o público, que consome arte musical de baixa qualidade, mas também para os nossos verdadeiros músicos e compositores.



CULTURA NACIONAL - MÚSICA (4ª parte)
                                (Nelson Werneck Sodré)


 Esses meios, servindo a interesses estrangeiros, serviam, no plano musical, à música estrangeira. (...) Nossa música, assim, ia, pouco a pouco, sendo alijada até mesmo das preferências populares, intensamente trabalhadas pela continuada repetição do que era imposto e divulgado em massa.

Impostas às massas pelos meios, técnicas, instrumentos de cultura de massa. Foi em defesa de nossa música popular, segundo certos críticos, que surgiu a chamada Bossa nova: A Bossa nova, produzindo quase sempre uma música de nível internacional, rivalizando em qualidade com o que de melhor se fazia na época e em qualquer lugar, levou a imagem de um Brasil diferente, não mais aquele ingênuo e caipira dos salamaleques de Carmem Miranda, mas o de uma nação em que o processo de industrialização começa a acordar o povo para a sua real condição.

O primeiro argumento a comprovar esta constatação é o de que a música, como fenômeno cultural e de superestrutura, acompanha as modificações de baixo para cima. Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Donato, Marcos e Paulo Sérgio Vale, o Bossa Três e tantos outros, conseguiram isso: a Bossa nova cortou fundo na receptividade do americano médio e resistiu a avalancha de contrafações acionada pela alavanca do sistema de massas dos EUA.

 Surgido entre fins de 1959-1960 com os compositores João Gilberto e Antônio Carlos Jobim – principais precursores – o processo de estruturação rítmico-harmônico da Bossa nova, apesar das concessões feitas diante das preferencias artísticas e musicais norte-americanas, trouxe indiscutível benefício para renovação do nosso ambiente musical e contribuição no sentido da preservação do prestígio e da justa evidencia da música popular brasileira. Essa nova manifestação artística nacional possibilitou, em tempo recorde, a internacionalização do samba em sua roupagem moderna, embora tal benefício, de condição temporária, não implique em definitiva permanência no exterior. (Nelson Werneck Sodré diz que Claribalte Passos tem a mesma opinião que a sua.)

Aqui termino esta parte do texto sobre Bossa nova, que integra o trabalho A Música Brasileira, agora na sua quarta parte. Na quinta parte deste trabalho, continuarei mostrando como Nelson Werneck Sodré vê esse gênero musical, que, como diz, veio salvar a nossa música popular. (Para acessar a primeira parte deste trabalho, clique em A Música Brasileira - Parte I.)


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5 de nov. de 2012

WERNECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte III



por Pedro Luso de Carvalho


Seguimos com A Música Brasileira,  agora na sua terceira parte, com a análise que é feita por Nelson Werneck Sodré, no capítulo Música, do seu livro Síntese de História e Cultura Brasileira (Civilização Brasileira, 9ª ed., Rio de Janeiro, 1981). Na segunda parte desse texto, minha última postagem, Nelson Werneck Sodré fala dos versos de Chão de estrelas, de Orestes Barbosa, bem como da poesia de Noel Rosa. O escritor afirma que esses letristas da música popular salvaram a poesia brasileira. E diz ainda, que quem estudar a fundo as letras da música popular dos anos 30 verá que “lá estão muitos achados que botam no chinelo quase toda a versalhada de 1945 para cá”.

 Nelson Werneck Sodré continua falando, em Música, de sua Síntese de História e Cultura Brasileira, sobre o mercado musical discográfico, sobre a forma usada pelo rádio e pela televisão para criar mitos, visando sempre o lucro para esses meios de comunicação e para os cantores e cantoras, em detrimento da boa qualidade da música, que era entregue ao público. Mas, fico por aqui, sem entrar nos detalhes áridos desse mercado. Na próxima parte de A Música Brasileira, será feita a abordagem da Bossa Nova, que surgiu para defender a nossa música popular, gênero musical de nível internacional.



CULTURA NACIONAL - MÚSICA (3ª parte)
                                (Nelson Werneck Sodré)



O disco, antes do advento do rádio, teve a função pioneira de trabalhar o mercado para a produção musical; o rádio deu dimensões gigantescas a esse mercado, nas condições limitativas peculiares ao Brasil. De qualquer maneira, o disco é muitíssimo mais popular do que o livro, e o rádio colocou à disposição dos que não dispunham de aparelho para rodar o disco, a música que o público desejava; os programas radiofônicos de maior audiência são os de pedidos musicais. A pouco e pouco, nessa base, da relação entre milhões de ouvintes, de um lado, e as emissoras e editoras de discos, de outro, formou-se e cresceu no mercado musical.

