4 de out de 2015

[Conto] DALTON TREVISAN – Meu avô


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

DALTON TREVISAN iniciou-se no conto, esse difícil gênero da literatura, nos anos 60. Já de início deu mostra de que não estava para brincadeiras, e logo foi reconhecido como “o contista”. A partir dessa época outros brasileiros passariam a ganhar nome na narrativa curta: Rubem Fonseca, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles.
O sucesso do conto, a partir dos anos 60, deveu-se tanto pela qualidade dos contistas como pela formatação do conto, cuja narrativa dava-se num número de 20 a 25 páginas.
Segue a transcrição de Meu avô, conto de Dalton Trevisan (in Trevisan, Dalton. Novelas nada exemplares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 139-140):

MEU AVÔ
– DALTON TREVISAN

VOVÓ MORREU sentada ao lado do fogão, cerzindo meias no ovo de madeira. O velho dava-lhe as costas, um de mau com o outro. O ovo de madeira lhe rolou aos pés... Voltou-se para ela, bem quieta na cadeirinha de palha. Cerzira a meia e, ao levar o fio à boca para cortá-lo (tinha todos os dentes aos sessenta anos), morreu.
O velho trancou-se no quarto, a berrar que havia gente interessada na sua morte. Batia na parece com o martelo e, uma noite, a cada pancada seguiu-se um grito. Os filhos arrombaram a porta e tomaram-lhe o martelo das mãos: começara a enterrar um prego na cabeça.
Vovô comia com a colher. Meu pai cortava-lhe a carne no prato e, ao deitar-se, escondia dele facas e garfos. O velho levava para o quarto a sua garrafa de vinho, que os filhos enchiam toda noite, misturando-o com água.
Tinha muito de medo de açúcar na arina. Antes de enfiar-se na cama, de cachimbo e ceroulas, media com cuidado os pulsos e tornozelos, aparava dois pedaços de barbante exatamente naquelas dimensões para verificar, na manhã seguinte, se o corpo havia inchado. Dormia bêbado, esquecido da porta aberta... e os netos entrávamos no quarto, reduzíamos o tamanho dos barbantes e espargíamos açúcar pelo urinol, que amanhecia rodeado de formiguinhas ruivas.
Com saudade da falecida, jurou privar-se de manteiga o resto da vida. E manteiga era do que mais gostava, depois de beber. Vovó não se deu por satisfeita; ele escutava os ruídos da defunta. Que vinha deitar-se, arrastando o vaso debaixo da cama. A garrafa corria no soalho, gorgolejava um resto de vinho azedo. Os brados do meu avô ecoavam pela casa:
– Vá-se embora daqui... Você já morreu, mulher diaba!
Ouvia então as moscas ao redor da cama – era a falecida.
Bem que ele se queixara: “Essa bicha está com cheiro!” E havia queimando folhas de alecrim no quarto.
O velho achou a navalha de meu pai (iria dar pela falta apenas no sábado, quando fizesse a barba) e, antes que a defunta se deitasse na cama, cortou o pescoço de uma orelha a outra. Atirou a navalha pela janela e, sustentando com as mãos a cabeça, seguiu pelo corredor até a cozinha, deitou-se aos pés da cadeirinha de palha – o sangue verteu do assoalho feito água de chuva debaixo da porta.
Mamãe encontrou-o, de manhã, quando foi acender o fogo. Meu pai suspendeu o velho, encostou-o na parede: “Pai, pai, sou eu. Pai, me responda. É o Paulo”. Tinha de firmar a cabeça no pescoço a fim de que ela não rolasse.
De volta do enterro, meu pai sentou-se na cadeirinha de palha, a cabeça nas mãos. Foi ao quarto do vovô, achou sob a cama a garrafa já pela metade. Bebeu o vinho azedo, esfregou os dedos no sangue e chamou pelo velho. Conversava com ele no quarto, bem como pai e filho. Mamãe batia na porta:
– Venha jantar, Paulo. São nove horas.
À noite, ele pregou as portas e janelas. E foi dormir bêbado, a mão suja de sangue.


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