4 de out de 2016

MARGUERITE YOURCENAR – O Romance Histórico




PEDRO LUSO DE CARVALHO

Filha de pai aristocrata e culto, Marguerite Yourcenar pode receber uma educação especial, tendo sido orientada para o estudo de línguas clássicas e das civilizações mediterrâneas. Sentia-se atraída pelo latim, grego e pelo que havia ao seu alcance da produção artística e literária do mundo clássico. Esse fascínio mais tarde passaria para as suas obras de ficção, para as quais aplicava uma técnica que lhe era própria. Os romances de Yourcenar foram produzidos justamente tendo por base essa cultura clássica que acumulara quase sempre voltada à História, que era sua seara, da qual resultou Memória de Adriano, em 1951, no qual imaginara esse imperador, no início do segundo século da era cristã, entre outros.
A obra de Marguerite Yourcenar é extensa, ao todo 25 livros, mais da metade traduzida para o português, a partir de 1980. Os temas de seus livros passam pela história, pela arte, pela religião e pelo erotismo. As duas dimensões praticamente inseparáveis dos temas místicos que aborda, e que procura fazer sobressair-se na sua obra, são o profano e o sagrado. A título de exemplo, mencionamos a A obra em negro, Contos orientais, Fogos, Alexis, O tempo, esse grande escultor, Recordações de família e Arquivos do norte.
Em todos os seus livros pode-se sentir que a escritora maneja a língua com equilíbrio e sobriedade, o que lhe valeu o “estigma de clássica”, como declarou em 1984, diz Ecila de Azeredo, professora de Literatura Francesa da UFRJ; e mais:
Embora hoje seja insólito o ‘escrever bem’, Yourcenar cultuou com afinco a elegância da língua em sua prosa marmórea, articulada com clareza e sem suturas, apesar de concentradamente burilada, como requer o efeito final do texto “clássico” e é isso justamente que causa uma certa sensação de estranheza em mais de um leitor.
O romance Alexis ou O tratado do vão combate foi a primeira obra de ficção de Marguerite Yourcenar, editado em 1929, em Paris, pela editora Au Sans Pareil. Em entrevista que a escritora concedeu a Patrick de Rosbo, disse-lhe em resposta a uma pergunta sobre esse livro:
Tive a sorte de escrever de uma só vez Alexis, em 1928, publicá-lo no ano seguinte sem modificações, representando quase exatamente o que eu queria e podia dizer durante aqueles anos.
Rosbo pergunta- lhe quais as obras que foram reescritas e quais as que não foram; a escritora respondeu-lhe:
Falei de Alexis escrito de um só jato. Golpe de misericórdia também foi escrito em algumas semanas, durante o outono de 1938. Era a época das famosas entrevistas de Munique: a guerra estava novamente bem próxima, e tenho certeza que as angústias do momento têm alguma coisa a ver com a tensão interior da narrativa, voltada como é para um episódio de guerra situada cerca de vinte anos mais cedo. Eu estava em Sorrento: morava no Hotel Tramontano no quarto em que Ibsen escreveu Espectros. E acrescenta: Ibsen foi um dos grandes escritores com quem mais aprendi.
Respondendo ainda essa pergunta de Rosbo, prossegue Yourcenar:
Mas voltemos a pergunta da reescritura. Denário do sonho, diferente nisso de Golpe de misericórdia, foi várias vezes reescrito. Em sua primeira forma, data de 1933, o próprio ano em que se situava a aventura. Essa primeira versão, aliás muito desajeitada, teve em 1934 a honra de exasperar alguns críticos, simplesmente por causa da audácia que consiste em apresentar fatos mais ou menos como são. Um crítico de extrema direita declarou num grande jornal da época que ele não duvidava que aquele livrinho fosse em breve “despejado” junto com “os últimos restos da ideia de liberdade”. Foi mesmo um pouco essa espécie de raiva desse primeiro esboço errado que mais tarde me levou a reescrever o livro.