 A televisão apenas ampliou as dimensões desse mercado e acrescentou, com as consequências necessárias, os elementos cênicos ligados à imagem; de qualquer modo, multiplicou extraordinariamente a eficácia da difusão musical. Essas relações mudaram também de qualidade, ao ultrapassar certo nível quantitativo; cedo ficou constatado que música, além de arte, era também mercadoria, precisava receber determinado tratamento, adequado à sua colocação no mercado; não é de surpreender que o teor artístico tenha cedido lugar ao teor mercantil. Claro que, como em todas as outras manifestações culturais, a culpa foi lançada aos consumidores, ao público.


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30 de out. de 2012

WERNECK SODRÉ– A Música Brasileira - Parte II




por Pedro Luso de Carvalho


Como já mencionei no texto A Música Brasileira – Parte I, este tema foi desenvolvido por Nelson Werneck Sodré, no seu importante livro Síntese de História e Cultura Brasileira (Civilização Brasileira, 9ª ed., Rio de Janeiro, 1981), no qual faz uma análise importante sobre a música popular brasileira, no capítulo Música, dessa obra.
 
Terminei a primeira parte do texto mencionado, com este trecho de Nelson Werneck Sodré: “Alguns momentos marcaram essa longa etapa, iniciada ainda nos fins do século XIX: o aparecimento, por exemplo, em 1897, da marcha carnavalesca, ainda semi-erudita, de Chiquinha Gonzaga: "Ó abre alas". Vejamos, agora, o que diz o escritor na continuação dessa abordagem, sobre o desenvolvimento da música popular no Brasil:




CULTURA NACIONAL - MÚSICA (2ª parte)
(Nelson Werneck Sodré)



Vinte anos depois, em 1917, o compositor popular Ernesto dos Santos (Donga) gravava o primeiro samba: Pelo telefone. O samba, que veio substituir o maxixe, trazia marcas negras que se misturariam às novas influencias urbanas e modernas, que lhe foram alterando a feição, ao longo do tempo. O aparecimento do disco permitiu a crescente difusão da música popular e, ao mesmo passo, proporcionou-lhe o germe dos males que, adiante, iriam infetá-la profundamente. O desenvolvimento do mercado do disco foi lento, a princípio; o triunfo esmagador da música popular, aqui, ficou assinalado desde que a pequena burguesia a aceitou e adotou. E houve até aspectos interessantes que raros observaram; um deles, o cruzamento entre as letras das músicas e os versos dos poetas: enquanto estes procuravam, pouco a pouco, depois rápida e gravemente, tornar-se difíceis, aristocratizar-se, isolar-se, distanciar-se, letristas excelentes apresentavam, sem pretensões, poesia da melhor qualidade, ainda que formalmente defeituosa aqui e ali.

Letras como a de Chão de estrelas, de Orestes Barbosa, ou como as dos sambas de Noel Rosa, são o que em poesia se fez de melhor, no tempo. Conforme observou um comentarista – dos raríssimos que atentaram na aparente singularidade do fenômeno – os letristas de samba como que salvaram a poesia brasileira: “É claro que os macetes de um samba e de um poema são diferentes, mas deve-se levar em conta que, depois da invenção do gramofone, é difícil para a poesia em versos, publicada em livro, concorrer em rendimento com o estouro da comunicação visual e com a produção musical (sem falar no aspecto do consumo). Quem tiver disposição para tal que de uma olhada a fundo nas letras da música popular, dos 30 até hoje: lá estão muitos achados que botam no chinelo quase toda a versalhada de 1945 para cá”.

Na próxima postagem, aqui neste espaço, prosseguirei com esse mesmo tema, em sua terceira parte. 

         Para acessar a primeira parte deste trabalho, clique em: Werneck Sodré - A Música Brasileira - Parte I 


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21 de out. de 2012

WERNECK SODRÉ– A Música Brasileira - Parte I



    por Pedro Luso de Carvalho


O tema Cultura Nacional/Música é o capítulo do título O Desenvolvimento Cultural, do livro Síntese de História e Cultura Brasileira, de Nelson Werneck Sodré. Trata-se de uma de suas importantes obras.

Algumas linhas sobre o escritor - historiador, crítico - Nelson Werneck Sodré, linhas essas que procurarei ampliar nas próximas postagens que farei para completar as quatro partes deste trabalho.

Nelson Werneck Sodré nasceu no Rio de Janeiro, a 27 de abril de 1911. Foi escritor e militar. Na carreira militar, atingiu o generalato. Morreu em Itu, SP, a 13 de janeiro de 1999.

Possuidor de sólida cultura e de reconhecida inteligência, Nelson Werneck Sodré dedicou-se ao estudo da História, da Sociologia e da Política. Escreveu nesses três campos variadas obras, dentre as quais se destacam: História da literatura brasileira (1938), Panorama do Segundo Império (1939), Formação da Sociedade Brasileira (1944), Formação Histórica do Brasil (1967), Síntese de História e Cultura Brasileira (1970).

