23 de set de 2016

Hollywood filma obra de Jane Austen



PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1996, o romance da britânica Jane Austen, Pride and prejudice (Orgulho e preconceito) foi adaptado para a televisão pela BBC, cujo resultado foi a audiência de 18 milhões de telespectadores, que esperavam ansiosos pelos seus capítulos. Com esse sucesso, a série foi vendida para 18 países. Em 1995, o romance foi adaptado para o cinema, com o título de Sense and sensibility (Razão e sensibilidade), numa co-produção EUA/ING. A direção do filme coube a Ang Lee, que teve como intérpretes: Emma Thompson, Kate Winlet Hugh Grant, Alan Rick, Gemma Jones, Greg Wise. Embora tenha recebido o Globo de Ouro, não recebeu o Oscar, em 1996. Sobrou-lhe o Oscar de melhor roteiro, que foi escrito por Emma Thompson.
A partir daí, a Internet uniu os admiradores de Jane Austen de todo o mundo, em contraste com a vida que a escritora levou, solteira, no sul da Inglaterra, sem ter saído de seu país, e com apenas quatro de seus romances publicados. Suas obras passaram a vender tanto que rivalizaram, após a produção da BBC e do filme de Lee, com best-sellers, como os de Catherine Cookson e John Le Carré, vendendo, no Reino Unido, 35 mil exemplares por semana, no final de 1995. Nessa época, a revista ‘Vanity Fair’ chamou Jane Austen de a última mina do cinema (Reader’s Digest, Seleções, jan. 1997).
Por que a história contada por Austen, em Pride and prejudice (Orgulho e preconceito), obteve tal sucesso? Por ser uma história surpreendente, singular? Ou por se tratar de uma história comum, que é por todos entendida e sentida? Acho que o sucesso se deve a esta última hipótese. Jane Austen conta, em seus livros, histórias que se restringem à vida simples das pessoas e suas famílias. A escritora disse, certo dia: “Três ou quatro famílias vivendo numa aldeia é tudo que preciso como base de trabalho”.
Para Nigel Nicolson, autor de The world of Jane Austen (O mundo de Jane Austen), a explicação para tão duradouro fascínio é simples:
Seus romances são histórias de amor que acabam sempre em casamento. Revelam um maravilhoso conhecimento das pequenas manobras que os jovens faziam, e ainda fazem, aproximando-se e distanciando-se. São também muito engraçados”.
Diz, Andro Linklater, rev. Citada:
Esse conhecimento baseava-se, em parte, na própria experiência de Jane Austin e em sua observação da numerosa e exuberante família em cujo seio foi criada. Nascida em 1775, era a sétima de oito filhos, e até os 25 anos teve como lar a altaneira residência de seu pai, em Stevenson, uma aldeia nas ondulantes colinas de Hampshire. O pastor George Austen, pai de Jane, não era homem de posses, e a falta de meios de transporte adequados limitava o número de visitas a casas de vizinhos e aos bailes em Basingstoke, a cidade mais próxima. Em compensação, a família recebia freqüentemente amigos e conhecidos”.
Linklater diz, ainda, que um dos passatempos preferidos de Jane Austen era a dança, como mais tarde afirmaria em Orgulho e Preconceito:
Gostar de dançar era uma medida infalível para uma pessoa se apaixonar”. E acrescenta que o seu comportamento levou uma das vizinhas dos Austen a considerá-la “a mais bonita, a mais burra e a mais presunçosa das moças casadoras”.
Para P. D. James (rev. cit.), fiel admiradora da obra de Jane Austen, esse aspecto de sua personalidade representa o próprio âmago de seu estilo:
Todos os livros têm como base a mesma trama – uma mulher que procura e depois encontra o parceiro ideal” esclarece a escritora. Diz, P.D. James: “São romances quase cor-de-rosa, só que escritos por um gênio”.
O certo, no entanto, é que muitos ficaram descontentes com a popularidade de Austen. Susan McCartan, secretária honorária da Sociedade Britânica Jane Austen, é uma delas. “As recentes adaptações ao cinema realçam o aspecto romanesco, descurando o lado satírico”, afirma Susan McCartan, que admite, no entanto, que o número de sócios aumentou em várias centenas, chegando a 2000, número esse baixo, se comparado com o da Sociedade Norte-Americana Jane Austen, que, em 1997, tinha mais de 5000 fãs, e continuava crescendo.
Sofrendo do Mal de addison, uma doença que ataca os rins, Jane Austen faleceu em winchester, no dia 18 de julho de 1817, com apenas 41 anos. Linklater diz que o fluxo de visitantes, de todas as partes do mundo, junto a seu túmulo, na Catedral de Winchester, confirma a crença de Jane Austen na força do amor que, despertando um sorriso, consegue vencer a triste realidade da vida. Entre esses visitantes, encontrava-se entre eles, em 1997, Emma Thompson, que foi lá “para prestar-lhe homenagem... e para lhes falar dos lucros”, como explicou, gracejando, nas cerimônia dos Oscars, em Los Angeles.



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