Mais adiante Patrick de Rosbo passa a questionar Yourcenar sobre os seus romances que são ambientados na História, que parecia ser o que mais lhe agradava. Responde à pergunta de Rosbo relacionada com a ideia que a escritora tem da continuidade da História:
Denário do sonho situação em 1933, na Itália mussoliana, período que para nós já é histórico, mas era um romance contemporâneo na época em que eu o estava escrevendo. Golpe de misericórdia, que evoca um episódio das guerras bálticas de 1920, foi escrito em 1939: já era, se quiser, um “romance histórico”, e situa-se quase na pré-história para muitos jovens escritores de hoje.
Rosbo faz esta pergunta à escritora: “Na medida em que se trata de um passado longínquo, o de Memórias de Adriano ou de A obra em negro, por exemplo, será que não nos encontramos então diante de personalidades ou de visões do mundo muito diferente das nossas?” Segue a resposta de Yourcenar:
Sem dúvida, e é isso que constitui para a maior parte das pessoas a fronteira, na verdade muito flutuante, entre a História e a “vida atual”. Mas é também o que torna apaixonante a História. Nesse sentido, pode-se dizer que a História é uma escola de liberdade. É o que não foi suficientemente visto por escritores como Gide e Valéry, que não gostavam da História. Talvez se deva dizer para desculpá-los que eles pensavam na História de uma maneira, de certo modo, escolar, e se revoltavam contra essa apresentação tradicional dos acontecimentos que eram forçados a aceitar.
Ainda sobre o romance histórico, Rosbo fala a escritora sobre “a armadilha do pitoresco, do mesmo modo como o passado, ou a distância, podem nos esconder a verdade muitas vezes decepcionante de seus cenários, de seu quadro. É assim em Zênon, em A obra em negro (livro de ficção histórica)”. Diz-lhe, então, Yourcenar:
“Já fizemos alusão a esse engano ingênuo ao falar dos que acreditam que o passado é um asilo. Também não é um Eldorado”. Para a escritora, raramente acontece que grandes pintores e grandes poetas do passado conseguiram contrariar a História, “um meio atemporal, limpo de tudo o que a vida tem de mesquinho e de imperfeito, propício à emoção pura e ao canto puro. Isso não é verdadeiro quanto a Shakespeare, que nunca perde de vista a ‘atualidade’ da História e a terrível complexidade da vida, presente ou passada. Mas é verdadeiro quanto a Racine em Bérénice; é verdadeiro quanto a Poussin, em Les funérailles de Phocion. E sabemos que essa história assim é falsa”. A escritora faz essa afirmação sobre essas obras de Racine e de Poussin.
Depois Rosbo pergunta à sua entrevistada o que distingue, para ela, o romancista histórico do historiador, então Yourcenar responde dizendo que as posições de um e outro parecem quase idênticas, à primeira vista, mas que há grande diferença entre eles, no que se relacionado ao método, dando realce que “as regras do jogo do historiador são inteiramente outros que os do romancista, mesmo do mais engajado na história”. Em seguida, procura mostrar-lhe o que os diferencia:
O historiador tem diante de si todo um arsenal de fatos e de hipóteses que ele tem de nos apresentar com exatidão, com lucidez, e para os quais pode até, às vezes, nos deixar escolher a explicação mais aceitável. Tem de procurar saber tudo sobre o personagem de que fala, resistir a seus preconceitos pessoais, tentar honestamente ‘compreender’.
Explica, que o historiador não é obrigado a entrar dentro do homem em questão, para recriá-lo; e, vai mais longe ao dizer que ele, historiador, está proibido a fazer essa recriação, por não poder afastar-se dos fatos e de hipóteses. “Além do mais – diz a escritora – o historiador tem perfeitamente direito de dar, por exemplo, a imagem da batalha de Waterloo colocando-se nas perspectivas de 1971 – época em que concedeu essa entrevista -, às vezes é seu dever e seu mérito fazê-lo”.