Segue a primeira parte de Cultura Nacional-Música, de Nelson Werneck Sodré (In Síntese de História e Cultura Brasileira / de Nelson Werneck Sodré. 9ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981, p. 100-1001):



CULTURA NACIONAL - MÚSICA (1ª parte)
(Nelson Werneck Sodré)



Se rádio e televisão não passam de técnicas, de instrumentos, está fora de dúvida que alteram aquilo a que servem de veículo. E nenhuma arte tem sido mais fundamente atingida e afetada pelo rádio e pela televisão do que a música. Sua história pode ser marcada, realmente, nas diferentes etapas, segundo o aparecimento das técnicas que ajudaram sua difusão. Por exemplo: antes do disco e depois do disco; antes do rádio e depois do rádio. Particularmente quanto à música popular. A outra, a erudita, de experiência em experiência, no mundo ocidental cristão, entrou num beco sem saída.

Entre nós, Vila Lobos continua a ser sua grande expressão, com dimensão mundial, tendo recolhido motivos populares em suas composições. Foi a música popular que avançou consideravelmente, no Brasil, acompanhando a rápida urbanização de nossas populações. A urbanização, pois, foi seu primeiro fator de desenvolvimento; o segundo esteve, sem dúvida, na existência e prestígio crescente de uma festa popular e urbana particularmente na música e na dança, que foi o carnaval. A urbanização permitiu, por outro lado, o aparecimento do teatro musicado, que veiculou também a música popular, antes do disco.

E no mais foram as festas; o conhecimento das novas composições tornou-se possível assim: com festas de salão, de residências, de clubes; com o teatro musicado; e, principalmente, com a festa anual carnavalesca, com os blocos, os ranchos, as escolas-de-samba, e o coro da multidão. Esses veículos é que permitiram à música popular brasileira tomar forma urbana. Alguns momentos marcaram essa longa etapa, iniciada ainda nos fins do século XIX: o aparecimento, por exemplo, em 1897, da marcha carnavalesca, ainda semierudita, de Chiquinha Gonzaga: Ó abre alas.




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18 de out. de 2012

FIDEL CASTRO – Ex-nazistas & O Exército Cubano



Albert Steinberger - Da BBC Brasil em Londres - Atualizado em  16 de outubro, 2012.


Documentos do serviço de inteligência alemão (da sigla alemã, BND) afirmam que Fidel Castro contratou ex-nazistas para treinar o exército cubano durante o episódio que ficou conhecido como a Crise dos Mísseis, entre os Estados Unidos e a União Soviética, em outubro de 1962.


De acordo com o relatório, baseado em documentos confidenciais recém-divulgados, o presidente cubano teria contratado quatro ex-oficiais da Waffen SS, uma divisão do Exército nazista, que iriam embarcar rumo a Cuba no dia 25 de outubro de 1962 para treinar tropas na ilha.


Posteriormente, foi relatado que somente dois dos quatro oficiais teriam chegado ao país.


"Como pagamento foram oferecidos o equivalente a mil marcos alemães por mês, em moeda cubana, e mais mil marcos alemães por mês, na cotação desejada, em uma conta de um banco na Europa", detalha o documento que não traz, no entanto, provas a respeito da suposta ligação de Fidel Castro com ex-nazistas.


Bodo Hechelhammer, coordenador de pesquisa do BND, afirma no relatório que Fidel tentava buscar formas alternativas de proteger Cuba, que não fossem ligadas aos soviéticos.


"Obviamente, o exército revolucionário cubano mostrou não ter medo de estabelecer contato com pessoas de passado nazista, quando isto era útil para a própria causa", argumenta Hechelhammer com base nas informações dos documentos.


A Crise dos Mísseis de Cuba, no auge da Guerra Fria, fez 50 anos no último domingo. Na ocasião, Estados Unidos e a União Soviética estiveram à beira de um conflito nuclear.


A guerra iminente só foi afastada quando os soviéticos concordaram em retirar os mísseis da ilha e os americanos fizeram o mesmo com armamentos similares na Europa.


O impasse, que durou 13 dias, resultou em um bloqueio a Cuba imposto por Washington e um abalo nas relações entre Cuba e União Soviética.


Compra de armas com extrema direita


Fidel Castro, na ocasião, ficado insatisfeito com a forma com que os comunistas russos enfrentaram a crise.


O documento alemão alega ainda que o líder cubano se aproximou de dois traficantes de armas ligados a extrema direita alemã para comprar pistolas de fabricação belga.


De acordo com os arquivos do BND, o político alemão, Ernst-Wilhelm Springer, e o ex-oficial da Wehrmacht (as forças armadas da Alemanha no período nazista), Otto Ernst Remer, vendiam armas internacionalmente e, mesmo pertencendo a um grupo de extrema direita, teriam sido contactados pelo comunista cubano, que buscava formas alternativas de armar o seu Exército.



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