19 de out de 2015

[Conto] NELSON RODRIGUES – O Maluco


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
 NELSON RODRIGUES (Nelson Falcão Rodrigues) nasceu a 23 de agosto de 1912, em Recife, e morreu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Foi o mais importante dramaturgo brasileiro do século XX. Nas suas obras ataca o mundo pequeno-burguês nas teias de ilusão e hipocrisia em que vive. O próprio Nelson Rodrigues provinha de um ambiente da pequena burguesia, que lhe proporcionou, desde pequeno, um forte senso crítico. Durante a Ditadura Militar teve peças censuradas. O conflito entre o desejo e a repressão foi a base com a qual desenvolveu sua dramaturgia, que teve o seu início aos 17 anos, quando seu irmão Roberto foi assassinado.
Suas principais peças são: Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
Escolhemos para esta postagem o conto O Maluco, de Nelson Rodrigues, um dos contos que compõem o livro  A vida como ela é...  (in A vida como ela é... / Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro, Agir, 2006, p. 156), que segue, na íntegra:

O MALUCO
– NELSON RODRIGUES

O fato é que o médico dramatizou tanto que Odésio saiu, de lá, impressionado. Não tinha dinheiro; foi ao patrão, que era um santo homem, mostrar a receita. O patrão não teve dúvidas:
– Passa no Caixa e faz um vale. E, querendo, fica em casa uns dias. Com a saúde não se brinca.
Levou Odésio até a porta do gabinete, repetiu:
– Em primeiro lugar, a saúde.
Do escritório,Odésio rumou, amargurado, para a drogaria. Enquanto era servido, pôs-se a pensar: “Todo mundo tem sífilis e ninguém se trata. Estão me fazendo de palhaço.” Pagou a conta, apanhou o embrulho e saiu. Mas ia resmungando, interiormentre; “Esse negócio de injeção é muito chato.” Sem querer, começou a reexaminar a hipótese de de loucura, com que o doutor ameaçara. Achou, na situação, uma graça triste: “Imagine eu, maluco, rasgando dinheiro.” Então, não tendo para onde ir, pensou numa visita  à casa de Abelardo. Àquela hora, a mulher do amigo estaria na cozinha. Odésio coçou a cabeça, temeroso de uma inconveniência. Mas como se sentia, para todos os efeitos, doente, e grave,  decidiu-se: “Vou lá, sim.”Tomou um lotação e, no caminho, já achava um ótimo negócio aquela doença que permitiria aquela visita à Laurinha, na ausência do marido. Lembrou-se da última vez que a vira. Suspirou no lotação: “A besta do Abelardo não sabe a mulher que tem!”.    

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