Yourcenar diz que outra é a situação do romancista:
O romancista, ao contrário, como por exemplo fez Stendhal, nos faz mergulhar num 18 de junho de 1815 – aqui ela refere-se a batalha de Waterloo – em que não se sabia ainda quais seriam os resultados da batalha, nem mesmo se aquela série de combates informes iria algum dia se chamar de História a batalha de Waterloo. Por isso faço tanta questão de tentar recolocar os personagens na cronologia que foi a deles – como Adriano na Palestina pelo ano 884 da era romana e não no ano 136 da era cristã, que ele ainda não sabia que havia sido começado, para devolvê-lo a seu tempo próprio em vez de impor-lhe nosso tempo.
Prossegue a escritora:
No que se refere a Memórias de Adriano, o estilo se aproxima do da História, pelo fato de que Adriano, ao considerar sua vida à distância de seu leito de morte, é de certo modo seu próprio historiador, seu próprio Plutarco. O próprio tom se modela sobre o dos historiadores, dos ensaístas latinos da época. Na verdade, estamos, entretanto, no mundo da reconstrução poética ou da psicologia de romance, no sentido de que é sua própria história que Adriano evoca sua própria obra que ele comenta, e que, por muito lúcido que se considere, ele está preso como todos nós nos jogos de espelho que logo surgem, por tratar de si mesmo.
Prossegue Yourcenar:
A obra em negro, também recheada de História, o tom é ao contrário inteiramente o da crônica romanesca. Em primeiro lugar, porque intervém a conversa, e o entrecruzamento das vozes toma o lugar do solo de Adriano (eu não me atreveria - diz a escritora – a ‘imaginar’ uma conversa do século II: não sabemos suficientemente como aquelas pessoas falavam umas com as outras), depois porque Zênon vai vivendo cada dia sem nunca poder retrospectivamente se prever ou se construir. Um único capítulo, O abismo lhe dá oportunidade para isso, que ele não aproveita. E de novo, aqui, a psicologia do personagem: Adriano ‘sabe que é’ uma figura histórica, e essa tranquila certeza determina seu olhar sobre toda a sua vida; não há Zênon algum para Zênon.
Para ficarmos apenas com um pouco do que preleciona Yourcenar sobre o romance histórico e a diferença entre o romancista histórico do historiador, vejamos o que responde a esta pergunta; Patrick de Rosbo quer saber se há “uma exigência para o romancista histórico interiorizar seus personagens”. E mais: se “essa tarefa não é em algum caso a do historiador, a romancista histórico volta às fontes do que foi a vida, ao que a senhora chama de ‘essa fluidez (...)”, ao que a escritora responde: “É verdade. Eles foram - os romancistas históricos - os primeiros historiadores poetas do mundo moderno que podemos surpreender trabalhando, esforçando-se para fazer o público sentir o que um erudito inglês de hoje chama o choque do passado subitamente revelado”.
Marguerite Yourcenar, pseudônimo usado Marguerite Cleenewerck de Crayencour, nasceu em 8 de junho de 1903, em Bruxelas e cresceu na França. (Yourcenar foi a primeira mulher eleita para a Academia Francesa. Conforme disse, aceitou essa vaga apenas ‘por educação’.) Depois residiu na Itália, Suíça, Grécia e, por fim, nos Estados Unidos, em Mount Desert Island, no Maine, por cerca de 50 anos, onde se isolou com sua amiga Grace Frick , e onde faleceu, em 17 de dezembro de 1987.


REFERÊNCIAS:
AZEREDO, Ecila de. O ser e o tempo: M. Yourcenar. Rio de Janeiro: Jornal Leia. 1988.
ROSBO, Patrick. Entrevistas com Marguerite Yourcenar. Tradução de Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987.



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